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16/09/2010

Nas asas da borboleta

Chang ergue o pincel de pêlo de coelho e contempla o poema que escreveu sobre a rocha. Sua caligrafia é segura e graciosa. O sol brilha no céu e vai apagando o que foi escrito. Porque Chang escreve na rocha seus poemas com água. E pouco depois de escritos, os versos se apagam.
Chang não escreve para outro público que não seja o céu. As pedras. As águas. As árvores. O vento. Os pássaros. Os peixes. E às vezes, são os próprios poemas que vão se escrevendo, no movimento das cerdas do pincel.
Chang tem agora os olhos fechados. Um raio de luz dança na sua cabeça raspada. Uma borboleta pousa nas dobras de sua roupa. Ele olha as nervuras frágeis das asas coloridas da borboleta. Ele sabe aquelas asas são como um mapa. Se procurar, encontrará nelas o poema perfeito. Ou a verdade que existe nas muitas verdades. Basta ler com cuidado. E Chang sabe que tem pouco tempo.
Chang avista um arado. O mar. Palácios. Ele avança com o olhar pelos desvios traçados nas asas da borboleta. E de repente, Lao.
“Enfim, Lao, nos reencontramos”.
Esse homem, com o rosto impresso nas asas da borboleta, foi outrora um camponês cuja miséria era tão grande que ele não agüentou e um dia enlouqueceu. Despertando de manhã, certa vez, ele convocou todos os seus empregados. Mas Lao nunca tinha tido empregados, nunca tinha sido servido, nem por homem, nem mulher, criança ou cachorro.
Seu filho, contemplando aquela majestade ridícula estampada no seu rosto, compreendeu que Lao não tinha conseguido sair do sonho daquela noite.
Sacudiu-o, sem ternura, mas não conseguiu trazê-lo novamente para o mundo sólido das sólidas coisas do mundo. E Lao então ficou no canto escuro da sua casa miserável, perfumando-se com perfumes imaginários, envolvido pelas mãos delicadas de uma mulher, também imaginária, que o servia.
Depois de sair o sol, ele sentou-se na praça do povoado e convocou seus súbditos. Homens, mulheres e crianças aproximaram-se curiosos, rindo e zombando dele. No meio da multidão, ele sorria, porque os outros rostos também sorriam, certamente de satisfação porque o tinham como senhor, pobre Lao.
Ele iniciou então um baquete imaginário, enquanto as pessoas lhe jogavam tufos de grama, folhas de árvore, cascas frutas, que ele ia comendo devagar, como se fossem finas iguarias. No fim, mandou cumprimentos aos cozinheiros, por tão grande habilidade na cozinha.
As pessoas, cansadas de zombarias, deixaram Lao no meio da praça, arrotando seu banquete imaginário. Assim ele instalou-se numa opulência fictícia e durante um ano viveu uma vida irrazoável, mas feliz.
Foi nessa época que Chang, cansado da vida na cidade, decidiu viver algumas semanas no povoado daquele que, agora, era apenas o “Simples”.
Nessa época Chang era o mais famoso médico do império. Logo que avistou Lao andando alegremente nos labirintos de sua loucura, foi tomado do desejo de exercer sobre ele a arte de seus conhecimentos. Não por generosidade nem pelo gosto do reconhecimento, mas apenas pela íntima e devoradora ambição: vencer o dragão da demência.
Ele então entrou também dentro dos labirintos da demência de Lao, lutando contra as sombras, até que no oitavo dia, conseguiu que Lao acordasse lúcido.
Ele acordou lúcido, sem a capa de protecção de sua demência, e achou seu corpo emaciado, seus olhos vermelhos e reencontrou a miséria. Ele perguntou-se, então, que pecado eu cometi, para voltar assim ao inferno, depois de um ano no paraíso?
Chang respondeu:
“Amigo, teu desespero me deixa alegre porque ele é uma prova de que estás curado. Meu trabalho chegou ao fim. Posso agora me retirar”.
Lao puxou-o pela manga e disse:
“Cínico! Olha bem para minha pele cheia de crostas, veja meu corpo miserável, minhas costelas purulentas, meu rosto amargurado. Como consegues dizer que me devolveste a saúde?”
“É bem verdade”, disse Chang, “que estás magro e mal vestido. Eu te aconselho a vestir alguma roupa de lã e a comer de maneira razoável, pelo menos duas vezes por dia. Se não tens dinheiro para pagar esses remédios elementares, nada posso fazer. Eu cuido da loucura das pessoas e não das loucuras da sociedade”.
Chang foi embora contente. Lao, desesperado, enforcou-se numa das vigas de sua casa.
No dia seguinte, o filho de Lao entrou com um processo contra Chang. Segundo ele, o médico havia envenenado a alma de seu pai e tinha ido embora sem se preocupar com os danos que havia causado.
Os moradores do povoado foram interrogados um por um e pareciam todos de acordo: Chang tinha quebrado a serenidade do Simples. Devia ser punido, portanto. O juiz mandou chamar o médico, que fez sua defesa com simplicidade.
“Meus conhecimentos trazem a cura aos loucos”, disse ele, “e por isso eu faço o bem. Eu apenas trouxe Lao de volta, porque sua felicidade era ilusória”.
“Mas toda felicidade não é ilusória?”, quis saber o juiz. “E tu mesmo, Chang, que precipitaste nas trevas da morte esse camponês miserável, apenas para ter o prazer orgulhoso de despojá-lo de uma ilusão, tu também não mostras que estás louco, agindo assim?”
Chang não respondeu. O Juiz leu a sentença:
“Homem sabido, mas pouco sábio, vais viver solitário a partir de agora. E para não ser tentado a se perder na própria loucura, serás condenado também a quebrar todos os espelhos. Nós esperamos que Lao, o Simples, um dia te perdoe. Vai, e que tua presença não seja uma sombra para o nosso olhar.
Hoje, vinte e sete anos se passaram, talvez mais. Chang não é mais assim, tão sem razão, a ponto de contar os dias, porque todos os dias são iguais uns aos outros, regressando sem cessar por diferentes artifícios, como as estações ou o capricho das nuvens.
Chang deixou de lado a canga de seu orgulho. Ele sabe agora que tudo é ilusão. Ele pega uma das pedras onde havia escrito seus versos e a joga nas águas. O espelho do lago se quebra, mas por um breve instante ele pode nele se contemplar. A borboleta voa e o homem sábio adormece na sombra de um salgueiro agitado pela brisa.



15/09/2010

O Julgamento entre duas mães.

Em Yingchuan dois irmãos moravam na mesma casa e suas esposas estavam esperando filhos. A mais velha perdeu o filho logo ao nascer, mas não deixou ninguém saber do fato. Quando a mais nova deu a luz ao seu filho, a mais velha roubou-o a noite, e assim questionaram sua posse durante três anos. Quando o caso foi levado ao conhecimento de Huang Pa, Primeiro Ministro, ele ordenou que a criança fosse colocada a dez passos de distância das duas mães. A um sinal seu as duas mulheres correram para o menino e pareciam dispostas despedaçá-lo de preferência a abandoná-lo. A criança chorava desesperadamente e a mãe receou feri-Ia, abandonando-a então. A mulher mais velha ficou muito satisfeita ao passo que a mais nova parecia inconsolável. Nesse momento Huang Pa declarou - "A criança é filha da mais jovem". Processou a mais velha e ela foi, de fato declarada culpada.

(Do Fengshut’ung, século II)

13/09/2010

A assombração



O Duque de Huan estava caçando em meio a floresta, enquanto Guanzhong guiava o coche, de repente o duque de Huan viu uma assombração. O duque de Huan segurou na mão de Guanzhong e perguntou:
— Guanzhong, você viu?
— Eu não vi nada.
Depois de voltar da caçada, o duque de Huan caiu acamado devido ao susto, não saindo de casa por vários dias seguidos.
O príncipe Gao’ao, sábio do reino de Qi, disse ao duque Huan:
— Você está fazendo mal a si mesmo, como é que uma assombração poderá lhe fazer mal? O rancor reprimido, que não consegue se dissipar faz com que fique com suas forças exauridas. O rancor contido faz com que as pessoas se irritem com facilidade ou afeta a memória; enfim, o rancor não dissipado faz as pessoas ficarem doente.
— Mas... existem ou não assombrações? — perguntou suplicante o duque Huan.
— Existem. Dentro da lama, dentro do fogão, dentro das residências, em todos os cantos das paredes, dentro da água, nas colinas, nas montanhas, nos lugares inóspitos existem as assombrações errantes e na floresta a assombração serpenteante.
— Como é a forma da assombração serpenteante?
— A assombração serpenteante tem o tronco grande como a roda e comprido como o varal da carruagem, veste uma túnica roxa e um chapéu vermelho. Este tipo de assombração o que mais detesta é o ribombo do trovão, ao ouvi-lo fica de pé segurando a cabeça. A pessoa que o vê é capaz de se tornar déspota.
Ao escutar a explicação toda, o duque de Huan caiu em gargalhadas e disse:
— Foi essa assombração mesma que vi.
Levantou, se vestiu, e continuou a conversar com o príncipe Gao’ao. No dia seguinte a doença sumiu.


Mojud, o homem com o comportamento inexplicável

Era uma vez um homem chamado Mojud. Ele vivia numa cidade onde havia conseguido um emprego como pequeno funcionário público, e tudo levava a crer que terminaria seus dias como Inspetor de Pesos e Medidas.
Um dia, quando estava caminhando pelos jardins de uma antiga construção próxima à sua casa, Khidr, o misterioso guia dos sufis, apareceu para ele, vestido em um verde luminoso. Então Khidr disse:
- Homem de brilhantes perspectivas! Deixe seu trabalho e se encontre comigo na margem do rio dentro de três dias.
E, assim dizendo, desapareceu. Excitado, Mojud procurou seu chefe e lhe disse que ia partir. Todos na cidade logo souberam desse fato e comentaram:
- Pobre Mojud. Deve ter ficado louco.
Mas como havia muitos candidatos a seu posto logo se esqueceram dele. No dia marcado Mojud encontrou-se com Khidr, que disse:
- Rasgue suas roupas e se jogue no rio. Talvez alguém o salve.
Mojud obedeceu, embora se perguntasse se não estaria louco. Como ele sabia nadar, não se afogou, mas ficou boiando à deriva por um longo trecho antes que um pescador o recolhesse em seu bote, dizendo:
- Homem insensato! A corrente aqui é forte. Que está tentando fazer?
- Na realidade eu não sei - respondeu Mojud.
- Você está louco - disse o pescador. - Mas o levarei à minha cabana de junco próximo ao rio e veremos o que se pode fazer por você.
Quando o pescador descobriu que Mojud era bem instruí-do, passou a aprender com ele a ler e a escrever. Em troca Mojud recebeu comida e ajudou o pescador em seu trabalho. Alguns meses depois Khidr reapareceu, desta vez junto à cama de Mojud, e disse:
- Levante-se e deixe o pescador. Será provido do necessário.
Vestido como pescador, Mojud imediatamente deixou a cabana e perambulou sem rumo até encontrar uma estrada. Ao romper da aurora viu um granjeiro montado num burro.
- Procura trabalho? - perguntou o granjeiro. - Estou precisando de um homem que me ajude a trazer algumas compras.
Mojud o acompanhou. Trabalhou para o granjeiro durante quase dois anos, quando aprendeu muito sobre agricultura, mas pouco sobre outras coisas.
Uma tarde, quando estava ensacando lã, Khidr fez nova aparição e disse:
- Deixe esse trabalho, dirija-se à cidade de Mosul e empregue as suas economias para tomar-se mercador de peles.
Mojud obedeceu. Em Mosul tomou-se conhecido como mercador de peles, sem voltar a ver Khidr durante os três anos em que exerceu seu novo ofício. Tinha reunido uma considerável quantia e estava pensando em comprar uma casa quando Khidr lhe apareceu e disse:
- Dê-me seu dinheiro, afaste-se desta cidade rumo à distante Samarkanda e lá passe a trabalhar para um merceeiro.
Foi o que Mojud fez. Logo começou a demonstrar sinais incontestáveis de iluminação.Curava os enfermos e servia a seu próximo tanto no armazém como nas horas de lazer. Seu conhecimento dos mistérios da vida se tomou cada vez mais profundo. Sacerdotes, filósofos e outros o visitavam e indagavam:
- Com quem você estudou?
- É difícil dizer - respondia Mojud .
Seus discípulos perguntavam:
- Como iniciou sua carreira?
-Como um pequeno funcionário público - respondia.
- E você deixou seu emprego para dedicar-se à automortificação?
- Não. Simplesmente o deixei.
Eles não podiam compreendê-lo. Pessoas o procuravam para escrever a história de sua vida.
- O que você foi, em sua vida? - perguntavam.
- Eu me atirei num rio, me tomei pescador e, no meio de uma noite, abandonei uma cabana de junco. Depois disso me converti em ajudante de um granjeiro. Enquanto estava ensacando lã, mudei de idéia e fui para Mosul, onde me tomei vendedor de peles. Lá economizei algum dinheiro, mas o dei. Caminhei para Samarkanda, onde trabalhei para um merceeiro. E aqui estou agora.
- Mas esse comportamento inexplicável não esclarece de modo algum seus estranhos dons e maravilhosos exemplos - diziam seus biógrafos.
- Assim é - dizia Mojud. Mojud exercitando sua incrível confiança em Khidr (Deus Interno), desenvolveu poderes extraordinários, dons de cura e clarividência, e assim viveu longamente, uma vida de confiança e entrega total na vida.
Então os biógrafos teceram uma história maravilhosa e excitante em tomo da figura de Mojud, porque todos os santos devem ter suas histórias, e a história deve estar de acordo com a curiosidade do ouvinte, não com as realidades da vida.
E a ninguém é permitido falar de Khidr directamente. É por isso que esta história não é verídica. É a representação de uma vida. A vida real de um dos maiores santos sufis.


06/09/2010

O Mercador e o Louro



Era uma vez um mercador que mantinha um papagaio preso em uma gaiola. Quando estava para ir à Índia, em uma viagem de negócios, ele disse ao pássaro:
- Eu estou indo à sua terra natal. Você tem alguma mensagem para os seus parentes selvagens?
- Simplesmente diga a eles - disse o papagaio - que estou vivendo aqui em uma gaiola.
Quando o mercador retornou, falou ao papagaio:
- Eu sinto dizer que tão logo encontrei os seus parentes selvagens lá na floresta e os informei de que você estava engaiolado, o choque foi muito forte para um deles.
Assim que ouviu a notícia, caiu do galho onde estava e não tenho dúvida de que morreu de tristeza. Imediatamente, logo que o mercador terminou de falar, o papagaio teve um colapso e caiu inerte no chão de sua gaiola.
Penalizado, o mercador tirou o papagaio da gaiola, colocando-o do lado de fora, no jardim.
Então o papagaio, que havia captado a mensagem, levantou-se e voou para fora do alcance do mercador.

03/09/2010

O Cachorro, o Bordão e o Sufi

Um homem vestido como um sufi caminhava certo dia pela estrada quando viu um cachorro à beira do caminho, ao qual golpeou duramente com seu bordão. O cachorro, ganindo de dor, correu à procura do grande sábio Abu-Said. Arrojando-se a seus pés e mostrando sua pata ferida, clamou por justiça contra o sufi que o maltratara tão cruelmente. O sábio chamou a vítima e o acusado. Fitando o sufi, ele disse:
- Ó insensato! como é possível tratar assim um pobre animal? Veja bem o que você lhe fez!
- A culpa não me cabe, e sim ao cão. Não lhe bati por mero capricho, mas sim por ter sujado meu manto.
Mas o cachorro persistia em sua queixa. Então o venerável sábio disse ao cachorro:
- Em vez de aguardar a Recompensa Final, permita que lhe dê uma compensação pela sua dor.
Ao que o cachorro retrucou:
- Grande e sábia criatura, quando vi este gomem ataviado como um sufi, pude deduzir que não me faria mal algum. Em troca, se eu tivesse visto um homem vestido de maneira comum, naturalmente que me afastaria dele. Meu verdadeiro erro foi supor que a aparência exterior de um homem devotado à verdade representava segurança. Se deseja que ele seja castigado, despoje-o da vestimenta dos Eleitos. Retire-lhe os paramentos dos servos da Virtude...
O cachorro estava num certo Degrau do Caminho para a verdade. É um erro crer que um homem deve ser melhor do que aparenta.

01/09/2010

A antiga cítara

Havia entre os objectos preciosos que enchiam a sala do Tesouro imperial uma antiga cítara que ninguém ousava tocar depois de muitotempo. Conta a lenda que ela era feita de madeira de uma árvore que, em tempos imemoriais, tinha sido o rei da floresta de Longmen, um lugar de grande concentração de energia. Sua cabeça altiva dialogava com o vento e com as estrelas e suas raízes profundas alimentavam-se do sopro do Dragão da Terra. O espírito da árvore tinha um grande poder e o instrumento musical que o músico mágico tinha fabricado em tempos antigos com sua madeira era recatado e difícil de ser aprisionado.
Raros os músicos que conseguiam encordoar a cítara e mais incomum ainda os que conseguiam tirar delas sons melodiosos. Huangdi, o mítico ImperadorAmarelo, foi a o primeiro a tocá-la, compondo para ela árias esquecidas que, dizem, podiam sair à caça das nuvens ou trazer a chuva. Nos séculos seguintes, houve ainda alguns grandes conhecedores de música que conseguiram arrancar sons harmoniosos da cítara sagrada, como se ela os reconhecesse. Mas, depois de muitas dinastias, todos que tentaram tocá-la conseguiram apenas sons desafinados e lamentáveis cacofonias, sinal de que os verdadeiros músicos não existiam mais.
Um imperador quis então escolher o novo músico da Corte e recorreu a essa cítara, que ele mandou retirar da sala dos tesouros. Ele queria saber se existia alguém cuja arte tinha ainda algo de mágico ou se um talento desse tipo era apenas uma lenda de tempos antigos. Ele anunciou em todo o império os termos do concurso.
Poucos músicos apresentaram-se, com medo de passar vergonha diante do Filho do Céu. E foi com dificuldade que os músicos da Corte se submeteram à prova. O que eles mais temiam aconteceu: eles tiraram do instrumento apenas guinchos, grunhidos e coinchos, que levaram ao rosto do imperador e da Corte todo tipo de careta. Os poucos músicos vindos dos quatro cantos do império não trouxeram também qualquer satisfação à platéia.
Chegou então um músico errante, um desses andarilhos que se vestem com trapos, toca para os pássaros dos pinedos, para os peixes nas torrentes e para os peregrinos no pátio dos templos. Ele pegou a cítara, acariciou longamente sua caixa de ressonância, como se tentasse tranqüilizar um cavalo inquieto. Com uma mão, fez vibrar cada corda, apenas aflorando-a, e com a outra, dirigia os sons com um sorriso interior de uma mente que contempla a amada.
Uma melodia subiu docemente, vagas notas cristalinas foram se elevando e evanesceram como o fluxo e o refluxo das ondas nas margens de um lago. E de dentro desse tempo, que era outono, um vento morno soprou na sala. Ele chegou com o perfume das cerejeiras em flor. Os semblantes da nobre assembléia irradiaram uma alegria tranqüila. Os músicos reconheceram logo o tom Kiao, o da primavera. A música acelerou-se de repente e pegou a tonalidade Zhe. Um vento quente fez cricrilar os grilos debaixo das vigas e das traves, os pulsos reconheceram o chamado e os corpos entraram num torvelinho de vida. Os dignatários perderam o ar contido e seguiram os sons com movimentos da cabeça, balançando o corpo no ritmo da cadência. Alguns se levantaram e dançaram. A música ficou mais lenta, apoiada no tom Wu. Um vento glacial soprou seus lamentos entre as colunas de mármore e os flocos de neve voltearam na sala e se misturaram com as lágrimas da nostalgia no rosto da nobre assembléia.
A cítara deu suas últimas notas, que ficaram ressoando ainda durante muito tempo sob a abóbada do palácio. Depois fundiram-se, devagar, na vibração do silêncio, que se transformou em perplexidade presente. Depois de algum tempo, a voz do imperador tirou a platéia de seu estranho torpor.
— Minhas felicitações. Você conseguiu chega ronde todos malograram. Acaba de seu escolhido o Músico da Corte. Diga o seunome e explique o segredo de sua arte.
O músico errante esboçou um tímido sorriso e disse:
— Meu nome é Peiwu, Majestade. No meu humilde entender, os outros malograram porque eles queriam fazer as pessoas ouvirem sua música. Eu, ao contrário, deixei a cítara escolher seu repertório. Eu seria incapaz de dizer se foi Peiwu que tocou a cítara ou se foi a cítara que tocou Peiwu. Graças a esse instrumento divino, eu fui até o fim no meu sonho de músico e de agora em diante não preciso de mais nada. Esse foi meu objetivo ao vir até aqui.
Ele deixou a cítara aos pés do Imperador e passou pela grande porta laqueada de vermelho e de dourado. Quando o imperador saiu de sua estupefação, deu ordens para que trouxessem diante dele o Músico da Corte que tinha escolhido. Mas a neblina do outono já tinha engolido sua sombra.

A jóia na cabeça

Certa vez havia um grande e santo rei! que tinha uma imensa força e um coração extremamente amável. Ele foi o supremo entre os reis e era considerado de uma maneira altamente honrada que não era apropriado a ninguém. As pessoas chamavam-no de Rei Girador da Roda porque tinha recebido uma roda de jóias dos céus que girava enquanto governava o seu domínio e porque parecia como um sagrado e santo homem.
Ele foi um fino governante, e quando encontrava um estado que era dominado pelo mau, empreendia uma guerra contra ele e esmagava-o. Lutou continuamente: contra esses maus estados até que os subjugou a todos.
O Rei ficava muito contente em ver alguns dos seus soldados distinguir-se na guerra. De acordo com os seus méritos, dava-lhes vários tesouros como ouro, prata, conchas, ágata, coral e âmbar, ou almofadas, casas, vilas e cidades. Ele também distribuiu elefantes, cavalos e veículos aos que foram dignos. Cada vez que os soldados eram recompensados com presentes honráveis do rei, eles se vangloriavam, dizendo:
- Recebi anéis dourados e colares do Rei Girador da Roda.
- Ele me deu um fabuloso elefante e uma carreta de boi, elogiando a minha brava luta na guerra.
- Foram roupas desta vez para mim. Mas ainda conseguirei muito mais na próxima vez por minha valiosa luta.
- Mas os senhores não me superam. Estarei lutando com todas as minhas forças também.
Ele, contudo, não lhes deu uma brilhante gema que mantinha em sua cabeça porque a gema era a única da sua espécie no mundo. Se desse a alguém, seus seguidores poderiam ficar chocados.
Sakyamuni então explicou a história a Manjusri: "Manjusri! Eu, o Buda, tenho guardado o Sutra de Lótus cuidadosamente em meu coração e não contei a ninguém a respeito dele. Neste sentido sou como o Rei Girador da Roda que deu muitos tesouros aos seus soldados, mas que escondeu a mais valiosa gema. Eu, como o rei, tenho lutado e vencido muitos demônios. Muitos dos meus discípulos também lutam contra eles. Dei-lhes muitos tesouros da Lei e trouxe-os mais próximos da iluminação, mas não lhes ensinei o Sutra de Lótus que é a quintessência de toda Lei budista.
"Não disse anteriormente aos meus seguidores sobre o Sutra de Lótus porque ele poderiam não ter compreendido. Num mundo que está dominado pela mal e pela ignorância, as pessoas não têm a capacidade de compreender essa doutrina profunda. Assim foi necessário empreender a guerra e destruir o mal. Assim fazendo, foi possível ensinar gradualmente as pessoas, cada vez mais a respeito do verdadeiro estado de vida. Uma vez que as suas visões errôneas da realidade e a sua ignorância sejam revertidas, eles se tornarão mais receptivos e menos céticos daquilo que agora desejo lhes ensinar.
"Um dia o Rei Girador da Roda. viu um soldado de extraordinário mérito e deu-lhe aquela preciosa gema. Sou como esse rei. 0 Sutra de Lótus é o mais excelente e profundo de todos os ensinos pregados pelos Budas. Estou, portanto, expondo-o finalmente tal conto o rei que, somente no final, deu a brilhante gema a aquele que foi o seu mais digno seguidor.
" Manjusri! 0 Sutra de Lótus é o depósito do secreto saber do Buda. Está acima de todos os outros sutras e ensinos. Eu, portanto, conservei-o secreto e abstive-me de revelá-lo por um longo tempo. Agora estou pronto para o expor a toda a humanidade pela primeira vez! "

Esta história é uma das sete parábolas ensinadas no Sutra de Lótus, que aparece no décimo-quarto capitulo, '"Anrakugyohon". Ela mostra o principio de "kaigon kenjitsu" - Substituir os ensinos provisórios com o verdadeiro, que é, naturalmente, o Sutra de Lótus.

Parábola budista



31/08/2010

A rã no poço

Uma rã morava dentro de um poço abandonado. Um dia apareceu perto de sua casa uma grande tartaruga do mar.
Ela começou então a contar vantagens para a tartaruga, dizendo que era muito bom morar dentro do poço.
“Ah, como me sinto bem! É o melhor lugar do mundo. Quando tenho vontade, saio pra caminhar um pouco. Se estou cansada, descanso, apoiada nos tijolos fresquinhos que revestem as paredes de meu poço. Ah, no meu poço tem também muitas moscas. Nem preciso sair, me cansando, pra pegá-las. Estendo a língua e schwupt, recolho uma em pleno vôo.
Às vezes, bóio na água. Delicioso! Fico muito tempo boiando, pensando na vida, de papo pro ar. Outras vezes, nado de um lado pro outro, espirro água, faço uma confusão. Ou de noite, no meu canto, contemplo a nesga do céu estrelado, que ora se reflete nas águas, ora parece estar ao meu alcance. Ou brinco no barro. Já brincou no barro? Maravilhoso!
Olha só essas caranguejos e esses girinos passeando em volta. Eles têm inveja de mim. Porque eu não posso me comparar com eles. Eu sou a dona do meu poço e do meu nariz. Eu tenho uma liberdade imensa. Se você quiser, pode me visitar de vez em quando.
Tanto falou a rã, que a tartaruga do mar ficou curiosa e quis entrar no poço. Mas não conseguiu passar pela entrada, muito estreita para ela. Penou para livrar o casco do limo e das ervas. E disse:
Você, rã, conhece o oceano? Ele ocupa boa parte do mundo, criando imensidões por trás de imensidões de água. Dentro dele existem poços de muitos quilômetros de profundidade, montanhas, florestas e milhões de animais marinhos.
Quando na terra chove semparar, enchendo rios, transbordando lagos, provocando enchentes, toda essa água vai para o oceano e ninguém nota a elevação do nível das águas. E se há seca, os rios secam, os lagos desaparecem, os lençóis d’água dentro da terra diminuem e ninguém nota se o nível das águas baixou alguns centímetros.
E quando estou em casa, nadando no meio das ondas, algumas de muitos metros de altura, ou passeando nas profundezas onde ninguém jamais chegou, percebo o quanto sou feliz de viver nesse imenso oceano.
Nesse momento, a rã, um pouco confusa, despediu-se, porque enão tinha nada para responder.



27/08/2010

A origem do bicho-da-seda



Há muito tempo, um homem partiu para uma longa viagem e deixou sua filha em casa, cuidando de um cavalo. Ela estava tão sozinha e com tantas saudades de seu pai que disse brincando para o cavalo:
- Se trouxer meu pai de volta, eu me caso com você!
Imediatamente o cavalo empinou, arrebentando as rédeas, e partiu a galope até onde estava o pai da menina. Surpreso e contente, o homem montou e o cavalo relinchou com tristeza, olhando na direcção de onde tinha vindo.
- Deve existir alguma razão para isso – pensou o homem – Será que aconteceu alguma coisa em casa?
Voltou imediatamente. E como o animal tinha mostrado muita inteligência, tratou-o bem, dando-lhe comida extra. Mas o animal não queria comer e toda vez que a moça passava ele empinava de excitamento – e isso aconteceu em diversas ocasiões.
O pai, confuso, quis saber o que tinha acontecido e sua filha lhe contou a brincadeira que tinha feito.
- Não acredito! – exclamou ele – você não poderia ter brincado assim, pois pode significar a desonra de nossa família. Acho melhor sair de casa por uns tempos.
Ele matou então cavalo e pendurou a carcaça num gancho no fundo do pátio.
Quando o homem saiu novamente para viajar, a moça e a filha do vizinho começaram a brincar perto do cavalo. A moça deu um chute nele e disse:
- Seu bestalhão! Como pode acreditar que eu me casaria com você? Morto e estendido – bem que mereceu essa sorte!
Quando ela estava falando, o cavalo empinou, envolvendo-a com sua carcaça, e partiu a galope. A filha da vizinha ficou muito assustada e não teve coragem de salvá-la. Correu para contar ao seu pai. Quando ele voltou e procurou pelos dois, tinham desaparecido, mas alguns dias depois foram achados no galho de uma grande árvore.
A moça e o cavalo tinham se transformado em bicho-da-seda, fiando fios de seda na árvore – e formando um grande e espesso casulo, de um tipo nunca visto antes. As mulheres da vizinhança, que usam esses casulos, lucraram muito com esses casulos incomuns.
As árvores onde esses casulos apareceram passaram a se chamar sang ou amoreira, que significa “perdido”. Desde então todo mundo as cultiva , e este é o bicho-da-seda que existe actualmente.

26/08/2010

O mais lento pode vencer a corrida


Quando voava sobre um lago, com muita fome, Garuda, o pássaro mágico de Vishnu, avistou uma tartaruga. A tartaruga desviou seu interesse sugerindo-lhe que, antes que a comesse, deveriam apostar uma corrida para ver quem era mais rápido.
O pássaro concordou e se elevou no ar, pronto para voar. Enquanto isso, a tartaruga reuniu todas as tartarugas – seus amigos e parentes – e as dispôs em filas de cem, de mil, de dez mil, de cem mil, de um milhão e de dez milhões. Dessa forma, cobriram toda a superfície da região.
Quando estava tudo arranjado, a tartaruga falou:
— Estou pronta para começar. Vossa alteza pode ir pelo ar, que irei pela água. Vamos ver quem será o ganhador. Se eu perder, seu prémio será comer-me.
Garuda voou com todas as forças, mas logo se deteve e chamou a tartaruga. E por onde que voasse, ela sempre respondia mais à frente. Voou até mesmo para Himaphan, a grande montanha. Por fim, teve de admitir, diante da tartaruga, que tinha sido derrotado e, desconcertado, voltou para seu lar, a árvore rathal, para descansar.


23/08/2010

O Imperador Gaozu Constrói Xinfeng



O pai do Imperador Gaozu (? – 188 AC), da Dinastia Han, mudou-se de sua cidade Feng para a capital Chang’an* e foi morar no palácio. Ele ficou infeliz depois disso. O Imperador pediu às pessoas mais próximas de seu pai qual poderia ser a causa. Eles disseram que quando seu pai estava em Feng, ele passava o tempo falando com os açougueiros, com vendedores de rua mais interessados em vender bebidas, com vendedores de bolos, assistindo às brigas de galo ou jogando bola. Agora que tudo tinha acabado, ele se deprimia.
O Imperador ordenou então que fosse construído um novo distrito, chamado Xinfeng**, em Chang’an e que as pessoas mais velhas de Feng se mudassem para esse lugar. Seu pai pelo menos achou boa a notícia. É por isso que desde então um grande número de desocupados moram no Distrito Xinfeng, mas não pessoas nobres.
Quando o imperador era jovem, ele muitas vezes fazia sacrifícios à Mãe Terra em Feng. Ele ordenou então a construção de um tempo idêntico no novo distrito. Quando Xinfeng e o templo ficaram prontos, as ruas e as construções eram idênticas às de Feng. E quando as pessoas de Feng andavam nas ruas, eles não tinham dificuldade alguma de reconhecer suas velhas casas. Conduzindo o gado pelas trilhas, eles podiam encontrar suas casas também sem hesitação. Com isso, as pessoas que se pudaram para Chang’an ficaram muito congtentes com a semelhança e elogiaram o arquiteto Hu Kuan. Eles o agradeceram muito e em um mês mais ou menos ele recebeu 100 onças de ouro.

16/08/2010

Zuo Ci, o mágico

Zuo Ci, que também se chamava Yuanfang, nasceu em Lujiang e conhecia bem astrologia e os cinco clássicos. Ele percebeu que os problemas estavam se acumulando e que a Dinastia Han, entrava em declínio.
- Vivemos dias de degeneração e desordem – disse ele –. Pode ser fatal para um funcionário superior ostentar uma grande riqueza. Igualmente, não vale a pena procurar a fama ou o lucro.
Ele tinha estudado filosofia e era capaz de fazer mágicas incríveis, como, por exemplo, fazer com que os espíritos lhe preparassem comida refinada, sempre que ele quisesse. Praticava meditação no alto do Monte Tianzhu, onde tinha encontrado instruções sobre como fazer uma poção mágica, que lhe permitiria se transformar a qualquer hora. As maravilhas de que ele era capaz eram sem conta.
O Senhor Cao Cao ouviu suas proezas e enviou um emissário para trazê-lo à sua presença. Ele jogou Zuo numa cela e pôs guardas a vigiá-lo, deixando-o sem comer durante um ano inteiro. Depois disso, Zuo saiu da prisão forte e saudável. Cao Cao convenceu-se de que ele era um mágico, pois quem, a não ser um mágico, poderia ficar tanto tempo sem comer? Planejou então matá-lo. Zuo ficou sabendo desse plano e pediu permissão para ir embora.
- Por que ir embora? – perguntou Cao Cao.
- Porque mais cedo ou mais tarde o senhor vai me matar – respondeu.
Cao Cao negou que quisesse matá-lo, e permitiu que ele fosse embora, mas, antes, iria lhe oferecer uma festa.
- Já que eu vou embora – disse Zuo – vamos dividir um copo de vinho.
Cao Cao aceitou o convite.
Era inverno e o vinho, que tinha sido aquecido, estava muito quente. Zuo pegou um grampo de do cabelo e mexeu o vinho. Logo o grampo desapareceu, que nem um pingo de tinta num tinteiro. Cao Cão deu o copo novamente para ele, a fim de que bebesse primeiro. Mas Zuo simplesmente traçou uma linha no vinho com seu grampo, e o líquido dividiu-se em duas partes. Zuo bebeu uma metade e passou a outra para Cao Cao. E quando Cao Cao ficou desconfiado, Zuo ofereceu-se para beber ele mesmo o que restava. Depois de beber o vinho, jogou o copo no teto. O copo ficou grudado no alto, como se fosse um beija-flor. Todos os hóspedes maravilhavam-se com o beija-flor, até que, copo de novo, caiu no chão. Mas nesse momento Zuo já tinha desaparecido, e Cao Cao ficou sabendo que ele tinha ido embora.
Cao Cao sentiu então mais vontade ainda de matar Zuo, para ver se ele tinha algum truque novo para escapar da morte. Ordenou que ele fosse preso, mas Zuo escondeu-se em um rebanho de ovelhas e seus perseguidores não puderam achá-lo. Quando eles contaram as ovelhas e acharam que tinha uma a mais, desconfiaram que ele tinha se transformado numa delas.
- Nosso Mestre quer apenas vê-lo – disseram – seria melhor que retomasse sua forma normal. Não precisa ter medo, porque nada vai acontecer.
Um grande carneiro adiantou-se no rebanho e ajoelhou-se para perguntar:
- Estão falando a verdade?
Os enviados de Cao Cao responderam:
- Claro!
Eles estavam a ponto de agarrá-lo quando todas as ovelhas – centenas delas - transformaram-se também em carneiros e ajoelharam-se para perguntar:
- Estão falando a verdade?
De novo, portanto, eles não sabiam a quem agarrar.
Mais tarde alguém conseguiu saber onde estava Zuo e o prendeu, não porque ele não conseguisse fugir, mas porque ele mesmo queria ser preso para exibir seus poderes sobrenaturais.
Zuo Ci foi jogado numa cela. Quando o carcereiro chegou para torturá-lo, descobriu que havia dois Zuo, um do lado de dentro da cela e outro do lado de fora, e ele não distinguia qual era o verdadeiro e o falso.
Cao Cao soube disso ficou ainda com mais raiva, e ordenou que ele fosse executado na praça do mercado. Mas novamente o perderam. Eles fecharam todos os portões da cidade para que ele não escapasse. Quando aqueles que nunca o tinham visto perguntaram como ele era, os homens de Cao Cao disseram:
- Ele é cego de um olho e veste uma capa e roupa preta. Se avistarem uma pessoa com essas características, podem prendê-la que serão recompensados.
Neste mesmo instante todas as pessoas na praça do mercado tornaram-se cegas de um olho e apareceram vestidas com uma capa e roupa preta, e assim Zuo não pôde ser capturado novamente. Cao Cao disse aos seus homens que prendessem todos os caolhos vestidos de preto na praça e as matassem.
Um dos homens de Cao Cao agarrou o primeiro homem e o matou, enviando a notícia do que tinha feito a Cao Cao, que ficou muito satisfeito. Mas quando o cadáver foi levado diante dele, descobriram que era apenas um monte de palha – o corpo tinha evaporado.
Mais tarde alguns homens de Jinzhow disseram que eles tinham visto Zuo Ci. E Liu Biao, o governador, determinou que ele fosse preso e executado por feitiçaria. Liu Biao reuniu suas tropas, e Zuo achou que ele quisesse era assistir a um pouco de mágica. Zuo aproximou-se Liu Biao e disse:
- Tenho um presentinho para cada um de seus soldados.
Liu biao falou:
- Você é um estranho e está sozinho. Existem muitas pessoas no exército – como poderia dar um presente para cada um deles?
Mesmo com a má vontade de Liu Biao, Zuo insistiu. E logo enviou um emissário para saber de que presente se tratava. Acharam um pouco de vinho e carne seca numa panela. Mas quando tentaram trazer a panela e o vinho, nem mesmo dez homens conseguiram. O próprio Zuo trouxe então a carne e o vinho para os soldados. Cortou a carne, e pediu que mais de 100 homens o ajudassem a distribuí os pedaços, junto com um pouco de vinho, a cada um dos homens. Cada um recebeu três copos de vinho e uma fatia de carne, que tinha o gosto de carne normal. No fim, cerca de 10 mil soldados comeram carne e beberam vinho, mas dentro da panela continuava a mesma quantidade dos dois alimentos. Havia também mil outros convidados neste banquete, e todos eles ficaram bêbados de tanto vinho. Liu Biao, muito impressionado, desistiu de matar Zuo.
Zuo foi para o reino de Wu, batendo na casa de um homem chamado Zu Duo, que entendida de mágica e vivia em Dantu. Alguns dos protegidos de Xu foram ao portão com cinco ou seis carros de boi. E mentiram:
- Xu Duo não está em casa.
Embora soubesse que essa afirmação não era verdade, Zuo foi embora. Logo os bois começaram a subir nas árvores. Os homens ficaram impressionados e subiram nas árvores, atrás dos bois, mas os bois desapareceram, e quando os homens desceram, os bois apareceram de novo nos galhos mais altos. Espinhos de quase 30 centímetros cresceram nas rodas dos carros de boi, e era impossível cortá-los, e as rodas não saíam mais do lugar. Os homens foram falar com Xu:
- Chegou um caolho. Achamos que ele era um tipo qualquer, e mentimos para ele, dizendo que o senhor não estava em casa. Logo os nossos carros de boi ficaram enfeitiçados. Pode nos dizer o que isso significa?
Xu disse:
- Ah, deve ser Zuo Ci. E vocês não deviam ter tentado enganá-lo. Se irem bem depressa, pode ser que consigam encontrá-lo.
Eles foram em direções diferentes e quando o encontraram, um em cada lugar, pediram desculpas pelo que tinham feito. E quando voltaram, o feitiço tinha acabado os bois estavam novamente nos carros.
Em seguida, Zuo Ci foi visitar Sun Ce, o senhor de Wu, que também queria matá-lo. Quando saíram para passear juntos, Sun convidou Zuo para que caminhasse na frente de seu cavalo, planejando apunhalá-lo pelas costas. Zuo Ci estava com uma vara de bambu, e começou a caminhar na frente do cavalo de Sun. Mas embora Sun batesse no seu cavalo, não conseguia alcançar Zuo. Percebeu logo que isso era devido aos poderes mágicos de Zuo Ci e desistiu.
Mais tarde Zuo Ci falou com um monge, chamado Ge Xuan, que iria para a Montanha Huo, para fazer uma poção mágica. E desde essa época ele nunca mais foi visto.



Como Caçar Macacos



Havia uma vez um macaco que adorava cerejas. Certo dia, viu uma cereja muito apetitosa e desceu da árvore onde estava encarapitado para apanhá-la. Mas acontece que a frutinha estava dentro de uma garrafa de vidro transparente.
Após algumas tentativas frustradas, o macaco achou que poderia apoderar-se da cereja enfiando a mão pelo gargalo da garrafa. Tão logo fez o que pensava, fechou a mão em torno da fruta. Mas aí percebeu que não podia retirar seu punho agarrando a cereja, porquanto era mais largo do que a dimensão interna do gargalo.
Na realidade, tudo aquilo fora premeditado, já que a cereja colocada no interior da garrafa constituía uma armadilha preparada por um caçador de macacos, conhecedor do modo de pensar desses animais. Ao ouvir as queixas do mono, o caçador se aproximou.
O macaco tentou fugir, mas como acreditava que sua mão estava presa na garrafa, não pôde mover-se com rapidez suficiente para escapar. Mas enquanto pensava numa saída, continuou segurando a cereja. O caçador alcançou sua presa. Golpeou então o macaco no cotovelo, com força, conseguindo que ele soltasse de repente a fruta. O macaco estava livre, mas fora capturado.
O caçador tinha usado a cereja e a garrafa e ainda as conserva consigo.

14/08/2010

Nüwa, a deusa criadora dos homens

Diz a lenda que o deus do céu, Hua Xu, deu à luz a gémeos. O de sexo masculino se chamou Fu Xi e o de sexo feminino se chamou Nüwa. O corpo de Fu Xi é coberto de escamas, enquanto Nüwa tem a cabeça de humano e o corpo de serpente. A deusa tinha um imenso poder, era capaz de mudar de forma mais de setenta vezes por dia.
Havia pouco tempo que ocorrera a separação entre o céu e a terra e não existiam seres humanos, por isso Nüwa pegou um punhado de lama e moldou a sua imagem e semelhança várias crianças, mas algum tempo depois, ela se cansou. Pegou então uma corda e embebeu-a na lama e balançou-a em meio ao céu e os pingos de lama que caíram sobre a terra, também se transformaram em seres humanos. A partir desse ato da deusa passou a existir a diferença de classe social: os que foram moldados pela própria Nüwa se tornaram ricas e os seres humanos feitos pelos pingos de lama que caíram na terra, se tornaram pobres.
No noroeste da China existe uma montanha chamada Imperfeita, que ganhou este nome devido à fúria de Gonggong, o deus das águas, ao ser derrotado na guerra pelo trono. Impetuosamente, ele se jogou contra à montanha, um dos pilares de sustentação do céu, que desmoronou e arrebentou a corda que segurava a terra. Logo, o céu se inclinou para a direção noroeste e a terra afundou em direcção sudeste, fazendo com que o sol e a lua nascessem ao leste e se pusesse ao oeste, e os cursos dos rios desviaram-se para o mar oriental, provocando uma grande inundação por toda a parte. Da grande fenda do céu, jorrava também água sem parar, gerando muitas mortes. Nüwa vendo os seus filhos em tamanho apuros, deu-lhe um aperto no coração e decidiu pôr as mãos à obra para os salvar.
Ela colheu do fundo dos rios várias pedras multicoloridas, acendeu o fogo e fundiu as pedras até chegar ao estado de cola e a utilizou para remendar a fenda do céu. Como ela temia que o céu despencasse outra vez, cortou as quatro patas de uma gigante tartaruga marinha para servirem de pilares nos quatro cantos da terra, como se o céu fosse um pano que cobrisse a terra. A partir daí nunca mais os seres humanos precisaram se preocupar que o céu caísse-lhes sobre a cabeça.
Mas ainda existiam muitas catástrofes devido ao céu ter despencado. Na região de Ji, um dragão negro se revirava no rio a fim de provocar inundação daquele local. Nüwa matou-o, bem como aproveitou e dispersou as feras para lugares bem longe dos humanos.
Mais ainda havia muito a se fazer, pois as inundações provocaram muitas doenças. Nüwa queimou os juncos em cinza e amontoou-os em formas de barragens para conter as águas, e assim, surgiram os continentes para os seres humanos habitarem.
Depois de todo esse trabalho, a paz voltou a reinar e a Terra a prosperar, mas Nüwa sentiu-se muito cansada e se deitou. Seu corpo se desintegrou e se transformou em muitas coisas, entre elas, dez deuses que guardam a inteligência e a genialidade.

09/08/2010

O sonho da borboleta

Huizi estava procurando Zhuangzi. Encontrou-o cochilando debaixo de uma árvore.
- Acorda, Zhuangzi!
- Zhuangzi? Sou eu? Quem sou eu?
E contou que tinha adormecido e sonhado e que nesse sonho ele transformara-se numa borboleta. Havia batido asas aqui e ali, certo de que era uma borboleta.
-Voei e sentia um regozijo tão grande que logo me esqueci de que era Zhuangzi. E fiquei confuso: eu era essa magnífica borboleta que havia sonhado, ou era uma borboleta sonhando ser Zhuangzi?
Talvez Zhuangzi fosse borboleta. Talvez a borboleta fosse Zhangzi!
E concluiu:
- É esse o resultado da transformação das coisas.



O tigre da montanha que devorava homens


Vivia outrora na província de Longxi (hoje, Gansu) um homem chamado Li Cheng, parente distante do imperador Tianbao.
Quando era jovem, Li Cheng tinha sido um estudante brilhante, apaixonado pela caligrafia chinesa. Depois de excelentes estudos e depois um início de carreira promissora na Administração Imperial, ele foi nomeado, contra sua vontade, chefe de polícia numa pequena cidade do interior.
Li Cheng detestava essa função. Achava que era um posto indigno dele. A amargura fazia com que ele fosse arrogante e algumas vezes, dizia aos seus companheiros.
— Mas o que faço aqui, tão inteligente, junto de ignorantes como vocês?
Claro, ninguém gostava dele.
Depois de algum tempo, Li Cheng pediu demissão desse posto que detestava e passou a vive sozinho na sua casa, como um recluso, durante quase um ano. Depois disso, pela necessidade de ganhar sua vida, ele arrumou suas coisas e partiu para uma província do sudoeste, onde iria ser administrador. Como ele era excelente nessa função, foi muito estimado e se cercou de pessoas que admiravam sua erudição e sua inteligência. Um ano ou dois mais tarde, no momento de voltar àsua terra natal, os amigos que ele tinha feito no lugar o cobriram de presentes.
No caminho de volta, Li Cheng parou em um albergue ao pé de uma montanha. Lá ele pegou uma febre súbita e começou a falar coisas sem sentido. Tomado por terríveis acessos de raiva, ele fazia com que a vida de seu ajudante fosse pior ainda, agredindo-o a todo instante. Depois de dez dias, Li Cheng piorou e desapareceu gritando dentro da noite.
Ninguém soube para onde tinha ido. Seu ajudante procurou-o durante algum tempo e depois ficou por ali, esperando. Depois de um mês, como não tivesse voltado, o ajudante sumiu com o cavalo de seu mestre e tudo o que ele tinha.
No ano seguinte, um homem chamado Yuan Zhan estava passando pela região, a caminho de uma missão imperial no sul. Ele ia a cavalo, com uma escolta importante. Certa manhã, quando se preparava para pegar a estrada depois de uma noite numa pousada, o dono da hospedaria disse para ele:
— Não parta assim tão cedo! Na estrada, não longe daqui, esconde-se um tigre muito feroz, que devora quem dele se aproxima. Ninguém se aventura, a não ser durante o dia. Ainda está um pouco escuro. Espera só mais um pouco.
— Mas eu represento o imperador! — impacientou-se Yuan Zhan. Somos muitos, temos cavalos, não vai ser um animal da montanha que vai nos amedrontar.
E deu o sinal de partida.
Logo que a pousada desapareceu de vista, um tigre saiu de seu esconderijo urrando. Yuan Zhan deu um grito de terror. Então, para sua surpresa, ele viu o tigre dar meia volta e desaparecer novamente no mato. E logo uma voz se ouviu de uma touceira:
— Incrível! Quase matei meu velho amigo.
E Yuan Zhan reconhecer essa voz. Era a de Li Cheng, amigo de infância e de juventude, que ele não via há muito temo. Adolescentes, depois jovens, eles tinham estudado juntos e estavam ligados de amizade, até que a vida os tinha separado.
Yuan Zhan não estava compreendendo nada. Primeiro, o tigre, e depois essa voz...
Ele perguntou:
— Quem é? É o meu amigo Li Cheng, de Longxi?
— Sim, sou eu, Li Cheng, teu amigo. Por favor, espera um pouco, para que possamos aparecer um para outro.
Yuan Zhan desceu do cavalo e foi na direção da touceira de bambu.
— Meu amigo Li Cheng, há quanto tempo. O que aconteceu?
— E você? — respondeu a voz — Desde que nos caminhos tomaram direções diferentes, tantos anos já passados, não tenho notícias suas. O que aconteceu nesse tempo todo? Onde vai, nesse momento mesmo? Há pouco, vi passar dois orgulhosos cavaleiros, precedidos por um carregador com roupas imperiais. Me diz uma coisa, você é o corregedor do imperador, em missão oficial?
— Sim, tive a honra de ter sido nomeado corregedor. Nesse exato momento, estou a caminho de Cantão.
— Você é digno dessa função, com certeza - retomou a voz. - Você era um espírito refinado, e tinha, me lembro bem, a integridade absoluta exigida de todo corregedor. A você a nobre tarefa de ser vigilante em relação à honestidade dos representantes do imperador! Sim, nosso imperador escolheu bem ao nomeá-lo para este posto. Estou feliz com isso, do fundo do coração. Minhas felicitações!
Yuan Zhan respondeu:
- Nós tínhamos feito estudos parelhos. Rivais e inseparáveis amigos, lembra? Nós conseguimos juntos os diplomas, iguais no êxito. Depois o tempo passou muito depressa, não tivemos mais essa oportunidade de nos vermos nem de nos ouvirmos. No entanto, que alegria poder compartilhar com você essas reflexões. E que surpresa, hoje, de evocar assim uma amizade tão antiga.! Mas por que se esconde, em vez de vir aqui? É assim que a gente recebe um velho amigo?
— Eu não sou mais um ser humano - respondeu a voz do outro lado dos bambus. - Eu sou um tigre. Como ousaria aparecer diante de um amigo?
Yuan Zhan ficou sem voz durante algum tempo. Depois perguntou, tremendo:
— Mas...como isso pode ter acontecido?
— Foi no ano passado - respondeu o tigre. Eu vinha do sudoeste, para voltar à nossa província. Uma noite, parei em um albergue, no pé da montanha. Do dia para noite, caí doente e endoideci. Corri para a montanha em delírio e bem depressa me descobri andando a quatro patas. Eu senti que meu coração ficou feroz, minhas forças foram multiplicadas por dez. Meu corpo cobriu-se de pêlo e diante dos viajantes na estrada, dos agricultores nos campos, dos pássaros ou de outros animais, tinha apenas um desejo, o de me jogar sobre eles e devorá-los. Um dia, a fome foi mais forte do que eu. Um homem passava por lá, eu o ataquei, eu o despedacei, eu o devorei sem deixar nada para trás. Desde então, é assim que eu vivo. No entanto, apesar de minha arrogância passada — sim, eu era arrogante, bem sei — eu sonho ainda muitas vezes nas pessoas de quem gosto e nos meus amigos de antigamente. Mas eu violei a mais sagrada das proibições. E aqui estou, transformado numa fera. Como poderia aparecer diante das pessoas de quem mais gosto? É certo que você e eu estudamos juntos e éramos muito próximos um do outro. E agora, o que somos hoje? Você, com um cargo imperial, enche de orgulho os seus familiares e amigos. Eu, tenho de me esconder no bosque e o mundo dos homens ficou impossível para mim. Eu pulo e suspiro para o céu. Eu baixo a cabeça e choro calado. Perdido, eu estou perdido para o serviço dos outros.
Nesse momento, o tigre ficou em silêncio e começou a soluçar baixinho.
— Mas se é tigre - disse Yuan Zhan - como consegue falar com uma voz humana?
— Só meu aspecto mudou - respondeu o tigre. - Tenho ainda um coração de gente, uma inteligência humana. Mas sou bruto e impulsivo, provocando temores e ódios, incapaz de observar as regras de amizade e de hospitalidade. Eu suplico, não me esquece e perdoa meu comportamento. Mas se nossos caminhos se cruzarem de novo, pois logo vais passar por aqui na volta de Guanzhou, tenho medo de esquecer nossa antiga amizade e.... Cuidado, então! Não me deixa cometer um crime que me faria ainda mais desprezível!
O tigre deu um longo suspiro e acrescentou:
— Dizer que éramos tão próximos! Posso pedir uma coisa?
— Como eu poderia recusar algo a um velho amigo? — respondeu Yuan Zhan — O que é? Eu farei o impossível.
— Obrigado - disse o tigre.- Sem essa resposta, não poderia lhe pedir nada. Depois que enlouqueci no albergue e depois que desapareci nas montanhas, meu criado partiu com meu cavalo e tudo o que eu tinha. Minha família deve ainda morar na mesma aldeia e sem dúvida eles se perguntam o que deve ter acontecido comigo. Quando voltar do sul, pode anunciar para eles que eu morri? Não diz mais nada – nada do que ouviu hoje. Eu vou ser reconhecido para sempre se fizeres isso.
Yuan Zhan assegurou que cumpriria essa missão. O tigre suspirou novamente.
— Não tenho mais nada nesse mundo. E meu filho é ainda pequeno para ganhar a vida. Você exerce uma função muito importante. E foi sempre um modelo de integridade e de lealdade para com os amigos. Nossa amizade era única. Se puder cuidar de tempos em tempos do meu filho, para que ele não se torne um mendigo, agradeço muito, e isso pelo menos deixaria minha alma em paz.
Ao dizer isso, o tigre calou-se e começou a chorar. Yuan Zhan disse para ele, chorando também:
— Do mesmo jeito que partilhávamos as alegrias, agora partilhamos nossas penas. Seu filho agora é meu filho. Farei o possível para ser digno da responsabilidade que me confia. Não se preocupe com o futuro dele.
— Antigamente - retomou a palavra o tigre - eu escrevi alguns textos que nunca foram publicados e os rascunhos deles estão dispersos ou perdidos. Eu gostaria de ditá-los a vocêi. Poderia copiá-los? Mesmo se esses textos não forem publicados, pode ser que essas pequenas reflexões possam ser úteis aos meus descendentes.
Yuan Zhan pediu ao seu ajudante que lhe trouxesse papel e um pincel de caligrafia, para escrever o que o tigre estava lhe ditando. Ao todo, foram vinte capítulos curtos. O estilo era fluente, o sentido, profundo. Em muitas ocasiões, Yuan Zhan suspirava ao reler o que escrevia.
— Essas palavras vão dizer às pessoas da minha família o que eu tentei fazer - concluiu o tigre - e o homem que eu tentei ser. Nada me autoriza a esperar que minhas palavras terão um sentido para as futuras gerações, mas obrigado por tê-las posto no papel. E agora, segue sua missão, eu já o atrasei muito. Vai depressa, porque sua escolta já deve estar impaciente. Agora nossos caminhos se separam. Eu não vou lhe contar a dor que estou sentindo.
Dando um triste adeus, YuanZhan voltou para a estrada. Seu primeiro cuidado, ao voltar, foi fazer com que a mensagem chegasse ao filho de Li Cheng, bem como um pouco de dinheiro para os funerais de seu pai. Um mês mais tarde, o adolescente foi à capital e bateu na casa de Yuan Zhan, para pedir alguma coisa que seu pai tivesse deixado. O corregedor ficou sem saída: ele revelou tudo ao filho de seu amigo. Em seguida, ele tirou de seu salário uma quantia mensal, para que o filho de seu amigo e a viúva de Li Cheng passassem dificuldades. Mais tarde ele tornou-se vice-ministro da Guerra.



05/08/2010

Quando as águas foram mudadas



Certo dia, faz muito tempo, Khidr, o mestre de Moisés, dirigiu uma advertência ao género humano. Numa data determinada, declarou, todas as águas do mundo que não tenham sido especialmente guardadas desaparecerão. Serão então renovadas com uma água diferente e que fará os homens enlouquecerem.
Somente um homem prestou atenção à advertência. Recolheu bastante água e armazenou-a em lugar seguro, esperando que as águas mudassem de características.
No dia indicado as torrentes deixaram de correr, os poços secaram, e o homem que dera ouvidos à advertência, vendo o que ocorria, foi a seu refúgio e bebeu da água guardada no pequeno reservatório.
Quando notou, lá de seu abrigo, as fontes jorrarem novamente, desceu da colina e foi misturar-se aos outros homens. Comprovou que estavam pensando e falando de um modo inteiramente diverso do anterior; nem sequer tinham lembrança do que acontecera, tampouco de terem sido alertados por Khidr. Quando tentou dialogar com eles, percebeu que o julgavam louco, tratando-o com hostilidade ou compaixão, ao invés de compreendê-lo.
De início ele não bebeu da água renovada, retornando a seu refúgio e servindo-se diariamente da água que guardara. Mas, finalmente, resolveu beber da nova água por não poder suportar mais a tristeza de seu isolamento, comportando-se de maneira diferente dos demais. Bebeu a nova água e se tornou igual aos outros. Então se esqueceu inteiramente de tudo que se referia à água especial que armazenara. E seus semelhantes passaram a encará-lo como a um louco que fora devolvido à razão milagrosamente.

O pássaro indiano

Um mercador mantinha um pássaro numa gaiola. Estando de partida para a Índia, país do pássaro, perguntou-lhe se queria algo de lá. O pássaro lhe pediu sua liberdade, mas esta lhe foi negada. Então solicitou ao mercador que fosse a uma floresta na Índia e que anunciasse seu cativeiro aos pássaros livres que ali se encontrassem. O mercador assim fez e mal se referira ao seu cativo, um pássaro selvagem semelhante ao que ele mantinha na gaiola caiu ao chão da árvore onde pousara, sem sentidos.
Pensando que o pássaro fosse parente do seu canário engaiolado, o mercador ficou pesaroso por ter sido o causador daquela morte. Regressou a seu lar e então o pássaro cativo perguntou-lhe se trazia boas notícias da Índia.
- Receio que minhas notícias sejam más. Um de seus parentes teve um colapso e caiu morto a meus pés quando anunciei que você estava preso numa gaiola.
Mal essas palavras foram pronunciadas, o pássaro do mercador sofreu um colapso e caiu no fundo da gaiola.
- A notícia sobre a morte de seu parente também lhe trouxe a morte - murmurou o mercador.
Desolado, recolheu o pássaro e o colocou no rebordo da janela. Imediatamente o pássaro reviveu e voou para uma árvore próxima.
- Pode perceber agora - disse o pássaro - que o que você interpretou como uma tragédia era, na verdade, um boa notícia para mim. E de como a mensagem, ou seja, a indicação de como me comportar para obter minha liberdade, me foi transmitida por meio de você, meu captor.
Dito isso, se afastou num voo largo, livre por fim.

04/08/2010

Yeh Hsien



Certa vez, antes de Ch'in (222-206 a.C.) e Han havia um chefe das cavernas da montanha a quem os nativos chamavam chefe Wu. Ele se casou com duas mulheres uma das quais morreu deixando-lhe uma menina chamada Yeh Hsien. Essa menina era muito inteligente e habilidosa no bordado a ouro e o pai amava-a ternamente, mas, quando êle morreu, viu-se maltratada pela madrasta que seguidamente a forçava a cortar lenha e mandava-a a lugares perigosos para apanhar água em poços profundos.
Um dia, Yeh Hsien pescou um peixe com mais de duas polegadas de comprimento e que tinha as barbatanas vermelhas e os olhos dourados. Trouxe-o para casa e o pôs numa vasilha com água. Cada dia o peixe crescia mais e tanto cresceu que, finalmente, a vasilha não lhe serviu mais e a menina o soltou numa lagoa que havia por trás de sua casa. Yeh Hsien costumava alimentá-lo com as sobras de sua comida. Quando ela chegava à lagoa, o peixe vinha até a superfície e descansava a cabeça na margem, mas se alguém se aproximasse não aparecia.
Esse hábito curioso foi notado pela madrasta que esperou o peixe sem que este lhe aparecesse. Um dia, lançou mão de astúcia e disse à enteada: - "Não está cansada de trabalhar? Quero dar-lhe uma roupa nova." Em seguida fêz Yeh Hsien tirar a roupa que vestia e mandou-a a várias centenas de li para trazer água de um poço. A velha, então, pôs o vestido de Yeh Hsien e estendeu uma faca afiada na manga da blusa; dirigiu-se para a lagoa e chamou o peixe. Quando o peixinho pôs a cabeça fora d’água, ela o matou. Por essa ocasião, o animalzinho já media mais de dez pés de comprimento e, depois de cozido, mostrou ter sabor mil vezes melhor do que qualquer outro. E a madrasta enterrou seus ossos num monturo.
No dia seguinte, Yeh Hsien voltou e ao aproximar-se da lagoa verificou que o peixe desaparecera. Correu para chorar escondida no meio do mato e nisso um homem de cabelo desgrenhado e coberto de andrajos desceu dos céus e a consolou, dizendo: - “Não chore. Sua mãe matou o peixe e enterrou os ossos num monturo. Vá para casa, leve os ossos para seu quarto e os esconda. Tudo o que você quiser peça que lhe será concedido". Yeh Hsien seguiu o conselho e pouco tempo depois tinha uma porção de ouro, de jóias e roupas de tecido tão caro que seriam capazes de deleitar o coração de qualquer donzela.
Na noite de uma festa tradicional chinesa, Yeh Hsien recebeu ordens de ficar em casa para tomar conta do pomar. Quando a jovem solitária viu que a mãe já ia longe, meteu-se num vestido de seda verde e seguiu-a até o local a festa. A irmã, que a reconhecera virou-se para a mãe dizendo: - "Não acha aquela jovem estranhamente parecida com minha irmã mais velha ?" A mãe também teve a impressão de reconhecê-la. Quando Yeh Hsien percebeu que a fitavam, correu, mas com tal pressa que perdeu um dos sapatinhos, o qual foi cair nas mãos dos populares.
Quando a mãe voltou para casa encontrou a filha dormindo com os braços ao redor de uma árvore; assim pôs de lado qualquer pensamento que pudesse ter sido acerca da identidade da jovem ricamente vestida.
Ora, perto das cavernas, havia um reino insular chamado T'o Huan. Por intermédio de forte exército governava duas vezes doze ilhas e suas águas territoriais cobriam vários milhares de li. O povo vendeu, portanto, o sapatinho para o Reino T'o Huan, onde foi ter às mãos do rei. O rei fêz as suas mulheres experimentá-lo, mas o sapatinho era cerca de uma polegada menor dos das que tinham os menores pés. Depois fez com que o experimentassem todas as mulheres do reino sem que nenhuma conseguisse calçá-lo.
O rei, então, suspeitou que o homem que o tinha levado o tivesse obtido por meios mágicos e mandou aprisioná-lo e torturá-lo. Mas o pobre infeliz nada pôde dizer sobre a procedência do sapato. Finalmente, emissários e correios foram enviados pela estrada para irem de casa em casa a fim de prenderem quem quer que tivesse o outro sapatinho. O rei estava muito intrigado.
A casa foi encontrada, bem como Yeh Hsien. Fizeram-na calçar os sapatinhos e eles couberam perfeitamente. Depois ela apareceu com os sapatinhos e o vestido de seda verde tal como uma deusa. Mandaram contar o caso ao rei e o rei levou Yeh Hsien para seu palácio na ilha juntamente com os ossos do peixe.
Assim que Yeh Hsien foi levada, a mãe e a irmã foram mortas a pedradas. Os populares apiedaram-se delas, sepultando-as num buraco e erigindo um túmulo a que deu o nome de "Túmulo das Arrependidas". Passaram a reverenciá-las como espíritos casamenteiros e sempre que alguém pedia-lhes uma graça no sentido de arranjar ou ser feliz em negócios de casamento tinha certeza de que sua prece era atendida.
O rei voltou à sua ilha e fêz de Yeh Hsien sua primeira espôsa. Mas durante o primeiro ano de seu casamento, ele pediu aos ossos do peixe tantos jades e coisas preciosas que eles se recusaram a conceder-lhe mais desejos. Por isso o rei pegou os ossos e enterrou-os bem perto do mar, junto com uma centena de pérolas e uma porção de ouro. Quando seus soldados se rebelaram contra ele, foi ter ao lugar em que enterrara os ossos, mas a maré os levara e nunca mais foram encontrados até hoje. Essa história me foi contada por um velho servo de minha família, Li Shih-yüan. Ele descendia de um povo chamado Yungchow e sabia de muitas historias estranhas do sul.