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31/03/2010

A colina dos Elfos

Umas ágeis lagartixas correram pelas fendas do tronco de uma velha árvore. Entendiam-se muito bem, pois todas falavam a língua de lagartixa.
- Que barulheira tem havido lá na velha Colina dos Elfos! - disse uma delas - já lá vão duas noite que não prego olho, por causa do alarido lá em cima. Eu podia estar na cama com dor de dente, que dava na mesma: em tal situação também não consigo dormir.
- Há qualquer coisa lá dentro - disse outra lagartixa - ficam na Colina, onde se erguem os quatro pilares vermelhos, até a hora do galo cantar. Estão limpando tudo, e as jovens elfas aprenderam novos bailados. Preparam alguma coisa, na certa.
- Falei com uma minhoca de minhas relações - informou uma terceira lagartixa - ela vinha directamente da colina, onde cavara a terra noite e dia. Ouvira muita coisa, pois ela apenas ouve: não vê, não enxerga, a coitada. Só se vale mesmo do tacto, para ajudar a audição. Esperam visitantes na Colina, visitantes ilustres. Quem são, a minhoca não quis dizer. Ou simplesmente não sabia. Todos os fogos-fátuos foram convocados, para realizarem uma marcha de archores. Ouro e prata, que não faltam lá na colina, estão sendo polidos e postos a enxugar sob a luz da Lua.
- Quem poderão ser esses visitantes? - perguntaram todas as lagartixas - o que irá haver por lá? ouçam: que zoada! Que burburinho!
Naquele momento abriu-se a Colina dos Elfos e saiu uma velha elfa solteirona, sem costas (segundo a mitologia escandinava, os elfos, embora muito graciosos e bonitos de frente, não têm costas: são ocos por trás), mas muito bem vestida, andando num passinho miúdo e rápido. Era a velha governanta do Rei dos Elfos. Tinha certo parentesco, embora remoto, com a família real, e trazia, como insígnia, um coração de âmbar na frente. Como andava depressa! Em seu passinho curto, as perninhas não paravam. Ela foi direto ao pântano, onde morava o Engole-Vento.
- O sr. está convidado a ir à Colina dos Elfos esta noite - disse ela - mas peço-lhe a gentileza de fazer-nos primeiro um grande serviço. Peço-lhe que se encarregue de distribuir os convites. Já que o sr. mesmo não tem casa, pode fazer-nos esse favor. Vamos receber visitas, gente muito nobre e ilustre, duendes de alta linhagem, e o velho Rei dos Elfos quer apresentar a todos eles o que há de melhor.
- Quem será convidado? - perguntou o Engole-Ventos.
- Para o grande baile pode vir todo o mundo, até seres humanos, contanto que saibam falar dormindo ou conheçam um pouco de outras artes nossas. Mas, para a festa inicial, haverá rigorosa selecção: só queremos a fina flor da sociedade, o que há de mais aristocrático. Já discuti com o Rei, pois, a meu ver, nem mesmo os fantasmas devemos convidar. O Tritão e suas filhas devem ser convidados em primeiro lugar; não gostam de ficar no seco, mas poderão receber, cada um, uma pedra molhada para sentar, ou coisa ainda melhor. Espero que assim não se recusem a vir dessa vez. A seguir, devem ser convidados todos os velhos duendes de primeira categoria, os de cauda, o Homem do Ribeirão e os anões. Penso também que não podemos deixar de convidar o Porco do Sepulcro, o Cavalo da Morte e o Gnomo da Igreja (segundo a superstição popular, na Dinamarca, em baixo de cada igreja que é construída, deve ser sepultado um cavalo vivo; o fantasma deste cavalo é o Cavalo da Morte, que anda à noite, mancando, pois tem só três pernas, e vai às casas onde alguém está para morrer. Em algumas igrejas era enterrado um porco vivo, e o fantasma desse porco era chamado o Porco do Sepulcro). Eles pertencem ao clero, não são, na verdade, gente nossa, mas, enfim, têm o seu cargo. Além disso, sempre nos visitam. Logo, creio que devem ser lembrados.
- Croááá... - disse o Engole-Vento, que antes tinha os apelidos Noitibó e Curiango.
E saiu voando, para convidar o pessoal.
As moças elfas já dançavam na Colina. Bailavam com um xale longo, tecido de névoa e luar, o que é lindo para os olhos que apreciam coisa assim. No centro da Colina dos Elfos, o grande salão estava muito bem arrumado e enfeitado. O chão fora lavado com luar e as paredes polidas com unguento de feiticeira, o que as deixara brilhantes como pétalas de tulipa diante da luz. A cozinha estava abarrotada de iguarias finas - como rãs no espeto, peles de cobra-d'água, dedinhos de criança pequena, saladas de semente de chapéu-de-cobra, focinhos de camundongo molhados em cicuta, cerveja fabricada pela Bruxa do Charco, vinho cintilante de salitre das câmaras mortuárias subterrâneas, enfim: todos os manjares mais substanciais e deliciosos. Pregos enferrujados e cacos de vidraça de igreja figuravam entre as sobremesas.
O velho Rei dos Elfos mandou polir sua coroa de ouro com lápis de lousa. Era o lápis de um primeiro aluno da classe, coisa muito difícil de obter para o Rei dos Elfos. No dormitório penduravam cortinas e as prendiam com saliva de cobra-d'água. Havia, de fato, grade azafama, um interminável burburinho.
- Agora é defumar tudo com crina e cerdas de porco queimadas, e creio que fiz minha parte - disse a velha elfa solteirona.
- Paizinho! - suplicou a mais nova das elfas - irei afinal saber quem são os nobres visitantes?
- Está bem - disse o pai - não tenho outro remédio senão revelá-lo. Duas de minhas filhas têm de estar prontas para o casamento. Duas vão certamente nos deixar, para casar. Virá aqui, com os seus dois filhos, que devem escolher mulher, o Duende-Ancião lá de cima, da Noruega, residente na velha montanha de Dovre e senhor de muitos castelos, situados nas rochas, e de uma mina de ouro que vale mais do que se pensa. Ele é o verdadeiro tipo do velho norueguês, honrado, alegre e simples. Conheço-o dos velhos tempos, quando bebíamos juntos e fizemos camaradagem. Ele tinha vindo cá, buscar sua esposa, que já é morta. Era a filha do Rei das Penedias de Moen. Tenho muita saudade do velho duende norueguês. Os filhos, dizem, são uns rapazes malcriados e fanfarrões. Mas, quem sabe? Talvez não seja verdade. Além disso, eles podem mudar com o tempo. Vamos ver se minhas filhas os põem no bom caminho.
- E quando vêm eles? - perguntou uma das filhas.
- Depende dos ventos e do tempo - disse o Rei do Elfos - eles fazem uma viagem económica. Vêm de navio. Eu queria que viessem pela Suécia, mas o velho não gosta daqueles lados. Ele não acompanha a evolução do tempo, e isso, a meu ver, é o seu único defeito.
Naquele momento vieram pulando dois fogos-fátuos, um mais depressa que o outro, por isso chegou primeiro.
- Eles vêm vindo! Eles vêm vindo! - avisou.
- Dai-me minha coroa e deixai-me ficar no lugar! - disse o Rei.
As filhas ergueram os longos xales e inclinaram-se até o chão.
Lá estava o Duende-Anão de Dovre, com sua coroa de pontas de gelo endurecidas e cones de pinheiros polidos. Trajava uma pele de urso, e calçava botas de inverno; os filhos, porém, vinham de pescoço descoberto e sem suspensórios, pois eram homens fortes.
- Isso é Colina? - perguntou o mais novo dos rapazes, apontando a Colina dos Elfos - na Noruega chamamos a isso um buraco!
- Meninos! - disse o velho - buracos vão para dentro, colinas vão para cima! Não tendes olhos para ver?
Só de uma coisa se admiravam: entenderam, sem dificuldade, a língua do lugar.
- Não nos façais de tolos! - disse o velho - devia-se crer que ainda cheirais a cueiros!
Entraram assim na Colina dos Elfos, onde se achava reunida a seleta e festiva companhia. Mas parecia reunida às pressas, como amontoada pelo vento. No entanto, tinham cuidado do conforto individual de cada um. A gente do mar estava à mesa, sentada em grandes vasilhas de água, e diziam que se sentiam como em casa. Todos observavam a etiqueta, com exceção dos dois jovens duendes noruegueses, que punham os pés sobre a mesa, convencidos de que para eles tudo ficava bem.
- Tirem as patas de cima da mesa! - disse o velho duende, e os rapazes obedeceram, embora com relutância.
Com os cones de pinheiros que traziam nos bolsos, faziam cócegas nas damas, suas vizinhas de mesa. Em seguida, tiraram as botinas, para ficarem mais à vontade, e deram-nas a uma das damas, para segurar. O pai, o velho Duende de Dovre, sim, era diferente. Sabia contar coisas bonitas das altas montanhas norueguesas, de cachoeiras que despencavam, brancas de espuma, com um fragor que parecia trovão e música de órgão misturados. Falou do salmão, que salta contra a água da correnteza, quando o génio das águas dedilha sua harpa de ouro; falou das brilhantes noites hibernais, quando soam as campainhas dos trenós e os rapazes correm, com archotes acesos, sobre os lisos campos de gelo - gelo tão transparente que as pessoas vêem, a seus pés, os peixes fugirem espavoridos. Sabia narrar com tanta vivacidade que se via e ouvia o que ele contava. Era como se escutassem as serrarias em movimento, os rapazes e moças cantando e dançando. De repente, arrebatado, o velho duende beijou a velha elfa solteirona - mas foi como um beijo de tio, embora nem fossem parentes.
Chegou a vez de as moças dançarem - não só simples bailados como sapateados. Seguiram-se bailados artísticos, individuais, e como sabiam elas usar as penas! No auge da dança, não se sabia mais o que era um lado e o que era outro, o que eram braços e o que eram pernas. Giravam com tal rapidez que o Cavalo-da-Morte até se sentiu mal e teve de sair da mesa.
- Prrrr! - disse o velho Duende - que festa de pernas!
Mas o que sabem elas, além de dançar, levantar as pernas e fazer remoinhos?
- Já o saberás! disse o Rei dos Elfos.
E chamou a mais jovem de suas filhas, fina e clara como o luar, a mais delicada dentre as irmãs. Ela tomou na boca uma varinha branca, e praticamente desapareceu. Era esta a sua arte.
O Duende-Ancião, porém, disse que não apreciava aquele tipo de arte em uma esposa, e que, segundo acreditava, também seus filhos não haveriam de apreciá-la.
A outra moça conseguia andar ao lado de si própria, como se projectasse uma sombra, coisa que os duendes não têm.
A terceira era completamente diferente: trabalhava na cervejaria da Feiticeira do Charco e sabia lardear nós de amieiro com pirilampos.
- Esta dará uma boa dona de casa - disse o Ancião, piscando os olhos.
Seguiu-se a quarta moça. Trazia consigo uma grande harpa de ouro, e, quando feriu a primeira corda, todos ergueram a perna esquerda, pois os duendes são canhotos; quando feriu a segunda corda, todos tiveram de fazer o que ela queria.
- Mulher perigosa! - opinou o Duende-Ancião.
Seus dois filhos saíram da Colina entediados com tudo aquilo.
- E o que sabe fazer a filha seguinte? - perguntou o velho.
- Aprendi a gostar de tudo quanto é norueguês - disse ela - e só me casarei com a condição de poder ir a Noruega!
- É só porque ela ouviu dizer, numa canção norueguesa, que quando o mundo se acabar, os picos noruegueses ficarão, como monumentos do passado - cochicou ao Duende-Ancião a irmã mais nova - por isso ela quer ir lá para cima, pois vive com medo do fim do mundo.
- Ah! - disse o Duende-Ancião - então é por isso? Mas o que sabe fazer a sétima e última das moças?
- Antes da sétima vem a sexta! - rectificou o Rei dos Elfos, que sabia calcular.
Mas a sexta não tinha grande vontade de aparecer.
- Só sei dizer a verdade a todos - disse ela, afinal - ninguém se importa comigo e tenho meu tempo ocupado em costurar minha própria mortalha.
Veio a sétima e última. Que sabia ela? Sabia contar fábulas, tantas quantas quisesse.
- Aqui estão todos os meus cinco dedos - disse o Duende-Ancião - conta-me uma história a respeito de cada um deles.
A moça tomou-lhe a mão, e ele riu-se a valer. Quando ela chegou ao Seu-Vizinho, que tinha anel de ouro na cintura, como se soubesse que ia haver noivado, disse o Duende-Ancião:
- Segura o que tens! A mão é tua! A ti eu mesmo quero por esposa.
A moça objectou que restava contar ainda a história de Seu-Vizinho e de Minguinho.
- Estas ouviremos no inverno - disse o Duende-Ancião - e ainda a história do pinheiro, a da bétula e a dos dotes das fadas e do frio cortante. Tu terás muitas histórias a contar, pois é coisa que ninguém sabe direito lá em cima. E nós ficaremos na casa de pedra, iluminada pela luz do archote, e tomaremos nosso vinho caseiro nos cornos de ouro dos antigos reis noruegueses. O génio da água presenteou-me com alguns. Lá nos virá visitar o Duente do Gar, que te contará todas as cantigas das pastoras. Será muito alegre! O salmão saltará na cachoeira, baterá na parede de pedra, mas não conseguirá entrar. Sim, podes crer, tudo é muito belo na querida e velha Noruega! Mas onde estão os rapazes?
Sim, onde estão os rapazes? Andavam correndo pelo campo e sopravam os fogos-fátuos, apagando-os, coitados, a eles que tinham vindo para realizar a marcha dos archotes.
- Isso é coisa que se faça? - censurou o Duende-Ancião - acabo de tomar uma mão para vós. Podeis tomar agora uma das tias.
Os rapazes, porém, disseram que preferiam fazer um discurso e beber, celebrando o acontecimento. Não tinham vontade de casar. Fizeram, pois, seus discursos, beberam e celebraram. Em seguida tiraram os casacos e deitaram-se na mesa, para dormir, sem a menor cerimónia. O ancião, no entanto, ficou andando em volta da sala, dançando com sua jovem noiva, e trocou de botina com ela, o que lhe parecia mais elegante que trocar de anéis.
- O galo está cantando! - anunciou a velha solteirona, dona da casa - temos de fechar as janelas, para que o Sol não brilhe aqui dentro.
E a Colina dos Elfos fechou-se.
Lá foram as lagartixas corriam para baixo e para cima, na árvore oca.
- Como gostei do Duende-Ancião norueguês! - disse a lagartixa à companheira.
- Pois eu gostei mais dos rapazes - revelou a minhoca.
A pobrezinha, porém, não enxergava: era um bicho insignificante.




30/03/2010

A casa velha

Aquela velha casa! Tinha perto de trezentos anos, como se podia ver por uma inscrição gravada numa viga, no meio de uma guirlanda de tulipas. Sob a porta podiam-se ler versos escritos na ortografia antiga, e sob cada janela estavam esculpidas figuras que faziam caretas engraçadas.
A casa tinha dois andares e no teto havia uma goteira terminada por uma cabeça de dragão. A chuva devia escoar-se na rua por essa cabeça; mas ela se escoava pelo ventre, pois a goteira tinha um buraco no meio. Todas as outras casas daquela rua eram novas e próprias, ornadas de grandes azulejos e muros brancos. Pareciam desdenhar a sua velha vizinha.
- Quanto tempo ainda este barraco vai ficar aqui? - pensavam elas - tira-nos toda a vista de um lado. Sua escadaria é larga como a de um castelo e alta como a da torre de uma igreja. A grande porta de ferro maciço parece a de uma antiga sepultura, com seus botões de couro. Que coisa! Imaginem só!
Numa dessas lindas casas, na frente da velha, estava na janela um menino de rosto alegre, faces coradas e olhos brilhantes. Gostava muito da velha casa, tanto à luz do Sol como ao clarão da Lua. Ele se divertia em copiar as cabeças que faziam caretas, os ornamentos que representavam soldados armados e as goteiras que se pareciam com dragões e serpentes. A velha casa era habitada por um homem idoso que usava calções curtos, um casaco com botões de couro e uma imponente peruca. Nunca se via ninguém, exceto um velho doméstico, o qual, todas as manhãs, vinha arrumar seu quarto e fazer compras. Algumas vezes olhava para a janela e então o menino o cumprimentava amistosamente; nosso homem respondia e assim eles se tornaram amigos sem nunca se terem falado. Os pais do menino diziam sempre:

- Esse velhote daí em frente parece estar à vontade; mas é uma pena que viva tão só.

Eis por que o menino, num domingo, depois de ter embrulhado algo num pedaço de papel, foi para a rua e disse ao velho doméstico:
- Ouça, se você quisesse levar isto ao velho senhor lá em frente, me daria um grande prazer. Tenho dois soldados de chumbo, e dou-lhe um, para que ele não se sinta tão só.
O velho doméstico executou o encargo com alegria e levou o soldado de chumbo para a velha casa. Mais tarde, o menino, convidado a visitar o ancião, correu para lá com a permissão de seus pais.
No interior a maior arrumação reinava por todos os lados; o corredor estava ornado de antigos retratos de cavaleiros em suas armaduras e de senhoras com vestido de seda. No fundo desse corredor havia uma grande varanda, pouco sólida, era verdade, mas toda guarnecida de folhagens e de velhos vasos de flores que tinham por alças orelhas de asno.
A seguir o menino chegou ao aposento onde estava sentado o ancião.
- Obrigado pelo soldado de chumbo, meu amiguinho - disse este último - obrigado pela sua visita!
- Disseram-me, replicou o menino - que você estava sempre sozinho; eis por que enviei-lhe um de meus soldados de chumbo para fazer-lhe companhia.
- Oh! replicou o velho sorrindo, nunca estou totalmente sozinho; muitas vezes velhos pensamentos vêm me visitar e agora você vem também; não posso queixar-me.
A seguir ele apanhou numa estante um livro de figuras onde se viam procissões magníficas, carruagens estranhas, como não existem mais e soldados levando o uniforme de valete-de-paus. Viam-se ainda as suas corporações com todas as suas bandeiras: a dos alfaiates levava dois pássaros sustidos por dois leões; a dos sapateiros estava ornada com uma águia, sem sapatos, é verdade, mas de duas cabeças. Os sapateiros gostam de ter tudo em dobro, a fim de formarem um par.
E, enquanto o menino olhava as figuras, o ancião ia até o aposento vizinho procurar doces, frutas, biscoitos e avelãs. Na verdade a velha casa não era desprovida de conforto.
- Nunca poderia suportar essa existência - dizia o soldado de chumbo - colocado sobre um cofre. Como tudo aqui é triste! Que solidão! Que infelicidade encontrar-se em semelhante situação, para quem está acostumado à vida de família! O dia não acaba nunca. Que diferença da sala onde seu pai e sua mãe conversavam alegremente e você e seus irmãos brincavam! Este ancião, na sua solidão, jamais recebe carícias; não ri e sem dúvida passa o Natal sem a sua árvore. Esta habitação se parece com uma tumba; eu nunca suportaria uma tal existência.
- Não se lamente tanto - respondia o menino - pois eu gosto daqui e depois você sabe que ele recebe sempre a visita de seus velhos pensamentos.
- É possível, mas eu nunca os vejo; nem os conheço. Jamais poderia ficar aqui!
- No entanto, é preciso ficar.
O velho voltou com um rosto sorridente, trazendo os doces, as frutas e as avelãs e o menino não pensou mais no soldadinho de chumbo. Após ter-se regalado, voltou contente e feliz para a sua casa; e não deixava de fazer um sinal amistoso ao seu velho amigo, de cada vez que o percebia na janela.
Algum tempo depois, ele fez uma segunda visita à velha casa.
- Não posso mais! - disse o soldadinho de chumbo - aqui é muito triste.
Tenho chorado chumbo derretido! Gostaria mais de ir para a guerra, arriscando-me a perder pernas e braços. Pelo menos seria uma mudança. Não aguento mais! Agora já sei o que é a visita dos velhos pensamentos; os meus vieram me visitar, mas sem dar-me o menor prazer. Eu os via na casa em frente, como se estivessem aqui. Assisti à prece matutina, às suas lições de música e me achava no meio de todos os outros brinquedos. Ai de mim! Não passavam de velhos pensamentos. Diga-me como se comporta a sua irmã, a pequena Maria. Dê-me notícias também do meu camarada, o outro soldado de chumbo; ele tem mais sorte do que eu. Não posso mais, não posso mais.
- Você não mais me pertence - respondeu o menino - e eu não tomarei aquilo que dei de presente. Entregue-se à sua sorte.
O ancião trouxe para o menino umas figuras e um jogo de antigas cartas, enormes e douradas, para diverti-lo. A seguir abriu o seu clavicórdio, tocou um minueto e cantarolou uma velha canção.
- À guerra! À guerra! - gritou o soldado de chumbo - e atirou-se ao chão.
O ancião e o menino quiseram levantá-lo, mas procuraram por todos os lados sem conseguir encontrá-lo.
O soldado de chumbo caíra numa fenda. Um mês mais tarde era inverno e o menino soprava as vidraças a fim de fundir o gelo e limpar o vidro. Dessa maneira ele poderia fitar a velha casa da frente. A neve cobria completamente a escadaria, todas as inscrições e todas as esculturas. Não se via ninguém, e, realmente, não havia ninguém; o ancião tinha morrido. Na mesma noite um carro parava na frente da porta para receber o corpo que devia ser enterrado no campo. Ninguém seguia esse carro; todos os amigos do ancião também estavam mortos. Somente o menino enviou um beijo com a ponta dos dedos para o caixão que partia.
Alguns dias mais tarde, a velha casa foi posta à venda, e o menino, da sua janela, viu levarem os retratos dos velhos cavaleiros e das castelãs, os vasos de plantas de orelhas de asno, os móveis de carvalho e o velho clavicórdio. Ao chegar a primavera a velha casa foi demolida.
- Não passa de um barraco! - repetia todo o mundo - e, em algumas horas, não se via mais do que um monte de escombros.
- Até que enfim! - disseram as casas vizinhas se pavoneando.
Alguns anos mais tarde, no local da velha casa se erguia uma casa nova e magnífica, com um pequeno jardim rodeado de uma grade de ferro; era habitada por um de nossos antigos conhecidos, o menino amigo do ancião. O menino crescera, casara-se; e, no jardim, ele olhava para sua esposa que plantava uma flor.
De repente ela retirou a mão dando um grito; algo pontudo ferira seu dedo. Que acham que era? Nada mais do que o soldadinho de chumbo, o mesmo que o menino presenteara ao ancião. Jogado para cá e para lá, ele terminara afundando na terra. A jovem senhora limpou o soldado, primeiro com uma folha verde, depois com o seu lenço. E ele despertou de um longo sono.
- Deixe-me ver! - disse seu marido sorrindo - oh! não, não é ele! Mas eu me lembro da história de um outro soldado de chumbo que me pertenceu quando eu era criança.
Então ele contou à esposa a história da velha casa, do ancião e do soldado de chumbo que ele dera a este último para fazer-lhe companhia.
Ao ouvi-lo, seus olhos se encheram de lágrimas.
- Quem sabe não se trata do mesmo soldado? - disse ela - de qualquer forma vou guardá-lo. Mas você poderia mostrar-me o túmulo do ancião?
- Não - respondeu o marido - não sei onde está e ninguém sabe também.
Todos os seus amigos morreram antes dele, ninguém o acompanhou até a última morada e eu não passava de uma criança.
- Que coisa triste é a solidão!
"Coisa pavorosa, realmente" - pensou o soldadinho de chumbo - "em todo caso, é melhor ficar só do que ser esquecido."



11/03/2010

A Polegarzinha



Era uma vez uma mulher que queria ter um filho muito pequenino, mas não sabia como havia de fazer para encontrar um. Então, foi ter com uma velha bruxa e disse-lhe:
— Gostava tanto de ter um filho pequenino! Não sabes dizer-me onde posso arranjar um?
— Oh, isso não é difícil — disse a bruxa. — Aqui tens um grão de cevada, e olha que não é da que cresce nos campos dos lavradores nem daquela que as galinhas comem. Planta este grão num vaso e verás o que acontece!
— Oh, obrigada! — disse a mulher, dando uma moeda de prata à bruxa.
Depois foi para casa e semeou o grão. Não foi preciso esperar muito tempo para que nascesse uma bela flor; parecia uma túlipa, mas as pétalas estavam muito fechadas como se fosse ainda um botão.
— Que linda flor! — disse a mulher, dando um beijo nas pétalas vermelhas e amarelas.
Nesse preciso momento, a flor abriu-se com um forte estalido. Era realmente uma túlipa — agora via-se bem —, mas mesmo no centro da flor, no centro verde, estava sentada uma menina minúscula, graciosa e delicada como uma fada. Não era maior que metade de um polegar, e por isso ficou a chamar-se Polegarzinha.
A cama em que dormia era uma casca de noz muito bem polida; tinha um colchão de pétalas de violeta azuis-escuras e o seu cobertor era uma pétala de rosa. Dormia ali à noite, mas durante o dia brincava em cima da mesa, onde a mulher tinha posto um prato de sopa cheio de água com um círculo de flores à volta, com os caules virados para o meio. Dentro do prato, a flutuar, estava uma grande pétala de túlipa em que a Polegarzinha se podia sentar e remar de um lado para o outro usando dois pêlos brancos de cavalo como remos. Era lindo de se ver! Ela também sabia cantar, e tinha a vozinha mais frágil e mais doce que jamais se ouviu.

Uma noite, quando estava deitada na sua linda cama, um sapo entrou no quarto através de um vidro partido da janela. O sapo parecia muito grande e estava molhado quando saltou para cima da mesa onde a Polegarzinha dormia profundamente debaixo da sua pétala de rosa.
— Ora aqui está uma bela esposa para o meu filho! — disse o sapo.
E pegou na cama de casca de noz em que a Polegarzinha estava a dormir e saltou com ela através da janela para o jardim. No fim do jardim corria um largo regato, de margens pantanosas e lamacentas; era aí que o sapo vivia com o seu filho.
Este não era nada bonito; na realidade, era igualzinho ao pai.
— Croc! Croc! Brec-rec-rec! — foi tudo quanto disse quando viu a linda menina na casca de noz.
— Não fales tão alto, se não ela acorda — disse-lhe o pai. — Olha que pode fugir, porque é leve como uma pena de cisne. Já sei, vamos pô-la no meio do rio, em cima de uma daquelas grandes folhas de nenúfar! Assim, ela vai pensar que está numa ilha, porque é uma criaturinha minúscula. Entretanto, nós podemos começar a preparar o melhor quarto debaixo da lama, para vocês os dois lá viverem.
No regato, havia muitos nenúfares com grandes folhas verdes que pareciam flutuar soltas na água. A folha que estava mais longe era também a maior de todas, e foi nela que o velho sapo poisou a casca de noz com a Polegarzinha. A pobre menina acordou muito cedo e, quando viu onde estava, começou a chorar amargamente, porque havia água a toda a volta da grande folha e era impossível voltar para terra.
Entretanto, o velho sapo andava metido na lama, decorando atarefadamente o quarto com juncos e flores aquáticas amarelas, para ficar bonito e alegre para a sua futura nora. Depois, acompanhado pelo filho, nadou até à folha onde estava a Polegarzinha. Iam buscar a linda cama de casca de noz para a colocarem no quarto antes de a noivazinha ir para lá. O velho sapo, ainda dentro de água, fez uma profunda vénia e disse à Polegarzinha:
— Este é o meu filho. Vai ser o teu marido, e vocês os dois vão viver muito felizes numa bela casa debaixo da lama.
— Croc! Croc! Brec-rec-rec! — foi tudo o que o filho disse.
Então, pegaram na bonita caminha e lá foram a nadar com ela, enquanto a Polegarzinha ficava sozinha na folha verde, a chorar, porque não lhe apetecia nada viver com o velho sapo nem casar com o filho dele. Ora os peixinhos que nadavam ali por baixo tinham visto o sapo e ouvido o que ele dissera, de maneira que deitaram as cabeças de fora para verem a menina. Mas, assim que o fizeram, viram como era bonita e ficaram cheios de pena por ela ter de ir viver na lama com o sapo. Não, isso não podia acontecer! Juntaram-se em redor do pé verde da folha em que ela estava e puseram-se a roê-lo sem parar.
Lá foi a folha, flutuando pelo regato, levando a Polegarzinha para longe, cada vez para mais longe, para onde o sapo não podia ir.
Quando ela passava, os passarinhos nas árvores cantavam "Que linda criaturinha!" assim que a viam. E a folha lá ia a deslizar, cada vez para mais longe - e foi assim que a Polegarzinha chegou a outro país.
Uma linda borboleta branca esvoaçava por cima dela e acabou por poisar na folha, porque tinha começado a gostar da menina. Como ela estava feliz agora! O sapo já não podia apanhá-la e era tudo maravilhoso à sua volta, para onde quer que olhasse. A água, onde o sol brilhava, parecia ouro a cintilar. A Polegarzinha tirou o seu cinto e deu uma ponta à borboleta amiga e atou a outra à folha. Agora é que ia mesmo depressa!
Nesse momento, um grande escaravelho apareceu a voar por cima dela. Assim que viu a menininha, agarrou-a num ápice pela cintura e voou com ela para o cimo de uma árvore. A folha verde continuou a flutuar rio abaixo com a borboleta.
Meu Deus!, como a Polegarzinha ficou assustada quando o escaravelho a levou para cima da árvore! E como teve pena da sua amiga, a borboleta branca! Mas o escaravelho não queria saber disso. Poisou na maior folha verde da árvore e largou-a aí. Deu-lhe pólen para comer e disse-lhe que ela era muito bonita, embora não tanto como um escaravelho.
Em breve, todos os outros escaravelhos que viviam na árvore foram visitá-la. Olhavam para ela, e as jovens escaravelhas encolhiam as antenas, dizendo: "Mas só tem duas pernas, este insecto miserável! Não tem antenas! Tem uma cintura tão fina! Parece mesmo humana! Que feia que é!", e por aí fora, apesar de a Polegarzinha ser realmente uma criatura linda.
O escaravelho que a tinha levado também era desta opinião, mas quando todas as escaravelhas disseram que ela era horrível, ele começou a pensar o mesmo e acabou por não querer saber dela; podia ir para onde quisesse. Várias escaravelhas pegaram nela e voaram até ao solo, deixando-a em cima de uma margarida. Lá ficou ela a chorar, por ser tão feia que os escaravelhos não a queriam — e, no entanto, era a criaturinha mais bonita que se podia imaginar, mais bela que a mais perfeita pétala de rosa.
Durante todo o Verão, a pobre Polegarzinha viveu completamente sozinha na grande floresta. Teceu uma cama com ervas e pendurou-a como se fosse uma rede por baixo de uma grande folha de azeda, para ficar abrigada da chuva. Para comer apanhava mel e pólen das flores e bebia as gotas de orvalho que encontrava todas as manhãs nas folhas. E assim passou o Verão e o Outono, mas depois chegou o Inverno, o longo e frio Inverno. Os passarinhos, que tão docemente tinham cantado, voavam agora para longe, as árvores perdiam as folhas, as flores murchavam. Depois, a grande folha de azeda que lhe fazia de telhado começou a enrolar-se e murchou, até que ficou apenas uma haste seca e amarela. A Polegarzinha tinha imenso frio, porque o seu vestido estava todo roto e ela era muito frágil e pequenina. Em breve morreria de frio. A neve começou a cair, e cada floco que caía sobre ela era tão pesado como uma pazada atirada a um de nós. Afinal, ela só tinha dois centímetros e meio de altura. Embrulhou-se numa folha murcha, mas não conseguiu aquecer-se, e tremia cada vez mais.

Por essa altura, já tinha alcançado a orla da floresta. Mesmo ao lado havia um grande campo de trigo, mas este tinha sido ceifado há muito tempo e só se via o restolho seco na terra gelada. Para ela, aquilo era o mesmo que uma floresta para atravessar e oh!, como ela tremia de frio! Finalmente, chegou à porta de um rato do campo, que vivia numa casinha por baixo do restolho. Era aconchegada e confortável, com um armazém cheio de trigo, uma cozinha quente e uma sala de jantar. A pobre Polegarzinha parou à porta da casa do rato como se fosse uma mendiga e pediu se ele lhe dava um bocadinho de um grão, porque já há dois dias que não comia nada.
— Pobrezinha! — disse o rato do campo, que tinha muito bom coração. — Vem para a cozinha, que está quente, e comes comigo.
Gostou tanto da companhia da Polegarzinha que acabou por lhe dizer:
— Podes ficar comigo durante o Inverno, mas tens de limpar e arrumar a casa e contar-me histórias. Gosto muito de histórias.
A Polegarzinha fez o que o velho rato do campo lhe disse; e o tempo foi passando agradavelmente.
— Em breve teremos uma visita — disse o rato do campo. — O meu vizinho vem visitar-me todas as semanas. A casa dele ainda é melhor do que a minha, com grandes e belos quartos, e ele usa um lindo casaco de veludo preto! Se conseguisses que ele casasse contigo, nunca mais te faltaria nada. Mas ele é quase cego, de maneira que tens de te preparar para lhe contar as melhores histórias que souberes.
A Polegarzinha não gostou muito da ideia. Não lhe apetecia nada casar com o vizinho rico; era um toupeiro, e veio fazer a sua visita com o casaco de veludo preto. O rato do campo lembrou à Polegarzinha como ele era rico e culto; disse-lhe que a casa dele era vinte vezes maior do que a sua.
Que ele sabia muitas, muitas coisas, embora não gostasse do sol e das lindas flores, porque nunca os tinha visto. A Polegarzinha teve de cantar para ele, e cantou Tive uma nogueirazinha e Joaninha voa, voa. O toupeiro apaixonou-se pela sua linda voz, mas não disse nada, porque era muito cauteloso.
Ele tinha escavado recentemente uma passagem muito longa, que ia da sua casa à do vizinho, e disse ao rato do campo e à Polegarzinha que podiam ir visitá-lo quando quisessem. Mas pediu-lhes que não tivessem medo da ave morta que estava na passagem. Contou-lhes que a ave não tinha qualquer marca nem ferida, não lhe faltavam penas, e o bico estava intacto; devia ter morrido há muito pouco tempo, com a chegada do Inverno, e, de alguma maneira, tinha caído na sua passagem subterrânea.
Então, o toupeiro agarrou num pedaço de madeira podre com a boca (porque a madeira podre brilha como fogo no escuro) e foi à frente para iluminar a longa passagem para os seus convidados. Depressa chegaram ao sítio onde estava a ave, e o toupeiro empurrou o tecto com o focinho largo, levantando a terra para fazer um buraco que deixou entrar a luz do dia. E lá estava uma andorinha, com as lindas asas encostadas ao corpo, as pernitas e a cabeça escondidas nas penas; a pobre ave de certeza que tinha morrido de frio. A Polegarzinha teve muita pena dela, porque amava todas as avezinhas, que tinham cantado e chilreado para ela de uma maneira tão encantadora durante todo o Verão. Mas o toupeiro empurrou a andorinha para o lado com as suas pernitas curtas e disse:
— Esta já não assobia mais! Que pouca sorte nascer ave! Felizmente que nenhum dos meus filhos será como elas. Uma ave não sabe fazer nada a não ser dizer tuit-tuit e depois morrer de fome no Inverno!
— Sim, lá nisso tens razão — disse o rato do campo. — Com todo o seu tuit-tuit, que é que elas fazem quando chega o Inverno? Morrem de fome e de frio. E, no entanto, toda a gente as acha muito importantes.
A Polegarzinha não disse uma palavra, mas, quando os outros recomeçaram a andar, baixou-se, afastou meigamente as penas da cabeça da andorinha e beijou-lhe os olhos fechados.
— Talvez esta seja a que cantou tão suavemente para mim durante o Verão — pensou. — Que felicidade me deu esta pobre avezinha da floresta!
Então, o toupeiro tapou o buraco que tinha feito para deixar entrar a luz do dia e acompanhou as visitas a casa. Mas nessa noite a Polegarzinha não conseguia dormir, de maneira que levantou-se e teceu uma cobertazinha de feno. Quando acabou, foi pô-la em cima da ave. Ao lado, deixou um pouco de lanugem de cardo que tinha encontrado na sala de estar do rato do campo, para que a ave pudesse repousar quentinha sobre a terra fria.
— Adeus, linda andorinha! — disse ela. — Adeus e obrigada pelas tuas belas canções no Verão, quando as árvores estavam verdes e o Sol brilhava tão alegremente sobre nós todos!
Depois encostou a cabeça ao coração da andorinha — mas ficou logo muito espantada, porque parecia que alguma coisa batia lá dentro. Era o coração da andorinha a bater. Não estava morta, apenas entorpecida pelo frio, e, como tinha sido aquecida, começava a voltar a si.
No Outono, as andorinhas voam todas para terras mais quentes, mas, se uma delas se atrasa, o frio pode fazê-la gelar; então cai no chão e depressa fica coberta de neve.
A Polegarzinha tremia, assustada; a ave era muito maior do que ela, que só tinha dois centímetros e meio de altura. Mas encheu-se de coragem e aconchegou a lanugem de cardo ao corpo da pobre andorinha. Depois, foi a correr buscar a sua coberta, uma folha de hortelã, para lhe tapar a cabeça.
Na noite seguinte, esgueirou-se outra vez para visitar a andorinha — ela estava realmente viva, mas tão fraca que mal pôde abrir os olhos para olhar para a Polegarzinha. Ali estava ela, com um pedacinho de madeira podre na mão, porque não tinha outra lanterna.
— Obrigada, obrigada, linda menina — disse a andorinha doente. — Aqueceste-me tão bem que depressa estarei suficientemente forte para voar ao sol brilhante.
— Oh! — exclamou a Polegarzinha —, ainda está muito frio lá fora! Há neve e gelo por todo o lado. Fica aí na tua caminha quente que eu trato de ti.
Depois levou-lhe água numa folha, e a andorinha bebeu e contou-lhe como tinha magoado uma asa numas silvas e, por isso, não tinha conseguido voar tão depressa como as outras andorinhas quando partiram para terras mais quentes. Por fim, acabara por cair, e não se lembrava de mais nada. Não fazia a menor ideia de como tinha ido parar ali.
Durante todo o Inverno, a andorinha ficou na passagem subterrânea. A Polegarzinha tratou dela e tornou-se muito sua amiga. Mas não disse nada ao toupeiro nem ao rato do campo, porque eles não gostavam de avezinhas. Por fim, chegou a Primavera e os raios de Sol começaram a atravessar a terra. A andorinha disse adeus à Polegarzinha e reabriu o buraco que o toupeiro tinha feito no tecto da passagem. A luz do Sol encheu ambas de alegria, e a andorinha pediu à Polegarzinha que fosse com ela; podia subir para as suas costas e voariam para a floresta cheia de verdura. Mas a Polegarzinha sabia que o velho rato do campo ficaria triste se ela se fosse embora assim sem mais nem menos.
— Não, não posso ir — disse ela.
— Então adeus, adeus, linda menina bondosa! — respondeu a andorinha, voando em direcção ao Sol.
A Polegarzinha viu-a subir no céu, e os seus olhos encheram-se de lágrimas, porque se tinha tornado muito amiga da pobre andorinha.
— Tuit, tuit! — cantou a avezinha, voando em direcção à floresta verde.

A Polegarzinha estava agora muito triste. Não a deixavam sair para a claridade do Sol, e, nos campos onde vivia, o trigo era tão alto que, para ela, era como uma floresta que se erguia muito acima da sua cabeça.
— Tens de ter o teu enxoval pronto este Verão — disse o rato do campo, porque, entretanto, o vizinho toupeiro do casaco de veludo tinha proposto casamento à Polegarzinha. — Precisas de roupas de linho e lã e de muitos cobertores e lençóis quando fores casada com o toupeiro.
A Polegarzinha teve de trabalhar arduamente com a roca, e o toupeiro contratou quatro aranhas para tecerem para ela de dia e de noite. Todas as tardes lhe fazia uma vista e dizia sempre que, quando o Verão acabasse e o Sol não estivesse tão terrivelmente quente e deixasse de queimar a terra até a deixar dura com uma pedra, então casariam. Mas a Polegarzinha não estava nada satisfeita, porque não gostava daquele velho toupeiro tão pomposo. Todas as manhãs, quando o Sol se erguia, e todas as noites, quando se punha, ela esgueirava-se lá para fora; quando o vento fazia ondular as espigas de trigo, conseguia ver o céu azul e pensava sempre como era bom e belo viver ao ar livre. Desejava imenso ver de novo a sua amiga andorinha, mas ela não voltou a aparecer; tinha voado para o bosque verde coberto de folhas.
Quando o Outono chegou, o enxoval da Polegarzinha estava pronto.
— Casas daqui a quatro semanas — disse o rato do campo.
Mas a Polegarzinha começou a chorar e disse que não queria casar com o toupeiro.
— Que disparate! — respondeu o rato do campo. — Não te ponhas com problemas. Arranjaste um marido esplêndido, pois nem a rainha tem um casaco de veludo preto tão bom como o dele! E pensa naquela cozinha e cave tão bem fornecidas! Deves agradecer a tua boa sorte.

E, assim, chegou o dia do casamento. O toupeiro já tinha ido buscar a Polegarzinha, pois ela ia viver com ele bem debaixo do solo; nunca mais poderia apanhar a luz radiante do Sol, porque o toupeiro não a suportava. Cheia de tristeza, foi dizer o último adeus ao Sol brilhante; enquanto vivera com o rato do campo, sempre a tinham deixado ir pelo menos até à porta.
— Adeus, Sol brilhante! — disse ela, erguendo os braços em direcção a ele e dando alguns passos no campo imenso, pois o trigo tinha sido ceifado e só ficara o restolho. — Adeus, adeus — disse ela outra vez, abraçando uma florzinha vermelha que crescia por entre os caules. — Se alguma vez tornares a ver a andorinha, diz-lhe que lhe mando saudades!
Nesse preciso momento ouviu um som — tuit, tuit — mesmo por cima de si. Era a andorinha.
Como estava, contente por ver a sua amiga Polegarzinha! Então esta contou-lhe que tinha de casar nesse mesmo dia com o toupeiro e ir viver com ele debaixo da terra, onde o Sol nunca brilhava. E as lágrimas saltaram-lhe dos olhos só de pensar nisso.
— Vem aí o frio Inverno — disse a andorinha. — Vou voar para longe, para os países quentes. Por que não vens comigo? Podes subir para as minhas costas e atares-te a mim com o teu cinto. Deixamos o toupeiro e a sua casa escura e voamos para muito, muito longe, por cima das montanhas, para um país onde o Sol brilha ainda mais do que aqui, onde é sempre Verão e onde as matas e as florestas estão cobertas das mais belas flores. Ah, vem comigo, querida Polegarzinha, tu que me salvaste a vida quando eu estava gelada na escura passagem debaixo da terra!
— Sim, vou contigo — acabou por dizer a Polegarzinha.
Sentou-se nas costas da ave e atou o cinto a uma das suas penas mais fortes. Então, a andorinha ergueu-se muito alto no céu e voou por cima de florestas, lagos e montanhas onde há sempre neve. O ar gelado fazia a Polegarzinha tremer, mas ela enfiava-se debaixo das penas quentes da ave e só espreitava para olhar, assombrada, para as belas coisas lá em baixo.

Por fim, chegaram aos países quentes. Aí, o Sol brilhava com muito mais intensidade do que a Polegarzinha supunha ser possível; o céu parecia duas vezes mais alto. Ao longo das estradas, havia deliciosas uvas brancas e roxas; limões e laranjas pendiam das árvores; o ar estava perfumado de mirto e de muitas outras plantas aromáticas; e, pelos caminhos, corriam muitas crianças lindas, a brincar por entre coloridas borboletas. Mas a andorinha voou ainda para mais longe, para onde a paisagem era também ainda mais bonita. E então, à sombra de enormes árvores verdes, na margem de um lago azul-safira, viram um palácio muito antigo construído em mármore branco, com videiras enroladas nas suas altas colunas. Mesmo no cimo das colunas havia muitos ninhos de andorinhas, e num deles vivia a amiga da Polegarzinha.
— A minha casa é esta — disse ela. — Mas, se quiseres escolher uma daquelas lindas flores ali em baixo, eu ponho-te lá, e podes viver feliz à tua vontade.
— Ah, como vou gostar! — gritou a Polegarzinha, batendo as mãozinhas.
Uma grande coluna branca estava caída por terra, partida em três bocados, e entre eles cresciam altas e belas flores brancas. A andorinha voou até lá abaixo com a Polegarzinha e poisou-a numa pétala. Então, a Polegarzinha teve uma grande surpresa. Ali, no centro da flor, estava um principezinho, tão belo e delicado que parecia feito de vidro. Tinha na cabeça a coroa de ouro mais bonita que pode imaginar-se e nos ombros um par de asas coloridas e brilhantes, e não era maior do que a própria Polegarzinha. Era o espírito que guardava a flor. Em cada flor havia uma criaturinha igual, mas ele era o rei de todas.
— Que bonito que ele é! — sussurrou a Polegarzinha à andorinha.
O principezinho ao princípio ficou muito assustado com a ave, que lhe parecia gigantesca, mas quando viu a Polegarzinha ficou cheio de alegria. Achou que ela era a mais bela de todas as criaturas que jamais tinha visto, mesmo entre as fadas das flores. Tirou a coroa de ouro da sua cabeça e colocou-a na dela e perguntou-lhe como se chamava e se queria ser sua mulher e rainha de todas as flores.
Bem, este marido podia ela amar de verdade — era muito diferente do filho do sapo ou do velho toupeiro com o seu casaco de veludo. E por isso disse que sim ao belo príncipe. Então, ergueu-se de cada flor uma criaturinha, rapaz ou rapariga, homem ou mulher, tão pequeninas e tão bonitas que era emocionante vê-las. Todas deram uma prenda à Polegarzinha, mas a melhor de todas foi um lindo par de asas. Prenderam-nas aos ombros da Polegarzinha, e agora também ela podia voar de flor em flor. Toda a gente estava cheia de alegria: era como uma maravilhosa festa de Verão. A andorinha, lá em cima no seu ninho, cantou-lhes a canção mais bonita que sabia, mas no fundo estava triste, porque gostava tanto da Polegarzinha que não queria separar-se dela.
— Nunca mais te chamarás Polegarzinha — declarou o príncipe das flores. — Não é um nome suficientemente bonito para uma criatura tão bela como tu. A partir de agora, vamos chamar-te Maia!
— Adeus, adeus — disse a andorinha, quando chegou a altura de voar de novo dos países quentes para a Dinamarca.
Aí, ela tinha um pequeno ninho ao lado da janela do homem que escreve contos de fadas.
— Ouve, ouve — trinou a andorinha para o escritor de contos de fadas...
E foi assim que soubemos esta história.


Hans Christian Andersen


07/03/2010

A Rainha das Neves

(Snow Queen)


Um maldoso anão tinha fabricado um espelho mágico, que transformava em más pessoas, todos os que nele se mirassem. Mas o espelho quebrou-se e seus pedaços foram se espalhando pelo mundo. Dois deles foram para uma sacada onde brincavam duas crianças, Gerda e Pedro, e penetraram nos olhos e no coração do menino que, desde aquele momento, se transformou, de bom, no pior garoto da cidade.
Quando o inverno chegou, ia Pedro, um dia, pelas ruas cobertas de neve, montado em seu pequeno trenó, quando viu um grande trenó branco, que corria velozmente. Enganchou o seu naquele e, desse modo, fez-se arrastar na vertiginosa carreira. Mas viu, logo depois, com terror, que o misterioso veículo saía das muralhas da cidade e precipitava-se pelos campos. Por fim, o trenó se deteve e dele desceu a Rainha das Neves, completamente vestida de branco, que se inclinou para o menino, beijando-o. Ao sentir aquele beijo, Pedro adormeceu. A fada tomou-o nos braços e levou-o ao seu longínquo país.
Os dias passavam e Gerda em vão esperava Pedro, que não regressava. Afinal, resolveu ir procurá-lo pelo mundo. Dirigiu-se para o rio, subiu numa barquinha e deixou-se levar pela correnteza. A embarcação, depois de muito navegar, foi deter-se num jardim cheio de flores, onde havia uma velha, que acolheu carinhosamente a menina Gerda e conduziu-a a uma pequena casa feita de vidros coloridos. Ali penteou-a com um pente mágico e a menina de tudo se esqueceu e ficou, naquele jardim encantado, vivendo muito feliz. Um dia, entretanto, viu umas rosas, que lhe recordaram o roseiral por ela plantado, com o auxílio de Pedro, na sua pequena sacada, em casa, e voltou-lhe à mente a lembrança do irmão desaparecido. Resolvida a encontrá-lo, fugiu para o bosque e caminhou muito, sem sentir-se fatigada, até que encontrou uma menina, que morava numa casa meio em ruínas. A desconhecida, ao ouvir a história de Gerda, quis ajudá-la e levou-a para sua casa, onde perguntou aos pombos, pousados no telhado, se sabiam alguma coisa a respeito de Pedro. "Sim!" responderam eles. A Rainha das Neves o levou com ela.
A menina do bosque deu-lhe, então, um magnífico cervo que possuía havia tempo, dizendo ao animal: "Devolvo-te a liberdade, mas, em troca, leva esta minha amiga ao palácio da Rainha das Neves, que se acha em teu país." Em seguida, ajudou a pobre Gerda a montar no lombo do animal, que partiu em disparada. Atravessaram campos, bosques, pântanos e, por fim, chegaram à Finlândia, onde estava situado o castelo da fada e o cervo fez a menina descer no jardim.
Ao ficar sozinha, Gerda viu caírem a seu redor grandes flocos de neve, que se juntaram, procurando afogá-la. Mas a menina orou com fervor e, imediatamente, tudo se acalmou. Então, a menina entrou no castelo, onde encontrou Pedro, que estava só e não a reconheceu. Gerda abraçou-o, chorando e suas lágrimas, ao penetrarem no coração do menino, fizeram sair o fragmento do espelho, que nele se havia encravado. Pedro também chorou e, desse modo, o outro fragmento que havia penetrado em seus olhos, também saiu. O menino, só então, reconheceu sua pequena amiga e com ela fugiu daquela prisão gelada. O cervo esperava-os lá fora para levá-los de volta ao seu país.

Hans Christian Andersen

O Rouxinol e o Imperador



Sabem com certeza que na China o imperador é chinês e que todas as outras pessoas são chinesas também. Esta história aconteceu há muitos anos, mas é precisamente por isso que devem ouvi-la agora, antes que seja esquecida.
O palácio do imperador era o melhor do Mundo, todo ele construído da mais rara porcelana — não tinha preço, mas era tão frágil e delicado que era preciso tomar todo o cuidado quando se andava lá dentro. O jardim do palácio estava coberto de flores maravilhosas, nunca vistas em outro lado; as mais bonitas de todas tinham sininhos de prata, que tocavam para se saber sempre que passava alguém.
Sim, tudo no jardim do imperador tinha sido muito bem planeado, e ele estendia-se até tão longe que nem o jardineiro fazia a menor ideia onde acabava. Se se fosse sempre andando chegava-se a uma bela floresta com árvores muito altas e lagos muito fundos. A floresta ia até ao mar, que era azul e também muito fundo; grandes navios podiam navegar mesmo por baixo dos ramos das árvores. Nesses ramos vivia um rouxinol que cantava tão bem que até o pobre pescador, com todas as suas dificuldades, parava de deitar as redes todas as noites para o ouvir.
— Ah, que maravilha! — dizia ele.
Mas depois tinha de continuar a trabalhar e esquecia-se da ave. Contudo, na noite seguinte, assim que o rouxinol tornava a cantar, o pescador erguia os olhos das redes e dizia mais uma vez:
— Ah, que maravilha!
Vinham viajantes de todos os países do Mundo para admirar a cidade, o palácio e os jardins do imperador. Mas, assim que ouviam o rouxinol, todos diziam:
— Isto é o melhor de tudo!
E, quando voltavam aos seus países, continuavam a falar da ave. Sábios escreveram livros sobre a cidade e o palácio, mas o rouxinol era elogiado mais do que todas as outras maravilhas, e poetas escreveram emocionantes poemas sobre a ave da floresta perto do mar.

Estes livros eram lidos em todo o mundo, e, um dia, alguns deles chegaram às mãos do imperador. Lá ficou ele, sentado na sua cadeira dourada, a ler sem parar; de vez em quando acenava com a cabeça. Estava contente com as esplêndidas descrições do seu reino. Então, chegou à frase: "Mas, apesar de todas estas maravilhas, nada se compara ao rouxinol."
— Que é isto?! — exclamou o imperador. — O rouxinol? Nunca ouvi falar dele. Imaginem! As coisas que aprendemos nos livros!
Então mandou chamar o camareiro.
— Vi aqui neste livro que temos uma ave admirável chamada rouxinol — disse o imperador. — Parece que é a melhor coisa do meu vasto império. Por que é que ninguém me falou dele?
— Bem — respondeu o camareiro —, nunca ouvi ninguém falar nessa criatura. De certeza que nunca foi apresentada na corte.
— Quero que venha aqui esta noite cantar para mim — disse o imperador. — É uma vergonha que toda a gente saiba o que possuo e eu não!
— Nunca ouvi falar nele — repetiu o camareiro —, mas vou procurá-lo e hei-de encontrá-lo!
Sim, mas onde? O camareiro subiu e desceu todas as escadas, andou por todos os salões e corredores, mas, de todas as pessoas que encontrou, nenhuma tinha ouvido falar do rouxinol. Voltou apressado à presença do imperador e disse-lhe que aquilo devia ser uma história inventada pelos escritores.
— Vossa Majestade Imperial não deve acreditar em tudo o que aparece escrito. As coisas que os autores inventam! É mesmo magia negra!
— Mas o livro onde eu soube da ave — afirmou o imperador — foi-me enviado pelo poderoso imperador do Japão, portanto não pode ser mentira! Quero ouvir o rouxinol! Quero ouvi-lo esta noite.
— Tsing-pe! — respondeu o camareiro.
E lá foi ele outra vez escada abaixo e escada acima, por todos os salões e corredores; metade da corte andava a correr atrás dele. Por fim, encontraram uma pobre rapariguinha na cozinha.
— O rouxinol? — perguntou ela. — Meu Deus! Claro que sei! Que bem que ele canta! A maior parte das noites deixam-me levar para casa alguns restos de comida para a minha mãe, que está doente. Vivemos perto do lago, do outro lado da floresta. E quando volto para o palácio, cansada, sento-me um bocadinho e fico a ouvi-lo cantar.
— Rapariguinha! — exclamou o camareiro —, ofereço-te um lugar permanente na cozinha e dou-te licença para veres o imperador a jantar se nos levares até ao rouxinol. A sua presença é exigida esta noite na corte.

Então, partiram em direcção à floresta onde o rouxinol costumava cantar; mais de metade da corte foi com eles. Enquanto iam andando, uma vaca mugiu.
— Oh! — exclamou um pajem. — Já estou a ouvi-lo! Para um animalzinho tão pequeno faz um barulho extraordinário. Mas, sabem, tenho a certeza de já o ter ouvido.
— Não, não, aquilo é uma vaca a mugir! — exclamou a rapariguinha. — Ainda temos de andar muito.
As rãs começaram a coaxar num charco.
— Maravilhoso! — exclamou o capelão do imperador. — Já estou a ouvir a canção! Parecem mesmo sininhos de igreja!
— Não, não, isso são rãs — disse a rapariguinha da cozinha. — Mas devemos estar quase a ouvi-lo.
Então, o rouxinol começou a cantar.
— Lá está ele! — disse a rapariguinha. — Oiçam! Olhem! Está ali! — e apontou para um passarinho cinzento por entre os ramos.
— Será possível? — exclamou o camareiro. — Nunca pensei que fosse assim. Parece tão vulgar! Tão simples! Talvez tenha perdido a cor quando viu todas estas visitas importantes.
— Rouxinolzinho! — chamou a rapariguinha. — O nosso gracioso imperador gostaria muito que cantasses para ele.
— Com o maior prazer — disse o rouxinol, continuando a cantar tão bem que era um encanto ouvi-lo.
— Parecem mesmo sinos de vidro — disse o camareiro. — Não percebo como é que nunca o tínhamos ouvido. Vai ser um êxito na corte!
— Querem que torne a cantar para o imperador? — perguntou o rouxinol, que pensava que uma das visitas era o imperador.
— Excelentíssimo rouxinol — disse o camareiro —, tenho a honra e o prazer de o convidar para um concerto no palácio esta noite, onde encantará Sua Majestade Imperial com as suas lindas cantigas.
— Soam melhor na floresta — afirmou o rouxinol.
Apesar disso, foi com eles de boa vontade quando ouviu dizer que era desejo do imperador.

Entretanto, que limpezas iam pelo palácio! As paredes e o soalho de porcelana brilhavam, lustrosos, à luz de milhares de luzes douradas. Mesmo no meio do grande salão, junto do trono do imperador, estava um poleiro dourado para o rouxinol. Toda a corte estava presente, e a pequena criadinha da cozinha teve autorização para ficar atrás da porta, porque já tinha o título oficial de Verdadeira Criada de Cozinha. Todos os olhos estavam postos no passarinho cinzento quando o imperador lhe fez sinal que começasse.
Então, o rouxinol cantou tão bem que o imperador ficou com os olhos cheios de lágrimas, que lhe escorreram pelas faces; e o rouxinol continuou a cantar ainda melhor, de modo que cada nota foi direitinha ao coração do imperador. Este ficou muito satisfeito; o rouxinol, declarou ele, iria receber o seu sapato dourado para usar ao pescoço. Mas este agradeceu e recusou, porque já se sentia recompensado.
— Vi lágrimas nos olhos do imperador. Pode lá haver alguma dádiva maior do que essa? As lágrimas de um imperador têm um poder estranho. Já fui suficientemente recompensado.
E cantou mais uma canção com a sua voz maviosa.
— Muito espirituoso, muito divertido; a criatura é namoradeira — diziam as damas da corte, enchendo as bocas de água para fazerem um ruído de gargarejo.
Por que é que não haviam de ser também rouxinóis? Até os lacaios e as criadas de quarto acenavam, com ar de aprovação, o que significa muito, porque estes são sempre os mais difíceis de contentar. Não havia dúvida: o rouxinol era um êxito.
Ficaria na corte e teria uma gaiola só para si, com autorização para ir apanhar ar duas vezes durante o dia e uma vez à noite. Seria acompanhado, em cada excursão, por doze criados, cada um a segurar firmemente uma fita de seda atada a uma patinha da ave. Não, essas saídas não eram muito divertidas.

Um dia, chegou um grande embrulho para o imperador. Trazia uma palavra escrita por fora: ROUXINOL.
— Olha! Outro livro sobre a nossa famosa ave! — exclamou o imperador.
Mas não era um livro; era um pequeno brinquedo mecânico dentro de una caixa, um rouxinol de corda. Tinha o feitio de um verdadeiro, mas estava coberto de diamantes, rubis e safiras. Quando se lhe dava corda, cantava uma das canções que o verdadeiro passarinho costumava cantar, e a sua cauda andava para baixo e para cima, brilhando em prata e ouro. A volta do pescoço trazia uma fita, onde estava escrito: "O rouxinol do imperador do Japão nada vale comparado com o rouxinol do imperador da China."
— Que maravilha! — disseram todos.
E o mensageiro que tinha trazido o presente recebeu o título de Principal Portador Imperial de Rouxinóis.
— Agora têm de cantar juntos. Que dueto que vai ser!
Então os dois passarinhos tiveram de cantar juntos, mas não foi um êxito. O problema era que o verdadeiro rouxinol cantava à sua maneira e a canção do outro saía de uma máquina.
— Isto não é vergonha nenhuma — afirmou o Mestre da Música Imperial. — Está perfeitamente afinado: na realidade, ele até podia ser um dos meus alunos.
Então, o pássaro de corda foi posto a cantar sozinho. Agradou quase tanto à corte como o verdadeiro, e evidentemente que era muito mais bonito à vista, todo brilhante, como uma pulseira ou um alfinete de peito. Cantou a mesma canção trinta e três vezes sem se cansar. Os cortesãos não se importariam de a ouvir mais umas vezes, mas o imperador achou que era a vez do verdadeiro.

Mas onde estava o rouxinol? Tinha voado pela janela, para a sua floresta verdejante, sem ninguém dar por isso.
— Tch, tch, tch! — fez o imperador, aborrecido. — Que significa isto?
E os cortesãos resmungavam e franziam as testas.
— Mas temos aqui o melhor! — disseram.
E o rouxinol de corda teve de cantar outra vez.
Era a trigésima quarta vez que o ouviam, mas ainda não sabiam bem a canção. Era difícil de aprender. E o Mestre da Música Imperial teceu à ave os mais altos elogios: era superior ao rouxinol vivo, não apenas na aparência exterior, mas também no que tinha lá dentro.
— Sabem, senhores e senhoras e, acima de todos, Vossa Majestade Imperial, com o verdadeiro rouxinol nunca se sabe o que vai acontecer, mas com a ave de corda tem-se a certeza; é tudo fácil: podemos abri-la e ver como pensa, como cada nota segue a outra com precisão!
— Era isso mesmo o que eu estava a pensar — ouviu-se aqui e ali.
E, na segunda-feira seguinte, o Mestre da Música Imperial foi autorizado a mostrar publicamente o pássaro ao povo. Também ele devia ouvi-lo cantar, tinha declarado o imperador. E assim foi. E ficaram todos tão entusiasmados como se estivessem tontos de beberem muito chá, um antigo costume chinês. Disseram todos:
— Ah!
E levantaram os indicadores e acenaram com as cabeças.
Mas o pobre pescador, que tinha ouvido o verdadeiro rouxinol, afirmou:
— Lá bonito é... e até parece o rouxinol... Mas parece que falta qualquer coisa, não sei bem...
O verdadeiro rouxinol foi banido do reino do imperador.

O pássaro artificial recebeu um lugar especial numa almofada de seda junto da cama do imperador; empilhados à volta estavam todos os presentes que lhe tinham dado, todo o ouro e jóias. Foi distinguido com o título de Principal Trovador Imperial da Mesa-de-Cabeceira, Primeira Classe à Esquerda, porque até os imperadores têm o coração do lado esquerdo. O Mestre da Música Imperial escreveu um solene trabalho em vinte e cinco volumes sobre o pássaro mecânico. Era muito extenso e erudito, cheio das mais difíceis palavras chinesas. Mas toda a gente fingiu que o tinha lido e compreendido. Ninguém queria passar por estúpido!
Tudo isto continuou durante um ano, até que o imperador, a corte e o resto do povo chinês sabiam de cor cada notazinha da canção do passarinho de corda; mas, por isso mesmo, cada vez gostavam mais dela. Podiam cantá-la em coro — e faziam-no.
Os rapazitos da rua andavam por todo o lado a cantar: rrr, trrr, piu, piu, piu, e o imperador também cantava — um som maravilhoso, não havia dúvida.
Mas, uma noite, precisamente quando o pássaro de corda estava a cantar e o imperador, deitado na cama, o ouvia, qualquer coisa fez "crac!" dentro do pássaro. Brrrr! O mecanismo continuou a rodar, e a música parou. O imperador saltou da cama e mandou chamar o seu médico. Mas de que servia o médico? Então foram buscar o relojoeiro, e este, depois de muitas resmungadelas e mexidelas no pássaro, conseguiu arranjá-lo mais ou menos. Mas preveniu toda a gente de que tinha de ser usado muito poucas vezes; as peças estavam quase gastas por completo e não era possível substituí-las sem estragar o som.

Que golpe horrível! Não se atreviam a pôr o pássaro a cantar mais do que uma vez por ano, e mesmo isso já era um risco. Contudo, nessas ocasiões anuais, o Mestre da Música Imperial fazia sempre um discurso cheio de palavras difíceis, dizendo que o pássaro estava tão bom como sempre — e, claro, uma vez que ele dizia que sim, era porque ele estava tão bom como sempre...

Passaram cinco anos, e uma grande tristeza abateu-se sobre o país. O povo era muito amigo do imperador, mas ele estava gravemente doente e não se esperava que sobrevivesse. Já tinha sido escolhido novo imperador, e a multidão esperava nas ruas que o camareiro lhe desse notícias. Como estava o imperador? O camareiro abanava a cabeça.
Frio e pálido, o imperador jazia no seu leito real. Na verdade, a corte achava que já tinha morrido e foi a correr saudar o seu sucessor. Os criados de quarto foram a correr coscuvilhar uns com os outros e as criadas juntaram-se todas para beberem café,. Tinham sido estendidos panos pretos em todos os salões e corredores para amortecer o som dos passos, de maneira que o palácio parecia muito, muito sossegado.
Mas o imperador ainda não tinha morrido. Pálido e imóvel, jazia na sua magnífica cama com longos cortinados de veludo e pesados cordões dourados. Através de uma janela aberta lá no alto, a Lua brilhava sobre o imperador e o pássaro artificial.
O pobre imperador mal podia respirar; sentia como se tivesse qualquer coisa a pesar-lhe sobre o coração. Abriu os olhos e viu a Morte sentada sobre ele. A Morte tinha a coroa de ouro do imperador na cabeça, numa das mãos segurava a espada imperial de ouro e na outra a esplêndida bandeira imperial. E, por entre os cortinados de veludo, espreitavam estranhos rostos: alguns horríveis e outros belos e bondosos. Eram as boas e as más acções do imperador, que olhavam para ele, enquanto a Morte se sentava sobre o seu coração.
— Lembras-te?... Lembras-te?... — diziam os rostos baixinho, um a seguir ao outro.
E contaram e lembraram tantas coisas que a testa do imperador acabou por ficar coberta de suor.
— Nunca soube... nunca percebi... — gritou ele. — Música, música! Toquem o grande tambor da China! Salvem-me destas vozes!
Mas as vozes não se calavam. Continuavam sempre, enquanto a Morte acenava com a cabeça, como um mandarim, a tudo o que diziam.
— Música! Dêem-me música! — pedia o imperador. — Belo passarinho dourado, canta, peço-te que cantes! Dei-te ouro e coisas preciosas; pendurei o meu sapato dourado ao teu pescoço com as minhas próprias mãos. Canta, peço-te, canta!
Mas o pássaro estava silencioso; não havia ninguém para lhe dar corda, e sem corda não tinha voz. E a Morte continuava a olhar fixamente para o imperador com as grandes órbitas vazias. Tudo estava calado, terrivelmente calado.

Então de repente, perto da janela, soou a mais bela canção. Era o verdadeiro rouxinol, que se tinha empoleirado num ramo lá fora. Sabendo do mal do imperador, o passarinho tinha voltado para o confortar e trazer-lhe esperança.
À medida que cantava, as firmas fantasmagóricas foram desaparecendo, até se desvanecerem. O sangue começou a correr mais depressa pelo corpo do imperador. A própria Morte ficou presa à canção.
— Canta mais, canta mais, pequeno rouxinol! — pediu a Morte.
— Canto, se me deres a grande espada de ouro... sim, e a bandeira imperial... e a coroa do imperador...
E a Morte devolveu cada um dos tesouros em troca de uma canção e o rouxinol continuou a cantar. Cantou sobre o calmo adro da igreja onde cresciam as rosas brancas, onde as flores do sabugueiro cheiravam tão bem, onde a erva fresca está sempre verde por causa das lágrimas dos que ali choram os seus mortos. Então, a Morte encheu-se de saudades do seu jardim e saiu pela janela, flutuando como um nevoeiro gelado.
— Obrigado, obrigado! — disse o imperador. — Passarinho celestial, sei quem és! Eu bani-te do meu reino e, no entanto, só tu vieste ajudar-me, e afastaste os horríveis fantasmas da minha cama e libertaste o meu coração da Morte. Como hei-de recompensar-te?
— Já me recompensaste — respondeu o rouxinol. — Quando cantei para ti da primeira vez caíram-te lágrimas dos olhos e essa dádiva não posso esquecer. Essas são as jóias que não se compram nem se vendem. Mas agora tens de dormir para ficares bom e forte. Olha, vou cantar para ti.
E cantou e o imperador caiu num sono calmo e reparador.
O Sol brilhava sobre ele através da janela quando acordou, restaurado, desaparecidas a fraqueza e a doença. Nenhum dos criados tinha lá entrado ainda, porque todos pensavam que ele estava morto.
— Tens de ficar sempre comigo — disse o imperador. — Mas só cantas quando quiseres. E, quanto ao pássaro de corda, vou parti-lo em mil bocados.
— Não faças isso — respondeu o rouxinol. — Fez o que pôde por ti. Guarda-o. Eu não posso morar num palácio, mas deixa-me ir e vir à minha vontade, e à noite empoleiro-me neste ramo, junto da tua janela, e canto para ti. Hei-de trazer-te felicidade, mas também pensamentos sérios. Hei-de cantar sobre as pessoas felizes do teu reino, mas também sobre os que se sentem tristes. Cantarei sobre o bem e o mal, que têm estado sempre à nossa volta, mas que têm sempre escondido de ti. Os passarinhos voam em todas as direcções, até ao pescador, à casinha do trabalhador, até junto de tantos que estão longe de ti e da tua corte magnífica. Amo o teu coração mais do que a tua coroa, apesar de a coroa ter algo de mágico. Sim, hei-de voltar, mas tens de me prometer uma coisa.
— O que quiseres! — exclamou o imperador.
Tinha-se levantado e vestido as suas roupas imperiais e segurava a espada dourada junto do coração.
— A única coisa que te peço é isto: não digas a ninguém que tens um amigo passarinho que te conta tudo. É melhor guardar segredo.
E, com estas palavras, o rouxinol voou para longe. Os criados vieram ver o amo morto, mas ficaram ali especados!
— Bom dia! — disse o imperador.

Hans Christian Andersen





03/03/2010

A agulha de cerzir



Era uma vez uma agulha de cerzir, tão fina que imaginava ser uma agulha de costura.
- Vejam bem o que estão segurando! - disse aos Dedos que a pegaram, a Agulha de Cerzir - não me percam! Se eu cair no chão, é bem possível que eu nunca mais seja encontrada, de tão fina que sou.

- Para isso há jeito - disseram os Dedos, apertando-a na cintura.
- Estão vendo? Estou seguida de grande comitiva! - volveu a Agulha de Cerzir.
Puxava atrás de si uma linha comprida, na qual, porém, não havia nó.
Os Dedos levaram a agulha directamente para o chinelo da cozinheira, onde tinha de ser costurado o couro de cima, que se partira.
- Isso é trabalho de baixa categoria! - protestou a Agulha de Cerzir - nunca conseguirei varar isso! Vou quebrar! Vou quebrar!
E de facto quebrou.
- Eu não disse!? Sou fina demais para isso!
Agora ela não presta mais para nada, concluíram os Dedos. Mas tiveram, apesar disso, de segurá-la. A cozinheira pingou lacre na agulha, e espetou-a no lenço que trazia ao pescoço.
- Veja, agora sou alfinete de adorno! - disse a Agulha de Cerzir - sempre tive a sensação de alcançar um posto honroso. Quando se é alguém nesta vida, sempre se chega a ser mais alguma coisa.
E riu-se por dentro, pois nunca se vê, de fora, quando uma Agulha de Cerzir está rindo. Lá estava ela, pois, tão orgulhosa como se estivesse numa carruagem de luxo, olhando para todos os lados.
- Posso ter a honra de perguntar se o Sr. é de ouro? - perguntou ela ao Alfinete, seu vizinho - o Sr. tem magnífico aspecto, inclusive na cabeça, mas é muito pequeno! Deve tratar de crescer, pois nem todos podem ser lacrados na extremidade.
Assim dizendo, a Agulha de Cerzir ergueu-se com tanta altivez que escapou do lenço e caiu na gamela de lavar louça, no momento em que a cozinheira ia despejá-la.
Agora vamos viajar! - disse a Agulha de Cerzir - tomara que eu não fique fora para sempre!
Mas ficou.
- Sou fina demais para este mundo - disse ela, já na sarjeta - tenho a consciência do que sou, e isso sempre causa certo prazer.
E a Agulha de Cerzir manteve-se erecta, sem perder o bom humor.
Por cima dela navegavam os mais variados objetos - varinhas, palha, pedacinhos de jornal.
- Lá vão eles, navegando! - disse a Agulha de Cerzir - nem sabem o que há por baixo deles, que eu estou em baixo deles! Sou eu! Vejam só! Lá vai uma varinha, que não pensa em outra coisa neste mundo senão em varinha, isto é, em si própria. Lá vai um colmo! Olhem, como ele vira, como dá voltas! Não penses tanto em ti mesmo, colmo, que assim vais bater de encontro às pedras. E ali bóia um jornal. Já caiu no esquecimento tudo quanto nele está escrito, e ainda assim ele se abre e se espalha todo! Eu, porém, continuo aqui quieta e paciente. Sei o que sou e o que continuo a ser.
Um dia alguma coisa brilhou pertinho dela, e a Agulha de Cerzir julgou que se tratava de um diamante. Era um caco de garrafa. Sendo, porém, um objecto brilhante, a Agulha de Cerzir dirigiu-lhe a palavra, e apresentou-se como sendo alfinete de gravata.
- O sr., com certeza, é um diamante, não é?
- Sim, sim... Qualquer coisa assim.
Desse modo, um ficou pensando que o outro era algo de muito precioso, e puseram-se a comentar o quanto o mundo era cheio de vaidade.
- Pois é. Morei num estojo, em casa de uma jovem - disse a Agulha de Cerzir - ela era cozinheira. Tinha cinco dedos em cada mão. Nunca vi, em toda a minha vida, algo tão cheio de vaidade como aqueles cinco dedos. Queriam ser grande coisa, eles, que só serviam para me segurar, me tirar do estojo e nele me recolocar. Não tinham nenhuma outra função...
- E tinham algum brilho - perguntou o Caco de Garrafa.
- Brilho! Tinham soberba, vaidade, nada mais! Eram cinco irmãos, todos da mesma família, todos dedos. Viviam enfileirados, retos, um ao lado do outro, embora fossem de comprimento diverso. O primeiro, do lado de fora, Mata-Piolho, era gordo e baixo, andava fora do grupo, e só dobrava as costas num ponto, mas dizia que se fosse cortado da mão de um homem, o homem inteiro estaria estragado, inutilizado para o serviço militar. O seguinte, Fura-Bolos, entrava no doce e no amargo, apontava o Sol e a Lua, e era quem apertava mais, quando a mão escrevia. Pai-de-Todos olhava por cima da cabeça dos outros. Seu-Vizinho andava de anel de ouro na barriga, e o pequenino Minguinho não fazia nada o dia inteiro, do que muito se orgulhava. Enfim, era tudo ostentação, fanfarronadas, e quem foi para a gamela fui eu!
- E agora estamos aqui, brilhando - disse o Caco.
Nesse momento afluiu mais água à sarjeta, que transbordou, alagando todas as margens e arrastando consigo o Caco de Vidro.
- Ele foi promovido - disse a Agulha de Cerzir - eu permaneço aqui. Sou fina demais, orgulho-me disso, mas este é um orgulho justificado e legítimo!
E continuou ali, recta, pensando muito.
- Eu poderia até pensar que nasci de um raio de Sol, de tão fina que sou. Me parece, de fato, que o Sol sempre me procura em baixo da água. Sou tão fina que minha mãe não me consegue encontrar. Se eu tivesse meu velho olho, que se partiu, creio que eu poderia chorar, embora, com certeza, não o fizesse, pois chorar não é elegante.
Um belo dia, uns garotos de rua estavam remexendo na sarjeta, à procura de pregos velhos, moedas e outros cacarecos. Aquilo era uma porcaria, mas o faziam por sua própria vontade. Logo...
- Ai! - gritou um deles, que se picara ao tocar na Agulha de Cerzir - que sujeito!
- Não sou um sujeito, sou uma senhorita! - protestou a Agulha de Cerzir, mas ninguém lhe deu ouvidos.
O lacre caíra, e ela se tornara preta. Mas a cor preta emagrece, e a agulha pensava que assim parecia mais delgada ainda que antes.
- Lá vem boiando uma casca de ovo - disseram os meninos.
- Paredes brancas, e eu preta! - disse a Agulha de Cerzir - isso é bom. Assim serei vista, contanto que eu não sinta enjôo, pois teria de me dobrar ao meio. Mas ela não sentiu enjôo em sua embarcação, nem precisou dobrar-se ao meio.
- Contra enjoos do mar, é bom ter estômago de aço e estar sempre lembrando de que se é um pouco mais que um ser humano. Agora me sinto bem. Quanto mais fina se é, tanto mais se suporta isso.
- Crrrac! - disse a casca de ovo.
Um carroção carregado passara por cima dela.
- Como isso aperta! - queixou-se a Agullha de Cerzir - assim acabarei enjoada, apesar de tudo. Vou quebrar! Vou quebrar!
Mas ela não quebrou, conquanto por cima dela passasse todo o peso de um carroção carregado. Ela estava deitada em posição longitudinal... E assim pôde ficar, sem maiores riscos.


02/03/2010

A princesa e o grão de ervilha


(The Princess and the Pea)


Certo príncipe, por mais que procurasse, não encontrava esposa adequada, entre as muitas princesas do mundo. Numa noite de tempestade, uma moça foi bater à porta do palácio para pedir abrigo. Disse que era filha de um rei. Em vista disso, a rainha-mãe quis preparar-lhe a cama com suas próprias mãos e colocou debaixo dos vinte colchões e das vinte almofadas onde a princesa devia deitar-se, um pequeno grão de ervilha.

Na manhã seguinte, a rainha-mãe entrou no aposento da jovem e perguntou-lhe como tinha passado a noite. - Oh, Majestade! Exclamou a princesa. Não consegui dormir a noite inteira, porque, na cama, havia alguma coisa dura que me incomodava horrivelmente.

Ao ouvir isto, a rainha-mãe abraçou a princesa, comovida e contente por ter, enfim, encontrado uma esposa digna do príncipe, seu filho. E, realmente, nenhuma outra princesa, por mais delicada e sensível que fosse, teria podido perceber aquele grãozinho de ervilha colocado debaixo de tantos colchões e almofadas. O casamento celebrou-se dias depois, com muitos festejos.


Hans Christian Andersen


28/02/2010

Os cisnes selvagens





Havia um rei que tinha onze filhos e uma filha chamada Elisa. Ao ficar viúvo, pensou em se casar outra vez e, de fato, contraiu matrimônio com uma perversa mulher, que, logo, começou a odiar os enteados. Maltratava-os continuadamente e tornava-lhes impossível à vida. Um dia, mandou a pequena Elisa ao campo, para que vivesse com os camponeses e conseguiu que uma bruxa transformasse os meninos em cisnes. Passaram-se os anos. Elisa, que se tornara uma belíssima donzela, voltou ao palácio. A madrasta, vendo-a tão formosa e inteligente, colocou-lhe na água do banho três sapos, para que se transformasse em moça feia, estúpida e má. Mas a bondade de Elisa era tamanha que os três horríveis bichos, ao seu contato, se converteram em três esplêndidas rosas. A madrasta, enraivecida, untou com um ungüento negro o rosto e o corpo da princesinha e emaranhou-lhe completamente os cabelos. Transformou-a de tal maneira que o pai tomou-a por uma impostora e expulsou-a do reino.

Apenas posta fora do palácio, Elisa dedicou-se a procurar seus irmãos. Caminhava o dia inteiro, alimentava-se com frutos silvestres e passava a noite dormindo embaixo de uma árvore qualquer. Afinal, chegou a um grande rio. O sol estava se pondo e a jovem viu chegarem à margem da corrente onze cisnes alvíssimos, que possuíam cada qual a sua coroa de ouro. As aves pousaram perto dela, batendo as grandes asas e, no momento exato em que o sol desaparecia no horizonte, transformaram-se em onze garbosos rapazes. Eram seus irmãos, que a abraçaram e lhe contaram a magia feita contra eles pela bruxa, por ordem da madrasta e em virtude da qual só readquiriam a forma humana depois do por do sol. "Amanhã, iremos a um país distante", disse o mais velho, "e tu irás conosco."

Passaram a noite inteira tecendo uma rede com a casca flexível do salgueiro e as varinhas do juncos. Quando amanheceu, nela colocaram Elisa e, sustentando com o bico as bordas da rede, saíram voando. Após muitas horas, chegaram ao longínquo país, entraram numa gruta situada no meio de um bosque e ficaram dormindo. Só Elisa vigiava, rogando a Deus o meio de salvar os irmãos. Apenas cerrou os olhos, apareceu-lhe em sonho belíssima fada, que lhe disse: "Para libertares teus irmãos do malefício de que são vítimas inocentes, tens que colher todas as urtigas que puderes, esmagá-las com teus pés até que se desprendam fibras, com as quais deverás tecer onze túnicas. Durante todo o tempo que este trabalho durar, não poderás pronunciar uma só palavra, pois, do contrário, graves desgraças recairão sobre os teus irmãos. Por último, quando as túnicas estiverem prontas, atirarás cada uma num dos cisnes-príncipes e eles votarão a ser homens para o resto da vida." Na manhã seguinte, Elisa, lembrando-se do sonho, começou o penoso trabalho.

Um dia, quando estava sozinha na gruta, a tecer as túnicas, ouviu ressoar no bosque os sons de trombetas de caçar e ladrar de cães. Pouco depois, um grupo de caçadores surgiu entre as árvores. O rei do país, que fazia parte da turma de caçadores, ficou impressionado com a beleza de Elisa e decidiu casar-se com ela, embora não conseguisse nenhuma resposta às perguntas, que lhe dirigiu. Levou-a para o palácio, com ela se casando já no dia seguinte. Feita rainha, Elisa continuava tecendo as túnicas sem proferir uma única palavra, até que, afinal, todos acreditaram que era muda.

Alguns cortesãos, invejosos do amor que o rei sentia por ela, foram dizer-lhe que a rainha não passava de uma feiticeira. Certa noite, enquanto a infeliz soberana havia descido ao jardim para colher urtigas, o rei a viu e, pensando que estava colhendo ervas maléficas, convenceu-se de que ela era mesmo uma bruxa. Embora muito magoado, entregou-a ao julgamento do povo. Este condenou a suposta feiticeira a morrer queimada. A desditosa (infeliz) moça não deixou escapar nenhuma palavra ou suspiro para mostrar sua inocência e, na escura prisão onde tinha sido encerrada, continuava tecendo as túnicas. Trabalhou também no próprio carro em que ia sendo conduzida para o suplício. Quando, porém, atravessava uma ponte que levava ao lugar da fogueira, a jovem, que havia, então, terminado as onze túnicas, viu os alvos cisnes, que nadavam lá embaixo, no rio. Proferindo, então, exclamações de júbilo, jogou as túnicas sobre as onze aves. Estas, no mesmo instante recuperaram sua figura humana e foram explicar tudo ao rei. Quando Elisa, que havia desmaiado de emoção, abriu os olhos, viu-se amparada nos braços de seu real esposo e rodeada por onze irmãos, que a levaram triunfalmente para o palácio real.


Hans Christian Andersen

26/02/2010

Uma verdadeira princesa

(Real Princess)


Num país muito longínquo, havia um príncipe que só queria casar com uma verdadeira princesa. Deu a volta ao mundo em busca de uma e, apesar de não faltarem princesas, nunca tinha confiança na antigüidade da sua nobreza; sempre havia nelas qualquer coisa que lhe parecia suspeito. Isto deu em resultado voltar para o seu país muito desgostoso por não ter encontrado o que desejava.

Certa noite, fazia um tempo horrível; os relâmpagos cruzavam-se no céu, o trovão ribombava, a chuva caía em torrentes. Bateu alguém à porta do palácio e o velho rei apressou-se em mandar abrir. Era uma princesa que vinha fugindo, perseguida por alguns rebeldes do seu país que acabavam de destronar a família real. Mas, Deus!, de que maneira a tinham posto a chuva e a tempestade! A água escorria-lhe pelo vestido. No entanto, apresentou-se como uma verdadeira princesa, sem faltar a uma só das regras de etiqueta palaciana. "Daqui a pouco saberemos se és ou não uma verdadeira princesa", pensou a velha rainha.

Em seguida, sem dizer nada a ninguém, entrou num quarto, desfez a cama e pôs uma ervilha sobre as tábuas. Depois estendeu vinte colchões sobre a ervilha e ainda mais vinte edredons que colocou em cima dos colchões. Era aquela a cama destinada à princesa. Na manhã seguinte, a rainha entrou no quarto em companhia do filho, e ambos lhe perguntaram com grande interesse como tinha passado a noite. - Muito mal. - ela respondeu. - A noite toda quase não fechei os olhos! Havia nesta cama qualquer coisa que me deixou machucada.

Por esta resposta, os reis e o príncipe se convenceram de que ela era uma verdadeira princesa. O príncipe casou com ela, e a ervilha foi mandada para um museu, onde ainda se deve conservar sob uma urna de cristal, se ninguém a furtou...


Hans Christian Andersen

14/01/2010

A árvore

[Syringa_vulgaris.jpg]

ERA uma vez um menino que se resfriara. Saíra e molhara os pés; ninguém pôde compreender como, pois o tempo estava seco. Sua mãe o despiu, vestiu-lhe uma roupa quente e mandou trazer a chaleira com água fervendo, para preparar-lhe um chá que o aquecesse. No mesmo instante se apresentou na porta o velho homem engelhado que morava no alto da casa. Vivia sozinho, pois não tinha nem esposa nem filhos; mas gostava muito de crianças e sabia tantos contos e estórias, que era um prazer ouvi-lo.
- Agora beba o seu chá - disse a mãe. - Talvez depois disso o tio lhe conte uma estória.
- Sim, e eu sei muitas estórias novas! - replicou, balançando a cabeça.
- Mas onde foi que o pequeno molhou os pés? - perguntou em seguida.
- E' verdade, onde foi? - replicou a mãe. - E' inconcebível.
- Diga-me, você pode me dizer exatamente, pois eu preciso saber, que profundidade tem o rego, lá em baixo, na rua onde fica a sua escola?
- justamente a altura das botinas disse o menino. - Mas é preciso ir ao grande buraco.
- Pronto! pronto ... Foi aí mesmo que você molhou os pés - disse o velho. - Agora eu gostaria de contar-lhe uma estória, mas acontece que não me lembro mais.
- Oh! 0 senhor bem poderia inventar uma - disse o menino. - Mamãe sempre diz que tudo o que o senhor vê se transforma em um conto e que tudo aquilo em que o senhor toca é motivo para uma estória.
- Sim; mas essas estórias e esses contos não valem nada. Os bons geralmente vêm por eles mesmos. Batem na minha cabeça, dizendo: "Aqui estou!"
- E agora está batendo um? - perguntou o menino.
A mãe sorriu. Lançou as folhas de chá na chaleira e jogou por cima a água fervente.
- Conte, conte!
- Sim, uma estória deve aparecer. Mas as que valem a pena não aparecem quando se deseja. Mas, atenção - disse de repente. Aqui está uma: embaixo da chaleira.
0 menino olhou para a chaleira. A tampa se levantava aos poucos; as folhas do chá apareciam; grandes e longos galhos se estenderam. Formou-se uma árvore que cobriu o leito deixando seus galhos em volta. Que flores e que perfume! No meio da árvore estava sentada uma simpática e velha mulher, trajada com uma roupa extraordinária, verde como as folhas da árvore e ornada com grandes lilases brancos. Não se podia distinguir à primeira vista se era artificial ou se as flores e as folhagens eram vivas.
- Como se chama essa dama? perguntou o menino.
- Os romanos e os gregos, respondeu o velho, chamavam-na de "dryade". Mas nós não usamos mais essa palavra. Actualmente temos para ela um novo nome; vamos chamá-la de Mamãe-Lilás e é ela que agora lhe chama a atenção. Ouça e examine a árvore atentamente.
Lá em baixo, nos n o v o s bairros, havia uma árvore igualmente grande e florida. Crescia no canto de um recinto bastante pobre. E numa linda tarde de sol, duas pessoas idosas estavam sentadas sob a árvore. Tratava-se de um velho marinheiro e sua velha, velha esposa. já eram avós e deviam festejar dentro em pouco as suas bodas-de-ouro, mas não se lembravam da data exacta. Mamãe - Lilás estava sentada na árvore e olhava para eles com ar satisfeito.
- Pois eu sei muito bem quando serão as suas bodas-de-ouro, disse ela.
Mas eles não a ouviram; falavam de seus velhos tempos.
- Você se lembra, disse o velho marinheiro, quando nós éramos muito pequenos, quando brincávamos e corríamos? Era no mesmo lugar onde estamos sentados agora. Nós plantamos pedaços de madeira na terra para fazer nosso jardim.
- Sim, respondeu a velha. Lembro-me muito bem. Regávamos os pedaços de madeira e um deles, um galho de lilás, criou raízes, cresceu e transformou-se na bela árvore sob a qual estamos sentados agora.
- Exactamente, retrucou ele. E lá em baixo, naquele canto, havia uma bacia, onde flutuava o meu barco. Eu mesmo o construíra. Como ele navegava bem! Mas eu devia conhecer a navegação de uma outra maneira!
- Sim, mas antes nós fomos à escola para nos instruirmos. Depois fizemos a primeira comunhão e choramos muito. Depois do almoço, de mãos dadas, subimos ao campanário redondo e nos embriagamos com a vista de Copenhague e o mar. A seguir, fomos até Friedrichsberg, onde o rei e a rainha passavam, em seu barco soberbo, pelos canais.
- Logo ele me mandaria v i a j a r por países distantes.
- Sim, muitas vezes eu chorei por sua causa, interrompeu ela. Pensava que você tivesse morrido e que repousasse no fundo das águas. Passei muitas noites acordada, a fim de ver se o cata-vento girava. Ele girava m u. i t o bem, mas você não voltava. Lembro-me muito bem de que um dia chovia a cântaros e a carroça do lixo parou diante da porta de meus patrões. Desci com a lata do lixo e fiquei parada na porta. Fazia um tempo horrível lá fora! Então o cocheiro entregou-me uma carta. Uma carta sua. Como ela viajara! Abri-a apressadamente e a li; eu ria e chorava, pois estava muito contente. Fiquei sabendo que você estivera nos países quentes, lá onde crescem os cafezais. Que beleza devia ser. Você narrava uma porção de coisas, eu o via com a minha imaginação, enquanto a chuva continuava a cair sem parar, De repente, alguém surgiu e me agarrou pela cintura ...
- A quem, como recompensa, você deu uma bela bofetada.
- E eu podia lá saber que se tratava de você? Você chegou juntamente com a carta. E estava tão lindo! ... Mas o é sempre. Estava com, um lenço amarelo de seda. Usava um chapéu branco novo, que lhe assentava muito bem. Mas, meu Deus, que tempo fazia e que aspecto tinha a rua!
- A seguir - continuou ele - nós nos casamos. Você se lembra? E os filhos que tivemos, a pequena Marrei, Niels, Pierre e Jean-Chrétien?
- Sim, eles cresceram e se tornaram pessoas amadas por todos.
- E eis que tiveram filhos por sua vez! E' a boa semente. Parece-me que foi nesta estação que nós nos casamos.
- Sim, é justamente hoje o dia de comemorarem as suas bodas-de-ouro, - disse Mamãe-Lilás passando sua cabeça entre os dois velhos.
Mas estes dois a tomaram por uma vizinha que lhes dava bom dia. Fitaram-se e estenderam suas mãos enlaçadas. Logo depois chegaram seus filhos e netos, que sabiam muito bem que era o dia das bodas-de-ouro e já os haviam cumprimentado pela manhã. Todavia, ao mesmo tempo em que se lembra de acontecimentos passados, eles se haviam esquecido dessa circunstância. 0 lilás brilhou mais forte, e o sol, que se deitava, veio iluminar o velho casal bem no rosto. Eles tinham, todos dois, as faces coradas e o menor de seus netos dançava em volta deles, gritando de alegria pois nessa noite haveria uma grande festa e eles teriam batatas-doces quentes. Mamãe-Lilás, na sua árvore, abaixa a cabeça e gritava "urra" junto com os outros.
- Mas isso não é um conto - interrompeu o menino, dirigindo-se ao narrador.
- Você pode achar que não - replicou o velho. - Mas vamos interrogar Mamãe-Lilás a esse respeito.
- Não é um conto, realmente - disse Mamãe-Lilás - mas vai chegar um. 0 conto mais extraordinário, nascido da realidade; se assim não fosse, uma árvore tão grande não poderia sair de uma chaleira.
Tirou o menino do leito e apertou-o contra o peito. Os galhos, cobertos de flores de cima abaixo, se fecharam sobre eles e ambos se acharam na mais espessa folhagem. Esta voou com eles pelos ares. Foi tudo incomparavelmente lindo. Mamãe-Lilás se transformou de repente numa linda jovem, vestida com o mesmo traje verde, ornado das flores claras que Mamãe-Lilás usava. Levava no colo uma
verdadeira flor de lilás e uma coroa de lilases em volta de seus cabelos cacheados, de um louro-escuro. Seus olhos eram grandes e belos. Era um prazer fitá-la. A menina e o menino trocaram um beijo; eram da mesma idade e cheios da mesma alegria.
De mãos dadas, saíram da folhagem. Estavam agora no belo jardim florido de sua pátria. Sobre a relva fresca estava a bengala do pai. Para as crianças, essa bengala era viva. Quando se puseram a cavalo sobre ela, o seu cabo polido se transformou numa bela cabeça. Uma longa crina ali flutuava; quatro pernas finas e fortes apareceram: o animal era forte e fogoso. Partiram a galope em volta da relva.
- Agora nós estamos bem longe - disse o menino: - no castelo onde estivemos o ano passado.
E eles rodavam em volta do prado, e a menina que, como todos sabemos, não era outra senão Mamãe-Lilás, gritava sem parar:
- Aqui estamos na região. Você está vendo aquela casa de campo que parece um ovo gigantesco? 0 lilás deixou cair seus ramos para baixo; o galo caminhava orgulhosamente catando a terra a fim de arranjar alimento para seus filhotes. Veja como ele incha o peito Agora estamos perto da igreja. Está no alto da montanha, à sombra dos grandes carvalhos que estão com as folhas meio secas. Agora estamos diante da forja: o fogo queima e os homens seminus batem com seus martelos, fazendo voar as faíscas que formam estrelas. Para a frente! A caminho do belo castelo!
E tudo o que dizia a menina, a cavalo na bengala atrás dele, desfilava aos seus olhos. 0 menino via tudo isso; no entanto, não estava mais do que galopando em volta da relva. A seguir eles brincaram numa alameda transversal e construíram um pequeno jardim. A menina apanhou as flores de lilás que levava nos cabelos e as plantou. E elas cresceram, como acontecera ao velho de que haviam falado, quando ainda eram crianças e se divertiam nos novos quarteirões. Assim como eles, deram-se as mãos. Mas eles não subiram ao campanário vermelho, nem foram até o parque de Friedrichsberg. Não, a menina segurou o menino- pela. cintura e eles voaram para longe, por toda a Dinamarca. Chegou a primavera, depois o verão, depois o outono e o inverno. Mil imagens se refletiam nos olhos
Partiram a galope em volta da relva.
e no coração do menino. E a menina não cessava de lhe dizer: "Não se esqueça nunca." Durante todo o tempo do vôo, o lilás espalhava o seu perfume suave e penetrante. 0 menino sentia bem o odor das rosas e das outras flores, mas o do lilás era ainda mais inebriante; é que as flores pendiam do coração da menina, sobre o qual o pequeno doente apoiava sempre a cabeça.
- Aqui a primavera é magnífica disse a menina. Acabavam de chegar a um bosque de faias. A seus pés espalhava o perfume e as anêmonas rosa-claro brilhavam sobre o verde das folhas. "Oh! não existe primavera mais perfumada do que na floresta de faias dinamarquesas!"
- Aqui a primavera é magnífica! - disse ela. Passavam diante dos antigos castelos do tempo dos cavaleiros. Os muros vermelhos e as torres pontudas refletiam-se nos fossos onde nadavam cisnes e tinham o aspecto de velhas árvores. 0 trigo, nos campos, ondulava como um mar em movimento; flores vermelhas e amarelas balançavam-se na relva; e à noite, quando a lua aparecia, muito branca, era tudo mais lindo ainda. "Não se esqueça nunca!"
- Aqui o outono é magnífico - disse a menina. - 0 céu fica duas vezes mais alto e duas vezes mais azul; a floresta toma os coloridos mais lindos, vermelhos, amarelos e verdes; os cães-de-caça se abraçam; os pássaros selvagens voam em conjunto, gritando, sobre as antigas ruínas de pedra. Por todo canto, sobre o mar azul-escuro, aparecem as velas brancas; e nas fazendas, as velhas mulheres, as moças e as crianças pisam as uvas nos grandes tonéis. Os jovens cantam, os velhos contam estórias de mágicos: "Não se pode imaginar coisa melhor!"
- Aqui, o inverno é magnífico - disse a menina. - Todas as flores ficam cobertas de geada, parecendo feitas de coral branco. A neve estala sob os pés, com se tivéssemos botas novas. No céu, as estrelas cadentes caem uma após outra. Dentro das casas, a árvore de Natal se ilumina; existem presentes; a alegria e a Lua lançava luz prateada por todos os lados. E mesmo a criança mais pobre reconhece: "E' magnífico, no inverno."
Sim, era magnífico e a menina mostrava tudo ao menino. 0 lilaseiro espalhava sempre o seu perfume e continuava a flutuar a bandeira vermelha de cruz branca, a bandeira sob a qual o velho marinheiro partira para distantes países. Depois o menino tornou-se um homem, quis partir para o vasto mundo, para longe, onde ficam os países quentes onde se plantam os cafezais. No momento da partida a jovem apanhou uma flor de lilás do seu peito * entregou-a para guardar. Ele colocou-a no seu livro de preces. E, de cada vez que ele o abria, no estrangeiro, seu olhar caía na página onde se encontrava a flor da recordação. Quanto mais a olhava, mais ela revivia. Ao mesmo tempo, ele respirava o odor de sua pátria, e, entre as pétalas, via distintamente a menina que o fitava com seus olhos claros. E a ouvia murmurar:
- Aqui, é esplêndido na primavera, no verão, no outono e no inverno.
E centenas de imagens passavam por seus olhos.
Muitos anos se passaram. Agora ele era um homem velho que, ao lado de sua esposa, estava sentado sob uma árvore em flor. Davam-se as mãos, como o avô e a avó tinham feito, nos bairros novos; falavam também dos tempos passados e de suas bodas-de-ouro. A menina dos olhos azuis, dos lilases nos cabelos, estava sentada no alto da árvore, e, debruçando a cabeça para eles, dizia:
- E' hoje o aniversário de seu casamento.
Depois tomava duas flores de sua coroa e dava-lhes um beijo. As flores começavam a brilhar como a prata, depois como o ouro, e quando ela as pousou na cabeça dos velhos, cada uma delas se transformou numa coroa de ouro. Estavam os dois sentados, como um rei e uma rainha, sob a árvore perfumada que se parecia com um lilaseiro. Ele contava à sua velha esposa a estória de Mamãe-Lilás, tal como ouvira quando era menino; e parecia-lhes que era muito parecida com as circunstâncias vividas por eles próprios. E era isso que mais lhes agradava.
- Sim, é isso - disse a menina da árvore. - Uns me chamam de Mamãe-Lilás, outros de "dryade"; afinal, eu me chamo Recordação. Sou eu que estou sentada na árvore que floresce todos os dias. Tenho uma vasta memória e sei contar lindas coisas! Deixe-me ver se você ainda tem suas flores?
0 velho homem abriu seu livro de preces. Lá estava uma flor de lilás, fresca como se tivesse sido colhida, e Mamãe-Lilás, ou melhor, Recordação, pendia a cabeça, e os dois velhinhos, coroados de ouro, sentavam-se sob o sol quente. Fecharam os olhos e... e... o conto acabou-se.
0 menino, deitado no leito, não sabia mais se ouvira ou sonhara. A chaleira estava sobre a mesa; não havia árvore alguma. 0 velho homem que contara a estória estava para sair. E o fez.
- Como era lindo! - disse o menino.
Mamãe, teria eu ido mesmo até os países quentes?
- Sem duvida alguma - respondeu a mãe. - Quando se bebe duas xícaras cheias de chá de tília, tudo pode acontecer!
E cobriu-o bem, para que ele não apanhasse mais frio.
- Você dormiu bem, enquanto eu brigava com o nosso velho amigo, a fim de saber se era uma estória ou um conto.
- E onde está Mamãe-Lilás? - perguntou o menino.
- Dentro da chaleira - disse a mãe.
E ali ficará.


Hans Christian Andersen
(versão brasileira)