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07/10/2008

Não quero


Um dia, indo eu pela estrada, ouvi dois rapazinhos falando muito alto:
–Não, dizia um com voz enérgica, não quem.
Parei e perguntei-lhe:
– Que é que tu não queres, meu rapaz?
– Não quero dizer à minha mãe que venho da escola, porque é mentira. Vai-me ralhar, bem sei; mas dantes me ralhe do que mentir.
– E fazes bem, volvi eu. Es um rapaz como se quer.
Apertei-lhe a mão, enquanto o outro pequeno, o que lhe insinuara a mentira, se ia embora todo envergonhado.
Daí a tempos, passando pela mesma aldeia e necessitando de falar ao professor, entrei na escola, onde reconheci logo os dois pequenos; o que não quis mentir, sorria-me, enquanto que o outro, vendo-me, baixou os olhos. Ao despedir-me, interroguei o mestre sobre os dois alunos:
– Oh! disse-me ele, falando do primeiro, é um magnífico estudante, um pouco teimoso mas honrado, sincero, sempre disposto a confessar as suas faltas e, o que é ainda melhor, a repará-las. O outro, ao contrário, é mentiroso, covarde, incorrigível.
– Pois já vejo que me não tinha enganado.
E contei-lhe o que se passara.





16/09/2008

O rico e o pobre


[ShepherdBoys_Linnell.jpg]


Martinho era um rapazito, que ganhava a sua vida a fazer recados; um dia, tornando de uma aldeia muito distante da sua, morto de fadiga, deitou-se debaixo de uma árvore, à porta de uma estalagem, na beira da estrada. Principiava a comer um bocado de pão que tinha trazido para jantar, quando chegou uma bela carruagem, em que vinha um fidalguinho, com o seu preceptor. O estalajadeiro correu logo a perguntar aos viajantes se queriam apear-se, mas responderam-lhe que não havia tempo, e que lhes trouxesse ali mesmo um frango assado e uma garrafa de vinho.
O Martinho ficou pasmado a olhar para eles; olhou depois a sua côdea de broa, a sua velha jaqueta, o seu chapéu todo roto, e suspirando exclamou baixinho:
– Quem me dera a mim no lugar daquele menino tão rico! Antes ele aqui estivesse, e eu dentro da sua carruagem!
O preceptor ouviu o Martinho e repetiu as palavras dele ao seu aluno; este, lançando a cabeça fora da berlinda, chamou pelo Martinho com a mão.
– Diz-me lá é rapaz: ficavas satisfeito, podendo trocar a minha sorte pela tua?
Desculpe, meu senhor, replicou o Martinho corando, aquilo que eu disse não foi por mal.
– Olha que me não zango, tornou o fidalguinho. Ao contrário, vamos fazer a troca.
– Isso é mangação!... tornou o Martinho; um menino tão rico punha-se mesmo agora no meu lugar! Papo muitas léguas ao dia, como broa e batatas, e o senhor fidalguinho anda de carruagem, janta frangos e bebe do melhor.
– Pois se me dás o que tens e que eu não tenho, levas em troca e de boa vontade a minha riqueza toda.
O Martinho ficou de olhos pasmados, sem saber o que havia de responder; mas o preceptor continuou:
– Aceitas a troca?
– Ora essa! concluiu o Martinho, é boa a pergunta! Oh! como toda a gente da aldeia vai ficar assombrada quando me virem rodar numa carruagem tão bonita.
Então o fidalguinho chamou o trintanário, que abriu a portinhola e o ajudou a descer. Mas qual foi o espanto do Martinho, vendo-lhe uma perna de pau e a outra tão fraca, que se via obrigado a andar em duas muletas! Depois observando-o de mais perto, notou que era muito pálido, com cara triste de doente.
O fidalguinho sorriu e acrescentou com ar benévolo:
– Vê Já, sempre desejas a troca? Darias, se pudesses, as tuas pernas valentes e as tuas faces vermelhas, pelo gozo de ter uma carruagem e de andar bem vestido?
Oh! não, já não quero! replicou o Martinho.
– Pois eu, antes desejaria ser pobre e ter saúde. Mas, quis o destino que fosse aleijado e doente; sofro os achaques com paciência, dando graças a Deus pelos bens que me entregou na sua infinita misericórdia. Faz tu o mesmo, e lembra-te que, se és pobre e comes mal, tens força e saúde, coisas que valem bem uma carruagem, e que não podem comprar-se com dinheiro.

27/08/2008

O malmequer



Ouvi com atenção esta pequenina história:
No campo, junto da estrada real, havia uma casinha muito bonita, que deveis ter visto muitas vezes. Há na frente um jardinzinho com flores, rodeado por uma sebe verdejante. Ali perto, nas bordas do vaiado, no meio da erva espessa, floria um pequenino malmequer. Desabrochava a olhos vistos, graças ao Sol, que repartia igualmente a sua luz tanto por ele como pelas grandes e
ostentosas flores do magnífico jardim. Uma linda manhã, já inteiramente luminosa, com as folhinhas alvas e desabrochando, parecia um sol em miniatura circundado de raios.
Pouco se lhe dava que o vissem no meio da erva e não fizessem caso dele, pobre florinha insignificante. Vivia satisfeito, aspirando deliciado o calor do Sol, e ouvindo o canto da cotovia, que se perdia nos ares.
Nesse dia o malmequer, apesar de ser numa segunda-feira, sentia-se tão feliz como se fosse um domingo. Enquanto as crianças sentadas nos bancos da escola estudavam a lição, ele, sentado na haste verdejante, estudava na formosura da natureza a bondade de Deus, e tudo o que sentia misteriosamente, em silêncio, julgava ouvi-lo traduzido com admirável nitidez nas canções alegres da cotovia. Por isso, pôs-se a olhar com uma espécie de respeito, mas sem inveja, para essa avezinha feliz que cantava e voava.
– Eu vejo e oiço, ponderou o malmequer; o Sol aquece-me e o vento acaricia-me. Ora, adeus! não tenho razão de me queixar.
Dentro da sebe havia muitas flores altivas, aristocráticas; quanto menos aromas rescendiam, mais orgulhosas se aprumavam. As dálias empertigavam-se, para fingir maior tamanho que o das rosas; mas não é o volume que faz a rosa. As túlipas davam-se ares pela beleza das cores, pavoneando-se pretensiosamente. Nem se dignavam lançar os olhos ao pequenino malmequer, enquanto que o pobrezinho as admirava exclamando: – «Que ricas e que bonitas! A cotovia irá certamente visitá-las. Graças a Deus, poderei assistir a este belo espectáculo». – E no mesmo instante a cotovia dirigiu o voo, não para as dálias e túlipas, mas para a relva, junto do triste malmequer, que morto de ventura nem sabia o que havia de pensar.
E o passarinho, saltitando em roda alegremente, cantava: – «Que erva tão macia! ai! que bonita flor, com um coração de oiro, vestidinha de prata!»
Não pode imaginar-se a felicidade do malmequer!
A ave acariciou-o com o bico, gorjeou de novo, e perdeu-se depois no azul do firmamento. Durante mais de um quarto de hora não pôde o malmequer reprimir a sua comoção. Meio envergonhado, mas todo contente, olhou para as outras flores do jardim, testemunhas da grande glória que ele acabava de alcançar; mas a haste vermelha e pontiaguda das túlipas manifestava o despeito. As dálias tinham a cabeça toda inchada.
Se falassem, diriam coisas bem desagradáveis ao pobre malmequer. A florinha viu isto, e ficou melancólica.
Daí a pouco entrou no jardim uma rapariguita com uma grande faca afiada e brilhante, aproximou-se das túlipas, e cortou-as uma a uma.
– Que desgraça! disse o malmequer suspirando; é horrível; foram-se todas.
E, enquanto a rapariga levava as túlipas, o malmequer alegrava-se por ser apenas uma florinha simples escondida entre as ervas. Agradecido à bondade de Deus, cerrou as folhas ao cair da tarde, e sonhou toda a noite com a luz do Sol e a cotovia.
No outro dia de manhã, assim que o malmequer abriu as folhas reconheceu a voz do passarinho, mas o seu canto era triste, muitíssimo triste. Pobre cotovia! Tinham-na encerrado numa gaiola, suspensa entre uma janela aberta; prisioneira, cantava a alegria da liberdade, a beleza dos campos e as suas antigas viagens luminosas através do espaço ilimitado.
O pequenino malmequer bem desejaria acudir-lhe: mas como? Era difícil. A compaixão pela desventurada cotovia fez-lhe esquecer as belezas que o cercavam, o doce calor do Sol e a alvura resplandecente das suas próprias folhas.
Nisto dois rapazinhos entraram no jardim. O mais velho trazia aberta uma navalha comprida e afiada como a da pequerrucha, que cortara as túlipas. Encaminharam-se para o malmequer, que não lhes compreendia as intenções.
– Levemos daqui um pedaço de erva para a cotovia, disse um dos rapazes.
E começou a fazer um quadrado profundo à volta da florinha.
– Arranca a flor, disse o outro.
A estas palavras o malmequer estremeceu de medo. Ia morrer e nunca abençoara tanto a existência, como no momento em que esperava entrar com a relva na gaiola da cotovia.
– Não; deixemo-la, tornou o mais velho. Está aí muito bem.
Foi por conseguinte poupado, e entrou na gaiola da cotovia.
O pobre passarinho, queixando-se amargamente do cativeiro, batia com as asas sangrentas nos arames da gaiola. E o malmequer, se não falava, como é que o havia de consolar em tamanha dor?
Correu assim a manhã.
– Água! exclamou a prisioneira. Saiu toda a gente, e não me deixaram ao menos uma gota de água. A garganta escalda-me, ardo em febre. Ai! Não há remédio senão morrer, longe do sol esplêndido, longe da fresca verdura e de todas as maravilhas da criação!
Depois mergulhou o bico na relva húmida, para se refrescar um pouco. Viu então o malmequer; fez-lhe um sinal de cabeça amigável, e disse-lhe afagando-o:
– Também tu, pobre flor, morrerás aqui! Em vez do mundo inteiro, que já foi meu, deram-me a tua companhia e este pedacito de relva. Nada mais! Oh! que saudades das belas coisas que perdi!
– Se eu te pudesse consolar! cismava o malmequer, incapaz do mais ligeiro movimento.
No entanto o seu hálito perfumado tornou-se mais intenso que de costume; a cotovia sentiu-o, e, apesar da sede devoradora que a obrigava a arrancar a erva, teve o máximo cuidado em não bulir, nem de leve, na pequenina flor.
Caiu a noite; e não voltara ninguém, que enchesse o bebedoiro à desventurada cotovia. Então ela abriu as suas lindas asas, agitou-as angustiadamente, e pôs-se a cantar uma cançãozinha melancólica; e o seu coração, quebrado de penas, enfim, deixara de bater. O malmequer, diante disto, não pôde já, como na véspera, cerrar as folhas e dormir; curvou-se para o chão, doente de mágoa e de tristeza.
Os rapazitos só no outro dia voltaram, e, dando com o passarinho morto,debulhados em lágrimas, fizeram-lhe uma cova. Meteram o cadáver numa caixa vermelha, lindíssima, e celebraram-lhe um enterro grandioso, juncando-lhe a sepultura com folhas de rosas e madressilvas.
Pobre passarinho! Enquanto viveu e cantou, esqueceram-se dele deixando-o morrer à sede na gaiola; depois de morto é que o choraram, prestando-lhe homenagens bem inúteis.
A relva e o malmequer, deitaram-nos à poeira do caminho; a flor, que tão extremosamente amara a cotovia, dessa é que ninguém se lembrou.



14/07/2008

A criança, o anjo e a flor





Quando uma criança morre, vem um Anjo do Céu, toma-a nos braços, e desdobrando as asas imaculadas, voa por cima dos sítios que ela amou durante a sua pequenina existência; de quando em quando desce o Anjo a colher flores, que leva a Deus, para que desabrochem no Paraíso mais belas ainda do que tinham sido na Terra. Deus aceita as flores, escolhe uma delas, toca-a nos lábios, e a flor escolhida, adquirindo voz imediatamente, começa a cantar os coros maviosos dos bem-aventurados.
Ora escutai o que disse o Anjo a uma criança morta, que levava nos braços. Pairou primeiro com ela sobre a casa da sua meninice e ao depois sobre um jardim balsâmico, estrelado de flores.
– Qual é a flor que desejas cultivar no Paraíso? interrogou o Anjo.
Havia nesse jardim uma roseira, que fora desempenada, vigorosa, magnífica; mas quebraram-lhe o pé, e todos os ramos, cheios de botõezinhos, lindíssimos, vergavam estiolados para o chão.
– Infeliz roseira! disse a criança ao Anjo;, vamos nós buscá-la, a ver se pode florir no Paraíso.
O Anjo obedeceu e beijou a criança. Colheram muitas flores, boninas humildes e violetas silvestres.
Acabara a colheita e não voavam ainda para Deus. Já era de noite e pairavam por cima de uma grande cidade. Atravessaram uma das ruas mais estreitas, cheia de cacos de louça, de vidros partidos, de farrapos, de toda a casta de imundície. Entre esses escombros distinguiu o Anjo uni vaso de flores com a terra dispersa no chão, onde se viam as longas raízes de uma flor dos campos, meio estiolada; lançaram-na para ali, como coisa morta.
– Merece a pena erguê-la, disse o Anjo; levemo-la, e pelo caminho, voando, te contarei a história desta flor. Lá ao fundo, lá ao fundo, naquela rua estreita e tortuosa, morava um pequerrucho, uma criança miserável e doente. Quando se sentia melhor, o mais que podia era passear de muletas ao longo do seu pequenino quarto. Nalguns dias de Verão, os raios do Sol visitavam-lhe a alcova, durante meia hora. Então o menino sentado à janela, aquecido ao sol, imaginava-se vagueando pelos campos: não conhecia dos bosques, da fresca verdura da Primavera, senão o ramo de faia, que urna vez o filho do vizinho tinha colhido para ele. Suspendia por cima da cabeça o ramo verdejante, e, supondo-se abrigado do sol debaixo das árvores, sonhava, enlevado com o doce canto doe passarinhos. Um dia, o pequeno do vizinho trouxe-lhe flores, e por acaso entre elas havia uma com raízes; plantou-a num vaso e pô-lo à varanda. A flor plantada por mão inocente cresceu, cresceu, e todos os anos desabrochava em novas flores. Era o seu jardinzinho, o seu único tesouro neste mundo; regava-o, cultivava-o, adorava-o; fazia-lhe haurir os raios do Sol até ao último. Com ele sonhava todas as noites, e, quando se sentiu morrer, foi para ele que se voltou.
Faz hoje um ano que esse menino habita o Paraíso; a sua idolatrada flor, esquecida à janela desde Então, murchou, estiolou-se e lançaram-na à rua finalmente. É esta que nós aqui levamos. Quase seca, é o tesouro do nosso ramalhete. Deu mais prazer e alegria do que todos os canteiros do jardim de um príncipe.
– Como sabes tu isso? perguntou a criança, que o Anjo levava para o Céu.
– Sei-o, respondeu o Anjo, porque era eu o pequenino doente que andava em muletas; como não havia de eu reconhecer a minha flor bem-amada!
A criança abriu os olhos e viu a radiosa figura do Anjo quando entravam no Céu, onde tudo era alegria e felicidade. Deus pegou nas flores, levou-as ao coração, mas a que ele beijou foi a florinha silvestre, desprezada e murcha. E a flor, por milagre adquirindo voz, pôs-se a cantar com as almas que rodeiam o Criador, umas junto dele, outras ao longe, formando círculos que vão aumentando sucessivamente, multiplicando-se até ao infinito, num com inextinguível e deslumbrador.