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03/01/2009


O ursinho era dos mais peraltas, coisa natural nas crianças porque nessa fase da vida a curiosidade fala mais alto que as recomendações maternas. Por isso aquele filhote da mamãe ursa logo esquecia as instruções que ela lhe dava, maravilhado que ficava com as descobertas que fazia durante suas pequenas caminhadas pela floresta.
Um dia o ursinho percebeu que em certa árvore à sua frente havia um buraco relativamente grande, e que nele as abelhas entravam e saíam a todo instante, numa movimentação incessante. Intrigado, ele foi verificar mais de perto o que era aquilo, e percebeu que no tal buraco, além do constante entra-e-sai das abelhas, algumas delas permaneciam paradas em sua entrada, como se a estivessem guardando.
Cada vez mais interessado o ursinho se pôs de pé nas patas traseiras, encostou o focinho no buraco, aspirou uma, duas, três vezes, e o cheiro que sentiu fê-lo enfiar uma das patas dianteiras lá dentro. Quando a retirou, ela estava lambuzada de mel que o ursinho tratou de lamber na maior euforia porque acabara de descobrir um manjar extremamente gostoso para o seu paladar. Ao repetir o gesto que fizera da primeira vez, novamente sua pata saiu toda melada de dentro da árvore, e o filhote da mamãe urso exultou com isso porque além da gula ser um procedimento indescritivelmente delicioso, dela ninguém se cansa.
Foi nesse exacto momento que um enxame de abelhas furiosas saiu de dentro do buraco para revidar a invasão sofrida, e elas passaram a ferroar as mãos do ursinho, sua cabeça, seus pés, e todas as partes do seu corpo não suficientemente protegidas pela pelagem grossa e abundante. Bem que o pequeno animal tentou defender-se da forma como podia, mas ele não conseguia acertar nenhuma das atacantes porque enquanto batia em si mesmo de um lado, elas investiam do outro, castigando o ladrão de mel sem dó nem piedade, até que desesperado o ursinho deitou-se e rolou pelo chão durante alguns segundos, mas logo depois se pôs de pé e saiu em carreira desabalada, chorando, em busca da protecção materna. Satisfeitas com a vingança executada, as abelhas retornaram à colmeia.

Moral da história: O desrespeito à propriedade alheia pode provocar diversas reacções. Portanto, não faça aos outros aquilo que não deseja que eles façam consigo.


Baseado em uma fábula de Leonardo da Vinci






09/10/2008

O pássaro trinador de flores




Era uma vez um Rei que tinha três filhos: Malik Mhuhammad, Malik Dschamschid e Malik Ibrahim. Ibrahim era o mais moço e seu pai o amava, tal como o filho amava o pai. Tendo o Rei adoecido, os médicos de todo o império não conseguiram descobrir qual o remédio para sua doença. Mas aí um certo doutor declarou que o remédio existia, desde que se conseguisse encontrá-lo: pois havia no mar um peixe verde que trazia um anel de ouro na mandíbula, e se alguém conseguisse pescá-lo, abrindo-lhe a barriga e colocando um pedacinho do coração de tal peixe sobre o coração do Sultão, este certamente se restabeleceria.
Os três filhos ofereceram dinheiro a vários mergulhadores e pescadores para que os mesmos procurassem o tal peixe, e afinal, após alguns dias, estes conseguiram pescá-lo e o trouxeram a Malik Ibrahim. Tomando-o nas mãos, o moço ficou tremendamente impressionado com a grande beleza do peixe e, examinando-o, verificou que ele trazia inscrito na testa: “Alá é o único Deus, Maomé é seu profeta e Ali é seu sucessor”. Bem, é esse o credo Shiita maometano. Ora, ao ler aquilo, Malik Ibrahim sentiu-se profundamente comovido e exclamou: “Mesmo que meu pai possa ser curado por este peixe, não posso matá-lo”, e lançou o peixe de volta ao mar.
Enquanto isso, todos aguardavam que ele trouxesse o peixe e, abrindo-lhe a barriga, curasse o pai, até que descobriram que o rapaz devolvera o peixe ao mar, o que os fez morder os dedos de espanto, sem conseguir entender o fato. Quando disseram isso ao Rei, este ficou furioso e falou: “Se na verdade Malik Ibrahim está esperando que eu morra para se apoderar do trono, eu o deserdarei".
Daí em diante o Rei foi piorando cada vez mais, não tendo mais paz nem de dia nem de noite; mais uma vez os médicos se reuniram em torno de seu leito e declararam: “Ainda existe um remédio que conhecemos, que é o Pássaro Trinador de Flores. Toda vez que ele gorjeia, cai-lhe do bico uma linda flor e, se alguém conseguir aprisioná-lo e colocar uma dessas flores sobre o coração do Rei, ele ficará curado de sua enfermidade”.
O Rei beijou seus outros dois filhos, dizendo-lhes: “Agora, minha única esperança é que vocês encontrem o Pássaro Trinador de Flores”. Então os dois filhos montaram seus cavalos e partiram, sendo seguidos por Ibrahim, pouco tempo depois. Os irmãos perguntaram o que estava fazendo ele ali, ao que Ibrahim respondeu que também ele ia em busca do pássaro, de modo que resolveram prosseguir juntos. Chegando a uma encruzilhada onde havia uma árvore e uma fonte, desceram dos cavalos para descansar um pouco. Tendo os seus irmãos adormecido, Ibrahim foi dar um pequeno passeio, e de repente avistou uma tábula de pedra onde estava escrito: “Aqueles que chegarem a esta encruzilhada precisam saber que a estrada da direita não apresenta perigo e é agradável, mas a da esquerda é cheia de perigos e nenhum viajante que por ela seguir poderá ter esperança de voltar”.
Os dois irmãos, naturalmente, tomaram o caminho da direita, enquanto a Ibrahim coube o da esquerda. Mas havia na tábula uma outra inscrição que dizia que quem tomasse o caminho da esquerda deveria levá-la consigo. E assim fez Ibrahim. Primeiramente, foi dar a um castelo cercado de um lindo jardim onde encontrou uma bela jovem que o flertou; ele se apaixonou por ela e esta já sabia o seu nome. De repente porém Ibrahim se lembrou da tábula que trouxera consigo e, retirando-se para um recanto do jardim, viu que nela estava escrito: “Se tomares o caminho da esquerda, encontrarás belíssima e sedutora jovem, mas não te deixes atrair por suas tramas pois ele é uma astuta feiticeira que deseja matar-te. Ela vai te desafiar para uma luta e, quando isso ocorrer, tens de arrancar-lhe a blusa e então verás em seu ombro um sinal negro. Toma tua faca e enterra-a com toda força nessa mancha negra, tratando porém de não errares o alvo, pois se isso acontecer tu serás transformado em pedra negra”.
Aconteceu tudo como fora previsto e Ibrahim conseguiu mergulhar sua adaga na mancha negra da feiticeira. Então surgiu um furacão, com raios e trovões, tendo Ibrahim desmaiado de terror. Ao recobrar os sentidos viu a seu lado o cadáver de uma terrível e decrépita velha; quanto ao jardim e ao palácio, tudo desaparecera e ele se achava num deserto.
Então Ibrahim prosseguiu caminho e logo se achou num jardim muito semelhante ao primeiro; no centro havia um lago e nele vagava um barco. Nadou até o barco e ali encontrou dez homens, dos quais apenas um manifestava sinais de vida. Malik Ibrahim alimentou-o fazendo-o comer pedacinhos de maçã, pois o homem estava demasiado fraco e faminto para poder falar. Após se sentir mais reconfortado, o homem contou a Ibrahim que o barco fora colhido por um redemoinho e que, diariamente, ao meio-dia, surgia das profundezas uma grande mão que arrebatava um deles para dentro do lago, quer estivesse vivo ou morto, e que antes havia vinte homens a bordo, dos quais dez haviam sido agarrados e os demais tinham morrido de fome. Ibrahim recorreu novamente à tábula, na qual leu: “Se chegares a este barco, não te deixes distrair por qualquer coisa que vejas, ou que aconteça, ou que a dona da mão te relate. Essa mão que emerge do fundo das águas pertence à irmã da primeira feiticeira. Tens que apertá-la com toda a tua força, que é para romperes a maldição. Caso sejas superado na luta, perderás para sempre tua liberdade”.
Aí surgiu da água uma linda mão enquanto uma voz o saudava dizendo: “Apertemos as mãos, em sinal de amizade!” Ao que Ibrahim respondeu: “Sim, com todo prazer”, e estendeu-lhe a mão; reparando porém que a outra o ia puxando cada vez mais para a água, ele se colocou sob a proteção de Deus e, com quantas forças tinha, apertou tanto a tal mão, que a esmagou; novamente desabou uma tempestade e ele viu a seu lado o cadáver da feiticeira, achando-se perdido novamente no deserto.
Pôs-se então a caminho e foi dar a um lugar onde havia uma árvore alta e uma fonte, com muitos macacos em torno da árvore. Ele não sabia como explicar a presença de tantos macacos, mas estes o cercavam, olhando-o com olhos tristes. Ibrahim recorreu à tábula e leu: “Agora que mataste a feiticeira hás de chegar a uma árvore cheia de macacos e a uma fonte. Segue o veio da água e irás dar a um enorme edifício, onde encontrarás uma jovem; mas também é feiticeira e tentará te cativar e te iludir. Desta vez, terás que atirar-lhe à testa esta tábula, para que lhe quebres a cabeça e rompas o encantamento”. Tudo aconteceu como ali estava escrito e, logo que atirou a pedra à cabeça da feiticeira, todos os macacos viraram lindas donzelas. A líder das moças era uma Fada-princesa, que fora à caça de uma gazela com suas damas. Mas a gazela que ela caçava era a própria feiticeira e, mal as jovens entraram na floresta, a gazela começou a correr em círculos transformando-se numa mulher horrorosa e, no mesmo instante, transformou as jovens em macacos. Agora que Ibrahim matara a bruxa-gazela, as moças estavam libertas do encanto.
Ibrahim levou a Fada-princesa de volta à casa de seu pai e pediu-a em casamento, porém o Rei confessou a Ibrahim que não tinha só essa filha, Maiúne, que ele desencantara, mas também um filho que tentara dar combate às feiticeiras e fora morto, achando-se sepultado num cemitério próximo. Todas as noites, porém, chegavam as feiticeiras e, como a bruxa de Endor, da qual fala a Bíblia, retiravam da tumba o corpo do filho do Rei, ainda envolto nos restos da sua mortalha; e a cada manhã o cadáver tinha que ser novamente sepultado até que, na noite seguinte, tudo se repetisse.
Por isso Ibrahim se colocou, à noite, perto do túmulo e, tendo sido outra vez instruído do que lhe competia fazer, tomou uma lança e, quando duas feiticeiras apareceram para reiniciar suas artimanhas, em um só golpe ele as degolou, tendo-se desencadeado, no mesmo instante, uma terrível tempestade. Quando, porém, tudo se acalmou, o Príncipe morto ressuscitou e declarou que, por ter sido libertado por Ibrahim, fazia-se seu escravo para sempre.
Depois disso Malik Ibrahim se casou com a Fada-princesa, embora continuasse determinado a partir em busca do Pássaro Trinador de Flores. Alguém lhe disse que o pássaro se encontrava numa grande montanha rodeada por milhares de demoniozinhos e que ninguém podia por ali passar. Mas Ibrahim simplesmente se dirigiu aos mil demoniozinhos e, quando estes o atacaram, destemidamente os fez estacar, o que os deixou curiosos por saber o que é que aquele simpático e ingênuo rapaz pretendia ali. Em lugar de o matarem imediatamente, deram-lhe a chance de dizer porque viera. Ibrahim então confessou que desejava o Pássaro Trinador de Flores. Abertamente contou-lhes toda a verdade e os demoniozinhos então disseram que o pássaro se achava ali na montanha e que pertencia a Tarfe Banu, filha do Rei; acrescentaram que eles não lhe podiam trazer o pássaro e que Ibrahim teria que roubá-lo sozinho; eles não se importariam. Chegaram mesmo a conduzir Ibrahim ao castelo encantado, onde, num dos aposentos, encontrou Tarfe Banu adormecida sobre um coxim todo ornamentado com pedras preciosas. Ela era tão bela que não existe linguagem humana capaz de descrever-lhe a beleza. À sua cabeceira se achava uma linda gaiola, dentro da qual estava o Pássaro Trinador de Flores, e a cada trinada que este emitia caíam-lhe do bico flores suavemente perfumadas. Ibrahim com grande rapidez se apoderou da gaiola e fugiu, pedindo aos demoniozinhos que o levassem para casa. Quando já se achava próximo do castelo onde morava, pendurou a gaiola numa árvore e caiu no sono. Então, como se pode imaginar, os irmãos apareceram e roubaram o pássaro, levando-o para o Rei, a quem disseram terem sido eles mesmos que o haviam encontrado. Mas o pássaro não cantava!
Ibrahim consegue chegar à corte e, ao vê-lo, o pássaro logo se põe a cantar e as flores a lhe tombarem do bico, de modo que o Rei logo fica curado. Eis, porém, que chega ali um exército. Ao redor do palácio surge grande número de tendas e os irmãos, horrorizados, descobrem que Tarfe Banu viera em busca de quem lhe roubara o Pássaro. O ladrão, disse ela, teria que comparecer à sua presença, pois não falaria com qualquer outra pessoa. Todos empalideceram, mas Ibrahim se declarou disposto a ir. Vestiu-se principescamente e compareceu diante da Princesa, que o recebeu muito afavelmente, declarando-lhe ter feito um juramento de se casar com ele porque, a despeito da perseguição das feiticeiras, conseguira encontrá-la, bem como ao pássaro, e que por isso era ele o único que merecia se tornar seu esposo.
Ibrahim se casou, portanto, com Tarfe Banu, permitindo que mais tarde Maiúne viesse se reunir a ele e todos viveram felizes até o fim de suas vidas, como manda o destino.


Conto Iraniano



21/09/2008

A Moura Torta

Havia um rei que tinha um filho, e quando este chegou à idade de casar, disse a seus pais: - Quero me casar com a mulher mais formosa do mundo. Assim, vou percorrer o mundo até encontrá-la.
Saiu do palácio e caminhou até chegar a uma fonte, onde parou para tomar água. Ao inclinar-se para beber, viu que se reflectiam três laranjas. Ergueu os olhos e viu que de uma frondosa laranjeira pendiam três grandes e belas laranjas.
- Que saborosas devem ser, disse o príncipe, e dizendo isso, subiu na árvore e cortou as três preciosas laranjas.
Partiu a primeira e, como por encanto, saiu dela uma jovem muito linda que, ao ver o príncipe, lhe disse:
- Dá-me pão.
- Não posso, disse ele, porque não tenho.
- Então volto para minha laranja, disse a jovem, e desaparecendo, deixou a laranja intacta.
Partiu o príncipe a segunda laranja e da fruta saiu outra jovem, muito mais bela que a primeira.
- Dá-me pão, disse ao príncipe.
- Não posso, pois não tenho, ele falou.
- Então volto para minha laranja. A laranja se fechou e ficou como antes.
O príncipe ficou pensativo e, decidiu conseguir pão, a fim de dar à ultima jovem da laranja.
Assim pensava o jovem, quando coincidiu de passar por ali um cigano em seu coche.
- Amigo, gritou o príncipe - te darei uma moeda de ouro por um pedaço de pão.
Rapidamente o cigano desceu da carruagem e correu a levar o pão ao príncipe.
O príncipe ficou muito contente e satisfeito. Partiu a terceira laranja e, como havia imaginado, do coração da fruta saltou uma jovem muito mais formosa que as anteriores.
- Dê-me pão, ela disse.
O príncipe alegremente deu o pão à jovem, que em seguida falou: - Agora te pertenço, podes fazer de mim o que quiseres.
- Contigo me caso, lhe disse o príncipe.
Como a jovem estava nua, o príncipe queria antes vesti-la para leva-la ao palácio. Deu uma olhada na roupa do cigano que ainda permanecia ali, porem notou que estavam muito sujas.
O príncipe então disse à jovem: - Espera aqui com este cigano até que eu volte com uma roupa.
O cigano tinha uma filha que viajava com ele no coche, porem tinha dormido durante todo o tempo em que a história das laranjas ocorria. Ao despertar no momento em que o príncipe subia no cavalo, caiu de amores por ele.
Desceu logo do coche e foi perguntar ao seu pai o que estava acontecendo. Ele lhe contou o ocorrido.
A cigana, vendo a jovem, lhe disse: - Deixa-me te pentear para que fiques mais bonita para o regresso do príncipe.
A jovem consentiu, e enquanto a cigana penteava sua formosa cabeleira, sentiu que lhe cravavam um alfinete na cabeça. No momento a dama da laranja se transformou numa pomba. A cigana então tirou a roupa e se colocou no lugar onde estava a jovem.
O príncipe voltou e quando viu a cigana, disse: - Senhora! Como escureceste!
A cigana respondeu: - É que demoraste e acabou me queimando o sol.
O príncipe, acreditando ser a mesma jovem da laranja, levou a cigana ao palácio e se casou com ela.
Um dia chegou uma pombinha ao jardim do rei e disse ao jardineiro: Jardineirinho do rei, como está o príncipe com sua mulher?
- Umas vezes canta, porem mais vezes chora - disse o jardineiro. Todos os dias chegava a pombinha e fazia a mesma pergunta ao jardineiro, até que este contou ao príncipe.
O príncipe deu ordem ao jardineiro para que prendesse a pombinha. O jardineiro untou de visgo a árvore onde diariamente pousava a pombinha e, quando esta chegou para sua visita diária, ao querer voar, ficou presa à árvore, podendo apanha-la o jardineiro e leva-la ao príncipe.
O príncipe se enamorou da pombinha. Colheu-a com carinho e ao acariciar-lhe a cabeça, encontrou o alfinete que tinha sido cravado e retirou-o. Imediatamente a pombinha se transformou na bela dama da laranja.
A formosa jovem contou sua aventura ao príncipe e, entrando os dois no palácio, comunicaram o ocorrido ao rei.
O rei, indignado, deu ordens para que imediatamente matassem a cigana, e o príncipe e a dama da laranja se casaram e foram felizes para sempre.

Conto Espanhol





20/08/2008

História da donzela de pau


Contam os livros do passado muitas histórias verdadeiras. Por exemplo, que um dia quatro homens: um carpinteiro, um ourives, um alfaiate e um monge, foram viagem. Depois de viajarem certo tempo, aconteceu terem que tiveram de passar a noite numa região perigosa. Temendo ser agredidos por animais ferozes, resolveram que cada um deles, por sua vez, vigiaria algum tempo. O primeiro foi o carpinteiro. Enquanto os outros dormiam, sentiu-se ele invadido de cansaço e, para afugentar o sono, pegou suas ferramentas. Derrubou uma árvore delgada, pôs-se a talhar a madeira, e acabou formando uma figura de donzela, com a cabeça, a mãos e os pés.
Depois foi a vez do ourives. Ao cabo de certo tempo, também este sentiu sono e procurou em que se ocupar. Então seus olhos encontraram a donzela de pau.
Admirou a arte com que estava feita e, para não ceder à sonolência, também deu provas de sua habilidade, fabricando para a estátua brincos, braceletes e outros adornos femininos, com os quais a enfeitou maravilhosamente.
Terminada a vigília do ourives, o alfaiate, por seu turno, ao despertar, avistou, com forte surpresa, o lindo figurino, e exclamou:
- Eu também tenho de mostrar a minha arte.
E fez um encantador vestido de festa para a donzela e vestiu-a da cabeça aos pés Quem a visse sem saber que era apenas uma figura esculpida, toma-la-ia por um ser vivo, tão parecido estava com um espírito encarnado.
Quando a vigília do alfaiate chegou ao fim, ele acordou o monge e foi deitar-se. Mal o monge abriu os olhos, viu a formosa figura Teve a impressão de um viandante a cujos olhos, em meio as trevas nocturnas, de repente rebrilha uma luz - e aproxima-se dela. Que viu? Uma linda figura - de tal formosura – que nem ascetas -e anacoretas - a deixariam de adorar; - uma bela – donzela - sem-par; - suas sobrancelhas, um oratório, para o amante -suplicante - rezar;
- os rubis dos lábios numa tez de marfim - prometiam prazeres sem fim. - logo o monge os braços alçou. -implorando a Quem as almas criou:
O Deus todo-poderoso, - que do seio do nada brumoso -para os campos floridos do ser - arrancaste o homem e a mulher, tu, só tu, tens o poder - de fazer brotar do córtice duro -fruto doce, fofo, maduro; - ó Deus, demonstra-me tua graça, -não me precipites na desgraça, -- ante os meus companheiros não me humilhe; eu te invoco, - empresta alma a este corpo oco. -a fim de que goze da existência - exaltando a tua clemência.
Assim rezava com todo fervor. Como fosse homem de coração puro, o Senhor ouviu-lhe a prece. Com sua inesgotável misericórdia, o Eterno presenteou a estátua com uma alma, e mandou-a viver. Ela se tornou uma linda donzela, cola a vida ligada a uma brilhante estrela; - começou a andar, - a se balancear, - como os ciprestes oscilam no ar - e sem demora se pôs a falar, - e tudo o que dizia era gaio - como a fala de um papagaio.
Ao chegar da aurora e, com ela, do Sol, delicia do mundo, as olhos dos quatro viandantes caíram sobre o ídolo arrebatador chamado à vida durante a noite.
Apenas viram a esplêndida mulher, - uma louca paixão lhes invadiu o ser, - os anéis de seus cabelos prenderam-nos em cadeias. - e feitos moscas ao redor e candeias, voaram em torno dela, dementes, - e de paixão doentes - os quatro começaram a brigar.
Sou eu - disse o carpinteiro - de sua vida o autor verdadeiro - Meu direito a vós outros vence; - a mim, só a mim ela pertence.
Porém o ourives falou assim:
Não lhe dei brincos, braceletes, enfim? Isso, como todos devei saber, - é metade da alma de uma mulher. Ora, se tanto fiz por ela, claro que é minha esta donzela.
Disse o alfaiate, por sua vez:
Despesas com da minha bolsa também fez; - vesti-a seda e brocado, - tomando o seu encanto perfeito e acabado - comunicando-lhe um brilho tal - que acendeu nela a chama vital. Portanto, sou eu o sou dono, - e a ninguém a abandono.
Mas o monge exclamou:
Não! - Tudo o que disseste é vão. Então esqueces me sua vida é fruto de minhas preces? - Foi a mim que deu o Supremo Juízo, - como antegozo das huris do Paraíso - Para mim a requisito; - meu direito é manifesto!.
Em poucas palavras. não encontraram outra saída a não ser si meter suas reivindicações à decisão de um tribunal; e iam-se caminhar ao mais próximo, quando aparece diante deles um viandante vestido de pano de chita. Logo os quatro resolvem fazê-lo árbitro de sua divergência o aceitar qualquer sentença ele pronunciasse. Chamaram-no, pois. e contaram-lhe minuciosamente todo o sucedido. Mas logo o daroês viu a linda donzela - apaixonou-se por ela, - e, como flauta plangente, entrou a gemer de repente, - reflectiu uni momento, e, para curar o seu próprio tormento, assim falou aos quatro viajantes:
- Ó muçulmanos que palavras estultas acabais de pronunciar! Não temeis o Todo-Poderoso ao cometer tamanho crime querendo-me roubar minha legítima esposa?
Um de vós até ousa pretender havê-la talhado na madeira; outro ter pronunciado uma prece por ela. Dizei, afinal, algo de razoável, algo de possível segundo a lei divina! Esta é a minha mulher e as vestes e os objectos que ela usa, fui eu que mandei fazê-los. Alguns dias atrás, houve entre nós uma briga sem importância; aborrecida com isso, minha mulher deixou a casa esta noite. O desejo de encontrá-la fez-me ir à procura dela. Graças a Deus consegui encontrá-la,
efectivamente. Cuidai vós outros pois, de não vos tonardes ridículos com conversas, destituídas de qualquer fundamento.
Assim o daroês, em vez de resolver a contenda, sobrepujou as reivindicações dos quatro viajantes, e então foram cinco a pretender cada um estar com razão contra os demais. Em discussões e brigas chegaram a uma cidade, e sem demora se dirigiram ao chefe de polícia para expor o seu caso. Mal o chefe de policia viu a jovem, apaixonou-se por ela com veemência mil vezes maior do que a dos cinco forasteiros, e, no intuito de obtê-la para si investiu deste modo contra eles:
- Homens pérfidos, esta criatura era mulher de irmão mais velho. Este foi morto por ladrões, que lhe roubaram a esposa. Mas, graças a Deus, sangue derramado não se perde e vossos pés vos conduziram ao laço.
Destarte o chefe de policia terminou sendo um rival mais impetuoso ainda que os outros cinco; mandou citá-los sem tardança perante a justiça e ele mesmo os acompanhou ao cádi. Cada um se esforçava por explicar sua pretensão àquele respeitável personagem, quando ele de súbito olhou para o rosto da mulher.

Surgiu-lhe ante os olhos formosa menina.
Dos pés a cabeça – graciosa, divina!
Altivo cipreste, perdido deixava
Enfermo de amores, a quem fitava.

Quando o cádi viu ante si essa criatura, sentiu-se presa do desejo de possuí-la.
- Meus amigos, disse ele, a contenda que estais levantando é nula. Esta linda mulher é uma escrava crescida em minha casa e tratada desde criança como se fora minha filha. Seduzida por homens maus, abandonou-me, levando as jóias e as vestes com que a vedes. Graças sejam dadas ao Altíssimo que ma restitui mercê de vossa obsequiosidade. Espero que Deus, que tudo sabe, leve em conta o serviço que me acabais de prestar e vos dê merecido prémio.
Ao ouvir tais palavras, quatro dos competidores de apartaram, porque sabiam que o cádi lhes poderia infligir humilhações e castigos sem que eles se pudessem defender. Mas o darôes teve coragem para levantar a voz:
- Achas lícito, tu que pretender estar sentado no tapete do Profeta, não resolver uma contenda de muçulmanos ortodoxos segundo a lei sagrada, mas, pelo contrário, levantar tu mesmo uma pretensão, procurando arrebatar-nos esta donzela? Que religião te autoriza semelhante injustiça? Como te atreverás a comparecer amanhã, perante o Criador do mundo?
- Olha, ladrão de estátuas – respondeu o cádi, tu que por meios de jejuns encovaste as faces para enganar as gentes; tu que pretender fazer crer que andas curvado pelo temor de Deus, olha o provérbio que diz: “Um bom mentiroso deve ter não só excelente memória, mas também uma inteligência penetrante e aguda.”
Onde a tua inteligência? Querendo contar-nos patranhas, procura, ao menos, dar-lhes uma aparência decente. Será possível fazer um ser humano de um pedaço de madeira? Renuncia a pretensões tão ridículas e vai-te para onde quiseres. Eu felizmente recuperei minha escrava.
Havia no pátio do tribunal alguns cidadãos que assistiam à disputa. Referindo-se a estes, disse o monge:
- Os cidadãos aqui presentes, como ignoram o verdadeiro estado das coisas, devem supor, ó cádi, que a verdade está contigo Mas nós outros sabemos bem o que aconteceu.Teme pois, a Deus, e, em respeito ao Santo Profeta, decide o caso segundo a lei sagrada.
O cádi replicou ao monge, o monge por sua vez respondeu ao cádi com as palavras que lhe pareceram mais violentas, e de pronto o diálogo se transformou em veemente discussão.Os sete homens, todos mortalmente apaixonados, preparavam-se para a luta. Porém, os mais razoáveis dos circunstantes deliberaram reconciliá-los e disseram-lhes:
- Muçulmanos, a vossa contenda é um nó insolúvel, a menos que o Magnífico se digne desatá-lo. Portanto, atendendo ao conselho de um ditado do Profeta que nos foi transmitido:

Se a um caso da vida não sabes achar solução,
Consulta os que dormem seu sono debaixo do chão.

- Vamos todos juntos ao cemitério; ali vós rezareis e nós pronunciaremos o amém Destarte se pode esperar que Aquele-Que-Tudo-Segura elucide o mistério.
A proposta foi aceita e transportaram-se todos ao cemitério, onde o monge, erguendo os braços ao céu, e com lágrimas nos olhos, pronunciou com o mais intenso fervor, esta oração:
- Ó Fortíssimo, cujo poder não tem lindas, - que os pensamentos mais secretos deslindas -, cuja mente de antemão conhece – a nossa prece, - imploramo-te que desates o nó, que nos causa tanto dó – e declares bondosamente – quem diz a verdade e quem mente.
Quando acabou de pronunciar estas palavras, toda a assembleia exclamou a uma voz:
- Amém!
Nesse instante aconteceu que uma grande árvore, à qual se recostara a linda donzela durante a oração, fendeu-se de súbito, engoliu a donzela, e novamente se fechou, ficando como dantes. Dessa maneira se verificou mais uma vê a verdade da misteriosa sentença: “Todas as coisas voltam a sua origem.”
Tal desfecho pôs fim a qualquer discussão. Com os olhos da certeza, todos reconheceram que os quatro viajantes haviam dito a verdade e os outros homens haviam mentido. Assim a razão dos peregrinos se manifesta – e desmascara-se a fraude infesta. O darôes, o chefe de polícia e o cádi ali ficaram – e quedaram – de todos desprezados – e envergonhados.
Mas os quatro peregrinos – apaixonados pelo lindo figurino, ficaram perplexos ao ver a virgem – tornar destarte à sua origem.


Conto Árabe

26/06/2008

Modo correcto


Um Monge de grande devoção e instruído, atravessava uma vez um rio em um barco quando ao passar ao lado de uma pequena ilhota, ouviu uma voz de um homem que muito torpemente tentava elevar suas preces. No interior do monge não pode mais que entristecer-se.
- Como era possível que alguém fora capaz de entoar tão mal aqueles mantras? Talvez aquele homem ignorava que os mantras deviam ser recitados com entonação adequada, com ritmo e musicalidade precisas, com pronuncia perfeita.
Decidiu então ser generoso e desviando-se de seu rumo aproximou-se a ilhota para instruir aquele homem sobre a importância da correcta execução dos mantras. Não era em vão que se considerava um frande especialista e aqueles mantras não tinham para ele qualquer segredo. Quando desembarcou a ilhota, pode ver um pobre homem de aspecto sossegado cantando alguns mantras um pouco sem acerto. O monge, com serena paciência, dedicou algumas horas a instruir minuciosamente a aquele indivíduo que a cada momento mostrava efusivas mostras de agradecimento a seu instrutor. Quando entendeu que por fim aquele sujeito poderia recitar os mantras com certa capacidade despediu-se dele, advertindo-lhe:
- E lembre-se meu bom amigo, é tal a potência de estes mantras que sua correcta pronuncia permite que um homem seja capaz de caminhar sobre as aguas.
Mas apenas havia percorrido alguns metros com seu barco, ouviu a voz daquele homem a recitar os mantras ainda pior que antes.
- Que horror. Há pessoas que são incapazes de aprender nada de nada, assim pensou o monge.
- Hey, monge - escutou atrás de si uma voz muito perto.
Ao voltar-se viu ao pobre homem que, caminhando sobre a as águas, aproximava-se de seu barco e perguntava:
- Nobre monge, já esqueci-me tua instruções sobre o modo correcto de recitar os mantras. Serias, tão amável de repeti-lo novamente?




Conto Indiano


12/06/2008

O Caçador





Era uma vez um homem quem era caçador, e seu nome era Caçador, também. Um dia, ele estava caçando quando encontrou um cervo. Quando mirou no animal, o cervo desapareceu. Ele mirou novamente e de repente o cervo se transformou num homem. Caçador ficou apavorado. O homem chegou perto dele e disse: "Por que você sempre caça cervos e pássaros? Você não sabe que eles têm um dono?" "Eu tenho que alimentar minha família, e esta é sua única forma", replicou Caçador.
"Qual o tamanho de sua família?" Perguntou o homem. "Dois meninos, uma menina, minha mulher e eu", respondeu Caçador, "e isso é o que nos mantêm vivos".
"Bem", disse o homem, "se eu lhe der dinheiro, você pára com isso?" "É claro", disse Caçador, "assim que eu tiver dinheiro, nunca mais caçarei". Neste momento, o homem pegou cinquenta dinares e deu-os a Caçador. "Antes que você vá, qual é seu nome?" o homem perguntou. "Sou Caçador, e você?" disse Caçador.
"Chamo-me Abdala", respondeu o homem, "e eu tenho uma família, como você".
Caçador chegou em casa, limpou sua arma e encostou-a na parede. Ele disse a sua mulher que nunca mais iria caçar e que Deus lhe tinha dado uma fonte de dinheiro. Porém, não muito depois, o dinheiro acabou, e Caçador pegou novamente sua arma e saiu para caçar. Quando ele chegou na mata, encontrou o cervo no mesmo lugar e na mesma hora. Ele mirou, e imediatamente o animal transformou-se em Abdala. "Não tínhamos um acordo?" perguntou Abdala. "Mas o dinheiro acabou", disse Caçador, "e nós quase morremos de fome". "Você vê aquela rocha?" disse Abdala, "Sempre que você precisar de mim, apenas vá até ela e diga 'Ó irmão Abdala', e virei imediatamente." Então ele deu ao caçador outros cinqüenta dinares.
Caçador voltou feliz para casa. Quando ele deu o dinheiro a sua esposa, ela exigiu saber onde ele o tinha conseguido. Ele disse que tinha encontrado um amigo que lhe prometera ajuda todas as vezes que necessitasse; Caçador somente tinha que ir à rocha e chamá-lo. "Você é um homem pão-duro!" disse a esposa de Caçador, "Você deveria convidá-lo a vir a nossa casa, nós poderíamos comer juntos e reforçar essa amizade." Então Caçador voltou a rocha e chamou Abdala.
Após se desculpar por não convidá-lo, Abdala insistiu para que primeiro a família de Caçador fosse a sua casa. Após combinarem para às oito da manhã, Caçador voltou para casa para contar à esposa as novidades.
Caçador e sua família compraram um presente e se dirigiram à rocha com as crianças. Quando eles lá chegaram, encontraram Abdala e sua família esperando.
Cada um da família Abdala deu boas-vindas a um membro da família Caçador e eles sacudiram as mãos. Num piscar de olhos, eles estavam num mundo diferente.
A família Abdala preparou um banquete e convidou todos os vizinhos que trouxeram presentes e dinheiro para Caçador e sua família. Após ficarem algum tempo, Caçador e sua família juntaram os presentes e o dinheiro e foram para casa. Eles tinham dinheiro suficiente para construir uma boa casa. Poucos meses depois, num feriado, Caçador foi visitar seu amigo. Quando Abdala apareceu, ele segurou a mão de Caçador e num piscar de olhos, eles estavam um lugar diferente.
Abdala deu mil dinares a Caçador.
Caçador pegou o dinheiro e foi para casa. Sua esposa disse que eles tinham o suficiente para casar seu filho mais velho. Eles encontraram uma boa garota para ele e marcaram a data do casamento. É claro que Caçador convidou Abdala e sua família. Abdala disse a Caçador que preparasse uma sala separado para ele e outras vinte pessoas e não deixar ninguém se aproximar deles. No dia do casamento, todos da cidade foram convidados e Caçador fez o que Abdala pediu.
As pessoas podiam ver Caçador entrar na sala separada com bandejas cheias e sair com elas vazias, sem no entanto poderem ver o que estava lá dentro.
Após todos irem embora, Abdala perguntou a Caçador se eles poderiam dar o presente da noiva, e cada um deu um linda jóia. Antes de Abdala ir, ele disse a Caçador que todos estavam convidados para sua casa a semana toda.
Uma dupla de ladrões da cidade sabiam onde a noiva tinha colocado sua caixa de jóias, então entraram na casa e levaram. Quando Caçador e sua família voltaram para casa, descobriram o roubo. Todos os Caçadores pediram ajuda a Abdala, que os confortou e lhes disse que abrissem novamente a caixa das jóias. Eles encontraram o dobro de jóias que havia inicialmente. Abdala virou-se para Caçador e disse: "Na próxima vez, meu irmão, quando você for nos visitar, nós protegeremos sua casa".

Conto palestiniano

02/06/2008

A luta de sabres

Essa história transcorre no século 17, no Japão, durante um período de fome.
Um camponês não tinha com o que alimentar sua família e se recorda do costume que promete forte recompensa àquele que seja capaz de desafiar e vencer o mestre de uma escola de sabre.
Ainda que nunca houvesse tocado numa arma em sua vida, o camponês desafia o mestre mais famoso da região. No dia fixado, diante de público numeroso, os dois homens se enfrenta. O camponês, sem se mostrar impressionado pela reputação do adversário, o espera com firmeza, enquanto o mestre de sabre estava um pouco perturbado por tal determinação. Quem será este homem?, pensa. Jamais nenhum vilão teria coragem de me desafiar. Não será uma armadilha de meus inimigos?
O camponês, acuado pela fome, se adianta resolutamente até seu rival. O mestre vacila, desconsertado pela total ausência de técnica de seu adversário. Finalmente, retrocede movido pelo medo. Antes do primeiro assalto, o mestre sente que será vencido. Baixa seu sabre e diz:
- Você é o vencedor. Pela primeira vez na vida seria abatido. Entre todas as escolas de sabre, a minha é a mais renomada. É conhecida com o nome de "A que num só gesto dá dez mil golpes". Posso perguntar-lhe, respeitosamente, o nome de sua escola?
- A escola da fome. - responde o camponês.

Conto Japonês


27/04/2008

A Divindade dos Homens

Houve um tempo em que todos os homens eram deuses. Mas eles abusaram tanto de sua divindade que Brahma, o mestre dos deuses, tomou a decisão de lhes retirar o poder divino. Resolveu então escondê-lo em um lugar onde seria absolutamente impossível reencontrá-lo. O grande problema era encontrar um esconderijo. Brahma convocou um conselho dos deuses menores, para juntos resolverem o problema.
- Enterremos a divindade do homem na terra, foi a primeira ideia dos deuses.
- Não, isso não basta, pois o homem vai cavar e encontrá-la.
Então os deuses retrucaram:
- Joguemos a divindade no fundo dos oceanos.
Mas Brahma não aceitou a proposta, pois achou que o homem, um dia iria explorar as profundezas dos mares e a recuperaria. Então os deuses concluíram:
- Não sabemos onde escondê-la, pois não existe na terra ou no mar lugar que o homem não possa alcançar um dia.
Brahma então se pronunciou:
- Eis o que vamos fazer com a divindade do homem: vamos escondê-la nas profundezas dele mesmo, pois será o único lugar onde ele jamais pensará em procurá-la.
Desde esse tempo, conclui a lenda, o homem deu a volta na terra, explorou escalou, mergulhou e cavou, em busca de algo que se encontra nele mesmo.

Conto oriental





08/04/2008

Sons Inaudíveis

Um rei mandou seu filho estudar no templo de um grande Mestre, com o objectivo de prepará-lo para ser uma grande pessoa. Quando o príncipe chegou ao templo, o Mestre o mandou sozinho para uma floresta. Ele deveria voltar um ano depois, com a tarefa de descrever todos os sons da floresta. Quando o príncipe retornou ao templo, após um ano, o Mestre lhe pediu para descrever todos os sons que conseguira ouvir. Então disse o príncipe:
- Mestre, pude ouvir o canto dos pássaros, o barulho das folhas, o alvoroço dos beija-flores, a brisa batendo na grama, o zumbido das abelhas, o barulho do vento cortando os céus...
E ao terminar o seu relato, o Mestre pediu que o príncipe retornasse à floresta, para ouvir tudo o mais que fosse possível. Apesar de intrigado, o príncipe obedeceu a ordem do Mestre, pensando:
- Não entendo, eu já distingui todos os sons da floresta...
Por dias e noites ficou sozinho ouvindo, ouvindo, ouvindo... mas não conseguiu distinguir nada de novo além daquilo que havia dito ao Mestre. Porém, certa manhã, começou a distinguir sons vagos, diferentes de tudo o que ouvira antes. E quanto mais prestava atenção, mais claros os sons se tornavam. Uma sensação de encantamento tomou conta do rapaz. Pensou:
- Esses devem ser os sons que o Mestre queria que eu ouvisse...
E sem pressa, ficou ali ouvindo e ouvindo, pacientemente. Queria Ter certeza de que estava no caminho certo. Quando retornou ao templo, o Mestre lhe perguntou o que mais conseguira ouvir.
Paciente e respeitosamente o príncipe disse:
- Mestre, quando prestei atenção pude ouvir o inaudível som das flores se abrindo, o som do sol nascendo e aquecendo a terra e da grama bebendo o orvalho da noite...
O Mestre sorrindo, acenou com a cabeça em sinal de aprovação, e disse:
- Ouvir o inaudível é ter a calma necessária para se tornar uma grande pessoa. Apenas quando se aprende a ouvir o coração das pessoas, seus sentimentos mudos, seus medos não confessados e suas queixas silenciosas, uma pessoa pode inspirar confiança ao seu redor; entender o que está errado e atender às reais necessidades de cada um."


Conto oriental





27/03/2008

A história da caveira

Era uma vez um granjeiro que tinha apenas um filho. Este filho morreu e o pai não quis ir ao enterro porque antes houve uma briga entre eles. Passado um tempo, morreu um vizinho e ele foi ao seu enterro. Depois da cerimónia e ainda estando o granjeiro no cemitério, olhando distraído ao redor viu uma caveira.
Juntou-a e disse, pensativo:
- Gostaria de saber alguma coisa sobre ti...
E a caveira falou:
- Amanhã irei passar a noite contigo, se vieres passar outra noite comigo.
-Assim farei - disse o granjeiro.
No caminho de volta, encontrou um sacerdote e comentou o que tinha ocorrido. O sacerdote lhe disse que deveria ter sonhado, posto que as caveiras não falam.
O granjeiro lhe contou que na noite seguinte seria visitado pela caveira, e o sacerdote concordou em ir.
Assim, na noite seguinte, estavam o granjeiro e o sacerdote conversando quando, em seguida, chamaram à porta e apareceu a caveira. Ela subiu à mesa e comeu tudo que nela havia. Depois, saiu e desapareceu.
- Por que não falaste nada? inquiriu o granjeiro ao sacerdote.
-Por que TU não falaste?. respondeu o outro.
Na noite seguinte, como dia combinado com a caveira, o granjeiro foi até o cemitério e, não vendo nada, desceu os três degraus que estavam junto à Igreja.
De pronto se encontrou no meio de um campo, cheio de homens que lutavam entre si. Ao ver o granjeiro, perguntaram-lhe se procurava o crânio. Ao assentir, eles disseram:
- Acaba de ir para o campo ao lado.
No outro campo viu homens e mulheres que lutavam entre si. - Estás procurando um crânio? - perguntaram. Pois bem, acaba se ir ao campo do lado.
O granjeiro se foi ao campo do lado e viu uma grande casa. Ao entrar viu que era a habitação de uma dama e uma criada. A dama caminhava de um lado a outro da casa, e cada vez que chegava perto do fogo para se aquecer, a criada a empurrava. Também lhe perguntaram se buscava um crânio e que se era isso, que saira pela porta esquerda da casa e por ali saiu o granjeiro.
Ao entrar na casa contígua, encontrou a caveira e esta lhe perguntou se queria cear, com o que assentiu o granjeiro. A caveira o conduziu a cozinha onde estavam três mulheres. A caveira pediu a uma delas que servisse a ceia, e esta serviu pão preto e uma jarra d’água, o que ele não conseguiu comer. Em seguida pediu à segunda mulher que fizesse o mesmo, e ela serviu pior ao granjeiro do que a primeira. Por fim a caveira pediu à terceira mulher, e esta serviu uma deliciosa refeição, com uma profusão de pratos e excelentes vinhos.
Depois de comer, perguntou ao crânio o que tinha sido aquilo.
- Os homens que viste no primeiro campo se dedicavam a lutar entre si enquanto estavam vivos, porque tinham terras próximas e se acostumavam a mover as estacas e agora precisam lutar entre si para sempre. Os homens e mulheres que viste eram casais casados que viviam a brigar e agora devem seguir eternamente em brigas. A senhora que viste na casa e que a criada não deixava se aquecer fez o mesmo com a criada, que um dia chegou molhada e com frio, e agora a criada faz o mesmo com ela, até o dia do Juízo Final. As três mulheres na cozinha foram minhas três esposas. Quando pedia à primeira que me preparasse a ceia, me oferecia pão preto e água, a segunda ainda coisa pior mas a terceira me servia o banquete que ceaste.
A caveira então olhou lugubremente o lavrador e disse:
-E quanto a ti, foste trazido a este lugar por não querer ir ao funeral do teu filho, apesar de teres ido ao de um vizinho. Assim, sugiro que, se queres te salvar, vá onde enterraram teu filho e pede-lhe perdão e, caso o obtenhas, saiba que desde o dia que saíste de casa até chegar aqui se passaram 700 anos.
O lavrador ficou petrificado e, como despertando de um sonho, se viu caminhando pelos campos, por lugares que antes ele havia passado mas que haviam mudado de forma pelo tempo transcorrido. Ao fim chegou ao cemitério e conseguiu localizar a tumba do filho . Ali se ajoelhou e pediu perdão. O perdão a seu filho.
Por fim surgiu uma mão da tumba, que tomou a sua e ambos, pai e filho, subiram juntos ao céu.


Conto Celta