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09/05/2009

Sexta noite

E QUANDO FOI NA SEXTA NOITE
Sherazade disse:

Contaram-me, Rei, que quando o pescador disse ao génio “Se tu me tivesses conservado, eu teria te conservado, mas tu não quiseste senão a minha morte, e eu te darei a morte, aprisionado nesse vaso, e te deitarei ao mar! – então o génio proclamou: “Imploro, por Alá, que me poupes, sem me censurais demais pela minha acção, porque eu, se fui criminoso, sê tu benevolente! Liberta-me e te serei de grande utilidade num negócio que te fará rico para sempre.” O pescador, após ter assegurado a boa fé do ifrit, abriu o vaso. O ifrit tornou-se novamente o génio de espantosa feiúra, e deu um pontapé no vaso, atirando-o ao mar. O pescador, ao ver aquilo, lembrou ao génio: “Tu me prometeste e juraste que não me trairias. Se me traíres, Alá te punirá.” O génio, ao ouvir aquilo, riu-se e disse ao pescador: “Segue-me.” Os dis andaram até saírem da cidade, chegando num vaso ermo, no meio do qual existia um lado. O ifrit então ordenou ao pescador que atirasse sua rede e pescasse. O pescador olhou para a água e viu peixes brancos, vermelhos, azuis e amarelos. Tendo retirado a rede, viu ter pego quatro peixes, um de cada cor. O ifrit então orientou: “Dá esses peixes ao sultão e ele te enriquecerá. Agora, por Alá, recebe meu pedido de desculpas!
Quanto a ti, virás todos os dias pescar neste lago, mas uma vez só por dia. E agora, que Alá te tenha sob sua protecção.” E isso dizendo, o ifrit bateu os dois pés na terra, que se fendeu, engolindo-o.
O pescador voltou a cidade, maravilhado com o que tinha acontecido. Depois de passar em casa para deixar a rede, colocou os peixes numa panela de barro e levou-os ao sultão, que ficou maravilhado com a qualidade dos peixes. Disse então o sultão: “Que esses peixes sejam entregues à nossa cozinheira.” Assim o vizir ordenou-lhe que fritasse os peixes, dizendo-lhe: “Faz ver-nos hoje a prova de tua arte culinária, porque o sultão acaba de receber um homem que lhe trouxe presentes!” Tendo dito isso, o vizir se voltou, depois de ter feito suas recomendações. O rei lhe ordenou que desse ao pescador quatrocentos dinares. O pescador voltou para casa todo contente, indo comprar para os filhos tudo que podiam necessitar. E eis a história quanto ao pescador.
Quanto ao que se refere à cozinheira, ela tomou os peixes, limpou-os e arranjou-os na frigideira; deixou fritar de um lado e voltou-os para o outro lado. De repente, a parede da cozinha se abriu e por ela entrou uma jovem de talhe esbelto, faces cheias e lisas, qualidades perfeitas, pálpebras pintadas de kajal negro, rosto gentil, corpo gracioso; tinha sobre a cabeça uma echarpe de seda, brincos, braceletes e nos dedos anéis com pedras preciosas. Aproximou-me metendo uma varinha de bambu na frigideira, dizendo: “Ó peixe, tu continuarás a manter tua promessa?” Vendo aquilo, a escrava desmaiou e a jovem repetiu a pergunta pela segunda e terceira vezes. Então, todos os peixes levantaram a cabeça de dentro da frigideira e disseram: “Oh, sim! Sim!” Depois entoaram em coro:

Se deres um passo atrás
Havemos de te imitar
Se cumpres a promessa
A nossa será cumprida
Mas se tentas escapar
Insistiremos até
Que te tenhas decidido!

A essas palavras a jovem revirou a frigideira e saiu por onde havia entrado e a parede da cozinha se uniu de novo. Quando a escrava voltou a si do desmaio, viu que os peixes tinham virado carvão. E falou consigo mesma: “Pobres peixes! Mal começou o ataque e eis que eles debandam!” Enquanto ela se lamentava, chegou o vizir que lhe disse: “Leva os peixes ao sultão!” A escrava corou e contou ao vizir a história e o que seguiu, o que o deixou muito espantado. E disse: “É realmente uma história muito estranha!” e mandou procurar o pescador, dizendo-lhe: “É preciso que me tragas quatro peixes iguais aos que trouxeste da primeira vez!” O pescador foi ao lago e pegou os quatro peixes, levando-os ao vizir, que os levou à cozinheira, dizendo-lhe: “Frita-os na minha presença para que eu veja o que há nessa história.” E a mulher preparou os peixes. Mal haviam passado alguns momentos e eis que a parede se abre e a jovem aparece, vestida sempre com as mesmas vestimentas e trazendo a vareta na mão. Meteu a veta frigideira, dizendo: “Ó peixe, tu continuarás a manter tua promessa?”
Então, todos os peixes levantaram a cabeça de entoaram em coro:

Se deres um passo atrás
Havemos de te imitar
Se cumpres a promessa
A nossa será cumprida
Mas se tentas escapar
Insistiremos até
Que te tenhas decidido!

- Nesse momento, Sherazade, vendo aparecer a manhã, cessou as palavras.

Pujarini


03/05/2009

Quinta noite

E QUANDO FOI A QUINTA NOITE
Sherazade disse:

Contaram-me, ó Rei, que o rei Iunan disse ao seu vizir: “Ó, vizir, tu deixaste a inveja entrar em ti contra o médico, e tu queres que eu o mate, para que em seguida me arrependa, como se arrependeu Sindabad, depois de ter matado o falcão!” O vizir respondeu: “E como foi que isso aconteceu?”
Então o rei Iunan contou:

O FALCÃO DO REI SINDABAD

“Contam que havia um rei entre os reis de Furs, que era grande amigo de divertimentos, de passeios e de toda a espécie de caça. Possuía um falcão educado por ele próprio, e que não o abandonava nem de dia nem de noite, porque mesmo durante a noite o rei o trazia preso ao seu punho. E quando ia à caça, levava consigo, e tinha mandado pendurar ao pescoço da ave uma vasilha de ouro, onde lhe dava de beber. Um dia em que o rei estava em seu palácio, viu, subitamente, chegar o seu Intendente, encarregado das aves de caça, que lhe disse: “Ó rei, estamos justamente na época das caçadas!” Então o rei fez seus preparativos para a partida, e tomou o falcão sobre o punho. Partiram e chegaram a um vale onde estenderam as redes de caça. De repente, uma gazela tombou na rede. Então o rei disse: “Matarei aquele cujo lado a gazela passar!” Depois começaram a puxar a rede em torno da gazela, que então se acercou do rei, ergueu-se sobre as patas de trás e aproximou do peito as patas dianteiras. Então o rei bateu as mãos, uma contra outra, para fazer fugir a gazela, que saltou e fugiu, passando-lhe por cima da cabeça, desaparecendo no longe daquelas terras. E o rei se voltou para os guardas e viu que eles piscavam os olhos uns para os outros e que era a ele que se referiam. Vendo isso, perguntou ao vizir: “Que têm os soldados?” Ele respondeu: “Eles dizem que tu juraste matar quem quer que visse passar a gazela ao seu lado!” E o rei disse: “Pela vida da minha cabeça! Precisamos perseguir aquela gazela e trazê-la de volta!” Depois começou a galopar sobre a pista do animal, e o falcão atirou-se sobre ela, metendo o bico nos olhos. De tal forma, cegou-a. Então o rei apanhou seu bastão, bateu com ele no animal e -lo rolar. Depois desceu, degolou-a, esfolou-a e suspendeu a caça sobre sua sela. Fazia calor, e o local era árido e sem água. Assim o rei teve sede e o cavalo também. O rei se voltou e viu uma árvore de onde corria um líquido parecido com manteiga. Ora, o rei tinha a mão coberta com uma luva de pele; apanhou a vasilha do falcão, encheu-a com aquele líquido e colocou-a diante do falcão, mas o animal, com um golpe de seu pé, entornou-a. O rei apanhou a taça pela segunda vez, encheu-a, sempre pensando que a ave tinha sede, mas o falcão, pela segunda vez entornou-a. O rei ficou enraivecido contra o falcão e deu o líquido a terceira vez, mas o falcão novamente o entornou. Então o rei disse: “Que Alá te enterre, ave infernal!” Feriu depois o falcão com sua espada, e cortou-lhe as asas. Então o falcão ergueu a cabeça e pôs-se a dizer por meio de sinais: “Olha o que há sobre a árvore!” E o rei levantou a cabeça e viu uma serpente monstruosa; e o que corria era seu veneno. Então o rei arrependeu-se de ter cortado as asas do falcão. Depois, levantou-se, tornou a montar a cavalo e partiu levando a gazela. Atirou a gazela ao cozinheiro, depois sentou-se no seu trono , tendo o falcão no punho. Mas o falcão teve um soluço e morreu. Vendo aquilo o rei soltou gritos de luto e aflição por ter matado o falcão que o salvara da morte.
E tal é a história do rei Sindabad!”
Quando o vizir terminou de ouvir a narrativa do rei Iunan, disse: “Grande Rei, que mal fiz eu, cujos funestos efeitos tu tens visto? Não agi assim senão por piedade em relação a ti! E tu chegarás a conhecer a verdade de minhas palavras! Se me ouvires, estarás salvo, senão perecerás como pereceu um vizir astuto, que enganou o filho de um rei.


HISTÓRIA DO PRÍNCIPE E DA VAMPIRA

Esse rei tinha um filho muito entusiasta da caça a pé e da caça montada, e tinha também um vizir. O rei ordenou ao vizir que fosse com seu filho para onde quer que ele fosse. Esse filho, um dia, saiu à caça a pé e com ele saiu o vizir do seu pai. E todo os dois se foram, e viram um animal monstruoso. E o vizir disse ao filho do rei: “É para ti! Avança e persegue-o!” E o príncipe pôs-se a perseguir o animal, até que ele desapareceu aos olhos do vizir. De repente, o animal desapareceu no deserto. O príncipe ficou espantado, e não sabia mais para onde ir, quando viu uma escrava jovem que chorava. O príncipe perguntou: “Quem és?” Ela respondeu: “A filha de um dos reis da Índia. Enquanto eu caminhava no deserto, com a caravana, o sono apoderou-se de mim e eu caí da minha montaria, sem me aperceber. E me encontro abandonada, sozinha e muito perplexa!” Quando o príncipe ouviu aquelas palavras, tomado de compaixão, suspendeu a moça às ancas de sua montaria, colocando-a na garupa, partiu. Passando junto de uma ilhazinha deserta, a escrava disse: “Meu senhor, desejo fazer uma necessidade!” Entoa ele a fez descer e, vendo que ela demorava muito, seguiu-a sem que fosse notado. Ora, tratava-se de uma vampira! E ela dizia a seus filhos: “Meus filhos, hoje vos trouxe um rapaz bem gordo!” E eles disseram: “Mãe, traze esse rapaz, para que o comamos e o metamos em nossos ventres!” Quando o príncipe ouviu aquelas palavras, não duvidou mais de sua morte, seus músculos tremeram, ele encheu-se de terror e voltou. Quando a vampira saiu de seu covil viu que ele tinha medo e que tremia e disse-lhe: “Do que tens medo?” Ele respondeu: “Tenho um inimigo que me amedronta.” E a vampira disse: “Tu me disseste que és um príncipe.” Ele respondeu: Sim, é verdade. A vampira disse: “Então, por que não dás dinheiro ao teu inimigo para satisfazê-lo?” Ele respondeu: “Ele não se satisfaz com dinheiro, só com a alma! Ora, eu tenho muito medo, sou um homem vítima da opressão!” Ela disse: “Se estás oprimido, como dizes, só tens que pedir auxilio a Alá, contra o teu inimigo. E Ele te salvaguardará dos seus malefícios e dos malefícios de todos que te fizerem medo!” Então o príncipe levantou a cabeça para o céu e disse: “Ó Tu, que respondes ao oprimido, se ele te implora e lhe descobres o mal, faze-me triunfar de meu inimigo e afasta-o de mim, porque tens poder para tudo que desejas.” Quando a vampira ouviu aquela oração, desapareceu. E o príncipe voltou para junto de seu pai e lhe contou o mau conselho do vizir. E o rei ordenou a morte do vizir.”

(A seguir, o vizir do rei Iunan continuou, nestes termos:)
“E tu, Rei, se te fiares nesse médico, ele te fará morrer da pior das mortes. E, embora tu o tenhas cumulado de favores e tenha feito dele teu íntimo, ainda assim ele prepara a tua morte. Não vês por que te livrou da moléstia pela parte externa de teu corpo, através de uma coisa que seguraste na mão? E não acreditas que foi apenas para causar tua perda com uma segunda coisa dessas, que te obrigará ainda a segurar?” Então o rei Iunan disse: “É verdade! É provável que o médico seja um espião, que veio para causar minha perda. Se ele me libertou com uma coisa que segurei na mão, pode muito bem me perder, por exemplo, com uma coisa que me dê a cheirar!” Depois o rei Iunan disse a seu vizir: “Ó vizir, que faremos dele?” E o vizir disse: “É preciso que ele venha aqui. E quando se apresentar, é preciso golpeá-lo na nuca e tu, assim, farás cessar os malefícios e ficarás mais tranquilo. Trai, pois, antes que ele te traia.” E o rei Iunan disse: “Falas a verdade!” Depois o rei mandou chamar o médico que se apresentou todo contente, ignorando o que o Clemente decidira. O rei então lhe disse: Sabes por que te fiz vir aqui?” O médico respondeu: “Ninguém sabe o desconhecido, a não ser Alá.” E o rei disse: “Fiz-te vir para tua morte.” E o médico, tomado de espanto, disse: “Que falta cometi eu?” E o rei respondeu: “Dizem que és um espião, que me vieste matar. Vou te matar antes que me mates.” Depois o rei gritou pelo porta-alfanje e ordenou-lhe: “Fere o pescoço desse traidor!” O médico disse: “Conserva-me, e Alá te conservará. E não me mates, senão Alá te matará!”
Depois reiterou seu pedido, como fiz eu em relação a ti, ifrit, sem que me atendesses. E, ao contrário, persistes em querer minha morte.
Em seguida o rei disse ao médico: Não poderei confiar nem ficar tranquilo enquanto não te matar. Porque se tu me libertaste com uma coisa que segurei, poderás me matar com algo que me farás cheirar, ou outra forma qualquer.” E o médico disse: “Rei, essa é minha recompensa? Assim retribuis o bem com o mal?” Mas o rei falou: “É preciso que morras!” Quando o médico viu que o rei queria a todo transe sua morte, chorou e se afligiu pelos serviços prestados aos que não eram dignos deles. Depois do que, o porta-alfanje avançou, vendou-lhe os olhos e tirando seu alfanje, disse ao rei: “Com tua permissão!” Mas o médico continuou a dizer ao rei: “Conserva-me, e Alá te conservará. E não me mates, senão Alá te matará!”. Disse ainda ao rei: “Essa é minha recompensa? Eis que me tratas como o faria um crocodilo!” Alguns favoritos do rei ainda tentaram: “Rei, faze-nos a graça do sangue deste médico, porque ele te libertou de tua doença!” O rei respondeu: “Ignorais a razão da morte deste médico: se o poupasse, estaria perdido.” Mas o médico disse: “Rei! Se minha morte é realmente necessária, concede-me um adiamento para que eu vá a minha casa a fim de me libertar de tudo e de recomendar a meus parentes e vizinhos que se incumbam de meu enterro, e sobretudo fazer presente de meus livros de medicina. Alias, tenho um livro que é realmente a essência das essências, a raridade das raridades, e que te quero dar de presente.” Então o rei disse ao médico: “E que livro é esse?” Ele respondeu: “É um que contém coisas inestimáveis, e o menor dos segredos é o seguinte: Se me cortas a cabeça, abre o livro e conta três folhas, virando-as: lê, em seguida, três linhas da página esquerda e então a cabeça cortada te responderá a todas as perguntas que fizeres!” A essas palavras o rei se impressionou e disse: “Mesmo que eu corte a tua cabeça, tu falarias?” Ele respondeu: “Sim, é verdade!” Então o rei permitiu que ele se fosse, mas entre guardas. O médico desceu à sua casa e naquele dia e no seguinte terminou seus negócios. Depois tornou a ir ao Divã, que estava cheio de figuras notáveis. Então o médico entrou no Divã e ficou de pé diante do rei, tendo nas mãos um livro muito velho e uma caixinha de colírio, contendo um certo pó. Depois sentou-se e disse: “Que me tragam uma bandeja!” Trouxeram a bandeja e ele despejou nela o pó, espalhando pela superfície. Disse então: “Rei, toma este livro, mas não te sirvas dele antes de me cortar a cabeça. Quando a tiveres cortado, coloca-a sobre esta bandeja e ordena que a comprimam contra este pó para estancar o sangue; depois, abrirás o livro!” Mas o rei, na sua pressa, já não o ouvia; apanhou o livro, abriu-o, mas achou as folhas coladas umas as outras. Então levou o dedo à boca, molhou-o com saliva, e conseguiu abrir a primeira folha. E fez a mesma coisa com a segunda e a terceira, e de cada vez as folhas se abriam com grande dificuldade. Dessa forma, o rei abriu seis folhas e tentou ler, mas não havia nada escrito. E o rei disse: “Médico, não há nada escrito!” E o médico respondeu: “Continua a folhear!” E o rei continuou a virar as páginas. Mas apenas se tinham passado alguns momentos e o veneno circulou no corpo do rei, naquele momento e naquela hora, porque o livro estava envenenado. E então o rei tombou em convulsões horríveis, e gritou: “O veneno circula!” E tombou morto.
Ora, agora aprende, ó tu, ifrit! Se o rei Iunan tivesse poupado o médico Ruinan, Alá o teria por sua vez poupado. Mas ele se recusou, e assim resolveu a própria morte.
E tu, ifrit, se tivesses querido me conservar, Alá teria te conservado!”


Nesse momento de sua narrativa, Sherezade viu aparecer a manhã e discreta calou-se, sem se aproveitar mais da permissão recebida. Então sua irmã, Doniazad, disse: “Ó minha irmã, como tuas palavras são doces, gentis e saborosas. E Sherazade respondeu: “Mas elas não são verdadeiramente nada se comparadas ao q contarei aos dois, na próxima noite, se contudo eu estiver ainda viva, e se o Rei houver por bem me preservar!” E o Rei disse a si próprio: “Por Alá! Eu não a matarei senão depois de ter ouvido o resto do conto!”Depois o rei e Sherazade passaram a noite enlaçados. Depois do que o rei saiu para presidir os negócios da justiça, voltando depois para se reunir aos seus.





30/04/2009

Quarta Noite

E QUANDO FOI A QUARTA NOITE
Ela disse:

Contaram-me, ó Rei, que quando o pescador disse ao ifrit: “Não acreditarei nunca, a menos que te veja com meus próprios olhos, entrar no vaso.” O ifrit se agitou, sacudiu-se e tornou-se em fumaça que subiu ao céu, condensou-se e começou a entrar no vaso, aos pouquinhos, até o fim. Então o pescador agarrou rapidamente a coberta de chumbo gravada com o sinete de Salomão e fechou o vaso. Depois, chamou o ifrit e lhe disse: “Olá! Estima a pesa o género de morte com que preferes morrer, senão vou te atirar ao mar, e construirei uma casa nas margens e impedirei, seja quem for, de te pescar, dizendo: “Aqui há um génio; libertado, ele quererá matar seu libertador, e enumerará para ele as variedades de morte, permitindo-lhe escolhê-la.” Quando o ifrit ouviu isso, tentou sair, mas não pôde. E viu que estava aprisionado com o sinete de Salomão. Compreendeu, então, que o pescador o fechara na masmorra contra a qual não prevalecem nem os mais fortes nem os mais fracos dentre os génios. E compreendendo que o pescador o levava para o lado do mar, disse-lhe: “Não! Não!” E o pescador: “É preciso, oh! É preciso!” Então o génio começou a adoçar seus termos. Submeteu-se e disse: “Pescador, que vais tu fazer de mim?” Ele disse: “Atirar-te ao mar! Porque se ali estiveste durante mil e oitocentos anos, eu vou lá te prender até a hora do juízo: Pois não te supliquei que me conservasses para que Alá te conservasse? E que não me matasses, para que Alá não te matasse? Ora, tu repeliste uma súplica, e agiste como um celerado! Assim, Alá entregou-te em minhas mãos! E não tenho nenhum remorso do que estou para fazer!” O ifrit então disse: “Abre o vaso e te cumularei de benefícios!” Ele respondeu: “Tu mentes, maldito!” Aliás, entre mim e ti se passa exactamente o que se passou entre o vizir do rei Iunan e o médico Ruian!”
E o ifrit disse: “Mas quem era o vizir do rei Iunan e o médico Ruian? E que história é essa?”


HISTÓRIA DO VIZIR DO REI IUNAN E DO MÉDICO RUIAN

O pescador disse:
“Sabe, ifrit, que havia no tempo passado, na terra de Furs, na terra de Ruman, um rei chamado Iunan. Era poderoso, rico, senhor de exércitos formidáveis. Mas seu corpo era afligido por uma lepra que tinha desesperado os médicos e os sábios. Nem drogas, nem pílulas, nem pomadas produziam efeito sobre ele, e num dos médicos podia encontrar para o rei remédio eficaz. Um dia, um velho médico famoso, chamado Ruian, veio à cidade do rei Iunan. Ele era versado em livros gregos, persas, romanos, árabes e sírios. Tinha estudado medicina e astronomia, das quais sabia muito bem os princípios e as regras, os bons e os maus efeitos; possuía a virtude das plantas e das ervas secas e verdes, e seus bons e maus efeitos; tinha, enfim, estudado a filosofia e todas as ciências médicas, e outras ciências ainda. Assim, quando o médico entrou na cidade e ali passou alguns dias, ficou sabendo a história do rei e da lepra que o atormentava e também dos insucessos dos tratamentos de todos os médicos e sábios. Ouvindo essa notícia, o médico passou a noite preocupado. Mas, quando pela manha acordou, e que a luz do dia brilhou e o sol saudou o mundo, vestiu-se com seus mais belos trajos e entrou no palácio de Iunan. Depois, beijou a terra em frente dele, fez votos pela duração eterna de seu poder e das graças de Alá. Em seguida falou-lhe e o fez saber quem ele era, dizendo: “Soube do mal que caiu sobre teu corpo e sei que a maior parte dos médicos não te pôde curar. Vou tratar-te, ó rei, e não te farei beber medicamentos nem te untarei com pomadas!” A essas palavras o rei Iunan se espantou e disse: “como farás? Se me curares, te enriquecerei até os filhos dos teus filhos e te concederei todos os teus desejos e sua realização, e serás meu companheiro de bebida e meu amigo. Realmente me curarás sem remédios nem pomadas?” Ele respondeu: “Sim. Eu te curarei sem fadigas nem penas para teu corpo.” Então o rei se espantou da maneira mais prodigiosa e disse: “Ó grande médico, que dia e que momento verão realizar-se o que acabas de me prometer? Apressa-te!” Ele respondeu: “Ouço e obedeço.”
Então saiu da casa do rei e alugou uma casa onde colocou seus livros, remédios e plantas aromáticas. Depois fez um extracto com seus medicamentos e seus símplices, preparou um malho curto e recurvo, cuja extremidade esvaziou, e ali adaptou uma bengala. E fez também uma bola, da melhor forma que lhe foi possível. Quando terminou completamente seu trabalho, subiu aos aposentos do rei, no segundo dia, entrou onde ele estava e beijou a terra em frente dele. A seguir prescreveu que fosse à praça de jogos a cavalo, e que jogasse com a bola e com o malho.
O rei foi, acompanhado de seus emires, camareiros, vizires e chefes do reino. Mal tinha chegado à praça quando o médico chegou também e lhe deu o malho dizendo: “Toma este malho e empunha-o desta maneira. Bate no chão e na bola com toda a tua força. E faz de maneira que chegues a transpirar a palma da mão e todo teu corpo. Dessa forma o remédio penetrará na palma de tua mão e circulará por todo o teu corpo. Quando tiveres transpirado e o remédio tenha tido tempo de agir, volta ao palácio e em seguida ao banho. E então, estarás curado. Enquanto isso, que a paz esteja contigo.”
Então o rei Iunan tomou o malho do médico, agarrando-o com toda a mão. Do seu lado, os cavaleiros lhe lançaram a bola. Então ele se pôs a galopar atrás da bola, atingindo-a, batendo-lhe com violência, sempre tendo à mão o malho, fortemente seguro. Não cessou de bater na bola senão quando se viu transpirando bem, na palma da mão e em todo o corpo. Quando o médico Ruian viu que o remédio tinha circulado em todo o corpo, ordenou-lhe que voltasse ao palácio e que fosse imediatamente tomar banho. O rei imediatamente mandou que se preparasse seu banho. Em seguida, vestiu-se, montou em seu cavalo e voltou ao palácio para dormir.
Eis o que fez o rei Iunan. Quanto ao médico, voltou a se deitar em sua casa, levantou-se pela manhã, subiu ao palácio do rei e pediu permissão para entrar, o que o rei permitiu; entrou, beijou a terra em frente dele e começou a declamar alguns versos:

Se a eloquência te escolhesse como pai, ela refloresceria!
E a ninguém mais, além de ti, ela poderia escolher.
Ó luminoso rosto cuja claridade embaçaria a chama de uma
Brasa ardente!
Tuas altas acçoes te fizeram atingir os alcantis da glória
E tu és o bem-amado do destino, que nada tem a recusar-te!
O rei, após ouvir os versos, levantou e atirou-se com carinho ao pescoço do médico. Depois, fê-lo sentar-se ao seu lado, mandando que lhe dessem magníficos trajos de honra.
Com efeito, quando o rei saiu do banho, tinha olhado para seu corpo e não mais encontrara traços da lepra. E sua pele se tornara pura como prata virgem. Ele, então, se regozijara com a mais excessiva alegria, e seu peito se dilatara e se expandira. Quando a manhã se erguera, o rei tinha entrado no Divã e se sentara na sala do trono: e os camareiros e os grandes do reino tinham entrado. Também o médico Ruian. Fora então que, ao vê-lo, o rei se tinha levantado com solicitude e o tinha feito sentar-se a seu lado. Então, serviram aos dois alimentos, iguarias e bebidas, durante todo o dia. Quando a noite tombou, o rei deu ao médico dois mil dinares, sem contar os trajos de honra e os presentes, e lhe deu a montar seu próprio cavalo. E foi assim que o médico voltou à sua casa.
Quanto ao rei, não cessava de admirar a arte do médico e dizer: “Ele me tratou pelo exterior do meu corpo, sem me untar de pomada! Ora, por Alá! É uma ciência sublime! É preciso, pois, que eu cumule esse homem com os benefícios de minha generosidade e que o tome como companheiro afectuoso para sempre!” E o rei se deitou, contentíssimo, cheio de alegria, vendo-se são de corpo e livre da doença.
No dia seguinte pela manhã, sentando-se o rei no seu trono, os chefes da nação ficaram de pé à sua frente, os emires e vizires sentados à sua direita e à sua esquerda. Ele fez, então, chamar o médico que veio, beijou a terra em frente dele. O rei levantou-se, fê-lo sentar-se ao seu lado, comeu com ele, desejou-lhe longa vida, deu-lhe trajos de honra e outras coisas ainda mais magníficas. Depois, cessou de se ocupar dele apenas ao aproximar-se a noite. E lhe fez dar, como remuneração, cinco outros trajos de honra e mil dinares. E foi assim que o médico voltou à sua casa.
Quando chegou a manhã, o rei foi para o Divã, ficando cercado de amires, vizires e camareiros. Entre os vizires havia um, de aspecto repulsivo, rosto sinistro e de mau agouro, terrível, sordidamente avaro, invejoso e petrificado de ciúme e ódio. Quando esse vizir viu o rei colocar a seu lado o médico e lhe conceder todos os benefícios, sentiu-se enciumado e resolveu perdê-lo, segundo o provérbio que diz: “O invejoso ataca toda a gente: a opressão está de emboscada no coração do invejoso. A força a revela e a fraqueza a tem latente.” O vizir aproximou-se entoa do rei Iunan, beijou a terra em frente dele e disse: “Ó Rei, tu que envolves a humanidade nos teus benefícios, tenho comigo um conselho de prodigiosa importância, e que não poderia esconder sem me tornar verdadeiramente um filho adulterino: se me ordenares que te revele, eu to revelarei!” Então o rei, todo perturbado com as palavras do vizir, disse: “E qual é o teu conselho?” Ele respondeu: “Ó Rei glorioso, os antigos disseram: Aquele que não olha o fim e as consequências não terá a fortuna como amiga” – e eu acabo de ver o rei falhar em julgamento, fazendo benefícios ao seu inimigo, àquele que deseja o aniquilamento de seu reino, cumulando-o de favores, cobrindo-o de generosidades. Ora, eu estou, por causa disso tudo, no maior receio em relação ao rei!” A estas palavras o rei ficou extremamente perturbado, mudou de cores e disse: “Quem é esse que tu dizes ser meu inimigo e que eu teria cumulado de favores?” Ele respondeu: “Rei, se estás dormindo, acorda! Porque faço alusão ao médico Ruian!” O rei lhe disse: “Esse é meu bom amigo, é para mim o mais querido dos homens porque me tratou de uma coisa que mantive na mão, e livrou-me da minha doença, que tinha desesperado os médicos! Não há nenhum como ele neste século, no mundo inteiro, no Oriente ou Ocidente! Assim, como ousas falar contra ele? Quanto a mim, desde este dia, vou dar-lhe salárioss e marcar-lhe trabalhos, para que ele tenha por mês mil dinares! Aliás, mesmo que eu lhe desse a metade do meu reino, seria pouco para ele! Assim, creio muitíssimo que tu dizes isso apenas por ciúmes, como se conta na história, que contaram, do rei Sindabad!”


Nesse momento, Sherazade foi surpreendida pela manhã, e parou sua narração.
Então Doniazad disse: Ó irmã, como tuas palavras são doces e gentis, e deliciosas e puras!” E Sherazade disse: “Mas que são essas palavras comparadas ao que contarei aos dois, na próxima noite, se estiver ainda viva e se o Rei houver por bem me conservar!” Então o rei disse, em sua alma: “Por Alá! Eu não a matarei antes de ouvir o seguimento da história!” Depois eles passaram o resto da noite enlaçados. E o rei saiu para sua sala de justiça, onde julgou, nomeou, demitiu, terminou assuntos pendentes, e assim fez até o fim do dia. Depois voltou ao palácio. Quando a noite se aproximou ele fez a coisa do costume com Sherazade, a filha do vizir.





27/03/2009

História do pescador e do ifrit


E QUANDO FOI A TERCEIRA NOITE




Doniazad disse: Ó, minha irmã, te peço: completa para nós tua história!
E Sherazade respondeu: De todo o coração amigo e generoso.:
Depois, continuou:
Contaram-me, ó Rei, que quando o terceiro chaik contou ao génio o conto mais espantoso dos três, o génio ficou maravilhado e emocionado, disse: “Concedo-te o resgate do crime.” E soltou o mercador.
Então o mercador, todo feliz, adiantou-se para os chaikes e agradeceu-lhes muito. E eles, por sua vez, o felicitaram pela sua libertação.
E cada um deles voltou ao seu país e à sua vida.
Mas, continuou Sherazade, isso tudo não foi mais espantoso do que a História do pescador.
Então o Rei disse a Sherazade: “Que história do pescador?”


HISTÓRIA DO PESCADOR E DO IFRIT

Sherazade disse:

Contaram-me, ó poderoso rei, que havia um pescador, de idade muito avançada, casado, pai de três filhos e muito pobre.
Tinha o costume de tirar a rede quatro vezes por dia, e não mais. Ora, um dia, no início da tarde, ele foi para a beira do mar, descansou seu balaio, atirou a rede e ficou esperando até que ela pousasse no fundo da água. Então recolheu os filhos e viu que a rede pesava muito e não conseguia puxá-la. Levou, então, a ponta do fio à terra e amarrou-a a uma estaca enfiada na areia. Depois despiu-se e mergulhou na água que ficava em volta da rede e não cessou de debater-se até soltá-la. Alegrou-se, tornou a se vestir e, aproximando-se da rede, encontrou um burro morto. Vendo aquilo, desolou-se e disse: “Não há força e poder senão em Alá, o todo poderoso.” Depois, disse: “Mas, em verdade, este dom de Alá é espantoso!”
Retirou a rede, torceu-a e, quando terminou, estendeu-a. Depois, desceu para a água e disse: “Em nome de Alá!” e atirou novamente a rede, esperando que chegasse ao fundo. Tentou retirá-la mas notou que, como antes, estava presa ao fundo. Acreditando ser um grande peixe, amarrou a ponta a uma estaca, despiu-se e mergulhou. Quando levou a rede à margem, encontrou nela um jarro enorme, cheio de lama e areia. Vendo aquilo, disse: “Ó traicões da sorte! Piedade! Que tristeza. Sobre a terra, nenhuma recompensa é igual ao mérito, nem digna do sacrifício. Às vezes saio de casa para procurar a fortuna. E dizem-me que ela morreu há tempos. Miséria. É assim, ó Fortuna, que relegas os sábios à obscuridade, para deixar que os tolos governem o mundo.”
Depois, atirou o jarro para longe de si, torceu a rede, limpou-a, pediu perdão a Alá pela sua revolta e voltou ao mar pela terceira vez. Atirou a rede, esperou que ela atingisse o fundo e, tendo-a retirado, encontrou potes quebrados e pedaços de vidro. Vendo aquilo, recitou outra vez versos de um poeta: “Ó Poeta, o vento da fortuna jamais soprará ao teu laod! Ignoras, ingénuo,que nem tua pena de caniço nem as linhas harmoniosas de tua escrita não te hão-de enriquecer?”
E, erguendo a cabeça para o céu, exclamou: “Alá! Tu o sabes! Eu não te atiro minha rede senão quatro vezes. Ora, eis que a deitei três vezes ao mar!” depois disso, invocou ainda uma vez o nome de Alá e jogou a rede ao mar, esperando que deitasse ao fundo. Dessa vez, apesar de todos os esforços, não conseguiu retirar a rede que se agarrou às rochas do fundo. Então exclamou: “Não há força e poder senão em Alá!” Depois, despiu-se, mergulhou em torno da rede e se pôs a manobrar até que a desprendeu e a trouxe para terra. Abriu-a e ali encontrou um grande vaso de cobre amarelo, cheio e intacto. Sua boca estava selada com chumbo, trazendo o sinete de Salomão, filho de Davi. Vendo aquilo, o pescador ficou muito feliz, e exclamou: “Eis uma coisa que venderei aos caldeireiros, pois deve valer pelo menos 10 dinares de ouro!” Tentou sacudir o vaso, mas viu que era muito pesado, e disse consigo mesmo: “Preciso abri-lo e ver seu conteúdo, que colocarei no saco; em seguida venderei o vaso.” Tomou, então, uma faca e começou a descolar o chumbo. Virou o vaso e dele nada saiu, excepto uma fumaça que subiu até o céu, e se desenrolou na superfície do solo. O pescador espantou-se. Depois a fumaça condensou-se e se transformou num ifrit, cuja cabeça tocava as nuvens e os pés ficavam plantados ao chão. A cabeça daquele ifrit era como uma cúpula, as mãos como forcados, os pés como mastros, sua boca uma caverna, seus dentes como seixos, seus olhos como tochas. Seus cabelos estavam em desordem e empoeirados. À vista daquele génio, o pescador ficou apavorado, seus músculos tremeram, seus dentes serraram, a saliva secou e seus olhos cegaram para a luz.
Quando o ifrit viu o pescador, exclamou: “Não há outro Deus senão Alá, e Salomão é o profeta de Alá!” E dirigindo-se ao pescador, disse-lhe: “E tu, ó grande Salomão, profeta de Alá, não me mates, porque nunca mais te desobedecerei e não me amotinarei contra tuas ordens!” Então o pescador disse: “Gigante, ousas dizer que Salomão é o profeta de Alá! Salomao morreu há mil e oitocentos anos, e nós estamos no fim dos tempos. Que história é essa, então? Qual a causa de tua entrada neste vaso?” O génio respondeu: “Não há outro Deus senão Alá! Deixa-me dar uma boa nova, pescador.” O pescador disse: “O que me vais anunciar?” Ele respondeu: “Tua morte. E neste mesmo momento, e da mais horrível maneira.” O pescador respondeu: “Por essa notícia tu mereces, ó tenente dos ifrits, que o céu te retire sua protecção! E possa ele afastar-te de nós! Por que, pois, queres tu minha morte? O que fiz para merecê-la? Libertei-te daquela prolongada prisão no mar e te trouxe a terra!” Então o ifrit disse: “Pensa e escolhe a morte que preferes, e a forma pela qual apreciarás ser morto!” O pescador disse: “Qual o meu crime, para merecer tal punicao?” O ifrit falou: “Escuta minha história, ó pescador.” O pescador disse: “Fala! E sê breve em teu discurso porque minha alma, de impaciência, está a ponto de sair de meu pé!” O ifrit então contou:
“Sabe que sou um génio rebelde. Havia me revoltado contra Salomão, filho de Davi. Meu nome é Sakir-El-Génio. Salomão mandou ter comigo seu vizir, Assef, que me levou, apesar de meus esforços, e me conduziu à presença de Salomão. Vendo-me, Salomão fez a conjuração a Alá e me ordenou abraçar sua religião e lhe prestar obediência. Recusei. Então ele fez trazer este vaso e nele me aprisionou. Depois, fechou-o com chumbo e imprimiu nele o sinete com o nome do Muito Alto. Depois deu ordens aos génios fiéis que me atiraram ao mar. Fiquei cem anos no fundo da água, e dizia em meu coração: “Farei eternamente rico aquele que me libertar.” Mas os cem anos se passaram e ninguém me libertou. Quando entrei no segundo período de cem anos, disse comigo: “Descobrirei e darei os tesouros da terra `àquele que me libertar.” Mas ninguém me libertou. Então, fiquei tomado de tremenda cólera e disse em minha alma: “Agora, matarei aquele que me libertar, e só lhe concederei que escolha a sua morte! Foi então que tu vieste me libertar. E te concederei que escolhas teu género de morte.”
Ouvindo isso, o pescador disse: “Ó Alá, que coisa mais prodigiosa! Foi preciso que fosse logo eu quem te libertasse. Ó ifrit, concede-me graça, e Alá te recompensará! Mas se me fizeres perecer, Alá fará surgir alguém que te faça perecer por tua fez.” Então o ifrit lhe disse: “Mas eu quero te matar justamente porque me libertaste.!” E o pescador disse: “Ó chaik dos ifrits é assim que tu pagas o bem?” Mas o ifrit lhe disse: “Chega de abusar das palavras! Sabes que é absolutamente necessária a tua morte!” Então o pescador disse consigo mesmo: “Eu não sou senão um homem e ele é um génio. Mas Alá deu-me uma razão bem assentada e assim vou arranjar um meio para perdê-lo, um estratagema para enganá-lo. E verei bem se ele, por sua vez, poderá combinar alguma coisa com sua malícia e sua astúcia.” Então ele disse ao gênio: “Decidiste verdadeiramente a minha morte.” O ifrit respondeu: “Não tenhas dúvidas.” Então ele disse: “Pelo nome do Muito Alto, que está gravado sobre o sinete de Salomao, conjuro-te a responder com a verdade à minha pergunta!” Quando o ifrit ouviu o nome do Muito Alto, ficou emocionado e muito impressionado, e disse: “Podes fazer a pergunta, que te responderei com a verdade.” Então o pescador disse: “Como pudeste caber inteiro neste vaso onde mal caberiam teu pé ou tua mão?” O ifrit disse: “Por caso duvidarias disso?” O pescador respondeu: “Com efeito eu não acreditarei nunca, a menos que te veja com meus próprios olhos, entrar no vaso.”


Mas nesse momento Sherazade viu aparecer a manhã e discreta, calou-se. E o rei Chariar disse, em sua calma: “Realmente esta história é prodigiosa em extremo. Assim, vou esperar o fim e em seguida farei dessa filha do meu vizir o que fiz das outras jovens.”


08/03/2009

Segunda noite

E QUANDO FOI NA SEGUNDA NOITE



Doniazad disse à sua irmã Sherezade: “ó, minha irmã, termina, para nós, eu te peço, o conto q é a história do mercador e do génio”. E Sherezade respondeu: De todo o coração e como homenagem devida – se contudo, o rei permitir.” E então o rei disse: “Podes falar”.
Ela disse:
Contaram-me, ó Rei, que quando o mercador viu chorar o bezerro, seu coração foi tomado de piedade e ele disse ao pastor: “Deixa esse bezerro entre o gado.”
Quanta coisa! E o génio admirava-se com a história espantosa. Depois, o chaik, dono da gazela, continuou:
“Ó rei dos génios, tudo isso aconteceu. E a filha do meu tio, essa gazela que aqui está, também estava olhando e dizendo: “É preciso sacrificar aquele bezerro, porque está no ponto!” Mas eu não podia, por piedade, resolver-me a sacrificá-lo. E ordenei ao pastor q o levasse. Ele o levou, saindo daí com ele.
NO segundo dia, eu estava sentado quando o pastor veio a mim e disse: “Ó, meu senhor, vou dizer uma coisa que te alegrará e essa novidade me valerá uma gratificação.” Respondi: “Certamente.” Ele disse: “Minha filha é feiticeira, porque aprendeu feitiçaria com uma velha q ue morava em nossa casa. Ora, ontem, quando tu me deste o bezerro, eu entrei com ele onde estava minha filha. Apenas o viu, ela cobriu o rosto com o véu, e pôs-se a chorar, depois a rir. Em seguida me disse: “Ó, pai, meu valor desceu assim tão baixo a teus olhos q deixas q homens estranhos penetrem meus aposentos?” Eu lhe disse: “Mas onde estão esses homens estranhos? E por que choraste e em seguida riste?” Ela me disse: “Esse bezerro, q está contigo, é o filho de nosso senhor, o mercador, mas ele está encantado. E foi sua madrasta quem assim o encantou, e à mãe dele também. E foi da sua cara de bezerro q não pude deixar de rir. E se chorei, foi por causa da mãe do bezerro sacrificada pelo pai.” A essas palavras de minha filha fiquei surpreso, e esperei a volta da manhã para vir te por a par.”
Assim que ouvi as palavras daquele pastor, saí à pressa com ele, e me sentia embriagado sem vinho, pela quantidade de alegria e felicidade que me vinham, por rever meu filho. Quando chegamos à casa do pastor, a jovem desejou-me boas vindas e beijou-me a mão. Depois o bezerro veio para mim e rolou a meus pés. Então eu disse à filha do pastor:
- É verdade o que me contas sobre esse bezerro?
- Sim, certamente, meu senhor! Esse bezerro é teu filho, a chama do teu coração.
- Ó gentil e piedosa adolescente, se libertares meu filho, dando-lhe novamente a forma de filho de Adão, te darei tudo quanto tenho em gado e em propriedades que estão sob a guarda do teu pai.
Ela sorriu ao ouvir essas palavras e disse:
- Meu senhor, não quero riquezas, senão sob duas condicoes: a primeira é casar com teu filho. A segunda é que me deixarás enfeitiçar e aprisionar quem eu quiser! Sem o que não respondo pela eficácia de minha intervenção contra as perfídias de tua esposa.”
Assim que ouvi as palavras da filha do pastor, disse-lhe:
- Assim seja! E, além disso, terás as riquezas que estão sob a guarda do teu pai. No que se refere à filha de meu tio, podes dispor do seu sangue.
Assim que ela ouviu minhas palavras, apanhou uma pequena bacia de cobre, encheu-a de água, e pronunciou sobre a água uns encantamentos: depois aspergiu o bezerro, dizendo-lhe: “Se Alá te criou bezerro, continua bezerro, sem mudar de forma! Mas se estás encantado, volta à tua primitiva forma.”
A estas palavras, imediatamente o bezerro começou a agitar-se, sacudindo-se até se tornar um ser humano. Então, atirei-me sobre ele, beijando-o e abraçando-o. Depois, disse-lhe: Ó, meu filho! Alá, senhor dos destinos, reservou alguém para te salvar!”
Depois do que, ó bom génio, casei meu filho com a filha do pastor. E ela, por sua ciência de feitiçaria, encantou a filha de meu tio e transformou-a nesta gazela que aqui está e que tu vês! E eu, ao passar por este lugar, vi estas pessoas reunidas e perguntei-lhes o que faziam, e soube por elas o que acontecera a este mercador que aqui está. E sentei-me para ver o que podia acontecer. E esta é a minha história.”
Então o ifrit disse: “História muito espantosa! Por isso dou-te o terço de sangue que pediste. Quanto aos outros dois terços do sangue deste maldito, vou tomá-los, contra a vontade dele, nesta hora!”
Nesse instante, avançou o segundo chaik, senhor dos cães negros, e disse:

CONTO DO SEGUNDO CHAIK

“Sabe, ó rei dos génios, que estes dois cães que aqui vês são meus irmãos e que sou o terceiro. Ora, logo que morreu, nosso pai nos deixou de herança três mil dinares. Com minha parte, abri uma loja onde comecei a vender e a comprar. Um dos meus irmãos se pôs a viajar para se fazer comerciante e se ausentou por um ano, com as caravanas. Quando voltou, nada mais tinha. Então eu lhe disse: “Irmão, eu não te aconselhei a não viajar?” Ele se pôs a chorar, dizendo: “Ó, irmão, Alá é poderoso e permitiu que tal coisa me acontecesse. Assim, tuas palavras, agora, não me podem mais ser de proveito, pois que nada possuo.” Então o levei comigo à loja e depois aos banhos, dei-lhe uma bela roupa. Em seguida sentamos juntos para comer e eu lhe disse: “Irmão, vou fazer a conta do lucro de minha loja, de um ano a outro e, sem tocar no capital, dividirei este lucro contigo.” E assim fiz, e achei que naquele ano tinha ganho mil dinares. Então agradeci a Alá, que é grande, e fiquei muito feliz. Depois dividi o ganho em duas partes, entre meu irmão e eu. E ficamos juntos durante dias.
Mas, de novo, meus irmãos resolveram partir, e quiseram que eu partisse com eles. Porem não aceitei, e lhes disse: “Que ganhaste vós, viajando, para que eu me sinta tentado a imitar-vos?” Então eles começaram a insistir, mas sem sucesso, porque não obedeci aos seus desejos. Ao contrário, continuamos a tocar nossas respectivas lojas, vendendo e comprando durante um ano inteiro. Após, eles recomeçaram a me propor viagem, e eu continuei a não aceitar, e isso durou seis anos. Afinal, acabei concordando com eles e antes da partida, lhes disse: “Meus irmãos, contemos o que possuímos em dinheiro.” Contamos e achamos ao todo seis mil dinares. Então, lhes disse: “Vamos enterras a metade debaixo da terra para poder utilizá-la se uma infelicidade nos acontecer. E tomemos cada um mil dinares para comerciar em ponto pequeno.” Eles responderam: “Que Alá favoreça essa ideia!” Então tomei o dinheiro, dividi-o em duas partes iguais, enterrei três mil dinares e quanto aos outros três mil, distribui-os entre nós três. Depois, fizemos nossas compras de mercadorias diversas, alugamos um navio para nele transportar nossas aquisicões, e partimos.
A viagem durou um mês inteiro, ao fim do qual entramos numa cidade onde vendemos nossas mercadorias, e tivemos um lucro de dez para cada dinar. Depois deixamos aquela cidade.
Ao chegarmos à beira-mar, encontramos uma mulher, vestida de trajos velhos e usados, que se aproximou de mim, beijou-me a mão e disse: “Meu senhor, podes me socorrer e prestar um serviço? Em troca, saberei recompensar teu benefício.” Disse-lhe: “Sim, com certeza! Posso socorrer e ajudar, mas não te sintas obrigada a mostrar reconhecimento.” Ela me respondeu: “Meu senhor, então casa-te comigo e me leve para teu país, e eu te devotarei minha alma! Faze-me pois esse favor, pois sou daquelas que sabem o preço de uma obrigação e de um benefício. E não te envergonhes de minha pobre condição!” Quando ouvi aquelas palavras, tive por ela uma piedade cordial, porque não há nada que não se faça, com a vontade de Alá. Levei-a, vesti-a com roupas belíssimas, depois estendi para ela, no navio, magníficos tapetes e lhe fiz acolhimento hospitaleiro e amplo, cheio de urbanidade. Em seguida, partimos.
E meu coração amou-a com grande amor. Eu não a deixava, dia ou noite. E só eu, entre meus irmãos, podia possuí-la. Assim, meus irmãos encheram-se de ciumes e me invejaram também pela minha riqueza e pela qualidade de minhas mercadorias. E atiravam avidamente olhares sobre tudo o que eu possuía, e tramaram minha morte e o roubo de meu dinheiro; porque um demónio fazia que vissem aquela acção sob as mais belas cores.
Um dia em que eu dormia ao lado de minha esposa, aproximaram-se, agarraram-nos e nos atiraram ao mar. E minha esposa acordou na água. Então, subitamente, ela se transformou em ifrita. Tomou-me em seus ombros e me colocou numa ilha. Depois desapareceu todo o resto da noite, voltando pela manhã, quando me disse: “Não me reconheces? Sou tua esposa! Salvei-te da morte, com a permissão de Alá!. Porque, sabes, sou uma ifrita. E, desde o momento que te vi, meu coração te amou, simplesmente porque Alá assim o quis. Quando me viste na pobre condição em que eu estava, tu assim mesmo me quiseste e casaste comigo. Agora, em troca, salvei-te da morte. Quanto a teus irmãos, estou enfurecida contra eles, com certeza é preciso que eu os mate!”
A essas palavras fiquei estupefacto, e agradeci por seu ato, e lhe disse: “Quanto a meus irmãos, realmente, peço-te que não faças isso.” Depois lhe contei o que tinha acontecido entre mim e eles, desde o começo até o fim. Quando ouviu minhas palavras, ela disse: “Esta noite voarei até eles e farei naufragar seu navio e eles perecerão!” Eu lhe disse: “Por Alá, não faças isso, porque o Senhor dos provérbios disse: Ó benfeitor do homem indigno! Sabe que o criminoso está suficientemente punido pelo seu próprio crime! Ora, sejam eles o que forem, ainda assim são meus irmãos!” Ela disse: É absolutamente preciso que eu os mate.” Implorei inutilmente a sua indulgência. Depois do que ela me tomou sobre seus ombros e me pôs sobre o terraço de minha casa.
Então, abri as portas de minha casa. A seguir, retirei os três mil dinares do esconderijo. E abri minha loja, depois de ter feito as visitas necessárias e os cumprimentos de uso. E fiz novas compras.
Quando a noite chegou, fechei minha loja e, entrando em minha casa, encontrei estes dois cães amarrados a um canto. Quando me viram, levantaram-se e começaram a chorar, mas imediatamente apareceu minha esposa e disse: “Esses são teus irmãos.” Eu lhe disse: “Quem os pôs assim?” Ela respondeu: “Eu. Pedi a minha irmã, que é bem mais versada do que eu em encantamentos, e ela os pôs nesse estado, do qual só poderão sair ao fim de dez anos.”
E é por isso, ó poderoso génio, que vim ter a este lugar, à procura de minha cunhada, para lhe pedir que liberte meus irmãos, pois já se passaram dez anos. Quando aqui cheguei, encontrei este bom homem, soube da sua aventura, e não quis sair até saber o seu término. Esta é minha história!”
O génio disse: “Realmente, um conto espantoso! Por isso te concedo o terço de sangue, em resgate ao crime. Mas vou retirar desse maldito que atirou os caroços, o terço de sangue que me é devido.
Então avançou o terceiro chaik, senhor da mula, e disse ao génio: “Eu contarei uma história mais maravilhosa do que as dos outros dois. E tu me darás, como graça, o resto do sangue, em resgate do crime.” O génio respondeu: “Que assim seja!”
E o terceiro chaik disse:


CONTO DO TERCEIRO CHAIK
“Ó sultão dos génios! Esta mula que aqui está era minha esposa. Uma vez fiz viagem e estive ausente dela por um ano inteiro. Quando voltei, durante a noite, encontrei-a deitada com um escravo, sobre nosso leito. Os dois ali estavam, e conversavam, requebravam-se e riam, se beijavam e se excitavam, galhofando. Assim que ela me viu, levantou-se muito depressa e se atirou sobre mim, tendo na mão uma tigela de água. Murmurou algumas palavras sobre a tigela e disse: “Sai de tua própria forma e toma a imagem de um
cão!” E imediatamente me transformei num cão e ela me expulsou de casa. E eu saí, e desde então, não cessei de errar, e acabei por chegar à loja de um açougueiro. Aproximei-me e comecei a comer ossos. Quando o dono da loja me viu, segurou-me e foi comigo para sua casa.
Quando a filha do açougueiro me viu, depressa velou o rosto, por minha causa, e disse a seu pai: “É assim que se procede? Vens com um homem e entras com ele em nossos aposentos!” Seu pai lhe perguntou: “Mas onde está este homem?” Ela respondeu: “Esse cão é um homem. E foi uma mulher que o encantou. Sou capaz de libertá-lo.” A essas palavras, o pai disse: “Por Alá, conjuro-te a libertá-lo!” Ela tomou uma tigela e depois de ter murmurado sobre aquela água algumas palavras, aspergiu-me com algumas gotas e disse: “Sai dessa forma e volta à tua primitiva forma!” Entoa voltei a ser o que era e beijei a mão da jovem, e lhe disse: “Desejo agora que encantes minha esposa como fui por ela encantado.” Ela me deu um pouco d’água e me disse: “Se encontrares tua esposa adormecida, atira-lhe esta água e ela se transformará naquilo que desejares!” Encontrei-a adormecida, joguei-lhe a água e disse: “Sai dessa forma e transforma-te em mula!” No mesmo instante ela se transformou em mula.
E é ela mesma que vês com teus próprios olhos, ó sultão e chefe dos reis dos génios!
Então o génio voltou-se para a mula e disse-lhe: “Isso é verdade?” E ela pôs a sacudir a cabeça e disse, por sinais: “Oh! Sim! Sim! É verdade!
Toda aquela história fez que o génio tivesse prazer e emoção. E fez dom ao velho do último terço do sangue. Então...


Nessa altura, Sherazade viu aparecer a manhã e, discreta, calou-se. Então sua irmã Doniazad disse: Ó, minha irmã! Como tuas palavras são doces e gentis e deliciosas em sua frescura!” Sherazade respondeu: “E isso não é nada se comparado com o que te contarei na próxima noite, se estiver ainda viva, e se o rei houver por bem me conservar.” E o rei disse consigo mesmo: “Por Alá! Não a matarei até ouvir a continuação de sua narrativa, que é espantosa!”
Depois o rei e Sherazade passaram o resto da noite enlaçados, até pela manhã. Depois do que o rei saiu e foi para a sala de sua justiça. E o vizir e os oficiais entraram. O rei julgou, nomeou, demitiu, deu ordens até o fim do dia, quando voltou ao seu palácio.





24/02/2009

História do mercador e do Ifrit

Primeira Noite




Contam, ó Poderoso Rei, que havia um mercador, dono de muitas riquezas e negócios comerciais. Um dia ele montou a cavalo e partiu para algumas localidades onde sua presença era necessária. E como o calor estava muito forte, sentou-se sob uma árvore e, metendo a mão no alforje, tirou dali um lanche, bem como tâmaras. Quando terminou de comer as tâmaras, juntou os caroços na mão e atirou-os longe. E, de repente, surgiu diante dele um ifrit de grande altura, que exclamou, sacudindo uma espada: “Levanta para que eu te mate, como mataste meu filho!.” E o comerciante, espantadíssimo, disse: “Como pude matar teu filho?” Ao que o ifrit respondeu: “Quando comias as tâmaras, atiraste os caroços, que feriram meu filho no peito, porque passávamos por aqui, pelos ares, eu a carregá-lo. Ele foi atingido e morreu na mesma hora.” O mercador compreendeu que para ele não haveria apelação nem socorro; estendeu as palmas das mãos para o génio e disse: “Sabe, ó grande ifrit, q sou crente, e que não posso mentir. Tenho muitas riquezas, tenho filhos e esposa. Além disso, tenho depósitos q me foram confiados por outros. Permita-me, pois, ir à minha casa, para q eu possa dar, a quem de direito, o seu direito; isso feito, voltarei. Tens a minha palavra e meu juramento de q voltarei para junto de ti. Poderás, então, fazer o q quiseres. Alá é a garantia destas palavras!” O génio confiou e o deixou partir.
O mercador voltou ao seu país, desfez-se de todos os compromissos e distribuiu o que era de direito a cada um. Depois contou à sua mulher e aos filhos o ocorrido. Todos começaram a chorar. Em seguida, fez o testamento. Ficou com os seus até o fim do ano, depois do q resolveu retornar e, guardando sua mortalha sob o braço, disse adeus à família, aos vizinhos e se foi, contra a vontade. Todos se puseram a lamentar, soltando grandes gritos de luto.
O mercador, então, chegou ao local onde deveria entregar-se ao ifrit. Aquele dia era o primeiro do novo ano. Enquanto ele aguardava, chorando, a vinda do génio, apareceu um velho chaik, q se dirigiu para o mercador, levando consigo uma gazela presa por uma corda. Saudou o mercador, desejou-lhe prosperidade e perguntou: “Qual é a causa desta parada aqui, neste lugar frequentado pelos génios?” Então o mercador contou-lhe o que havia acontecido. O dono da gazela ficou muito espantado e disse: “Por Alá! Ó meu irmão, tua fé é grande! E tua história tão prodigiosa que se ela fosse escrita com uma agulha no canto interior do olho, seria tema de reflexão para quem reflecte respeitosamente!” Depois, sentou-se ao lado dele e disse: “Por Alá! Ó meu irmão, não deixarei de ficar ao teu lado enquanto não tiver visto o q vai te acontecer.” E, assim, ficou a conversar, e até viu-o desmaiar de terror e medo, presa de profunda aflição e pensamentos tumultuosos. E o dono da gazela continuava ali, quando, de súbito, chegou um segundo chaik, q se dirigiu para eles, conduzindo dois cães negros. Aproximou-se, desejou-lhes paz e perguntou-lhes a causa da parada naquele lugar frequentado por génios. Então eles contaram a história desde o começo até o final. Mas, assim q o outro se havia sentado, um terceiro chaik dirigiu-se a eles, conduzindo uma mula. Desejou-lhes paz e perguntou a razão de sua parada naquele lugar. E eles contaram a história desde o começo até o fim.
Nesse meio tempo, um turbilhão de poeira se levantou e uma tempestade soprou com violência, aproximando-se. Depois, dissipada a poeira, o génio apareceu com uma espada finamente afiada; e de suas pupilas saltavam faíscas. Aproximou-se e, agarrando entre eles o mercador, disse: “Venha, para q eu te mate, como mataste meu filho, o sopro de minha vida e o fogo de meu coração!” Então, o mercador começou a chorar e a se lamentar; e também os três chaiks começaram a chorar, gemer e soluçar.
Mas o primeiro chaik, dono da gazela, terminou por se animar e, beijando a mão do génio, disse:
“Ó génio, ó chefe dos reis dos génios e coroa de todos eles, se eu te contar minha história e a desta gazela, e tu te sentires maravilhado por ela, em recompensa me farás a graça de um terço do sangue deste mercador?”
O génio respondeu:
“Sim, é certo, venerável chaik. Se tu me contares a história e eu achá-la extraordinária, far-te-ei a graça do terço desse sangue.”

Conto do primeiro chaik

E o primeiro chaik disse:
- Sabe, ó grande espírito, q esta gazela era filha do meu tio, e q ela é de minha carne e de meu sangue. Eu a desposei quando ela ainda era jovem, e vivi com ela perto de 30 anos. Mas Alá não me concedia, dela, nenhum filho. Então tomei uma concubina q, com a graça de Alá, deu-me um filho belo como a lua quando se levanta; tinha olhos magníficos, e sobrancelhas q se uniam e membros perfeitos. Foi crescendo aos poucos até se fazer um rapaz de quinze anos. Nessa época fui obrigado a partir para uma cidade afastada, por causa de um grande negócio comercial.
Ora, a filha de meu tio, esta gazela q aqui está, foi iniciada, desde a infância, na feitiçaria e na arte dos encantamentos. Pela ciência de sua magia ela transformou meu filho em bezerro e a escrava, mãe dele, em vaca. Depois colocou-os sob a guarda de nosso pastor.
Eu, depois de longo tempo, voltei da viagem. Informei-me de meu filho e de sua mãe, e a filha de meu tio me disse: “Tua escrava morreu e teu filho fugiu; não se sabe para onde ele foi.”
Então, durante um ano, fiquei abatido sob a angústia de meu coração e o pranto de meus olhos.
Quando chegou a festa anual do Dia dos Sacrifícios, mandei dizer ao pastor q me reservasse uma vaca bem gorda; e ele trouxe – mas que era minha concubina, encantada por minha mulher. Então, levantei minhas mangas e os panos das minhas vestes e, faca em punho, preparava-me para sacrificar a vaca. Subitamente, aquela vaca se pôs a lamentar e chorar lágrimas abundantes. Então me detive; porem, ordenei ao pastor q a sacrificasse. Ele o fez, e depois a esfolou. Mas não encontramos nela nem gordura nem carne: simplesmente a pele e os ossos. Arrependi-me de tê-la sacrificado, mas de q serviria o arrependimento? Depois dei-a ao pastor e disse-lhe: “Traz-me um bezerro bem gordo.” E ele trouxe meu filho, encantado em bezerro.
Quando o bezerro me viu, rebentou a corda q o prendia, correu para mim e rolou a meus pés. E que gemidos! Q prantos! Então tive piedade dele e disse ao pastor: “Traga uma vaca e solte esse que aí está!”


Nesse momento de sua narrativa, Sherezade viu aparecer a manhã e discreta calou-se, sem se aproveitar mais da permissão recebida. Então sua irmã, Doniazad, disse: “Ó minha irmã, como tuas palavras são doces, gentis e saborosas. E Sherazade respondeu: “Mas elas não são verdadeiramente nada se comparadas ao q contarei aos dois, na próxima noite, se contudo eu estiver ainda viva, e se o Rei houver por bem me preservar!” E o Rei disse a si próprio: “Por Alá! Eu não a matarei senão depois de ter ouvido o resto do conto!”Depois o rei e Sherazade passaram a noite enlaçados. Depois do que o rei saiu para presidir os negócios da justiça. E viu o vizir chegar, trazendo a mortalha destinada a sua filha Sherazade, q ele já acreditava morta. Mas o Rei nada lhe disse sobre tal assunto, e continuou a fazer justiça, nomeando uns, destituindo outros, e isso até o fim do dia. E o vizir ficou perplexo e no auge do espanto. Quando terminou o expediente, o rei retornou ao palácio.




22/09/2008

Os Três Desejos

Conta-se, ó afortunado rei, que havia certa vez um homem de boa fé que passara a vida na expectativa daquela noite milagrosa, prometida pelo Livro aos fiéis convictos, a Noite das Possibilidades, durante a qual um homem piedoso pode ver satisfeito todo e qualquer desejo. Numa das últimas noites de Ramadã, o santo homem, que jejuara rigorosamente o dia todo, sentiu-se de repente visitado pela divina graça. Chamou a mulher e disse-lhe: "Esta noite , sinto-me puro diante do Eterno e tenho a certeza de que esta será a noite que espero há tantos anos, a minha Noite das Possibilidades. Já que meus desejos serão atendidos pelo Remunerador, quis trocar ideias contigo para melhor determinar os desejos que vou formular, pois tu tens sido para mim uma mulher de bons conselhos." - A quantos desejos tens direito? perguntou a mulher. - A três. - Tu bem sabes que a perfeição do homem e seu deleite maior são enraizados em sua virilidade. Homem algum pode ser perfeito se for casto ou impotente ou um eunuco. Assim sendo, quanto maior o zib de um homem, tanto maior será sua virilidade e sua aproximação da perfeição. Inclina-te, portanto, humildemente diante de Todo-Poderoso e pede-lhe que teu zib cresça com munificência. O homem não hesitou. Inclinou-se e, virando as palmas das mãos para o céu, solicitou: "Ó Benfeitor, ó Generoso, ó Todo Poderoso, aumenta meu zib com munificência." O desejo foi atendido com a mesma rapidez com que foi formulado. De repente, o santo homem viu seu zib intumescer e crescer até que pareceu o aparelho de um elefante. A mulher ficou tão apavorada que passou a fugir cada vez que o marido queria experimentar nela seu novo tesouro. Chorava e lamentava: "Como ousaria enfrentar esse poderoso instrumento, capaz de furar a rocha mais dura? Pelo nome de Alá, eu não pedi tanto nem preciso de tanto. Solicita que seja diminuído. Será teu segundo desejo." O santo homem resignou-se, levantou os olhos ao céu e disse: "Alá, ó Generoso, ó Compassivo, rogo-te, livra-me deste generoso presente e dos problemas que me valeu." No mesmo instante, a parte inferior do seu abdomen tornou-se totalmente lisa, sem sinal algum de zib ou de testículos, como se fosse o ventre de uma menina impúbere. Será supérfluo descrever até que ponto essa nova mudança desagradou ao santo homem e ainda mais a sua mulher, que começou a amaldiçoá-lo e acusá-lo de querer enganá-la. Então, a raiva do homem ultrapassou todos os limites, e ele amaldiçoou a mulher com veemência: "Vê aonde levam teus conselhos estúpidos, ó mais abjecta das mulheres! Tinha direito a três desejos e poderia tê-los usado para obter grandes riquezas neste mundo e no outro. `Agora, dois já foram gastos inutilmente e estou numa situação pior do que antes. Como me sobra um desejo, pedirei ao Senhor que restaure o que estava no início, e não terei ganho coisa alguma." Seu desejo foi atendido, e tudo voltou ao estado original. O infeliz desperdiçou os três desejos, mas tirou de sua desventura a lição de que o homem deve satisfazer se com o que tem.


The Gorgeous Rajput Queen

08/09/2008

História de Bulukya


Havia certa vez no reino de Israel um soberano muito sábio que, no seu leito de morte, recomendou a seu filho e herdeiro, Bulukya, fazer um inventário completo de tudo que o palácio continha. Após a morte do pai, Bulukya, já rei, seguiu a sugestão paterna e, ao abrir uma certa caixa de ouro, encontrou nela um pergaminho no qual leu: "Quem deseja ser senhor e dono dos homens, génios, pássaros e animais, precisa apenas usar o anel que o profeta Soleiman tem no dedo, na Ilha dos Sete Mares onde está sepultado. É o anel que ornava o dedo de Adão, pai dos homens, no Paraíso. Para atingir a Ilha dos Sete Mares, não adiantam navios. Quem quer chegar lá deve localizar o vegetal mágico cujo sumo, esfregado na planta dos pés, torna o homem capaz de andar sobre a superfície do mar. Essa planta só cresce no reino subterrâneo da rainha Yamlikha." Após ler esse pergaminho, o rei reuniu os sacerdotes, mágicos e sábios de Israel e perguntou-lhes se havia entre eles quem conseguiria guiá-lo até o reino da rainha Yamlikha. Todos apontaram para Affan, que possuía as chaves da magia, astronomia, alquimia e feitiçaria. Perguntou-Ilhe o rei: "Ó Affan, és mesmo capaz de guiar-me até a terra dessa rainha escondida?" "Sou " respondeu Affan. Imediatamente, os dois cobriram-se com capas de peregrinos e foram até o deserto. Num determinado ponto, disse Affan: "Chegamos." Desenhou um círculo na areia, fez as invocações lso rituais, e logo a terra se abriu e revelou um caminho que ia descendo. Seguindo o caminho, os dois chegaram a essa lagoa que vês aí, ó Hassib. Recebi-os com minha cortesia costumeira. Quando me expuseram o objectivo de sua visita, conduzi-os ao jardim onde as plantas desataram a falar, cada uma na sua língua própria, exaltando seus vários poderes. No meio dessa sinfonia perfumada, ouvimos uma planta cantar em harmonia com a brisa que a acariciava: `Aquele que esfregar os pés com meu sumo maravilhoso, poderá andar sem se molhar sobre todos os mares de Alá." - Esta é a planta que procurais, disse a meus visitantes. E deixei Affan colher todas as flores que quisesse, esmagá-las e recolher o suco num grande frasco que eu lhe dera. Depois, perguntei a Affan e ao rei por que queriam atravessar os mares. Contaram-me. Disse-lhes: "Não sabeis que é impossível a qualquer mortal depois de Soleiman possuir aquele anel? Acreditai em mim. Desisti desse projecto e colhei, antes, as plantas que asseguram uma juventude eterna a quem as comer." Mas não consegui convencê-los. Despediram-se de mim e partiram. Tomaram o caminho da ilha que fica do outro lado dos sete mares. Quando chegaram às margens do primeiro mar, esfregaram as solas dos pés com o suco que levavam. Depois, entraram com precaução na água; mas quando se deram conta de que podiam caminhar sobre a água mais facilmente que sobre a terra, adquiriram confiança e andaram mais rapidamente. No quarto dia, chegaram a uma ilha que pensaram ser o paraíso de tão bela que era com suas flores, rouxinóis e árvores. Passaram naquela ilha o dia todo e, à noite, subiram numa árvore para dormir. Mas antes de fechar os olhos, sentiram a ilha tremer e viram um monstro desmedido chegar com as ondas, segurando nas mandíbulas uma pedra preciosa que iluminava como um archote. Atrás dele, vinha uma multidão de outros monstros iguais, segurando também na boca pedras luminosas. Ao mesmo tempo, do interior da ilha surgiram tantos leões, tigres, leopardos e outros animais selvagens que só Alá poderia avaliar-lhes o número. Os monstros do mar e os monstros da terra encontraram-se na praia e passaram a noite conversando. Com os primeiros raios do dia, separaram-se e voltaram cada qual para sua morada. Bulukya e Affan, que não haviam conseguido fechar os olhos toda a noite, desceram rapidamente da árvore, correram até a praia, esfregaram os pés com o suco mágico e entraram no segundo mar. Atravessaram-no sem problemas até que chegaram a uma ilha coberta de árvores frutíferas, e cujos frutos tinham uma particularidade inédita: cresciam na árvore já preparados com açúcar. Os dois viajantes ficaram na ilha sete dias, para deleite do jovem soberano que gostava excessivamente de frutas cristalizadas. Depois, entraram no terceiro mar, que atravessaram em quatro dias e quatro noites. No quinto mar, chegaram a uma ilha cujas montanhas eram de cristal com grandes veios de ouro. Suas árvores tinham flores amarelas lustrosas. De noite, cintilavam como estrelas. Disse Affan a Bulukya: "Esta é a Ilha das Flores de Ouro. Quando essas flores murcham e caem das árvores, viram pó e se transformam em ouro. Esta ilha é um pedaço do sol que caiu na terra nos tempos antigos." No sexto mar, Affan e Bulukya passaram por outra ilha coberta de árvores. Mas lá as frutas das árvores eram cabeças humanas, umas rindo, outras chorando. Fugiram com horror desse espectáculo e entraram no sétimo mar. Era um mar imenso. Dias e noites, eles andaram sem descansar, comendo peixes crus apanhados ao acaso e aguentando a sede. Finalmente, avistaram uma ilha que esperavam ser a que procuravam. Entraram nela e acharam-na cheia de árvores carregadas de frutos. Bulukya estendia a mão para apanhar uma maçã, quando uma voz terrível saiu de dentro da árvore, gritando: "Se tocares nesta fruta, serás cortado em pedaços." Ao mesmo tempo, um gigante apareceu-lhes, ao qual Bulukya, aterrorizado, disse: "Ó chefe dos gigantes, estamos morrendo de fome e sede. Por que nos impedes de tocar nessas maçãs?" - Como ousas alegar que ignoras o motivo, ó rei sem memória? Esqueces-te que Adão, o pai de tua raça, rebelou-se contra Deus e comeu a fruta proibida? Desde então, tem sido minha missão guardar esta árvore e matar quem tenta apanhar-lhe as frutas. Procura teu alimento alhures." Deixaram-no e começaram a procurar o túmulo de Soleiman. Depois de terem vagueado na ilha um dia ou dois, chegaram a uma colina de âmbar nos flancos da qual abria-se uma gruta magnífica cujo tecto e paredes eram de diamantes. Estava iluminada dia e noite. Entraram nela e foram caminhando, e na medida em que avançavam, a claridade aumentava e a abóbada alargava-se. De repente, chegaram a uma sala imensa cavada no diamante. No meio da sala, havia uma cama de ouro maciço, sobre a qual jazia o corpo de Soleiman Ibn Daud. O anel mágico estava no dedo anular da mão direita. Affan aproximou-se do trono e pediu a Bulukya que repetisse as palavras esotéricas que lhe ensinara para que o anel deslizasse do dedo real. Mas Bulukya equivocou-se e recitou as palavras na ordem inversa. O erro foi fatal para o sábio Affan. Uma gota de diamante líquido caiu sobre ele e o queimou, reduzindo-o a um pouco de cinza. Bulukya fugiu daquela gruta e correu até a praia, onde quis passar o suco mágico nos pés para iniciar a marcha de volta. Mas lembrou-se de que o frasco tinha sido queimado com Affan. Teria morrido lá, abandonado e desesperado, rememorando amargamente os meus conselhos, não fosse pela aparição repentina de um exército de Afarit, Marids e Ghuls que dominavam aquela ilha e a inspeccionavam naquele momento. Bulukya solicitou-lhes que o ajudassem a voltar para seu reino. Mas eles só podiam levá-lo até seu próprio rei, o poderoso Sakhr, senhor da Terra-Branca onde outrora reinou Chedad Ibn Aad. Bulukya aceitou e, num piscar dos olhos, foi levado por cima de mares e montanhas até o palácio do rei Sakhr. O rei o recebeu com todos os refinamentos da hospitalidade árabe e, após contar-lhe a história de seu povo, mandou levá-lo até a entrada de seu país. E o anel de Soleiman, que permite a quem o possuir dominar os mundos e adquirir a imortalidade, continua na Ilha dos Sete Mares. E lá ficará, protegido pelos génios, até o fim dos tempos.



Indian Village Scene



05/09/2008

Yamlikha, A Rainha das Serpentes

Conta-se, ó afortunado rei, que vivia certa vez, na antiguidade dos tempos e antes do desenrolar de muitos séculos, um sábio grego chamado Daniel. Tinha muitos discípulos que lhe escutavam respeitosamente o ensino, mas não tinha um filho. Para herdar-lhe os livros e manuscritos. Após esgotar os outros recursos, Daniel apelou para o Senhor dos Mundos e, no mesmo instante, sua mulher concebeu. Durante os meses de gravidez da mulher, o sábio, dando-se conta de que era muito velho, pensou: ‘ A morte está próxima. Meu filho talvez não encontre meus livros e manuscritos intactos quando estiver na idade de lê-los." Assim presumindo, pôs-se a condensar seus 5 mil manuscritos em cinco folhas. Depois, reduziu estas a uma única folha. Quando sentiu o fim chegar, jogou os livros e manuscritos no mar para que ninguém os possuísse e entregou a folha de papel à mulher, dizendo-lhe: "Não verei nosso filho. Deixo-lhe contigo esta essência de todos os conhecimentos. Entrega-a quando ele reclamar a sua herança. Se souber ler este manuscrito e compreender o que ler, será o homem mais sábio de seu tempo. Desejo que lhe dês o nome de Hassib." Depois, o sábio entregou a alma a Deus. No devido tempo, a mulher deu à luz um menino que foi chamado Hassib. A mãe pediu aos astrólogos que lhe estabelecessem um horóscopo. Disseram-lhe: " mulher, teu filho viverá muitos anos e amontoará saber e riqueza, desde que escape a um perigo que lhe ameaça a mocidade. Quando o menino atingiu a idade de cinco anos, a mãe mandou-o à escola. Mas ele nada aprendeu. Retirou-o da escola e tentou interessá-lo em alguma profissão. Mas ele insistia em passar os dias em permanente ociosidade. Quando atingiu os quinze anos, os sábios aconselharam a mãe a casá-lo para despertar nele o senso da responsabilidade. A mãe escolheu uma noiva adequada e casou-o com ela. Mas o casamento de nada adiantou. Hassib recusava-se a empreender qualquer actividade. Alguns vizinhos, que eram lenhadores, sugeriram então à mulher comprar para seu filho um asno e um machado e deixá-lo ir com eles às florestas e ser um lenhador. A mulher aceitou a sugestão, e um milagre se produziu. Hassib amou sua nova profissão e tornou-se um excelente lenhador, ajudando assim a sustentar a mãe e a esposa. Certo dia, enquanto cavava a terra em volta de um velho tronco, desenterrou uma placa de mármore solidamente fixada no solo. Chamou os companheiros e, juntos, levantaram a placa e descobriram um buraco por baixo dela. Olhando de mais perto, viram que no fundo do buraco havia uma sala cheia de jarras alinhadas. Supondo que as jarras continham um tesouro antigo, ajudaram Hassib a descer até a sala. Lá ele abriu uma jarra e achou-a cheia de mel. Embora decepcionados, os lenhadores calcularam que o mel lhes daria um bom lucro e alçaram as jarras uma a uma. Quando a última jarra tinha sido levantada, recusaram-se a ajudar Hassib a subir e deixaram-no no buraco, raciocinando: "Se o ajudarmos a salvar-se, vai querer sua cota do lucro. E ele nada vale. Melhor que pereça lá." De volta, contaram à mãe e à esposa de Hassib que, no decorrer de um temporal, surgira um lobo que devorou Hassib e seu asno. As mulheres choraram. Mas nada podiam fazer. Os lenhadores apuraram tamanho lucro com a venda do mel que desistiram de seu ofício árduo, e cada um deles abriu uma loja. Vendo-se traído e abandonado, Hassib não se deixou abalar. Percorrendo a gruta, reparou em uma fenda numa das paredes, a qual deixava passar uma luz ténue. Introduziu o machado na fenda e conseguiu alargá-la. E descobriu que se tratava, na realidade, de uma porta. Abriu a porta e achou-se numa galeria que terminava num lindo lago ao pé de uma colina de esmeralda. A beira do lago, viu um trono de ouro incrustado com pedras preciosas e cercado por 12 mil cadeiras de ouro, prata, esmeralda, cristal, aço, ébano. Sentou-se no trono e logo ouviu cantos melodiosos e viu uma longa fila de pessoas descendo da montanha para o lago. Quando se aproximaram, reparou que eram todas mulheres de excessiva beleza, mas cuja metade inferior terminava num órgão alongado e rastejante como o das serpentes. Quatro delas carregavam sobre os braços erguidos uma grande bandeja sobre a qual a rainha estava de pé, graciosa e sorridente. Hassib desceu imediatamente do trono, e as quatro mulheres depositaram nele a rainha. As outras mulheres ocuparam as 12 mil cadeiras. Todas cantavam em grego e tocavam címbalos. Depois, a rainha, que tinha reparado na presença de Hassib, acenou-lhe, convidando-o para aproximar-se, e disse-lhe: "Sê bem-vindo a meu reino subterrâneo, ó jovem que um destino benéfico conduziu até aqui. Conta-nos tua história e dize-nos o que desejas." Hassib contou sua história do início ao fim. Encantada, a rainha disse-lhe: "Permanece connosco alguns dias. E eu te ajudarei a passar o tempo, contando-te uma história que te será útil quando voltares à terra dos homens." Foi assim que a rainha Yamlikha, soberana subterrânea, contou em grego ao jovem Hassib, filho do sábio Daniel, e às 12 mil mulheres-serpentes sentadas em volta dela em cadeiras de pedras preciosas, a seguinte deslumbrante história.


Entertaining the Princess


17/08/2008

Uardan, o Açougueiro, e e filha do Vizir


Conta-se, entre tantas outras histórias, que vivia certa vez no Cairo um homem chamado Uardan que era açougueiro de profissão. Todos os dias, uma jovem de notável beleza, mas de olhos cansados e cor pálida, vinha a sua loja, seguida por um carregador. Comprava carnes e testículos de carneiro, pagava com moedas de ouro, colocava as carnes e os testículos no cesto do carregador e ia percorrer o mercado, comprando algo em cada loja. Repetiu essa rotina diária tantas vezes que Uardan foi invadido pela curiosidade e quis desvendar o mistério que se escondia atrás da jovem. Um dia, o carregador da moça passou sozinho em frente do açougue. Uardan aproveitou para oferecer-lhe de presente uma cabeça de carneiro e dizer-lhe: "Estou perplexo a respeito da moça que te emprega todos os dias. Quem é ela? De onde vem? Que faz com os testículos de carneiro? Por que sua face e olhos estão sempre cansados?" - Por Alá, respondeu o carregador, estou tão curioso a seu respeito quanto tu. Mas contar-te-ei o que sei. Quando todas as compras estão feitas, minha ama vai ao mercador cristão da esquina e adquire por um dinar vinho velho de qualidade e, depois, me conduz até a entrada dos jardins do vizir. Lá, veda-me os olhos com um pedaço de pano, toma-me pela mão e vamos andando até uma escada, que descemos juntos. Seus servidores levam o cesto cheio e me entregam outro vazio, com meio dinar pelo meu trabalho. Depois, conduzem-me de volta até a entrada dos jardins, libertam-me os olhos e me mandam embora. Nunca consegui saber o que fazia com toda essa quantidade de carnes, frutas, amêndoas, que me faz carregar até aquele subterrâneo todos os dias. - Aumentaste minha perplexidade, ó carregador, disse Uardan. No dia seguinte, decidido a esclarecer o mistério a qualquer custo, Uardan esperou que a mulher passasse por sua loja com as compras e seguiu-a de modo a não ser descoberto. Na entrada dos jardins do vizir, escondeu-se atrás de uma árvore, e quando, após dispensar o carregador, a moça dirigiu-se aos fundos do jardim, Uardan tirou os sapatos e continuou a segui-la tão furtivamente quanto um gato. Viu-a parar diante de uma rocha, virar a rocha sobre si mesma graças a determinado gesto e desaparecer numa escada que descia na terra. Após deixar passar um momento, Uardan aproximou-se da rocha, manipulou-a com o jeito que observara a moça usar e desceu a escada. E eis o que descobriu, como ele mesmo me contou: "Assim que meus olhos se habituaram à escuridão, vi uma porta fechada de trás da qual vinha uma tempestade de risos e grunhidos. Dirigi-me para lá, olhei pelo buraco da fechadura e vi, abraçados em cima de um divã e se debatendo em mil contorções lascivas, a moça que eu estava seguindo e um macaco enorme, com um rosto quase humano. "Após um momento, a moça libertou-se do abraço do macaco , pôs-se de pé, tirou toda a roupa e voltou a deitar, completamente nua, no mesmo divã. E vi o macaco saltar sobre ela e cobri-la. Quando tinha terminado o ato, levantou-se, deu dois passos e cobriu-a de novo. Repetiu o mesmo ato dez vezes seguidas, enquanto ela lhe respondia com prazer e emoção como se fosse um homem. Finalmente, os dois se separaram, exaustos, e deitaram-se em total imobilidade. "Mesmo em meio a meu espanto, disse a mim mesmo: Agora ou nunca.' E, quebrando a porta com o ombro, precipitei-me na sala, brandindo minha faca de açougueiro, e cortei com um golpe a cabeça do macaco. A moça, abrindo os olhos, viu-me de faca em punho, exalou um grito de terror tão angustiado que receei vê-la cair morta. Mas, percebendo que eu não lhe queria mal, recobrou pouco a pouco os sentidos e me reconheceu. Então disse: `Ó Uardan, é assim que recompensas uma cliente fiel?' - Ó inimiga de tua própria salvação, bradei, não são os homens bastante fortes para que tenhas que procurar o gozo com tais substitutos? - Ó Uardan, respondeu, escuta enquanto te contar a causa de tudo isso e talvez me perdoes. Sou filha única do vizir. Até a idade de 15 anos, vivi tranquilamente no palácio paterno. Mas, um dia, um escravo preto ensinou-me aquilo que tinha que aprender de alguma forma e tomou de mim aquilo que tinha para dar. Talvez saibas que não existe nada igual a um negro para inflamar o interior de uma mulher, especialmente quando esse esterco preto é o primeiro que o jardim recebe. Meu jardim tornou-se tão esfomeado que precisava do preto para alimenta-lo a todo momento. "Após um certo tempo, o negro morreu na sua tarefa, e eu contei minha desgraça e meu abandono a uma velha comadre. Abanou a cabeça e disse: `A única coisa que pode substituir um negro é um macaco, minha filha. Os macacos são inimitáveis neste ato.' "Pensei: `Por que não tentar?' Um dia, estava na janela do palácio quando um circo passou à minha frente. Incluía vários macacos. Tirei meu véu e fixei meu olhar no maior deles. Imediatamente, o animal quebrou as suas cadeias e fugiu. Deu uma volta imensa e entrou no palácio. Correu directamente até meu aposento, tomou-me nos braços e fez mais de dez vezes seguidas o que o viste fazer hoje. Guardei-o em segredo. Mas, um dia, meu pai ouviu falar de minha tara e quase me matou. Tive que construir este subterrâneo para proteger meu amante e continuar a gozar os prazeres com ele. "Todos os dias, trazia-lhe comida e bebida. Infelizmente , hoje, o destino me traiu. Descobriste meu esconderijo e mataste meu companheiro." "Tentei consolá-la, dizendo: `Uma coisa está certa, ama querida. Posso substituir merecidamente o macaco. Podes julgar por ti mesma.' E montei nela naquele dia e todos os dias seguintes. E meu desempenho era igual ao do macaco e do negro mortos. `Assim mesmo, as coisas estragaram-se. A moça ficava cada vez mais quente e mais insaciável, e um homem, por mais vigoroso que seja, não é um macaco. Aguentei o que podia. Depois, consultei uma mulher entendida em preparos químicos e mágicos. `Não saberias como reduzir o apetite tempestuoso de uma mulher?' perguntei-lhe. - A coisa é fácil, disse, para quem sabe preparar as misturas que preparo. "Preparou uma mistura de ervas e disse-me para copular com minha amiga e logo em seguida colocar-lhe o produto entre as coxas. Segui as instruções, e qual não foi meu espanto ao ver dois vermes saírem dali e andarem pelas pernas da mulher. Examinando-os, vi que eram duas enguias, uma amarela e outra preta. "Quando contei essas coisas à curandeira, disse-me: `Dá graças a Deus. Essas duas enguias eram a causa dos desejos imoderados de que te queixavas. Uma delas nasceu da copulação com o negro, a outra da copulação com o macaco. Agora, a mulher será como as demais mulheres.' "E assim foi. Como gostava dela, pedi-a em casamento, e como estava acostumada a mim, ela aceitou. Vivemos felizes. Mas reconheço que, muitas vezes, lamento aquele incêndio de desejos que as ervas da curandeira apagaram em minha mulher."


Waiting for her Beloved

02/08/2008

A Bela Zumúrrod e Ali Char


Conta-se, ó afortunado rei, que vivia certa vez, nos tempos antigos, um rico mercador de Khorassan chamado Majd, o Glorioso. E ele tinha um filho mais belo que a lua, chamado Ali Char. Um dia, o mercador, carregado de anos e pressentindo a chegada da morte, chamou o filho e disse-lhe: "Meu filho, o fim de meus dias está à vista. Queria, pois, fazer-te algumas recomendações." Ali Char respondeu com lágrimas nos olhos: "Por favor, fala, meu pai." - Recomendo-te que não cries laço algum com o mundo. Pois este mundo é como uma fornalha. Se não te queima com seu fogo e não te cega com suas faíscas, com certeza sufocar-te-á com sua fumaça. Um poeta disse: Aquele com o afeto do qual gostarias de contar não existe. Como não existe o amigo que te ampare quando o destino te antagoniza. Yve, pois, sozinho, e não confies em ninguém. Tal é meu conselho. Não tenho outro. Ouvindo essas palavras, Ali Char respondeu: "Pai, obedecer-te-ei em tudo e farei o que me recomendas." O moribundo acrescentou: "Nunca desprezes os conselhos dos que têm mais experiência que tu e nunca bebas vinho, pois ele te rouba o miolo e faz de ti um objeto de escárnio para os outros."
- Tens mais recomendações a dirigir-me, amado pai?
- Meu filho, lembra-te de que os homens são três: o homem inteligente reflecte e só depois age; o sábio reflecte e, antes de agir, consulta; o tolo age sem reflectir e sem consultar. "Faze o bem sempre que puderes. Mas não esperes ser pago de volta, nem com favores nem com gratidão. E não desperdices as riquezas que te deixo. Nada inspira respeito como as riquezas que os homens têm. Um poeta disse: Quando meu dinheiro é pouco, meus amigos são mais raros ainda. Quando me torno rico, todos os homens declaram-se meus irmãos. Quantos inimigos me procuram por causa de minha riqueza. E quantos amigos fogem de mim por causa de minha pobreza. "Finalmente, lembra-te da sábia recomendação de Malek Ibn Dinar: "Se quiseres salvar a tua alma, desobedece-lhe; se quiseres perdê-la, obedece-lhe." Com essas palavras, o santo homem entregou a alma a Deus. Durante um ano, Ali Char continuou o comércio do pai e seguiu-lhe os conselhos. Mas passado esse prazo, deixou-se levar pelos impudicos mancebos filhos de meretrizes e pelos adulterinos sem vergonha, e começou a frequentar-lhes as mães e as irmãs, afundando-se cada vez mais na depravação. Raciocinava que devia gastar a fortuna deixada pelo pai, se não quisesse deixá-la a outros por sua vez. Abusou tanto que acabou por vender sua loja, a casa, os móveis e até a própria roupa. Então, lembrou-se das últimas palavras do pai, pois todos os amigos que tinham aproveitado assiduamente seus gastos, desculparam-se, um após o outro, de não atender a seus apelos. E o dia chegou em que teve que mendigar o pão de porta em porta, e descobriu que o túmulo é uma morada mais confortável que a pobreza.
Enquanto andava certa vez na rua, viu um ajuntamento de compradores, vendedores, corretores em volta de uma escrava branca de elegante e formosa aparência. Media cinco pés de altura, tinha rosas no lugar das faces, seios arredondados e um traseiro de acender o fogo da cobiça em qualquer homem. Ali Char ficou deslumbrado. Esqueceu sua miséria e misturou-se com os mercadores, os quais, ignorando ainda a sua situação, pensavam que vinha comprar a escrava com as riquezas herdadas do pai. O pregoeiro tomou lugar ao lado da escrava e bradou por cima daquele mar de cabeças: `aproximai-vos, meus senhores , cidadãos, homens do deserto. Eis aqui a rainha das luas, a pérola das pérolas, a nobre e casta virgem Zumúrrod, jardim cheio de flores, fonte de todas as volúpias. Abri o leilão!" ` Abro com quinhentos dinares", gritou um mercador. Outro gritou: "E dez." Então, um comerciante velho, disforme e horrendo, chamado Rachid Addim, esbravejou: "E cem!" Mas quando uma voz superou-lhe a oferta, dizendo: "E dez", o velho bradou: "Mil dinares!" Os outros candidatos permaneceram em silêncio. O leiloeiro virou-se para o proprietário da escrava e perguntou-lhe se achava a oferta de Rachid Addim satisfatória. Respondeu: "Acho-a satisfatória. Mas jurei não vender esta escrava senão com seu consentimento."
Consultada, a bela Zumúrrod olhou o velho com desdém e repetiu os versos do poeta: Não gosto de cabelo branco. Passarei a vida mastigando algodão? "Por Alá, tens razão de recusar, disse o pregoeiro a Zumúrrod. Mil dinares nada são. Tu vales pelo menos 10 mil dinares." Acrescentou: "Esta adolescente não é somente mais bela que a lua. Eu fiquei surpreso ao descobrir tudo o que ela sabe fazer: sabe escrever com sete canetas. Conhece a arte de bordar; e qualquer tapete que lhe sai das mãos vale cinqüenta dinares no mercado. Além disso, conhece milhares de poemas." Depois, perguntou aos licitantes: "Ninguém quer levar esta pérola pelo preço oferecido?" "Eu," gritou uma voz. Zumúrrod olhou para o dono da voz e viu que, embora não fosse muito feio, tinha a barba pintada para fazê-lo parecer mais jovem. "Vergonha!" gritou a escrava, e disse ao pretendente: Mudas de barba como mudas de cara, tomando-te um verdadeiro espantalho? À tua vista, qualquer mulher grávida abortaria.
Outro licitante aceitou o preço. Olhando-o, Zumúrrod verificou que tinha um só olho, e desatou a rir. Depois, perguntou-lhe: "Não conheces a charada do zarolho? Ei-la: Conta-me se puderes a diferença entre um mentiroso e um zarolho. Não podes? Não te censuro. Pois não existe entre eles diferença alguma. O pregoeiro disse então a Zumúrrod: "Querida ama, olha para todos esses candidatos e dize-me qual deles te agrada para que te ofereça a ele." Quando o olhar da moça caiu sobre Ali Char, sentiu-se atraída por um violento desejo, pois ele era belo. Indicou-o ao leiloeiro. Disse o leiloeiro a Ali Char: "Grande é tua sorte de adquirir este tesouro pela centésima parte de seu valor real." Ali Char inclinou a cabeça, rindo à ironia do destino: "Pensam que sou bastante rico para comprar esta escrava, quando não possuo dinheiro suficiente para comprar um pedaço de pão." Zumúrrod sentiu-o embaraçado e adivinhou sua pobreza. Aproximou-se dele e entregou-lhe discretamente mil dinares. Com eles, Ali Char comprou a bela escrava e levou-a. Zumúrrod não se surpreendeu ao ver a pequena e miserável casa onde seu dono morava. Deu-lhe mais mil dinares e disse-lhe: "Corre ao mercado e compra tudo que nos é necessário em móveis e alimentos. Compra também uma peça de seda de Damasco, carretéis de fios de sete cores diferentes, agulhas e um dedal de ouro." Quando Ali Char voltou, Zumúrrod preparou o almoço, mobiliou a casa e, em pouco tempo, teceu um belíssimo tapete que encarregou Ali Char de vender, "por um preço não inferior a cinqüenta dinares." Acrescentou: "Vende-o a qualquer mercador estabelecido, mas não a alguém de passagem; pois serias então a causa de nossa separação. Nós temos inimigos que nos espreitam." Viveram assim um ano inteiro, unidos e felizes. Certa manhã do ano seguinte, Ali Char deixou a casa com mais um tapete tecido por Zumúrrod e foi ao mercado para entregá-lo a um pregoeiro. Mas um cristão passou por lá, um desses indivíduos que pululam na entrada dos mercados e assediam os clientes com ofertas desonestas. Aproximou-se de Ali Char e ofereceu comprar-lhe o tapete diretamente, sem a interferência do pregoeiro, por cem dinares. Ali Char caiu na tentação, vendeu o tapete por cem dinares, mas voltou para casa preocupado e incomodado por apreensões. No caminho da volta, reparou que o cristão o estava seguindo. "Por que me segues, maldito cristão?" - Ó meu mestre, é inteiramente por acaso que estou aqui. Mais já que te encontro, deixa-me pedir-te um gole de água. Estou sofrendo de sede. "Por Alá", pensou Ali Char, "não será dito que um muçulmano negou um pouco de água a um cão raivoso." Mas o cristão, em vez de esperar à porta, insinuou-se para dentro da casa. Gritou-lhe Ali Char: "O que estás fazendo, ó cachorro, filho de cachorro? Como ousas entrar na minha casa sem minha permissão?" O cristão desculpou-se e prometeu sair assim que tivesse tomado a água. Mas ficou lá após beber e disse a Ali Char: "Estou vendo que és caridoso e generoso, meu mestre, e não te assemelhas àquela gente descrita pelo poeta neste versos: Já se foram os generosos Cujas mãos eram rios e mares. Agora, o mundo todo pratica a avareza, dizendo: "Deves pagar" quando um faminto pede um pedaço de pão. Obedecendo às tradições de hospitalidade de seu povo, Ali Char ofereceu ao cristão diversas iguarias, e este exclamou: "Que liberalidade, meu mestre! Há aqui comida para dez pessoas." Depois, apanhou uma banana e, aproveitando a distração do anfitrião, injetou nela uma dose de benj capaz de anestesiar um elefante, e ofereceu-a a Ali Char com palavras hipócritas sobre as boas relações entre hóspede e anfitrião. Mal havia Ali Char engolido a banana, perdeu os sentidos. O cristão fez sinal a seus cúmplices que esperavam na rua e, juntos, seqüestraram Zumúrrod. Tentaram, primeiro, convencê-la a renegar sua religião e abraçar o cristianismo. Diante de sua recusa, estenderam-na no chão e bateram nela. Mas, a cada golpe, ela respondia: "Não há Deus senão Alá, e Maomé é o mensageiro de Alá." Por fim, levaram na e foram embora. Quando os vapores do benj se haviam dissipado, Ali Char levantou-se e, não encontrando Zumúrrod, deu-se conta, tarde demais, de sua imprudência. Desesperado, saiu pelas ruas chorando e gemendo. Uma boa mulher deteve-o e perguntou-lhe quando havia perdido a razão. Respondeu com os versos do poeta: Minha doença é a ausência da amada. Ó médico, não consultes nem perguntes. Traze-a de volta E estarei curado na hora. A velha compreendeu e ofereceu-se para ajudá-lo a encontrar a amada. Pediu-lhe um cesto de mascate cheio de bugigangas que ela iria oferecer de porta em porta nas casas e haréns e assim tentar descobrir o paradeiro de Zumúrrod. Ali Char chorou de alegria e, após beijar a mão da venerável mulher, correu a comprar-lhe o que precisava. E ela, disfarçada em vendedora ambulante, passou de casa em casa, oferecendo suas mercadorias. Na casa de um cristão que fingia ser muçulmano, viu uma mulher estendida sobre uma esteira. Pela descrição que Ali Char lhe fizera de Zumúrrod, concluiu que era ela. Conseguiu aproximar-se e, certificando-se que era mesmo Zumúrrod, acertou com ela um plano de fuga para aquela mesma noite. Quis o destino que, naquela noite, um audacioso ladrão estivesse rondando a mesma casa para assaltá-la. Quando Zumúrrod saiu com a velha, o ladrão pôs a mão sobre ela e levou-a. Aterrorizada, perguntou-lhe quem ele era. Respondeu: "Sou Ionan o Curdo, da quadrilha de Ahmed Danaf. Somos quarenta, todos robustos e perversos. Há muito tempo não vemos carne fresca. Assim, a noite de amanhã será a mais abençoada de tua vida, pois todos montaremos em ti e rebolaremos entre tuas pernas até o sol raiar." Zumúrrod percebeu todo o horror da situação, mas confiou em Alá e se deixou levar. Na gruta dos ladrões, Ionan chamou a mãe. uma velha que cuidava do serviço doméstico, e entregou-lhe a jovem, dizendo: "Trata bem esta gazela. Vou cuidar de alguns assuntos, e, amanhã à tarde virei com meus camaradas para montar nela." Uma vez a sós, virou-se a velha para Zumúrrod e disse-lhe: "Minha filha, que felicidade para ti! Vais ser furada por quarenta homens vigorosos. Por Alá, tens a sorte de ser jovem e apetitosa." Zumúrrod não respondeu, mas pensou: "Nunca me deixarei furar por esses quarenta ladrões lascivos que me encherão de esperma como um navio à deriva." E arquitetou um plano. Na manhã seguinte, mostrou-se despreocupada e alegre, e disse à velha: "Que havemos de fazer para passar o tempo? Não queres vir comigo ao sol, minha boa mãe, e deixar-me catar os piolhos de tua cabeça e alisar-te o cabelo? A velha, que não conhecia tais cuidados havia anos, ficou encantada e seguiu Zumúrrod. Vencendo o nojo, esta pôs-se a catar aos punhados os piolhos de toda espécie que enchiam a cabeça da velha e, depois, penteou-lhe vagarosamente o cabelo de tal modo que a velha foi invadida por um delicioso torpor e adormeceu. Sem perder tempo, Zumúrrod entrou na gruta, vestiu-se de homem, envolveu a cabeça num lindo turbante, montou um cavalo e se foi, galopando. Dois dias depois, chegou às portas de uma cidade onde uma multidão soltou gritos de alegria ao vê-la. Emires, chefes militares, notáveis, prosternaram-se diante dela, gritando: "Viva o nosso novo sultão!" Não compreendendo o que se passava, Zumúrrod interrogou um dos emires e ouviu-o dizer-lhe: "É tradição em nossa cidade que, quando o rei morre sem deixar herdeiros, reunamo-nos neste lugar e aguardemos. O primeiro homem a chegar, coroamo-lo rei, seja ele um mendigo ou um príncipe. Nossa sorte é ter desta vez um rei tão jovem, belo e de nobre aparência." Zumúrrod, que tinha a mente fértil em recursos, acolheu a notícia com serenidade, e disse: " Ó meus fiéis súditos, não penseis que sou algum turco de baixa extração. Sou o herdeiro de uma família nobre e rica, percorrendo o mundo em busca de divertimentos. Aceito ser vosso rei." Depois, iniciou seu reinado abrindo os cofres públicos; fez liberalidades aos soldados e aos pobres, ofereceu vestes honoríacas aos dignitários, cumulou com favores eunucos e serventes. Aboliu a maioria dos impostos e corrigiu muitos abusos. Foi adorada por todos. Passou assim um ano feliz, porém nunca esqueceu Ali Char. Cantava: Minha saudade de ti renova-se todas as manhãs, e as lágrimas nunca abandonam meus olhos. A separação é dura para quem ama. Aproveitando o primeiro aniversário de seu reinado, concebeu um plano capaz de reuni-la um dia com seu amado se ele por acaso visitasse a cidade. Decidiu oferecer uma vez por mês um banquete real a todos os estrangeiros em visita a seu reino. O comparecimento era obrigatório. Quem faltasse seria enforcado. E um dia, Ali Char veio a um desses banquetes. Ela o reconheceu, mas ele não a reconheceu. Dominou suas emoções e perguntou-lhe: "Qual é o teu nome, ó moço amável, e que vieste fazer em nossa cidade?" - Ó afortunado rei, meu nome é Ali Char, filho de Majd. Meu pai era um mercador na terra de Khorassan. Continuei seu comércio, mas depois fui vítima de uma grande desgraça. Gente perversa raptou a mulher que amo. Percorro o mundo à sua procura. Foi assim que visitei esta cidade. Minha amada é mais bela que a luz. Todos os dias dirijo a seu espírito estes versos do poeta, esperando que um dia, seu espírito me ouça. Se o Nilo tivesse a abundância de minhas lágrimas, não deixaria no mundo terra seca. Transbordaria sobre o Hijaz, o Egito, o Iraque E todo o Oriente Médio. Sê, portanto, compassiva, ó amada, e dize-me depressa a data do encontro. Zumúrrod mandou seus eunucos trazer a mesa de areia divinatória e a caneta de cobre. Quando os recebeu, desenhou figuras e hieróglifos, refletiu uma hora, depois declarou: "Ó A1i Char, olho de Majd, a areia confirmou tua história. Falaste a verdade. Confirma também que teus apelos foram ouvidos. Breve, Alá te devolverá a mulher que amas. Deu ordens então á seus escravos para levarem Ali Char ao hammam, vesti-lo como vestes reais e reconduzi-lo a sua presença ao cair da noite. O povo, informado desses fatos pela tagarelice dos servidores, começou a conjeturar sobre os motivos que levariam o rei a tratar aquele moço bonito com tanto carinho e a recebê-lo em seu aposento à noite. Na hora marcada, Zumúrrod tirou a roupa, vestiu uma simples camisola de seda, fechou as cortinas, estendeu-se num sofá e deu ordens para introduzir Ali Char.
Quando este entrou, disse-lhe: `Amável jovem, aproxima-te de mim." Tomou-o pela mão e disse lhe: "Sabes que me agradas muito? Por favor, inclina-te e esfrega-me os pés."Ali Char o fez. E o rei disse: `:Agora esfrega-me as pernas e as coxas. Ali Char admirou-se de que as pernas e coxas do rei fossem tão claras e macias. - Agradável jovem, disse o rei, tuas mãos são bem hábeis. Sobe até meu umbigo. Depois, mandou Ali Char abaixar as calças e estender-se sobre o estômago. E o rei cobriu-o, mas Ali Char não sentiu nada furá-lo. Disse o rei: "Deves saber, querido Ali Char, que meu zib só se levanta quando manipulado com os dedos. Manipula-o..! dize adeus à vida." E Zumúrrod tomou a mão de Ali Char e depositou-a sobre a parte curva de sua mercadoria. Ali Char sentiu algo redondo e elevado e gordinho e quente e vibrante. Este rei tem uma entrada, pensou Ali Char com assombro. É a coisa mais prodigiosa de que já ouvi falar." Assim estimulado, seu zib superou as hesitações e levantou-se até os últimos limites da ereçcão. Era exatcamente o que Zumúrrod esperava. Desatou a rir disse a Ali Char: "Ainda não reconheceste tua escrava, ó meu amo?" Ali Char olhou o rei de mais perto e reconheceu sua amada. Tomou-a nos braços e abraçou-a com transportes vibrantes de alegria. E ela perguntou: "Ainda hesitas?" Pulou então sobre ela como um leão pula sobre uma ovelha. E abriu nela um túnel. Zumúrrod acompanhou-o com delírio, abaixando-se com ele, ondulando com ele, revolvendo com ele, respondendo a seus gritos com gemidos até que o barulho atraiu os eunucos. Levantaram as cortinas para ver se seu rei precisava de seus serviços, e viram com espanto o rei estendido sobre as costas e intimamente coberto pelo.jovem; mas nada disseram. Quando chegou a manhã, Zumúrrod envergou suas vestes reais e mandou reunir no pátio do palácio os vizires, chefes militares, notáveis e outros habitantes, e declarou: "Ó fiéis súditos, tendes meu consentimento para ir até a estrada onde, um dia, me encontrastes, buscar alguém para reinar sobre vós. Por mim, resolvi abdicar ao trono e ir viver no país deste adolescente que escolhi por amigo de meus dias." Os assistentes responderam:"Atenção e obediência!" E foram postar-se às portas da cidade à espera do primeiro homem que seria o novo rei. Por sua vez, os escravos de Zumúrrod correram a arrumar os preparativos da viagem: encheram caixas e caixas de provisões, vestuário, ouro, jóias. Zumúrrod e Ali Char subiram num palanquim , de veludo e brocado nas costas de um dromedário e, seguidos tão-somente por dois jovens eunucos, regressaram ao Khorassan, onde reencontraram sua casa e seus parentes. Distribuíram presentes e liberalidades e viveram felizes por muitos anos até a chegada da sombra malvada que separa os entes queridos e destrói o que se levou uma vida para construir. Glória a Alá que vive tranquilo de eternidade em eternidade!


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