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18/05/2011

O leão às riscas



Contam esta história em África, à volta da fogueira.
Façam de conta que também lá estamos a ouvir o contador desfiar a história, enquanto tange o corá, que é um especial instrumento de cordas esticadas sobre uma caixa de ressonância, feita de meia cabaça revestida de couro. Plim... Plam... Plim... Conseguem ouvir?
Dantes, muito antes de os homens se terem espalhado pela Terra, os bichos não eram como são hoje. Por exemplo: a zebra tinha a pele igual à que o leão tem e o leão, imaginem a excentricidade, tinha a pele às riscas como tem a zebra. Devia ficar-lhe bem...
A zebra que, nessa época, passava por amiga do leão, disse-lhe, um dia:
- Estive a pensar que devias mudar de aspecto. Assim, com essa pele tão vistosa, chamas demasiadamente a atenção e deves ter dificuldade em esconder-te, quando queres caçar de surpresa.
O leão reconheceu que, efectivamente, já sofrera alguns desaires na caça à conta da sua bizarra pele às riscas.
- Queres trocar pela minha? - propôs a zebra.
Ela, sem riscas, parecia-se mais com um burro, o que não era nada lisonjeiro para a vaidade da zebra. No fundo, ela invejava a pele listada do leão.
Acertado o negócio, trocaram de pele. Naquele tempo, tudo era fácil.
Vendo-se vestida de riscado, como tanto ambicionara, a zebra foi ter com a restante bicharia, a avisar, a torto e a direito:
- Cuidado que, agora, o leão é que anda com a minha pele.
O leão não gostou. Aquela badalação era prejudicial aos seus intentos e aos seus pergaminhos de majestade. De modo que, desde essa altura, que ele anda a exigir à zebra a devolução da pele.
Onde quer que veja uma a jeito, salta-lhe para os lombos e tenta com as garras arrancar-lhe a pele. Até agora ainda não conseguiu recuperá-la, o que é pena. Quem é que não gostava de ver um leão às riscas?


António Torrado

08/05/2011

Gigante procura casa



Era uma vez um gigante que andava à procura de casa. Tarefa difícil.
Os gigantes, antigamente, moravam em castelos e, segundo contam histórias desses tempos, a sombra que a sua imensa altura projectava sobre os povoados aterrorizava as gentes. Dantes.
Este não era má pessoa. À primeira vista não parecia, quem o olhasse de baixo. Mas, passada a primeira impressão, percebia-se que era um bom gigante.
Também tivera um castelo à sua medida. Dificuldades várias tinham levado o castelo à ruína. Chovia lá dentro, mesmo quando não chovia cá fora. Problemas de canalizações ou do que fosse, o facto é que a morada dos antepassados do bom gigante foi vendida por tuta-e-meia e, depois de grandes obras de restauro, transformada numa estalagem de juventude.
Mas, como o bom gigante já não era novo, teve de ficar à porta.
Dormir ao relento é muito desconfortável, qualquer que seja o tamanho de quem se veja obrigado a tal experiência. Por isso o gigante pôs-se a procurar casa.
Como se começou por dizer, a tarefa era difícil. Hoje, ninguém constrói casas para gigantes. Três assoalhadas, quatro assoalhadas ou pequenas moradias com um quintalinho, ainda se arranja. Mas um gigante precisa de mais espaço.
- Nem que andasse sempre de gatas conseguia viver em casas assim - lamentava-se o gigante.
Chegou a morar, um mês, numa casa, só por causa do corredor, que era muito comprido. Para dormir, estendia-se no corredor, mas não podia dobrar as pernas. Uma grande contrariedade para quem, como era o caso dele e é o meu, gosta de dormir de lado, com as pernas encolhidas.
Alugou depois uma vivenda, que tinha garagem. Dormia na garagem e dispensava a casa. Mas como a porta automática da garagem se abria, por qualquer movimento mais sacudido que fizesse durante o sono, apanhou um resfriamento e, muito constipado e desiludido, teve de desistir desta solução.
Mas porque é que ele não mandava construir uma casa à sua altura, como quem faz um fato no alfaiate, por medida? Isto qualquer um pode perguntar. Ele que responda.
- Não tenho dinheiro que chegue - explicava, muito pesaroso. - Uma casa para um gigante não é uma casa qualquer. Exige muito tijolo, muito cimento, muito azulejo. Se eu não fosse tão comprido...
Um médico, que ele consultou, disse-lhe, meio a sério, meio a brincar:
- Isso resolve-se. Corta-se um bocado. O difícil é a escolha. Ou as pernas ou a cabeça.
O gigante saiu do consultório, a correr. Nem pagou. Bem feito para o médico não se fazer de engraçado.
Ao fim de muitas voltas, alugou um armazém abandonado, à beira de um cais. Não tinha muitas comodidades, mas era avantajado como lhe convinha. A renda também era avantajada, o que já não lhe convinha tanto.
Para poder pagar o aluguer do armazém, teve de procurar trabalho. Vá que vá que conseguiu arranjar emprego, sem grandes demoras. E perto de casa.
O bom gigante trabalha, agora, nos carregamentos e descarregamentos dos barcos acostados ao cais. Faz as vezes de guindaste e dá muito boa conta do serviço. Um bocado cansativo, mas ele não se queixa.
A vida, hoje em dia, não está fácil para ninguém. Nem para os gigantes.

28/04/2011

Um sonho do Joca



Quando eu vi, na televisão, a estátua de D. Pedro IV, a cavalo numa bicicleta, e, depois das vistas sobre o Porto, passaram ao Mosteiro da Batalha, para mostrarem a estátua de D. Nuno Álvares Pereira, também montado noutra bicicleta, embora mais antiga, eu percebi que estava a sonhar.
Nesse sonho, eu apagava o televisor e descia à rua, a caminho da Praça da Figueira, em Lisboa. Lá estava o rei D. João I, todo ancho, em cima de uma bicicleta da mesma marca da do Condestável D. Nuno.
Seguindo pela Baixa fora, com um trânsito de ciclistas que não se faz ideia, ia ter ao Terreiro do Paço. No meio da praça, o rei D. José de bronze olhava o Tejo, sobre uma bicicleta, com a roda da frente no ar. Devia estar a fazer uma pirueta, em cima do pedestal, para chamar a atenção.
Seria difícil repararem nele, com tantas bicicletas paradas e empilhadas, à roda da estátua. Em vez de um parque de estacionamento de automóveis, o Terreiro do Paço tinha-se transformado num parque de estacionamento de bicicletas. Pequena diferença, afinal.
Onde se estranhava mais a diferença era no movimento do Tejo. Dantes, os cacilheiros atravessavam-no de lado a lado. Agora, no meu sonho, grandes ?gaivotas" de pedais, com dezenas de passageiros pedalantes, andavam de cá para lá, de lá para cá.
- Estou com umas dores na barriga das pernas que mal me tenho em pé - queixava-se uma senhora, ao desembarcar de um dos tais cacilheiros de pedais. - É que há uns que pedalam e outros que fazem de conta...
Os comboios partiam ao sinal de uma pistola de fulminantes, empunhada pelo chefe da estação. Cada passageiro, no seu respectivo lugar, punha-se então a pedalar com toda a força, como se estivesse numa corrida de bicicletas. Mas, neste caso, chegaram todos à meta ao mesmo tempo.
- Ainda há lugares? - perguntou um passageiro, na paragem seguinte.
- Se não vier muito carregado e se for enérgico de perna, pode entrar para o pelotão - respondia-lhe um senhor magrinho, montado num dos lugares-bicicleta.
E já com o comboio a deslizar sobre os carris, este senhor contava para os companheiros de viagem:
- Na semana passada, fui a Leiria, mas caí na asneira de entrar num comboio quase vazio. Demorei três dias a chegar.
- Estes comboios estão cada vez piores - comentaram em volta.
- Eu cá não me queixo - continuou o senhor magrinho. - A paisagem ao longo da linha é muito bonita e eu emagreci quinze quilos.
Via-se.
- Fiz esta viagem por recomendação do médico. Eu estava um bocado gordo. Mas acho que exagerei.
Os restantes passageiros também acharam, enquanto, suando, pedalavam juntos, a caminho de Sintra.
O país de Norte a Sul era uma permanente volta a Portugal em bicicleta. Auto-estradas, estradas, ruas, pontes, caminhos, cheios de ciclistas pedalando...
Uma bicicleta por cada português. Ou mais. Assim que uma criança deixava de andar de gatas, passava a andar de triciclo. Algumas, só depois é que aprendiam a andar em cima dos seus próprios pés.
Nunca vi tantas bicicletas juntas como no meu sonho.
Mal acordei, fui logo contá-lo aos meus pais, que estavam a tomar o pequeno-almoço. Um sonho tão lindo tinha de ser partilhado.
O meu pai, depois de me ouvir, poisou a chávena de café e olhou para mim, muito sério.
- Queres, então, que eu te compre uma bicicleta, para as próximas férias, é? - perguntou ele sorrindo.
Como é que o meu pai tinha adivinhado este meu secreto desejo, nunca revelado a ninguém?

António Torrado


17/04/2011

O rato modesto e o pardal optimista



Era uma vez um rato que todos os dias ia comer a um restaurante. Bom. Onde ele comia era no contentor do lixo do restaurante, o que não é bem a mesma coisa...
Quem também lá aparecia quase sempre, à cata de acepipes, era um pardal saltitante e optimista.
Às vezes, um homem, pobre e velho, também se abastecia no caixote, à procura de folhas de couve e cascas de fruta, para alimentar dois coelhos de estimação, que não eram esquisitos de boca.
Assim que o homem chegava, o pardal voava e o rato fugia, mas não voavam nem fugiam para muito longe, porque o caixote, ao fim e ao cabo, chegava para todos.
E a história podia ficar por aqui, se nós não soubéssemos que o restaurante teve de fechar, por falta de clientes. Não os do contentor, já se vê...
- A casa vai mudar de ramo - informou o pardal, que sabia sempre as últimas.
- ?Mudar de ramo"? Então as lojas também voam de árvore em árvore? - perguntou o rato, que sabia muito pouco.
- Não me faça rir, senhor rato - e o pardal riu-se. - Mudar de ramo quer dizer mudar de actividade. Em vez de um restaurante, vão lá pôr uma loja de ferragens.
- Talvez também tenha um bom contentor - lembrou o rato.
- Não me faça rir - e o pardal riu-se. - Na loja de ferragens há martelos, serras, pregos, parafusos, chaves, fechaduras e... armadilhas para pardais e ratoeiras para ratos...
- Que horror! - arrepiou-se o rato. - Assim vamos morrer de fome.
- Não me faça rir - e o pardal riu-se. - Eu não conto morrer de fome.
- Então o que é que vai fazer?
- Também vou mudar de ramo, isto é, vou voar para outra árvore, que fique perto de outro restaurante. Quem nos pode dar uma ajuda é esse homem que aí vem, à procura de folhas e de cascas.
- O quê? Ele tem um restaurante? - estranhou o rato.
- Não me faça rir - e o pardal riu-se. - O que ele tem é muita prática de contentores. Se formos atrás dele, havemos de encontrar um que nos agrade.
Assim fizeram. Um pelo ar e o outro pelo chão, seguiram disfarçadamente o homem. E muito se admiraram que a cidade fosse tão grande, os contentores tão abundantes e os restaurantes em tão grande número.
- E não vão todos, de um dia para o outro, transformar-se em lojas de ferragens? - perguntava o ingénuo do rato.
- Não me faça rir - e o pardal riu-se. - Até que o meu amigo se veja obrigado a comer limalha de ferro e rolos de arame, ainda há-de saborear muita paparoca gostosa. Não pense em desgraças e aproveite o que há, enquanto há.
Este pardal era, realmente, um optimista.


António Torrado

08/04/2011

Más combinações



O macaco fez-se amigo do cágado e propôs-lhe:
- Todos os bons amigos se visitam. Um dia tu convidas-me para ir a tua casa e ofereces-me de jantar e, no dia seguinte, eu convido-te para vires a minha casa e retribuo-te o jantar. E assim por diante... Concordas?
O cágado concordou. Preparou um excelente banquete e ofereceu-o ao macaco que se empanturrou até não poder mais.
- Amanhã dou-te eu de jantar - disse o macaco macacão, arrotando um grande arroto, lá bem do fundo do estômago repleto.
Quando o cágado entrou em casa do macaco, a refeição estava pronta a servir, mas numa mesa muito alta a que só o macaco chegava.
- Serve-te à tua vontade - disse-lhe ele.
O cágado pôs-se em bicos de pés. Nem conseguia ver a comida com que o macaco se alambazava. Mas como tinha muito bom feitio não disse nada. Nem comeu.
- Amanhã é a tua vez de me receberes - lembrou o macaco.
Novo banquete preparado pelo cágado. Nova barrigada do macaco.
No dia seguinte, em casa do macaco, o jantar servido na mesa muito alta voltou a deixar o cágado com a barriga a dar horas. Aquilo parecia de propósito. E era.
O bom do cágado, embora delicado e discreto, achou que ali havia abuso. E havia.
- Amanhã tenho uma surpresa para ti - disse o cágado ao macaco. - Vou servir-te o jantar ao ar livre. Tudo comidinha fresca...
O macaco, grande glutão, arregalou os olhos de contente. Aquele contrato estava a sair-lhe de feição.
Mas, no dia seguinte, quando viu os vários pratos de que se compunha o banquete cada um em cima de um pedregulho ou ilhota do lago, que servira de piscina ao cágado, o macaco desanimou.
- Como é que eu lhes chego? - perguntou, desconsolado, o macaco.
- Nada como eu. A água está óptima - respondeu-lhe o cágado, a rir-se baixinho.
Ora, como se sabe, os macacos detestam a água...
E assim se desfez a combinação entre o macaco e o cágado. Também se não perdeu grande coisa.

28/03/2011

Um A no peito



Era uma vez uma T-shirt com um A impresso no peito. Ou melhor: era uma vez um rapazinho com uma T-shirt, que tinha um A impresso no peito. Um A grande. Muito bem desenhado. Com dois traços assim, a descer, cada qual para seu lado, e outro assim, a cortá-los, na horizontal. Claro que todos sabem como é que se escreve um A. Mas deixem-me também a mim provar que sei...
Perguntavam ao menino, o tal da T-shirt com um A impresso no peito:
- Como é te chamas? António?
- Não.
- Alberto?
- Não.
- Álvaro?
- Não.
- Ah! Pois claro. Chamas-te André!
- Não.
- Agostinho?
- Não.
- Almiro?
- Não.
- Alfredo?
- Não.
- Alípio?
- Não.
- Albano?
- Não.
- Não é possível! Então como é que tu te chamas?
- Timóteo.
- Timóteo? Mas não tem A. Espera: estás a usar uma T-shirt emprestada?
- Não.
- Nesse caso o A é nome de família... Chamas-te Timóteo Alves? Almeida? Amorim? Andrade? Antunes?
Não havia meio de acertar.
Só então é que a T-shirt se explicou:
- Não gosto que me tratem por T-shirt. Chamo-me Camisola de Manga Curta e de Algodão. O A de algodão é nome de família.
Foi a partir desta altura que as outras peças de roupa passaram a exigir, bem assinaladas, as respectivas letras iniciais do apelido. L de lã para as meias. S de seda para as blusas. F de feltro para as calças.
E se não fizermos a vontade, a roupa já disse que deixa de nos servir.
Que transtorno, ehm!? Principalmente no Inverno...

António Torrado

17/03/2011

Uma ideia de pulga



Era uma senhora que tinha uma menina. Era uma menina que tinha um cão. Era um cão que tinha uma pulga. Era uma pulga que tinha uma ideia.
Que ideia seria?
Não sabemos. E, como não sabemos, o melhor é perguntar:
- Ó pulga, que ideia é a tua?
- Uma grande ideia, uma ideia que vai mudar tudo. Uma ideia ex-tra-or-di-ná-ri-a!
E, ao dizer isto, a pulga saltitava de entusiasmo. Saltos de pulga em pêlo de cão dão comichão. O cão, que não era de cócegas, parou e coçou-se. A menina do cão parou, à espera do cão. A senhora, que levava a menina pela mão, parou também. Como iam a atravessar uma rua de muito movimento, parou o trânsito. Nas outras ruas, que iam dar à rua de muito movimento, parou tudo - automóveis, camionetas, autocarros... Buzinavam os carros. Gritavam as pessoas:
- Então esta história anda ou não anda?
E nós, para a pulga:
- Deixa-te de saltinhos e salta lá com essa ideia extraordinária, que estamos todos à espera.
- É muito simples - disse ela. - Para que as histórias com cães, meninas e senhoras possam ir à sua vida, sem serem interrompidas pelos saltos de uma pulga, eu proponho, eu exijo, que, daqui em diante, as pulgas deixem de usar saltos altos.
- Ah! - admirámo-nos nós, que não sabíamos que as pulgas usavam saltos altos.
A pulga continuou:
- Nós, de saltos altos, não conseguimos passar despercebidas, quando pisamos, quando saltamos. Por isso eu proponho, eu exijo, que as pulgas, em vez de sapatos de saltos altos, passem a calçar pan-tu-fas ou sapatinhos leves, que não chamem a atenção ao pisar.
Mas parece que a ideia não pegou. Ainda ontem vimos um cão a coçar-se, furiosamente. Ter-se-ão esgotado as pantufas, no mercado das pulgas? Nada disso. Era um colégio de pulguinhas novas, na aula de ballet. Todas de sapatilhas leves, a dançar em pontas... Estas ainda vão esperar muito tempo até usar pantufas...


António Torrado

08/03/2011

Pão, pão? queijo, queijo



Num banco de jardim
À hora da merenda,
O João e o Joaquim
Dispensam legenda.


O João vai ao saco
E põe-se a comer
Um pão e só pão.
Não há que saber.


Agora é o Joaquim
Que no mesmo ensejo
Destapa do saco
Um naco de queijo.


Mastigam, mastigam
Untando o sabor,
Embora o não digam
Já soube a melhor.


Comer sempre queijo,
Comer sempre pão,
Já chega e sobeja,
Já causa aversão.


?Troquemos, Joaquim!"
?Pois sim, ó João!"
E o pão e o queijo
Mudaram de mão.


?Agora sim, ó Joaquim!"
?Agora sim, ó João!"
Mas, passado um bocejo,
Parece que não.


E eis senão quando
Os dois mastigantes
Decidem voltar
Ao que comiam dantes.


Mas pensam para a frente
Para trás e para o lado
E assim inventaram
O nunca provado.


Inventam o pão com queijo
Ou o queijo com pão,
Provam tudo a meias.
Que grande invenção!


Um bocado de queijo,
Um bocado de pão.
?Para ti, ó Joaquim"
?Para ti, ó João"


Que desta simples história
Escrita sem preceito
Que mais não consigo
Tirem bom proveito.


E comam pão com queijo
Com um vosso amigo.

28/02/2011

Mais um



Era uma vez uma galinha pedrês que só sabia contar até três.
Logo aconteceu nascerem-lhe quatro pintainhos.
Ela contava-os assim:
- Um... dois...três... e mais um.
- Três mais um, quatro - dizia-lhe o pato.
Mas ela não havia meio de aprender. Sempre vigilante à beira dos filhos, a pedrês ralhava:
- Não impliques com teus irmãos, Mais Um! Não queiras a comida toda para ti, Mais Um!
Ficou a chamar-se Mais Um. Frango e depois galo, como era bruto e pespontão, ganhou o nome de Mais Um, ?O Terrível".
As galinhas que o dissessem, coitadas, de crista sempre a sangrar das bicadas do tiranete. Todo o povo da capoeira o detestava. E com razão.
Mais Um, ?O Terrível", cantava de alto. Estou mesmo convencido que se não fosse ele o primeiro a alarmar os campos adormecidos com os seus gargarejos de madrugador, os restantes galos do povoado, por acanhamento, nem cantariam.
Foi o que aconteceu, ainda há pouco. Ontem, à espera da voz de comando do Mais Um, não houve galo que cantasse a alvorada. Que acontecera?
Os pombos do pombal é que espalharam a notícia:
- Morreu Mais Um às mãos da Conceição do facalhão.
- Mais Um sacrificado, em canja e em guisado...
- Lá está Mais Um no prato, duro que nem sola de sapato...
Houve um certo alívio nos galinheiros. Mas, agora me lembro que hoje os galos ainda não cantaram. Porquê? Talvez um secreto mal-estar se tenha espalhado pela criação. Imagino os galos no poleiro, cada um por si, a matutar: ?Foi-se Mais Um... Quem irá, depois?" Pensamentos destes não dão mote para cantigas.

António Torrado

17/02/2011

O espantalho aventureiro



Era uma vez um espantalho. De braços abertos, no meio da seara, grande chapéu desabado e camisa ao vento, o espantalho aborrecia-se:
- Estou aqui especado, a guardar o que não é meu e nem me pagam o encargo. Até os pardais já troçam de mim. Vou mas é desempregar-me.
E desempregou-se mesmo, isto é, saltou para o chão, atravessou a seara e foi dar à estrada.
De princípio, custou-lhe a andar. Tinha as pernas trôpegas, claro. Em compensação, podia descansar os braços. Que alívio! Pelo caminho ia pensando: ?Preciso de arranjar trabalho que me dê maquia. Hei-de poupar, porque não sou de grandes gastos e, um dia, com uma bolsa cheia de dinheiro dos meus ganhos, compro uma terra. Uma terra para eu guardar. Uma terra minha."
Ele a perder-se nestes sonhos e uma caravana de saltimbancos a passar.
- Venha connosco - convidaram eles. - Um homem de palha, no nosso espectáculo, é novidade que enche um programa.
Ele foi, que o trabalho não era difícil. Dava uns saltos, fazia umas cabriolas, umas palhaçadas e recebia dinheiro. Com o primeiro ordenado comprou uma bolsa e na bolsa meteu as moedas, que ia ganhando. Nada mau! Mas, um dia, apanhou um susto. Imaginem que o homem-vulcão, que deitava fumo pelos ouvidos e labaredas pela boca, cuspiu, num dos seus ensaios, uma faúlha ainda espevitada, que deitou fogo ao homem de palha. Vá lá que lhe acudiram a tempo, senão a história acabava mesmo aqui.
- Ná! Isto de ser artista de circo tem os seus perigos - disse o chamuscado espantalho, dizendo adeus aos saltimbancos.
No largo da vila, havia um editorial que convocava voluntários para o exército. O espantalho alistou-se.
De arma ao ombro, percorreu caminhos, guerras, países. Foi considerado um herói. Recebeu medalhas e louvores. Pois pudera: as balas atravessavam-no, que o sangue não corria, porque sangue não havia. As lanças trespassavam-no, que dor nunca sentia, porque nervos não havia. Não, nunca caía o espantalho no meio da batalha. Era tal a valentia.
Mas também se desconsolou de ser soldado. Certa vez, no quartel, enquanto dormia, uma mula sem cerimónias meteu o dente ao herói. E se estava com fome.
Assustou-se o soldado com o desplante do animal, que não conhecia os superiores. Pediu a demissão.
E agora, espantalho?
Consultou a bolsa, que sempre trazia à cinta, e contou as moedas, umas grandes, outras pequenas. Dava para comprar uma horta? Dava, desde que fosse pequena - uns palmos de terra com um espantalho ao meio.
Foi o que fez. Colocou-se de braços abertos, a proteger a propriedade, e ali ficou, de grande chapéu desabado, camisa ao vento... Tinha sido espantalho, saltimbanco, mercenário. Voltava a ser espantalho - perdão! - proprietário! Estava feliz? Não sabemos.
- Também agora os pardais troçam de mim - queixava-se ele, quando pouco mais ou menos a história chega ao fim.
Para nós, que aqui o vemos, o fim voltou ao princípio, ao ofício de espantalho. Há muitas histórias assim...


António Torrado


08/02/2011

O cão Farol




Quem me contou esta história foi o senhor Tomé. Passo-lhe a palavra:
?O meu cão Farol era um portento. Um faro que só ele! Não há-de haver em todo o mundo e arredores um cão caçador que se lhe compare.
Felpa de coelho que ele cheirasse, num rasgo de urzes, era, daí a nada, mais um trangalhadanças preso ao meu cinto. Sim, eu é que dava o tiro, mas o mérito todo da caçada pertencia-lhe.
Às vezes, dava comigo a pensar se o caçador não seria ele... Bem vistas as coisas, o Farol é que me levava atrás, ele é que buscava, ele é que apanhava o rasto, ele é que corria, ele é que levantava a caça. E eu sempre atrás. Dar o tiro de remate não custava nada.
Quando eu via o coelho a fugir aos ziguezagues, gritava-lhe, a avisar:
- Pára, senão disparo.
Como nunca nenhum coelho parou ao meu mandado, tive sempre de cumprir o prometido. Sem falhar um.
O Farol trazia-mo, depois, na boca, a babar-se de riso, como quem me dá os parabéns pela pontaria, mas isso que importância tinha, comparado com o esforço dele? Fazia-lhe uma esfregada na peitaça, sinal e festa de agradecimento, que mais parecia pedido de desculpa por tirar-lhe o coelho dos dentes.
Estou convencido que, mesmo sem festas, o Farol me devolveria a caça. Ele era um mansarrão. Um companheirão. Um cão.
Envelheceu como eu envelheci. Já nos ia faltando genica para correr montados. Mas passei sempre as culpas para mim:
- Sabes, Farol, o teu dono está um pitosga. Não acerta nem numa perdiz no choco. Tremem-lhe as mãos. Tremem-lhe as pernas e já não troca as pantufas pelas botas de caçador.
Não era tanto assim, mas eu tinha de exagerar um bocado.
- Por este andar, amigo Farol, vais ter de arranjar outro dono que te leve à caça.
À maneira de resposta, o Farol poisava a cabeça nos meus joelhos, como se quisesse dizer que já não estava em idade de mudar de dono.
Na época da caça é que se enervava mais. Ouvia os outros latirem lá fora, mais os estampidos das caçadeiras. Talvez ainda lhe chegasse às narinas o cheiro a medo, que vinha das luras, das moitas, do esconso das matas.
Nessas ocasiões, para entretê-lo, sabe o que é que eu fazia? Sombras chinesas, no muro do quintal:
- Olha o coelho, Farol. Busca! - gritava-lhe.
Ele saltava. A sombra robusta do cão caçador cobria a cabeça do coelho, que eu desenhara, à contraluz, com a habilidade das minhas mãos. Desde criança que eu não brincava a isto. Para o que me havia de dar, chegado a velho...
- Olha, agora, Farol, esta lebre. Corre!
E a lebre desaparecia, engolida pela sombra do Farol.
Dei-lhe as satisfações que podia. Só não estava na minha mão prolongar-lhe a vida..."
O senhor Tomé, no fim do contar, enxugou uma lágrima. Depois, ainda disse, enquanto fixava, tristemente, o muro do quintal, caiado, muito branco, à luz do sol:
- De consolação fica-me a memória do belo cão que ele foi.
A cabeça bonita de um cão perdigueiro recortou-se, então, em sombras nítidas, na caliça do muro.

02/02/2011

Zé do Telhado



O Zé do Telhado é o meu gato preferido. E suponho que, para ele, também sou a pessoa preferida. Pois é: somos dois bons amigos.
Além de amigos, somos vizinhos. Ele mora uns metros acima da minha casa, no telhado do prédio, onde ocupo o último andar. Tem lugar privativo junto à chaminé que é o sítio mais quente. Na Primavera, no Verão e no Outono, o telhado é para ele casa, jardim, passeio, miradoiro.
No Inverno, pede-me hospedagem. E, sempre que chove, vem fazer-me uma visitinha, como quem não quer a coisa. Tenho sempre um pratinho de fiambre para o receber.
Entra-me pela janela da trapeira. Quando a janela não está aberta, tem maneira de chamar a atenção, raspando as unhas nos vidros da clarabóia, o que provoca um ruído fininho de arrepiar. Vou logo abrir-lhe a janela.
Ele anda na sua vida e eu na minha, mas gosta de saber-me em casa. Nos dias em que sua excelência prefere o telhado, vai não vai passa rente à trapeira e, muito descaradamente, espreita para dentro. Se me vê, debruçado à secretária, a trabalhar, o Zé do Telhado descansa e segue telhas adiante.
Há dias, houve um grande desastre. Exactamente o que imaginam: o Zé do Telhado caiu do telhado ao pátio. Altura de três andares, sem asa-delta. Nem pára-quedas. Um baque e tanto.
Andavam a arranjar as antenas de televisão. Rolos de fio, ferramentas e confusão a mais, em território de gato pouco dado a novidades. Ainda por cima vinham pôr um prato de antena parabólica, junto à chaminé. Que afronta!
O Zé do Telhado sobressaltou-se, indignou-se, desequilibrou-se e... foi parar ao rés-do-chão.
Dizem que os gatos têm sete bofes ou sete vidas. Mas só têm quatro patas. O Zé do Telhado partiu duas.
O veterinário onde o levei cuidou dele com todo o esmero e o Zé pouco se queixou.
Queixou-se, depois, já em minha casa, quando se viu com as patas presas a duas talas com ligaduras e proibido de saltar para o telhado. Janelas todas fechadas.
Mia, desesperado, pela casa toda. Gatos e mais gatos espreitam pelos vidros da janela da trapeira, à procura dele. Hão-de estranhar-lhe a falta.
Estamos em pleno Verão e eu não posso abrir as janelas. O calor é sufocante deste terceiro andar batido pelo sol e eu suo em bica. Mais vou suar até o Zé do Telhado ficar bom.
- Lá para o meio do Outono, tiro-lhe as talas - promete-me o veterinário.
Mas se ainda estamos em Agosto...

28/01/2011

Ele há cada nome

Há nomes que nem inventados. Mas são verdadeiros. Eu garanto, porque os colecciono e cato, um a um, pelas listas telefónicas do país.
A família Barriga, por exemplo, tão velha como Portugal. Já no tempo do nosso primeiro rei, o bravo D. Afonso Henriques, vivia, na província da Beira, um Martim de Barriga.
Que ninguém se admire. Se há tantos Costas, porque é que não há-de haver alguns Barrigas?
A família cresceu, espalhou-se e chegou aos nossos dias. Conheci, há tempos, uma senhora, descendente do remoto beirão Martim de Barriga. Chama-se Maria das Dores, mais precisamente Maria das Dores de Barriga, o que talvez lhe cause alguma indisposição.
E o caso do Dr. Pedro Branco que se casou com uma senhora de apelido Feijão e tiveram um filho Feijão Branco?
Mais ou menos semelhante, e também verdadeiro, foi o caso ou casamento que uniu D. Maria José Coelho com o Engenheiro Manuel da Silva Guisado. O filho do casal chama-se Abel Coelho Guisado e não se importa.
Nem tem nada com que importar-se, porque, verdade verdadinha, há nomes muito mais esquisitos.
Contou-me a minha avó que um casal já com muitos filhos foi brindado com mais uma criança, um perfeito rapazinho que havia de se chamar...
- André - disse o pai.
- João - disse a mãe.
- Fernando - disse um avô.
- Camilo - disse o outro avô.
- Manuel João - disse uma avó.
- João Manuel - disse a outra avó.
Não se entenderam. Quando, na cerimónia do baptizado, foi preciso assentar o nome do bebé no livro dos registos, ainda a família não tinha chegado a uma decisão. Até que a mãe, para safar a encrenca, ditou ao sacristão, que estava de pena suspensa sobre o livro dos registos:
- Olhe, senhor sacristão, o nome do meu filho fica João, até ver.
E o obediente sacristão escreveu assim o nome do rapaz: ?João Até Ver Martins".
Mas, para o resto da vida, ficou só conhecido pelo João Até Ver.
- Pouco importa - concluía a minha avó, que esta história me contou. - O que vale é que cada um seja conhecido pelo que de bom fizer. Se for pelo que de mal fizer, então, sim, já terá razão para envergonhar-se do nome.
Grandes verdades ensinava a minha avó, de nome Olívia Torrado, que, todos concordarão, não é um nome assim muito vulgar...



Há nomes que nem inventados. Mas são verdadeiros. Eu garanto, porque os colecciono e cato, um a um, pelas listas telefónicas do país.
A família Barriga, por exemplo, tão velha como Portugal. Já no tempo do nosso primeiro rei, o bravo D. Afonso Henriques, vivia, na província da Beira, um Martim de Barriga.
Que ninguém se admire. Se há tantos Costas, porque é que não há-de haver alguns Barrigas?
A família cresceu, espalhou-se e chegou aos nossos dias. Conheci, há tempos, uma senhora, descendente do remoto beirão Martim de Barriga. Chama-se Maria das Dores, mais precisamente Maria das Dores de Barriga, o que talvez lhe cause alguma indisposição.
E o caso do Dr. Pedro Branco que se casou com uma senhora de apelido Feijão e tiveram um filho Feijão Branco?
Mais ou menos semelhante, e também verdadeiro, foi o caso ou casamento que uniu D. Maria José Coelho com o Engenheiro Manuel da Silva Guisado. O filho do casal chama-se Abel Coelho Guisado e não se importa.
Nem tem nada com que importar-se, porque, verdade verdadinha, há nomes muito mais esquisitos.
Contou-me a minha avó que um casal já com muitos filhos foi brindado com mais uma criança, um perfeito rapazinho que havia de se chamar...
- André - disse o pai.
- João - disse a mãe.
- Fernando - disse um avô.
- Camilo - disse o outro avô.
- Manuel João - disse uma avó.
- João Manuel - disse a outra avó.
Não se entenderam. Quando, na cerimónia do baptizado, foi preciso assentar o nome do bebé no livro dos registos, ainda a família não tinha chegado a uma decisão. Até que a mãe, para safar a encrenca, ditou ao sacristão, que estava de pena suspensa sobre o livro dos registos:
- Olhe, senhor sacristão, o nome do meu filho fica João, até ver.
E o obediente sacristão escreveu assim o nome do rapaz: ?João Até Ver Martins".
Mas, para o resto da vida, ficou só conhecido pelo João Até Ver.
- Pouco importa - concluía a minha avó, que esta história me contou. - O que vale é que cada um seja conhecido pelo que de bom fizer. Se for pelo que de mal fizer, então, sim, já terá razão para envergonhar-se do nome.
Grandes verdades ensinava a minha avó, de nome Olívia Torrado, que, todos concordarão, não é um nome assim muito vulgar...

António Torrado


17/01/2011

O homem de barbas azuis



Estava um lenhador sentado, junto à margem de um rio, de queixo nos joelhos, muito triste, quando por ele passou um homem de barbas azuis.
Um homem de barbas azuis? Como pode ser isso? Pode, pois.
Nas histórias tudo pode acontecer. Então, era um feiticeiro?
Talvez fosse. Continuam a aparecer nas histórias. Uns de barbas encarnadas, outros de barbas verdes... Este tinha-as azuis, que mal há nisso?
O lenhador nem reparou na cor das barbas do homem. Estava tão desolado, a olhar para o rio, que tudo o mais lhe era indiferente.
- Aconteceu-lhe alguma desgraça? - perguntou o homem de barbas azuis, numa voz que parecia de pessoa bondosa.
- Uma grande desgraça - respondeu o lenhador. - Estava a dormitar, cansado do trabalho, ao fresco da beira-rio, quando o machado me escorregou. Foi para o fundo e eu, que não sei nadar, não tendo machado, fico um inútil.
- Deixe que eu trato disso - tranquilizou-o o homem de barbas azuis, despindo a camisa e as calças e tirando meias e sapatos.
Mergulhou nas águas do rio, que estava limoso e redemoinhento. Um perigo. Voltou ao cimo com um machado de oiro.
- É este? - perguntou.
- Ó meu senhor, esse não é. O meu machado é ferramenta de pobre.
O homem de barbas azuis mergulhou de novo, para logo voltar à superfície, empunhando um machado de prata. Claro que também aquele não era o machado do lenhador.
Ao terceiro mergulho trouxe-lhe o machado perdido.
- E, como és honesto e sincero, levas também os outros machados - disse-lhe o homem de barbas azuis.
Pela primeira vez o lenhador reparou nas barbas do seu benfeitor. Assustou-se, atrapalhou-se e, tartamudeando uns agradecimentos em voz sumida, abalou com os três machados. Entardecia.
Antes de chegar a casa, encontrou um vizinho a quem contou a maravilha, exibindo os machados de oiro e de prata que refulgiam, à luz do sol a despedir-se.
O vizinho, que vinha da lavoura numa carrocita a desfazer-se, nem quis ouvir a história segunda vez. Puxou as rédeas e fez a mula trotar por barrancos, até à beira do rio.
Estava a noite a descer. O vizinho do lenhador, num afogadilho, desatrelou a mula e atirou a carroça com tudo dentro, ribanceira abaixo. O rio engoliu-a num trago.
Depois ainda atirou o relógio, a bolsa com moedas, o colete e a camisa para o meio do rio. E pôs-se a gritar, numa grande choradeira:
- Ai quem me acode, que perdi todos os meus pertences e não sei nadar!
Relanceava os olhos cobiçosos para as moitas que escureciam, à espera do tal bruxo de barbas azuis. De mãos nas cavas, tiritando da friagem da noite, gritou e voltou a gritar:
- Quem me devolve os meus ricos bens, a carroça de prata, com rodas de oiro e a riqueza toda que lá ia dentro, mais a camisa e o colete com botões de oiro e a bolsa cheia de libras, mais o relógio de oiro, ai quem me acode?!
A mula pastava solta, de dente arreganhado para a ervinha tenra. Ou estaria a rir-se?
Mais se ria, à socapa, a Lua, cheia e chapada, no meio da noite.
E o homem, quase nu, numa aflição, cada vez mais a sério:
- Quem me salva? Quem me acode?
Mas ninguém lhe acudiu.

António Torrado

08/01/2011

Hóspedes indesejáveis



Depois do almoço, altura de menor movimento na estalagem, o senhor Pestana, protegido pelo balcão da entrada, lia tranquilamente o seu jornal. Às vezes dormitava, o que não era de censurar. Se, nos respectivos quartos, os hóspedes faziam a sua sesta, porque não havia o hospedeiro de fazer o mesmo?
Foi numa ocasião destas que uma vozinha sobre o balcão perguntou:
- Tem quartos livres?
O senhor Pestana levantou os olhos do jornal, mas não viu ninguém. Debruçou-se do balcão e espreitou para o outro lado, não fosse o cliente de baixa estatura. Nem sombra. ?Adormeci, foi o que foi, e já estava a sonhar com mais hóspedes", pensou, resignadamente, o senhor Pestana.
- Afinal, tem ou não tem quartos disponíveis? - voltou a perguntar a vozinha, já com alguma impaciência.
Quem tem voz, tem corpo. Para não prolongar o mistério, vamos já esclarecer que o corpo desta voz tinha o tamanho de uma pulga. Era efectivamente uma pulga a causadora da confusão.
- Pretende um quarto com vista para o lago? - perguntou o senhor Pestana, que não se perturbava por tão pouco.
- A vista é o menos - respondeu a pulga. - Mas queremos sossego.
- Queremos? - estranhou o senhor Pestana. - Quantas são?
- Vinte e cinco, contando comigo. É um grupo de excursionistas.
O senhor Pestana estava desolado. Não tinha quartos que chegassem. Mas não quis perder a oportunidade:
- Se coubessem todas em três quartos...
A pulga aceitou a sugestão. Não tencionavam demorar-se muito. Duas noites, se tanto.
- Também precisamos de instalações para o nosso transporte - lembrou a pulga. - Uma casota chega.
- Casota para a camioneta? - admirou-se o senhor Pestana.
A pulga riu-se. Tinha um riso fininho, irritante esta pulga.
- Nos nossos passeios, deslocamo-nos sempre de cão. Temos um cão privativo e muito felpudo, que nós guiamos para onde queremos.
O senhor Pestana começava a arrepender-se de ter dado hospedagem aquelas pulgas presumidas.
Na manhã seguinte, mais se arrependeu. Vieram ter com ele hóspedes antigos e respeitáveis queixar-se de que tinham dormido mal, assaltados durante a noite por cócegas e picadas esquisitas, inconvenientes. Estão a entender, não é verdade? Efectivamente, algumas excursionistas tinham-se enganado no número do quarto...
O senhor Pestana, muito incomodado, foi ter com a responsável pela excursão:
- Desculpem, mas não podem continuar cá. Está em jogo a reputação da minha estalagem.
As pulgas compreenderam a situação. Pagaram a conta e chamaram o transporte privativo, para mudarem de poiso. Quando foram fazer a contagem, eram vinte e oito.
O senhor Pestana preocupou-se:
- Como apareceram essas três a mais?
- Dizem que são inglesas - esclareceu a pulga chefe. - Parece que as viram num fox-terrier, pêlo de arame, de um ?mister" qualquer. Agora querem acamaradar connosco. Nós não nos importamos.
O senhor Pestana também não se importava. Desde que deixassem a estalagem, era-lhe indiferente, mas pelo sim pelo não, andou a espalhar insecticida por baixo das camas de todos os quartos.

28/12/2010

Queda para o negócio



Um rato, que andava a viajar, chegou, a certa altura, à margem de um rio profundo. Nem ponte nem barco.
Uma rã, que andava por ali, ofereceu-se para levá-lo até ao outro lado. Como paga pelo serviço pedia vinte mosquitos.
- Mosquitos não tenho, que não é moeda do meu uso - disse-lhe o rato. - Mas se aceita o câmbio, disponho de notas de mais valor, na minha bagagem. Quer receber duas fatias de queijo pelo trabalho?
- Três - respondeu a rã, que tinha queda para o negócio.
O rato acedeu. Também não lhe restava outra alternativa...
A rã pôs-se a nadar, com o rato encavalitado no dorso.
Faltavam talvez dois terços da viagem, quando a rã disse:
- Afinal você pesa mais do que eu supunha. Levo quatro fatias pelo transporte.
O rato, que não sabia nadar, olhou para a água, em corrente assustadora, e disse que sim. Nem tinha outro remédio.
Mais adiante, voltou a rã:
- Estive a pensar que quatro fatias não chegam. Ficamos em cinco. O que é que acha?
O rato atemorizado achou bem. Se achasse mal, o que o esperaria?
Estavam a chegar ao sítio mais fundo do rio.
- Amigo rato, vamos concluir o negócio. Eu por doze fatias levo-o à outra margem. Combinado?
- Combinado... - disse o rato, a tremer de medo.
E assim continuaram, até terem a margem à vista. Mais calmo, o rato falou assim:
- Eu não sou de regatear, mas sobre aquela nossa conversa de há bocado, compete-me dizer que acho o seu preço muito pesado.
- Mau! - sobressaltou-se a rã. - Então em que ficamos?
Estava a margem à largura de um salto. Foi o salto que o rato deu, salpicando-se todo. Mas estava em terra firme.
- Então, afinal, em que ficamos? - perguntou a rã, a boiar de bruços.
- Eu fico aqui, agora você vá para onde lhe apetecer, que não quero ser eu a mandá-la - respondeu o rato.
E desapareceu, pelo meio de uns caniços.
- Já me tinha constado que se não deve concluir negócios com ratos - disse de si para si a rã. - São muito pouco honestos...
E o que diria o rato, se pudéssemos ouvi-lo?

António Torrado



23/12/2010

A filhó dourada



A história que vou contar chama-se “A Filhó Dourada”.
Douradas, muito douradinhas são elas todas, empilhadas na travessa, como um castelo por conquistar.
As últimas são as melhores. Têm mais açúcar, desfazem-se mal lhes tocamos… A gente pega delicadamente numa das que sobraram, dá-lhe um impulso que a ponha a deslizar na travessa, para ensopar bem e, num gesto rápido, sem pingar a toalha, mete-a na boca. O estalar dela, de encontro aos nossos dentes, é música com açúcar.
Naquela ceia de Natal, todos tinham comido filhós.
— Estão uma delícia — comentavam.
E, porque estavam uma delícia, não tinha sobrado senão uma, no fundo da travessa. Era uma ilha minúscula e redondinha, rodeada por um mar de açúcar. Todos os olhos fitavam a filhó, que estalava em reflexos de oiro. Uma tentação.
À roda da mesa, diziam para o avô:
— Só ficou uma filhó. Porque é que a não come?
O avô, então, virava-se para a avó e segredava-lhe:
— Come tu, anda lá.
A avó não queria.
— Comam vocês — dizia ela, apontando para a filhó e para os filhos.
— Eu já comi muitas — desculpava-se um.
— Também tenho a minha conta — dizia outro.
— Nem mais um bocadinho — declarava um terceiro.
Parecia que nenhum queria tomar a responsabilidade de comer a filhó. No entanto, ela lá estava muito dourada, a recortar-se no meio da calda de açúcar. Apetecia mesmo ver e… comer.
Mas, à volta da mesa, não se decidiam. E a filhó, a última filhó, andava de boca em boca, sem se fixar na boca de ninguém. De oferta em oferta, chegou a vez da tia Luísa propor:
— Os pequenos que comam. Sempre quero ver qual dos meus sobrinhos chega primeiro à filhó.
Os meninos não se precipitaram sobre a filhó apetitosa, como seria de esperar. Cada um ficou à espera do primo ao lado, e o primo ao lado do outro primo ao lado… Fosse por acanhamento ou fosse por que fosse…
— Afinal ninguém a come — observaram do outro extremo da mesa. — Esta filhó deve ser mágica.
Olharam uns para os outros e sorriram.
A ceia estava no fim. Os meninos tinham sono. O avô cabeceava. Começou a ouvir-se o arrastar das cadeiras. Era a debandada.
— Amanhã se arruma a casa — disse a tia Luísa, e apagou a luz da sala de jantar.
Quando todos já se tinham ido embora, a filhó, no lusco-fusco, ao meio da mesa, começou a brilhar. Intensamente. Acreditem ou não, como se tivesse luz dentro. Como um pequeno sol ou um bocadinho de oiro, a desfazer-se em açúcar.

António Torrado

19/12/2010

No rasto da estrela



Três reis, vindo cada qual do seu extremo do mundo, encontraram-se num cruzamento de três caminhos. Uma grande estrela, nova no céu, tinha-os atraído para o mesmo destino.
Juntaram as respectivas caravanas de camelos e cavalos e prosseguiram a viagem juntos. Sempre no rasto da estrela, foram dar a uma cidade e a um palácio, onde vivia um rei, chamado Herodes.
- Vimos uma estrela que anuncia o nascimento do rei dos Judeus - disseram os três reis.
Herodes, ao ouvir tal notícia, assustou-se. Rei dos Judeus era ele e temia que lhe roubassem o trono. Mas fingiu-se interessado e pediu aos três reis viajantes que fossem e procurassem saber mais acerca desse acontecimento espantoso, porque também ele queria adorar o Menino, fadado pelo Céu. Era mentira. Percebia-se pelos olhos furibundos de Herodes que era tudo mentira.
Os três reis sábios deixaram a cidade e continuaram por caminhos humildes atrás da estrela anunciadora, até que foram encontrar, em Belém da Judeia, o Menino. Sobre o telhado da casa onde vivia o Menino a estrela parou.
Os três reis, que se chamavam Gaspar, Melchior e Baltasar, ajoelharam-se em adoração e abriram os cofres das oferendas. Ouro, incenso e mirra era o que tinham para dar.
Já não voltaram por Jerusalém, porque tinham sido avisados em sonhos para regressarem às suas terras por outros caminhos.
Herodes esperou-os, em vão. Furioso e cheio de medo que, mais tarde, pudesse ser destronado, mandou matar todos os meninos de Belém da Judeia. O seu futuro rival - julgava ele - também estaria entre esses inocentes.
E Herodes ria da sua malvadez.
Mas o Menino, que a estrela iluminara, salvou-se. E Herodes perdeu.


18/12/2010

Os pardais ensinam



Contava o Joca à mãe:
- Hoje, na piscina, vi uma borboleta a voar por cima da água.
- Mas onde está a admiração? - dizia-lhe a mãe.
- É que há um cartaz, à entrada da piscina, que proíbe a entrada a animais. Nunca leste? - perguntava o Joca.
A mãe já tinha lido, mas como não tencionava levar nenhum cão nem nenhum gato para a piscina, não ligara importância.
- Então a borboleta não é animal? - quis saber o Joca. - E os pardais também não são animais? Sim, porque eu vi, há dias, três pardais ao pé do self-service da piscina. Ninguém os mandou embora...
Havia que explicar ao Joca que os pardais, não sabendo ler, tinham de ser desculpados do atrevimento. Pouco mais ou menos, foi isto o que a mãe disse ao filho.
Mas a senhora estava enganada, muito enganada. Não só os pardais sabiam do cartaz, à entrada da piscina, como sabiam muito bem que não estavam abrangidos pela proibição escrita no cartaz.
Estranham? Admiram-se? Pois venham connosco ouvir a conversa dos pardais:
Pardal - Ricas férias, amigos! Valeu a pena voar de tão longe...
Pardalinho - As pessoas gostam de nos ver. Ainda agora uns estrangeiros repartiram comigo um queque. Estava óptimo.
Pardalão - E os que trazem comida de casa? Tenho depenicado pedacinhos maravilhosos.
Pardalinho - E não há gatos. Sim, sobretudo, não há gatos. Que paz!
Pardalão - Nem cães... Os banhistas que tragam os seus queridos animaizinhos de estimação têm de ficar à porta. Bem feito.
Pardalinho - O aviso, à entrada, é bem claro. Lembram-se do que lá vem?
Pardal, Pardalinho e Pardalão (em coro) - NÃO É PERMITIDA A ENTRADA A PESSOAS ACOMPANHADAS DE ANIMAIS.
Pardalão - Ora, como ninguém nos trouxe de companhia podemos entrar. É a nossa vantagem.
E riam-se os pardais, numa grande chilreada.
Como se vê, os pardais sabem ler e tirar as suas conclusões. Se o Joca e a mãe passarem os olhos por estas linhas, também hão-de chegar a uma conclusão. A de que não basta ler. É preciso ler sempre bem e aproveitar o mais possível o que se lê.
Os pardais ensinam.

15/12/2010

O peixe e o gato



Era uma vez um peixe.
Era uma vez um gato,
um gato gaiato com sonhos e cócegas de gato macaco.
- Vem daí, ó peixe, brincar-me no prato.
Ó peixe de prata, de prata barata,
vem jogar comigo ao gato e ao rato.

O peixe dançava nos olhos do gato.
Por dentro do vidro, voava em recato...
?Há perigo? Que perigo?
Estou vivo e bem vivo
e bem protegido"
Bolinhas subiam em ondas de ornato...

E o gato, um safado, malhado do mato,
Dizia, baixinho, de encontro ao buraco.
- Troquemos, peixinho, e já, sem demora,
eu vou para a redoma,
tu vens cá para fora.
É que ando cansado do ar que respiro,
suspiro por água. Nadando, sou foca,
sou pato a vapor, sou gato a motor...
Salta daí! Vamos! Troca!

O peixe descia... fugia... fugia...
Não ia em batota nem troca-baldroca.


- Ah, sim?! - lhe dizia o gato do mato
- Tens boca e não falas?
Mas, diz, finalmente não vais no contrato?


O peixe de prata, de prata lavrada
nadava, nadava...

Então, mais sensato, o gato-pingado
gritou para o buraco:
- Quebrou-se o contrato. Não brinco contigo.
Fica do teu lado, que eu fico onde fico
e desde já te digo,
meu carapau calado,
que hás-de afogado
morrer, para castigo.

Lá foi o gato amuado
pregar para outro postigo,
enquanto o peixe de prata
nadava de largo em largo
no lago feito baía.
E cada escama lhe ria...