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15/02/2011

Todos dependem da boca

Certo dia, a boca, com ar de vaidade, perguntou:
- Embora o corpo seja um só, qual é o órgão mais importante?
Os olhos responderam:
- O órgão mais importante somos nós: observamos o que se passa e vemos as coisas.
- Somos nós, porque ouvimos. - disseram os ouvidos.
- Estão enganados. Nós é que somos mais importantes porque agarramos as coisas. Disseram as mão..
Mas o coração também tomou a palavra:
- Então, e eu? Eu é que sou importante: faço funcionar todo o corpo!
- E eu trago em mim os alimentos! - interveio a barriga.
- Olha! Importante é aguentar todo o corpo como nós, as pernas, fazemos.
Estavam nisto quando a mulher trouxe a massa, chamando-os para comer. Então os olhos viram a massa, o coração emocionou-se, a barriga esperou ficar farta, os ouvidos escutavam, as mãos podiam tirar bocados, as pernas andaram... mas a boca recusou comer. E continuou a recusar. Por isso, todos os outros órgãos começaram a ficar sem forças...
Então a boca voltou a perguntar:
- Afinal qual é o órgão mais importante no corpo?
- És tu boca - responderam todos em coro.
- Tu és o nosso rei!

Todos nós somos importantes e, para viver, temos de aprender a colaborar uns com os outros, é o que procura transmitir essa lenda moçambicana.


Moçambique

12/02/2011

Lenda dos Nhamussoros de Inhambane


Segundo reza uma história, em Inhambane para os lados de Chicuque, há muitos anos atrás, apregoou-se a vinda de um Nhamussoro. Tendo chegado aos ouvidos de jornalistas, estes quiseram ir ao local do eventual aparecimento para comprovar tal aparição.
Entretanto, os ditos curandeiros avisaram que Nhamussoro, não poderia estar na presença do homem branco pelo que os jornalistas teriam de encontrar uma forma de não serem vistos. Assim foi, os jornalistas esconderam-se bem disfarçados à espera da sua aparição. Chegado o dia, juntou-se a população no local e entre os sons dos batuques, iam dançando e entoando canções chamando o dito espírito.
De repente, junto à praia, começa um vulto que vai se transformando maior à medida que vem caminhando para a população.
Era a figura de um homem cheio de crostas e algas agarradas no seu corpo como que um navio afundado submergindo.
Conta-se que os jornalistas irrequietos, terão saído dos seus lugares de máquinas fotográficas em punho quando viram o Nhamussoro. Este claro, apercebendo-se dos brancos, mergulhou imediatamente e nunca mais voltou a aparecer.
Várias pessoas locais contam esta história. Que a ouviram através do filho do farmacêutico… ter escutado da boca do Chefe dos Correios…


Moçambique

20/12/2010

A Besta-Fera



A Besta-fera é uma versão brasileira do centauro, e é muitas vezes empregada em sentido figurado para se referir a alguém que é extremamente irritado. Segundo a lenda, acredita-se que ele é o próprio Diabo, que sai do Inferno em noites de lua cheia.

A Besta-fera tem o corpo de cavalo e o torso humano. Ele corre pelas aldeias, até encontrar uma tumba, na qual desaparece. O som de seus cascos é suficiente para aterrorizar as pessoas. Uma matilha de cães o segue; a Besta os chicoteia, e também a outros animais que encontra pelo caminho. Segundo a lenda, embora terrível, este homem-cavalo não é tão perigoso para as pessoas. A tradição diz que quando uma pessoa vê o seu rosto, ela enlouquece por vários dias, mas se recupera depois.

Lenda do Brasil


20/11/2010

Iara



A Iara é uma dos mitos mais conhecidos e também dos mais confundidos da região amazônica, o que naturalmente inclui o Pará. Geralmente as pessoas acham que a Iara é uma mulher loura, de olhos azuis e a parte inferior do corpo em forma de peixe. Esta descrição na verdade é da sereia européia e não da Iara amazônica. A Iara, além de ser confundida com a sereia européia, o é também com a Iemanjá africana e na verdade nada tem a ver nem com uma nem com outra.
Em certos locais dizem-na boto-fêmea, também a encantar os homens e levá-los para o fundo, e em outros dizem ser a própria Boiúna (cobra preta), que traduzem erroneamente por cobra grande.
Na verdade, a Iara é uma linda mulher morena, de cabelos negros e olhos castanhos. De beleza ímpar, os que a vêem nua a banhar-se nos rios não conseguem dominar seus desejos e atiram-se nas águas... Nem sempre voltam ao mundo dos vivos... Os que o fazem, voltam assombrados, falando em castelos, séqüitos e cortes de encantados... e é preciso muita reza e pajelança - e de um pajé com muita força - para tirá-lo do estado de torpor. Alguns a descrevem como tendo uma cintilante estrela na testa, que funciona como chamariz para atrair o olhar e assim ser facilmente hipnotizado...
Quanto à possível forma de peixe da parte inferior da Iara, isto é apenas um vestido, ou melhor, uma espécie de saia, que ela veste por vaidade e para dar a ilusão de ser metade mulher, metade peixe...
Confundida ou não com crenças de outras plagas, a Iara até hoje exerce um grande fascínio e maior encantamento nos homens da região...

Lenda do Brasil


20/10/2010

Corpo Seco

Blog+Corpo-Seco.jpg (image)
[Blog+Corpo-Seco.jpg]

Homem que passou pela vida semeando malefícios e que sevidiou a própria mãe. Ao morrer, nem Deus nem o Diabo o quiseram,e a própria terra o repeliu enojada de sua carne,e um dia, mirrado, defecado, com a pele engelhada sobre os ossos, da tumba se levantou em obediência ao seu fado, vagando e assombrando os viventes na calada da noite.

Conta-se no sertão que pobre mulher, certa vez, amadora dos bons guisados de urupês (orelha de pau), vagava pela mata para colher os apetecidos quando deparou com um pau-piúca caído, onde abrolhavam os saborosos parasitas. Colhia-as quando, no desvendar a parte extrema do madeiro, se tomou de pavor e muito susto ante dois olhos escarninhos que a fitavam, e disparou a correr desorientada sob o riso cachinado do Corpo Seco a chancear da peça que pregou.

Lenda do Brasil

20/09/2010

Boto Cor de Rosa


É uma das mais conhecidas do Brasil, segundo a qual, o "Dom Juan da Amazônia" encanta homens e mulheres. A cabeça do animal se assemelha á glande humana e a maneira como nada, subindo e descendo, lembra movimentos sexuais. Para muitos, o boto ora é uma bela mulher, ora um atraente rapaz. Quando uma moça fica grávida, logo se atribui às artes do boto. De acordo com os habitantes, na Amazônia existem dois tipos de boto. O preto, conhecido como Tucuxi, salva os náufragos. Ao vermelho são creditadas peripécias, como sinais inexplicáveis de maternidade e fugas femininas. Dizem que o boto chega a levar a escolhida para um palácio no fundo dos rios. Na figura da mulher leva os caboclos à loucura.

Quem ainda não ouviu falar nas incríveis façanhas do boto? Não é nem preciso ser paraense ou ainda da região amazônica para lhe conhecer as proezas. O boto já estreou inclusive no cinema, e aqui e ali cineastas amadores fazem novas películas abordando este ser mítico regional.

O boto tem a faculdade de transformar-se em homem e, nesta condição, seduzir as moças interioranas que costumam dançar nas festas de beira de rio. Como seduz também as que vão tomar banho sozinhas nos rios amazônicos, principalmente se estiverem menstruadas. Como conquista também as que se atrevem a andar em pequenas canoas...

O boto, diferentemente de outras lendas e mitos que não são encontrados facilmente, são perfeitamente identificáveis e até mesmo classificados cientificamente, sendo a "designação comum aos cetáceos odontocetos pertencentes às famílias dos delfinídeos (marinhos) e platanistídeos (fluviais)", segundo o mestre Aurélio. Já Carlos Rocque ensina que pode ser identificado como Inia geoffrensis o boto branco e Steno tucuxi o boto tucuxi.

Sobre botos existem mil e uma histórias e mil e uma crenças. Quando uma mulher moradora às margens dos rios da região engravida, não sendo casada nem possuindo companheiro, é certo que se dirá que seu filho é do boto. A fama de conquistador lhe é atribuída e, além de procurar as mulheres jovens e bonitas, casadas ou não, freqüenta festas onde realiza novas conquistas. Às diversões comparece sempre de chapéu à cabeça, diz-que para esconder um orifício que facilmente o identifica como boto. Bem apessoado, anda elegantemente vestido e faz parte da tradição dizer que tem sempre uma espada à cintura. Porém, acabando o encanto, na hora que tem que se transformar novamente em boto, se verá que todos os acessórios que usa são habitantes das águas: a espada é um poraquê, o chapéu é uma arraia, o sapato é um acari, cascudo ou bodó (um tipo de peixe), o cinto é um arauaná (outro tipo de peixe)...

Dizem que em naufrágios o boto procura socorrer os náufragos. Segundo uma versão, ajudaria apenas as mulheres, até para manter sua fama de conquistador... Noutra, ajuda indiferentemente homens e mulheres. Não são poucas as pessoas que, ao escaparem de morrer afogadas, atribuem - além de a Nossa Senhora de Nazaré - ao boto o seu salvamento.

Os órgãos sexuais, quer do boto quer da sua fêmea, são muito utilizados em feitiçarias, visando a conquista ou domínio do ente amado. Porém o mais utilizado mesmo é o olho do boto, que é considerado amuleto dos mais fortes na arte do amor. Dizem mesmo que, segurando na mão um amuleto feito do olho de boto, tem que ter cuidado para quem olhar, pois o efeito é fulminante: pode atrair até mesmo pessoas do mesmo sexo, que ficarão apaixonadas pelo possuidor do olho do boto, sendo difícil desfazer o efeito...

Contam-se várias histórias em que maridos desconfiados de que alguém estava tentando conquistar suas mulheres, armaram uma cilada para pegar o conquistador. A cilada geralmente acontece à noite, onde o marido vai a luta com seu rival e consegue feri-lo com uma faca, ou a tiros ou com arpão... Mas o rival, mesmo ferido, consegue fugir e atirar-se n'água. No dia seguinte, para surpresa do marido e demais pessoas que acompanharam a luta, aparece o cadáver na beira d'água, com o ferimento de faca, ou de tiros ou ainda com o arpão cravado no corpo, conforme a arma utilizada, não de um homem, mas pura e simplesmente... de um boto!

Lenda do Brasil

19/08/2010

As causas das secas do Ceará



Há muito tempo, os cearenses resolveram que iriam expulsar Bom Jesus, não se sabe qual o motivo. Depois de muita conversa, foi decidido que ele seria mandado embora por mar. Para isso, construíram uma jangada, e nela colocaram o santo com tudo que achavam necessário para a longa viagem. Então, a jangada foi para o mar. Porém, o santo sentiu sede, e os cearenses esqueceram de levar para a jangada as garrafas de água fresca.
Por causa desse infeliz esquecimento, o santo passou uma terrível sede. A tal ponto que, apesar de sua infinita bondade, chegou a dizer essas palavras amargas: - Ô, ingratos filhos do Ceará, chegará o dia em que também vocês não terão água para beber quando sentiram sede! E assim, até hoje, o Ceará passa por constantes e terríveis secas.

Lenda do Brasil


19/07/2010

A rede de dormir


Há muito tempo atrás, os homens dormiam no chão em cima de folhas ou de paus. Mas o índio Tamaquaré não queria dormir no chão com medo de que os animais o machucassem. Então, teve uma grande idéia e foi pedir ajuda para seu amigo tucano. Os dois amarraram cipó, fazendo um lindo trançado, e construindo assim uma rede. O pajé Tamaquaré pôde então dormir pendurado, protegido dos animais. E ele pediu para o tucano não contar aquele segredo para ninguém: - Esse segredo é meu! Eu tive a idéia e não quero que os outros índios saibam e fiquem falando que eu tenho medo dos bichos! Mas o tucano, que naquele tempo tinha o bico curto e podia falar, acabou contando o segredo para todos os índios da tribo. O pajé, zangado com a traição, puxou o bico do tucano. Este ficou muito comprido, e o tucano não conseguiu mais falar.

Lenda do Brasil

20/06/2010

Açai



Há muito tempo atrás, quando ainda não existia a cidade de Belém, vivia neste local uma tribo indígena muito numerosa.
Como os alimentos eram escassos, tornava-se muito difícil conseguir comida para todos os índios da tribo. Então o cacique Itaki tomou uma decisão muito cruel. Resolveu que a partir daquele dia todas as crianças que nascessem seriam sacrificadas para evitar o aumento populacional de sua tribo.
Até que um dia a filha do cacique, chamada Iaça, deu à luz uma bonita menina, que também teve de ser sacrificada.
Iaça ficou desesperada, chorava todas as noites de saudades de sua filhinha. Ficou vários dias enclausurada em sua tenda e pediu à Tupã que mostrasse ao seu pai outra maneira de ajudar seu povo, sem o sacrifício das crianças.
Certa noite de lua Iaça ouviu um choro de criança. Aproximou-se da porta de sua oca e viu sua linda filhinha sorridente, ao pé de uma esbelta palmeira. Inicialmente ficou estática, mas logo depois, lançou-se em direção à filha, abraçando - a . Porém misteriosamente sua filha desapareceu.
Iaça, inconsolável, chorou muito até desfalecer. No dia seguinte seu corpo foi encontrado abraçado ao tronco da palmeira, porém no rosto trazia ainda um sorriso de felicidade e seus olhos negros fitavam o alto da palmeira, que estava carregada de frutinhos escuros.
Itaki então mandou que apanhassem os frutos em alguidar de madeira, obtendo um vinho avermelhado que batizou de açai, em homenagem a sua filha (Iaça invertido). Alimentou seu povo e, a partir deste dia, suspendeu sua ordem de sacrificar as crianças.

Lenda do Brasil

21/04/2010

A moça lua




Naquele tempo não existiam estrelas ou lua. E a noite era tão escura que todos se encolhiam dentro de casa com medo dela. Na tribo, só uma índia não tinha medo. Ela era uma índia clara e muito bonita, mas era diferente das outras. E por ser diferente, nenhum índio queria namorar com ela, e as índias não conversavam com ela. Sentindo-se só, começou a andar pelas noites. Todos ficavam surpresos com aquilo, e quando ela voltava, dizia a todos que não havia perigo. Mas havia outra índia, feia e escura, que ficou com inveja da índia clara. E por isso, tentou sair uma noite também. Mas não conseguiu enxergar na escuridão e tropeçou nas pedras, cortou os pés nos gravetos e se assustou com os morcegos. Cheia de raiva, foi conversar com a cascavel. - Cascavel, quero que morda o calcanhar da índia branca para que ela fique escura, feia e velha, e que ninguém mais goste dela. Na mesma hora, a cascavel se pôs a esperar a índia clara. Quando ela passou, deu o bote. Mas a índia tinha os pés calçados com duas conchas e os dentes da cobra se quebraram. A cobra começou a amaldiçoá-la e a índia perguntou porque ia fazer aquilo com ela. A cascavel respondeu: - Porque a índia escura mandou. Ela não gosta de você e quer que você fique escura, feia e velha. A índia branca ficou muito triste com tudo aquilo. Não poderia viver com pessoas que não gostassem dela. E não agüentava mais ser diferente dos outros índios, tão branca e sem medo do escuro. Então, fez uma linda escada de cipós e pediu para que sua amiga coruja a amarrasse no céu. Subiu tanto, que ao chegar ao céu estava exausta. Então dormiu numa nuvem e se transformou num belíssimo astro redondo e iluminado. Era a lua. A índia escura olhou para ela e ficou cega. Foi se esconder com a cascavel em um buraco. E os índios adoraram a lua, que iluminava suas noites, e sonharam em construir outra escada para poder ir ao céu encontrar a bela índia.


Lenda do Brasil

08/12/2009

Uma lenda Tchokwé



Um dia o Sol foi visitar Deus. Deus ofereceu ao Sol uma galinha e disse-lhe: “Regressa de manhã antes de te ires embora”. De manhã a galinha cacarejou e acordou o Sol. Quando o Sol revisitou Deus, ele disse-lhe: “Não comeste a galinha que te dei para o jantar. Podes então ficar com a galinha mas deves regressar aqui todos os dias.” Daí a razão porque o Sol circula a terra e nasce todas as manhãs.
A Lua também foi um dia visitar Deus e também recebeu uma galinha como presente. De manhã a galinha cacarejou e acordou a Lua e Deus voltou a dizer-lhe: “Não comeste a galinha que te dei para o jantar. Podes então ficar com a galinha mas deves regressar aqui em cada vinte e oito dias.” Daí a razão porque a circulação total da Lua dura vinte e oito dias.
Um homem foi visitar Deus recebendo também uma galinha como presente mas o homem estava com fome depois de tão longa caminhada e comeu parte da galinha para o jantar. Na próxima manhã já o Sol estava bem alto quando o homem acordou. Comeu o resto da galinha, visitando Deus em seguida. Deus disse-lhe: “eu não ouvi a galinha cacarejar esta manhã.” O homem com certo receio respondeu: “eu tive fome e comi-a.” “Está bem,” disse Deus, “mas ouve, tu sabes que o Sol e a Lua estiveram aqui e nenhum deles matou a galinha que lhes ofereci.” Essa é a razão que nem o Sol nem a Lua morrerão um dia. Mas tu mataste a tua galinha e assim deves morrer como ela. Porém, à tua morte, deves regressar aqui outra vez.”

E assim foi.


Lenda do Nordeste de Angola


29/11/2009

O deserto, o sol e o vento



No princípio, era o Deserto; e o Sol amava-o, ternamente, todo o dia. No princípio, o Deserto era liso, todo aberto à luz do Sol, que o abraçava, estreitamente, todo o dia. O Deserto era quente e brilhante e vivia numa passividade feliz – quieto e silencioso.
De noite, o Sol queria o Mar, e o Deserto dormia sozinho, na escuridão. Mas guardava o calor que o Sol lhe dera. E vivia quieto e silencioso, numa passividade feliz.
O Vento chegou de noite, quando o Deserto dormia.
Olhou o Grande Deserto solitário. Soprou-lhe devagarinho, num beijo de aragem...e o Deserto sentiu um arrepio e acordou. O Vento soprou com mais força e o Deserto estremeceu.
- Gostas de mim? – perguntou o Vento.
- Sinto uma alegria nova – respondeu o Deserto.
- É a alegria do movimento. Queres que te dê toda a força do meu sopro?
- Sim – gritou o Deserto – Quero!
Então, o Vento abraçou o Deserto com violência. E toda a noite se ouviu a música forte e harmoniosa que, juntos, cantavam num bailado.
Quando o sol, de manhãzinha, voltou, abriu muito os olhos e empalideceu. Alguém passara a noite com o Deserto: em vez de areal sem forma, que se deixava doirar passivamente, era um Deserto novo, de dunas altas, belas e orgulhosas que recusavam ao sol uma das faces.
- Quem te abraçou, Deserto? – perguntou o Sol.
- O Vento! – respondeu.
- Não te bastava a minha luz e o meu calor?
- Nunca me deste vida.
- A tua vida é sombra?
- A minha vida, Sol, recebi-a do Vento. A minha vida é areia em movimento e o som que dela se desprende eu guardo em mim.
- O movimento é dor; o som é queixa.
- Aceito a dor que é a vida; e cantarei, no braço do Vento, a dor e a alegria de criar, com ele, as minhas dunas.


Lenda de Angola




lenda de Vangghi




Vangghi viveu na dinastia dos Tsin, na montanha Kuchau, e entregava-se feliz e ditoso à agricultura.
Era raro o dia em que não ia ao bosque apanhar lenha, mas, certa tarde, surpreendido por forte tempestade, foi obrigado a meter-se numa caverna. Ali encontrou vários homens de muita idade e longa barba que jogavam o xadrez.
Não resistiu à tentação e resolveu tomar parte do jogo. Em dado momento, um dos velhos de barba branca meteu-lhe um caroço de tâmara na boca, pedindo-lhe que o engolisse.
Adormeceu pesadamente e, quando o acordaram, resolveu pôr-se a caminho de casa. Mas qual não foi o espanto de Vangghi quando não encontrou a casa nem a família e lhe disseram que muitos séculos tinham passado.

Lenda de Macau




10/08/2009

A Lenda da Noite


Quando a terra era muito jovem a noite e os animais não existiam. Havia somente árvores, plantas e pessoas. Nessa época, o sol brilhava muito forte. As pessoas estavam sempre cansadas porque não podiam dormir bem. As árvores eram murchas devido ao forte calor Somente a Cobra Grande que era uma bruxa podia fazer a noite aparecer. Ela era uma cobra muito grande que vivia perto do rio.
Guardava a noite no fundo do rio, dentro de um coco. A cobra gostava de ver as pessoas cansadas e sonolentas. Os índios imploravam para que ela libertasse a noite, mas era inútil. Um dia, a filha da cobra se casou. Como sua mãe, a bela índia não precisava da noite para descansar. Mas seu marido e as outras pessoas da aldeia viviam cansadas. Ela não gostava de ver este sofrimento. Então disse para seu marido que ela iria pedir a noite para sua mãe. A mãe nunca recusava seus pedidos. O marido da filha da cobra tinha três fiéis empregados. Ele os enviou para que fossem pegar a noite com a cobra. Imediatamente os três índios pegaram uma canoa e foram encontrar a Cobra Grande. Embora os três homens estivessem muito estafados, eles remavam velozmente. Quando as árvores viram a cena, perguntaram onde os índios estavam indo com tanta pressa. Quando as árvores souberam que iriam buscar a noite, começaram a dançar e a gritar de alegria. Os três empregados chegaram ao lugar onde a cobra vivia. Contaram a ela porque estavam ali. Ela não gostou da ideia de entregar a noite, mas a cobra nunca negava um pedido da filha. Outra versão: No começo do mundo só havia o dia. A noite estava adormecida nas profundezas do rio com Boiúna, cobra grande que era senhora do rio. A filha de Boiúna, uma bela, tinha se casado com um rapaz de um vilarejo nas margens do rio. Seu marido, um jovem muito bonito, não entendia porque ela não queria dormir com ele. A filha de Boiúna respondia sempre: - É porque ainda não é noite. - Mas não existe noite. Somente dia! - Ele respondia. Até que um dia a moça disse-lhe para buscar a noite na casa de sua mãe Boiúna. Então, o jovem esposo mandou seus três fiéis amigos ir pegar a noite nas profundezas do rio. Boiúna entregou-lhes a noite dentro de um caroço de tucumã, como se fosse um presente para sua filha. Os três amigos estavam carregando a tucumã quando começaram a ouvir barulho de sapinhos e grilos que cantam à noite. Curiosos, resolveram abrir a tucumã para ver que barulho era aquele. Ao abri-la, a noite soltou-se e tomou conta de tudo. De repente, escureceu. A moça, em sua casa, percebeu o que os três amigos fizeram. Então, decidiu separar a noite do dia, para que esses não se misturassem. Pegou dois fios. Enrolou o primeiro, pintou-o de branco e disse: - Tu serás cujubin, e cantarás sempre que a manhã vier raiando. Dizendo isso, soltou o fio, que se transformou em pássaro e saiu voando. Depois, pegou o outro foi, enrolou-o, jogou as cinzas da fogueira nele e disse: - Tu serás coruja, e cantarás sempre que a noite chegar. Dizendo isso, soltou-o, e o pássaro saiu voando. Então, todos os pássaros cantaram a seu tempo e o dia passou a ter dois períodos: manhã e noite.

Lenda do Brasil

09/04/2009

A lenda das árvores gémeas


Nkatu e Nsanda são duas lendárias árvores gémeas, que partilham um mesmo caule, diferenciadas, porém, pela peculiaridade dos seus ramos e folhas. Localizadas na encosta do antigo morro de Porto Rico, junto ao palácio do governo provincial de Cabinda, a história das árvores gémeas vem de 1901, altura em que o saudoso ancião e sacerdote tradicional Tchi-Luemba Tchi-Tula Nkonko realizou naquele espaço um ritual implorando a Nzambi-Mpungo - Deus Supremo - a reposição das chuvas, que já não aconteciam há 4 anos em toda a zona Sul de Cabinda.
Sustenta a mesma história que foi a partir da realização desta cerimónia tradicional, em que esteve presente o antigo representante do governador de Angola em Cabinda, Henrique Quirino da Fonseca, que aquelas duas árvores se tornaram marcos de referência cultural, pelo impacto positivo que o ritual desencadeou na vida das populações locais, que logo depois do acto começaram a ter chuvas em abundância, livrando-se, assim, da prolongada estiagem e da penúria alimentar que se fazia então sentir.


Lenda de Angola


09/03/2009

A moça que dança depois de morta




Esta lenda é muito popular em Porto Alegre.
Conta-se que um rapaz foi a um baile, no bairro Glória, numa noite de sábado.
Lá conheceu uma moça muito bonita, mas triste...e sozinha, o que era coisa incomum, para a época. Intrigado, convidou a moça para dançar. Perguntou-lhe então a razão de tanta tristeza, mas a moça de poucas palavras, não deu nenhuma explicação plausível. Para não a incomodar mais, desistiu do interrogatório.
Dançou com ela o que deu, até que "a meia-noite" ela disse que precisaria voltar para casa. O moço, nesse momento, até pensou estar vivenciando um flerte com uma real Cinderela, pois essa também precisava sumir nesse preciso momento.
Ofuscado com sua beleza e admirado com seu comportamento, o moço decidiu acompanhá-la, até por que era muito perigoso uma moça sozinha tão tarde andar pelas ruas.
Ao saírem, o ar da noite à fez estremecer e abraçou o jovem arrepiada. Então o rapaz, muito educado, ofereceu-lhe a capa, na qual ela se enrolou agradecida.


Os dois atravessaram o morro da Glória, onde fica o cemitério e desceram um pouco a lomba, como quem vai para o centro. Diante de uma casa a moça parou e disse:

- "Eu moro aqui." Quis devolver, então a capa, mas o rapaz não aceitou, pensando em uma desculpa para ver a moça ao meio-dia de domingo...
Ela sorriu, mas nada falou, entrando na casa.
No domingo, como havia combinado, perto do meio-dia, o moço voltou "a casa, teoricamente para reaver a capa, mas na realidade esperando um convite para almoçar e, quem sabe, iniciar um romance. Foi então recebido por um homem maduro e muito triste. Só neste momento então, o rapaz percebeu que não havia perguntado o nome da moça, na noite anterior. Daí só lhe restava perguntar:
- "O senhor é o pai da moça que mora aqui?"
- "Aqui não mora moça nenhuma". Disse o homem triste.
- "Mora sim. Eu vim com ela ontem de um baile e entrou aqui dizendo ser sua casa. Emprestei minha capa para ela, porque estava frio e fiquei de vir buscar hoje...."
- "É engano seu, deve ter sido em outra casa.." Contestou o velho.
E, ao abrir um pouco mais a porta, o rapaz pode olhar para dentro e viu o retrato da moça na parede. Alegrou-se, apontando:
- "Olhe, lá está ela, é aquela do retrato!"
-"Aquela é minha filha, que morreu faz um ano!"
O rapaz ficou surpreso e sem saber em que acreditar. Era tão sincera sua surpresa, que o velho se ofereceu para levá-lo ao túmulo da filha, no cemitério mais acima.
Foram...e lá estava mesmo o túmulo da moça, com seu retrato e em cima do túmulo, a capa do rapaz...

Lenda do Brasil


A Lenda do Rio Júlio


Nas terras bem lá do Centro, onde o tempo é sempre quente e o ar se bebe como a água mais pura, um homem de rosto negro como a noite mais escura e de dentes tão brancos como a neve que jamais sonhou existir, sorria sempre com hora marcada e sentava-se sempre do mesmo lado da vida, olhando o rio, acreditando que o tempo era só dele… 
Contava aos netos da aldeia, que partilhavam todos os avós sem cobiça nem avareza, histórias muito, muito antigas, tão antigas que não era possível rememorar o fiozinho por onde se puxava o seu princípio… 
- Ela era uma morena bonita, bonita… Os olhos dela sorriam… Mas apesar da sua cor de chocolate, que era herança de um branco que se perdeu na sanzala, não encontrava o amor! Pai Katanganha, que fez a menina, queria dá-la a qualquer um, para receber o alambamento! Onde já se viu perder cabras e ovelhas, mesmo que pastassem somente nos sonhos de um Soba?!... Aka! Mas ninguém se prendia no coração da mulata e ela, tão triste, tão triste, ia cozinhando as ideias, a ver se do matete que lá colocava escorria melhor pensadura. E se alembrou então de consultar as estrelas, para ver se lhe diziam a verdade da sua vida. Olhou, olhou e nada! Puxa! Não podia ser no escuro que ia ver o amor; tinha de ter luz para o perceber… Alembrou-se, por isso, de ver na fogueira, na roda dos tchinganges e dos quissanges, onde estaria a sua verdade… Mas a luz era muita e as caras feias, feias… Não tinham amor para dar! Procurou o feiticeiro, que sabe falar com os espíritos, para perguntar o destino. Sentado no chão, de olhos bem fechados e no meio do fumo do tabaco que enrolava, andava perdido noutro mundo. E quem anda perdido não pode encontrar nada, porque não sabe quem é, nem para onde vai, né?!... Triste, triste, a mulata viu o sol nascer na beira do rio. Encheu a moringa, para dar de beber à sede e sentiu a força da água, correndo para lá do mundo… Pensava, pensava e nem dava conta… Ao lado, mesmo ali, um homem de rosto negro como a noite mais escura e de dentes tão brancos, tão brancos, sorria… «Me dá um pouco de água, menina?!...» Ai, mulata bonita, perdeu-se de amores! Seus olhos sorriram e os dele também. Beberam da água do rio, juntinhos, juntinhos e sorrindo se foram para lá, na sanzala! 
- Como é, Acuco, que essa história tem fim? – perguntava um dos netos. 
- Fim?!... Não tem, não, kacuenje ! O rio não morre, é dono do tempo e o amor vive aqui, na beira do rio, à espera de quem o venha beber na moringa… Ele espera, espera… 

Lenda de Angola


05/03/2009

Jacaré Bangão



Reza a lenda que na cidade de Caxito, capital da província do Bengo, certo Jacaré decidiu pagar o imposto ao chefe do posto, responsável por assegurar esta obrigação fiscal.
Segundo consta, o tal chefe era um indíviduo implacável para com os habitantes daquela região e o Jacaré vendo a sua atitude decidiu ele próprio pagar o imposto a fim de travar a impetuosidade daquele chefe.
Ao ver o grande Jacaré sair das águas do rio Dande a fim de cumprir a sua missão, o cobrador de impostos ficou aterrorizado e abandonou os maus modos com que tratava a população.

Lenda angolana

Lenda da Galinha d'Angola





Numa certa manhã, vinha de cabeça baixa e muito triste uma Kerere, lamentando-se «estou fraca, estou fraca, estou fraca!».
Resolveu saciar a sede num riacho. Lá deparou-se com uma linda mulher que se banhava e coquete como só ela sabia começou a pintar-se.
Kerere quando viu aquilo admirou-se: era Dandalunda, aquela que dá brilho às jóias e se banha e pinta antes mesmo de cuidar dos filhos...
Dandalunda quando percebeu a tristeza daquela ave perguntou-lhe:- Porque é essa tristeza Kerere?
Kerere respondeu-lhe:- Entre os meus pares eu sou a mais feia!
Naquela época Kerere era toda preta...
Dandalunda então pediu para Kerer se aproximar. Ela pegou em osum e pintou o seu bico; depois com osum vermelho os brincos. Depois com waji tornou as penas azul escuro e com efum fez as pinturas brancas. E continuou a pintar Kerere. Esta ao ver a sua imagem no abebé de Dandalunda saiu correndo de tanta felicidade cantando "Kuéim, kuéim, kuéim".
Dandalunda que ainda não tinha terminado de pintar Kerere pediu a Kakulu, divindade dos gémeos para que corresse a trás de Kerere e a trouxesse de volta pois não tinha pintado o seu peito.
Kerere lá voltou e pediu para que Dandalunda ao invés de pintar o peito lhe desse um colar.
Dandalunda fez-lhe a vontade e ofereceu-lhe um colar em forma de coroa que Kerere carrega até hoje... e entre os seus pares é a mais linda de todas...
Tempos depois Kerere voltou e tornou-se o primeiro ser que "tomou" obrigações por aquela que é capaz de modificar todos com a sua doce magia encantada.
Kerere, o primeiro ser raspado, adornado e pintado por Dandalunda... e é por este motivo que quando um Kerer é sacrificado temos que tirar este colar em forma de coroa e coloca-lo em evidência!

.... Kerere é também conhecida por Konquem, "Tô" fraco, E tu ou Galinha de Angola.


Lenda angolana

30/01/2009

A origem da ilha do Timor


Em tempos passados, vivia na ilha Celebes um crocodilo velho que não conseguia pegar peixes para se alimentar. Por isso, resolveu procurar por algum porco distraído nas margens para lhe matar a fome. Tanto procurou, sem nada encontrar, que acabou por cair exausto e entristecido, sem conseguir voltar para a água. Um rapaz que ia passando, penalizado, resolveu puxá-lo pela cauda e levá-lo até a água. Em retribuição, o crocodilo prontificou-se a levá-lo às costas sempre que necessário. Ambos tornaram-se grandes amigos, mas, apesar disso, ao sentir fome novamente, o crocodilo pensou em devorar o rapaz. Antes disso, porém, quis ouvir a opinião dos outros animais, que se mostraram revoltados com a ingratidão do crocodilo. De tanta vergonha, o animal mal-agradecido resolveu mudar-se par um local onde ninguém o conhecesse. Como o seu único amigo era o rapaz que o salvara, convidou para irem juntos em busca de um disco de ouro que flutua nas ondas. No meio do caminho, o crocodilo, cansado, precisou parar um pouco para descansar. Porém, não conseguiu mais seguir, pois se transformou em uma belíssima ilha. O rapaz tornou-se homem e viu, preso ao seu peito, o disco de ouro com o qual o crocodilo sonhara. Decidiu que viveria nessa ilha e a chamaria de Timor, que significa “Oriente”.


Lenda de Timor