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15/07/2012

A eira onde asbruxas se vão esfregar


Sempre ouvi dizer aos mais antigos que na Eira do Monte, que pertence a Paradela mas fica entre dois caminhos, ali à saída de Sendim, é onde as bruxas se vão esfregar.
Uma ocasião, um homem disse assim p’ra outro, amigo dele:
— Olha que a tua mulher também é bruxa!
E ele:
— Ai não, não é! Da minha mulher não se consta isso!
Mas, pelo sim pelo não, a partir daí o homem pôs-se mais atento aos hábitos dela. E numa certa noite, ficou acordado, mas fazendo que dormia, e ouviu-a levantar-se da cama e dizer:

- Eu te benzo, belbezu,
Com as fraldas do meu cu.
Enquanto eu não vier,
Não acordes tu!

Ela então lá foi à vida dela, juntar-se com as outras e esfregar-se na tal laje. Quando veio, o homem estava à espera e viu que trazia o rabo todo queimado de tanto se esfregar.
P’ró outro dia, ao encontrar o amigo, diz-lhe então:

—Agora sim, já estou fiado,
Que ela traz o cu todo queimado.


PARAFITA, Alexandre, Património Imaterial do Douro - Narrações Orais
(contos, lendas, mitos)



08/07/2012

Última Profecia de São João Baptista



Na Lenda, todas as suposições são aceitáveis, principalmente quando a voz simples do povo as imortaliza. Assim, diz-se que Vila Velha de Ródão — vila muito antiga — surgiu de Rhodium, remotíssima cidade romana. E diz-se ainda que foi nesta vila que Herodes Antipas encontrou a morte. Ora, Herodes Antipas foi quem consentiu na degolação de S. João Baptista. E as vozes simples do bom povo de Vila Velha contam assim a história que a imortalizou.

Quando o tetrarca Herodes e a sua corte desfilavam em caravana a caminho de Maqueronte, passaram junto do rio Jordão, onde João Baptista pregava a chegada do Messias. Dizia ele:
— Fazei penitência porque está perto o Reino dos Céus, tal como está escrito no livro do profeta Isaías. Ouvir-se-á a voz daquele que clama no deserto. E os caminhos tortuosos serão endireitados, e todos os homens verão o Salvador enviado por Deus!
Estas palavras produziram um efeito prodigioso na multidão que o escutava. Uma grande efervescência fez mover toda aquela massa de gente. Uns pediam «penitência». Outros «baptismo». De súbito ouviu-se outro ruído desusado naquele local. Pela estrada que descia de Jericó apareceram soldados montados em corcéis de cor. Eram os homens de Herodes, que precediam a caravana régia, abrindo caminho.
As patas dos cavalos entraram no rio revolvendo as transparentes águas. O semblante de João Baptista entristeceu. Ergueu a sua alta estatura e olhou-os bem de frente. Os homens não conseguiram sustentar o seu olhar.
Por último, surgiu um magnífico camelo branco, ricamente ornamentado. Sobre ele, uma sumptuosa tenda mal encobria duas figuras de mulher: Herodias — a mulher que Herodes Antipas roubara a seu irmão Filipe — e Salomé, a filha de Filipe e Herodias. Logo atrás, noutro camelo, seguia o tetrarca Herodes Antipas.
Vendo-os, João falou com voz sonora:
— Tetrarca Herodes! Pára e escuta! As patas dos teus cavalos enlamearam as puras águas do Jordão, as quais purificam os corpos e as almas daqueles que esperam O que virá depois de mim. E agora és tu que vens macular com a tua presença este lugar santificado por aqueles sobre o qual desceu o Espírito Santo!
Estupefacto do que via e ouvia, Herodes fez sinal para que a caravana parasse. Exclamou:
— Com que direito me falas assim?
João Baptista não respondeu directamente à pergunta. Olhou Herodias e voltou a interrogar o rei da Judeia.
— Quem é essa mulher que passeia com tantas honras sob as vistas das doze tribos de Israel? Responde, se tens valor para isso!
O rei enrubesceu e gritou:
— Cala-te e deixa-me passar!
Mas João Baptista, inflexível, continuou com serenidade, em voz bem audível:
— Eu responderei por ti! Essa mulher é a de teu irmão. Portanto, ambos são adúlteros. Ouve bem, Herodes Antipas: não é lícito viveres com a mulher de teu irmão Filipe!
De rubro que estava, Herodes empalideceu. Mordeu os lábios e, não encontrando palavras que o justificassem, gritou para os seus homens:
— Vamos, a caminho! Quero sair do meio desta multidão silenciosa e deste homem que fala de mais!
O cortejo começou a movimentar-se. E quando o camelo branco passava junto de João Baptista, uma das mulheres, faustosamente vestida, abriu o cortinado de damasco e mostrou-se na sua opulenta beleza. Olhou aquele que havia ousado irritar Herodes e falou-lhe:
— João Baptista... Como vês, sei o teu nome. Olha bem para o meu rosto e não esqueças as feições de Herodias, a esposa do tetrarca Herodes, pois brevemente nos tornaremos a encontrar!
E fechando o cortinado de cor viva, fez desaparecer a sua imagem.
O cortejo continuou passando. O povo começou a agitar-se, a apertar o cerco em redor de João Baptista. Mas este já não falou mais sobre o rei da Judeia.
Mal se encontrou com Herodes, Herodias mostrou-se ofendida:
— Tens de mandar prender esse homem! Insultou-te e insultou-me!
Herodes ficou silencioso. Herodias insistiu:
— Porque temes João Baptista? Que tem ele que te meta medo?
Herodes baixou a cabeça. E explicou:
— Sabes... ele tem consigo a multidão dos anónimos, é certo, mas que muito podem, quando se juntam. Além disso... os tempos vão maus...
Ela interrompeu-o, furiosa:
— E abandonas-me, assim, nas mãos de um homem do povo? Na língua de um homem do povo?
Herodes tentou acalmá-la:
— A hora é de prudência e não de vingança. Esperemos melhor ocasião.
Herodias mostrou-se revoltada:
— Como podes falar assim!
As lágrimas chegaram-lhe aos olhos. Pediu, usando da influência que exercia sobre o rei:
— Manda-o prender! Quero-o em Maqueronte e agrilhoado. Prende-o, se ainda represento algo para ti!
Herodes deixou-se vencer. Pegou-lhe numa das mãos, como a acariciá-la:
— Não te atormentes. Será feita a tua vontade!

Perante o pasmo e a repulsa da multidão que o seguia, João Baptista foi preso. E tal como Herodias pedira, puseram-lhe grilhetas nos pés. Ficou junto do palácio de Herodes. Dali ouvia o vaivém dos que serviam o rei. E numa tardinha, quando o Sol se dispunha a descer para o seu ocaso, Herodias desceu também até ao pátio. Caminhou devagar. Lentamente. Olhos postos na prisão de João Baptista, que se via para lá das grades, como animal feroz, guardado à vista. O perfume forte, favorito de Herodias, despertou o encarcerado. O guarda perfilou-se. Mas ela ordenou que este se retirasse, pois queria falar a sós com o preso. O guarda obedeceu. Frente a frente, João e Herodias fitaram-se. Ela sorriu e falou num tom de voz arrastado envolvente:
— Reconheces o meu rosto?
João respondeu sereno:
— Sim. É o de uma mulher adúltera.
Ela mostrou-se provocante.
— Mas já me olhaste bem? Dizem que sou linda!
Sempre no mesmo tom de voz, sem alteração mas incisivo, João Baptista tornou:
— Só vejo as tuas acções, que te tornam medonha!
Ela não pareceu ficar irritada. Aproximara-se mais. Olhava-o intensamente.
— A tua figura subjuga quantos te vêem! Tens um olhar de rei, enquanto Herodes estremece de medo ao menor ruído suspeito! Se tu quisesses... sairias dessa prisão...
— E em troca, que me pedes?
— Que deixes de te ocupar desse povo miserável e sejas o encanto dos meus olhos... da minha boca... dos meus braços...
Duro, ele cortou-lhe a frase:
— Vai-te, mulher sem vergonha, que vives ilicitamente com o teu cunhado! Vai-te e deixa-me em paz!
Herodias mordeu os lábios. Estava pálida, nervosa, como uma criança a quem acabam de tirar das mãos um brinquedo. Avisou:
— Se me for... e te deixar aqui... será a morte que te deixo!
João Baptista retorquiu:
— A morte, por vezes, é a vida! A minha missão está terminada.
E olhando um ponto vago no espaço, a sua voz tornou-se quase doce:
— Ele chegou. Portanto, será Cristo que terá de crescer, enquanto eu, João, desaparecerei!
Herodias sentiu desejo de lhe voltar as costas. Mas aquela voz, agora com um acento doce, despertou-a de novo. E tentou ainda:
— João, pensa bem! Será essa a tua última vontade? Assim desprezas a riqueza e o amor de Herodias?...
Agarrou-se às grades. Tentou-o mais:
— Desejo-te, João Baptista! Vê bem. Desejo-te, e tu renegas-me!
João enfureceu-se.
— Vai-te, mulher sem vergonha!
Herodias largou as grades. Embora ferida no seu amor próprio, não o demonstrou. Sorriu.
— Vou-me embora, sim! Mas voltarei ainda... Porém... acredita, já não terá remédio!
João não respondeu. Herodias olhou-o uma vez mais. Tinha uma expressão estranha no rosto. Os olhos brilhavam intensamente. Arremessou-lhe um beijo de despedida, dizendo:
— Recebe o beijo que te envia nos dedos a mulher de Herodes. Com ele vai, também, a minha promessa de vingança. E Herodias, quando promete... nunca falta!
Afastou-se, desta vez um pouco mais ligeira. João Baptista ficou só. Só com os seus pensamentos.

Um ano passou. Herodias parecia ter esquecido João Baptista, que continuava preso na cerca do palácio. Mas ela não era mulher para olvidar uma afronta dessa natureza. Formou um plano. Um plano diabólico. A ocultas, contratou bailarinas egípcias, gregas e romanas, as quais tinham por missão ensinar a sua arte a Salomé, sua filha e de Filipe Herodes, que tinha nesse tempo dezoito anos. Quando ela já estava bem instruída na arte de dançar, Herodias preparou um grande festim para os anos de Herodes Antipas. E falou, a sós, com Salomé.
— Minha filha! Agora danças ainda melhor do que elas. Irás deslumbrar a corte. Despir-te-ás como essas dançarinas, e o teu corpo belíssimo fará brilhar de cobiça os olhos dos homens que te contemplarem!
Salomé hesitou:
— Mas pensas que Herodes irá gostar?...
Herodias interrompeu-a:
— Oh, decerto!
E insistiu:
— Dança, Salomé! Dança para Herodes, enquanto eu lhe darei de beber os melhores vinhos de todo o reino!
— E para quê?
— Para que ele se torne generoso para contigo e te dê o que lhe pedires.
— E que hei-de eu pedir? Já tenho tanto!
Herodias aproximou-se mais da filha e segredou-lhe quase:
— Pedir-lhe-ás a cabeça de João Baptista!
Salomé recuou:
— A cabeça... de João Baptista?... Mas... ele não quererá!
— Não te preocupes com isso. Dança bem, que o resto é comigo!
E num arrebatamento:
—Ah! Esta será a tua noite de glória, e a minha noite de vingança!...

O festim começou. Ardiam luzes por todos os cantos. Vinhos e iguarias raras eram servidos a todos os numerosos e alegres convivas. Os ânimos já estavam excitados. E a surpresa chegou. Salomé, bonita e provocante, começou a dançar. Aos poucos, as suas vestes iam caindo. E ela dançava sempre melhor, embriagada com o seu próprio êxito. Herodes, cheio do bom vinho que Herodias mandara servir sem cessar, olhava boquiaberto e com luxúria a revelação que para ele consistia a jovem Salomé. Da assistência alguém gritou:
— Dá-lhe um prémio! Ela merece um prémio!
Levado pelo entusiasmo, Herodes perguntou a Salomé:
— Que pedes?
Ela hesitou. Ele riu.
— Vamos! Dar-te-ei o que me pedires, Salomé, nem que seja metade do meu reino!
A jovem pareceu confusa. Olhou Herodias, que a fitava intensamente. O rei voltou a perguntar.
— Que desejas, Salomé? Porque olhas para tua mãe? Escolhe livremente! Que me pedes?
Solenemente, a jovem respondeu:
— A cabeça de João Baptista!
Um silêncio seguiu-se a esta resposta tão solicitada. Depois levantou-se um murmúrio, que o rei interrompeu:
— Queres... a cabeça de João Baptista? Vê bem... Não quererás outra prenda mais valiosa?
A jovem calou-se. Mas Herodias falou por ela:
— Salomé escolheu! Deves cumprir a tua promessa! Dá-lhe a cabeça de João Baptista!
Estupefacto, Herodes aquiesceu:
— Pois seja!
E acrescentou, soturno:
— Como são estranhas, as mulheres!...
Fez-se um ligeiro burburinho. A dança havia terminado. Aproveitando a confusão, Herodias desceu ao pátio com o verdugo. Voltou a encarar o prisioneiro. Então levou as mãos ao rosto, e afastou-se sem pronunciar palavra. Ficaram sós, o verdugo e o preso. O carrasco segurava na mão direita a arma com a qual havia de cortar a cabeça àquele que tantas vezes ouvira falar de um outro reino melhor do que esse em que viviam. Havia tristeza no seu semblante. Mas a voz doce de João Baptista ergueu-se uma vez mais:
— És executor em nome da justiça, embora ela esteja entregue em mãos indignas. Cumpre, pois, o teu dever! Cumpre-o sem remorsos! Antes, porém, deixa-me olhar uma vez mais o lado da Galileia. Assim está escrito: Despede, Senhor, o Teu servo em paz, segundo a Tua palavra!
Respirou fundo. Olhou por instantes, em silêncio, o céu azul-escuro. Depois voltou-se para o verdugo, no mesmo ar sereno.
— Estou pronto. Entrega, ó homem que vens a mandato de outro homem, a minha cabeça! A hora de Cristo chegou. Eu devo desaparecer!
O verdugo olhou a arma de execução. Depois olhou João Baptista e informou-o:
— Herodes não queria... Mas acabou por ceder... Eu cumpro as ordens do rei da Judeia...
— Assim estava escrito. Outro homem virá que a Herodes tirará a vida, e longe desta terra, onde hoje todos lhe obedecem!

E conta a tradição que a cabeça de João Baptista foi posta numa enorme bandeja e oferecida a Salomé. E diz ainda que, mais tarde, a vida de Herodes Antipas complicou-se, obrigando-o a fugir para Espanha, onde passou por Tarragona e Mérida. Depois foi assassinado numa povoação lusitana chamada Rhódio. E a crença popular assegura ser Rhódio a antiquíssima Vila Velha de Ródão, epílogo duma tragédia vivida há quase dois mil anos...


Recolha de Gentil Marques


28/06/2012

Palácio Nacional de Sintra



No Palácio Nacional de Sintra existe uma sala cujo o tecto esta pintado com diversos desenhos de pegas.

Diz-se que o rei e a rainha que lá viviam nessa época fizeram casar mais de um cento de mulheres, entrando na conta as que ele próprio casou também, seguindo tão bons exemplos. Não havia uma ligação ilícita, nem um adultério conhecido. A corte era uma escola. D. Filipa, pregando ao peito o seu véu de esposa casta, com os olhos levantados ao céu, não perdoava. Terrível, na sua mansidão, trazia o marido sobre espinhos.
Certo dia, segundo reza a lenda, em Sintra, o rei esqueceu-se, e furtivamente pregava um beijo na face de uma das aias, quando apareceu logo, acusadora e grave, sem uma palavra, mas com um ar medonho, a rainha casta e loura. D. João, enfiado, titubeando, disse-lhe uma tolice: "Foi por bem!!!". A rainha saiu solenemente. Eram ciúmes? Não, ciúmes só sente quem está apaixonado, e não era o caso. Apenas sentia o seu orgulho ferido.
Rapidamente a notícia se espalhou pelo palácio, e toda a criadagem andava com a frase "Foi por bem" na boca. Chateado com a situação, o rei decidiu tomar uma iniciativa, mandou construir uma sala para a criadagem. Todos ficaram radiantes e contando os dias que faltavam para a sala estar pronta.
Finalmente chegou o dia, iam conhecer a sala. Qual não foi o espanto de todos ao verem que o tecto de tal sala estava todo pintado com pegas, que tinham escrito no bico "Pour Bien". (traduza-se por bem).
Esse palácio nacional é rodeado de jardins, um deles é o jardim da Lindaria.
Reza a lenda que esse jardim era o local onde as mouras vinham, ao sair do banho, respirar a frescura do ar e o perfume embalsamado das flores. Uma dessas mouras enfeitiçou-se de amores por um cristão que ali escondido as observava. Seu marido, ao descobrir, matou-a. E dizem que ainda hoje, todas as noites a moura volta ao jardim em busca do cristão por quem se apaixonou.

17/06/2012

A cerca dos mouros

Vila Verde da Raia é uma povoação fronteiriça que também faz parte do Concelho de Chaves.
Tem muitas histórias rocambolescas de contrabandistas para contar:
uma espécie de jogo do gato e do rato entre polícias e ladrões, como quem diz, entre guardas fiscais e contrabandistas.
Mas essas histórias, algumas bem engraçadas, outras bem dramáticas, que dariam pano para muitas mangas, não são agora para aqui chamadas.
Para aqui chamada, neste momento, é a lenda da Cerca dos Mouros.
A Cerca dos Mouros é uma espécie de fortaleza que existe perto daquela povoação, formada por pedras lousas, colocadas a esmo, duma forma tosca, que mais parece obra da natureza do que trabalho dos homens.
O seu perímetro tem uma superfície de cerca de cem metros quadrados.
Desconhece-se a verdadeira história da sua origem.
Mas o povo não tem dúvidas: é uma obra feita pelos mouros que ali se refugiaram e por lá se deixaram ficar.
Para melhor se defenderem, construíram essa fortaleza. E, para poderem resistir aos cercos prolongados, cavaram minas subterrâneas, através das quais, podiam entrar e sair, sem serem descobertos, à procura de água e de alimentos.
Quando as guerras terminaram, entregaram-se à tarefa de derreter o oiro, que possuíam em grande quantidade.
Com ele, construíram teares que trabalham, dia e noite, no fabrico de vestuário, também de oiro.
Outrora, quem passava por lá perto, de dia ou de noite, podia ouvir distintamente o tim-tim dos martelos nas bigornas e o truque-truque das lançadeiras nos teares.
Agora, já nada disso se ouve, mas os mouros lá continuam a manipular o seu oiro, embora de uma maneira silenciosa.
Resta acrescentar que, ao contrário do que se passou noutros lugares, o povo de Vila Verde da Raia nunca tentou desenterrar esse tesoiro.
Contenta-se em saber que tem na sua cerca uma grande fortuna enterrada.



15/06/2012

O porco que se transformou numa moça


"O meu sogro era um homem que madrugava muito. Teve 24 filhos, era carpinteiro e tratava de muitas terras para poder governar a casa. Ia então ele de madrugada, a passar ao pé da barragem do Peneireiro, onde tratava de uma terra, e, chegando junto ao ribeiro, viu uma manada de recos num lameiro, pequenos e grandes. E, claro, preparou-se logo pra deitar as mãos a um. Como tinha muitos filhos, bem jeito lhe dava agarrá-lo. Só que, ao tempo que o ia agarrar, apareceu-lhe uma gaija em lugar do reco e a dizer:
— Crí’ós![cria-os]
Queria ela dizer, nat’ralmente, que, se quisesse porcos pra comer, que os criasse. E neste entretanto, os outros transformaram-se também numas poucas de moças e desapareceram a dançar. E o pobre homem ficou lá sozinho. E desconsolado. Contou isto a vida toda."


PARAFITA, Alexandre, Património Imaterial do Douro (Narrações Orais)

08/06/2012

Lenda das Maias

Num país distante andavam uns homens à procura de Jesus para o matarem. Um dia, à noitinha, viram-no entrar numa casa de gente pobre e humilde. Então, para poderem, na manhã seguinte, reconhecer a casa em que Jesus estava e o apanharem, penduraram um ramo de giesta no fecho da porta a fim de não terem dificuldade em conhecer a casa em que Ele dormia.
Mas, na manhã seguinte, como por milagre, todas as portas estavam enfeitadas com ramos de giesta pendurados nos fechos.
Os judeus ficaram desorientados e não puderam descobrir a casa em que Jesus se tinha abrigado e não o puderam prender.
Ainda hoje, em alguns lugares, é costume, no dia um de Maio, enfeitar as portas das casas com giestas em flor, a que se dá também o nome de maias.

Ponta Delgada