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28/02/2011

Os dois pombos



Amavam-se dois pombos ternamente
Com suave meiguice e amor profundo.
Um deles – que loucura! – de repente
À casa toma tédio, quer ver mundo.

«Que vais fazer? – diz-lhe então
Já saudoso o companheiro.
Medita, pensa primeiro,
Assim deixas teu irmão?
Ninguém duvida que a ausência
É dos males o maior;
Não para ti!... Só se for
Que os trabalhos, a inclemência,
E dessa jornada o p’rigo,
Que pretendes arrostar,
Possam teu peito mudar
Em peito bondoso, amigo.
Se mais perto a Primavera
Sorrisse alegre, então... vá!
Quem te obriga a partir já?
Espera o zéfiro, espera.
Há pouco um sinistro corvo
Crocitou, e à nossa raça
Agoirou muita desgraça
Em tom profético e torvo.
Só nas coisas infelizes
Doravante pensarei;
Em redes, falcões, que sei?...
Tiros, flechas e boízes.
Ah! – direi quando chover:
Meu pobre irmão, coitadinho,
Terá ceia, terá ninho,
E tudo o que lhe é mister?»

Esta linguagem branda e cheia de bondade
Enternecê-lo faz;
Teve porém mais força a indómita vontade
Do viajante audaz.

«Não chores; três dias bastam-me
– Já vês que é curta a demora –
Para matar este férvido
Desejo que me devora.
Quando voltar, com que júbilo
Referirei por miúdo
Aventuras, episódios,
Incidentes, tudo, tudo!
Quem pouco vê, é certíssimo,
Que pouco pode contar.
Eu te direi que em tal época
Achava-me em tal lugar,
E tu, enlevado, extático,
De me ouvir falar assim,
Hás-de julgar – asseguro-te –
Que estavas ao pé de mim.»

Assim falou, e em pranto de soluços
Despediram-se os dois. O viajante
A jornada começa. Não distante
Da casa, que fugira, carregada
Ergue-se no ocidente escura nuvem
Que em chuva se desata, e o peregrino
Corta os ares em louco desatino,
Um albergue buscando, uma pousada.
Negro tronco, de folhas quase nu,
Se lhe depara então. Voa ligeiro,
E mal pôde encontrar de triste ulmeiro
Entre a folhagem rara asilo pobre.
Depois, quando outra vez se anila o céu,
Frio, molhado sai do humilde abrigo,
Enxuga as penas, parte, e muito trigo
Espalhado no campo além descobre.

Outro pombo vê perto, e sem detença
Dirige-se p’ra lá.
E quando cuida mais, quando mais pensa
Gozar com seu igual ventura imensa,
Num laço preso está,
Que por mão ardilosa, enganadora,
Por debaixo do trigo armado fora.

O laço era já velho. O prisioneiro
Esforça-se, porfia, teima, luta;
De tal forma trabalha
Co’as asas, bico e pés, que enfim consegue
Quebrá-lo, ver-se livre, muitas penas
Deixando na batalha.

Mas a fortuna má, que o segue, e nutre
Contra o pombo infeliz ódio entranhado,
Já lhe mostra nos ares um abutre,
Que voraz, esfaimado,
Mal o avista, a vontade sente acesa
De lhe deitar a garra e fazer presa.
E o mísero, que traz restos de guita
A cortar-lhe inda os pés,
Um galeote, um criminoso imita
Fugido das galés.

Eis que porém naquele mesmo instante,
Batendo as asas longas,
Das nuvens arremessa-se gigante
Uma águia, e sem delongas
Trava-se entre os ladrões rude peleja
Por lograr cada qual o que deseja.

O pombo, como terceiro,
Aproveita do combate;
Ergue o voo, e só o abate
Quando encontra um pardieiro,
De seu bárbaro destino
Julgando o pobre animal
Que a peripécia final
Era este caso mofino.
Mas um rapaz turbulento
– Não tem compaixão a infância –
Uma pedra com tal ânsia
Lhe envia, que sem alento
Quase o deixa. Maldizendo
A sua curiosidade,
Vai para casa gemendo,
Meio coxo, meio morto,
E sem outra novidade
Chega do ninho ao conforto.


Tradução de José António de Freitas

Mais um



Era uma vez uma galinha pedrês que só sabia contar até três.
Logo aconteceu nascerem-lhe quatro pintainhos.
Ela contava-os assim:
- Um... dois...três... e mais um.
- Três mais um, quatro - dizia-lhe o pato.
Mas ela não havia meio de aprender. Sempre vigilante à beira dos filhos, a pedrês ralhava:
- Não impliques com teus irmãos, Mais Um! Não queiras a comida toda para ti, Mais Um!
Ficou a chamar-se Mais Um. Frango e depois galo, como era bruto e pespontão, ganhou o nome de Mais Um, ?O Terrível".
As galinhas que o dissessem, coitadas, de crista sempre a sangrar das bicadas do tiranete. Todo o povo da capoeira o detestava. E com razão.
Mais Um, ?O Terrível", cantava de alto. Estou mesmo convencido que se não fosse ele o primeiro a alarmar os campos adormecidos com os seus gargarejos de madrugador, os restantes galos do povoado, por acanhamento, nem cantariam.
Foi o que aconteceu, ainda há pouco. Ontem, à espera da voz de comando do Mais Um, não houve galo que cantasse a alvorada. Que acontecera?
Os pombos do pombal é que espalharam a notícia:
- Morreu Mais Um às mãos da Conceição do facalhão.
- Mais Um sacrificado, em canja e em guisado...
- Lá está Mais Um no prato, duro que nem sola de sapato...
Houve um certo alívio nos galinheiros. Mas, agora me lembro que hoje os galos ainda não cantaram. Porquê? Talvez um secreto mal-estar se tenha espalhado pela criação. Imagino os galos no poleiro, cada um por si, a matutar: ?Foi-se Mais Um... Quem irá, depois?" Pensamentos destes não dão mote para cantigas.

António Torrado

O leão, Prometeu e o elefante




Frequentemente, o leão se queixava a Prometeu:
- Me fizeste grande e belo; me deste dentes afiados e garras; fizeste de mim o mais forte de todos os animais. E, apesar disso, tenho medo do galo.
Prometeu respondia:
- O que significam essas tolas reclamações? Tens tudo o que eu, com meu poder, podia te dar. Salvo o galo, nada abala a tua coragem.
Mas o leão chorava o seu destino e se acusava de fraco. Terminou desejando morrer. Estava assim perdido em seus pensamentos quando encontrou o elefante. Saudou-o e, tendo parado para falar com ele, observou o movimento que lhe agitava as orelhas sem parar.
- O que tens? –perguntou. –Tuas orelhas não podem ficar um instante paradas?
E, como um mosquito não parava de voar à sua volta, o elefante respondeu:
- Estás vendo esse ser minúsculo que zumbe? Se entrar um em minha orelha, estou morto.
O leão disse então:
- Por que morrer, se, para minha felicidade, minha força está para o elefante assim como o galo está para o mosquito! O mosquito é bastante forte para abalar o elefante.


Fábulas de Esopo

27/02/2011

Judar, o pescador, e o saco encantado



Conta-se, ó afortunado rei, que vivia certa vez um mercador chamado Omar. Tinha ele três filhos: Salim I, Salim II e Judar, o mais jovem. Havia-os criado até a maturidade; porém sem-pre preferiu Judar, o que levava seus dois irmãos invejá-lo e odiá-lo. Quando Omar, que era muito velho, notou esse ódio, receou que Judar fosse molestado por seus irmãos após a sua morte e, na presença do cádi, partilhou seus bens em quatro partes iguais: uma para cada filho e uma para a mulher. Após a morte do pai, os três irmãos arruinaram-se em processos que Salim e Salim moveram contra Judar. Depois, Salim e Salim maltrataram, burlaram e roubaram a mãe. E ela se refugiou junto a Judar, o qual, embora empobrecido, a acolheu com todo carinho. Os dois Salim caíram rapidamente na miséria, pois não conheciam pro-fissão alguma e eram preguiçosos e malvistos. Procuraram a mãe, chorando. Uma mãe é sempre compassiva.
Passou a servir-lhes as sobras da casa de Judar, dizendo-lhes, todavia: "Comei rapidamente e saí. Se vosso irmão vos surpreender aqui, poderá virar-se contra mim." Um dia, contudo, enquanto comiam, Judar chegou. Mas em vez de zangar-se, sorriu para seus irmãos, abra-çou-os e convidou-os a morar com ele. Sua mãe gritou: "Meu filho, possa Alá abençoar-te e aumentar tua prosperidade: és o mais generoso de todos nós." Judar ia cada manhã lançar sua rede ao mar, e viviam, ele, a mãe e os irmãos, do produto de sua pesca. Certa vez, jogou a rede três dias seguidos sem nada apanhar. No quarto dia, foi a uma praia mais distante no lago Karun e enquanto se preparava para lançar a rede às águas, viu um mouro deslocan-do-se em sua direção, montado numa mula. O mouro apeou, cumprimentou Judar e dis-se-lhe: "Ó Judar, filho de Omar, preciso de teus préstimos. Se me obedeceres, recolherás grandes vantagens. Serás meu amigo e o encarregado de meus negócios." O jovem prome-teu obedecer. Disse o mouro: "Recita a Fatiha para dar à tua promessa um caráter sagrado." Judar recitou a Fatiha. Disse então o mouro: "Amarra meus braços atrás das minhas costas com estas cordas, joga-me no mar e espera. Se as minhas mãos saírem da água em primeiro lugar, lança tua rede e traze-me às costas. Pois não sei nadar. Mas se forem meus pés que emergirem primeiro, considera-me morto. Leva então esta mula e este saco ao mercado e procura por Chamaia, o judeu. Pagar-te-á cem dinares pela mula. Teu único dever será guardar o segredo." Judar seguiu as instruções do mouro, e ao ver os pés emergirem primeiro, montou a mula e foi ao mercado onde localizou o judeu. O judeu pagou-lhe os cem dinares prometidos e recomendou-lhe o segredo por sua vez. Judar levou muitas provisões para casa, onde encontrou os irmãos famintos. No dia seguinte, voltou à mesma praia e foi abordado por outro mouro igual ao primeiro; e tudo se passou exactamente como no dia anterior. No terceiro dia, outro mouro apareceu, e Judar amarrou-o e jogou-o às águas da mesma forma. Mas, desta vez, foram as mãos e a cabeça do mouro que emergiram. Judar lançou sua rede e salvou o homem. Quando ele chegou á costa, Judar reparou que ele segurava um peixe vermelho em cada mão. "Por Alá," disse a Judar, "salvaste-me a vida." Retrucou Judar: "Por recompensa, conta-me a história de teus dois irmãos afogados, destes dois peixes e do judeu Chamaia."
- Como adivinhaste, os dois mouros que se afogaram eram meus irmãos, chamados Abdel-Salam e Abdel-Ahad. Meu nome é Abdel-Samad. O que tomaste por judeu é também meu irmão, um verdadeiro muçulmano. Nosso pai, Abdel-Uadud, era um mágico poderoso. Ensinou-nos a magia, a feitiçaria, a arte de descobrir e levantar os tesouros mais bem escondidos. Tornou-nos capazes de mandar nos Jins, nos Marids e nos Afarit. "Todavia, para levar-nos a competir entre nós e nos aprimorar na luta com o mundo, deixou escondido o maior de todos os tesouros, o Chamardal, que contém três objectos milagrosos: primeiro, um anel tão extraordinário que seu possuidor torna-se dono do mundo, capaz de derrotar reis e sultões; segundo, um globo que permite a seu possuidor visitar todas as regiões da terra sem sair de casa, pois, ao virar o globo, cada região visada se desliga e vem até o dono do globo; terceiro, um unguento que, passado nas pálpebras, permite ver os tesouros escondidos em qualquer montanha ou planície. “Ganhará os três objectos milagrosos de Chamardal aquele de nós que apanhar estes dois peixes vermelhos e conseguir a coopera-ção de Judar, filho de Omar, que só pode ser encontrado nas margens do lago Karun. Meus dois irmãos morreram na tentativa de apanhar estes dois peixes. Eu os consegui e te encon-trei. Queres vir comigo ao Marrocos, perto das cidades de Fez e Meknes, e ajudar-me a localizar e levar o tesouro? Dar-te-ei tudo que me pedires e serás meu irmão para sempre. E poderás voltar quando quiseres para teu país e tua casa."
- Ó meu senhor, respondeu Judar, tenho minha mãe e dois irmãos a sustentar. Quem os ali-mentará se viajar contigo?
- Toma estes mil dinares e entrega-os a tua mãe, e promete-lhe que estarás de volta dentro de quatro meses. Judar foi entregar os mil dinares à mãe e obter sua bênção. Quando vol-tou, o mouro colocou-o atrás de si nas costas da mula e voaram. No caminho, Judar sentiu fome e disse ao mouro: "Senhor, acho que esqueceste de trazer provisões para a viagem."
- Não preciso trazer provisões. Tenho este saco encantado. Dele posso tirar todos os pratos que desejar. Estás com fome?
Judar reconheceu que estava. Num instante, o mouro tirou do saco peixes, aves, carnes, frutas, doces, todos preparados com requinte e servidos em pratos de ouro.
- Come, meu amigo, disse o mouro.
- Meu senhor, com certeza colocaste no saco antes da viagem vários cozinheiros e muitos mantimentos.
- O saco é encantado, só isso! respondeu o mouro com um sorriso. É servido por um Afrit que nos traria num piscar de olhos até mil pratos árabes, mil pratos egípcios, mil pratos indianos, mil pratos chineses.
No decorrer da viagem, o mouro perguntou a Judar: "Sabes a que distância já estamos do Cairo?"
- Por Alá. não!
- Nestas duas horas, disse o mouro, já percorremos um mês de viagem. Pois esta mula é uma jiniêh e viaja um ano num dia.
Quando chegaram a Fez, foram à casa do mouro. Descarregaram a mula. O mouro pronun-ciou umas palavras mágicas, e ela sumiu no ventre da terra. Semanas depois, disse Abdel-Samad: "Chegou o dia em que vamos recuperar o tesouro de Chamardal. Para tanto devemos superar diversas provas, cada uma mais difícil que a outra.
- Sentes-te preparado?
- Sim, respondeu Judar.
Foram então ao lugar indicado no meio do deserto onde, sob o efeito de palavras mágicas, portas misteriosas se abriram, dando acesso a galerias, jardins, casas, palácios. Numa das casas, encontraram a mãe de Judar. Era a primeira prova. Judar, seguindo as instruções de Abdel-Samad, ordenou à mãe: "Despe-te."
- Meu filho, gritou a mulher, eu sou tua mãe.
- Despe-te, repetiu Judar. Senão, corto-te a cabeça.
Na realidade, não era sua mãe e sim uma mera aparição. Mas se ele tivesse fraquejado e tido pena dela, teria sido imediatamente abatido por génios malvados. Após dias passados assim em meio a aparições mágicas, provas imprevistas e outras manifestações de terror, Abdel-Samad salvou o tesouro de Chamardal. Agradeceu a Judar pela indispensável coope-ração e convidou-o a pedir o que quisesse. Judar pediu o saco encantado. O mouro entre-gou-o sem hesitar e acrescentou: "Devo-te mais que este saco. Leva também este outro saco, cheio de ouro e jóias, para que nunca mais conheças a preocupação em tua vida."Judar agradeceu e, montado na mula mágica, voltou para o Cairo e foi directamente à sua casa. E qual foi a sua pena quando viu a mãe vestida de farrapos e sentada na soleira da porta a pedir esmolas. Ela contou-lhe que seus irmãos a haviam maltratado e arrancado dela todo o dinheiro que lhe dera. Vendo a casa vazia, Judar encheu-a imediatamente de mantimentos, graças ao saco encantado. Quando Salim e Salim souberam da volta do irmão e de suas riquezas, procuraram-no mais uma vez, e ele recebeu-os mais uma vez festiva-mente. E viveram juntos, comendo o que lhes apetecesse. Mas a natureza incuravelmente malvada daqueles dois irmãos prevaleceu de novo. Observando e aproveitando a indiscrição da mãe, souberam do saco encantado e roubaram-no. Depois, tramaram com o capitão de um navio, e este enviou seus marinheiros para raptar Judar e jogá-lo no porão, acorrentado. Mas Deus teve pena dele. Um mercador de Jedá passou por acaso no porão, viu Judar, gos-tou dele e tomou-o a seu serviço numa peregrinação a Meca. Lá, outro acaso feliz o pôs no caminho de Abdel-Samad, que estava cumprindo o dever da peregrinação. Reconheceu-o e mostrou-lhe a bondade de um pai. Presenteou-o com quinhentos dinares e ofereceu-lhe o anel mágico que fazia parte do tesouro de Chamardal. Judar voltou para casa mais uma vez rico e honrado, e acolheu novamente seus irmãos e perdoou-lhes todas as ignomínias. E, aproveitando o anel mágico, mandou o Afrit edificar um palácio mais sumptuoso que o palácio real. Com o tempo, o rei, Chams Ad-Daula, ouviu falar de Judar e do esplendor de seu palácio. Um dia, foi visitá-lo. Por sua vez, Judar ouviu falar da filha do rei, uma adoles-cente mais bela que a plena lra, e pediu-a em casamento. O rei concordou. Os dois jovens foram unidos pelos laços do matrimônio e por uma ardente paixão recíproca, que aumentou ainda mais a amizade entre Judar e Chams Ad-Daula. Judar foi nomeado vizir. E quando o rei morreu, foi ele mesmo proclamado rei, sendo sempre tolerante e generoso para com seus irmãos. Mas estes nunca conseguiram superar sua inveja e sua perversidade. Um deles, aproveitando a oportunidade de um banquete real do qual participava, colocou veneno no prato do rei seu irmão e o matou. O povo chorou o rei bondoso Judar, e os sábios disseram que ele foi vítima tanto de seus irmãos malvados quanto de sua própria generosidade, excessiva e indiscriminada. Pois o provérbio diz: "Faça o bem, mas saiba a quem." Num sen-tido aproximado, Kisra, o grande rei da Pérsia, escrevera ao filho: "Meu filho, cuidado com a compaixão: ela enfraquece o governo; e cuidado com a falta de compaixão: ela provoca a rebelião."


(tradução brasileira)

26/02/2011

Toth e a Invenção da Escrita



Toth é, reconhecidamente, o mais sábio e hábil dentre os deuses, sendo o pai de todas as artes em que o homem se exercita com o raciocínio. Deu-se que, um dia, ao formular as regras do jogo de Senet, esse poderoso deus perguntou-se como poderia preservar o conhecimento em algo mais durável do que a memória.
Por muito tempo essa questão incomodou o deus-íbis, que se ocupava de outras coisas menores enquanto sua inimaginável mente procurava uma resolução para aquele enigma. Depois de um tempo, porém, ocorreu a Toth que poderia usar um caniço afiado e tinta para, em uma folha de papiro, planta que crescia, abundante, no delta, desenhar signos que representassem coisas – como pão, macaco ou barca – e conceitos – como amor, ódio, fidelidade. Durante vários dias, hora na forma de homem com cabeça de íbis, hora na forma de babuíno Toth se ocupa de traçar todos os signos que sua mente imagina. Feita sua obra foi mostrá-la ao rei dos deuses, Rá, e obter sua aprovação para que os homens dela pudesse desfrutar.
No palácio do soberano dos deuses Toth diz:
- Creio ser essa minha mais útil invenção, que permite registrar tudo que se queira em algo mais durável que a memória, especialmente a dos homens, que depressa se embota e se perde. Assim, a grande glória dos deuses estará imperecível, mesmo daqui a milhares de anos.
- O que tua sapiente invenção fará, Thot, é destruir a memória, esse dom que somente os seres humanos tem dentre todos os animais. Afinal, se tudo está registrado, qual será a necessidade de recordar?
- Toda a necessidade, pois os homens poderão confiar na memória, ainda. Recorrerão aos registros daquilo que é muito importante, e será a partir deles que construirão algo novo. Não irão perder mais tempo aprendendo ou ouvindo aquilo que seus pais já sabiam, sem poder se beneficiar da experiência deles. Será, apenas, interpor um veículo certo entre a memória e o ser humano. Eles serão muito ajudados por isso, é o que vejo.
Toth parou, como que refletindo, e disse:
- Imagine qual será a angústia do homem sábio, sem poder ter certeza que suas palavras serão ouvidas pelos seus filhos exatamente como ele desejou que o fossem, posto que precisa confiar na memória dos que irão contar a sua história aos mais novos. Eis ai uma das grandes utilidades da escrita, o pensamento puro e incólume para a mente de seu estudioso. Além disso, imagine como será útil registrar as contas no papel, tendo certeza de que estão corretas, ou o calendário, mostrando que tal ato glorioso de Rá remete a um passado em tantos anos, não em outros quantos. E a cheia do rio Nilo, que vivifica o Egito poderá ser calculada e colocada a serviço dos homens e deuses...
- Fazei então, Toth, como julgas correto, pois que tua invenção sapientíssima, assim como todas as outras anteriores – o calendário, a álgebra, a escrita – estarão a disposição dos homens e deuses.


Contos e Lendas da Mitologia Egípcia

Radharani



Radha foi amiga de infância e cônjuge de alma de Krishna e os dois foram inseparáveis como namorados e mais tarde, como amantes.Esse foi um amor escondido da sociedade, e deu a Radha o status de uma mulher casada. Eles tiveram seus momentos de amor, paixão e ódio - como qualquer casal de amantes. Krishna teve que deixar Vrindavan com Radha, para assegurar que os ideais de verdade e justiça fossem estabelecidos, mas no processo tiveram que deixar o ideal do amor pessoal.
Ele tornou-se um rei, destruiu inúmeros inimigos e casou mesmo várias vezes. E ainda assim Radha permaneceu esperando por ele até ele voltar para ela. Seu amor por Krishna é considerado tão divino e puro que Radha por si só obteve o status de divindade, com seu nome sendo inseparavelmente ligado ao de Krishna.
A maior parte das imagens de Krishna são consideradas completas quando Radha aparece ao seu lado.

A palavra Radha significa "a maior adoradora de Krishna". Nenhuma outra gopi em Vrindavana tem nome tão significativo quanto Radha. É claro, todas as gopis de Braja amam e dão prazer a Krishna.
De qualquer forma, comparada com o oceano de amor de Radha por Krishna, as outras gopis são meros rios, piscinas e baldes. Assim como o oceano é a fonte original de toda a água encontrada nos lagos e rios, similarmente o amor encontrado nas gopis, e todos os outros devotos têm em sua origem Radha sozinha. Desde que o amor de Radha é o maior, ela dá o maior prazer para Krishna. Em Vrindavana, as pessoas são acostumadas a cantar o nome de Radha mais do que o nome de Krishna.

Radha é a alma; Krishna é o Deus. Krishna é o shaktiman - possessor da energia - e Radha é Sua shakti - energia. Ela é a parte feminina da cabeça do Deus. Ela é a personificação da maior amor por Deus, e por sua mercê, a alma está conectada com o serviço e amor a Krishna.

O lobo e o cabritinho



Da casa em que se encontrava, um cabrito viu passar um lobo.
Pôs-se a insultá-lo e a escarnecer-lhe. O lobo disse então:
- O insulto não vem de ti, mas do lugar onde estás.

Moral: Muitos deixariam de ser valentes diante dos fortes se não estivessem em lugar seguro.


Fábulas de Esopo

24/02/2011

Loki e o construtor do muro

Durante muitos anos, os deuses viveram junto com os mortais até que, um dia,Odin, o maior dos deuses, teve a idéia de construir Asgard, a sua morada celestial. Era preciso que os deuses tivessem um local só para si, resguardado dos ataques dos seus terríveis inimigos, os Gigantes. Nem bem, porém, haviam terminado de construir a cidade, depararam-se todos com um grande problema: é que, na pressa, esqueceram de construir também uma sólida muralha para se proteger de um eventual ataque de seus pérfidos inimigos. Odin e Loki estavam conversando sobre o assunto, tendo ao lado outros deuses, como Tyr e Heimdall, quando, de repente, viram passar perto um cavaleiro.
- Uma bela construção a que fizeram...! - disse ele, admirando a arquitetura da divina cidade. - Mas, onde está o muro que deveria protegê-lo?
Os deuses, constrangidos, foram obrigados a confessar que haviam esquecido desta parte.
- Ora, mas isto não é problema! - disse o forasteiro. - Sou o mais hábil construtor do mundo e posso erguer um belo e fortificado muro, se assim desejarem.
Um sorriso de satisfação iluminou a barba ruiva de Odin. Loki, também satisfeito acenou para o homem e lhe disse:
- E quanto tempo levará para terminá-lo?
- Em um ano e meio estará perfeito e acabado.
- Muito bem, pode começá-lo imediatamente! - disse Loki, aplaudindo o construtor.
- Esperem! - bradou Odin, interrompendo tudo. - O senhor disse que é o melhor construtor de todo o mundo, não é?
- Sim, honro-me de sê-lo!
- E, o que pede para realizar a sua tarefa? - quis saber o deus supremo, já imaginando que o hábil construtor não pediria pouco.
- Quero a mão da bela Idun em casamento - disse o outro, confirmando as mais negras previsões do maior dos deuses.
Idun era a deusa da juventude e cuidava do pomar onde brotavam as maçãs a juventude, graças às quais os deuses permaneciam sempre jovens e saudáveis.
- Ora, desapareça daqui! - disse Tyr, o mais valente dos deuses, brandindo o seu único punho para o atrevido.
Heimdall, o guardião da ponte Bifrost, que conduzia a Asgard, como não podia falar,protestou tocando sua cometa tão alto no ouvido do estrangeiro, que construtor sofreu um sobressalto e precisou de alguns minutos para recuperar inteiramente a audição. Quanto aos demais deuses, já iam todos dando as costas, incluindo Odin, quando ouviram Loki dizer ao atrevido forasteiro:
- Muito bem, se puder construir em seis meses, o negócio está fechado! Todos os rostos voltaram-se, alarmados, para o imprevidente deus.
- Imporemos apenas a condição de que realize sozinho a sua tarefa e no espaço de um único inverno - disse ainda Loki, sem se importar com as censuras que faiscavam no olhar de seus colegas. Para estes, entretanto, disse à boca pequena:
- Não se preocupem: em seis meses, ele não terá construído nem a metade do muro, o que o obrigará a nos entregá-lo de graça!
- Trato feito! - disse o construtor, que pareceu muito satisfeito com a proposta. No mesmo instante, desceu de seu cavalo Svadilfair e meteu mãos à obra. Acoplando um trenó à cauda do cavalo, ele começou a empilhar e a arrastar enormes pedregulhos pela neve com tanta vontade e determinação, que todos os deuses empalideceram, menos Loki, que olhava para o homem com um sorriso irônico.
- Não se aflija, bela Idun! - disse ele à infeliz deusa, que vertia pelos olhos pequeninas lágrimas douradas. - São fanfarronices do primeiro dia; amanhã, ele á estará exausto e jamais conseguirá terminar o muro dentro do prazo estipulado!
Mas, no segundo dia, o ritmo não diminuiu; na verdade, aumentou e, ao fim do primeiro mês, o estrangeiro já havia construído um bom pedaço, grande o bastante para deixar em pé os cabelos de Odin.
- Loki, seu idiota...! - disse ele, chamando o responsável pelo iminente desastre. - Se a coisa for neste passo, antes mesmo dos seis meses, ele terá concluído o maldito muro e perderemos Idun e as maçãs da juventude! Não lhe passou pela cabeça, cretino, que este construtor pode ser um gigante disfarçado a tramar a nossa destruição? - indagou Odin a Loki, que cocava a cabeça, com um ar culpado.
Idun, por sua vez, observava noite e dia, com desolação, a movimentação do construtor e cada pedra que ele depositava a mais sobre o muro, era um golpe cavo que soava em seu peito. Seus olhos estavam sempre postos sobre as costas suadas do infatigável construtor e de seu portentoso cavalo que arrastava no trenó, sem um minuto de descanso, os grandes pedregulhos.
O tempo passou e faltavam agora somente cinco dias para a chegada do verão e um pequeno trecho para que o muro estivesse concluído.
Odin fez um sinal para que Heimdall fizesse soar a sua trompa, convocando os deuses para uma reunião de emergência.
- E agora, seu tratante? - disse Odin, tão logo avistou Loki adentrar o salão. - Já que foi esperto o bastante para nos meter nesta enrascada, trate de arrumar um jeito de nos tirar dela, caso contrário, você irá para o sombrio Niflheim, onde sofrerá torturas tão cruéis que nem mesmo sua filha Hei o reconhecerá!
- Verei o que posso fazer, poderoso Odin - disse Loki, o qual, se era imprevidente a ponto de se meter a todo instante em enrascadas, não era menos hábil em se safar destas mesmas situações.
Loki internou-se numa grande floresta e, naquela mesma noite, enquanto o construtor trabalhava com a ajuda de seu cavalo, ele retornou de lá transformado numa belíssima égua branca. Postando-se diante do cavalo do construtor, a égua começou a relinchar melodiosamente (tanto quanto um eqüino possa ter alguma melodia), o que fez com que Svadilfair arrebentasse, afinal, os freios que o mantinham preso ao trenó e
seguisse a égua floresta adentro.
- Ei, espere, aonde vai? - gritou o construtor, espantado.
O cavalo, entretanto, lançara-se numa corrida tão desenfreada que, por mais que seu dono tentasse alcançá-lo, não pôde fazê-lo. Depois de descansar um pouco e refletir,porém, o construtor farejou naquilo o dedo de Loki.
- É claro! - exclamou furioso. - Tão certo quanto sou um gigante disfarçado de construtor, esta égua não passa do maldito Loki disfarçado!
O gigante, então, vendo que não conseguiria terminar o muro sem o auxílio de seu prodigioso cavalo, resolveu reassumir a sua forma natural para tentar completar a tarefa.
Odin, contudo, que a tudo assistia de seu trono, exclamou tomado pela ira:
- Tal como eu imaginava: o tal construtor não passa, na verdade, de um maldito gigante!... Ótimo, pois com isto fico também desobrigado de meu juramento! - Odin suspendeu no ar a mão que alimentava seus dois lobos, Geri e Freki, e ordenou,imediatamente, que um servidor fosse chamar seu filho Thor.
- Thor, preciso que, mais uma vez, faça uso de seu martelo Miollnir para derrotar este gigante impostor! - disse Odin, depositando todas as esperanças em seu valente filho.
Thor não esperou segunda ordem: empunhando seu martelo e afivelando bem à cintura o seu cinto de força, foi até o gigante, que empilhava, freneticamente, imensos pedregulhos no afã de terminar logo a sua tarefa. O rio de suor, que lhe escorria dos membros, fizera com que a neve ao seu redor tivesse derretido toda.
- Ora, vejam...! - disse Thor, ao se aproximar dele. - O pequeno construtor virou, então, de uma hora para a outra, um gigante atarefado?
- Fique longe de mim! - disse o outro, carregando em desespero a última pedra que faltava para completar o muro.
Porém, antes que tivesse tempo de colocá-la sobre o último vão do muro, Thor arremessou seu martelo com tal força e velocidade, que a cabeça do gigante se esmigalhou inteira.
- Aí está, patife, o seu pagamento! - disse o deus, recolhendo Miollnir. O gigante teve, logo em seguida, o restante de seu corpo jogado nos gelos eternos de Niflheim.
- E então, tudo correu bem? - disse Odin ao filho, tendo ao lado Idun.
- Já deve estar construindo seus muros na terrível morada de Hei! - disse Thor,enquanto retirava sua pesada luva de ferro.
Todos os deuses regozijaram-se com uma grande festa, aliviados que estavam pela derrota do gigante. Entretanto, em meio a ela, alguém perguntou:
- E Loki? Que fim levou o espertalhão?
De fato, Loki havia desaparecido de Asgard desde o instante em que entrara na floresta com o garanhão do gigante. Durante muito tempo, ninguém ouviu falar dele até que, um belo dia, ressurgiu, trazendo um belíssimo e prodigioso cavalo negro de oito patas.
- Ora, viva! Finalmente, reapareceu! - exclamou Odin, que, no entanto, parecia mais interessado no cavalo do que no deus desaparecido.
- Apresento a vocês Sleipnir, o cavalo mais veloz do universo! - disse Loki, todo sorridente.
Loki, por mais incrível que possa parecer, tornara-se pai de um cavalo; mas, para quem já havia sido anteriormente pai de um lobo e de uma serpente, não havia nisto nada de surpreendente. Entretanto, percebendo que Odin apaixonara-se, perdidamente, pelo cavalo, tratou logo de lhe dar o animal de presente na esperança de fazer com que esquecesse, rapidamente, de suas trapalhadas.
E foi assim que Odin se tornou dono do cavalo mais veloz do universo.


O lobo e o cão



Não tinha um lobo mais que a pele e o osso.
Sinal é que, de orelha arrebatida,
Bem vigilante andava a canzoada
Encontra o lobo um dogue forte, grosso,
Nutrido, luzidio, uma beleza!
Que distraído abandonara a estrada .
Sorri-lhe a nédia presa.

Saltar-lhe logo ali, fazê-la em postas
O seu desejo fora. Dura empresa!
A luta era infalível! Voltar costas
Não usam perros quando são valentes,
E, mais os brutos! dão às vezes cabo
Do fero contendor! Diabo! diabo!
Então aquele, com aqueles dentes!
Humilde o lobo, Pois, encolhe a cauda;
Chega-se ao cão, abaixa-lhe a cabeça;
Puxa conversa; diz que folga em vê-lo,
Que deixe que ele admire, que ele aplauda.
Topá-lo assim... e com tão bom cabelo!...
E rijo! e gordo! Um frade! uma abadessa!

«Esplêndido senhor – o cão responde -
De vós depende o ter igual gordura.
Fugi dos bosques, onde
Por teima da desgraça,
De fome e frio só achais fartura,
Vós, senhor lobo, e a vossa pífia raça.
Dias e dias sem comerem nada!
E lá por festas raras, esquecidas,
Um petisquinho conquistado à espada,
Tragado às escondidas!
Aí é certa a morte!
Furtai-vos a seus braços!
Segui... segui meus passos;
Tereis outro destino e melhor sorte.
Mas como? – volve o lobo.
Fazer então que devo? – Bagatela:
Nem morte de homem, nem de igreja roubo;
Simplesmente estas coisas: não dar trégua
À santa gente rota, mendicante,
Bordão numa das mãos, noutra a tigela,
Que vem inda a distância duma légua
E já tresanda a essência de tratante.
Lamber as mãos ao dono; ser submisso...

Dar coca – é o termo próprio – ao dono e a todo
Quanto bicho-careta houver em casa.
Salário apanhareis que vos apraza:
Ossos das aves, rodas de chouriço,
Restos vindos da mesa, e tudo a rodo!
Até uns tagatés em cima disso!»

Tendo prestado ao cão atento ouvido,
O lobo, coitadinho!,
Com perspectiva tal enternecido,
Não tugiu nem mugiu, mas fez beicinho!
Iam caminho já do povoado,
Quando o lobo notou que no pescoço
O cão era pelado!
Que tens aí? – pergunta em alvoroço.
– Nada, que eu saiba. – Nada?! – Frioleira
– Mas afinal o que é? – Ora!... a coleira,
Com que à noite me prendem junto à porta...
– Prender-te?! – o lobo exclama. Não sais fora,
Não corres livre pela terra inteira
Quando te dá na gana, e a toda a hora?
– Nem sempre. Isso que importa?
– Tanto importa, que toda a trincadeira
Com que me acenas, um tesouro embora,
Por tal preço não quero!»
O lobo finda,
Põe-se logo na perna, e corre ainda!


Tradução de Francisco Palha

A rosa de seda



Num fabulário ainda por encontrar será um dia lida esta fábula:
A uma bordadeira dum país longínquo foi encomendado pela sua rainha que bordasse, sobre seda ou cetim, entre tolhas, uma rosa branca. A bordadora, como era muito jovem, foi procurar por toda a parte aquela rosa branca perfeitíssima, em cuja semelhança bordasse a sua. Mas sucedia que uma das rosas era menos bela do que lhe convinha, c que outras não eram brancas como deviam ser. Gastou dias sobre dias, chorosas horas, buscando a rosa que imitasse com seda, e, como nos países longínquos nunca deixa de haver pena de morte, ela sabia bem que, pelas leis dos tontos como este, não podiam deixar de a matar, se ela não bordasse a rosa branca.
Por fim, não havendo melhor remédio, bordou de memória a rosa que lhe haviam exigido. Depois de a bordar foi compará-la com as rosas brancas que existem realmente nas roseiras. Sucedeu que todas as rosas se pareciam exactamente com a rosa que ela bordara, que cada uma delas era exactamente aquela,
Ela levou o trabalho ao palácio e é de supor que casasse com o príncipe.
No fabulário, de onde vem, esta fábula não traz moralidade. Mesmo porque, na idade de ouro, as fábulas não tinham moralidade nenhuma.


Fernando Pessoa,
in O Jornal, Lisboa, n.° 1, 04-04-1915


O náufrago e o mar


Um náufrago, a quem as ondas tinham lançado na praia, caiu no sono de tão cansado. Pouco depois, acordou e, ao ver o mar, invectivou contra ele:
-Você seduz os homens com sua suavidade, mas, quando os acolhe, os mata sem dó nem piedade. O mar, que estava disfarçado de mulher, disse:
- Amigo, não me culpes, mas ao vento: sou por natureza o que estás vendo; sãos os ventos que, soprando sobre mim de repente, me atiçam e me animalizam.

Moral: Não imputes a injustiça a quem a comete quando os verdadeiros responsáveis são os que estão por trás.


Fábulas de Esopo

23/02/2011

A Cabra e o Asno


Uma cabra e um asno comiam ao mesmo tempo no estábulo. A cabra começou a invejar o asno porque acreditava que ele estava melhor alimentado, e lhe disse:
- Tua vida é um tormento inacabável. Finge um ataque e deixa-te cair num fosso para que te dêem umas férias.
Aceitou o asno o conselho, e deixando-se cair, machucou todo o corpo.
Vendo-o o amo, chamou o veterinário e lhe pediu um remédio para o pobre. Prescreveu o curandeiro que necessitava uma infusão com o pulmão de uma cabra, pois era muito eficiente para devolver o vigor. Para isso então degolaram a cabra e assim curaram o asno.


Moral da Estória:
Em todo plano de maldade, a vítima principal sempre é seu próprio criador.


Fábulas de Esopo
(Século VI a.c.)

22/02/2011

O lobo e o leão



Um dia, um lobo roubou um cordeiro. Estava levando-o para o covil, quando veio um leão e roubou sua presa. O lobo tomou certa distância e gritou:
- Bandido, roubaste o que era meu!
O leão pôs-se a rir:
- E por acaso tinha sido presente de algum amigo teu?

Assim se acusam mutuamente bandidos e ladrões insaciáveis quando surpreendidos pelas adversidades.


Fábulas de Esopo

20/02/2011

O agricultor e os seus filhos



A discórdia reinava entre os filhos de um camponês. Em vão, ele os exortava a mudar de comportamento; suas palavras não produziam nenhum efeito. Foi por isso que decidiu dar-lhes uma lição na hora:
- Tragam-me - disse ele - um feixe de gravetos.
Os meninos foram buscar. O camponês pegou os gravetos e os uniu num feixe compacto e pediu que eles o partissem. Apesar de toda a força que botaram, não conseguiram. O pai então desfez o feixe e deu a cada um deles um graveto. As crianças os quebraram com facilidade.
- Vejam, meus filhos, o mesmo acontece com vocês: se forem uniddos, não temerão inimigos, mas, se continuarem na discórdia, cairão na mão deles.


Fábulas de Esopo


A Gralha Vaidosa



Júpiter deu a notícia de que pretendia escolher um rei para os pássaros e marcou uma data para que todos eles comparecessem diante de seu trono.
O mais bonito seria declarado rei. Querendo arrumar-se o melhor possível, os pássaros foram tomar banho e alisar as penas às margens de um arroio.
A gralha também estava lá no meio dos outros, só que tinha certeza de que nunca ia ser escolhida, porque suas penas eram muito feias.
"Vamos ter que dar um jeito" - pensou ela.
Depois que os outros pássaros foram embora, muitas penas ficaram caídas pelo chão; a gralha recolheu as mais bonitas e prendeu em volta do corpo. O resultado foi deslumbrante: nenhum pássaro era mais vistoso que ela.
Quando o dia marcado chegou, os pássaros se reuniram diante do trono de Júpiter; Júpiter examinou todo mundo e escolheu a gralha para rei. Já ia fazer a declaração oficial quando todos os outros pássaros avançaram para o futuro rei e arrancaram suas penas falsas uma a uma, mostrando a gralha exatamente como ela era.

Moral da Estória:
Belas penas não fazem belos pássaros.


Fábulas de Esopo
(Século VI a.c.)

19/02/2011

A mulher teimosa

Numa aldeia de Barcelos, havia um casal que andava sempre ás bulhas, porque a mulher era muito teimosa.
Um dia; o homem trouxe para casa um queijo que comprou na vila, e, ao jantar, pô-lo na mesa e pediu à mulher uma faca para o cortar, mas a mulher, em vez de lhe trazer a faca, trouxe-lhe uma tesoura.
— Esta é boa! disse o homem — Como é que eu posso cortar o queijo com a tesoura? Foi coisa que nunca se viu!
— Pois o queijo sempre se cortou com a tesoura — disse a mulher.
— Que disparate! Com a faca’é que sempre se cortou.
— Pois é com a tesoura! — teima ela.
— É com a faca, mulher!
E questionaram os dois por algum tempo, até que o homem, farto da teimosia, bateu na mulher, e perguntou em seguida:
— Então é com a faca, ou não?
— É com a tesoura, já disse! — teimou a mulher, apesar da coça que levara.
O homem enfureceu-se tanto, que, perdendo a cabeça, agarrou na mulher e foi a correr deitá-la ao rio, o Cávado por sinal.
A mulher, que não sabia nadar, foi logo ao fundo como um prego, e o homem, ao vê-la desaparecer, ainda lhe disse cá de cima:
— Diz lá agora com que é que se corta o queijo! E viu-se então a mão da mulher aparecer por fora da água e mexer dois dedos, como a dizer que era com a tesoura.
Nem naquela altura deixou de teimar.


Conto Tradicional Português

18/02/2011

O touro e o bode



Um Touro, escapando de um Leão, entrou numa caverna que alguns pastores tinham ocupado ultimamente. Um Bode havia sido deixado ali e o atacou violentamente com seus chifres afiados. O Touro o acalmou dizendo: "Escorneie tanto quanto você puder. Eu não tenho nenhum medo de você, mas sim do Leão. Deixe aquele monstro ir-se e logo te mostrarei o que é a diferença entre a força de um Bode e um Touro.” http://www.audacyhearingaids.com


Moral:
Mostra-se uma má vontade, tirar vantagem de um amigo em apuros.


Fábulas de Esopo

A Gralha e os Pavões


Fez-se a Gralha bizarra e louca vestindo-se de penas de Pavões, que pediu emprestadas e desprezando as outras Gralhas, andava com os Pavões de mistura. Porém eles lhe pediram as suas penas, e começando a depená-la, todos lhe levavam penas e carne no bico. Depois querendo chegar-se às outras, ainda que com temor e vergonha, diziam elas:
- Quanto te valera mais contentares-te com o que te deu a natureza, que quereres mudar de estado; para vires a este em que estás, pelada, ferida e vergonhosa.


Fábulas de Esopo
(Século VI a.c.)


A águia e seus dois donos




Um dia, uma águia foi capturada por um homem. Este lhe cortou as asas antes de jogá-la entre as aves de seu galinheiro. A águia baixava os olhos de vergonha; roída pela tristeza, parecia um rei cativo. Um outro homem a comprou e arrancou-lhe as penas. Depois, untou-a com mirra e as asas cresceram de novo. A águia voltou ao que era e, tendo pego uma lebre com suas garras, foi levá-la de presente ao seu novo dono. Mas uma raposa a viu e lhe disse:
- Entrega-a ao teu primeiro dono, pois o segundo é bom por natureza: melhor ser bem vista pelo primeiro, a fim de que ele não te pegue de novo e te prive de tuas asas.


Fábulas de Esopo

17/02/2011

O espantalho aventureiro



Era uma vez um espantalho. De braços abertos, no meio da seara, grande chapéu desabado e camisa ao vento, o espantalho aborrecia-se:
- Estou aqui especado, a guardar o que não é meu e nem me pagam o encargo. Até os pardais já troçam de mim. Vou mas é desempregar-me.
E desempregou-se mesmo, isto é, saltou para o chão, atravessou a seara e foi dar à estrada.
De princípio, custou-lhe a andar. Tinha as pernas trôpegas, claro. Em compensação, podia descansar os braços. Que alívio! Pelo caminho ia pensando: ?Preciso de arranjar trabalho que me dê maquia. Hei-de poupar, porque não sou de grandes gastos e, um dia, com uma bolsa cheia de dinheiro dos meus ganhos, compro uma terra. Uma terra para eu guardar. Uma terra minha."
Ele a perder-se nestes sonhos e uma caravana de saltimbancos a passar.
- Venha connosco - convidaram eles. - Um homem de palha, no nosso espectáculo, é novidade que enche um programa.
Ele foi, que o trabalho não era difícil. Dava uns saltos, fazia umas cabriolas, umas palhaçadas e recebia dinheiro. Com o primeiro ordenado comprou uma bolsa e na bolsa meteu as moedas, que ia ganhando. Nada mau! Mas, um dia, apanhou um susto. Imaginem que o homem-vulcão, que deitava fumo pelos ouvidos e labaredas pela boca, cuspiu, num dos seus ensaios, uma faúlha ainda espevitada, que deitou fogo ao homem de palha. Vá lá que lhe acudiram a tempo, senão a história acabava mesmo aqui.
- Ná! Isto de ser artista de circo tem os seus perigos - disse o chamuscado espantalho, dizendo adeus aos saltimbancos.
No largo da vila, havia um editorial que convocava voluntários para o exército. O espantalho alistou-se.
De arma ao ombro, percorreu caminhos, guerras, países. Foi considerado um herói. Recebeu medalhas e louvores. Pois pudera: as balas atravessavam-no, que o sangue não corria, porque sangue não havia. As lanças trespassavam-no, que dor nunca sentia, porque nervos não havia. Não, nunca caía o espantalho no meio da batalha. Era tal a valentia.
Mas também se desconsolou de ser soldado. Certa vez, no quartel, enquanto dormia, uma mula sem cerimónias meteu o dente ao herói. E se estava com fome.
Assustou-se o soldado com o desplante do animal, que não conhecia os superiores. Pediu a demissão.
E agora, espantalho?
Consultou a bolsa, que sempre trazia à cinta, e contou as moedas, umas grandes, outras pequenas. Dava para comprar uma horta? Dava, desde que fosse pequena - uns palmos de terra com um espantalho ao meio.
Foi o que fez. Colocou-se de braços abertos, a proteger a propriedade, e ali ficou, de grande chapéu desabado, camisa ao vento... Tinha sido espantalho, saltimbanco, mercenário. Voltava a ser espantalho - perdão! - proprietário! Estava feliz? Não sabemos.
- Também agora os pardais troçam de mim - queixava-se ele, quando pouco mais ou menos a história chega ao fim.
Para nós, que aqui o vemos, o fim voltou ao princípio, ao ofício de espantalho. Há muitas histórias assim...


António Torrado


A formiga e a cigarra



No Inverno tirava a Formiga da sua cova e assoalhar o trigo, que nela tinha, e a Cigarra com as mãos postas lhe pedia que repartisse com ela, que morria à fome. Perguntou-lhe a Formiga:
- Que fizera no Estio, porque não guardara para se manter?
Respondeu a Cigarra:
- O Verão e Estio, gastei a cantar e passatempos pelos campos. A Formiga então, perseverando em recolher seu trigo, lhe disse:
- Amiga, pois os seis meses de Verão gastaste em cantar, bailar é comida saborosa e de gosto.


Fábulas de Esopo
(Século VI a.c.)

As três maçazinhas de ouro


Havia três irmãos; o mais novo tinha três ma çãzinhas de ouro, e os outros para vêr se lhas tiravam mataram-no e enterraram-no num monte Depois nasceu na sepultura uma cana. Certo dia passou por lá um pastor, que cortou um pedaço da cana para fazer uma frauta. O pastor começou a tocar, mas a gaita em vez de tocar, dizia:

Toca, toca, oh pastor,
Os meus irmãos me mataram,
Por três maçãzinhas de ouro,
E ao cabo não as levaram.

O pastor quando ouviu isto, chamou um carvoeiro, e deu-lhe a frauta. O carvoeiro começou também a tocar, mas a frauta dizia:

Toca, toca, oh carvoeiro,
Os meus irmãos me mataram…

Assim foi a frauta andando, de indivíduo para indivíduo, até que chegou às mãos do pai e mãe do morto. A frauta dizia ainda:

Toca, toca, oh meu pai…
Toca, toca, oh minha mãe,
Os meus irmãos me mataram
Por três maçãzinhas de ouro
E ao cabo não as levaram.

Chamaram o pastor, que disse onde tinha cortado a cana. Foram lá e encontraram o cadáver com as três maçãzinhas de ouro.


Conto tradicional português


Um califa estranho


Conta-se que, certa noite, o califa Harun Ar-Rachid, sofrendo de insónia, mandou chamar seu vizir Jafar Al-Barmaki e seu guarda-costas Masrur e disse-lhes:
- Tenho o coração oprimido. Para me distrair, gostaria de errar pelas ruas de Bagdá e chegar ao Tigre.
Imediatamente, vestiram-se todos de mercadores e andaram até o rio. Lá encontraram um barqueiro velho e disseram-lhe:
- Ó velho, eis um dinar. Poderias levar-nos no teu barco pelo rio para gozarmos o frescor da brisa?
- Qual é o objetivo de vosso pedido, senhores? E qual é a graça? Não conheceis as ordens? "É proibido a grandes e pequenos, jovens e velhos, nobres e plebeus, navegar no Tigre. Quem desobedecer terá a cabeça cortada." Não vedes o barco do califa dirigindo-se para cá?
Surpresos, perguntaram-lhe: "Estás certo de que o próprio califa está no barco?"
- Existe alguém em Bagdá que não conhece o califa Harun Ar-Rachid? Sim, é ele que está no barco com seu vizir Jafar e o portador de sua espada, Masrur. Harun Ar-Rachid, que nunca dera as ordens mencionadas e ficara afastado do rio o ano todo, interrogou Jafar com os olhos.
O vizir, que estava igualmente intrigado, disse ao barqueiro: "Eis dois outros dinares. Leva-nos até aquela sombra para que possamos ver o califa sem sermos vistos."
Após alguma hesitação, o barqueiro levou-os e escondeu-os por baixo de um arco. De lá viram o barco real passar com luzes, movimentos e escravos dançando e cantando.
Num trono de ouro sentava-se um jovem, sumptuosamente vestido, e tendo à sua direita um homem estranhamente parecido com Jafar e, à sua esquerda, o suposto Masrur, segurando uma espada nua. velho, perguntou o califa ao barqueiro, tens certeza de que o califa passeia no rio nesse barco iluminado todas as noites?
- Ele tem feito isso todas as noites nos últimos doze meses.
– Somos estrangeiros nesta cidade, disse o califa, e gostamos de ver coisas curiosas. Se eu te der dez dinares, esperarás por nós amanhã aqui nesta hora?
O barqueiro agradeceu e prometeu ser fiel ao compromisso. Na noite seguinte, os três dignitários voltaram e, levados pelo barqueiro, esconderam-se debaixo do arco e observaram o barco iluminado passar.
- Ó vizir, disse Harun Ar-Rachid, nunca teria acreditado no que estou vendo se me tivessem contado.
E virando-se para o barqueiro, disse-lhe: "Eis outros dez dinares. Segue aquele barco e não tenhas medo de ser visto, pois estamos na escuridão e eles, em plena luz. Gostaríamos de ver aquela iluminação de mais perto e por mais tempo."
Logo depois, viram o falso barco real atracar e seus ocupantes desembarcarem e entrarem num grande parque onde se puseram a cantar, dançar e divertir-se. O califa e seus dois companheiros também desembarcaram, entraram no parque e se misturaram com os outros. Mas alguém reconheceu-os como estranhos ao grupo e levou-os até o pseudo califa.
Perguntou-lhes o califa: "Como e por que viestes aqui?"
Responderam: "Somos mercadores estrangeiros que visitamos esta cidade pela primeira vez. Estávamos passeando e entramos neste parque sem saber que era proibido entrar nele."
- Já que sois estrangeiros, sede nossos hóspedes, disse o estranho califa. Senão, teria que mandar cortar-vos a cabeça.
O convite foi aceite e entraram todos num palácio tão sumptuoso quanto o palácio do califa. A festa prosseguiu com danças, canções, bebidas e guloseimas. No lado direito do salão, uma porta abriu-se e dois negros entraram carregando sobre as espáduas um trono de marfim no qual sentava-se uma jovem escrava tão brilhante quanto o sol. Estava tocando alaúde e cantando: Como pudeste encontrar a paz quando eu estava longe e infeliz? Como pudeste encontrar bálsamo quando eu estava perto e partindo? Ai de mim! Vazio está o quarto perfumado onde espera em vão nossa cama colorida. E vazia está a sala de mármore onde morrem os ecos das canções de amor.
Assim que o falso califa ouviu esta canção, rasgou a roupa e desmaiou. Harun Ar-Rachid e seus companheiros repararam que seu corpo estava coberto de marcas de flagelo.
- Pena que um jovem tão bonito carregue esses estigmas que o denunciam como um criminoso fugitivo, disse o califa. Mamelucos apressaram-se em acordar o jovem e cobri-lo com vestidos tão suntuosos quanto os que rasgara.
- Pergunta-lhe a causa dessas marcas, pediu o califa a Jafar. Mas Jafar opinou que seria melhor não se precipitar para não despertar suspeitas.
- Pergunta, insistiu o califa. Senão teu corpo estará buscando uma cabeça quando voltarmos ao palácio.
Jafar obedeceu. O jovem sorriu e disse: "Já que sois estrangeiros, contar-vos-ei minha história. Ela é tão estranha que se fosse escrita com uma agulha no canto interno dos olhos, serviria de aula a quem gosta de instruir-se."
E começou: "Meus senhores, eu não sou o Comandante dos Fiéis, mas apenas Mohamed-Ali, filho do síndico dos joalheiros de Damasco. Quando meu pai morreu, legou-me muito ouro e prata, inúmeras pérolas, rubis e esmeraldas. Legou-me também edifícios, terras, jardins, lojas e este palácio com seus escravos e escravas. "Um dia, estava na minha loja quando vi apear de um cavalo ele arreado uma jovem de beleza lunar. Entrou acompanhada de seus servidores, e perguntou-me: Não és Mohamed-Ali o joalheiro?" Respondi: "Não sou apenas Mohamed-Ali. Sou também teu escravo." "- Terias algum adorno bonito que possa agradar-me? "Mostrei-lhe os mais belos colares que tinha. Nenhum lhe agradou. Lembrei-me então que meu pai comprara certa vez um colar de inigualável beleza que guardara num cofre especial. Trouxe-o. Assim que a jovem o viu, exclamou: `É este o colar, quanto custa? que sempre procurei. "-Meu pai pagou 100 mil dinares por ele. Se te agrada, terei prazer em oferecer-te de graça. "- Aceito-o pelo preço original e mais 5 mil dinares a título de juros, replicou a jovem com um sorriso. Por favor, traze-o até minha residência e lá receberás o preço. "Mandei meus escravos fecharem a loja e segui-a. "Quando cheguei, esperava-me no seu aposento sem véu, sentada num trono de ouro, com meu colar em volta de seu pescoço. Vendo-a assim, senti meus miolos fundirem e a fortaleza de meu coração desmantelar-se. "A senhora acenou a suas escravas para que saíssem, veio até mim e disse: `Mohamed-Ali, luz de meus olhos, amo-te; e tudo que fiz hoje era apenas uma manobra para trazer-te até aqui. "Deixou-se cair nos meus braços, banhando-me no langor de seus olhos. Beijei-a, enquanto ela empurrava seus seios contra mim. Compreendi que não devia recuar e quis fazer o que tinha que ser feito. Mas no momento em que o menino, já completamente acordado, clamava lascivamente pela mãe, a jovem disse-me: Que pretendes fazer com ele, meu senhor? Guarda-o, porque minha casa não está aberta. Alguém terá que quebrar a porta. Se pensas que estás lidando com alguma mulher comum, desengana-te. Sou a filha de Yahia Ibn Khalid AI-Barmaki, irmã do vizir Jafar. E sou virgem.' ao ouvir essas palavras, meus senhores, mandei o menino voltar para seu sono e desculpei-me por ter desejado que ele participasse da hospitalidade estendida a seu pai. "- Nada tens que lamentar, disse a moça. Chegarás ao que queres, mas pelo caminho legal. Gostarias de casar-te comigo? "Respondi que nada me agradaria mais. Imediatamente, mandou chamar o cádi e as testemunhas e declarou-lhes: Eis Mohamed-Ali, filho do síndico. Pediu-me em casamento e ofereceu-me este colar por dote. Aceitei e consinto. Nosso contrato de casamento foi redigido e assinado na hora e fomos deixados a sós. "Quando a despi, vi que era realmente uma pérola não-furada, um cavalo que nenhum cavaleiro montara. Passei com ela uma noite que resumiu todas as alegrias de minha vida. "Vivemos assim um mês inteiro. No começo do mês seguinte, disse-me certa vez: Devo ir ao hammam por poucas horas. Jura que não te levantarás desta cama até que volte. Jurei, e ela saiu. "Ora, quis o destino que, minutos depois, chegasse uma anciã e me dissesse: `Ó Mohamed-Ali, a senhora Zubaida, a esposa do Comandante dos Fiéis, enviou-me para pedir-te que fosses imediatamente ao palácio, pois deseja falar-te. Respondi: A senhora Zubaida honra-me com esse pedido, mas não posso sair de casa até o regresso de minha mulher. "- Meu menino, disse a velha, aconselho-te a atender sem demora a dona Zubaida em teu benefício, a menos que queiras fazer dela tua inimiga. Sua inimizade é perigosa. Atendi, esperando que minha mulher compreendesse e me desculpasse. A senhora Zubaida recebeu-me com um sorriso e perguntou: Luz de meus olhos, não és o amante da irmã do vizir?' - Sou teu escravo, respondi. "- Em verdade, não exageraram em descrever o charme de tuas maneiras e de tua voz. Estou satisfeita. Mas quero que cantes alguma coisa para mim. "Quando fui libertado e voltei para casa, encontrei minha mulher dormindo. Deitei a seu lado e comecei a acariciar-lhe as pernas. Mas ela me deu um pontapé tão violento na virilha que caí da cama. Traidor perjuro!, gritou. Quebraste teu juramento e foste visitar a senhora Zubaida! Não posso ir ensinar-lhe a não debochar dos maridos de outra mulheres. Por isso, pagarás por ambos.' E chamou o chefe de seus eunucos, o terrível Sauab, e disse-lhe: Corta a cabeça deste traidor."Nesse momento, todos os escravos da casa, que eu costumava tratar com bondade, acorreram e solicitaram sua compreensão: Como iria ele adivinhar que uma simples visita a dona Zubaida iria desagradar-te tanto? Ele desconhecia a rivalidade e inimizade que existe entre vós duas. Por favor, trata-o com clemência.Pouparei a sua vida, concedeu ela finalmente. Mas deixarei no seu corpo uma lembrança indelével de sua traição. E mandou infligir-me as torturas de que vedes os vestígios. "Quando me restabeleci, vendi tudo que tinha, comprei esse grande barco e quatrocentos escravos e escravas, disfarcei-me de califa e entreguei-me à alegria de viver, ao canto e à dança. Passei assim um ano inteiro, tentando esquecer as conseqüências que sofri por ter-me intrometido sem querer numa briga de mulheres”.Após ouvir esta história, o califa voltou para seu palácio, preocupado em encontrar um meio de reparar a injustiça feita àquele homem bom. No dia seguinte, revestido de sua autoridade, mandou vir Mohamed-Ali e disse-lhe: "Gostaria de ouvir de tua própria boca a história que contaste ontem à noite a três mercadores estrangeiros." Surpreso, Mohamed-Ali repetiu a história. Perguntou-lhe o califa:
"Ainda amas a tua mulher e a queres de volta?"
- Tudo que recebo das mãos do califa é bem-vindo.
Então disse o califa a Jafar: "Traze-me tua irmã."
Quando a mulher chegou, disse-lhe o califa: "Ó filha de Yahia, nosso fiel emir, eis Mohamed-Ali. O que passou, passou. Neste momento, quero dar-te a ele como esposa."
- Os presentes de nosso senhor são sempre generosos.
O califa mandou vir o cádi e as testemunhas. Os dois jovens foram casados de novo, e o califa fez de Mohamed-Ali um de seus amigos mais íntimos.

(tradução brasileira)


16/02/2011

Quéops e o Sábio


Certo dia, em seu palácio, o faraó Quéops estava enfastiado. Pede, então, que seus cortesões o distraíam com relatos dos prodígios que os homens de sabedoria do passado eram capazes de fazer. As hortas, então, transcorrem de forma agradável, enquanto conta-se como um deles teria encontrado a jóia de uma princesa que havia se perdido nas águas... Depois dessa história o filho de Quéops se levanta e diz:
- Tenho conhecimento de um homem sábio, chamado Djedi. É capaz de colocar de volta uma cabeça decepada, e tem um apetite prodigioso: Come, a cada dia, queinhentos pães, beb cem cântaros de cerveja, e come um quarto de um boi. Os leões, diante dele, se curvam, e há quem diga que ele conhece a natureza dos objetos secretos do templo de Thot.
O Faraó se sente surpreso, e manifesta desejo que lhe tragam, pela manhã, aquele homem a sua presença, ordenando, também, que tragam um leão, um prisioneiro, e um banquete para que Djedi coma. O rei do Egito mal dorme naquela noite, ansioso pelo encontro.
Pela manhã Djedi vêm a presença do faraó, que lhe diz:
- Dizem-me que você capaz de fazer com que o leão mãos selvagem lhe obedeça.
- De fato, assim é, grande rei.
- Pois, então que este lhe obedeça - e ordena que tragam o leão que haviam preparado, que o sábio acalma sem a menor dificuldade. Surpreso, mas sem desejar demonstra Quéops disse:
- Também me foi dito que é capaz de juntar ao corpo a cabeça decepada.
- Quem o disse não mentiu.
- Seja, então faça isso com um prisioneiro...
- Não, grande rei. Não há que se proceder assim com outro homem. Que me tragam um ganso e um pato! - E operou seu prodígio, fazendo com que as cabeças fossem, novamente, ligadas ao corpo, e as aves voassem e grasnassem.
- Ouvi dizer, Djedi, que você também sabe algo sobre os objetos misteriosos escondidos no templo de Thot.
- Conheço a natureza e quantidade desses objetos. Posso apontar o lugar exato de cada um deles no templo de Heliópolis. No entanto, não serei eu que os trará a vossa presença.
- E quem será?
- O mais velho dos três filhos de Rededet.
- E quem é Rededet?
- É a esposa de Rauser de Sequebu, um sacerdote de Rá. Ela está grávida de trigémeos, e o pai dos meninos é o próprio Rá. O mais velho será Sumo-Sacerdote do Sol em Heliópolis.
Quéops se cala, entristecido. As palavras do outro significavam que estava próximo o fim de sua linhagem e a ascensão de uma nova dinastia.



Contos e Lendas da Mitologia Egípcia
(trad. brasileira)


O burro conselheiro




Contam que certo lavrador possuía um burro que o repouso engordara e um boi que o trabalho abatera. Um dia, o boi queixou-se ao burro e perguntou-lhe:
— Não terás, ó irmão, algum conselho que me salve desta dura labuta?
O burro respondeu:
— Finge-te de doente e não comas tua ração. Vendo-te assim, nosso amo não te levará para lavrar o campo e poderás descansar.
Dizem que o lavrador entendia a linguagem dos animais e compreendeu o que eles conversaram. Na manhã seguinte, viu que o boi não comera sua ração. Deixou-o e levou o burro em seu lugar. O burro foi obrigado a puxar o arado o dia todo, e quase morreu de cansaço. E lamentou o conselho que dera ao boi. Quando voltou à noite, perguntou-lhe o boi:
— Como vais, querido irmão?
Respondeu o burro:
— Vou muito bem. Gostei da luz do sol e da alegria dos campos. Mas ouvi algo que me fez estremecer por tua causa. Ouvi nosso amo dizer: "Se o boi continuar doente, deveremos matá-lo para não perdermos sua carne". Minha opinião é que comas tua ração e voltes para tua tarefa a fim de evitar tamanho infortúnio.
O boi concordou e devorou toda a sua ração. O lavrador estava ouvindo, e riu.
Quando o homem deu uma risada ao ouvir o segundo conselho dado pelo burro ao boi, sua mulher (que não conhecia a linguagem dos animais) ficou perplexa e curiosa e quis saber por que ele riu. O homem não podia revelar que conhecia a linguagem dos animais. Respondeu à mulher que esse riso envolvia um segredo que lhe era proibido divulgar sob pena de morte.
— Quero que me contes esse segredo, mesmo que tenhas que morrer insistiu a mulher.
Como o homem amava sua mulher e nada lhe recusava, consentiu em revelar-lhe o segredo e perder a vida. Mandou, pois, vir o cádi e as testemunhas para deixar consignadas oficialmente suas últimas vontades. E mandou vir seus parentes e os de sua mulher para despedir-se deles. Todos aconselharam à mulher desistir de seu propósito e não empurrar para o túmulo seu marido e pai de seus filhos. Ela, porém, teimou, repetindo:
— Quero conhecer o segredo, mesmo que ele tenha que morrer.
Toda essa movimentação despertou a atenção do cão e dos animais da capoeira. O cão censurou o galo por estar cantando quando o amo deles todos estava para morrer. O galo perguntou:
— E por que nosso amo está para morrer?
O cão contou-lhe a história. Comentou o galo:
— Por Alá, nosso amo é muito tolo. Eu tenho cinqüenta esposas. Agrado a uma; desagrado a outra; mas não permito nenhuma rebelião entre elas. E ele tem apenas uma esposa e não consegue controlá-la. O que ele deve fazer é apanhar umas varas verdes nas amoreiras e bater nela até que se arrependa e não mais lhe exija nada.
O homem ouviu o que o galo disse ao cão, pensou e decidiu seguir o conselho do galo. Cortou umas varas das amoreiras, escondeu-as no quarto do casal e chamou a mulher:
— Vem comigo até nossa alcova para que te conte o segredo e me despeça de ti para sempre.
Quando a mulher entrou no quarto, o homem trancou a porta, apanhou as varas e bateu nela até que ficou cega de dor e gritou:
— Arrependo-me. E beijou lhe as mãos e os pés.
Em seguida, saíram juntos em paz para iniciar uma nova vida. E os parentes e os vizinhos se regozijaram por eles.

O asno e o jardineiro


Um asno a serviço de um jardineiro comia pouco e trabalhava muito. Ele pediu a Zeus que o libertasse de seu cativeiro fazendo-o trabalhar para um outro patrão. Zeus o ouviu e ele foi vendido a um oleiro. Mas, de novo, o asno reclamou: carregava ao mesmo tempo terra e barro, de modo que seu fardo era maior ainda que antes. Pediu uma vez mais para mudar a situação e foi vendido ao dono de um curtume. E eis que ele caiu de novo nas mãos de um patrão pior que os anteriores. Ao ver o trabalho que tinha de fazer, o asno dizia gemendo:
- Pobre de mim! Por que não fiquei com meus primeiros donos! Este, pelo que estou vendo, terminará me tirando a pele!
Um novo chefe faz lembrar com saudade o antigo.


Fábulas de Esopo

15/02/2011

O caso do prefeito Dong

O prefeito Dong fez 40 anos e morreu poucos dias depois de uma febre maligna. Sua casa parecia amaldiçoada. A primeira mulher tinha morrido três anos antes. Depois, ele casou-se novamente com uma belíssima mulher. Jovem, cheia de vida e amorosa. E antes que o prefeito Dong tivesse descendência, foi levado deste mundo pela febre.
A viúva, Feng Li, passou dois dias prostrada, chorando a morte de quem tinha sido seu único e grande amor. Um amor que havia durado anos, pois ela, desde criança, havia se apaixonado por ele, naqueles amores ardentes, contidos e impossíveis.
A morte da primeira esposa de Dong foi um sinal. O incêndio subterrâneo que consumia Feng Li, propagando-se pela turfa do seu ardor juvenil, voltou à superfície. Mas não ressurgiu arrebatador, como da primeira vez, mas na forma de flores de pessegueiro despetalando-se sobre o Lago Tian.
Todo mundo no povoado conhecia o prefeito Dong. Sua bondade. Suas virtudes excepcionais. Sua disposição em ajudar quem tivesse necessidade. E um dia, durante uma visita que os pais de Feng Li fizeram a Dong, ele percebeu enfim sua rara beleza e algum tempo depois se casaram.
Nisso Dong morreu. E estava ali, agora, no leito, ainda nupcial, seu corpo, que em breve seria levado embora, como um último sopro, de olhos úmidos, sobre sentimentos tão intensos. Foi nesse momento que Fen Li ouviu um profundo suspiro. O suspiro transformou-se em gemidos e esses gemidos vinham de onde se encontrava o prefeito Dong.
Sim, era ele. Pequenos movimentos. De início, quase imperceptíveis. Depois, mais agitados. E era ele, enfim, que despertava, movendo os lábios e pedindo um copo d’água. E ao falar, a voz era bem a sua, Dong, o prefeito. Bebeu um pouco de chá, pensativo, com os olhos semi-abertos, ainda não habituados com a luz, mas o brilho das pupilas não conseguia esconder pequenas nuvens escuras criando uma atmosfera de preocupação.
Ele bebeu um pouco de chá, sentou-se no leito e pediu que Feng Li chamasse alguém para tomar notas, pois ele tinha tido um sonho bastante estranho para contar. Com as costas apoiadas no travesseiro, esperou a chegada dos criados e então, com todos em volta, começou a contar:
“Na noite passada, disse ele, na terceira batida do sino, uma voz me chamou pelo nome. Eu fui até à varanda e percebi no jardim um desconhecido, com roupa de um altofuncionário do Palácio. Ele estava perto de um carro, com dois cavalos atrelados. Mantilhas brancas, que cintilavam à luz do luar, cobriam os dois animais.
‘Ele disse que tinha uma convocação oficial no meu nome e, em seguida, apertou meu braço com punhos de ferro e me fez subir na carruagem que imediatamente se pôs em movimento, depressa, depressa, veloz, cada vez mais veloz, quase voando. Nós passamos os portões da Prefeitura, escancarados àquela hora da noite, e avançamos na escuridão.
‘As sombras das árvores também eram velozes, deslizando vertiginosas ao nosso lado, e de repente fomos engolidos por densa neblina. Não demorou muito e a neblina foi se adelgaçando, em farrapos, que contornavam uma imponente muralha, em volta de uma cidade imensa, certamente capital de algum reino distante.
‘Depois de andarmos ao redor da muralha, escura, como picumã, chegamos a uma porta pintada de vermelho. Ela era flanqueada por duas torres, com as bases na forma de um animal estranho e dessas torres saíam barrotes, que tinha nas extremidades cabeças de mortos recentes ou peles humanas esfoladas que drapejavam como estandartes. Com a nossa aproximação, os dois batentes abriram-se rangendo de um jeito sinistro.
A cidade era recortada por ruas largas, que serviam de limite para uma grande quantidade de quarteirões, palácios, templos e edifícios oficiais. A carruagem parou no pátio interno de um deles e, depois de me fazerem subir por uma escada majestosa, meu guia me conduziu a uma sala de audiências onde estavam três juízes.
Meirinho, disse um deles, me traz o arquivo de capa preta, com um laço roxo, aberto na página de um homem chamado Dong, que exerce a função de Prefeito no Império do Meio.
Depois de um tempo um tanto longo, mesmo em termos de burocracia, a voz do juiz cortou novamente o silêncio:
— Meirinho! O que está acontecendo? Por acaso estádormindo em cima dos registros?
— Queira me desculpar, senhor, não consigo achar o nome do Prefeito Dong.
O juiz começou a trautear sobre o tampo da mesa, arrancando sons secos que logo se espalharam no ambiente. Dessa vez sua voz soou condescendente:
— Tome alguma iniciativa, caro amigo. Estamos perdendo um tempo precioso. O tribunal está atravancado de processo nesses tempos difíceis, disse ele, procura então um arquivo vermelho, o dos casos em litígio.
O meirinho trouxe um novo arquivo, de onde foi retirando folhas de papel amareladas. No fim exclamou:
— Eu bem sabia que estava consignado aqui! Dong, prefeito do Império do Meio. Homem virtuoso, de uma compaixão sem nome e de uma retidão exemplar. Caso muito raro na administração da Dinastia atual. Fez muitas coisas boas e ajudou muita gente sem se importar com posição ou riqueza. Morre aos 40 anos sem deixar descendência.
Os três juízes falaram em voz baixa durante alguns momentos e depois o presidente do tribunal declarou num tom solene:
— Deve ter algum erro aqui. Trata-se, sem dúvida, da negligência de algum funcionário do estado civil do destino. Que injustiça! Um homem assim, cheio de méritos, que morre na força da idade sem deixar ninguém para carregar o seu nome. Isso constitui um terrível mau exemplo para os outros humanos. Não é nada encorajador para outras pessoas que queiram fazer o bem. Vamos entrar com um recurso junto a Sua Majestade Yan Lo. Processo seguinte!
Eu então me virei na direção de meu guia e perguntei:
— Desculpe minha curiosidade, mas não seria esse, por acaso, um dos tribunais do inferno? Se estou entendendo bem, significa que eu morri?
Ele pôs a mão sobre o meu ombro e me respondeu com um sorriso:
— Não fique preocupado, tudo vai dar certo, seu processo está em boas mãos. Você caiu no melhor dos 24 tribunais do Inferno. Juízes íntegros e escrupulosos. Como você está nos registros vermelhos, o das pessoas virtuosas em situação irregular, e como aqui não precisa de dinheiro para suborno nem incenso ou libação para influenciar os juízes, tem todas as chances de voltar para casa.
Enquanto eu esperava, trouxeram um mandarim que tinha uma roupa de seda e distintivos de jade de alto dignatário da Corte Imperial.
— Meirinho — ordenou o juiz. — Diga-nos a identidade e o passado terrestre desse réu.
O escriba abriu o registro de cor preta e leu o seguinte:
— Chen Li, ministro da Justiça do Império do Meio. Depois de ter feito intrigas para afastar injustamente um de seus colegas, a fim de usurpar seu lugar, usou seu cargo para se enriquecer e estender seu poder sem escrúpulos. Culpado de corrupção, seqüestros, falso testemunho, luxúria, tortura e condenação de inocentes. Ele morreu no seu leito sem manifestar nenhum remorso.
Os juízes deliberaram e um deles leu a seguinte sentença:
— O referido Chen Li, tendo desonrado sua profissão que lhe havia sido confiada pelo Filho do Céu, é condenado a sofrer todo tipo de suplício que ele infligiu aos seus semelhantes. Ele será detido durante quatro ciclos celestes ena cela nove vezes do Inferno, a fim de purificar seu espírito pelos cinco elementos. Ele deverá em seguida reencarnar na forma de um cachorro, depois na de um burro e finalmente em uma família miserável.
O ministro protestou energicamente, clamou inocência, invocou erro judiciário, gritou que iria apelar, ameaçou os juízes. Os guardas, demônios com cabeça de cavalo, de porco, de serpente, irromperam na sala, amarraram o preso numa cadeira. Um dos juízes dirigiu-se ao condenado nos seguintes termos:
— Saiba que todas as coisas que você fez e todos os seus gestos, foram registrados escrupulosamente nesses arquivos e nada do que acontece no mundo pode nos escapar. A lista de seus crimes e delitos, bem comprida, foi verificada minuciosamente, e por isso mesmo a instrução desse processo demorou mais de um ano. Saiba igualmente que a justiça do Reino das Sombras é implacável e imparcial. Todo mérito é cedo ou tarde recompensado, toda falta, sancionada. E para refrescar sua memória e para que você acabe com essas recriminações, tragam o Espelho da Verdade.
Um auxiliar tirou de uma caixa ricamente trabalhada o espelho de sua alma, onde o condenado pôde ver com horror estampado na face todos os crimes odiosos de que ele era responsável. Depois, com um leve gesto, o juiz deu uma ordem e os guardas levaram o prisioneiro. Nesse meio tempo, chegou um mensageiro. Ele trazia um rolo e o entregou ao presidente do tribunal, que o estendeu sobre a mesa. Depois de fazer um sinal para que eu me aproximasse, o magistrado declarou:
— Sua Majestade Yan Lo, Rei dos Infernos, levou pessoalmente seu processo até o Imperador Celeste. Sua Grandeza Sereníssima permite que você reencarne por mais dois ciclos duodecimais terrestres e concede também, por merecimento, a extensão de sua descendência.
O prefeito Dong, que contava essa história com uma voz fraca e tremente, levou a mão aos olhos e murmurou essa última frase, antes de cair novamente em sono profundo:
— Eu então desmaiei e acordei novamente há pouco na minha cama.
Quatro semanas depois, a jovem esposa do prefeito ficou sabendo que estava grávida e um ano depois da curiosa doença de seu marido, deu à luz um bebê encantador, que segundo alguns adivinhos, trazia os sinais característicos de uma pessoa predestinada.

Todos dependem da boca

Certo dia, a boca, com ar de vaidade, perguntou:
- Embora o corpo seja um só, qual é o órgão mais importante?
Os olhos responderam:
- O órgão mais importante somos nós: observamos o que se passa e vemos as coisas.
- Somos nós, porque ouvimos. - disseram os ouvidos.
- Estão enganados. Nós é que somos mais importantes porque agarramos as coisas. Disseram as mão..
Mas o coração também tomou a palavra:
- Então, e eu? Eu é que sou importante: faço funcionar todo o corpo!
- E eu trago em mim os alimentos! - interveio a barriga.
- Olha! Importante é aguentar todo o corpo como nós, as pernas, fazemos.
Estavam nisto quando a mulher trouxe a massa, chamando-os para comer. Então os olhos viram a massa, o coração emocionou-se, a barriga esperou ficar farta, os ouvidos escutavam, as mãos podiam tirar bocados, as pernas andaram... mas a boca recusou comer. E continuou a recusar. Por isso, todos os outros órgãos começaram a ficar sem forças...
Então a boca voltou a perguntar:
- Afinal qual é o órgão mais importante no corpo?
- És tu boca - responderam todos em coro.
- Tu és o nosso rei!

Todos nós somos importantes e, para viver, temos de aprender a colaborar uns com os outros, é o que procura transmitir essa lenda moçambicana.


Moçambique

A mulher lobo




Havia um moinho encantado, de modo que ninguém poderia ficar lá perto, porque uma mulher lobo o assombrava. Um dia, um soldado foi para o moinho para dormir. Ele fez uma fogueira na entrada do moinho, subiu ao sótão, e viu um buraco no piso do chão, que dava para a entrada.
A pele está pendurada lá
A loba entrou e olhou em volta, para ver se podia encontrar algo para comer. Ela não encontrou nada, e depois foi em direção ao fogo, e disse: “Sai pele! Sai pele! Sai pele! Sai pele!”. Ela levantou-se em cima de suas patas traseiras, e sua pele caiu. Ela pegou a pele, e pendurou em um cabide, e fora da pele do lobo surgiu uma moça. A moça foi para perto do fogo, e adormeceu ali.
Ele desceu do sótão, pegou a pele, pregou ela rapidamente na roda do moinho, e em seguida, entrou, gritando por ela, e disse: “Bom dia moça! Como você está?”
Ela começou a gritar, “Venha pele! Venha pele! Venha pele!” Mas a pele não poderia vir, pois estava pregada.
O par se casou e tiveram dois filhos.
Assim que filho mais velho soube que sua mãe era um lobo, disse a ela: “Mamãe! Mamãe! Ouvi dizer que você é um lobo.”
Sua mãe respondeu: “Que absurdo você está falando! Como você pode dizer que sou um lobo?”
O pai das crianças foi um dia lavrar no campo, e seu filho disse: “Papai, deixe-me ir com você.”
Seu pai disse: “Venha”.
Quando eles foram para o campo, o filho perguntou ao pai: “Papai, é verdade que a nossa mãe é um lobo?”
O pai disse: “É.”
O filho perguntou: “E onde está a sua pele?”
Seu pai disse: “Aí está, pregada na roda do moinho.”
Mal o filho chegou em casa, que ele disse uma vez à sua mãe: “Mamãe! Mamãe! Você é um lobo! Eu sei onde é sua pele.”
Sua mãe lhe perguntou: “Onde está a minha pele?”
Ele disse: “Há, na roda do moinho”.
Sua mãe lhe disse: “Obrigado, meu filho, por me salvar.” Então ela foi embora, e nunca foi se ouviu dela”.


A. H. Wratislaw, Sixty Folk-Tales from Exclusively Slavonic Sources
(London: Elliot Stock, 1889)
(tradução brasileira)

As lebres e as rãs


Certo dia, uma Lebre queixou-se amargamente às amigas:
- Vivemos uma vida pavorosa porque temos medo de tudo: temos medo dos homens, dos cães, das águias, das raposas... enfim, somos obrigadas a dormir com um olho aberto e outro fechado, prontas para fugir.
Todas concordaram e lamentaram-se dizendo que mais valia morrerem do que viverem sempre assustadas, com medo de tudo e de todos.
Nisto, passaram por um charco. Quando as Rãs que aí viviam sentiram a sua aproximação, saltaram espavoridas para a água, fugindo delas.
Então, disse uma das Lebres:
- Amigas, deixemo-nos de lamentos! Vejam como também nós podemos assustar outros seres!

Moral da história:
Não há na terra um cobarde que não encontre outro mais cobarde ainda.


Fábulas de La Fontaine

O compadre da morte

Um lavrador pobre tinha tantos filhos que não sabia a quem convidar para padrinho dos recém-nascidos. Quase todos na aldeia eram com padres dele. Nascendo-lhe mais um filho, fico atrapalhado para saber quem levasse a criança ao batismo. Estava pensando no caso quando passou por ele um homem muito alto, magro, vestido de branco, que parou e o cumprimentou amavelmente. O lavrador perguntou se ele aceitava ser o padrinho do seu filho mais moço.
— Sabes quem sou eu?
— Não senhor! Mas me parece ser homem honrado e bom!
— Sou a Morte e aceito ser teu compadre. Acompanhou o lavrador à igreja, ficando seu
compadre. Quando voltaram a casa, a Morte disse:
— Escute lá. Não tenho dinheiro nem fazenda para o meu afilhado, mas posso fazer o meu compadre tornar-se um homem rico.
— Como será isso, meu compadre?
— Preste atenção! Diga a todos que é medico e vá atender aos doentes. Quando lá chegar me verá. Se eu estiver no lado da cabeça do enfermo, dê o que quiser e ele curar-se-á, mas se eu estiver aos pés da cama, o homem’está perdido.
— Pois é caso entendido, meu compadre.
Começou o lavrador, que era desempenado e afoito, a dizer-se curandeiro e visitar doentes por toda a vizinhança. Quando via a Morte perto da cabeceira do doente, punha-o sadio em poucos dias. Quando via a Morte aos pés do enfermo, receitava umas águas simples, cobrava o dinheiro e se ia embora, desenganando a todos.
Ganhou fama e proveitos crescidos, ficando rico e conhecido em toda a parte.
Já muito velho, o curandeiro foi chamado por um homem muito poderoso e rico. Apesar de relutar, dizendo-se cansado e não mais podendo aceitar consultas, foi obrigado a pôr-se numa carruagem e ir. Lá chegando, logo que olhou para o quarto do ricaço, avistou o compadre Morte, bem sentado aos pés da cama. A família do enfermo prometia os castelos de Espanha se o chefe recobrasse a saúde. O curandeiro imaginou um plano de burlar o pacto com a Morte e ganhar mais aquela fortuna. Mandou voltar o leito, de maneira a ficar os pés onde estava a cabeça e esta onde estavam os pés. A Morte, assim que voltearam a cama, foi-se embora, sem dizer uma só palavra.
O curandeiro recebeu uma gorda quantia e voltou para casa satisfeito.
Anos depois, a Morte veio visitá-lo e lhe disse: — Meu compadre, de hoje a um ano virei buscá-lo porque deve ter chegado o dia de sua viagem…
O Curandeiro ficou espavorido com o anúncio. Para enganar a Morte mais uma vez, quando se aproximou o dia fatal, pintou os cabelos de preto, pôs umas barbas retintas, convidou uns amigos e começou a beber e a rir, como se fosse outra pessoa.
Chegou a Morte e, não o vendo, perguntou pelo seu compadre. Todos os convidados responderam que o dono da casa não estava e nem sabiam quando ele voltaria.
— Ora, ora — monologou a Morte, desaponta da — como não posso perder meu tempo nem a mi nha viagem, vou levar esse barbadão bebedor…
E levou com ela o seu compadre.