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24/07/2009

A bailarina



Uma patinha estava ensaiando balé ao som de "O Lago dos Cisnes" , quando sua colega de equipe a surpreendeu usando uma de suas sapatilhas preferidas...
- Quem lhe deu permissão para usar o que é meu? - perguntou a proprietária, autoritária. - Ninguém - respondeu humildemente a patinha, retirando as sapatilhas - eu só estava tentando sentir aquilo que você deve sentir quando está diante do público, sentindo o calor das luzes da ribalta...
- Quanta ingenuidade! - exclamou a outra patinha.
- Não pensei que você se zangasse...
Nisso, surgiu o patinho que contracenava com as duas; pondo, assim, fim às divergências.
- O que é meu, é meu. Tenho ciúmes, e pronto - dizia a patinha ofendida. E ficou a grasnar sozinha.
Todavia, o destino lhes havia reservado uma surpresa. Depois dos ensaios, quando saíam do teatrinho improvisado à beira do lago, a renitente patinha sofreu um acidente, e torceu uma de suas patinhas.
- Ai, que dor! - grasnou a pobrezinha, contorcendo-se toda - ai!... sem que alguém lhe solicitasse, a patinha, que anteriormente era repreendida, foi ao socorro de sua colega, aplicando-lhe, imediatamente, algumas massagens no machucado, fazendo desaparecer aquelas dores horríveis; alegando que tinha feito um curso de enfermagem, e que aprendera a fazer uso de seus conhecimentos...
Foi assim que a outra patinha aprendeu uma grande lição: que todos nós vivemos em função um do outro; que de nada vale alimentarmos sentimentos contrários dos grandes sábios, pois o próximo que um deles se referiu, é todo aquele que vive ao nosso lado: rindo quando sorrimos, chorando quando choramos e sofrendo quando a dor nos visita, sabendo que, no final de tudo, o amor sempre é vitorioso.
Até pareceu-me que aquela patinha conhecia os ensinamentos de Jesus!

Nilson Mello



04/07/2009

A borboleta e a flor



A borboleta voava pelo jardim. Ela viu uma florzinha branca chorando.
- Por que você chora?
- Sou muito infeliz - respondeu a flor - estou presa no chão. Não posso respirar o ar fresquinho, nem gozar a luz do Sol. O chão é húmido. Cheira mal. Só vejo sombras.
- Ora... ora... não adianta chorar, vamos dar um jeito nisso.
A borboleta ficou quietinha, pousada na pétala da flor, depois falou:
- O jeito é você ir se esticando... esticando até bem alto. Assim você sai da sombra, da humidade e fica quentinha ao Sol.
Assim eles fizeram.
Todos os dias a borboleta ia ajudar a flor a se esticar. O caule foi crescendo... crescendo... As outras plantas também ajudaram.
- Encoste em mim que eu seguro você - disse a roseira.
- Enrole seu caule fino no meu galho forte - disse o jasmim.
Com o auxílio de todos do jardim, ela foi crescendo e enroscando, até que um dia viu o Sol.
Ela ficou tão contente! Suas pétalas ficaram vermelhas ao calor do Sol.
Continuou crescendo, se esticando, se enrolando, encheu-se de flores vermelhas, transformando-se numa linda trepadeira chamada Primavera.

Esther Peixoto Mello Gonçalves


14/06/2009

A árvore e o poeta



Em um vale aos pés de uma montanha, às margens de um regato, existia uma árvore muito grande e formosa. Tinha galhos fortes e folhas sempre verdes.
Na primavera enchia-se de flores, que no outono transformavam-se em frutos deliciosos.
Nos dias quentes de verão oferecia ampla sombra a quem se abrigava sob suas ramas, e nos dias frios de inverno, durante fortes ventanias, o balançar de suas folhas era como uma sinfonia da Natureza.
Famílias de pássaros construíam seus ninhos por entre seus galhos aconchegantes e protectores. A árvore vivia feliz.
Em uma tarde de primavera, ela recebeu a visita de alguém diferente: um rapaz bonito, com belos olhos negros, que aparentava ter algo especial, algo que ela não sabia explicar. Ele sentou-se sob a árvore, recostou-se em seu tronco e ali passou a tarde toda pensando, observando tudo ao redor.
De vez em quando, tomava do lápis e papel que trazia consigo e fazia longas anotações, que logo em seguida lia repetidamente, com voz que soava como música.
A árvore olhava para o rapaz curiosamente. Gostou tanto dele que fez cair de um de seus galhos uma florzinha que pousou delicadamente no colo do moço. E foi com grande alegria que ela o viu pegar a flor, cheirá-la e guardá-la entre seus papéis, como sinal de que o presente fora aceito.
Quando ele levantou-se para ir embora, ela balançou suavemente seus galhos numa saudação de despedida, e ao vê-lo caminhando, afastando-se dela, sentiu algo diferente em seu coração de árvore: uma sensação gostosa, que queimava, agitava e tranquilizava ao mesmo tempo. E desejou ver o moço novamente.
No dia seguinte, quase à mesma hora, ele apareceu. Disse um "olá, amiga árvore", que a fez tremer de admiração , mas também de alegria. Afinal, nunca nenhum humano havia falado com ela, somente os pássaros, as borboletas, as flores, o vento... E isso a cativou um pouco mais.
E no outro dia ele veio de novo. Conforme os dias passavam, ela acostumou-se com as visitas de seu novo amigo, e aprendeu a amá-lo. Nos dias em que ele não aparecia, ela sentia algo que não conhecia até então, a "saudade".
Entre eles nasceu uma amizade muito linda. Ele chegava, saudava-a, às vezes alegremente, outras vezes mais triste, dependendo do que se passava em sua alma naquele dia.
Conversava com os pássaros que habitavam na árvore, pássaros que também passaram a gostar muito dele, de verdade. Por isso, por vezes entoavam lindas melodias enquanto ele escrevia. Mas quando ele começava a ler em voz alta aquilo que tinha escrito, até o vento se calava para escutar tantas palavras mágicas e melodiosas.
Em noites de Lua cheia, a árvore percebia com alegria um vulto que se aproximava, pois sabia tratar-se de seu amigo que gostava de admirar o luar em sua companhia.
Quando o outono chegou e as flores tornaram-se frutos, o rapaz subia em seus galhos, e ali ficava a deliciar-se com os frutos tão suculentos, mais doces agora, pois ela os adoçava somente pra ele.
Depois de comer, ele deitava-se sob sua sombra e dormia um pouco. Nesses instantes, a árvore aproveitava para tocar seu rosto com suas folhas, numa carícia de amor.
Dia-a-dia aquela relação de amor e amizade fortalecia-se. Ela adorava a sensação de vê-lo chegar, e gostava até de sentir saudade quando ele ia embora, pois sabia que aquilo era uma das consequências do amor.
Mas um dia ele partiu e nunca mais voltou... Passou um dia, dois, três, e muitos outros dias, e ele não aparecia. A árvore começou a inquietar-se, pois aquilo nunca tinha acontecido antes. Ele nunca tinha passado tanto tempo longe dela. O que estaria se passando? A cada dia ela ficava mais e mais preocupada, e seu coração doía muito, como se estivesse sentindo que algo de grave estava acontecendo.
Um dia, não mais suportando a saudade e a dúvida, pediu aos pássaros moradores de seus galhos para voarem até o povoado onde ela sabia que morava o rapaz, para obterem alguma informação sobre seu paradeiro.
Os pássaros a atenderam prontamente.
Em um pequeno bando, voaram até o vilarejo à procura do rapaz. Saíram logo pela manhã e se demoraram um dia inteiro nesta procura.
Ah, que espera angustiante para a pobre árvore! Durante o dia inteiro ela não desgrudou os olhos do céu, esperando pelos pássaros com as notícias de seu amor.
No finalzinho da tarde, quando o Sol já se despedia e o vento anunciava a chegada da noite, os pássaros retornaram. Estavam cabisbaixos, tristes, e mal conseguiam olhar para a árvore.
Ela sentiu uma pontada no peito, pois sabia que as notícias não seriam nada boas. E seu coração estava certo, pois o que os pássaros lhe trouxeram foi a notícia mais triste e terrível que ela poderia receber: seu amigo estava morto!
- Não, não, não! Não pode ser verdade! - gritava desesperadamente a árvore!
Ela não podia acreditar no que estava ouvindo! Sentiu uma dor dilacerante, como se dez machados a estivessem ferindo ao mesmo tempo! Cada folhinha de seus galhos doía, e até as flores lhe pareciam pesadas demais. Que dor era aquela, que a sufocava, torturava, como se estivessem lhe queimando viva?
Ela chorou, chorou, a noite inteira, sem cessar. Todas as criaturas da noite entristeceram-se ao testemunhar o sofrimento da árvore. Até a Lua, do alto de sua majestade, chorou.
Pela manhã, a árvore parou de chorar, mas estava tão triste que não sentia mais vontade de viver. Viver para quê, se nunca mais veria seu amigo chegando, nunca mais receberia seu sorriso, nunca mais escutaria sua voz doce recitando seus poemas? Viver sem ofertar-lhe seus frutos e flores, sem admirar a Lua com ele, sem aconchegá-lo em sua sombra, sem velar seu sono? Não, ela preferia morrer.
E assim, todos que ali perto estavam presenciaram uma cena rara: em plena primavera, a árvore deixou cair todas suas folhas e flores, como se estivessem em pleno inverno. Nada restou em seus galhos, somente a tristeza.
Os pássaros foram obrigados a sair dali, mudaram-se para as árvores próximas, para poderem continuar perto de sua amiga de tanto tempo. Que tristeza era vê-la acabando-se daquele jeito!
Seus amigos tentaram de tudo para animá-la, para fazê-la reagir, tudo em vão. Nada adiantava, e a árvore morria aos poucos. Seus galhos não mais apontavam para o céu, estavam quase encostando no chão, como se ela não tivesse forças para suportar seu próprio peso. E estava também cada vez mais seca, por mais que a mãe Natureza enviasse chuva para nutri-la. Ela tinha perdido a alegria de viver, desejava ardentemente morrer como seu amigo.
Até que um dia, aos primeiros raios do Sol, quando os pássaros despertavam, com sua algazarra matinal de costume, apareceu um pássaro de beleza incrivelmente exuberante. Era pequenino, aparência frágil, olhinhos negros e penas alaranjadas com pontas vermelhas, que reluziam como ouro sob os raios do Sol! Não havia no mundo inteiro um pássaro tão belo como aquele! E ele pousou exactamente na árvore seca e praticamente morta. O contraste era tremendo: a ave aparentava ser ainda mais bela e encantadora, pousada naquele monte de galhos secos e pendentes.
Pois ele ali pousou, ficou um tempo em silêncio, mas logo tomou fôlego, agitou o corpinho e soltou o mais belo canto que a Terra já ouviu! Foi impressionante! Todos os pássaros da região calaram-se para ouvir aquele doce trinado, hipnotizados por tamanha beleza.
E foi então que a mágica aconteceu: a árvore, que há muito tempo não dava sinal de vida, estremeceu e abriu os olhos lentamente, para ver de onde vinha aquele gorjeio de pura magia.
Quando viu aquele pássaro tão majestoso e simples ao mesmo tempo, com tamanho brilho em suas penas, e de olhos tão vivos, ela reconheceu imediatamente o seu amigo. Era ele! Com certeza era ele! Somente ele poderia trazer ao mundo um canto tão mavioso!
- É você, amigo meu? Você voltou para mim? - perguntou ela, quase explodindo de alegria, pois já sabia a resposta.
E a resposta veio em forma de um sorriso e mais um canto para encantar o mundo.
Então ela entendeu que todas as suas preces haviam sido atendidas e por isso ele estava de volta. A alma do poeta estava agora habitando o corpo do pássaro, fora um presente de Deus para ela.
E um novo milagre aconteceu: assim como perdera todas as folhas e flores num único dia ao saber da morte do rapaz, agora, para alegria de seus amigos, em poucos minutos ela recuperou cada folha, cada flor, cada fruto. E tornou-se ainda mais formosa e frondosa! Suas flores estavam ainda mais perfumadas, seus frutos mais doces, suas folhas mais verdes, seus galhos mais fortes. Cada pedacinho da árvore irradiava pura felicidade! A Natureza estava em festa!
Agora ela era feliz novamente, como no princípio daquela amizade recheada de amor.
O rapaz, agora pássaro, não mais escrevia poesias, mas compunha melodias tão lindas que eram como se fossem compostas para os anjos e fadas. Mas ela sabia que cada nota daquelas canções eram feitas para ela, somente para ela, e quando o mundo calava-se para ouvi-lo cantar, ela sabia que ele cantava só para fazê-la feliz.
E tudo porque, nesse mundo, ninguém amou com tanta intensidade como ela amou...

Alethéia Giselle Leonel de Almeida Schnitzer




04/06/2009

A andorinha e os passarinhos



De tanto viajar, uma andorinha havia aprendido muitas coisas. Sabia prever as tempestades, e anunciava-as aos marinheiros com antecedência suficiente para que pudessem escapar delas.
Certo dia, vendo um lavrador semear o cânhamo, colocando os grãos nos sulcos abertos na terra, a andorinha disse aos outros passarinhos:
- Estão vendo aquela mão que lança as sementes de cânhamo? Não está longe o dia em que será maldição para todos vocês aquilo que ela está plantando. Surgirão redes e laços para aprisioná-los. E ouçam-me bem. Ocorrerão coisas que lhes causarão a morte ou a prisão. Que Deus os livre da gaiola e da panela. Comam já os grãos ali plantados, e agradecerão o meu conselho.
Os passarinhos riram da andorinha, e não lhes custou esquecer rapidamente o que ela lhes dissera.
Quando a plantação já estava verde, a andorinha tornou a dizer-lhes:
- Arranquem um por um esses pés de cânhamo, e estarão evitando a própria desgraça.
- Ora - responderam os passarinhos - isso seria tarefa para milhares de nós, e além disso não acreditamos nesse seu mau augúrio.
- Prestem atenção no que lhes digo. Quando os lavradores virem que é chegada a hora, armarão redes e alçapões para protegerem sua plantação, e então não adiantará nada vocês ficarem voando de um lado para outro.
Os passarinhos já estavam, porém, cansados de ouvi-la, e afastaram-se. Pouco depois, sofriam perseguição, prisão e morte.


Moral da Estória:
Só nos importamos com o mal quando ele se abate sobre nós.


24/05/2009

A aranha e o mosquito




Um mosquito voava despreocupadamente nos ares, quando se sentiu preso na teia da Aranha.
Estava a fazer esforços para libertar-se quando a Aranha se aproximou dizendo-lhe com voz ameaçadora:
- Não se mexa tanto assim, cavalheiro, que acabará quebrando as malhas de seda da minha teia.
- Senhora, ajude-me a libertar-me, pediu o mosquito, delicadamente.
- Está aí uma coisa que não posso lhe fazer, declarou a Aranha. O cavalheiro, invade violentamente a minha propriedade e ainda me pede que eu lhe abra a porta para sair!
- Perdão, senhora, não invadi a sua propriedade Eu vinha voando e, quando dei por mim, estava preso a estas malhas. Foi sem querer.
- Não posso acreditar que, sendo o espaço tão vasto ainda mais para um mosquito, o amigo viesse, sem querer, esbarrar na minha casa.
- Palavra de honra de Mosquito. Não tive intenção de ofendê-la. Não me passou pela cabeça o mais vago propósito de invadir a sua propriedade.
E com a voz mais doce desse mundo:
- Agora, que já dei minhas satisafações necessárias, peço à querida amiga que me ajude a voltar à minha liberdade.
A Aranha replicou imediatamente:
- Vontade não me falta, senhor, mas isso é impossível.
- Por quê?
- Cada um de nós preza o seu nome. O mundo está cheio da boa fama das aranhas. Seria um erro eu destruir essa boa fama, depois de a conquistar com tanto sacrifício.
- Não compreendo.
- Eu o farei compreender. No começo do mundo quando construí a primeira casa, os voadores vinham esbarrar nas minhas malhas, quebrando-as, rompendo-as. Para acabar com tal abuso, resolvi que todo aquele que eu apanhasse nos fios de minha rede, na minha rede ficaria para me servir de alimento. A notícia dessa resolução espalhei-a largamente pelos ares. Não houve quem não tivesse conhecimento dela. Apesar disso, de quando em quando, aqui vêm ter mariposas, pirilampos, libélulas e toda a sorte de bichinhos miúdos. Procedo igualmente com todos. Devoro a todos, todos, sem EXCEPÇÃO.
E, arrepiando dignamente os pêlos veludosos.
- Ora, se eu puser o amigo em liberdade, que se dirá de mim? Dir-se-á que eu não sei fazer justiça. O cavalheiro, decerto, não quererá que eu fique desmoralizada.
Mal acabou de falar, uma abelha, que voava nas proximidades, ficou presa nas malhas da teia. Em seguida, um besouro. Muito depois, um grilo.
- Está vendo? - disse a Aranha ao mosquito. Todos os que estão ficando presos na rede, da rede não mais sairão. A boa justiça é aquela que é igual para todos.
Naquele momento, um gavião vinha voando rumo da teia.
- Se ele não se desviar, é mais uma vítima, murmurou o mosquito penalizado. E o gavião não se desviou. Rompeu os fios, fez um grande rombo nas malhas, passou e foi-se embora.
Quando o mosquito olhou a Aranha, ela estava num cantinho, encolhida, trémula e assustada.
- Que foi isso, senhora? bradou o prisioneiro. Não viu nada? Não viu o estrago que o gavião fez na sua casa? Que a reduziu a frangalho?
- Não tem importância. Eu a conserto facilmente.
- Mas ele invadiu a sua propriedade. Que justiça é a sua, senhora? Por que não o aprisionou para a sua mesa, como fez comigo, com a abelha, com o grilo, com o besouro? Fale! Fale!
- Quer saber por quê? Porque não gosto de carne de gavião, respondeu a Aranha com ar de pouco caso.


Moral da Estória:
Aos poderosos tudo se desculpa, aos fracos nada se perdoa.



A alma e o coração da baleia


Return to Paradise

Era uma vez... um corvo muito bobo e convencido que voou para bem longe e foi parar no mar.
Exausto de tanto bater as asas, procurou um lugar para descansar mas não avistou nenhum pedaço de terra no meio de toda aquela água.
"Vou morrer afogado" - suspirou, já sem forças para continuar voando.
Nesse exacto momento uma enorme baleia subiu à tona, e o corvo, sem pensar duas vezes, mergulhou naquela bocarra aberta.
Foi parar na barriga da baleia, onde, para seu espanto, deparou-se com uma casa muito limpa e confortável, bem iluminada e quentinha.
Uma jovem estava sentada na cama, segurando uma lanterna.
- Fique à vontade - disse ela amavelmente - mas, por favor, nunca toque em minha lanterna.
O corvo, feliz da vida, prometeu que jamais faria tal coisa. A moça parecia inquieta. A todo instante se levantava, ia até a porta e voltava a sentar na cama.
- Algum problema? - o corvo perguntou.
- Não... - ela respondeu - é só a vida... a vida e o ar que se respira.
O corvo estava morrendo de curiosidade. Assim, quando a jovem foi até a porta, resolveu tocar na lanterna para ver o que acontecia. E aconteceu que a moça caiu estatelada na sua frente e a luz se apagou.
O mal estava feito. A casa ficou fria e escura, o cheiro de gordura e sangue deixou o corvo enojado. Inutilmente ele procurou a porta para sair dali e, cada vez mais nervoso, começou a se coçar de tal modo que arrancou todas as penas.
- Agora é que vou morrer congelado - choramingou, tremendo até os ossos.
A moça era a alma da baleia, que a impelia para a porta toda vez que enchia os pulmões de ar.
Seu coração era a lanterna acesa.
Quando o corvo a tocou, a chama se extinguiu. Agora a baleia estava morta e guardava em seu interior o pássaro intrometido.
Depois de muito chorar e pensar, o corvo finalmente conseguiu sair das escuras entranhas e sentou no dorso daquele imenso defunto.
Ensebado, sujo, depenado, era uma tristíssima figura.
A baleia morta ficou flutuando no mar até que desabou uma tempestade e as ondas a empurraram para a praia.
Quando a chuva parou, alguns pescadores saíram para trabalhar e viram a baleia.
O corvo também os viu e se transformou num homenzinho frio e estropiado.
Então, em vez de confirmar que se intrometera onde não fora chamado e destruíra algo belo que não conseguira compreender, pôs-se a gritar:
- Eu matei a baleia! Matei a baleia!
E assim... se tornou um grande homem entre seus pares.

Neil Philip



A águia e o pardal



O Sol anunciava o final de mais um dia e lá, entre as árvores, estava Andala, um pardal que não se cansava de observar Yan, a grande águia. Seu voo preciso, perfeito, enchia seus olhos de admiração. Sentia vontade em voar como a águia, mas não sabia como o fazer. Sentia vontade em ser forte como a águia, mas não conseguia assim ser. Todavia, não cansava de segui-la por entre as árvores só para vislumbrar tamanha beleza.
Um dia estava a voar por entre a mata a observar o voo de Yan, e de repente a águia sumiu da sua visão. Voou mais rápido para reencontrá-la, mas a águia havia desaparecido. Foi quando levou um enorme susto, deparou de uma forma muito repentina com a grande águia a sua frente. Tentou conter o seu voo, mas foi impossível, acabou batendo de frente com o belo pássaro. Caiu desnorteado no chão e quando voltou a si, pôde ver aquele pássaro imenso bem ao seu lado observando-o.
Sentiu um calafrio no peito, suas asas ficaram arrepiadas e pôs-se em posição de luta. A águia em sua quietude apenas o olhava calma e mansamente, e com uma expressão séria, perguntou-lhe:
- Por que estás a me vigiar, Andala?
- Quero ser uma águia como tu, Yan. Mas, meu voo é baixo, pois minhas asas são curtas e vislumbro pouco por não conseguir ultrapassar meus limites.
- E como te sentes amigo, sem poder desfrutar, usufruir de tudo aquilo que está além do que podes alcançar com tuas pequenas asas?
- Sinto tristeza. Uma profunda tristeza. A vontade é muito grande de realizar este sonho.
- O pardal suspirou olhando para o chão e disse:
- Todos os dias acordo muito cedo para vê-la voar e caçar. És tão única, tão bela. Passo o dia a observar-te.
- E não voas? Ficas o tempo inteiro a me observar? - indagou Yan.
- Sim. A grande verdade é que gostaria de voar como tu voas. Mas as tuas alturas são demasiadas para mim e creio não ter forças para suportar os mesmos ventos que, com graça e experiência, tu cortas harmoniosamente.
- Andala, bem sabes que a natureza de cada um de nós é diferente, e isto não quer dizer que nunca poderás voar como uma águia. Sê firme em teu propósito e deixa que a águia que vive em ti possa dar rumos diferentes aos teus instintos. Se abrires apenas uma fresta para que esta águia que está em ti possa te guiar, esta dar-te-á a possibilidade de vires a voar tão alto como eu. Acredita! - e assim, a águia preparou-se para levantar voo, mas voltou-se novamente ao pequeno pássaro que a ouvia atentamente.
- Andala, apenas mais uma coisa: não poderás voar como uma águia, se não treinares incansavelmente por todos os dias. O treino é o que dá conhecimento, fortalecimento e compreensão para que possas dar realidade aos teus sonhos. Se não pões em prática a tua vontade, teu sonho sempre será apenas um sonho.
Esta realidade é apenas para aqueles que não temem quebrar limites, crenças, conhecendo o que deve ser realmente conhecido. É para aqueles que acreditam serem livres, e quando trazes a liberdade em teu coração poderás adquirir as formas que desejares, pois já não estarás apegado a nenhuma delas, serás livre!
Um pardal poderá, sempre, transformar-se numa águia, se esta for sua vontade. Confia em ti e voa, entrega tuas asas aos ventos e aprende o equilíbrio com eles. Tudo é possível para aqueles que compreenderam que são seres livres, basta apenas acreditar, basta apenas confiar na tua capacidade em aprender e ser feliz com tua escolha!


Fábulas do Mundo



A águia dourada




Um homem encontrou um ovo de águia e o colocou debaixo da galinha que chocava seus ovos no quintal.
Nasceu uma aguiazinha com os pintos e com eles crescia normalmente.
Durante todo o tempo a águia fazia o mesmo que faziam os pintinhos, convencida de que era igual a eles.
Ciscava, ia ao chão buscando insectos e pipilava como fazem os pintos, e como eles, também batia as asas conseguindo voar um metro ou dois porque, afinal de contas, é só isso que um frango pode voar, não é verdade?
Passaram-se anos e a águia ficou velha.
Certo dia, ela viu, riscando o espaço, num céu azul, uma ave majestosa, planando, no infinito, graciosa, levada, docemente, pelo vento sem nem sequer bater a asa dourada.
A águia do chão olhou-a com respeito e logo, perguntou ao seu amigo:
"Que tipo de ave é aquela que lá vai?"
"É uma águia! É rainha" - diz-lhe o amigo - mas é bom não olhar muito para ela, pois nós somos de raça diferente, simples frangos do chão e nada mais. "
Daí por diante, então, a pobre da águia nunca mais pensou nisso, até morrer convencida de ser uma simples galinha.


Fábulas do Mundo

A abelha e o cisne




Caíra na água a abelhinha prestes já a se afogar garboso ali perto vinha um belo cisne a nadar.
- Ajudai-me, cisne lindo - disse a abelhinha a chorar.
E o cisne ali tão bem-vindo apressou-se em a salvar.
Pensem bem nesta historinha do belo cisne e a abelhinha. Jamais devemos deixar de boa acção praticar.

Fábulas do Mundo



21/05/2009

A Águia



Perguntou um homem à águia:
- Por que educas teus filhos lá em cima, em tão grandes alturas?
A águia respondeu:
- Depois de crescidos, teriam eles coragem de chegar tão perto do Sol, se eu os educasse cá em baixo, junto à terra?

Gotthold Ephraim Lessing


08/05/2009

A ave e o poço





Era uma vez... uma ave com plumagem cintilante e asas robustas que passava os dias planando sobre as árvores, deliciando-se com sua liberdade.
Um dia ela caiu num poço desactivado.
O poço era escuro e profundo, mas estava seco e a ave não se machucou. Ela foi esvoaçando para baixo até atingir o fundo e lá permaneceu, nada fazendo para tentar escapar, mergulhada em auto comiseração.
- Certamente morrerei aqui em baixo - lamentou-se - que ave pobre, desgraçada eu sou. O que fiz para merecer esse fim?
Quanto mais ela reflectia sobre seu suplício, mais se convencia de que alguém, que não ela, era culpado por ela estar no fundo do poço.
- Não é culpa minha. É culpa do idiota que inventou de cavar esse poço - disse - alguém deveria ter coberto a superfície, assim eu não teria caído aqui dentro. Por que ninguém me avisou do perigo de voar baixo demais perto de poços abertos? Nada disso é culpa minha.
E se pôs a pedir socorro aos passantes.
- Por favor me ajudem, socorro! Socorro! Socoooooorro! Por favor, tirem-me daqui!
As pessoas olhavam para dentro do poço.
- Você tem asas, pode voar - diziam - por que você não se ajuda?
- Se eu tentar voar aqui posso me machucar - lamuriava ela - as paredes do poço vão arranhar minhas asas. Vocês têm de fazer algo para me tirar daqui.
As pessoas respondiam:
- Há muito espaço para você voar, se você tomar cuidado. Suas asas estão em forma. Você não se feriu. Você pode sair daí se realmente QUISER.
A ave recusava-se a tentar. Ficou encolhida no fundo do poço, lamentando-se, gemendo alto para que todos ouvissem.
- Ninguém liga para mim, esse é o problema. As pessoas são cruéis, não têm coração, ninguém quer saber de ajudar uma pobre criatura como eu.
As reclamações da ave atraíram tanta compaixão que, sem se dar conta, ela começou a gostar de morar no poço.
Cada vez menos pensava em escapar, até que nem mais lhe passava pela cabeça tentar.
Suas asas atrofiaram e nem ela nem ninguém mais poderia ajudá-la.
E assim... alvo de pena de todos e de si própria, a ave viveu o resto da vida presa e infeliz no fundo do poço.




30/04/2009

A árvore solitária

Era uma vez um velho carvalho que já vivia há muito tempo na floresta.
Muitos anos antes, uma grande tempestade varrera a floresta, deixando o carvalho quebrado e feio.
Não era mais altivo e belo como as outras árvores.
A primavera cobria sua feiúra com novas folhas verdes; no outono, as folhas se transformavam num belo manto carmim. Mas os ventos na floresta sempre sopravam, carregando o manto de folhas para longe. E, assim, nada restava para disfarçar sua feiúra.
Passaram-se muitos e muitos anos e o carvalho começou a se sentir meio vazio por dentro.
Sentia o coração também ferido, como o corpo. Quando ele já estava muito, muito velho, um vento de outono passou suspirando. O carvalho acabou se lamentando.
- Ninguém me quer. Não tenho mais nenhuma utilidade no mundo.
Tac, toc, to-ro-roc-toc, toc!
Era o senhor pica-pau cabeça vermelha, bicando o tronco do velho carvalho.
Toc-toc!
Foi martelando e furando, até que fez uma portinha de entrada para sua residência de inverno, numa parte oca da árvore. Ele havia encontrado um salão pronto, cheio de bichinhos para ele e sua família comerem, quando chegasse o frio. As paredes da casa eram quentinhas, tudo muito arrumadinho e aconchegante.
- Que felicidade ter encontrado esta árvore oca! Fico tão agradecido!
Cantou o senhor pica-pau cabeça-vermelha.
Schuip! Schuup!
Era o bobby esquilo. Ficou correndo pelo tronco do velho carvalho, até que achou um buraco redondo, que seria sua janelinha da frente.
Bobby esquilo espiou para dentro. Ah! Como era confortável e aconchegante a casinha que ele viu!
Forrou-a com musgo, e nas protuberâncias que formavam prateleirinhas amontoou pilhas e pilhas de nozes, prontas para os banquetes quando chegasse o frio.
Ia ser ótimo morar lá, agasalhado no seu casado de peles e bem alimentado.
Ficaria seguramente abrigado até a chegada da primavera.
- Que felicidade ter encontrado esta árvore oca! Fico tão agradecido! - tagarelou Bobby esquilo.
Então, uma coisa estranha aconteceu com a árvore. As asinhas do passarinho batendo animadas e o coração do esquilinho aqueceram-na por dentro.
O coração do velho carvalho inchou de alegria.
Em vez de suspirar com o vento, seus ramos cantavam de felicidade.
As gotas das chuvas do outono, já congeladas, pendiam de seus dedos de galhos como refulgentes diamantes. A neve cobriu seu corpo com um magnífico manto branco.
À noite, a luz das estrelas e, de dia, os raios de Sol mantinham uma brilhante coroa sobre sua cabeça.
Em toda a floresta, não havia árvore mais feliz nem mais bela que o velho carvalho.


Moral da Estória:
Ser útil. Ter o coração hospitaleiro. A beleza realmente está dentro.




09/03/2009

O Caracol e a Impala




Uma Impala, muito vaidosa da sua agilidade e da rapidez com que corria, encontrou um Caracol e começou a fazer pouco dele:
- Ó Caracol, tu não és capaz de correr. Que vergonha, só és capaz de te arrastar pelo chão.
O Caracol, que era esperto, resolveu enganar a Impala. Por isso desafio-a:
- Vem cá no próximo domingo e vamos fazer uma corrida por esta estrada, desde aqui até ao rio.
- Uma corrida comigo? - perguntou, espantada, a Impala. — Está bem, cá estarei.
E afastou-se a rir, pensando que o Caracol era maluco por querer correr com ela.
O Caracol, entretanto, como tinha ido à escola e sabia ler e escrever, escreveu uma carta a todos os caracóis amigos dele que moravam ao longo da estrada até ao rio. Nessa carta ele dizia aos amigos para, no domingo, estarem junto à estrada e, quando passasse a Impala, se ela chamasse pelo Caracol, eles responderem: "Cá estou eu, o Caracol."
No domingo, a Impala encontrou-se com o Caracol e, a rir muito, disse-lhe:

- Vamos lá então correr os dois e ver quem chega primeiro ao rio.
O Caracol deixou-a partir a correr e escondeu-se num arbusto. A Impala corria e, de vez em quando, gritava:
- Caracol, ó Caracol, onde é que tu estás?
E havia sempre um dos amigos do Caracol que estava ali perto e respondia:
- Cá estou eu, o Caracol.
A Impala, que julgava ser sempre o mesmo Caracol que ia a correr com ela, corria cada vez mais, mas havia em todos os momentos um Caracol para responder quando ela chamava.
De tanto correr, a Impala acabou por se deitar muito cansada e morrer com falta de ar.
O Caracol ganhou a aposta porque foi mais esperto que a Impala e tinha ido à escola junto com os outros caracóis e todos sabiam ler e escrever. Só assim se puderam organizar para vencer a Impala.

Fábula de Moçambique


06/10/2008

A fábula do tigre




Um filhote de tigre fora criado entre cabras. Prenhe e balofa, sua mãe passara vários dias à procura de uma presa sem nada conseguir, até que deparou com um rebanho de cabras selvagens. Estava faminta, o que explica a violência de sua investida. O esforço do ataque precipitou o parto e ela acabou morrendo de esgotamento. As cabras, que haviam se dispersado, retornaram ao lugar e lá encontraram um filhote de tigre choramingando ao lado de sua mãe. Levadas pela compaixão maternal adoptaram a débil criatura; amamentaram-na junto com suas próprias crias e dela cuidaram ternamente. O animal cresceu e sobreveio a recompensa pelos cuidados dispensados, pois o pequeno companheiro aprendeu a linguagem das cabras, adaptou sua voz àquele som suave e mostrou tanto afecto quanto qualquer cabrito. A princípio teve alguma dificuldade para mastigar com seus dentes pontiagudos as tenras folhas do pasto, mas logo se acostumou. A dieta vegetariana o mantinha enfraquecido, conferindo ao seu temperamento uma notável doçura.
Certa noite - quando o órfão, crescido entre as cabras, já havia alcançado a idade da razão - o rebanho foi atacado, desta vez por um velho e feroz tigre. As cabras se dispersaram, porém o jovem permaneceu onde estava, sem medo ainda que surpreso. Achando-se face a face com a terrível criatura da selva, fitou-o estupefacto. Passado o primeiro impacto, começa a tomar consciência de si. Desamparado, berra, arranca folhas de pasto e se põe a mastigar, ante o olhar perplexo do outro.
De repente, o poderoso intruso pergunta:
- Que fazes aqui entre as cabras?! Que estás mastigando?!
A resposta foi um berro. O outro, indignado, disse num rugido:
- Por que emites este som estúpido?!
E antes que o pequeno pudesse responder, apanhou-o pelo cangote e o sacudiu como se quisesse fazê-lo recobrar a lucidez. O tigre da selva carregou o assustado animal até um lago próximo, soltando-o na margem e obrigando-o a olhar para a superfície espelhada da água, então iluminada pela lua.
- Vê estas duas imagens! Não são semelhantes? Tens a cara típica de um tigre, é como a minha. Por que te iludes pensando seres um cabrito? Por que berras? Por que mastigas pasto?!
O tigrezinho, incapaz de responder, continuava a olhar espantado comparando as duas imagens reflectidas. Inquieto, apoiou-se numa e logo noutra pata, e lançou um grito de aflitiva incerteza. A velha fera novamente o carregou porém agora até seu covil, onde lhe ofereceu um pedaço de carne crua e sangrenta, sobra de uma refeição anterior. Ante a inusitada visão, o jovem tremeu de repugnância mas o velho, ignorando o fraco gesto de protesto, ordenou rudemente:
- Come! Engole!
O outro resistiu, porém a horripilante carne foi forçada a passar entre seus dentes; o tigre vigiava atentamente seu aprendiz que tentava mastigar e preparava-se para engolir. Sua não-familiaridade com a consistência da carne causava-lhe certa dificuldade, e estava prestes a emitir outro débil berro quando começou a experimentar o gosto do sangue. Excitado, devorou o restante com avidez, sentindo um prazer incomum à medida que o novo alimento descia-lhe pela garganta e atingia o estômago. Uma força estranha e quente irradiava de suas entranhas trazendo-lhe uma sensação eufórica e embriagadora. Estalou a língua, lambeu o focinho satisfeito e, erguendo-se, deu um largo bocejo como se estivesse despertando de uma longa noite de sono - uma noite que o manteve sob feitiço por anos e anos. Espreguiçando-se, arqueou as costas, estendeu e abriu as garras. Sua cauda fustigava o solo e, de súbito, irrompeu de sua garganta o triunfal e aterrorizente rugido de um tigre.
O inflexível mestre, que estivera observando de perto, sentia-se recompensado. A transformação, de fato, acontecera. Ao cessar o rugido, perguntou severamente:
- Agora sabes quem realmente és?
E para completar a iniciação de seu jovem discípulo no saber secreto de sua própria e verdadeira natureza, acrescentou:
- Vem! Vamos caçar juntos pela selva.


Fábula indiana



30/09/2008

Fábula do leão, o gato e o rato


Certo gato miserável, expulso pelos aldeões e vagando pelos campos a ponto de morrer de fome, magro e desvalido, foi encontrado por um leão e salvo de sua situação desesperadora. O rei dos animais convidou o infeliz a compartir sua caverna e se alimentar das sobras de suas abundantes refeições. Porém, este não era um convite inspirado pelo altruísmo ou por algum senso de lealdade racial; era simplesmente porque o leão estava sendo molestado por um rato que vivia num buraco de sua toca. Quando ele tirava a sesta, aquele vinha e lhe roía a juba. Acontece que os leões grandes e poderosos são incapazes de caçar ratos; em contrapartida, gatos ágeis o são; desse modo, ali estava a base para uma amizade sólida e talvez agradável.
Bastou a presença do gato para manter o rato afastado, e assim o leão poder dormir em paz. O pequeno roedor não fazia o menos barulho porque o gato estava sempre alerta. O leão premiava seus serviços com farta alimentação engordando, sem delongas, seu ministro.
Mas um dia o rato fez um ruído e o gato cometeu o erro fatal de agarrá-lo e devorá-lo. Desaparecido o rato, desapareceu também o favor do leão que, já cansado da companhia do gato, sem nem mesmo lhe agradecer, devolveu seu competente ministro à selva, onde teria que enfrentar novamente o perigo de morrer de fome.
Máxima final: “Cumpre tua tarefa, mas sempre deixes algo por ser feito. Através desse algo permanecerás indispensável.”


Fábula Indiana