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25/10/2010

O cavaleiro desmantelado

Era uma vez, dois pequenos reinos separados por uma floresta e uma feroz inimizade.
Um ao norte e outro ao sul do Grande Bosque Sombrio, brigavam pelas riquezas que imaginavam ali existirem, como: ouro, prata e pedras preciosas.
Há cinco gerações se detestavam, desde quando o segundo rei de Cropas, do reino do norte, declarara para quem quisesse ouvir que a floresta e suas maravilhas lhe pertenciam por direito de sua vontade.
O soberano do sul, rei de Praus, dissera aos seus súbditos que, também por vontade , eram seus aqueles tesouros e, por causa de opiniões tão diferentes, em quase duzentos anos, não houve sossego nas duas terras.
Um dia, não se sabe como, espalhou-se nos reinos a notícia alarmante de que a guerra era eminente. O rei de Praus alisou seus bigodes retorcidos e mandou que suas tropas se preparassem. O rei de Cropas acariciou sua barbicha e deu uma ordem igual. Assim, ficou tudo pronto para a mudança. Entretanto, para sorte dos soldados que iriam tombar na luta , havia no reino de Cropas um sábio que teve uma visão e contou-a ao rei.
- Vi apenas dois homens se enfrentando no campo de batalha: um lutando por Cropas e o outro por Praus.
O rei de Cropas, louro de barbicha pensou e pensou nas palavras do sábio. Teve uma ideia: seu primo Rodolfo Coração de Bode, era um valente cavaleiro e, provavelmente, não havia em Praus alguém que se lhe comparasse. Era melhor arriscar o parente do que seus minguados batalhões. Mandou, então, três embaixadores ao outro lado proporem um duelo e deixarem escapar nas negociações que Rodolfo Coração de Bode tinha o peito e os braços fracos, estando já mais para lá do que para cá.
O rei de Praus ouviu a proposta com agrado, pois o exército do reino andava mal das pernas e de armas. Combater um cavaleiro moribundo era muito conveniente. Aceitou na hora. O confronto seria daqui a sete dias.
O rei de Cropas tinha Rodolfo, mas quem lutaria por Praus?
De pura sorte, ou talvez, por artes das fadas ou bruxas, apareceu no castelo de Praus, seis manhãs após a visita dos embaixadores, um cavaleiro andante embrulhado numa antiga armadura, completamente escondido dentro da lataria mal conservada. Vinha num cavalo de passo cansado. Desmontou com dificuldade e se apresentou:
- Sou o cavaleiro Desmantelado e peço pousada.
O rei de Praus não titubeou e deu a pousada, mas foi consultar o seu sábio.
- O que quer dizer Desmantelado?
O sábio examinou seus livros e disse:
- Quer dizer desconjuntado.
- Ah! Fez o rei. Ele me pareceu uma estranha figura. Um tanto amassado, mas nos servirá, já que o adversário não é bom de braços. Vou convidá-lo para a disputa , agora mesmo.
O rei encontrou o desconhecido tentando tirar seu elmo emperrado. Aceitou na hora o pedido do rei, mas fez um pedido também.
- Queria um pouco de cola e corda para remendar a sua armadura..
Naquela noite,os reinos de Praus e Cropas dormiram agitados pensando na disputa do dia seguinte.
Bem cedo , os reis buscaram bons lugares para apreciar a disputa. Na hora combinada, um clarim indicou que os dois competidores tomassem as posições.
Surgiu Rodolfo com um penacho vermelho, cor de Cropas, altivo e aprumado. O cavaleiro Desmantelado apareceu com sua armadura rangendo de tanta ferrugem e seu elmo emperrado.
Começa a luta e desmantelado balança perigosamente. Os dois se enfrentam e para surpresa geral, caem os dois. Esparramam-se no chão. Não conseguem levantar-se. De repente, Desmantelado grita implorando por água. Dêem-me água pois há dezoito horas não como nem bebo por causa do elmo emperrado.Rodolfo conhece a voz fanhosa do rapaz e descobre que é Privaldo, um jovem de Praus , que partira há muitos anos para correr mundo, era seu melhor amigo. Foram eles os únicos habitantes dos dois reinos que se encontraram durante os duzentos anos de ódios. Ele vai até o amigo destranca-lhe o elmo com um pedaço de sua lança e manda seu escudeiro dar água ao amigo. Desmantelado reconhece Rodolfo e se emociona. Eles tiram as armaduras e se abraçam e a multidão fica boquiaberta, porque eles revelam a verdade do Bosque Sombrio: nada de ouro, de prata , de pedras preciosas... apenas um pomar de maçãs.
Chamam o povo para colher maçãs e todos os seguem felizes.
Os reis percebem que não adiantava mais guerrear já que a única coisa que restava era também comerem maçãs.
Assim, acabou a briga entre os dois reinos e viveram felizes ...com sua maçãs!!!



25/09/2010

A Donzela que era mais sábia que o Czar


Era uma vez um homem pobre que tinha uma única filha.
Essa jovem era surpreendentemente sábia; parecia possuir uma compreensão muito acima do que seria de se esperar na sua idade e frequentemente dizia coisas que espantavam a seu próprio pai.
Um dia, quando estava sem um centavo, esse homem foi visitar o czar, para pedir sua ajuda.
O czar ficou atónito ao ver a forma refinada com que o homem falava, e perguntou-lhe onde havia aprendido aquelas frases.
— Com minha filha – respondeu o homem.
— Sim, mas onde sua filha aprendeu? – perguntou o czar.
— Deus e nossa pobreza a tornaram sábia – foi a resposta.
— Aqui está algum dinheiro para as suas necessidades imediatas – disse o czar, — e trinta ovos, para que você peça à sua filha, em meu nome, para que os ponha a chocar para mim. Se ela o fizer com êxito darei a vocês ricos presentes. Caso ela não o consiga, você será torturado.
O homem voltou para casa e deu os ovos para sua filha, que os examinou, pesando um ou dois em suas mãos, e assim ela se deu conta de que eram ovos cozidos. Disse ao seu pai:
— Pai, espere até amanhã. Talvez eu descubra o que se pode fazer.
No dia seguinte ela acordou bem cedo e, tendo pensado uma solução, ferveu algumas sementes. Colocou-as dentro de uma pequena bolsa e deu-a a seu pai, dizendo:
— Vá com o arado e os bois, pai, e comece a arar ao lado do caminho por onde o czar passa quando está indo à igreja. No momento em que o czar puser sua cabeça para fora da janela da carruagem você deve gritar: "Vamos, bravos bois, arem a terra para que essas sementes cozidas cresçam bastante!"
O pai fez o que sua filha havia dito, e conforme a previsão dela, o czar olhou o homem trabalhando pela janela da carruagem. Quando escutou o que ele gritava, disse:
— Homem estúpido, como você pode esperar que sementes cozidas produzam algo?
O homem, prevenido pela sua filha, gritou:
— Da mesma forma que ovos cozidos produzem pintos!
O czar então seguiu seu caminho, sabendo que a jovem havia sido mais esperta do que ele.
Porém as coisas não terminariam assim...
No dia seguinte o czar enviou fio de linho enrolado e embaraçado à casa do homem. O mensageiro disse:
— Este linho deve ser usado para fazer velas para o barco do meu senhor, e isto deve ser feito até amanhã. Caso contrário você será executado.
Chorando, o homem entrou em casa, mas sua filha lhe disse:
— Não tenha medo, pensarei em uma solução.
Na manhã seguinte ela se dirigiu a seu pai e entregou-lhe um pedaço de madeira, dizendo:
— Diga ao czar que se ele puder fazer todos os instrumentos necessários para fiar e tecer deste pedaço de madeira, eu farei o tecido para as velas com este linho.
O homem fez conforme a sua filha havia indicado, e o czar ficou ainda mais impressionado com a resposta da jovem. No entanto ele pôs uma pequena taça na mão do homem e disse:
— Vá, e leve esta taça para sua filha e peça-lhe para esvaziar o mar com ela, porque assim poderei aumentar meus domínios com novas pastagens.
O homem voltou para casa e deu a taça à filha, dizendo-lhe que o governante havia pedido novamente algo impossível de ser feito.
— Vá se deitar – disse ela. – Pensarei em algo, concentrando minha mente nisso toda a noite.
Ao amanhecer chamou o pai e disse:
— Diga ao czar que se ele puder represar todos os rios do mundo com este pedaço de estopa, então esvaziarei o mar para ele.
O pai voltou ao palácio e contou ao czar o que sua filha dissera. O czar reconhecendo que ela era mais sábia do que ele, pediu que ela fosse enviada à corte imediatamente. Quando ela se apresentou, ele lhe perguntou:
— O que é que pode ser ouvido a uma grande distância?
Sem vacilar, ela respondeu imediatamente:
— Somente o trovão e a mentira podem ser ouvidos desde os pontos mais distantes, ó czar.
Atónito, o czar segurou sua própria barba, e virando-se para os cortesãos lhes perguntou:
— Quanto acham que vale a minha barba?
Todos começaram a calcular o que pensavam que a barba valia, dando-lhe preços cada vez mais altos para adular sua Majestade. Então o czar perguntou à donzela:
— E você, minha criança, quanto você acha que vale a minha barba?
Os cortesãos aguardavam atentos a resposta.
— A barba de Vossa Majestade vale três chuvas de verão.
O czar muito surpreendido, disse:
Você respondeu correctamente. Eu me casarei com você e farei de você minha esposa hoje mesmo.
E assim a jovem se tornou a czarina. Mas assim que as bodas terminaram ela disse ao czar:
— Tenho um pedido a fazer. Conceda-me a graça, escrita com letra de sua própria mão, de que se você ou qualquer um da sua corte desgostar-se comigo, e eu tiver que partir, me será permitido levar comigo aquilo de que eu mais gostar.
Encantado com a bela donzela, o czar pediu uma pena e um pergaminho e imediatamente escreveu, selando o documento com o seu anel de rubi, tal como ela havia solicitado.
Os anos se passaram com muita felicidade para ambos. Um dia, porém, o czar teve uma acalorada discussão com a czarina e, irritado, ordenou:
— Vá embora! Desejo que deixe este palácio para nunca mais voltar.
— Então irei embora amanhã – disse a jovem czarina, obedientemente. – Permita-me somente passar a noite aqui para preparar meu regresso a casa.
O czar concordou e, antes de deitar-se, tomou a bebida de ervas que ela sempre preparava para ele. Assim que a bebeu o czar caiu adormecido. A czarina levou-o para a carruagem real, e partiram para a cabana de seu pai.
Quando amanheceu o czar, que havia dormido tranquilamente a noite inteira, despertou olhando desconcertado ao seu redor.
— Traição! – gritou. – Onde estou e de quem sou prisioneiro?
— Meu, Vossa Majestade – respondeu a czarina docemente. – O documento escrito por sua própria mão está aqui.
E lhe mostrou o pergaminho onde ele havia escrito que se ela tivesse que sair do palácio poderia levar aquilo de que mais gostasse.
Quando o leu, o czar riu de coração, e declarou que seu afecto por ela ainda era o mesmo.
Ao que ela respondeu:
— Meu grande amor por você, ó czar, me fez assim tão audaciosa. Mas, se arrisquei a minha vida, isso demonstra o quanto amo você.
E foi assim como eles se uniram novamente e viveram felizes para o resto de suas vidas.



24/09/2010

As plantas mágicas



Um velho lavrador possuía três filhos. Um deles plantou uma laranjeira, outro uma limeira e outro um limoeiro.
Essas plantas lhes tinham sido oferecidas por uma fada e estavam ligadas às suas vidas.
Um belo dia, o filho mais velho disse ao lavrador: — Meu pai, já estou homem feito e quero sair pelo mundo paraganhar alguma coisa.
O pai achou que ainda era cedo para ele fazer isso.
Mas o rapaz tanto insistiu que o lavrador acabou cedendo.
Então disse:
— Pois bem, meu filho, pode ir. Mas o que você prefere: levar a minha bênção com pouco dinheiro ou minha maldição com muito dinheiro ?
O moço respondeu que preferia a maldição com muito dinheiro. Então, o pai o amaldiçoou e lhe deu uma bolsa cheia de moedas.
Antes de partir, o moço disse aos seus irmãos que, quando a sua laranjeira começasse a murchar, era sinal de que ele estava em dificuldades e precisava ser socorrido.
Seguiu viagem. Andou, andou e, finalmente, avistou uma fumaça ao longe. Para lá se encaminhou. Era um belo palácio. Sua dona, que era uma linda princesa, tratou-o com muita gentileza. Ofereceu-lhe jantar e, depois, convidou-o para dar um passeio na horta.
Ao atravessar um riacho, a princesa suspendeu o vestido, de modo a mostrar o seu bonito pé. Passearam na horta, onde só havia couves. De volta ao palácio, a princesa perguntou ao rapaz o que tinha visto de mais lindo na horta. Ele respondeu: — As couves.
A princesa não gostou da resposta e convidou o moço para jogar. Ganhou todo o seu dinheiro. Depois, chamou seus criados e disse-lhes que prendessem o rapaz e só lhe dessem couves para comer.
Quando isso aconteceu lá, na casa do pai do moço, a laranjeira começou a murchar. O irmão do meio, vendo aquilo, foi ao pai e disse: — Meu irmão está em dificuldades. Preciso ir socorrê-lo.
O pai custou muito a consentir, mas, afinal, cedeu. Então perguntou ao filho: — Que prefere: minha bênção com pouco dinheiro ou minha maldição com muito dinheiro ?
O rapaz preferiu a maldição com muito dinheiro. O pai, então, o amaldiçoou e lhe deu uma bolsa cheia de dinheiro. Antes de partir, o moço avisou o irmão mais novo que, se a sua limeira murchasse, era sinal de que ele se achava em dificuldades e precisava ser socorrido.
Em seguida, iniciou sua viagem. Caminhou, caminhou, até que viu, ao longe, uma fumaça. Aproximou-se e encontrou o palácio da finória princesa. Como seu irmão, foi muito bem recebido. Quando acabou de jantar, a princesa convidou-o para passear na horta. Ao atravessar o riacho, a princesa ergueu o vestido para mostrar o pé.
De regresso ao palácio, ela perguntou ao rapaz o que vira de mais bonito na horta. E o moço respondeu: — As couves. A princesa ficou desapontada e disse consigo:
— Este é como o outro. Convidou-o para jogar e ganhou-lhe todo o dinheiro. Depois, mandou prendê-lo e alimentá-lo somente com couves.
Na casa do pai do moço, a limeira começou a murchar. Então, o filho mais novo disse a seu pai: — Meus irmãos estão em dificuldades. Preciso socorrê-los. O lavrador respondeu: — Meu filho, já estou velho, e você é o meu único arrimo; por favor, não parta; tenho medo de não o tornar a ver.
Mas o rapaz tanto insistiu que o lavrador acabou cedendo.
— Que prefere você ,perguntou ao filho, minha benção com pouco dinheiro ou minha maldição com muito dinheiro ?
O rapaz quis a bênção com pouco dinheiro. Então, o lavrador abençoou-o e lhe deu algumas moedas de prata. Ele partiu, esperançoso de salvar os irmãos. No caminho, encontrou uma velhinha, que era Nossa Senhora disfarçada, que lhe perguntou:
— Para onde vai, meu filho?
— Vou ganhar a vida e procurar meus irmãos.
A velha deu-lhe uma toalha, dizendo: — Quando tiver fome, meu filho, pegue nesta toalha e diga: Põe a mesa, toalha! e uma mesa com comida, aparecerá. Deu-lhe também uma bolsa, dizendo: — Esta bolsa faz o mesmo que a toalha. E deu-lhe ainda uma viola, dizendo: Se perder a toalha e a bolsa, basta tocar nesta violinha e não sentirá fome.
O moço agradeceu à velhinha e continuou sua viagem. Depois de muito andar, chegou ao palácio da princesa astuta e bateu. Foi recebido com muita gentileza. Depois do jantar, houve o tal passeio pela horta, como havia acontecido com seus irmãos. De volta ao palácio, a princesa perguntou o que mais tinha ele apreciado na horta.
— O seu lindo pezinho, princesa! respondeu o rapaz. A moça gostou da resposta e disse consigo: — Este me serve. Depois, convidou o rapaz para jogar e ganhou todas as suas moedas de prata. E também o prendeu, assim como fizera com seus irmãos.
Na hora da comida dos presos, uma negra apareceu diante das grades da prisão com um prato de couves. O rapaz recusou, dizendo:
— Diga à sua senhora que não preciso disso. E, estendendo a sua toalha, fez surgir um jantar com as mais gostosas iguarias.
A prisão estava cheia de presos, todos famintos, de modo que a alegria foi geral. Todos comeram a fartar. E a negra que trouxera a comida, quase desmaiou de espanto. Foi correndo ao quarto da princesa e disse-lhe:
— Aquele moço que foi preso ontem tem uma toalha mágica, que faz aparecer um banquete a qualquer hora. A senhora é que devia ser a dona daquela toalha.
A princesa ficou desejosa de possuir a toalha e mandou a negra perguntar ao rapaz se queria vendê-la. Ele respondeu que teria muito gosto em dá-b de presente, com a condição de dormir uma noite à porta do quarto da princesa, do lado de fora.
A moça ficou indignada com a resposta, achou que era um desaforo, mas aconselhada pela negra, aceitou a proposta e ficou com a toalha.
No dia seguinte, quando a negra foi levar as couves aos presos, o rapaz recusou a comida e, abrindo a sua bolsa, fêz aparecer um jantar ainda melhor que o anterior. Todos os presos comeram a fartar.
A negra foi correndo ao quarto da princesa e disse-lhe: — Minha senhora, o moço tem uma bolsa melhor que a toalha. Aquilo é que é uma bolsa de princesa!
A princesa mandou propor a compra da bolsa, e o rapaz disse que dava a bolsa de presente, com a condição de dormir à porta do seu quarto, mas do lado de dentro.
A princesa ficou furiosa com a proposta. Mas a negra achou que ela devia aceitar, pois que dormiria na cama, e o rapaz no chão duro. O negócio foi feito, e o moço dormiu no quarto da princesa, do lado de dentro, junto da porta.
No dia seguinte, a negra foi novamente levar as couves aos presos. O rapaz não aceitou a comida e pegou na sua viola. Imediatamente, surgiu um banquete melhor do que o anterior. Todos os presos comeram e ficaram tão satisfeitos que começaram a dançar. Até a negra caiu no fandango.
A festa durou tanto tempo que a princesa mandou chamar a negra. Quando viu sua senhora, ela exclamou:
— O moço tem uma violinha formidável, minha senhora! E uma coisa maravilhosa! Aquilo é que é viola de princesa!
— Pois vá, depressa, saber se ele quer vender a tal viola. A negra foi procurar o rapaz.
— Ah! esta viola ? Só se a princesa se casar comigo!
A princesa ficou indignada, mas acabou aceitando a proposta. Casou-se com o rapaz. Seus irmãos e os outros presos foram soltos. Houve grandes festas que duraram dois meses. O moço mandou buscar seu velho pai, que ficou morando no palácio.

19/09/2010

O pássaro mavioso



Era uma vez um rei muito rico e poderoso que tinha um filho muito acanhado. O rapaz ficava envergonhado por qualquer motivo e, por isso, todo mundo o julgava um grande tolo. Resolveu, então, seu pai mandá-lo visitar outros países, na esperança de torná-lo mais desembaraçado. Deu-lhe bastante dinheiro e ordenou que fizesse uma longa viagem.
Depois de percorrer vários países, o príncipe chegou a uma cidade, onde se realizava o leilão de um pássaro. Havia muita gente interessada em comprá-lo e, por isso, as quantias oferecidas já eram muito grandes. O rapaz ficou curioso para saber o motivo pelo qual todo mundo desejava adquirir o pássaro. Foi, então, informado de que o mesmo tinha um canto tão belo e mavioso que fazia dormir a todos que o ouvissem. O príncipe ofereceu uma grande quantia e conseguiu comprar o maravilhoso pássaro.
Continuou sua viagem e, mais adiante, encontrou outra cidade, onde estava sendo vendido, também em leilão, um pequeno besouro. Ficou admirado ao verificar que muita gente queria adquirir o animalzinho. Soube que o besouro era mágico e capaz de fazer tudo o que lhe fosse ordenado, sem ser visto. Podia até arrombar uma porta. Como tivesse ainda muito dinheiro, não foi difícil ao príncipe comprar o besouro.
Prosseguiu o rapaz na sua viagem e, pouco tempo depois, qual não foi sua surpresa ao deparar, em outra cidade, com o leilão de um rato. Havia uma multidão querendo adquirir o animal. O príncipe foi informado de que esse rato era capaz de fazer tudo o que lhe fosse ordenado. Tinha dentes mágicos, de modo que podia roer um castelo inteiro em poucas horas. Diante disso, o rapaz comprou o rato e continuou sua jornada.
Depois de visitar muitos países, chegou o príncipe a uma cidade onde presenciou um estranho espectáculo. Diante de um palácio, em cuja porta se achava uma linda moça, uma enorme multidão fazia toda sorte de caretas. Procurou saber a razão daquela cena esquisita, e foi informado de que a moça era a filha única do rei daquele país. A princesa, desde que nascera, jamais havia sorrido. Por isso, seu pai oferecera sua mão em casamento àquele que a fizesse dar, pelo menos, um sorriso. Eis porque toda aquela gente estava diante do palácio fazendo caretas, na esperança de provocar riso na princesa.
Ouvindo isso, o rapaz, sem se importar com a multidão, aproximou-se do palácio, desceu do cavalo e dependurou a gaiola numa árvore que ali havia. Depois, sentou-se calmamente para descansar e ordenou:
— Mestre rato, vá buscar água para o cavalo e mestre besouro vá buscar capim.
Os dois bichinhos saíram logo para cumprir as ordens do seu dono. Quando a princesa viu o rato carregando água e o besouro trazendo capim, achou tanta graça que soltou uma gostosa gargalhada. Os que estavam diante do palácio ficaram muito alegres, cada qual pensando ter sido o autor do riso da princesa. O rei, cheio de satisfação, perguntou à filha quem lhe havia feito soltar aquela gargalhada. A princesa apontou com o dedo o rapaz que descansava à sombra da árvore. Imediatamente, o rei mandou chamar o moço à sua presença e comunicou-lhe que devia casar com a princesa.
O rapaz, que era muito acanhado e que não esperava pelo acontecimento, quase desmaiou de susto. Mas, como palavra de rei não volta atrás, teve de se casar com a princesa. Na noite do casamento, mostrou-se, porém, tão embaraçado que a princesa julgou que ele não gostasse dela. No dia seguinte, disse ao pai que se havia enganado, pois havia sido outro o autor da sua gargalhada. O casamento foi então anulado, realizando-se o enlace da princesa com o filho do rei de um país vizinho.
O rapaz ficou muito triste, mas resolveu lutar para reaver a princesa. Ao cair da noite, foi para debaixo da árvore e, na hora de os noivos se recolherem aos seus aposentos, ordenou ao pássaro:
— Canta, mavioso!
O pássaro começou a cantar e todo mundo, princesa, noivo, rei, guardas do palácio, convidados, caíram em sono profundo.
O jovem príncipe disse então:
— Agora, besouro, vá ao quarto dos noivos e desarrume tudo o que lá encontrar.
O besouro cumpriu a ordem e os aposentos dos noivos ficaram como se tivessem sofrido um terremoto. Os móveis foram quebrados, as roupas rasgadas, o tecto e o assoalho do quarto despedaçados. Quando a princesa acordou e viu a desordem, ficou desesperada. O rei ficou muito aborrecido com o caso e prometeu à filha mandar pôr tudo nos seus lugares.
Na noite seguinte, o pássaro cantou novamente e todos adormeceram. O rato foi então enviado para desarrumar o quarto dos noivos. Se o besouro fez bem, o rato ainda fez melhor. Um furacão não teria feito maior estrago nos aposentos da princesa. Quando esta acordou, não teve mais dúvidas. Admirou o poder do seu primeiro noivo e viu que estava apaixonada por ele. Mandou o segundo noivo embora e contou tudo ao pai. O rapaz foi então chamado às pressas e realizou-se, novamente, o seu casamento com a princesa. Daí por diante, ele perdeu o acanhamento e viveu feliz e contente ao lado da sua bela esposa.

06/09/2010

Moisés e as rãs

Parting the Waters Art Print

Era uma vez, nas margens do rio Nilo, no Egipto, uma casinha. Dentro dessa casinha estava um berço. E, nesse berço, um bebé, que ainda não falava e tinha uns olhos enormes e sorridentes. A mãe chamava-lhe Yocheved e amava-o muito. Alimentava-o, cuidava dele e levava-o a dar longos passeios quando fazia sol.
Naquele tempo, um rei malvado governava o Egipto. Era um Faraó. Tratava os Judeus com crueldade e fazia deles escravos. Um dia decretou:
— Cada primogénito judeu que nascer deve ser deitado ao rio.
O Faraó deu esta ordem porque era muito maldoso.
Quando Yocheved teve conhecimento deste decreto, olhou para o filho e disse para consigo: “Nunca o atirarei ao rio. Escondê-lo-ei onde não possam encontrá-lo.” E foi exactamente isso que fez, em segredo.
Depois de o ter feito, os soldados egípcios bateram à sua porta.
— Existem alguns bebés rapazes nesta casa? — perguntaram.
— Claro que não — respondeu Yocheved, toda a tremer.
Mesmo assim, os soldados revistaram a casa toda. Mas, como não encontraram nada, foram-se embora.
Os dias passaram e Yocheved manteve o filho escondido. Mas o menino não gostava de estar naquele canto escuro. Chorava continuamente, e ansiava pelo sol e pela luz. Então, Yocheved percebeu que não podia continuar a esconder o filho daquela maneira. Pegou num pequeno cesto, acolchoou-o para o tornar confortável, e pintou-o com alcatrão por fora. Pôs o bebé no cestinho e levou-o até junto do rio Nilo.
Esgueirou-se por entre os canaviais e colocou o bercinho na água, dizendo:

— Vai, meu barquinho,
Leva o meu filhinho,
Deixa esta arca vogar.
Que as tuas águas
Possam sobre ele
Olhar.

Beijou o bebé e deixou-o sozinho. Tinha os olhos rasos de lágrimas.
De repente, apareceu uma rã junto dela e começou a coaxar:
— O que se passa?
— Oh, rãzinha, estou muito preocupada. Não consigo esconder mais o meu filho do Faraó; por isso, tive de o pôr num bercinho e abandoná-lo à sua sorte. Flutuará rio abaixo e a sua vida será poupada… Mas tenho o coração pesado. Como posso voltar para casa sem o meu filho?
— Não te preocupes. Nós tomaremos conta do teu filho. Venham daí, meninas…
Subitamente, centenas de rãs surgiram aos saltos de todos os lados. Ficaram a olhar para o bebé, muito surpreendidas. Nunca tinham visto nada igual. Durante toda a noite, vigiaram o bercinho e embalaram a criança. Contudo, ao romper do dia, a criança começou a chorar. Tinha fome. As rãs deram-lhe lama para comer, mas a criança não comia lama. Deram-lhe pequenas moscas, mas ela recusou. Cada vez chorava mais.
De repente, ouviu-se um barulho de tambores e címbalos à distância. A filha do Faraó e as suas aias passeavam ao longo da margem do rio. Quando a princesa viu o cestinho a flutuar, rodeado de rãzinhas, perguntou-lhes:
— Porque fazeis tanto barulho?
As rãs contaram-lhe tudo. A filha do Faraó olhou para dentro do cesto e viu o bebé a chorar de fome. Pegou nele, levou-o para o palácio e chamou-lhe Moisés. “Moisés” significa “aquele que é salvo”, e ela tinha-o salvo das águas.
Moisés cresceu e tornou-se um belo rapaz. Vivia no palácio e a filha do Faraó era como uma mãe para ele.
Um dia, Moisés foi até aos campos. Viu como os Israelitas trabalhavam duramente e os Egípcios os castigavam. Ficou muito triste. Deixou o palácio e foi até junto do rio. Quando chegou junto da margem, ouviu uma voz a perguntar:
— Porque estás tão triste, Moisés?
Moisés falou às rãs dos fardos que os Israelitas tinham de suportar. Os bichinhos ouviram-no e coaxaram:
— Não te preocupes, havemos de te ajudar.
Nessa mesma noite, as rãs foram até terra firme aos milhares. Entraram no palácio real e foram até ao quarto do Faraó. Saltaram para a cama deste e meteram-se debaixo da cama. Puseram-se em cima da mesa e debaixo da mesa. O Faraó queria deitar-se, porque estava cansado. De repente, deu-se conta de que as rãs tinham invadido o seu leito. Deu um salto e começou a vestir-se à pressa. As suas mangas estavam cheias de rãs! Tentou beber um copo de água, mas dentro do próprio copo estava uma rã bem verde e gordinha. Estavam por todo lado, em todos os cantos e esquinas do palácio. O Faraó pôs-se a gritar:
— Quem se atreveu a trazer estas pestes para dentro do palácio?
Moisés entrou no quarto e respondeu:
— Se deixares o meu povo partir, livrar-te-ei destas rãs…
— Deixo-os ir, vão, vão! — gritou o rei.
Então Moisés ergueu o bordão e ordenou:
— Rãs, regressai ao rio!
As rãs saltaram de novo para a água.
Mas o Faraó não cumpriu a sua promessa e não deixou os Israelitas partir. Então, Moisés mandou mais pragas sobre o Egipto. Só depois da décima praga, puderam os Israelitas partir.


Conto de Israel

Levin Kipnis
Let us play in Israel
Tel-Aviv, N. Tversky Publishing House, 1966
tradução e adaptação

05/09/2010

O Filho do Rei

Uma vez, num país onde todos os homens eram como reis, vivia certa família, plenamente feliz, em meio a um ambiente de tais características que a linguagem humana não conseguiria descrever em termos de coisa alguma conhecida actualmente pelo homem. Este país de Sharq parecia satisfatório aos olhos do jovem príncipe Dhat, isto até o dia em que seus pais lhe disseram:
— Querido filho, é costuma obrigatório em nosso país que cada príncipe da casa real, ao atingir certa idade, viaje a fim de se submeter a uma prova. Isto é feito com o objectivo de prepará-lo devidamente para reinar, e para que obtenha em reputação e na realidade, por meio de seu empenho e espírito de alerta, um grau de nobreza que não se obtém de nenhum outro modo. Assim tem sido determinado desde o princípio, e assim será feito até o fim.
Desse modo, o príncipe Dhat se preparou para a sua viagem, munido do que sua família podia proporcionar-lhe para seu sustento: uma comida especial que o alimentaria durante seu exílio, de pequeno volume mas de inapreciável valor nutritivo.
Também lhe deram certos outros recursos, que não é possível mencionar aqui, que usados devidamente o protegeriam.
Devia viajar a um certo país, chamado Misr, e teria que ir disfarçado. Foi assim que lhe escolheram guias para a viagem, e trajes adequados à sua nova condição. Roupas que guardavam pouca semelhança com a usada por alguém de sangue real.
Sua missão seria resgatar certa jóia, guardada em Misr por um terrível monstro.
Quando seus guias partiram de volta, Dhat se viu só, mas logo se encontrou com alguém que ali se achava cumprindo uma missão similar. E, juntos, puderam manter viva a lembrança de suas origens nobres. Mas, devido ao ar e à comida daquele país, uma espécie de sono logo os envolveu. E Dhat se esqueceu de sua missão.
Durante anos viveu em Misr, ganhando a vida no desempenho de uma função humilde, aparentemente alheio ao que deveria estar fazendo.
Graças a um recurso que lhes era familiar, mas desconhecido para outras pessoas, os habitantes de Sharq vieram a conhecer a lamentável situação de Dhat, e juntos agiram, de um modo por eles conhecido, para ajudar a libertá-lo daquele encantamento e permitir-lhe prosseguir com sua missão. Por meio de um estranho expediente uma mensagem foi enviada ao jovem príncipe, dizendo: "Desperte, pois é filho de um rei, enviado em uma missão especial, e deve retornar a nós."
Essa mensagem despertou o príncipe, que conseguiu localizar o monstro, e graças ao emprego de sons especiais o fez adormecer, recolhendo então a jóia inestimável que ele guardava.
Então Dhat obedeceu aos sons da mensagem que o tinha despertado. Trocou suas roupas pelas de seu país e sempre guiado pelo Som voltou ao pais de Sharq.
Num tempo surpreendentemente curto, Dhat viu-se de novo contemplando suas antigas vestimentas, e o país de seus antepassados, e chegou ao seu lar.
Desta vez, no entanto, graças à experiência adquirida, pôde ver que se tratava de um lugar mais esplêndido que nunca, um lugar seguro para ele. E percebeu que era aquele o lugar relembrado vagamente pela gente de Misr como Salamat: palavra que para eles significava Submissão, mas que, agora podia compreender bem, significava paz.

01/09/2010

A esposa guerreira


Em uma tribo, havia muito tempo, viviam uma mulher e seu marido. O pai da mulher era o chefe, e seu marido era um guerreiro chamado Falcão Azul.
Um dia, Falcão Azul partiu numa expedição de guerra com seu melhor amigo, Falcão Vermelho. Quando estavam a caminho, Falcão Vermelho disse: – Você está deixando sua mulher sozinha. Aposto como ela vai dormir com outro homem hoje à noite.
Falcão Azul balançou a cabeça, e disse: – Minha esposa é fiel a mim e eu confio nela.
Falcão Vermelho, que não era casado, riu e disse: – Aposto como posso voltar e dormir com sua mulher hoje à noite.
Falcão Azul ficou indignado: – Você está enganado.
Falcão Vermelho disse: – Aposto tudo o que eu tenho como consigo dormir com sua esposa hoje à noite.
Relutando Falcão Azul concordou com a aposta, e os dois empenharam seus cavalos, armas e roupas, além de todas as suas posses, nesta aposta.
Falcão Vermelho voltou e rodeou a esposa de Falcão Azul o dia inteiro, sorrindo para ela, mas ela o ignorou. Ele pensou: – Ela é mesmo fiel a Falcão Azul. Desesperado porque ia perder a aposta, foi procurar ajuda de uma mulher mais velha e explicou-lhe a aposta e prometeu pagar lhe generosamente por sua ajuda. Você, disse à velha, só precisa descobrir como é a esposa de Falcâo Azul sem roupas. Se eu ficar sabendo a aparência dela poderei dizer que dormi com ela.A mulher concordou e foi até a tenda da esposa de Falcão Azul. Aproximou-se com cara de cansada e abatida e falou se a moça poderia ajudá-la. A moça ficou com pena da velha e lhe disse para entrar e descansar.
Obrigada, disse a velha. Estou longe de casa e não tenho aonde passar esta noite. A moça logo lhe disse que poderia passar a noite com ela.
Quando veio a noite, ela ofereceu à velha peles macias e cobertas. A velha fingiu que dormia, mas ficou olhando com atenção quando a esposa se despiu para dormir. Ela escovou um tufo de cabelos dourados que crescia em seu abdomen, trançou-os e enrolou em torno da cintura por cinco vezes. A velha viu também que ela tinha uma marca de nascença nas costas.
Na manhã seguinte, a velha agradeceu e depois correu até onde estava Falcão Vermelho para lhe contar o que tinha visto. Este riu deliciado e cavalgou até onde se encontrava Falcão Azul e disse: – Ganhei a aposta! Na noite passada dormi com sua esposa.
Falcão Azul recusou-se a acreditar, mas Falcão Vermelho descreveu a trança de cabelos dourados e a marca de nascença e ele não pode mais duvidar.
Agora, disse Falcão Vermelho, você tem que me dar o que prometeu. O outro não disse nenhuma palavra, deu-lhe tudo o que possuia.
A esposa não entendia o que se passava e perguntou lhe o que estava fazendo. Ele ficou em silêncio, saiu da tenda, e com peles de animais fez um baú onde colocou utensílios, dinheiro e alimentos. Depois disse à mulher que iria fazer uma viagem pelo rio e queria que ela viesse com ele. Ele lhe pediu que vestisse o que tinha de mais belo e depois entrasse no baú. Quando ela fez o que ele pedira, ele amarrou o grande pacote, encaminhou-se para o rio e jogou-o na água.
Depois, voltou sozinho para a aldeia, e quando os vizinhos perguntaram onde estava sua esposa ele recusou-se a responder. Após alguns dias, o chefe ficou preocupado com a filha e perguntou a Falcão Azul onde ela estava. Como este continuasse calado, o chefe ordenou que um buraco fosse cavado até o inferno e jogou Falcão Azul nele.
Enquanto isso, a esposa flutuava rio abaixo dentro do baú. Um homem que estava pescando viu aquele grande embrulho, puxou-o para a margem e o desamarrou, descobrindo assim,a esposa que saiu apavorada. Ela pediu ao homem que trocassem de roupa, e ele concordou, assim ela ficou vestida de homem e então, dirigiu-se a uma aldeia das redondezas.
Uma expedição de guerra estava se preparando para partir, e a moça uniu-se ao grupo. Os jovens guerreiros comentavam entre eles de como o desconhecido tinha rosto de mulher. Um deles resolveu fazer amizade com ela para tirar a dúvida e descobrir mesmo se ela era mulher.
Naquela noite, quando o grupo acampou, ela armou sua tenda longe dos outros. Disse que era Xamã e explicou que era preciso proteger o seu poder para o ataque que viria. Mostrou aos homens a pedra sagrada de águia branca e disse que sua cura vinha do sol. Quando todos se recolheram para dormir, um guerreiro veio até ela e pediu-lhe licença para dormir na sua tenda. Ela recusou, mas ele tanto insistiu que ela deixou e, assim deitaram em lados opostos da tenda.
No meio da noite, o jovem chegou até ela e quis tocá-la, mas ela estava de guarda . O que está fazendo?, ela perguntou e ele desistiu.
Na noite seguinte, outro jovem pediu para dormir na sua tenda e também tentou tocá-la, mas ela estava acordada e frustou a tentativa do rapaz.Na última noite , a expedição aproximou-se do território inimigo, e eles instalaram suas tendas. Ela disse aos homens que permanecessem dentro das tendas, enquanto ela usava seu poder de cura. Ela pegou um pacote de feitiçaria e fez o feitiço, e, instantaneamente, todos os guerreiros inimigos morreram. Ela deu um grito de guerra e acordou a todos que saíram atordoados de suas tendas, pensando que estavam sofrendo um ataque.
Matei o inimigo, ela declarou. Vou sair agora para tomar seus escalpos e armas. Saltou no lombo do seu cavalo, foi até o acampamento do inimigo e voltou com seus troféus. Os homens ficaram estupefactos. Pensaram que ela só podia ser um homem para agir assim matando os inimigos sozinha. O grupo retornou para sua aldeia e os jovens cantaram em homenagem ao valor da guerreira . O chefe da tribo quis oferecer-lhe uma festa, mas ela não aceitou.
- Estou voltando para minha tribo e desejo chegar depressa. O chefe ofereceu escolta, mas ela só pediu um cavalo e ele deu-lhe o melhor que havia. Ela começou a viagem de regresso e, a caminho de casa, ainda disfarçada de homem, encontrou-se com um grupo de sua própria tribo. Quais são as novidades, ela perguntou. Eles lhe contaram a história de Falcão Vermelho com Falcão Azul, e acrescentaram que Falcão Vermelho tinha visto os cabelos dourados no seu ventre e a marca de nascença dela.Disseram que Falcão Azul tinha matado a esposa infiel e que o pai dela, o chefe jogara Falcão Azul num buraco. Ela entendeu tudo.
Ela voltou à aldeia e mostrou todos os escalpos e as armas que conquistara. Então despiu suas roupas de guerra e revelou-se a todos. Contou que Falcão Azul a trancara num baú e jogado rio abaixo, porque pensava que ela havia sido infiel, mas ele foi enganado , ela declarou.
Explicou que Falcão Vermelho e a velha deviam ter sido cúmplices na trama contra ela, então ordenou que Falcão Azul fosse libertado do poço. Ele estava pálido e muito magro, mas quando viu a esposa correu para os seus braços.
Ela dirigiu-se aos membros de sua tribo, e disse: – Agora devemos punir Falcão Vermelho e a velha. Pediu que eles fossem trazidos à sua presença e, para puni-los colocou-os amarrados na carruagem com cavalos selvagens para que fossem arrastados até morrer.
Toda a tribo fez uma festa para celebrar o retorno da valente esposa de Falcão Azul e, daí em diante eles viveram muito felizes.


30/08/2010

Vassilissa, a formosa



Há muito, muito tempo, num certo reino distante, vivia um rico mercador, com sua mulher e uma única filha. A menina chamava-se Vassilissa, e era bonita e meiga como uma flor. Mas um dia quando Vassilissa tinha apenas 8 anos, sua mãe ficou muito doente, e, sentindo que ia morrer, chamou a filha, tirou de sob as cobertas uma pequena boneca e lhe entregou dizendo:
- Escuta, Vassilissa, minha filha, as minhas últimas palavras. Ao morrer deixo-te a minha bênção e esta bonequinha, que deverás trazer sempre contigo. Não a mostres a ninguém, e quando te acontecer algum desgosto, dá-lhe de comer e beber, e pede-lhe conselhos. Depois de alimentada, ela te dirá o que fazer para te ajudar na desgraça.
Algum tempo depois da morte da mãe, seu pai casou-se de novo, com uma viúva que tinha duas filhas, pouco mais velhas do que Vassilissa, pensando que isso seria bom para sua filhinha órfã de mãe. Mas enganou-se, porque a madrasta não gostava da enteada. Ela e as filhas invejavam a sua beleza, e atormentavam-na com toda sorte de trabalhos e encargos pesados, para que ela ficasse magra e feia.
Vassilissa suportava tudo pacientemente e, apesar da vida dura que levava, ficava cada vez mais bonita, passou a ser chamada de Vassilissa, a formosa, enquanto a madrasta e sua filhas iam ficando cada vez mais feias e secas, de tanta ruindade, mesmo passando o tempo todo comendo, sem fazer nada.
Como isso era possível? É que a bonequinha que a mãe lhe dera ajudava a menina, que muitas vezes deixava de comer só para com sua porção alimentar a boneca, sempre à noite, depois que todos se deitavam. Ela lhe dava de comer dizendo: Come, boneca-beleza, e ouve minha tristeza! E lhe contava os seus problemas. A boneca escutava, dava-lhe conselhos e a mandava dormir. E pela manhã todo o trabalho já aparecia feito, enquanto a menina descansava na sombra e colhia flores. Assim ela ia vivendo.
Passaram alguns anos, e as meninas chegaram à idade de ficar noivas. Mas todos os pretendentes que apareciam, e não eram poucos, só tinham olhos para Vassilissa, cada vez mais formosa. E nem olhavam para as filhas da madrasta. Esta ficava furiosa, e só respondia a todos os pretendentes que não concederia a mão da mais nova antes que as duas mais velhas se casassem. E depois de despachar o pretendente, ela descontava sua raiva maltratando Vassilissa. Um dia, o pai de Vassilissa, teve de partir para uma longa viagem de negócios, e foi então que a madrasta se aproveitou da sua ausência para se vingar da enteada. Mudou-se logo para outra casa, que ficava à beira da floresta, onde, todos sabiam, vivia a malvada bruxa Baba-Iága, que não deixava ninguém se aproximar dela. Quem se aproximasse, ela devorava como se fosse um frango. Então a madrasta começou a mandar Vassilissa para a floresta toda hora, buscar uma coisa ou outra, esperando que a menina caísse nas garras da bruxa perversa.
Mas Vassilissa voltava sempre, incólume, porque a bonequinha lhe indicava o caminho certo, e não deixava aproximar-se da cabana da Baba-Iága.
Não sabendo mais o que inventar, certo dia, ao anoitecer, a madrasta apagou as velas da casa, só para mandar Vassilissa buscar fogo. E quem tinha fogo sempre, todos sabiam, era só a Baba-Iága.
- Vai procurar a Baba-Iága e não te atrevas a voltar sem o fogo!
- Eu vou e vou levar o meu jantar. Pegou a trouxinha com sua escassa comida, e logo as três a empurraram para fora da casa, para o escuro da noite.
Assim que se afastou da casa, a menina sentou-se num tronco caído e começou a alimentar a sua bonequinha.
Come, boneca-beleza, e ouve a minha tristeza! Estão me mandando para a Baba-Iága, buscar fogo! A bruxa vai me devorar!
A bonequinha comeu e seus olhos brilharam:
- Não tenhas medo, Vassilissa. Vai para onde te mandaram, mas não te separes de mim. Contigo, nenhum mal acontecerá.
Vassilissa pôs a bonequinha no bolso do avental, fez o sinal da cruz e entrou na floresta, trémula. Andou um pouco, e, de repente, viu, passando a galope na sua frente, um cavaleiro todo branco, vestido de branco, sobre um corcel branco. E começou a amanhecer.
Andou mais um pouco, e viu outro cavaleiro, todo vermelho, vestido de vermelho, sobre um corcel vermelho. E começou a nascer o sol.
Vassilissa, andou e andou, e, só ao entardecer do dia seguinte, chegou à clareira onde ficava a cabana da Baba-Iága. A cerca em volta da casa era toda feita de ossos humanos, encabeçados por crânios espetados neles, com olhos humanos nas órbitas. O trinco do portão era uma boca humana cheia de dentes aguçados. E a casinha era construída sobre grandes pés de galinha.
Vassilissa parou, petrificada de susto. Nisso pasou galopando outro cavaleiro, todo negro, vestido de negro, sobre um corcel negro. E fez-se noite.
Mas a escuridão durou pouco, pois os olhos de todas as caveiras da cerca se acenderam como brasas vivas, e ficou claro como o dia.
Vassilissa, morta de medo, não sabia o que fazer e ficou parada no lugar, como enraizada. Nisso, ouviu, vindo da floresta, um grande barulho. Era a Baba-Iága, acocorada no seu pilão, apagando os rastros com a vassoura, desgrenhada e feia de meter medo!
Unf, unf!!! Sinto cheiro de carne humana! Quem está aqui?
Vassilissa, trémula, aproximou-se da bruxa e disse:
Sou eu vovozinha! Sou Vassilissa, a madrasta e suas filhas me mandaram aqui para te pedir fogo.
Está bem, disse a bruxa. Eu as conheço. Mas tu, Vassilissa, antes terás de ficar morando e trabalhando um tempo aqui comigo, então te darei fogo. Senão eu te devoro!
Durante o dia inteiro, a bruxa deu tarefas, muito pesadas, para a menina cumprir, e para servi-la desde a manhã até a noite. Era varrer e lavar, cozinhar e cuidar da horta, limpar o quintal, lavar e passar roupa, trazer bebidas do porão, tudo isso Vassilissa tinha que fazer… E só conseguia dar conta do serviço graças à ajuda da bonequinha, que trazia sempre no bolso do avental e não mostrava à bruxa.
No dia seguinte, a bruxa acordou de madrugada, olhou em volta, viu que todo o serviço estava feito, e ficou aborrecida por não ter do que reclamar. Espiou pela janela, lá fora passou galopando o cavaleiro branco, e a manhã clareou. A bruxa saiu da casa , assobiou, e o seu pilão apresentou-se à sua frente, com a mão e a vassoura. Passou galopando o cavaleiro vermelho, e surgiu o sol. A Baba-Iága embarcou no pilão e saiu voando baixo, deixando Vassilissa sozinha em casa. A bonequinha fez todo o serviço pesado, e só deixou a menina arrumar a mesa e aguardar a bruxa.
Quando saiu de casa a bruxa mandou que a menina separasse os grãos bons dos carunchados. Tudo deveria estar pronto quando ela voltasse para casa, caso contrário ela comeria.
A menina pediu ajuda à sua boneca e esta lhe disse que não tivesse medo, que comesse, fizesse suas orações e dormisse, pois a noite é boa conselheira.
Na manhã seguinte quando acordou, a menina olhou pela janela e viu que os olhos das caveiras já estavam se fechando. O cavaleiro branco passou e nasceu o dia. A bruxa saiu e a menina ficou sozinha em casa admirando seus móveis e objectos. Quando começou a pensar na tarefa dos grãos a sua boneca já tinha resolvido tudo. Quando a bruxa chegou e viu tudo resolvido, ficou furiosa pois não sabia como colocar defeito. A bruxa então, gritou: Meus fiéis servos, moam os grãos para mim. Surgiram três pares de mãos de esqueletos e levaram os grãos.
A bruxa deu a ordem para o dia seguinte, dizendo que a menina deveria repetir a tarefa do dia anterior e , além disso, separar as sementes de papoula. Quando retornou à noite ficou muito brava, mas chamou as mãos dos esqueletos e mandou que extraíssem o óleo das sementes de papoula.
Enquanto a Baba-Iága jantava, Vassilissa ficou por perto , silenciosa. A bruxa perguntou: por que você está olhando sem dizer nada? Você é muda?
A menina respondeu: se pudesse, gostaria de lhe fazer umas perguntas.
Pergunte, disse a bruxa, mas lembre-se, nem todas as perguntas são boas. Saber demais envelhece.!
Vassilissa então perguntou: gostaria de saber quem é o homem que vi no caminho todo de branco. Quem é ele?
Esse é o meu dia luminoso, disse a bruxa.
Mas passou também um homem todo vestido de vermelho.
É o meu sol vermelho, disse a bruxa.
Mas quando cheguei no portão o homem que passou estava todo de negro.
Essa é a minha noite, o escuro!
A menina pensou nos três pares de mãos de esqueletos, mas não fez mais perguntas, ficou quieta.
Baba-Iága disse: por que não faz mais perguntas?
A menina respondeu que essas eram suficientes, acrescentando: você mesma disse, vovó, que perguntar demais envelhece.
A bruxa replicou: Você fez bem em perguntar só a respeito do que viu lá fora e não do que viu aqui dentro de casa. Não gosto quando a sujeira é levada para fora. Mas agora eu quero perguntar uma coisa para você: Como conseguiu fazer todas as tarefas que lhe dei?
A menina respondeu: A benção de minha mãe me ajudou, respondeu a menina. (não falou da boneca).
Ah!!! Então foi isso? Dê o fora daqui , filha abençoada, eu não preciso de nenhuma benção em minha casa.
Assim, Baba-Iága pôs a menina para fora de sua casa, empurrando-a pelo portão. Mas, tirou da cerca, uma das caveiras com seus olhos flamejantes, colocou-a num pau e deu para a menina dizendo: Aqui está o fogo para suas irmãs e sua madrasta, pegue-o e leve-o para casa.
A menina saiu correndo da casa da bruxa e entrou na floresta somente com a luz da caveira, mas esta extingüiu-se assim que o dia clareou. Ela só chegou em casa na noite seguinte depois de muito caminhar, mas quando chegou perto do portão, pensou em jogar fora a caveira, mas uma voz lhe falou: Não faça isso, leve-me até sua madrasta.
Assim fez a menina. Quando entrou com o fogo que se acendera sozinho, os olhos da caveira se fixaram na madrasta e em sua filhas queimando suas almas e perseguindo-as aonde fossem se esconder. Ao amanhecer as três tinham virado cinzas. Só Vassilissa escapou.
A menina enterrou a caveira, fechou a casa e foi para a cidade.
Caminhou bastante e chegando à feira, encontrou uma boa velhinha que estava fiando tecido para a roupa do rei. Ela pediu que lhe ensinasse e a boa velhinha assim o fez. A cada dia a menina fiava melhor e um dia o rei foi até o mercado saber quem estava tecendo aqueles lindos tecidos e conheceu-a.
O rei pediu que ela fosse morar no seu castelo, pois logo apaixonou-se pela bela moça. Ela aceitou, mas com a condição de levar a pobre velha. O rei aceitou.
Os dois casaram e estavam muito felizes, quando o pai da Vassilissa voltou da viagem e estava procurando-a por toda parte até que soube onde ela estava e foi visitá-la. O rei convidou-o a morar com eles e assim, o pai voltou a viver com a filha verdadeira e tão querida!

Conto russo

25/08/2010

Como o mal gera o mal



Um eremita caminhava por um lugar deserto quando chegou a uma gruta enorme cuja entrada não era facilmente visível. Decidiu descansar dentro dela, e entrou. Logo notou o brilhante reflexo da luz sobre um monte de ouro.
Assim que tomou consciência do que tinha visto, o eremita começou a correr, fugindo o mais depressa que pôde.
Havia três ladrões que passavam muito tempo naquele ponto do deserto com a intenção de roubar viajantes. Pouco depois, o homem piedoso passou por eles. Os ladrões se surpreenderam, alarmaram-se até, vendo o homem correndo sem que ninguém o perseguisse. Saíram do seu esconderijo e o detiveram, perguntando-lhe o que estava acontecendo.
— Estou fugindo, irmãos — disse. – A morte está me perseguindo.
Os bandidos não conseguiram ver ninguém perseguindo o devoto.
— Mostra-nos quem está atrás de ti — disseram.
— Eu o farei — falou o eremita, com medo deles.
Levou-os em direção à gruta, rogando-lhes que não se aproximassem dela. Os ladrões ficaram curiosos com a advertência e insistiram em ver o motivo de tanto alarme.
— Aqui está a morte que me perseguia — disse o ermitão.
Os malfeitores, é claro, ficaram encantados. Evidentemente consideraram o eremita meio louco e o deixaram ir, enquanto se felicitavam por sua boa sorte.
Em seguida começaram a discutir sobre o que deveriam fazer com a presa, pois tinham receio de deixar o tesouro novamente só. Decidiram, por fim, que um deles apanharia um pouco do ouro e iria à cidade, onde o trocaria por comida e outras coisas necessárias. Depois procederiam à divisão.
Um dos ladrões se apresentou voluntariamente para realizar a missão. Pensou consigo mesmo: "Quando chegar à cidade poderia comer tudo o que quiser. Depois envenenarei o resto da comida. Assim os outros dois morrem e o tesouro será só meu".
Na sua ausência, porém, os outros dois também tinham estado pensando.
Tinham decidido que, mal o espertalhão regressasse, o matariam. Depois comeriam sua comida e dividiriam o tesouro em duas partes, em vez de três.
No momento em que o pilantra chegou à gruta com as provisões, os outros dois caíram sobre ele a punhaladas e o mataram. A seguir, comeram toda a comida, e morreram por causa do veneno que seu companheiro havia posto nela.
Dessa maneira, o ouro realmente tinha significado a morte — como o eremita predissera — para os que se tinham deixado influenciar por ele, e o tesouro permaneceu onde estava, na gruta, por muito tempo.

24/08/2010

As túnicas de urtiga




Numa terra muito distante, havia um rei bondoso e sábio, que tinha uma linda filha, chamada Lúcia e onze filhos, todos belos e inteligentes. O soberano, que já estava velho e cansado, amava ternamente sua esposa e seus filhos.
Infelizmente, a rainha morreu, e o rei, sentindo-se triste e solitário, resolveu casar-se com a viúva de seu primo, que tinha sido o soberano de um país vizinho.
A felicidade, que até então reinava no palácio, desapareceu. A nova rainha, que era uma feiticeira perversa, conseguiu dominar o velho rei. A primeira coisa que ela fez foi afastar Lúcia do palácio, mandando-a para a casa de uns lenhadores, que moravam numa floresta longínqua.
Quanto aos onze príncipes, tantas mentiras a bruxa pregou a seu respeito, que o rei acabou não os querendo mais ver. Então, a feiticeira resolveu encantar os meninos. Depois de fazer uma porção de gestos mágicos, disse para os príncipes:
Voai, ligeiros, longe de nós, Jazei-vos aves, aves sem voz!
Os meninos transformaram-se em cisnes brancos e saíram voando pelo céu afora. Eles deviam seguir para um lugar determinado pela bruxa. Durante a viagem, procuraram passar sobre a casinha da floresta, onde estava a irmãzinha. Mas já anoitecia. Por isso, embora tivessem batido as asas com força, não conseguiram acordá-la.
Quando Lúcia completou quinze anos, teve permissão para ir ao palácio. Assim que a rainha a viu, ficou louca de inveja e de raiva. A menina era de uma beleza deslumbrante. A bruxa quis transformá-la logo em cisne, e só não o fez porque o rei desejava vê-la. Resolveu esperar uma ocasião mais oportuna para lhe fazer mal.
Lúcia costumava nadar no lago que havia junto ao palácio. Um dia, antes de chegar a moça ao lago, para lá se dirigiu a rainha, levando consigo três sapos horríveis.
À margem do lago, atirou o primeiro sapo na água, dizendo:
Quando Lúcia estiver nadando, salta na sua cabeça, para fazê-la tão estúpida como tu! Quando atirou o segundo, berrou:
Salta no rosto de Lúcia, para fazê-la tão feia como tu!
E, quando atirou o terceiro, rosnou:
— Fica perto do coração de Lúcia, para que se torne perversa e má!
Os sapos fizeram tudo o que a rainha ordenou. Quando a moça saiu do lago, mais parecia um bicho que um ser humano. Ao vê-la, o rei ficou horrorizado. E mandou que ela voltasse para a floresta.
É bom lembrar que Lúcia ficou muito feia, mas não se tornou má. O sapo não conseguiu modificar seu coração bondoso. Tendo sido desprezada por seu pai, a jovem resolveu sair à procura dos seus queridos irmãos.
Viajou dias e dias, atravessando montes, vales e cidades. Durante a viagem, encontrou, numa floresta, uma velha faminta que lhe pediu um pedaço de pão. Lúcia deu-lhe, com prazer, e ainda foi apanhar, no riacho, um pouco d'água para matar a sede da velhinha.
Esta, que era Nossa Senhora disfarçada, mandou que Lúcia comesse uma frutinha silvestre que crescia à beira do riacho. A moça obedeceu e, no mesmo instante, desencantou-se, voltando à sua beleza natural.
Lúcia continuou a viagem. No meio do caminho, encontrou um velhinho a quem deu o seu último pedaço de pão. Perguntou-lhe, então, se tinha visto onze príncipes tão belos como o sol. O velho respondeu:
— Que coincidência! Não vi os onze príncipes. Mas vi onze cisnes belíssimos, cada qual com uma coroa na cabeça!
E mostrou o lugar onde vira as lindas aves. A princesa seguiu para lá, sentou-se e ficou esperando o dia inteiro. Quando o sol começou a desaparecer no horizonte, a moça ouviu um rufiar de asas. Olhou para o céu e viu surgir onze cisnes voando apressadamente. Pousaram na terra e esconderam-se sob uma moita. Lúcia aproximou-se e ficou vigiando.
Quando os últimos raios do sol desapareceram, as penas dos onze cisnes caíram por terra e eles se transformaram em belos príncipes. Lúcia correu para eles, radiante de alegria. Reconheceram logo a irmã e cobriram-na de beijos e abraços. Que contentamento! Que felicidade!
A moça contou-lhes a sua triste história e eles narraram como tinham sido encantados pela cruel feiticeira. E o príncipe mais velho explicou:
— Durante o dia, temos a forma de cisnes. Mas, logo que o sol desaparece, voltamos a ser homens. E por isso que temos sempre o cuidado de chegar à terra firme antes que anoiteça, pois, se estivéssemos voando nos ares, cairíamos de repente e morreríamos.
— Onde moram vocês? perguntou Lúcia.
— Num lugar muito distante daqui, além dos mares. A viagem para lá é muito longa. Voamos dois dias sobre o oceano. No meio do caminho, só existe um rochedo isolado entre as ondas. E tão pequeno que nele só há espaço para ficarmos de pé, apertados uns contra outros. Quando o mar está agitado, cobre-nos de espuma da cabeça aos pés. Contudo, damos graças a Deus por termos aquele pequeno rochedo.
— Quantas vezes, por ano, podem vir até aqui ? indagou a princesa.
— Somente uma vez. E só podemos nos demorar onze dias. Chegamos há dez dias. Assim só temos um dia para ficar com você.
A princesa e os irmãos ficaram conversando durante muito tempo. Depois, vencida pelo cansaço, a moça adormeceu. Quando acordou, ouviu um forte bater de asas. Eram os irmãos que tinham voltado à forma de cisnes e que deviam passar o dia voando.
Quando a tarde caiu, os cisnes voltaram e, assim que o sol desapareceu, retomaram a forma humana. Então, o mais velho dos irmãos disse para Lúcia:
— Já que a encontramos, não queremos perdê-la. Vamos passar a noite fazendo uma rede para podermos levá-la connosco.
E começaram logo a trabalhar. Apanharam uma porção de ramos e folhas para construir uma rede resistente c macia. Pouco antes de romper o dia, o trabalho estava terminado.
Lúcia sentou-se na rede que foi elevada no ar pelo bico dos onze cisnes. Durante todo o dia, os pássaros voaram sem parar. Já estavam exaustos de carregar a rede, mas não desanimavam. A moça tremia só em pensar que poderia anoitecer, sem que chegassem ao rochedo perdido no meio do oceano. Mas, finalmente, quando os raios do sol começaram a desaparecer, a pequenina rocha surgiu no horizonte.
Quando a noite chegou com seu manto de estrelas, a moça e os onze cisnes pousaram no rochedo. Os príncipe retomaram a forma humana. Tiveram de ficar estreitamente unidos para não caírem no mar. Assim que o sol nasceu os rapazes viraram, novamente, cisnes e bateram as asas, levando pelos ares a jovem princesa.
Após viajarem o dia inteiro, chegaram, finalmente, ao seu destino. Os irmãos viviam num penhasco, em frente ao mar, onde havia uma caverna, que era a sua morada. Dentro da caverna, que era muito limpa, viam-se camas de musgo bem arrumadas. Lúcia ficou ali com os irmãos que, nesse momento, acabavam de voltar à forma humana.
Depois de conversar longas horas com os príncipes, Lúcia resolveu descansar. Mas, antes de dormir, rezou, pedindo a Nossa Senhora que lhe ensinasse, em sonho, uma maneira de quebrar o encanto de seus irmãos.
Quando adormeceu, Nossa Senhora apareceu-lhe em sonho e lhe disse:
— Poderás quebrar o encanto de teus irmãos. Mas, para isso, é preciso muita fé e perseverança. Existe perto
deste penhasco, bem como nos cemitérios, uma urtiga que tem propriedades maravilhosas. Quando a apanhares, ficarás com as mãos inchadas e empoladas. Deves colher grande quantidade dessa planta e, com ela, tecerás onze túnicas. Quando estiverem prontas, atira-as sobre teus irmãos e, então, seu encanto ficará quebrado. Voltarão, para sempre, à forma humana. Mas, para que tenhas êxito, é necessário que, enquanto estiveres tecendo as túnicas, não digas uma só palavra. Durante esse tempo, qualquer som que saia de tua boca ferirá como se fossem onze punhais cravados no coração de teus irmãos.
Quando Lúcia acordou, caiu de joelhos, agradecendo a Nossa Senhora o conselho que lhe dera. Depois, saiu da caverna e deu início ao seu trabalho. Começou a arrancar as folhas de urtiga que nasciam perto do penhasco. Quando o sol se pôs, voltaram os seus irmãos e perguntaram-lhe o que estava fazendo. Nem uma palavra de resposta. Os príncipes ficaram muito tristes, acreditando que a mudez da irmã era mais uma feitiçaria da madrasta. Mas, quando viram as mãos feridas e o trabalho que ela executava, sem parar, perceberam que fazia aquilo para quebrar o seu encanto. O príncipe mais moço pôs-se a chorar, beijando as mãos da irmã. E onde caíam suas lágrimas, desapareciam as empolas e as feridas.
De repente, ouviu-se o som de uma trompa de caça. Era o soberano daquele reino que caçava nas proximidades da caverna. Ao ver Lúcia, ficou deslumbrado por sua beleza. E resolveu levá-la para o palácio real.
Lá chegando, a princesa retirou-se para o rico aposento que lhe haviam oferecido. Havia trazido consigo o molho de urtigas e, por isso, continuou a trabalhar, febrilmente, durante a noite. Havia de libertar seus irmãos!
Alguns dias depois, o rei não pôde resistir à paixão que o dominava e pediu a moça em casamento. Lúcia que estava enamorada do jovem soberano aceitou o pedido, mas não pôde dizer uma palavra. Sabia que, se o fizesse, causaria a morte dos seus onze irmãos.
Realizou-se o casamento com grande pompa. O rei supunha que a sua linda esposa fosse muda e por isso redobrava em seus carinhos para com a moça. Tinha pena da sua triste situação. E Lúcia cada vez amava mais o rei e lamentava não lhe poder contar a sua triste história.
A moça já tinha tecido várias túnicas, quando lhe faltou urtiga. Sabia que só podia encontrá-la no cemitério e, numa noite de luar, para lá se dirigiu.
Mas houve alguém que a viu sair do palácio e a seguiu. Era um fidalgo que odiava a rainha, pois pretendia ver a filha no trono. Por isso, quando viu a rainha entrar no cemitério, foi avisar ao rei, dizendo-lhe que a rainha talvez fosse uma feiticeira. O soberano ficou muito triste e resolveu vigiai a esposa.
Dias depois, tendo faltado, de n!vo, a urtiga, Lúcia tornou a ir ao cemitério. Mas desta vez, foi seguida pelo rei e outras pessoas. Viram-na aproximar-se de um túmulo, onde algumas harpias estavam devorando um cadáver. O rei não quis ver mais, julgando que a sua esposa era também uma bruxa repugnante.
Como não podia falar, Lúcia não pôde defender-se e, por isso, foi condenada a morrer na fogueira. Quando os onze príncipes souberam disso, já era véspera da morte da irmã. Correram ao palácio para falar ao rei. Os guardas disseram que não podiam acordar Sua Majestade. Os rapazes insistiram, suplicaram, ameaçaram e já se dispunham a lutar com a guarda real, quando romperam os primeiros raios de sol. Os príncipes desapareceram, e viu-se um bando de cisnes esvoaçando, desesperadamente, por cima das torres do palácio.
Dias depois, tendo faltado, de novo, a urtiga, Lúcia tornou a ir ao cemitério.
Chegou a hora da execução de Lúcia. A multidão enchia a praça principal da cidade. Daí a pouco, surgiu a moça numa velha carroça. Estava pálida e abatida, mas seus dedos trabalhavam sem cessar. Já tinha, ao seu lado, dez túnicas prontas. Só faltava uma!
O carrasco quis jogar fora as túnicas, mas a moça olhou para êle com um ar tão suplicante que o homem não pôde recusar-lhe o último favor. A multidão, porém, cobriu-a de injúrias e avançou para despedaçar as túnicas.
Nesse momento, surgiram, fazendo grande bulha, onze cisnes lindíssimos, que começaram a dar bicadas terríveis nas pessoas que queriam atacar a carroça. Enquanto isso, a moça não parava de trabalhar. Finalmente, ficou pronta a última túnica.
Na ocasião em que o carrasco ia atirar Lúcia na fogueira, os onze cisnes se aproximaram para se despedir da irmã. Ela jogou, então, sobre eles as túnicas de urtiga. No mesmo instante, se transformaram em onze príncipes de uma beleza deslumbrante. Estava quebrado e encanto!
— Agora já posso falar. Estou inocente! exclamou a moça. E contou ao rei, que estava presente, a sua história.
A pena de morte foi logo revogada. O rei ficou louco de alegria e cobriu a esposa de beijos e abraços. Houve muitas festas no reino. E a todas assistiram os onze príncipes, que passaram a morar no palácio, junto de sua querida irmã.

19/08/2010

A raposa maravilhosa



Era uma vez um príncipe que saiu pelo mundo à procura de um remédio para seu pai que estava cego. Depois de muito viajar, chegou a uma cidade, onde deparou com uma cena estranha. Um grupo de homens espancava o corpo de um defunto. O rapaz aproximou-se e perguntou aos homens porque faziam aquilo. Responderam que o homem, quando era vivo, lhes devia dinheiro e, por isso, de acordo com o costume da terra, seu cadáver tinha de apanhar. Ouvindo isso, o príncipe pagou todas as dívidas do morto e o mandou enterrar, colocando uma cruz na sua sepultura. Em seguida, recomeçou sua viagem.
Depois de muito andar, encontrou no caminho uma pequena raposa que lhe perguntou:
— Onde vai, meu honrado príncipe?
Respondeu-lhe o moço:
— Ando à procura de um remédio para meu pai que ficou cego.
— Para isso, só existe um recurso, disse a raposinha. E preciso colocar nos olhos do seu pai um pouco de excremento de um papagaio do Reino dos Papagaios. Se quiser seguir meu conselho, vá ao Reino dos Papagaios e entre à meia-noite no lugar em que eles se encontram. Deixe, porém, delado os papagaios bonitos e faladores que estão em lindas e ricas gaiolas. Apanhe um papagaio velho e triste que está numa gaiola de pau muito feia.
O rapaz ouviu, atentamente, as palavras da raposinha e partiu, depressa, para o lugar indicado.
Depois de muito caminhar, encontrou, novamente, a raposinha.
— Onde vai, meu honrado príncipe? perguntou ela. O moço contou o que lhe acontecera.
— Ah! não lhe disse? Por que não seguiu o meu conselho? exclamou a raposa. Vou ensinar-lhe, mais uma vez, o que deve fazer. Entre no Reino dos Cavalos, à meia-noite, com muito cuidado. Há de encontrar lá uma porção de cavalos gordos e bonitos, ricamente arreados. Não monte em nenhum. Num canto, achará um cavalo velho, magro e feio. Apanhe este.
O rapaz agradeceu o conselho e partiu.
Quando chegou ao Reino dos Cavalos, ficou deslumbrado com a beleza dos animais. E teimoso, como sempre, disse consigo mesmo:
— Ora, tantos cavalos bonitos e eu obrigado a escolher um diabo velho e feio! Nada disso!
E montou num dos cavalos mais gordos e lindos. Mas, quando ia saindo, o cavalo deu um relincho tão forte que os guardas acordaram e prenderam o rapaz. Este, mais uma vez, repetiu a sua triste história. Os guardas, com pena, disseram:
—Está bem. Dar-lhe-emos um cavalo, mas você deverá raptar a filha do Rei do Ouro.
O moço prometeu trazer a princesa, mas pediu que lhe dessem um cavalo, para ir mais depressa. Os guardas atenderam ao seu pedido, e o príncipe seguiu viagem.
No caminho, mais uma vez, apareceu-lhe a raposinho mágica.
— Onde vai, meu honrado príncipe? perguntou ela.
O rapaz contou-lhe tudo. A raposa disse:
— Sou a alma daquele homem que estava apanhando depois de morto e cujas dívidas você pagou. Tudo tenho feito para retribuir o que fez por mim. Mas você não tem seguido os meus conselhos e, por isso, tem vivido no meio de perigos e dificuldades. Vou, porém, aconselhá-lo mais uma vez. Vá montado neste cavalo até o palácio do Rei do Ouro. Quando for meia-noite, entre no palácio, agarre a moça, ponha-a na garupa do seu cavalo e saia a toda disparada. Passe pelo Reino dos Cavalos e peça o seu cavalo, passe pelo Reino das Espadas e peça a sua espada, passe pelo Reino dos Papagaios e peça o seu papagaio. Corra, depois, a toda pressa, para sua casa, pois seu pai está muito mal. Não se afaste do caminho, nem dê ouvidos a ninguém até chegar à sua casa.
O príncipe partiu. Chegando ao palácio do Rei do Ouro, raptou a moça. Passando pelo Reino dos Cavalos, recebeu seu cavalo. No Reino das Espadas, recebeu sua espada. No Reino dos Papagaios, recebeu seu papagaio. Continuou a correr. Porém, um pouco adiante, encontrou seus irmãos que andavam à sua procura. Quando viram a linda moça e as coisas valiosas que o rapaz trazia, ficaram cheios de inveja e armaram um plano para roubá-lo. Começaram por convencer o irmão que se afastasse da estrada, a fim de evitar o assalto dos ladrões. O príncipe, esquecendo os conselhos da raposa, atendeu aos irmãos. Quando desceu do cavalo para beber água, foi atirado numa furna que existia dentro da mata. Os irmãos tomaram-lhe a moça, o cavalo, a espada e o papagaio. E seguiram, alegremente, para casa, pensando que o rapaz estava morto.
Quando chegaram ao palácio, aconteceu, porém, um fato inesperado. A moça não quis comer, nem falar. O papagaio meteu a cabeça debaixo da asa e ficou silencioso. A espada cobriu-se de ferrugem. E o cavalo começou a emagrecer e a ficar velho. Que acontecera ao príncipe ? Abandonado na mata, estava para morrer, quando apareceu a raposinha mágica que lhe salvou a vida e o pôs em liberdade. Depois de agradecer à sua benfeitora, correu para casa. Assim que penetrou no palácio, houve um acontecimento que causou espanto a todo mundo. A espada deu um estalo e começou a brilhar. O papagaio voou para seu ombro e pôs-se a falar. A moça soltou uma gargalhada e começou a cantar. E o cavalo, de repente, ficou gordo e bonito e pôs-se a relinchar.
O príncipe, então, apanhou um pouco de excremento do papagaio e colocou nos olhos de seu pai. Imediatamente, o velho recobrou a visão e abraçou o filho, chorando de alegria. O príncipe, dias depois, casou-se com a princesa. Seus irmãos foram castigados e expulsos do reino.
Quando chegou ao Reino dos Papagaios, ficou extasiado ao ver milhares dessas aves em belíssimas gaiolas de diamante, ouro e prata. Não deu importância ao papagaio velho e sujo que se achava num canto. Apanhou a gaiola mais bonita e correu para fora. Mas, quando ia saindo, o papagaio deu um grito estridente e acordou os guardas que agarraram o rapaz. Que queres com este papagaio? perguntaram eles. Vais morrer por causa disso! O príncipe contou-lhes, então, a história da doença do seu velho pai. Os guardas ficaram com pena e disseram:
— Pois bem, poderás levar o papagaio, se nos trouxeres uma espada do Reino das Espadas.
O moço ficou muito triste, mas aceitou a proposta e partiu.
Mais adiante, surgiu na sua frente, de novo, a raposinha que lhe perguntou:
— Por que está tão triste, meu honrado príncipe? O moço contou-lhe, então, o que havia acontecido.
— A culpa foi sua, disse a raposa. Não seguiu o meu conselho. Deixou de lado o papagaio velho e feio e apanhou o papagaio bonito. Contudo, vou ensinar-lhe o que deve fazer no Reino das Espadas. Entre lá, à meia-noite, com muito cuidado. Verá muitas espadas de prata, ouro e diamante. Não pegue em nenhuma. Num canto, encontrará uma espada velha e enferrujada. Apanhe esta. O moço agradeceu o conselho e partiu.
Quando chegou ao Reino das Espadas, ficou maravilhado ao ver tantas espadas belíssimas! E, teimoso como da outra vez, disse consigo mesmo:
— Ora, tanta espada bonita e eu obrigado a levar uma espada velha e enferrujada! Nada disso. Vou levar a mais linda que houver aqui.
E assim fez. Quando ia saindo, a espada de ouro e diamantes, que levava, deu um estalo tão forte que acordou os guardas. O rapaz foi logo preso, e os guardas lhe disseram que ia ser condenado à morte. Contou-lhes, então, o moço a sua triste história. Os guardas ficaram penalizados e declararam que lhe dariam uma espada, se ele lhes trouxesse um cavalo do Reino dos Cavalos. O príncipe não teve remédio senão aceitar a proposta.

01/08/2010

A toalha do monge


Era uma vez uma velha que morava com o filho e a nora. A sogra tinha inveja da beleza da moça e judiava dela, ordenando-lhe que fizesse todo o trabalho pesado da casa. A moça, meiga e bondosa, nunca se queixava, o que deixava a velha ainda mais enfurecida.
Um dia, mandou que a moça preparasse uns bolos de arroz e, quando prontos, os contou. Foi então à vila fazer compras. Um monge andarilho parou junto à casa e a moça, generosa, lhe deu um bolo de arroz. Depois que o monge partiu, a sogra chegou, contou os bolos e notou, na hora, que estava faltando um.
- O que você fez com o bolo que está faltando?- esbravejou.- Criatura voraz e inútil!
- Dei ao monge - a moça explicou, tentando acalmar a velha.
- Bem, vá buscá-lo! - a sogra gritou.
A jovem esposa, então, correu atrás do monge, apresentou mil desculpas, e pediu o bolo de volta.
O monge riu e devolveu o presente. Por sua vez, deu à moça uma pequena toalha.
- Leve-a para enxugar o rosto - disse. - Sei que sua vida, com sua sogra, não é fácil.
A partir de então, a velha mãe começou a notar que sua nora ficava cada dia mais e mais linda. Isso aumentou-lhe a inveja e uma manhã, quando espiava sua nora, viu a moça enxugar o rosto com a toalha e observou que, cada vez que o fazia, ficava mais bela e radiante.
- Ela usa uma toalha mágica! - a velha murmurou consigo.
No dia seguinte mandou a moça fazer compras e roubou-lhe a toalha. Lavou o rosto e olhou-se no espelho. Não notou, porém, mudança alguma.
- Sou mais velha - pensou -, portanto, preciso enxugar com mais força!
Enxugou o rosto várias vezes e mirou-se no espelho. Para seu horror seu rosto tornou-se longo e eqüino, depois peludo e redondo, como a cara de um macaco. Finalmente, ficou com a cara de um gnomo feio e grotesco!
- Nossa! - exclamou a velha e caiu ao chão desmaiada.
Nesse momento, voltou a nora. Viu o demônio dentro da casa e preparou-se para fugir. A velha gritou:
- Socorro!
A nora reconheceu a voz da sogra e ficou com pena dela.
- Você precisa dar um jeito! - a velha implorou.
Então a nora saiu correndo, em busca do monge.
Encontrou-o não muito distante dali e contou-lhe o que se sucedera. Ele riu.
- Quando uma pessoa malvada usa a toalha - o monge disse -, acaba parecendo um demônio!
- E não há cura? - a moça perguntou.
- Há - o monge riu novamente. - Diga à sua sogra que use o outro lado da toalha!
A jovem esposa correu para casa e disse à velha qual a solução. A sogra, no mesmo instante, virou a toalha e enxugou o rosto. Na primeira vez, seu rosto transfigurou-se de gnomo em macaco; na segunda vez, em um focinho de cavalo e, na terceira, transformou-se em seu próprio rosto enrugado, mas humano.
A velha abraçou a nora e chorou.
- Querida filha - a mãe falou, implorando perdão -, eu não via como eu era má com você!
E desse dia em diante, nunca mais pronunciou uma palavra áspera para ninguém. Tornou-se boa e generosa e trabalhou lado a lado com a nora. Tinha a esperança de que o velho monge da toalha mágica voltasse um dia, para que pudesse agradecer-lhe.
Ele, porém, nunca mais voltou - nem foi preciso.

Conto japonês

31/07/2010

O matador de dragões




Era uma vez, há muito tempo, quando o mundo era jovem, um rapaz que vivia numa aldeia no meio da floresta. Ele tinha um sonho: quando crescesse, queria ser um grande guerreiro. Um dia, no seu 16º aniversário, disse à família que queria partir. A mãe ficou triste. Mas disse-lhe:
- A tua partida entristece-me, filho, mas não te impedirei. No entanto, é difícil sair da floresta, se quiseres ir para o castelo real. Afasta-te dos dragões, eles andam por aí, se vires um não te armes em valente, foge imediatamente!
O rapaz, depois de se ter despedido da mãe, e de ter jurado que teria cuidado, pôs-se a caminho com a trouxa às costas. Andou durante muito tempo, até cair a noite. Aí, ele deitou-se debaixo de uma árvore e adormeceu.
Passado algum tempo, ele acordou. Como não via nada, pois era lua nova, pôs-se à escuta. O que ouviu foi uma canção estranha, cantada numa língua que nunca ouvira, e sentiu-se encantado. Hipnotizado, levantou-se e seguiu na direcção da musica. Já distinguia luz e alguns vultos à sua frente. Então, sem esperar, duas mãos agarraram-no e outras ataram-no com cordas. Depois levaram-no na direcção dos vultos.
Então o rapaz viu que eram elfos, o povo imortal que vivia simultaneamente no mundo dos espíritos e no dos mortais. Levaram-no para junto de um, mais alto que a maioria, que devia ser o seu rei ou chefe.
O rei falou então, e disse:
- Quem és tu, vil mortal, que no chão rastejas como os animais, para te atreveres a incomodar-nos?
O rapaz, meio assustado, meio revoltado com as palavras do rei, levantou-se e disse:
- Posso ser um mortal, mas não aceito ser chamado de vil. E não vos vim incomodar de propósito. Sou um simples rapaz, e procuro uma saída da floresta, para ir ter ao castelo do Rei dos Homens.
Então o rei elfo respondeu:
- Então é isso? Bem, rapaz, vou dizer-te uma coisa: a nossa lei diz que quem entrar no nosso território não poderá sair. Mas como vejo que és corajoso e desejas cometer grandes feitos, vou dar-te uma oportunidade. Decerto já ouviste falar dos dragões da floresta. Bem, os seus lideres, os Três Grandes Dragões, querem destruir-nos. Pois, embora não morramos de velhice ou cansaço, mortos por armas podemos ser. Bem, esses dragões, Ancalon, o Preto, Smaug, o Dourado, e Glaurung o Grande, precisam de ser detidos. E é aí que tu entras. Queremos que os procures nos seus covis e os mates. Trarás os dentes deles como prova do teu feito, percebeste?
O rapaz acenou, para mostrar que percebera. Embora ele soubesse que provavelmente não voltaria, a chama da aventura acendera-se nele.
O rei elfo, vendo que ele aceitara, ordenou que o armassem. E eles assim fizeram, armaram-no com cota de malha, armadura, escudo e espada, com as insígnias élficas.
E assim se pôs o rapaz a caminho. Durante muitas noites andou, andou, sem encontrar nada. Até que um dia, de manhã, acordou com o som de vozes rudes e ásperas. Correu na sua direcção e viu que eram anões, uma companha, armados de machados.
Os anões, quando o viram, correram na sua direcção e gritaram-lhe:
- Foge, se não queres ser assado vivo! Vem aí Smaug!
E afastaram-se a correr apavorados. Nesse momento ouviu-se um grito de parar o coração, tal o ódio e a maldade nele impregnado. Então ele desembainhou a espada e esperou pelo dragão. Este apareceu de repente, por trás de uma colina, mas estacou quando o viu.
Olhou-o com curiosidade, e disse-lhe:
- Hum, este deve ser o aperitivo de hoje. Diz-me rapazinho, porque não foges como todos os outros? Estás com tanto medo que nem te consegues mexer?
O rapaz não se impressionou, e disse: - Ouve, Verme Dourado, não tenho medo de ti! Estou aqui para te matar e é isso que vou fazer
Dito isto, saltou para a frente e cravou a espada nos membros inferiores do dragão. Este deu um grande guincho, e disparou fogo contra ele. O rapaz desviou-se mesmo a tempo. Então o dragão, que estava agachado, levantou-se. Nesse momento, o rapaz viu a sua oportunidade, e cravou a espada no ventre do dragão. Este caiu para trás. O rapaz retirou a espada e utilizou-a para lhe retirar os dentes. E pôs-se de novo a caminho.
Desta vez não foi necessário esperar para alguém lhe indicar o dragão, pois ele próprio viu o rasto negro por ele deixado. Cheio de pesar pela vegetação e pelos animais, foi andando até reparar em algo estranho: no meio da estrada estava um arco, juntamente com uma aljava de setas. Quando se aproximou, viu que alguém tinha deixado um bilhete. Este dizia: Atinge-o nos olhos. Boa sorte.
Intrigado sobre quem lhe teria deixado aquilo ali, pôs a aljava ao ombro e pegou no arco. De repente, ouviu-se um grito e o bosque atrás dele explodiu em chamas. Ele agachou-se e viu a chegar, do ar, Ancalon, o Preto, rei dos dragões alados, em todo o seu terrível esplendor.
O dragão desceu de repente, ficando a pairar um metro acima do rapaz. Este, cheio de raiva, não esperou sequer que o dragão falasse; pegou numa seta e atirou-lha ao olho. O dragão, apanhado de surpresa, caiu ao chão, cego pelo ferimento e pela dor. Quando viu a melhor oportunidade, o rapaz saltou-lhe para cima e cravou-lhe a espada na garganta. O dragão soltou um último grito e morreu.
O rapaz tirou-lhe os dentes, e pela segunda vez pôs-se a caminho. Desta vez tinha que procurar o último dragão, o mais terrível de todos. Enquanto andava, viu um lago de águas que pareciam de prata. Aproximou-se e começou a beber. De repente, ouviu um barulho de chapinhar, e viu aquilo que parecia uma forma humanóide, mas feita de água. O estranho ser disse então:
Não me temas! Sou um Espírito da Água, e pelos elfos tive conhecimento da tua missão. Quero ajudar-te, pois os dragões também me podem destruir a mim! Aproxima-te.
O rapaz, como que enfeitiçado, avançou até a água lhe dar pelos joelhos. O Espírito da Água também se aproximou, e disse:
Vou fazer-te um encantamento que te ajudará.
Pegou num pouco de água do lago e deitou-lha na cabeça, enquanto murmurava palavras incompreensíveis. O rapaz sentiu-se então fresco e aliviado.
- Agora fogo nenhum te poderá deter. Agora vai, e destrói esse maldito dragão!
O rapaz, sem palavras para agradecer tamanha dádiva, afastou-se e continuou a andar, pois embora fosse de noite, ele tinha perdido o sono.
E foi assim que ele encontrou Glaurung, o Dourado, pai dos dragões, num sono profundo. Dando graças à sua sorte, empunhou a espada, e pôs-se em frente à cabeça do dragão. Mas quando ia a dar a estocada final, este abriu os olhos vítreos amarelos, e disparou chamas contra ele. Não se conseguiu desviar, mas, para surpresa do dragão, o rapaz ficou apenas um pouco chamuscado. Ele saltou para a frente, e com um grande grito espetou a espada entre os olhos do dragão, que tombou imediatamente.
O rapaz, cansado, largou a espada e deixou-se cair no chão. Nesse momento, ouviram-se vozes e cantos, e o rapaz viu que eram os elfos, com o seu rei à frente. Este inclinou-se perante ele. O rapaz deu-lhe os dentes dos dragões, mas o rei devolveu-os, e disse-lhe para fazer com eles colares, para dar ao rei como prova da sua valentia. Este assim fez. Montou num cavalo que os elfos lhe ofereceram e partiu na direcção do castelo.
Quando chegou ao castelo e foi levado à presença do rei, mostrou-lhe os colares. O rei ficou muito impressionado, e nomeou-o Cavaleiro ali mesmo. E naquele castelo o rapaz viveu, e cometeu muitos feitos até ao fim dos seus dias. E durante muitos anos se contaram os feitos do Scatha Gorgor, O Matador dos Dragões.

26/07/2010

O aprendiz de alfaiate que tinha imaginação demais


Era uma vez um jovem órfão, aprendiz de alfaiate, chamado Daud, que vivia no Cairo. Enquanto costurava, sentado com as pernas cruzadas, na loja de seu patrão, Daud sonhava acordado. Em sua imaginação ele era sempre um príncipe ou um nobre, vestido com as mais finas roupas.
Um dia um servo trouxe uma esplêndida capa à loja do alfaiate. Pertencia a um rico mercador e tinha que ser cortada em algumas polegadas.
— Apronte-a para amanhã – disse o servo. – Voltarei para buscá-la antes do meio-dia.
— Estará pronta e acabada, ainda que minha loja tenha que permanecer aberta a noite inteira – prometeu o alfaiate.
Pôs-se a trabalhar, e já havia quase terminado quando chegou a noite.
— Se não voltar para comer em minha casa, minha esposa me pertubará tanto que não acabarei nunca de escutá-la.
Assim, ele entregou a capa a Daud e disse-lhe que continuasse a coser o forro até que ele voltasse.
Logo que seu patrão partiu, Daud trabalhou cuidadosamente e logo terminou o acabamento. A capa do mercador era de uma linda lã marrom, e Daud colocou-a ao redor dos ombros para assegurar-se de que o caimento estava bom. Ela lhe caía perfeitamente. Recuou um pouco para ver-se no espelho e pensou que tinha todo o aspecto de um cavalheiro. Colocou um par de botas de couro marroquino vermelho, que pertenciam ao alfaiate, amarrou um lenço branco ao redor de sua cabeça e sentiu que podia passar perfeitamente por um nobre.
"Poderia sair pelo mundo e fazer fortuna", disse para si mesmo. "Ninguém saberia que sou Daud, o aprendiz de alfaiate".
Remexendo embaixo do balcão, onde dormia quando a loja estava fechada, pegou todos os seus pertences e os colocou em uma pequena bolsa dentro do seu cinturão.
Foi para a rua e entrou em um café, onde pediu comida. Era muito tarde e o lugar estava cheio de gente. Após alguns minutos, um jovem rapaz, da sua idade, sentou-se à sua mesa. Logo começaram a conversar, e rapidamente o recém-chegado começou a contar a Daud sobre a sua vida.
— Pela primeira vez na minha vida estou visitando esta cidade – disse o jovem. – Fui criado por meus tios no campo. Quando eu nasci meu pai teve um sonho que o perturbou muito. Nesse sonho lhe apareceu um anjo dizendo que eu morreria, a não ser que fosse enviado para longe, para um lugar seguro. Naquele tempo meus pais viviam em Alexandria, e a doença e a fome atacavam a cidade. Assim foi que me mandaram à casa da irmã de minha mãe, que tinha então um menino da minha idade. Minha mãe morreu e meu pai se mudou para o Cairo, porém não lhe foi possível comunicar-se comigo até este mês, em que completo meu décimo oitavo aniversário.
— Que história curiosa, amigo! – disse Daud, intrigado. – Qual é o seu nome e como encontrará seu pai, agora que está aqui?
— Meu nome é Jabir – disse o outro. – Vim para encontrar meu pai neste mesmo café e ele deve chegar agora. Vê este punhal? Devo tê-lo em minha mão para que ele me reconheça e devo dizer em resposta à sua saudação: "Sou aquele a quem Allah preservou!" E ele responderá: "Louvado seja o senhor do mundo."
Ele entregou a Daud um formosíssimo punhal, feito com o melhor aço de Damasco, com uma bainha decorada com turquesas.
Enquanto segurava o punhal em suas mãos, Daud imaginou-se como o filho que voltava para seu pai e se escutou dizendo a frase que o outro acabara de dizer.
Jabir desculpou-se por ter que sair por alguns minutos, pois devia ocupar-se de seu cavalo, deixando Daud com o punhal.
Logo que saiu, um homem velho, alto e de aparência nobre veio até Daud e saudou-o.
— A paz esteja contigo! – disse-lhe.
— Sou aquele a quem Allah preservou – disse Daud, como num sonho.
— Louvado seja o senhor dos mundos! – exclamou o velho homem.
E abraçou Daud afetuosamente.
— Meu querido filho! Depois de tantos anos! Eu te reconheceria em qualquer lugar!
Daud ia dizer algo, porém o homem o fez calar-se.
— Vem comigo – disse o velho homem. – Teu caminho e o meu serão o mesmo de agora em diante, e te contarei que planos tenho para ti.
Jabir não havia voltado ainda quando Daud, tentado pela oportunidade, foi-se com o ancião para uma enorme casa nos arredores do Cairo. Ali os quartos eram luxuosos e belíssimos, e Daud sentiu que seus sonhos finalmente tinham se tornado realidade. Pensava no ancião como seu pai e tinha esquecido completamente do desafortunado Jabir, cujo lugar havia tomado.
O aprendiz sonhador, imaginando que era o herdeiro legítimo do velho senhor, estava sentado no sofá olhando à sua volta enquanto traziam a ceia.
Um velho servo, chamado Hamid, estava servindo a água. Hamid não podia acreditar que este era o filho de seu amo, estava certo de que algo não estava bem. Sussurrou no ouvido do velho:
— Estás certo de que este é seu verdadeiro filho?
O amo respondeu:
— Certamente. De que outra forma poderia ter conseguido o punhal e saber a frase que deveria dizer?
Repentinamente bateram muito forte na porta, e em poucos minutos entrou Jabir gritando:
— Aí está o bandido que roubou meus direitos de nascimento!
— Não, não – disse Daud. – Pai, acredita-me, nunca vi este homem em minha vida.
— Quem é quem? – exclamou o velho. – Não posso saber quem está dizendo a verdade.
Sem que os demais se dessem conta, o servo Hamid escorregou por detrás de seu amo e rasgou seu manto com uma navalha.
O aprendiz de alfaiate, ao ver o rasgão, tirou linha e agulha de sua pequena bolsa e tentou cosê-lo.
Então Hamid apontou para Daud dizendo:
— Olhem, este deve ser o aprendiz de alfaiate que tinha fugido! A polícia está a sua procura a noite toda! Há menos de uma hora vieram aqui. Estão fazendo averiguações em cada casa.
Daud correu até a porta, porém Hamid foi mais rápido que ele. Derrubou o desgraçado aprendiz e prendeu suas mãos com um pedaço de corda.
— Jabir, meu filho – disse o velho senhor. – Então era você e não ele!
E abraçou finalmente seu verdadeiro filho.
— Perdôo-te – disse a Daud. – Vá embora.
O pobre aprendiz foi levado de volta à loja do alfaiate, onde devolveu a capa que havia roubado. A polícia queria prender Daud, porém, diante das súplicas de seu patrão, deixaram-no livre.
— Este meu ridículo aprendiz – disse o alfaiate – tem uma imaginação demasiado vivaz e posso entender muito bem que tenha sido tentado a levara capa e personificar um nobre. Visto que é órfão, eu o perdoarei e voltarei a empregá-lo, pois não tem mão ruim para coser.
Foi assim que Daud aprendeu sua lição e tentou corrigir-se.
Com o tempo, viveu até esquecer a história de sua fuga e se converteu em um bom alfaiate, como seu patrão. Herdou a loja e nunca mais deixou que sua imaginação o dominasse.

25/07/2010

O Senhor Palha


Era uma vez, há muitos e muitos anos, é claro, porque as melhores histórias passam-se sempre há muitos e muitos anos, um homem chamado Senhor Palha. Ele não tinha casa, nem mulher, nem filhos. Para dizer a verdade, só tinha a roupa do corpo. Ora o Senhor Palha não tinha sorte. Era tão pobre que mal tinha para comer e era magrinho como um fiapo de palha. Era por esse motivo que as pessoas lhe chamavam Senhor Palha.
Todos os dias o Senhor Palha ia ao templo pedir à Deusa da Fortuna que melhorasse a sua sorte, mas nada acontecia. Até que um dia, ele ouviu uma voz sussurrar:
— A primeira coisa em que tocares quando saíres do templo há-de trazer-te uma grande fortuna.
O Senhor Palha apanhou um susto. Esfregou os olhos, olhou em volta, mas viu que estava bem acordado e que o templo estava vazio. Mesmo assim, saiu a pensar: “Terei sonhado ou foi a Deusa da Fortuna que falou comigo?” Na dúvida, correu para fora do templo, ao encontro da sorte. Mas, na pressa, o pobre Senhor Palha tropeçou nos degraus e foi rolando aos trambolhões até o final da escada, onde caiu por terra. Ao levantar-se, ajeitou as roupas e percebeu que tinha alguma coisa na mão. Era um fio de palha.
“Bom”, pensou ele, “uma palha não vale nada, mas, se a Deusa da Fortuna quis que eu o apanhasse, é melhor guardá-lo.”
E lá foi ele, com a palha na mão.
Pouco depois, apareceu uma libélula zumbindo em volta da cabeça dele. Tentou afastá-la, mas não adiantou. A libélula zumbia loucamente ao redor da cabeça dele. “Muito bem”, pensou ele. “Se não queres ir embora, fica comigo.” Apanhou a libélula e amarrou-lhe o fio de palha à cauda. Ficou a parecer um pequeno papagaio (de papel), e ele continuou a descer a rua com a libélula presa à palha. Encontrou a seguir uma florista, que ia a caminho do mercado com o filho pequenino, para vender as suas flores. Vinham de muito longe. O menino estava cansado, coberto de suor, e a poeira fazia-o chorar. Mas quando viu a libélula a zumbir amarrada ao fio de palha, o seu pequeno rosto animou-se.
— Mãe, dás-me uma libélula? — pediu. — Por favor!
“Bem”, pensou o Senhor Palha, “a Deusa da Fortuna disse-me que a palha traria sorte. Mas este garotinho está tão cansado, tão suado, que pode ficar mais feliz com um pequeno presente.” E deu ao menino a libélula presa à palha.
— É muita bondade sua — disse a florista. — Não tenho nada para lhe dar em troca além de uma rosa. Aceita?
O Senhor Palha agradeceu e continuou o seu caminho, levando a rosa. Andou mais um pouco e viu um jovem sentado num tronco de árvore, segurando a cabeça entre as mãos. Parecia tão infeliz que o Senhor Palha lhe perguntou o que havia acontecido.
— Hoje à noite, vou pedir a minha namorada em casamento — queixou-se o rapaz. — Mas sou tão pobre que não tenho nada para lhe oferecer.
— Bem, eu também sou pobre — disse o Senhor Palha. — Não tenho nada de valor, mas se quiser dar-lhe esta rosa, é sua.
O rosto do rapaz abriu-se num sorriso ao ver a esplêndida rosa.
— Fique com estas três laranjas, por favor — disse o jovem. — É só o que posso dar-lhe em troca.
O Senhor Palha continuou a andar, levando três suculentas laranjas. Em seguida, encontrou um vendedor ambulante puxando uma pequena carroça.
— Pode ajudar-me? — disse o vendedor ambulante, exausto. — Tenho puxado esta carroça durante todo o dia e estou com tanta sede que acho que vou desmaiar. Preciso de um gole de água.
— Acho que não há nenhum poço por aqui — disse o Senhor Palha. — Mas, se quiser, pode chupar estas três laranjas.
O vendedor ambulante ficou tão grato que pegou num rolo da mais fina seda que havia na carroça e deu-o ao Senhor Palha, dizendo:
— O senhor é muito bondoso. Por favor, aceite esta seda em troca.
E, uma vez mais, o Senhor Palha continuou o seu caminho, com o rolo de seda debaixo do braço.
Não tinha dado dez passos quando viu passar uma princesa numa carruagem. Tinha um olhar preocupado, mas a sua expressão alegrou-se ao ver o Senhor Palha.
— Onde arranjou essa seda? — gritou ela. — É justamente aquilo de que estou à procura. Hoje é o aniversário de meu pai e quero dar-lhe um quimono real.
— Bem, já que é aniversário dele, tenho prazer em oferecer-lhe a seda — disse o Senhor Palha.
A princesa mal podia acreditar em tamanha sorte.
— O senhor é muito generoso — disse sorrindo. — Por favor, aceite esta jóia em troca.
A carruagem afastou-se, deixando o Senhor Palha com uma jóia de inestimável valor refulgindo à luz do sol.
“Muito bem”, pensou ele, “comecei com um fio de palha que não valia nada e agora tenho uma jóia. Sinto-me contente.”
Levou a jóia ao mercado, vendeu-a e, com o dinheiro, comprou uma plantação de arroz. Trabalhou muito, arou, semeou, colheu, e a cada ano a plantação produzia mais arroz. Em pouco tempo, o Senhor Palha ficou rico.
Mas a riqueza não o modificou. Oferecia sempre arroz aos que tinham fome e ajudava todos os que o procuravam. Diziam que sua sorte tinha começado com um fio de palha, mas quem sabe se não terá sido com a sua generosidade?


Conto Japonês

As duas irmãs



Há muito tempo, duas irmãs, Omelumma e Omeluka, adoravam brincar ao ar livre, rir e correr para todo lado. Certo dia, seus pais saíram para a feira que era um pouco longe de casa, e recomendaram: - Cuidado com os animais da terra e do mar, porque muitas pessoas já foram levadas pelos monstros. Fiquem dentro de casa e não façam muito barulho. Quando fizerem comida, acendam um fogo pequeno, para que a fumaça não atraia os animais. E, quando secarem os grãos, façam em silêncio, para que os monstros não ouçam.
Porém, disse o pai, o mais importante, é que não saiam para brincar com outras crianças. Fiquem dentro de casa. As duas concordaram com tudo. Acenaram em despedida quando os pais se afastaram.
Ficaram dentro de casa a manhã inteira, mas conforme as horas iam passando, aumentava a sensação de fome. Então, começaram a socar os grãos para fazer uma papa, e aquilo virou logo uma brincadeira. Elas riam e faziam muito barulho. Aí acenderam um grande fogo para que a comida ficasse pronta mais depressa, esquecendo-se da advertência dos pais.
Após comer até se fartar, as duas viram os amigos brincando no campo e foram correndo brincar com eles.
Enquanto brincavam, um rugido imenso saiu de dentro da mata e outro veio do mar, aparecendo muitos monstros que cercaram as crianças. Aterrorizadas, as duas correram, mas foram separadas. Os monstros do mar carregaram Omelumma e os da terra Omeluka.
As duas pensaram, - se tivéssemos ouvido nossos pais. Agora seremos devoradas pelos monstros. Porém, eles não as devoraram, mas as venderam como escravas em lugares muito distantes de sua terra.
Omelumma foi escolhida por um homem, que comprou-a e casou-se com ela.
Omeluka, mais jovem, não teve a mesma sorte. Foi escolhida por um homem cruel, que a comprou, mas a fez de escrava, dando-lhe muitas tarefas dia e noite. Passado um tempo ele vendeu-a para um outro homem ainda pior do que ele que a maltratava ainda mais. Assim, passaram-se muitos anos.
Enquanto isso, Omelumma vivia confortavelmente com o marido e deu à luz seu primeiro filho, um menino. O marido foi ao mercado para encontrar uma escrava que pudesse ajudá-la nas tarefas com o bebê e a irmã, Omeluka, estava lá, para ser vendida.Assim, ele trouxe Omeluka para ser escrava da irmã, mas ela estava muito mudada, devido aos maus tratos que sofrera e Omelumma não reconheceu-a.
Todas as manhãs, Omelumma ia para o mercado e entregava o bebé aos cuidados da irmã, deixando também, muitas tarefas para serem realizadas. Omeluka se desdobrava, mas era muito serviço. Quando ia buscar água ou lenha, o bebé ficava em casa, todavia seu choro a trazia rapidamente de volta, e assim não trazia a lenha suficiente. A irmã quando chegava a surrava por não ter cumprido suas ordens, mas se ela deixava o bebé chorando, os vizinhos contavam e ela apanhava do mesmo jeito. Ela tentou levar o bebé quando ia pegar lenha, mas não deu certo, porque não conseguia fazer o serviço com ele no colo.
Certa tarde, o bebé só interrompeu o choro, quando ela o colocou no colo e o embalou suavemente. Uma vizinha aproximou-se perguntando por que ela não fazia suas tarefas. Ela ficou com medo de ser denunciada e voltou ao trabalho. Mas o bebé começou a chorar e ela não teve saída senão se sentar e começar a embalá-lo de novo. Não sabendo mais o que fazer, finalmente entoou uma canção:

Shsh, shsh, bebezinho, não chore mais
Nossa mãe nos disse para não fazer fogo grande,
Mas nós fizemos
Nossa mãe nos disse para não fazer barulho,
Mas nós fizemos.
Nosso pai nos disse para não brincar lá fora,
Mas nós brincamos.
Então os monstros do mato e do mar nos levaram embora,
Para muito longe, muito longe!
E onde pode a minha irmã estar?
Muito longe, muito longe!
Shsh, shsh, bebezinho não chore mais.

Uma velha que ouviu aquela cantiga, lembrou-se da história que Omelumma lhe contara, há muito tempo, sobre terem sido levadas pelos monstros do mar e da terra. Ela percebeu que a escrava devia ser a irmã de Omelumma, há tanto tempo sumida. Correu até o mercado para contar a novidade à Omelumma.
No dia seguinte, ela deu várias tarefas à irmã e em seguida saiu, para o mercado. Mas voltou em segredo e viu como a irmã corria de um lado para o outro tentando impedir o bebé de chorar enquanto fazia seu serviço. Finalmente a irmã sentou-se e começou a cantar a canção que a velha escutara.
Assim que Omelumma ouviu a canção, reconheceu que era sua irmã e, chorando de dor e remorso, chegou perto dela para pedir perdão.
As duas se abraçaram e choraram juntas. Em seguida Omelumma libertou a irmã, jurou nunca mais maltratar nenhum servo e quando o marido chegou também ficou muito feliz ao saber da novidade. Viveram depois disso, muito felizes.

Conto africano