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22/05/2010

Clarinha



Havia numa terra uma rainha, com uma filha muito linda chamada Clarinha, a qual estava tratada para casar com um príncipe logo que chegasse à idade em que havia de receber o reino de sua mãe, que o estava governando. Clarinha costumava ir todos os dias ao jardim; um dia passou uma águia, e todas as vezes que passava lhe dizia:
— Clarinha, Clarinha, qual queres, passar trabalhos na mocidade ou na velhice?
A princesa foi dizê-lo à rainha, e ela lhe respondeu:
— Diga a menina: Antes na mocidade, que se pode com tudo, e na velhice não se pode com nada.
Clarinha foi para o jardim como o seu costume, e a águia tornou a dizer o mesmo. No ponto que a princesa disse: «Antes na mocidade», a águia levou-a pelo ar fora e foi deitá-la na terra onde vivia o príncipe com quem tinha tratado o casamento. Clarinha não conhecia ali ninguém a não ser a rainha e o príncipe, mas não se podia falar com eles sem requerimento, e ela não o tinha. Foi ter a uma padaria, e pediu para ser criada. A padeira tomou-a; indo um dia para fora, deixou para Clarinha cozer uma fornada de pão já amassado. A menina com medo fechou todas as portas e janelas para a águia não entrar, mas ela sempre entrou pela chaminé e esborralhou-lhe o forno sobre o pão, quebrou-lhe os alguidares e muita loiça, e fugiu. Chegando a padeira, deu muitas pancadas em Clarinha e pô-Ia no andar da rua. Por mais que pedisse e chorasse, a padeira não acreditava. Foi a menina ter com um vendeiro, para o servir; saindo este um dia, deixou-a na tenda. Com medo ela fechou-se por dentro, mas a águia sempre entrou e quebrou copos, medidas e garrafas, e destapou as pipas. Quando o vendeiro chegou achou tão grande destroço, e sem se importar com o que dizia Clarinha, deu-lhe muitas bofetadas e pô-la logo na rua. Clarinha foi ter dali ao palácio, não se dando por conhecida, e ofereceu-se para criada do príncipe. A rainha disse que não precisava de mais criadas. O príncipe acudiu:
— Tome-a, minha mãe, ainda que seja para vigiar as patas.
— Pois sim; que entre.
Todos os dias morriam as patas que ela vigiava, e o príncipe vendo que ela chorava tanto, pediu à rainha que a tomasse por costureira. Passados tempos, o príncipe aprontou-se para ir ver a sua noiva, e chegando ao pé das aias disse:
— Que querem que eu lhes traga da terra aonde vou?
Todas elas lhe pediram alguma coisa, menos a Clarinha. O príncipe insistiu com ela para que dissesse o que queria de lá.
— Traga-me Vossa Alteza uma pedra do palácio.
O príncipe partiu, e ao chegar ao palácio da sua noiva ouviu que tudo estava de luto pela falta da princesa. Muito triste ficou, e no mesmo instante comprou tudo que as criadas lhe tinham pedido, e a pedra para Clarinha, e partiu. Chegou cá muito triste e alguma coisa desconfiado de quem seria Clarinha. Entregou-lhe a pedra, e para saber o que ela quereria fazer disso, meteu-se debaixo da cama, quando a criada deu volta. Quando ela veio para o seu quarto, fechou-se por dentro e cuidando que não estava ninguém, começou a dizer à pedra isto:
— Pedra do palácio de meu pai, vou contar-te a minha vida.
E contou desde os passeios do jardim e da águia, até ali. E no fim de tudo a pedra deu um estoiro, e Clarinha disse:
— Abre-te, pedra, numa roda de navalhas, que me quero deitar nelas.
O príncipe então saiu debaixo da cama, e abraçou-a dizendo:
— Porque não me contaste teus males, querida Clarinha?
Porque logo que a águia queria que eu passasse trabalhos, quis passá-los enquanto era nova, porque sempre tinha alguma esperança.
Dali a um momento os dois príncipes casaram-se, e foram ter com a rainha mãe da princesa, que ficou muito satisfeita e veio viver com eles.


(Ilha de S. Miguel — Açores)
In: Teófilo Braga, Contos Tradicionais do Povo Português



15/05/2010

O moinho de café, a bandeja e o bastão

ERA UMA VEZ um pobre lenhador que tinha uma esposa e sete filhas. Ele trabalhava bastante mas, apesar disso, continuava muito pobre. Assim se passaram vários anos.
Um dia, cortando árvores, de repente viu à sua frente um homem preto que lhe perguntou: — Por que você corta minha cabeça todo dia:
A resposta do lenhador foi: — Senhor, tenho em casa uma mulher e sete filhas para alimentar. Derrubar árvores é o único meio que sei de conseguir dinheiro. Vendo a madeira e assim não morremos de fome, embora passemos necessidades.
O coração do preto transbordou de piedade. Disse: — Darei a você um moinho de café que produzirá tanta comida quanto você o desejar. Mas não venha aqui novamente.
O lenhador chorou de alegria, beijou o negro, bendisse-o e agradececeu-lhe. Pegou as ferramentas e o moinho de café e dirigiu-se para casa. Durante o caminho, descansou e, como estivesse com fome, decidiu experimentar o moinho. Disse: — Moinho, dê-me arroz, carne e pão. — E dizendo isso, fechou os olhos. Quando os abriu, achou a comida à sua frente. Terminou a refeição e encaminhou-se rapidamente para casa.
Contou à família, alegremente, sobre a aparição do negro e seu presente maravilhoso. E toda a família agradeceu a Deus no céu por sua misericórdia e providência. Imediatamente, desejaram uma refeição sadia e substancial. E lá estava ela.
Assim viveram felizes a semana inteira.
Na vizinhança, viva uma velhina que os visitava de vez em quando. Um dia, uma semana depois que o lenhador trouxe para casa o moinho, apareceu ela para visitá-los e, como de costume, perguntou-lhes: — Como vão as coisas?
Uma das filhas alardeou: — Muito bem. Papai não trabalha mais. Possuímos um moinho maravilhoso, que nos provê de tudo o que desejamos.
Assim, a velhinha decidiu conseguir esse moinho para si. Um dia, visitou-os novamente quando outra filha estava em casa. Pediu-lhe o moinho emprestado, pois ela queria moer alguns grãos de café e não possuía moinho. — Devolverei o moinho dentro de umas três horas — prometeu. E o moinho lhe foi entregue. É claro que, em vez de devolver o moinho milagroso, trouxe de volta um moinho qualquer, apesar de ser quase idêntico ao moinho do lenhador.
O pai voltou à noite, dirigiu-se ao moinho na forma costumeira, mas, por Deus!, o moinho não funcionou. As filhas lhe contaram sobre a visita da velhinha e o pai lhes deu uma boa surra. Naquela noite, comeram os restos da refeição anterior e, no dia seguinte, ele pegou as ferramentas e foi novamente à floresta para abater árvores.
Começou a cortar a primeira árvore — e, novamente, quem aparece? Nada mais nada menos que o homem preto! E ele falou ao lenhador: — Não lhe dei um moinho maravilhoso, a fim de que você não aparecesse mais aqui? Por que está cortando a minha cabeça novamente?
O lenhador respondeu: — Senhor, minhas estúpidas filhas deram o moinho a uma velhinha e ela não o devolveu. Por isso, preciso voltar a trabalhar.
O negro pensou um momento e disse: — Vou lhe dar uma segunda oportunidade. Aqui está uma bandeja que produzirá quanto dinheiro você desejar. Mas não volte mais aqui.
Encheu-se novamente de alegria o coração do lenhador. No caminho, experimentou a bandeja: — Bandeja, bandeja, dê-me dinheiro! — E lá estavam moedas de ouro e de prata. Novamente contou à esposa e às filhas seu segundo encontro com o negro, e novamente todos agradeceram a Deus no céu por sua misericórdia e benevolência. Desta vez o lenhador avisou a todas que não emprestassem a bandeja a vizinho algum.
Passou-se uma semana em alegria e fartura, de novo apareceu a velhinha para fazer uma visita. E outra vez o lenhador não estava em casa. Traiçoeiramente, ela levou na conversa a mulher e as filhas do lenhador, e vocês sabem muito bem como as mulheres são conversadeiras e como adoram tagarelar! E acreditem ou não, ao sair da casa do lenhador, levava consigo a bandeja emprestada.
Imaginem a fúria do pai quando chegou em casa. Quase morreu de raiva. Desculpas como: "A mulher nos deixou confusas" não adiantaram nada. Esposa e filhas foram espancadas duramente, como bem mereciam. E, na manhã seguinte, o lenhador pegou suas ferramentas e dirigiu-se novamente à floresta.
Começou a cortar sua primeira árvore — e, novamente, quem apareceu? Naturalmente, nada mais nada menos que o homem preto! O lenhador contou-lhe então a estória toda, e o negro lhe disse: — Dei-lhe duas oportunidades, e você as desperdiçou. Aqui está a sua última chance. Vou lhe dar este bastão. Se ele estiver próximo de uma pessoa sem roupa, ele baterá até você dizer "Basta!" Primeiramente, bata em você mesmo, depois em sua mulher e suas filhas, e em seguida na velha que é sua vizinha.
O lenhador voltou para casa, despiu-se e recebeu uma surra e tanto, até que ordenou "Basta!" Depois disse à mulher e às filhas: — Hoje, tenho uma coisa maravilhosa para vocês. É um bastão que provê coisas muito boas. Entrem, uma a uma, no quarto e tirem a roupa. — As mulheres ficaram muito contentes. Uma a uma, entraram no quarto, tiraram a roupa e receberam uma surra de acordo até que o pai ordenou "Basta!"
No dia seguinte, a velha apareceu de novo para uma visita e fez a pergunta costumeira: — Como vão as coisas? — Como era natural, contaram-lhe sobre o bastão maravilhoso. E, quando deixou a casa, a velhinha levava consigo o bastão.
Passaram-se alguns dias, e a velha não voltava. Foram então visitá-la, entraram pela casa adentro e encontraram-na morta. Compreenderam então o que tinha acontecido. A mulher não soubera deter o bastão; assim, fora espancada até a morte. Naturalmente, acharam o moinho e a bandeja e levaram a ambos para casa.
Desde então viveram feliz e com fartura.

Conto Tradicional Português

30/04/2010

Boa Sentença

Um homem rico, mas avarento, tinha perdido dentro de um alforge uma quantia em oiro bastante avultada. Anunciou que daria cem mil-réis de alvíssaras a quem lha trouxesse. Apresentou-se-lhe em casa um honrado camponês levando o alforge. O nosso homem contou o dinheiro, e disse:
- Deviam ser oitocentos mil-réis, que foi a quantia que eu perdi; no alforge encontro apenas setecentos; vejo, meu amigo, que recebeste adiantado os cem mil-réis de alvíssaras; estamos pagos por conseguinte.

O bom camponês, que nem por sombras tocara no dinheiro, não podia nem devia contentar-se com semelhantes agradecimentos. Foram ter com o juiz, que vendo a mé-fé do avarento, deu a seguinte sentença:
- Um de vós perdeu oitocentos mil-réis; o outro encontrou um alforge apenas com setecentos. Resulta daí claramente que o dinheiro que o último encontrou não pode ser o mesmo a que o primeiro se julga com direito. Por consequência tu, meu bom homem, leva o dinheiro que encontraste, e guarda-o até que apareça o indivíduo que perdeu somente setecentos mil-réis. E tu, o único conselho que passo dar-te, é que tenhas paciência até que apareça algum que tenha achado os oitocentos mil-réis.


Conto Tradicional Português


22/04/2010

O Aprendiz do Mago



Um homem de grandes artes tinha na sua companhia um sobrinho, que lhe guardava a casa quando precisava sair. De uma vez deu-lhe duas chaves, e disse:
– Estas chaves são daquelas duas portas; não mas abras por cousa nenhuma do mundo, senão morres.
O rapaz, assim que se viu só, não se lembrou mais da ameaça e abriu uma das portas. Apenas viu um campo escuro e um lobo que vinha correndo para arremeter contra ele. Fechou a porta a toda a pressa passado de medo. Daí a pouco chegou o Mago:
– Desgraçado! para que me abriste aquela porta, tendo-te avisado que perderias a vida?
O rapaz tais choros fez que o Mago lhe perdoou. De outra vez saiu o tio e fez-lhe a mesma recomendação. Não ia muito longe, quando o sobrinho deu volta à chave da outra porta, e apenas viu uma campina com um cavalo branco a pastar. Nisto lembrou-se da ameaça do tio e já o sentindo subir pela escada, começou a gritar:
– Ai que agora é que estou perdido!
O cavalo branco falou-lhe:
– Apanha desse chão um ramo, uma pedra e um punhado de areia, e monta já quanto antes em mim.
Palavras não eram ditas, o Mago abriu a porta da casa: o rapaz salta para cima do cavalo branco e grita:
– Foge! que aí chega o meu tio para me matar.
O cavalo branco correu pelos ares fora; mas indo lá muito longe, o rapaz torna a gritar:
– Corre! que meu tio já me apanha para me matar.
O cavalo branco correu mais, e quando o Mago estava quase a apanhá-los, disse para o rapaz:
– Deita fora o ramo.
Fez-se logo ali uma floresta muito fechada, e, enquanto o Mago abria caminho por ela, puseram-se muito longe. Ainda o rapaz tornou outra vez a gritar:
– Corre! que já aí está meu tio, que me vai matar.
Disse o cavalo branco:
– Bota fora a pedra.
Logo ali se levantou uma grande serra cheia de penedias, que o Mago teve de subir, enquanto eles avançavam caminho. Mais adiante, grita o rapaz:
– Corre, que meu tio agarra-nos.
– Pois atira ao vento o punhado de areia, disse-lhe o cavalo branco.
Apareceu logo ali um mar sem fim, que o Mago não pôde atravessar. Foram dar a uma terra onde se estavam fazendo muitos prantos. O cavalo branco ali largou o rapaz e disse-lhe que quando se visse em grandes trabalhos por ele chamasse mas que nunca dissesse como viera ter ali. O rapaz foi andando e perguntou por quem eram aqueles grandes prantos.
– É porque a filha do rei foi roubada por um gigante que vive em uma ilha aonde ninguém pode chegar.
– Pois eu sou capaz de ir lá.
Foram dizê-lo ao rei; o rei obrigou-o com pena de morte a cumprir o que dissera. O rapaz valeu-se do cavalo branco, e conseguiu ir à ilha trazendo de lá a princesa, porque apanhara o gigante dormindo.
A princesa assim que chegou ao palácio não parava de chorar. Perguntou-lhe o rei:
– Porque choras tanto, minha filha?
– Choro porque perdi o meu anel que me tinha dado a fada minha madrinha e, enquanto o não tornar a achar, estou sujeita a ser roubada outra vez ou ficar para sempre encantada.
O rei mandou lançar o pregão em como dava a mão da princesa a quem achasse o anel que ela tinha perdido. O rapaz chamou o cavalo branco, que lhe trouxe do fundo do mar o anel, mas o rei não lhe queria já dar a mão da princesa; porém ela é que declarou que casaria com o jovem para que dissessem sempre: Palavra de rei não torna atrás.

(Eixo — Distrito de Aveiro)
in BRAGA, Teófilo, Contos Tradicionais do Povo Português


15/04/2010

A Bela e a Cobra

Era uma vez um rei que tinha três filhas, uma das quais era muito formosa e ao mesmo tempo dotada de boas qualidades. Chamava-se Bela. O rei tinha sido muito rico, mas, por causa de um naufrágio, ficou completamente pobre.
Um dia foi fazer uma viagem; antes porém perguntou às filhas o que queriam que ele lhes trouxesse. – Eu, disse a mais velha, quero um vestido e um chapéu de seda.
– Eu, disse a do meio, quero um guarda-sol de cetim.
– E tu que queres? – perguntou ele à mais nova.
– Uma rosa tão linda como eu, respondeu ela.
– Pois sim, disse ele.
E partiu.
Passado algum tempo trouxe as prendas de suas filhas, disse à mais nova:
– Pega lá esta linda rosa. Bem cara me ficou ela!
Bela ficou muito preocupada e perguntou ao pai por que é que lhe tinha dito aquilo. Ele, a princípio, não lho queria dizer, mas ela tantas instâncias fez, que ele lhe respondeu que no jardim onde tinha colhido aquela rosa encontrou uma cobra, que lhe perguntou para quem ela era; que ele lhe respondeu que era para a sua filha mais nova e ela lhe disse que lha havia de levar, se não que era morto. Depois disse ela:
– Meu pai, não tenha pena, que eu vou.
Assim foi. logo que ela entrou naquele palácio, ficou admirada de ver tudo tão asseado, mas ia com muito medo. O pai esteve lá um pouco de tempo e depois foi-se embora. Bela, quando ficou só, foi a uma sala e viu a cobra. Ia-se a deitar quando começaram a ajudarem-na a despir. Estava ela na cama quando sentiu uma coisa fria; deu um grito e disse-lhe uma voz: – Não tenhas medo.
Em seguida foi ver o que era e apareceu-lhe uma cobra. Ela, a princípio, assustou-se, mas depois começou a afagá-la. Ao outro dia de manhã apareceu-lhe a mesa posta com o almoço. Ao jantar viu pôr a mesa, mas não viu ninguém; a noite foi-se deitar e encontrou a mesma cobra. Assim viveu durante muito tempo, até que um dia foi visitar o pai; mas quando ia a sair ouviu uma voz que lhe disse:
– Não te demores acima de três dias, senão morrerás.
Ia a continuar o seu caminho e já se esquecia do que a voz lhe tinha dito. Chegou a casa do pai. Iam a passar três dias quando se lembrou que tinha de tornar; despediu-se de toda a sua família e partiu a galope; chegou lá à noite, foi-se deitar, como tinha de costume, mas já não sentiu o tal bichinho. Cheia de tristeza, levantou-se pela manhã muito cedo, foi procurá-lo no jardim e qual não foi a sua admiração vendo-o no fundo dum poço! Ela começou a afagá-lo chorando; mas, quando chorava, caiu-lhe uma lágrima no peito da cobra; assim que a lágrima lhe caiu a cobra transformou-se num príncipe, que ao mesmo tempo lhe disse:
– Só tu, minha donzela, me podias salvar! Estou aqui há uns poucos de anos e, se tu não chorasses sobre o meu peito, ainda aqui estaria cem anos mais.
O príncipe gostou tanto dela que casou com ela e lá viveram durante muitos anos.

recolha de José Leite de Vasconcelos



07/04/2010

A madrasta

Uma mulher tinha uma filha muito feia e uma enteada bonita como o Sol; com inveja tratava-a muito mal, e quando as duas pequenas iam com uma vaquinha para o monte, à filha dava-lhe um cestinho com ovos cozidos, biscoitos e figos, e à enteada dava-lhe côdeas de broa bolorentas, e não passava dia algum sem lhe dar muita pancada.
Estavam uma vez no monte e passou uma velha que era fada, e chegou -se a elas e disse:
– Se as meninas me dessem um bocadinho da sua merenda? Estou mesmo a cair com fome.
A pequena que era bonita e enteada da mulher ruim deu-lhe logo da sua codinha de broa; a pequena feia, que tinha o cestinho cheio de coisas boas, começou a comer e não lhe quis dar nada. A fada quis-lhe dar um castigo, e fez com que ela feia ficasse com a formosura da bonita; e que a bonita ficasse em seu lugar, com a cara feia. Mas as duas pequenas não o souberam; veio a noite e foram para casa. A mulher ruim, que tratava muito mal a enteada que era bonita, veio-lhes sair ao caminho, porque já era muito tarde, e começou às pancadas com uma vergasta na própria filha, que estava agora com a cara da bonita cuidando que estava a bater na enteada. Foram para casa, e deu de comer sopinhas de leite e coisas boas à que era feia, pensando que era a sua filha, e a outra mandou-a deitar para a palha de uma loja cheia de teias de aranha, e sem ceia.
Duraram as coisas assim muito tempo, até que um dia passou um príncipe e viu a menina da cara bonita à janela, muito triste e ficou logo a gostar muito dela, e disse-lhe que queria vir falar com ela de noite ao quintal. A mulher ruim ouviu tudo, e disse à que estava agora feia e que cuidava que era a sua filha, que se preparasse e que fosse falar à noite com o príncipe, mas que não descobrisse a cara. Assim fez, e a primeira coisa que disse ao príncipe foi – que estava enganado, que ela era muito feia. O príncipe dizia-lhe que não, e a pequena descobriu então a cara; mas a fada deu-lhe naquele mesmo instante a sua formosura. O príncipe ficou mais apaixonado e declarou que queria casar com ela; a pequena foi-o dizer à que pensava que ela era sua filha. Fez-se o arranjo da boda, e chegou o dia em que vieram buscá-la para se ir casar; ela foi com a cara coberta com um véu e a irmã, que estava agora bonita, ficou fechada na loja às escuras. Assim que a menina deu a mão ao príncipe e ficaram casados, a fada deu-lhe a sua formosura; foi então que a madrasta conheceu que aquela era a sua enteada e não sua filha. Corre à pressa a casa, vai à loja da palha ver a pequena que lá fechara, e dá com a sua própria filha, que desde a hora do casamento da irmã tornara a ficar com a cara feia. Ficaram ambas desesperadas e não sei como não arrebentaram de inveja. É bem certo o ditado:
«Madrasta nem de pasta.»

(Porto)
BRAGA, Teófilo, «Contos Tradicionais do povo Português»

02/04/2010

A sardinhinha

Uma mulher tinha três filhas; foi com duas para o trabalho, e ficou em casa a mais nova para tratar da comida. Comprou dez réis de sardinhas, e foi assá -las na grelha.
Quando estavam nas brasas, saltou uma das sardinhas para o chão; a rapariga pegou nela e tomou a pô-la na grelha. Daí a pouco tornou a dar um salto, e também um gemido. A rapariga meio-assustada foi levantar a sardinha do chão; ela disse-lhe:
– Não me mates! Pega em mim e leva-me à borda do mar, segue pelo caminho que se te depare.
A rapariga foi, e assim que deitou a sardinhinha ao mar, formou-se logo uma estrada muito larga; ela seguiu por esse caminho adentro e foi dar a um grande palácio, onde estavam muitas mesas postas. Percorreu todas as salas, viu muitas jóias, muitas riquezas, mas o mar tinha-se tomado a fechar, e já não pôde tornar para trás. Deixou-se ficar ali, e dormiu em uma cama muito rica e muito fofa que achou. Para se entreter despia-se e vestia-se com vestidos riquíssimos que lá se guardavam.
Todos os dias lhe aparecia um homem em figura de preto, que lhe perguntava se ela estava contente.
– Eu contente? O que me faz pena é lembrar-me que minha mãe e minhas irmãs estão
trabalhando todo o dia para poderem comer qualquer cousa, e eu aqui.
– Pois bem, disse-lhe o preto, leva o dinheiro que quiseres, vai ver tua mãe e tuas irmãs, mas não te demores lá mais do que três dias.
E tornou-se a abrir a estrada no mar. A rapariga chegou a casa, contou tudo, a mãe ficou muito contente com o dinheiro, e as irmãs fizeram-lhe mil perguntas do que havia no palácio, e se não tinha medo de ficar de noite sozinha? Ela disse que tinha o sono muito pesado. As irmãs replicaram: – E porque te botam coisa no vinho, que te faz dormir, finge que bebes, mas deita o vinho fora, para sentires o que se passa de noite no palácio.
Acabado os três dias ela voltou pela estrada aberta no mar, entrou no palácio; comeu, ceou, e fingiu que bebia. Quando se deitou já não teve o sono tão pesado, e sentiu que alguém se deitava ao pé dela. Ficou bastante assustada, e deixou-se ficar muito quieta; quando estava tudo muito sossegado, acendeu uma vela para ver o que era. Era um príncipe muito formoso;
inclinou-se para vê-lo melhor, e caiu-lhe um pingo de cera no rosto. Ele então acordou:
– Ah cruel; que só faltavam oito dias para quebrar o meu encantamento. Agora para me poder desencantar é preciso que tu sofras grandes trabalhos por mim, sem nunca te queixares. Toma lá esta carapinha; quando te vires em alguma aflição de que te não puderes livrar, dize:
– Valha-me aqui quem me deu esta carapinha.
E neste instante desapareceu o príncipe e o palácio, e a rapariga achou-se sozinha no meio de um descampado. Ia passando um rancho de pretas, que lhe disseram muitas chufas, e lhe arrepelaram os cabelos. A rapariga sofreu tudo sem nada dizer. Passou um jornaleiro e ela propôs-lhe trocar os seus vestidos cravejados de brilhantes pelas roupas do pobre homem, e assim já com outro trajo foi-se oferecer para hortelão da casa do rei.
A rainha começou a gostar do hortelão, porque tinha uma cara bonita, mas como ele não lhe correspondia foi fazer queixa ao rei, que era preciso mandá-lo matar porque tinha cometido um atrevimento muito feio. O rei mandou meter a tormentos o hortelão para confessar o que fizera, mas ele sofreu tudo negando sempre. A rainha teimava que queria que se enforcasse; ia ele já para a forca, e lembrou-se de dizer:
– Valha-me aqui quem me deu esta caparinha.
A execução interrompeu-se ao grande barulho de uma carruagem que trazia um alto figurão, que deu ordem para parar tudo. Levou o hortelão consigo para o paço e disse ao rei que era impossível ter ele cometido o atrevimento de que a rainha o acusava, senão que mandasse as camareiras examinar. Assim aconteceu e a rainha é que foi deitada a uma fogueira. O encantamento quebrou-se pela constância com que a rapariga tinha sofrido todos os tratos e o príncipe casou com ela por agradecido.

(Algarve)
BRAGA, Teófilo, «Contos Tradicionais do povo Português»


31/03/2010

A rainha orgulhosa

Havia uma rainha muito orgulhosa, que, voltando-se para as suas aias, dizia:
– Haverá cara mais linda do que a minha?
As alas respondiam-lhe que não; e fazendo a mesma pergunta às criadas, elas diziam o mesmo.
Um dia voltou-se também para o seu camarista e perguntou-lhe:
– Haverá cara mais linda do que a minha?
O camarista respondeu:
– Saiba Vossa Majestade que há.
A rainha ouvindo Isto quis saber quem era, e o camarista disse-lhe que era a filha. A rainha Imediatamente mandou aprontar uma carruagem e meter a princesa dentro, ordenando aos criados que a levassem fora da cidade a um campo multo longe e que aí a degolassem e lhe trouxessem a língua.
Partiram os criados conforme a rainha tinha determinado, e quando chegaram ao dito campo voltaram-se para a princesa e disseram:
– Vossa Alteza não sabe os fins para que aqui a trouxemos, mas não lhe havemos de fazer mal.
Viram uma cadelinha, mataram-na e cortaram-lhe a língua, dizendo à princesa que era para levar a Sua Majestade, pois lhes tinha ordenado que a degolassem e lhe levassem a língua. Pediram depois à princesa que se fosse embora para muito longe, e nunca mais aparecesse na cidade para os não comprometer.
A menina retirou-se e foi caminhando por uns matos fora, até que avistou ao longe um pequeno casal, e aproximando-se não viu senão rastos de porcos e nada mais. Foi andado, e ao entrar na primeira casa, não viu mais do que uma caixa de pinho muito velha; na segunda viu uma cama com uma enxerga muito velha; e na terceira uma chaminé, e uma mesa. Dirigiu-se à mesa, abriu a gaveta e achou algum comer, que foi pôr ao lume. Pôs a mesa, e quando principiava a comer sentiu entrar um homem. A menina, muito assustada, foi esconder-se debaixo da mesa, mas o homem viu-a e chamou-a. Disse-lhe que não tivesse vergonha; depois foram comer juntos, e quando chegou a noite também cearam. No fim da ceia o homem disse à princesa se ela queria ficar por sua mulher ou por sua filha. A princesa respondeu que queria ficar por sua filha. Então o homem foi-lhe arranjar uma caminha à parte e depois cada um se foi deitar.
Viviam assim ambos muito satisfeitos.
Um dia disse o homem para a menina que fosse por ali dar um passeio para se distrair.
A menina respondeu que o fato que trazia vestido já estava muito velho, mas o homem, abrindo um armário, mostrou-lhe um fato completo à campina. A menina vestiu-se com ele e foi passear.
Quando andava passeando, viu que um cavaleiro se aproximava dela. A menina imediatamente se escondeu em casa com muito medo. À noite o homem quando voltou, perguntou-lhe se tinha gostado do passeio. A menina disse que sim, mas com um modo muito esquisito.
No dia seguinte tornou o homem a mandá-la passear. A menina foi, tornou a ver o mesmo cavaleiro a dirigir-se para ela, e tornou muito assustada a vir esconder-se em casa.
Quando o homem veio à noite e lhe perguntou se ela tinha gostado do passeio, a menina disse que não, porque tinha visto um homem, que vinha para lhe falar, e então que nunca mais queria tornar a sair. O homem não lhe disse nada.
O cavaleiro era um príncipe, e voltando ao mesmo sitio duas vezes e não tornando a ver a menina, adoeceu de paixão. Vieram os melhores médicos e declararam qual era a doença do príncipe. A rainha imediatamente mandou publicar um bando, que a aldeã que tinha visto o cavaleiro fosse ao palácio, que havia de ser recompensada e de casar com o príncipe.
A menina, como não saía de casa, não soube nada do bando.
A rainha, vendo que ninguém se apresentava no palácio, mandou um guarda àquele sítio. O guarda foi e bateu à porta dizendo para a menina que Sua Majestade a mandava chamar ao palácio e que havia de ser muito bem recompensada.
A menina disse para o guarda que no outro dia fosse receber a resposta. Quando à noite veio o homem a menina contou-lhe o que se tinha passado. Ele disse-lhe que quando o guarda fosse saber a resposta lhe dissesse que viesse a rainha a casa dela, porque ela não ia lá.
Veio o guarda ao outro dia saber a resposta, e a menina disse-lhe que se não atrevia a dar-lha. O guarda disse que dissesse ela tudo tal e qual, que ele o diria à rainha.
Então a menina contou-lhe o que o homem lhe tinha respondido. Chegando o guarda
ao palácio, também se não atreveu a dar a resposta; mas a rainha obrigou -o.
O guarda então contou tudo o que a menina lhe dissera. A rainha ficou muito
encolerizada, mas naquele momento deu ao príncipe uma convulsão muito grande, e a rainha com medo que ele morresse, sempre se resolveu a ir.
Mandou aprontar a carruagem e foi lá ter com a menina, ruas quando se ia aproximando da casa, ela tornou-se num rico Palácio, o homem que recolhera a menina num imperador muito poderoso, os porcos em duques, a menina numa linda Princesa e tudo o mais em riqueza.
A rainha, ao ver tudo isto, ficou atónita e pediu desculpa de ter mandado chamar a menina ao palácio.
Disse à menina que visto o príncipe, seu filho, ter tanta paixão por ela, lhe pedia, se fosse do seu agrado, para se fazer o casamento, senão o príncipe morria, com toda a certeza.
A menina disse que sim, fez-se o casamento com muita pompa, e viveram todos muito felizes.

PEDROSO, Consiglieri, «Contos populares portugueses»

30/03/2010

História do Grão de Milho


ERA UMA VEZ uns casados e não tinham filhos. A mulher tanto pediu a Nossa Senhora que lhe desse um filho, ainda que fosse do tamanho de um greiro de milho, que ao fim de nove meses ela pariu um filho, mas tão pequeno, tão pequeno, que era mesmo do tamanho de um greiro de milho. Foi-se passando tempo e o pequeno não crescia nada, de sorte que ficou sempre do mesmo tamanho.
O pai era lavrador e, quando andava a trabalhar no campo, era o Grão-de-Milho que lhe ia levar o jantar numa cesta; mas, como era tão pequeno, ninguém o via o que fazia correr aquela cesta pela rua abaixo. O pai recomendava-lhe que não se chegasse para o pé dos bois, mas uma vez que ele tinha ido levar o jantar ao pai, a brincar trepou para cima de uma folha de milho e um dos bois, pensando que era um greiro de milho, lambeu-o com a língua. O pai quando quis voltar para casa, por mais que o procurasse não deu com ele, mas tanto chamou que por fim ouviu responder que o boi o tinha comido e estava dentro da tripa. O pai ficou muito aflito e matou logo ali o boi e começou a procurá-lo nas tripas, mas por mais que procurasse não o encontrou, até que deixou ficar tripas e tudo. De noite um lobo, atraído pelo cheiro da carne, veio e comeu as tripas do boi, e deitou a fugir. O lobo teve umas grandes dores de barriga e o Grão-de-Milho começou a gritar-lhe: "C... aí, c... aí!" Mas o lobo, ouvindo isto teve tanto medo que mais fugia e não podia obrar. O Grão-de-Milho continuava a gritar: "C... aí, c... aí!", até que o lobo tão atrapalhado se viu que fez as suas necessidades.
O Grão-de-Milho logo que saiu para fora, lavou-se muito bem lavado numa pocinha que ali estava e foi por ali fora. No meio caminho encontrou uns almocreves que levavam os machos carregados de dinheiro e disse-lhes.
De repente, saltam uns ladrões, matam os almocreves e levam os machos com o dinheiro para uma casa que havia nuns pinherais. O Grão-de-Milho, como ia medito numa alforges, foi também sem ser pescado. Os ladrões despejaram o finheiro em cima de uma grande mesa e começaram a contá-lo. O Grão-de-Milho pôs-se debaixo da mesa e começou a gritar: "Quem dá dé-reis, quem dá dé-reis!" Os ladrões, assim que ouviram isto, tiveram tanto medo que deitaram a fugir. Então o Grão-de-Milho ensacou o dinheiro, pô-lo em cima dos machos e foi para casa.
Quando lá chegou, era ainda de noite e bateu à porta. O pai perguntou: "Quem está aí?" e ele respondeu: "Sou eu, meu pai; abra depressa." O pai veio logo abrir a porta e o Grão-de-Milho contou-lhe então tudo, entregou-lhe os machos e o dinheiro e o lavrador, que era pobre, ficou muito rico.

COELHO, Adolfo. Contos populares portugueses.

28/03/2010

A noiva do corvo

Havia numa terra uma mulher, que tinha em sua companhia um corvo. Defronte dela moravam três raparigas muito lindas. Como o corvo queria casar, mandou falar à mais velha; respondeu-lhe que não, e o corvo raivoso arrancou-lhe os olhos. Sucedeu o mesmo com a segunda, até que a terceira sempre se sujeitou a casar com o corvo.
Tempo depois de já viverem na sua casa, a rapariga falou a uma vizinha no seu desgosto de estar casada com um corvo; a vizinha aconselhou-lhe que lhe chamuscasse as penas, porque podia ser obra de encantamento, e assim se quebraria. Quando à noite se foram os dois deitar, a rapariga chegou a candeia às pernas do corvo; ele acordou logo, dando um grande berro:
– Ai, que me dobraste o meu encantamento! Se me queres salvar, vai pôr-te àquela janela, e todos os pássaros que vires, chama-os e pede-lhes assim: «Venham passarinhos, venham despir-vos para vestir el-rei que está nu.» De facto os passarinhos começaram a vir poisar na janela, e cada um deixava cair uma pena com que o corvo se foi cobrindo. Depois que ficou outra vez emplumado, o corvo bateu as asas, e desapareceu, dizendo para a mulher:
Agora se me quiseres tornar a ver, sapatos de ferro hás-de romper.
A pobre rapariga ficou sozinha toda aquela noite, e logo que amanheceu foi comprar uns sapatos de ferro e meteu-se a correr o mundo. Tinha os sapatos quase estragados de andar, quando encontrou um velho e lhe perguntou se não tinha visto um pássaro. O velho respondeu:
– Eu venho da fonte da Madrepérola, onde estavam bastantes.
Ela continuou o seu caminho, e antes de chegar à fonte ali encontrou um corvo, que lhe disse:
– Olha, se quiseres salvar o rei, vai à fonte, onde estará uma lavadeira a lavar um vestido de penas, tira-lho e lava-o tu. Ao pé da fonte está uma casa, e um velho que a guarda; entra aí, mata o velho para poderes quebrar todas as gaiolas e dar a liberdade aos pássaros que ele tem lá presos.
A rapariga chegou à fonte, e fez como o corvo lhe tinha dito; lavou o vestido de penas e depois entrou na casa onde estava o velho, fingiu que via vir pelo mar uma linda embarcação; o velho chegou à janela e a rapariga pegou-lhe pelas pernas e deitou-o ao mar. Depois quebrou todas as gaiolas e os pássaros em liberdade tornaram-se príncipes que estavam encantados, e entre eles estava o seu marido, que era rei e lhes pôs a obrigação de a servirem toda a vida.

(Algarve)
BRAGA, Teófilo, «Contos Tradicionais do povo Português»


26/03/2010

A Senhora da Graça

Era uma vez um homem que era casado com uma mulher, muito amiga de vinho, a ponto de não deixar parar vinho na adega. Um dia o homem saiu para comprar uns bois e recomendou à mulher que não fosse à adega beber o vinho. Apenas o homem virou costas, a mulher chamou logo uma comadre e foram ambas para a adega beber o melhor pipo de vinho que encontraram. O homem, quando voltou para casa e se achou sem o vinho, queria bater na mulher; mas ela disse-lhe que não lhe batesse, pois estava inocente, quem tinha bebido o vinho tinha sido a gata. Como o homem não quisesse acreditar, a mulher disse-lhe: «Pois olha, homem, havemos de ir à Senhora da Graça, e havemos de perguntar-lhe quem foi que bebeu o vinho, se fui eu ou a gata; se a Senhora disser que fui eu, hei-de trazer-te às costas para casa, e se eu estiver inocente hás-de tu trazer-me a mim.
Partiu o homem mais a mulher para a Senhora da Graça, e tendo chegado a um sítio onde havia um eco, a mulher disse ao homem: «Olha, escusamos de ir mais longe; Nossa Senhora também aqui nos ouve.» O homem então gritou com toda a força:
«Dizei-me, Senhora da Graça, quem bebeu o vinho, foi a mulher ou foi a gata?» E o eco respondeu: «A gata».
Três vezes o homem perguntou o mesmo, e três vezes o eco lhe respond eu a gata.
O homem então, convencido de que a mulher estava inocente, levou-a às costas para casa e matou a gata para ela não lhe ir beber mais o vinho.

(Coimbra)
COELHO, Adolfo, «Contos populares portugueses»


22/03/2010

O ovo e o brilhante

Havia uma mulher, que tinha uma filha e uma enteada; estavam sozinhas em casa, uma sempre na cozinha, muito maltratada, e a outra sempre perra e soberba de janela. Passou uma velhinha, e pediu se lhe davam alguma coisa. Disse a soberba:
— Vá-se embora, tia, que não há pão cozido. A outra disse:
— Não tenho que lhe dar; só se for este ovo fresco que pôs agora a galinha.
E deu o ovo à velhinha. A velhinha quebrou-o, e dentro do ovo estava uma grande pedra preciosa, que era um brilhante; pegou nele e deu-o à menina:
— Trazei sempre essa pedra ao pescoço, que enquanto andardes com ela haveis de ter todas as felicidades.
A pequena pôs a pedra ao pescoço. A irmã, com inveja, foi também buscar um ovo, e deu-o à velhinha. Ela disse que o partisse pela sua mão; assim fez, e rebentou o ovo choco, que tresandava de mau cheiro e a cobriu de porcaria pela cara e pelas mãos. A velhinha foi-se embora. Aconteceu passar por ali o rei, e viu aquela menina com a pedra ao pescoço, e achou-a tão linda, e ficou logo tão apaixonado, que a mandou buscar e casou com ela. Ficou rainha; e como era boa, a madrasta e a irmã pediram-lhe para que as deixasse viver no palácio; deixou. Um dia o rei foi para uma guerra, onde tinha de se demorar; a rainha ficou no palácio. Ora a madrasta, que já sabia do poder da pedra preciosa, andava mais a filha à mira de ver se lha furtavam; até que um dia que ela estava no banho, e que a irmã lhe tinha ido botar o lençol, furtou-lhe a pedra sem ela dar tino. Imediatamente ficou muito aflita, e a irmã mais a madrasta fugiram para irem ter com o rei, que estava na campanha, porque tinha a certeza que ele a tomaria por mulher. Pelo caminho puseram-se a descansar e adormeceram. Passou uma águia e viu luzir a pedra, e de repente desceu e arrancou-a, e engoliu-a.
Quando as mulheres continuaram o seu caminho, chegaram à barraca do rei, sem terem ainda dado pela falta da pedra. Pediram licença para entrar, dizendo que era a mulher do rei que vinha visitá-lo, porque tinha muitas saudades. O rei conheceu, quem eram, e mandou dar-lhes muita pancada e pô-las fora; foi então que a rapariga deu pela falta da pedra, e botou a fugir, e a mãe atrás dela.
Quando o rei chegou ao seu reino, veio a rainha ao seu encontro; mas como não tinha a pedra o rei não a conheceu, e disse:
— É uma tola como as outras. E escorraçaram-na. Ela tornou para o palácio e lá só a aceitaram para ajudar na cozinha. De uma vez estava-se a arranjar um grande jantar para o casamento do rei, e ela ao amanhar uma águia, achou-lhe no papo uma grande pedra preciosa. Guardou-a, e pediu ao dono para ir servir à mesa. Assim foi; pôs a pedra ao pescoço, e assim que entrou na sala, o rei conheceu-a e lembrou-se dela, e perguntou-lhe como é que aquilo tinha sido. Ela contou-lhe tudo, e o rei sentou-a logo à sua direita, e a outra princesa foi-se embora.


(Porto)
in BRAGA, Teófilo, Contos Tradicionais do Povo Português



08/12/2009

A Raposa e o Lobo

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Foram caçar no melhor convívio uma raposa e um lobo. Apanharam dois carneiros. Comeram um e enterraram o outro para o jantar do dia seguinte.
No dia seguinte chegou o lobo e disse para a comadre raposa:
— Vamos comer o carneiro?
— Hoje não: estou convidada para madrinha de uma criança.
No dia seguinte voltou o lobo e perguntou à comadre que nome dera ao afilhado:
— Um nome novo: Comecei.
E ainda a raposa se desculpou nesse dia dizendo que ia ser madrinha de outro afilhado.
Voltou o lobo e perguntou à comadre que nome pusera ao afilhado.
— Meei — respondeu a espertalhona — e pena tenho eu de ainda não o poder acompanhar. Tenho hoje outro afilhado que baptizar, mas amanhã vou com certeza.
No dia seguinte voltou o lobo e perguntou-lhe pelo nome do afilhado.
— Pus-lhe: Acabei.
E ambos se dirigiram para o lugar onde o carneiro fora enterrado. E claro que a raposa tinha sozinha papado o carneiro, deixando-lhe o rabo espetado no chão. Logo que avistaram o rabo disse a raposa para o lobo:
— Enquanto eu aqui tiro um espinho do meu pezinho, vá o meu compadre andando, puxe com força pelo rabo, e vá comendo e saboreando a carne.
O lobo seguiu o conselho da raposa. Lançou-se ao rabo com tanta força que caiu de costas c m o rabo na boca. Carne nenhuma. Já a este tempo a raposa se tinha esgueirado para muito longe.


Ataíde Oliveira, Contos Tradicionais Portugueses

29/11/2009

O bis-bis



O bis-bis é um dos pássaros mais pequeninos que existem na Madeira.
Uma vez, depois de uma chuvada, uma dessas avezinhas, não tendo que comer, pensou descer às hortaliças, onde se fartaria à vontade…
Por onde ia passando, nada lhe agradava, até que deu com um grande faval.
- Ó minhas queridas e ricas favas! Parece que estais mesmo à minha espera – dizia a avezinha toda alegre.
E ainda não acabava de as gabar, já estava a comer, tal era a vontade e sofreguidão que trazia:
- Tudo, tudo para mim; e ainda é pouco – pensava lá consigo.
Mas passados alguns momentos, já não podia comer mais, apesar das voltas que dava ao papo, que estava muito pesado…
Talvez por se encontrar bem disposta, a ave descansou entre o faval, aproveitando um raio de sol, que lhe chegava e aquecia agradavelmente…
Por se sentir bem, dizia consigo:
- Agora não tenho medo de nada, desafio qualquer bicharoco…
Mas nisto, caiu uma folha de faveira. O pequeno animal assustado, exclamou, julgando ser alguém:
- Senhor, não mate o bis-bis, porque está farto de favas e não sabe o que diz…

Conto tradicional da ilha da Madeira


22/10/2009

As orelhas do Abade


Um sujeito bom caçador convidou o abade da sua freguesia para ir comer com ele duas perdizes guisadas, e deu-as à mulher para as cozinhar. A mulher, raivosa por não contarem com ela, cozinhou as perdizes e comeu-as. Nisto chega o abade muito contente, e diz-lhe a mulher:
- Fuja, senhor abade, que o meu homem jurou que lhe havia de cortar as orelhas, e isto das perdizes foi um pretexto para cá o pilhar.
O abade não quis ouvir mais, e ele por aqui me sirvo.
O marido chega, e diz-lhe a mulher:
- O abade aí veio, viu as perdizes, e não queria esperar mais por ti, pegou nelas ambas e foi-se embora.
O homem vem à porta da rua, e ainda vê o abade fugindo, e começa de cá a gritar:
- Ó senhor abade! Pelo menos deixe-me uma.
- Nem uma, nem duas! – respondeu ele lá de longe.


Teófilo Braga, In Contos tradicionais portugueses

11/08/2009

O que Deus faz é pelo melhor

livros03.jpg image by andyluna

Havia um médico, homem bom e sem malícia, na corte de um poderoso rei. Visitando Sua Alteza, ainda que o achasse afligido com qualquer trabalho ou dor, não mostrava entristecer-se. Aplicava os remédios que entendia lhe eram necessários, e consolava o rei, dizendo que não se agastasse e sofresse seu trabalho com paciência, porque tudo o que Deus faz é pelo melhor.
Aconteceu de morrer o príncipe herdeiro do reino, pelo que o rei ficou muito triste. Querendo o médico visitá-lo e consolá-lo, como todos faziam, o fez com as palavras de seu costume, dizendo-lhe:
— Senhor, não vos agasteis tanto, a ponto de prejudicar a vossa pessoa. Tudo que Deus faz é pelo melhor.
O rei não teve paciência ao ouvir este dito em tal ocasião, e pensou:
— O que poderia ser pior para o príncipe meu filho, do que morrer? Vou me vingar deste médico insolente. Vejamos se lhe será melhor a morte que lhe mandarei dar do que deixá-lo viver.
Chamou dois homens, e ordenou:
— Ide atrás do médico que acabou de sair, e dizei-lhe que quereis dar um recado meu. Quando estiverdes diante dele, matai-o, por ordem minha.
Os homens foram à casa do médico, e achando a porta da escada fechada, gritaram que traziam um recado do rei. Alvoroçado com isto, o médico colocou o sobretudo e desceu para abrir a porta. Mas, com a pressa de descer, o sobretudo agarrou no corrimão da escada, ele caiu e quebrou a perna. Ouvindo seus gritos de dor, os servidores da casa vieram e o tiraram dali, levando-o para a cama. A dona da casa explicou aos emissários do rei o que acontecera, e eles voltaram para explicar tudo ao rei.
O médico permaneceu mais de seis meses na cama. Quando sarou, levantou-se e foi mancando à presença do rei. Vendo-lhe o defeito, o rei quis consolá-lo, mas o médico se adiantou e disse:
— Não me aborreço com isso, porque o que Deus faz é pelo melhor.
Ouvindo isso, o rei concluiu que ele aplicava essa norma sábia também a si próprio, e o teve dali por diante por bom homem. Perdeu o rancor que contra ele tinha, e viu também que na verdade foi melhor ele ter quebrado a perna, pois do contrário teria morrido.



30/06/2009

A velhinha e a cabaça



Era uma vez uma velhinha que vivia sozinha numa pequena casa junto a um bosque onde ela gostava muito de passear.
Um dia quando ia para o casamento da sua filha teve que atravessar todo o bosque a pé.
Ia ela a apreciar o passeio quando encontrou uma raposa, que lhe disse:
– Vou-te comer velhinha
– Não faças isso agora – respondeu a velhinha – é que eu vou ao casamento da minha filha, quando voltar venho mais gordinha.
E a raposa deixou-a continuar o seu caminho.
Um pouco mais à frente encontrou um grande lobo.
– Não passas aqui sem que eu te coma – disse o lobo.
A velhinha respondeu:
– Agora não, eu vou ao casamento da minha filha e vou voltar mais gordinha.
E o lobo também a deixou ir embora.
No casamento da filha a velhinha divertiu-se muito e comeu muito também.
Quando já estava para ir embora e voltar para casa, lembrou-se do lobo e da raposa que estavam à espera dela. Então contou a história à filha e ficaram as duas a pensar numa forma para a velhinha voltar para casa sem ser vista.
Foram então à procura de alguma coisa onde a velhinha se pudesse esconder, experimentaram vários objectos, panelas, barris, e então encontraram uma grande cabaça onde ela cabia e conseguia espreitar para poder ver.
No caminho de volta para casa a velhinha ia rodando a cabaça.
Quando passou pelo lobo eu perguntou:
– Viste por ai uma velhinha?
– Nem velhinha nem velhão, roda cabacinha, roda cabação – respondeu-lhe a velhinha.
E continuo o seu caminho escondida dentro da cabaça.
Já ia um pouco mais descansada por ter conseguido enganar o lobo, quando a raposa se pôs no seu caminho.
– Viste por ai uma velhinha? – perguntou-lhe a raposa.
A velhinha respondeu:
– Nem velhinha nem velhão, roda cabacinha, roda cabação
Pouco depois chegou a casa em segurança, bateu com a cabaça numa grande pedra que estava perto da porta e saiu de lá de dentro.
A velhinha continuo a dar os seus passeios, mas noutro sítio do bosque para não se cruzar novamente com o lobo e a raposa e eles ainda hoje continuam à espera que a velhinha volte do casamento da filha.


29/06/2009

Os Três Amigos

Era uma vez três amigos que decidiram ir viajar pelo seu país fora, como na época em que esta história se passa não existiam carros tiveram que viajar a pé e durante vários dias.
O grupo de amigos era o seguinte, O Cacheira de Ferro, o mais inteligente e líder do grupo a alcunha é esta porque para qualquer lugar que ele vá leva sempre a sua cacheira, o Arranca Pinheiros, o mais forte, é lenhador tal como o seu pai dai a alcunha, e o Leite de Burra o mais fraquito do grupo que tem esta alcunha pois quando ele nasceu a mãe não tinha leite para o amamentar e tinha que lhe dar o leite que uma burra que a família tinha.
Num desses dias enquanto visitavam uma pequena aldeia decidiram ficar por lá durante alguns dias para a poderem conhecer melhor e visitar tudo o que tivesse algum interesse.
Perguntaram a um homem que encontraram no caminho se conhecia alguma casa que eles pudessem alugar para passar uns dias por lá.
O homem disse que tinha uma casa que lhes podia alugar, mas que estava assombrada.
Eles aceitaram, o Cacheira de Ferro disse que não havia problema nenhum com a assombração, que essas coisas não existem, o Arranca Pinheiros disse que eles não tinham medo e que se essa tal assombração aparecesse que ele estava lá para defender o grupo, já o Leite de Burra estava cheio de medo.
No primeiro dia em que ficaram na casa assombrada decidiram que o Leite de Burra ficava lá a cozinhar enquanto os outros dois iam dar uma volta pela terra e nos outros dias iam trocando que ficaria em casa.
Estava o Leite de Burra a fazer a sopa quando ouviu um barulho:
– Ai que eu caio, Ai que eu caio – Dizia uma voz vinda da chaminé.
Ele lembrou-se logo da assombração e disse muito assustado:
– Cai, mas não caias em cima da sopa.
Mas a assombração caiu e entornou a sopa toda, o Leite de Burra ficou ainda mais assustado e quando os dois amigos regressaram contou-lhe a história ainda a tremer.
Então no dia seguinte decidiram que quem ficavam em casa era o Arranca Pinheiros.
Estava ele a tratar do jantar quando ouviu um barulho:
– Ai que eu caio, Ai que eu caio – Dizia uma voz vinda da chaminé.
Confiante na sua força disse:
– Cai lá para veres o que te acontece.
Mais uma vez a assombração caiu e entornou toda a comida que ele tinha preparado para ele e os seus companheiros de viagem.
Quando os outros voltaram do passeio desse dia, estava o Arranca Pinheiros ainda a limpar a cozinha, contou-lhes o que se tinha passado e o Leite de Burra disse:
– Estão a ver! É melhor irmos embora desta terra e continuarmos a nossa viagem.
Mas o Cacheira de Ferro, que não é de ficar com medo, disse:
– Nem pensar! Amanhã fico cá eu e vamos ver se desta vez jantarmos!
Os outros, que estavam ainda meio amedrontados, disseram:
– Mas tem cuidado, esta assombração é mesmo perigosa.
– Não se preocupem – Disse o Cacheira de Ferro – Fico aqui bem protegido pela minha cacheira que já me ajudou muitas vezes.
No dia seguinte, estava o Cacheira de Ferro a preparar o jantar e lá voltou a voz da chaminé:
– Ai que eu caio, Ai que eu caio.
Ao que ele respondeu:
– Cai lá.
Quando a assombração caiu, o Cacheira de Ferro deu-lhe uma forte cacheirada que deixou a assombração ferida.
Quando os amigos voltaram do passeio ele contou-lhes o que se tinha passado e decidiram seguir o rasto que a assombração tinha deixado, pois estava ferida.
O rasto terminava num poço, que por ser de noite, eles não conseguiam ver o fundo. Foram ter com o dono da casa e pediram-lhe uma corda e uma sineta.
Quando voltaram para junto do poço o Cacheira de Ferro disse:
– Vamos lá ver que tipo de assombração é esta que fica ferida e foge para dentro de um poço. Leite de Burra, como és o mais levezinho és o primeiro a descer ao poço, quando estiveres com medo toca a sineta.
– Eu?! – Disse ele – Mas eu já estou com medo.
– Vá deixa-te disso – Disseram ou outros – Estamos aqui para te ajudar.
– Está bem – e atou a corda à cintura e começaram a desce-lo lentamente.
Pouco tempo depois começou a tocar a sineta, os outros puxaram-no rapidamente para cima.
– Então o que viste? – perguntou curioso o Cacheira de Ferro
– Nada, só moscas e mosquitos – respondeu o Leite de Burra
– Agora vou lá eu ver – disse o Arranca Pinheiros enquanto atava a corda à cintura.
Começaram a desce-lo e pouco tempo depois começou também ele a tocar a sineta, puxaram-no rapidamente para cima.
– Então? – perguntaram o Cacheira de Ferro e o Leite de Burra
– Nada, só moscas e mosquitos – respondeu ele.
Mais uma vez o Cacheira de Ferro, não desistiu e foi ele ver o que teria aquele poço.
Começaram a desce-lo e passados alguns metros, as moscas e mosquitos tinham desaparecido e ele conseguia ver agora um grande palácio.
Quando chegou ao fundo foi andando até à porta do palácio, foi então que viu uma linda princesa à janela, tão linda que ficou logo apaixonado.
– Ora viva bela princesa – disse ele para chama à atenção.
– Que fazes tu aqui? – disse ela com espanto.
– Vim pedi-la em casamento, pois assim que a vi fiquei completamente apaixonado.
– É melhor ires já embora antes que o grande guardião do palácio do poço aqui chega, senão, vais ter que lutar com ele.
– Não tenho medo, com a minha cacheira já derrotei muitos guardiões.
– Mas nesta luta não poderás usar a tua cacheira, será uma luta com espadas. Deves escolher a mais feia e ferrugenta já que é a única espada boa.
Ainda estavam eles a conversar quando chegou o grande guardião, quando o Cacheira de Ferro olhou para ele reconheceu-o logo.
– Então eras tu que nos andavas a assustar! Não existe nenhuma assombração.
– Queira que fossem embora para não nos chatearem, assim que o Joaquim vos alugou a casa fui lá para ver se vos mandava embora, mas já vi que não consegui, por isso vais ter que lutar comigo. Escolhe a tua espada.
– Quero a ferrugenta.
– O quê? Queres a ferrugenta, tens esta aqui limpinha e brilhante e escolhes a ferrugenta, queres perder a luta?
– Sim, quero a ferrugenta – Insistiu ele.
Começou então a luta, como o Cacheira de Ferro tinha a melhor espada conseguiu rapidamente derrotar o grande guardião. Quando a luta terminou a princesa saiu do palácio e correu para os braços do Cacheira de Ferro.
– És muito corajoso e aceito o teu pedido de casamento, graças a ti já não sou prisioneira deste terrível guardião, que não me deixava sair do palácio para nada.
Marcaram então o casamento para esse mesmo dia, a princesa mostrou ao Cacheira de Ferro a entrada secreta para o poço, ele foi lá a cima chamar os seus amigos para festa.
Desde esse dia nesta aldeia nunca mais se ouviu falar de assombrações, e no poço como estavam todos muitos felizes não se sabe se ainda lá estão hoje, pois todos os que tentaram entrar no poço só viram moscas e mosquitos.
Quem sabe se um dia alguém verá o palácio com a princesa, o Cacheira de Ferro e os seus grande amigos, Arranca Pinheiros e Leite de Burra.




O Pintainho Garnizé e o Pucarinho de Ouro



Era uma vez um pequeno pintainho chamado Garnizé vivia numa quinta com a sua mãe, a galinha Pintada.
Um dia quando estava a depenicar na terra encontrou um pucarinho de ouro e foi logo a correr entregá–lo à mãe, para ela o colocar na sala a enfeitar.
O Rei do País onde vivia o pintainho Garnizé, num dos seus passeios pelo reino passou perto da quinta, e como estava muito cansado, decidiu pedir água à mãe do pintainho Garnizé.
O melhor copo que a galinha Pintada tinha para dar água ao Rei era o que o filho tinha encontrado. O Rei ao ver que era de ouro decidiu ficar com ele.
Quando voltou para casa, depois de mais um dia de brincadeiras com os seus amigos, o pintainho Garnizé viu que o pucarinho de ouro já não estava na sala. Então a mãe contou–lhe que o Rei o tinha levado para o palácio. O pintainho Garnizé ficou muito chateado e decidiu que no dia seguinte, iria ao palácio do Rei para que ele lhe devolvesse o seu pucarinho.
No dia seguinte, pegou na sua sacola mágica e saiu em direcção ao palácio do Rei.
No caminho para o palácio encontrou duas grandes pedras que estavam a chocar uma com a outra.
As pedras disseram–lhe:
– Pintainho Garnizé passas por aqui e esmagamos–te.
– Não façam isso – respondeu–lhes pintainho – eu vou ao palácio do Rei buscar o pucarinho de ouro que ele me roubou, se quiserem vir comigo entrem para dentro da minha sacola mágica, pode ser que ainda me venham a dar uma ajuda.
E as pedras entraram para dento da sacola e continuaram a viagem com o Pintainho.
Um pouco mais à frente estava uma raposa que lhe disse:
– Pintainho Garnizé passas por aqui e eu como–te.
E o Pintainho, um pouco assustado, respondeu–lhe:
– Não faças isso, eu vou ao palácio do Rei buscar o pucarinho de ouro que ele me roubou, se quiseres vir comigo entra para dentro da minha sacola mágica, pode ser que ainda me venhas a dar uma ajuda.
E a raposa entrou para a sacola e continuou a viagem com o Pintainho, e as pedras.
Ainda não tinha andado muito desde que encontrou a raposa, o Pintainho Garnizé deu de caras com uma família de toupeiras que lhe tinham bloqueado o caminho.
– Pintainho Garnizé passa por aqui e roemos–te as patas.
E o Pintainho, aos saltos, disse–lhes:
– Não façam isso, eu vou ao palácio do Rei buscar o pucarinho de ouro que ele me roubou, se quiserem vir comigo entrem para dentro da minha sacola mágica, pode ser que ainda me venham a dar uma ajuda.
E as toupeiras entram para a sacola e continuaram a viagem com o Pintainho, as pedras, e a raposa.
Já não faltava muito para chegar ao palácio do Rei quando o pintainho Garnizé se cruzou com o grande lobo da floresta, que lhe disse.
– Pintainho Garnizé, hoje não me escapas.
– Hoje não, por favor… – disse o Pintainho – eu vou ao palácio do Rei buscar o pucarinho de ouro que ele me roubou, se quiseres vir comigo entra para dentro da minha sacola mágica, pode ser que ainda me venhas a dar uma ajuda.
E então o lobo entrou para a sacola e continuou a viagem com o Pintainho, as pedras, a raposa e as toupeiras.
Quando, ao longe, já se via o palácio do Rei, o Pintainho ao atravessar o rio ouvi–o dizer:
– Pintainho Garnizé se passas por aqui levo–te na corrente até ao mar.
O Pintainho deu alguns passos para trás e respondeu–lhe:
– Não faças isso, eu vou ao palácio do Rei buscar o pucarinho de ouro que ele me roubou, se quiseres vir comigo entra para dentro da minha sacola mágica, pode ser que ainda me venhas a dar uma ajuda.
O rio entrou e continuou a viagem com o Pintainho, as pedras, a raposa, as toupeiras e lobo.
Quando chegou ao palácio pediu para falar com o Rei, mas como ele já esperava, disseram–lhe que o Rei estava muito ocupado e não o podia receber. O pintainho ficou muito chateado e enquanto andava de um lado para outro no jardim do palácio lembrou–se da sua sacola mágica, e então disse:
– Que saíam as toupeiras e estraguem o jardim do palácio.
Então a família de toupeiras saiu e ao ver o tamanho do jardim agradeceram ao Pintainho por as ter levado para um sítio como aquele.
Pouco tempo depois já as toupeiras tinham escavado vários túneis no jardim, que transformaram na sua nova casa.
Quando viu que as flores, e a relva estavam estragadas o pintainho começou a gritar:
– Qui…cri…qui…qui… venham cá ver o que eu fiz… venham cá ver o que eu fiz…
Os criados do Rei foram avisa-lo do que o Pintainho tinha feito, então o Rei mandou coloca-lo na capoeira, e as galinhas, como não o conheciam, iam picar-lhe e ele pediria para ir embora.
Quando já estava dentro da capoeira o pintainho pediu:
– Que saía a raposa e coma as galinhas.
Quando a raposa saiu e viu tantas galinhas disse logo:
– Ainda bem que não te comi pintainho, e obrigado por me teres trazido para esta capoeira, não me vou esquecer de ti.
Pouco tempo depois já a raposa tinha comido a maior parte das galinhas e então mais uma vez o pintainho Garnizé pôs–se a gritar:
– Qui…cri…qui…qui… venham cá ver o que eu fiz… venham cá ver o que eu fiz…
O Rei que já começava a ficar zangado, mandou que os criados o colocassem dentro do maior pote de azeite.
Como os potes de azeite do palácio eram feitos de barro, o pintainho Garnizé pediu:
– Que saíam as pedras e partam o pote.
Assim que as pedras começaram a chocar uma com a outra e também com o pote, este partiu–se em muitos bocados e o pintainho conseguiu sair de lá.
As pedras ficaram tão contentes de terem feito aquilo que foram a rir às gargalhadas até ao local onde estavam antes.
Mas no palácio do Rei já se ouvia:
– Qui…cri…qui…qui… venham cá ver o que eu fiz… venham cá ver o que eu fiz… – era o pintainho Garnizé a chamar os criados do Rei.
Muito surpreendidos, os criados, foram dar a notícia ao Rei, que desta vez ficou mais chateado e mandou–o para a cavalariça e os cavalos iriam pisar o intruso.
Nas cavalariças o pintainho disse:
– Que saía o lobo e morda os cavalos.
Não demorou muito para que o lobo já tivesse mordido as patas aos cavalos. Mas antes de se ir embora ainda disse ao pintainho:
– Já podes ir para a floresta à vontade que eu já não te faço mal.
– Qui…cri…qui…qui… venham cá ver o que eu fiz… venham cá ver o que eu fiz… – começou mais uma vez o pintainho.
Desta vez os criados do rei não queriam acreditar no que estavam a ver, o rei ficou fulo e então ordenou, ponham esse pintainho no forno do pão, e quero ver como é que ele se safa desta.
Quando já estava a ficar muito quente dentro do forno o pintainho disse mais uma vez:
– Que saía o rio e apague o forno.
A quantidade de água foi tanta que inundou grande parte do palácio.
E mal o pintainho começou «Qui…cri…qui…qui… venham cá ver o que eu fiz… venham cá ver o que eu fiz…» já os criados do Rei traziam o pucarinho de ouro que o Rei mandou devolver–lhe.
Assim o entregaram o pintainho Garnizé disse–lhes:
– Só vim buscar o que é meu, o Rei roubou–mo, espero que ele não volte a roubar mais nada a ninguém.
O pintainho Garnizé voltou muito feliz para casa.
A mãe dele, a galinha Pintada, voltou a colocar o pucarinho na sala e nunca mais o utilizou para dar água a ninguém.


28/06/2009

O ermitão e o ladrão

Numa ermida morava um virtuoso ermitão, ao qual se chegou um salteador de caminhos, dizendo-lhe:
— Vós rogais a Deus por todos. Rogai-Lhe que me tire deste mau ofício que trago, senão eu vos hei de matar.
Saindo dali, tornava a fazer o mesmo que dantes, e outra vez tornava a vir ao eremita, dizendo:
— Vós não quereis rogar a Deus por mim, pois hei de vos matar.
Tantas vezes fez isto, que uma vez veio decidido a matar o eremita. Diante dessa decisão, o eremita propôs:
— Já que me queres matar, tiremos primeiro ambos uma pedra que tenho sobre minha sepultura. Depois de morto, lançar-me-ás dentro sem muito trabalho.
Ele aceitou, e assim foram ambos erguer a pedra. Porém, enquanto o salteador trabalhava quanto podia para erguê-la, o ermitão trabalhava para que ela não se erguesse. E desta maneira não faziam nenhuma mudança na posição da pedra.
O salteador deu pela coisa, e disse:
— Do modo como vós me ajudais, como posso eu erguê-la? Eu levanto a minha parte, mas vós inutilizais o meu esforço.
Antes que ele prosseguisse, o ermitão explicou:
— E agora vamos ao que nos interessa. Que me adianta rogar a Deus por ti, pedindo-lhe que te tire do pecado e mau ofício que trazes, se tu não te queres tirar e estás muito de propósito perseverando nele?

(recolha de Teófilo Braga)