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20/03/2008

O corvo e a raposa

Luiz Gonzaga Fleury (Trad.)
(1891-1969)


O senhor mestre corvo, em um galho pousado,
No bico tinha preso um queijo apetitoso.
Sendo atraída ai pelo manjar cheiroso,
Diz-lhe mestra raposa em tom adocicado:
Bom dia, mestre corvo, meu senhor.
Que bonito que sois! Que penas, que esplendor!
Palavra que se a voz tendes maviosa
Quanto vossa plumagem é vistosa,

Sois a fênix, oh! Sim, das florestas daqui.
De orgulho, o corvo, então, nem coube mais em si.
E para a linda voz mostrar,
Descerra o bico e assim deixa o queijo escapar.
A raposa o agarrou e disse: Meu senhor,
Aprendei que o adulador
Vive à custa de quem lhe dá atenção
Vale um queijo por certo esta lição.
O pobre corvo, então, confuso e envergonhado,
Jurou, mas tarde já, não ser noutra apanhado.



11/03/2008

O galo e a pérola


Um galo achou num terreiro
Uma pérola, e ligeiro
Corre a um lapidário e diz:
"Isto é bom, é de valia.
De milho um grão todavia
Era um achado mais feliz".

Um néscio ficou herdeiro
De um manuscrito, e a um livreiro
Vai à pressa, e fala assim:
"É bom, é livro acabado.
Concordo, mas um ducado
Valia mais para mim!"


Gonçalves Crespo (Trad.)

27/02/2008

O menino e o mestre-escola


Tenho em vista zurzir na minha história
Todo o pedante, autor de vão discurso,
Que ralhando, não vale a quem se afoga,
A míngua de recurso.

Rapaz travesso, doidejando às soltas,
Perto da margem de empolado rio
Tais cabriolas fez que, ao fim de contas,
Dentro d'água caiu.

Quis o céu que no sítio do sinistro
Vegetasse, a propósito, um salgueiro,
A que, abaixo de Deus, salvar a vida
Deveu o calaceiro.

Passava por ali um mestre-escola;
E o rapaz a gritar: "Senhor, socorro!
Acudi-me, por Deus, que o ramo estala,
E, em se quebrando, eu morro".

Ouvindo este clamor, o pedagogo,
Sem notar ser imprópria a ocasião,
Dirige ao pobre, prestes a afogar-se,
Este longo sermão:

"Vede a que ponto chega a travessura!
Vão lá matar-se por traquinas tais!
Como é difícil tomar conta deles!
Oh! Desgraçados pais!

Quanto à família e os mestres envergonham!
Que sustos causam! Que profunda mágoa!"
Tendo assim esgotado o palanfrório,
Tira o menino d'água.

Gente, em que não pensais, aqui se abrange;
Pedantes, tagarelas e censores,
Entram no quadro, que esboçado fica
Com verdadeiras cores.

Faz grande turma cada classe dessas,
— Raça, da Providência abençoada,
Que em tudo busca exercitar, sem peias,
Sua língua afiada. —

Mas ouve, amigo meu: Se em transes luto
Vem primeiro livrar-me do embrechado;
Deita arenga depois e a gosto exaure
O teu palavreado.

Barão de Paranapiacaba (Trad.)

20/02/2008

O Sol e as Rãs

Antonio Pitanga (trad.)


Nas bodas de um tirano, o povo em regozijo
Afogava em prazer suas apreensões;
Somente Esopo achava haver pouco juízo
Nos que assim se entregavam a tantas expansões

O sol pensou, diz ele, outrora em se casar,
E a nova foram dar
Às filhas das lagoas;
E tanto isso aterrou-as
Que, em uníssono coro, se puseram a lamentar
"O que será de nós se filhos chega a ter?

Se havendo um sol somente é duro de sofrer
Com uma meia dúzia o mar tem de secar
E os habitantes seus serão sacrificados
Adeus, juncos e banhados!
"Nossa raça destemida
Ver-se-á só reduzida
A triste água do Estige
Pra tão fraco animal,
Essas rãs, a meu ver, pensavam menos mal.





01/02/2008

A raposa e a cegonha



Quis a raposa matreira
Que excede a todas na ronha.
Lá por piques de outro tempo,
Pregar um ópio à cegonha.

Topando-a, lhe diz: "Comadre,
Tenho amanhã belas migas,
E eu nada como com gosto
Sem convidar as amigas.

De lá ir jantar comigo
Quero que tenha a bondade:
Vá em jejum porque pode
Tirar-lhe o almoço a vontade".

Agradeceu-lhe a cegonha
Uma oferenda tão singela,
E contava que teria
Uma grande fartadela.

Ao sítio aprazado foi.
Era meio-dia em ponto.
E com efeito a raposa
Já tinha o banquete pronto.

Espalhadas em um lajedo
Pôs as migas do jantar
E à cegonha diz: "Comadre,
Aqui as tenho a esfriar.

Creio que são muito boas, —
Sansfaçon, — vamos a elas".
Eis logo chupa metade
Nas primeiras lambidelas.

No longo bico a cegonha
Nada podia apanhar;
E a raposa em ar de mofa,
Mamou inteiro o jantar.

Ficando morta de fome,
Não disse nada a cegonha;
Mas logo jurou vingar-se
Daquela pouca vergonha.

A dar-me o gosto amanhã
D'ir também jantar comigo".

A raposa lambisqueira
Na cegonha se fiou,
E ao convite, às horas dadas,
No outro dia não faltou.

Uma botija com papas
Pronta a cegonha lhe tinha;
E diz-lhe: "Sem cerimônia,
A elas, comadre minha".

Já pelo estreito gargalo
Comendo, o bico metia;
E a esperta só lambiscava
O que à cegonha caía.

Ela, depois de estar farta,
Lhe disse: "Prezada amiga,
Demos mil graças ao céu
Por nos encher a barriga".

A raposa conhecendo
A vingança da cegonha,
Safou-se de orelha baixa.
Com mais fome que vergonha.

Enganadores nocivos,
Aprendei esta lição.
Tramas com tramas se pagam.
Que é pena de Talião.

Se quase sempre os que iludem
Sem que os iludam não passam.
Nunca ninguém faça aos outros
O que não quer que lhe façam.

Curvo Semedo (Trad.)

31/01/2008

A cigarra e a formiga



Tendo a cigarra em cantigas
Folgado todo o verão
Achou-se em penúria extrema
Na tormentosa estação.

Não lhe restando migalha
Que trincasse, a tagarela
Foi valer-se da formiga,
Que morava perto dela.

Rogou-lhe que lhe emprestasse,
Pois tinha riqueza e brio,
Algum grão com que manter-se
Até voltar o aceso estio.

"Amiga, — diz a cigarra —
Prometo, à fé d'animal,
Pagar-vos antes de agosto
Os juros e o principal."

A formiga nunca empresta.
Nunca dá, por isso junta:
"No verão em que lidavas?"
A pedinte ela pergunta.

Responde a outra: "Eu cantava
Noite e dia, a toda hora.
— Oh! Bravo!, torna a formiga:
Cantavas? Pois dança agora!"


Bocage (Trad.)

21/01/2008

Os ladrões e o asno


Brigavam dois ladrões por um roubado burro:
Com ele um quer ficar, quer outro expô-lo à venda
E enquanto a discussão entre ambos corre a murro.
Terceiro vem que empolga a causa da contenda.

Não raro uma província ao burro é semelhante.
E uns príncipes quaisquer, iguais aos salteadores:
O Turco, o Transilvano, o Húngaro — em que instante,
Em vez de dois que busco, eis três dos tais senhores!

Abunda esta fazenda — embora com freqüência
Nenhum lugar consiga a terra conquistada,
Se vem o quarto ladrão que rindo da pendência
Cavalga no jumento e aos três dá surriada.


Gonçalves Crespo (Trad.)