Mostrar mensagens com a etiqueta Romanceiro. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Romanceiro. Mostrar todas as mensagens

11/02/2009

O cativo





Eu vinha do mar de Hamburgo
Numa linda caravela;
Cativaram-nos os moiros
Entre la paz e la guerra.
Para vender me levaram
A Salé, que é sua terra.
Não houve moiro nem moira
Que por mim nem branca dera;
Só houve um perro judio
Que ali comprar-me quisera;
Dava-me uma negra vida,
Dava-me uma vida perra;
De dia pisar esparto,
De noite moer canela,
E uma mordaça na boca
Para lhe eu não comer dela.
Mas foi minha fortuna
Dar c’uma patroa bela,
Que me dava do pão alvo,
Do pão que comia ela.
Dava-me do que eu queria,
E mais do que eu não quisera,
Que nos braços da judia
Chorava – que não por ela.

Dizia-me então: - «Não chores,
Cristão, vai-te à tua terra.»
- «Como me hei-de eu ir, senhora,
Se me falta la moeda?»
- «Se fora por um cavalo,
Eu uma égua te dera;
Se fosse por um navio,
Dera-te uma caravela.»

- «Não fora por um cavalo,
Não fora, senhora bela,
Que está longe Mazagão,
Ceuta tem voz de Castela.
Nem por navio não fora,
Que eu fugir não quisera,
Que era roubar a teu pai
Dinheiro que por mim dera.»
- «Toma esta bolsa, cristão,
Feita de seda amarela66;
Minha mãe, quando morreu,
Me deixou senhora dela.
Vai-te, paga o teu resgate;
E às damas de tua terra
Dirás o amor da judia
Quanto mais vale que o delas.»

Palavras não eram ditas,
O patrão que era chegado.
- «Venhais embora, patrão,
E vinde com Deus louvado,
Que agora tenho recado
Que o meu resgate é chegado.»
- «Cristão, cristão, que disseste!
Olha que é muito cruzado.
Quem te deu tanto dinheiro
Para seres resgatado?»
- «Duas irmãs mo ganharam,
Outra mo tinha guardado
E um anjo do céu mo trouxe.
Um anjo por Deus mandado.»
- «Dize-me, ó cristão, dize
Se queres ser renegado,
Que te hei-de fazer meu genro,
Senhor de todo o meu estado.»
- «Eu não quero ser judio
E nem turco arrenegado,
E não quero ser senhor,
De todo esse teu estado,
Porque trago no meu peito
A Jesus crucificado.»

- «Que tens tu, filha Raquel?
Dize-me cá, filha amada,
Se é pelo cristão maldito
Que ficaste desgraçada.»
- «Meu pai deixe o cristão, deixe,
Que ele não me deve nada:
Deve-me a flor de meu corpo,
Mas de vontade foi dada.»

Mandou fazer-lhe uma torre
De pedraria lavrada;
Que não dissessem os moiros:
- «A judia é desonrada.»
Viola, minha viola,
Fica-te aqui pendurada
Que lá vão os meus amores
Por essa água salgada.

Romanceiro, Almeida Garrett

Guimar

Era a menina mais linda
Que naquela terra havia;
Tão formosa e tão discreta
De outra igual se não sabia.
Muito lhe quer Dom João,
Muito de mais lhe queria:
Seus amores, seus requebros
Não cessam de noite e dia.
Por fidalgo e gentil moço
Ninguém tanto a merecia;
Senão que o pai da donzela
Outro conselho seguia:
Casá-la quer muito rica
Com um mercador que aí havia,
Sem fazer caso de amores,
Sem lhe importar fidalguia.
Dom João, quando isto soube,
Por pouco se não morria:
Foi-se dali muito longe
Sem dizer para onde ia.
Três meses por lá andou,
Três meses nessa agonia;
A vida que lhe pesava
Sofrê-la já não podia.
Mandou selar seu cavalo
Sem cuidar no que fazia;
Deitou por esses caminhos
Sem saber adonde ia.
O cavalo é quem mandava,
Cavaleiro obedecia.
Passou por terras e terras,
Nenhuma não conhecia.
À sua tinha chegado,
Onde estava não sabia.
Era por manhã de Maio,
Todo o campo florecia,
Os passarinhos cantavam,
O prado verde sorria;
Lá de dentro da cidade
Um triste clamor se ouvia:
Eram sinos a dobrar,
E era toda a clerezia,
Eram nobre, era povo
Que da igreja saía...
Entrou de portas a dentro,
De rua em rua seguia,
Chegou à de sua dama,
Essa sim que a conhecia.
As casas onde morava,
Janelas aonde a via,
Tudo é coberto de preto,
Mais preto que ser podia.
Mandou chamar uma dona
Que ela consigo trazia:
- «Dizei-me por Deus, senhora,
Dizei-me por cortesia,
Esse luto tão pesado
Por quem trazeis, que seria?»
- «Trago-o por minha senhora,
Dona Guimar de Mexia,
Que é com Deus a sua alma,
Seu corpo na terra fria.
E por vós foi, Dom João,
Por vosso amor que morria.»
Dom João quando isto ouviu
Por morto em terra caía,
Mas a dor era tamanha
Que a força dela vivia.
Os seus olhos não choravam,
Sua boca não se abria.
Mirava gente em redor
Para ver o que faria.
Vestiu-se todo de preto,
Mas preto que ser podia,
Foi-se direto à igreja
Onde sua dama jazia:
- «Eu te rogo, sacristão,
Por Deus e Santa Maria,
Eu te rogo que me ajudes
A erguer esta campa fria.»
Ali a viu tão formosa
Tal como dantes, a via;
Ali, morta, sepultada,
Inda outra igual não havia,
Pôs os joelhos em terra,
Os braços ao céu erguia,
Jurou a Deus e a sua alma
Que mais a não deixaria.
Puxou de seu punhal de oiro
Que na cintura trazia,
Para a acompanhar na morte
Já que em vida não podia.
Mas não quis a Virgem Santa,
A Virgem Santa Maria
Que assim se perdesse uma alma
Que só de amor de perdia.
Por juízo alto de Deus
Um milagre se fazia:
A defunta a mão direita
Ao seu amante estendia
Seus lindos olhos se abriram,
A sua boca sorria;
Volta a vida que se fora,
Com todo o amor que não se ia.
Seu pai, o foram buscar,
Que já estava na agonia;
Vêm amigos, vêm parentes,
Todos em grande alegria.
Dão graças à Santa Virgem,
Cujo milagre seria;
E a Dom João dão a esposa,
Que tão bem a merecia.


Romanceiro, Almeida Garrett






05/02/2009

A noiva arraiana

- «Deus vos salve, minha tia,
Na vossa roca a fiar!»
- «Venha embora o cavaleiro
Tão cortês no seu falar!»
- «Má hora se ele foi, tia,
Má hora torna a voltar!
Que já ninguém o conhece
De mudado que há-de estar.
Por lá o matassem moiros,
Se assim tinha de tornar!»
- «Ai sobrinho de minha alma,
Que és tu pelo teu falar!
Não vês estes olhos, filho,
Que cegaram de chorar?»
- «E meu pai e minha mãe,
Tia, que os quero abraçar?»
- «Teu pai é morto, sobrinho,
Tua mãe foi a enterrar.»
- «Qu’é da minha armada, tia,
Que eu aqui mandei estar?»
- «A tua armada, sobrinha,
Mandou-a o fronteiro ao mar.»
- «Qu’é do meu cavalo, tia,
Que eu aqui deixei ficar?»
- «O teu cavalo, sobrinho,
El-rei o mandou tomar.»
- «Qu’é de minha dama, tia,
Que aqui ficou a chorar?»
- «Tua dama faz hoje a boda,
Amanhã se vai casar.»
- «Dizei-me onde é, minha tia,
Que me quero lá chegar.»
- «Sobrinho, não digo, não,
Que te podem lá matar.»
- «Não me matam, minha tia;
Cortesia eu sei usar:
E onde faltar cortesia,
Esta espada há-de chegar.»

- «Salve Deus, ó lá da boda,
Em bem seja o seu folgar!»
- «Venha embora o cavaleiro;
- «Salve Deus, ó lá da boda,
Em bem seja o seu folgar!»
- «Venha embora o cavaleiro;

Vindo ela lá de dentro
Toda lavada em chorar,
Mal que viu o cavaleiro,
Quis morrer, quis desmaiar.
- «Se tu choras por me veres,
Já me quero retirar;
Se é os teus gastos que choras,
Aqui estou para os pagar.»
- «Pagar devia co’a vida
Quem me queria enganar,
Quando te deram por morto
Nessas terras de além mar.
Mas que fiquem com a boda
E bem lhes preste o jantar,
Que os meus primeiros amores
Ninguém mos há-de quitar.»

- Venha juiz de Castela,
Alcaide de Portugal;
Que, se aqui não há justiça,
Co’esta espada a hei-de tomar.»

Romanceiro, Almeida Garrett



02/02/2009

Conde Nilo

Conde Nilo, conde Nilo
Seu cavalo vai banhar;
Enquanto o cavalo bebe,
Armou um lindo cantar.
Com escuro que fazia
El-rei não o pode avistar.
Mal sabe a pobre da infanta
Se há-de rir, se há-de chorar.
- «Cala, minha filha, escuta,
Ouvirás um bel cantar:
Ou são os anjos no céu,
Ou a sereia no mar.»
- «Não são os anjos no céu
Nem a sereia no mar:
É o conde Nilo, meu pai,
Que comigo quer casar.»
- «Quem fala no conde Nilo,
Quem se atreve a nomear
Esse vassalo rebelde
Que eu mandei desterrar?»
- «Senhor, a culpa é só minha,
A mim deveis castigar:
Não posso viver sem ele...
Fui eu que o mandei chamar.»
- «Cala-te, filha traidora,
Não te queiras desonrar.
Antes que o dia amanheça
Vê-lo-ás ir a degolar.»
- «Algoz que o matar a ele,
A mim me tem de matar;
Adonde a cova lhe abrirem,
A mim me têm de enterrar.»

Por quem dobra aquela campa,
Por quem está a dobrar?
- «Morto é o conde Nilo,
A infanta já a expirar
Abertas estão as covas,
Agora os vão enterrar:
Ele, no adro da igreja,
A infanta, ao pé do altar.»
De um nascera um cipreste,
E do outro um laranjal;
Um crescia, outro crescia,
Co’as pontas se iam beijar.
El-rel, apenas tal soube,
Logo os mandara contar.
Um deitava sangue vivo,
O outro sangue real;
De um nascera uma pomba,
De outro um pombo torcaz.
Senta-se el-rei a comer,
Na mesa lhe iam poisar:
- «Mal haja tanto querer,
E mal haja tanto amar!
Nem na vida nem na morte
Nunca os pude separar.»

Romanceiro, Almeida Garrett





31/01/2009

A Nau catrineta




Lá vem a nau Catrineta
Que tem muito que contar!
Ouvide, agora, senhores,
Uma história de pasmar.

Passava mais de ano e dia
Que iam na volta do mar,
Já não tinham que comer,
Já não tinham que manjar.
Deitaram sola de molho
Para o outro dia jantar;
Mas a sola era tão rija,
Que a não puderam tragar.
Deitam sortes à ventura
Qual se havia de matar;
Logo foi cair a sorte
No capitão general.

- «Sobe, sobe, marujinho,
Àquele mastro real,
Vê se vês terras de Espanha,
As praias de Portugal.»
- «Não vejo terras d’Espanha,
Nem praias de Portugal;
Vejo sete espadas nuas
Que estão para te matar.»
- «Acima, acima, gajeiro,
Acima ao tope real!
Olha se enxergas Espanha,
Areias de Portugal.»
- «Alvíssaras, capitão,
Meu capitão general!

Já vejo terras de Espanha,
Areias de Portugal.
Mais enxergo três meninas
Debaixo de um laranjal:
Uma sentada a coser,
Outra na roca a fiar,
A mais formosa de todas
Está no meio a chorar.»
- «Todas três são minhas filhas,
Oh! quem mas dera abraçar!
A mais formosa de todas
Contigo a hei-de casar.»
- «A vossa filha não quero,
Que vos custou a criar.»
- «Dar-te-ei tanto dinheiro
Que o não possas contar.»
- «Não quero o vosso dinheiro,
Pois vos custou a ganhar.»
- «Dou-te o meu cavalo branco,
Que nunca houve outro igual.»
- «Guardai o vosso cavalo,
Que vos custou a ensinar.»
- «Dar-te-ei a nau Catrineta,
Para nela navegar.»
- «Não quero a nau Catrineta,
Que a não sei governar.»
- «Que queres tu, meu gajeiro,
Que alvíssaras te hei-de dar?»

- «Capitão, quero a tua alma
Para comigo a levar.»
- «Renego de ti, demônio.
Que me estavas a atentar!
A minha alma é só de Deus;
O corpo dou eu ao mar.»

Tomou-o um anjo nos braços,
Não no deixou afogar.
Deu um estouro o demônio,
Acalmaram vento e mar;
E à noite a nau Catrineta
Estava em terra a varar.


Romanceiro
, Almeida Garrett

09/01/2009

Bela Infanta

Estava a bela infanta
No seu jardim assentada,
Como o pente de oiro fino
Seus cabelos penteava.
Deitou os olhos ao mar
Viu vir uma nobre armada;
Capitão que nela vinha,
Muito bem que a governava.

– «Diz-me, ó capitão
Dessa tua nobre armada,
Se encontraste meu marido
Na terra que Deus pisava?»
– «Anda tanto cavaleiro
Naquela terra sagrada...
Diz-me tu, ó senhora,
As senhas que ele levava.»
– «Levava cavalo branco,
Selim de prata doirada;
Na ponta da sua lança
A cruz de Cristo levava.»
– «Pelos sinais que me deste
Lá o vi numa estacada
Morreu morte de valente:
Eu sua morte vingava.»
– «Ai triste de mim viúva,
Ai triste de mim coitada!
De três filhinhas que tenho,
Sem nenhuma ser casada!...»
– «Que dirias tu, senhora,
A quem no trouxera aqui?»
– «Dera-lhe oiro e prata fina,
Quanta riqueza há por i.»
– «Não quero oiro nem prata,
Não nos quero para mi:
Que darias mais, senhora,
A quem no trouxera aqui?»
– «De três moinhos que tenho,
Todos três tos dera a ti;
Um mói o cravo e a canela
Outro mói do gerzeli:
Rica farinha que fazem!
Tomara-os el-rei pra si»
– «Os teus moinhos não quero
Não nos quero para mi;
Que diria mais senhora,
A quem to trouxera aqui?»
– «As telhas do meu telhado
Que são oiro e marfim.»
– «As telhas do teu telhado
Não nas quero para mi:
Que darias mais, senhora,
A quem no trouxera aqui?»
– «De três filhas que eu tenho,
Todas três te daria a ti:
Uma para te calçar,
Outra para te vestir,
A mais formosa de todas
Para contigo dormir.»
– «As tuas filhas, infanta,
Não são damas para mi:
Dá-me outra coisa senhora,
Se queres que o traga aqui.
– «Não tenho mais que te dar,
Nem tu mais que me pedir.»
– «Tudo, não, senhora minha,
Que inda te não deste a ti.»
– «Cavaleiro que tal pede,
Que tão vilão é de si
Por meus vilões arrastado
O farei andar aí
Ao rabo do meu cavalo.
À volta do meu jardim
Vassalos, os meus vassalos,
Acudi-me agora aqui!»
– «Este anel de sete pedras
Que eu contigo reparti...
Que é dela a outra metade?
Pois a minha, vê-la aí!»
– «Tantos anos que chorei,
Tantos sustos que tremi!...
Deus te perdoe, marido,
Que me ias matando aqui.»

Romanceiro, Almeida Garrett

16/11/2008

Justiça de Deus

Preso vai o conde, preso,
Preso vai a bom recado;
Não vai preso por ladrão,
Nem por homem ter matado,
Mas por violar a donzela
Que vinha de San Tiago:
Não bastou dormir com ela,
Senão dá-la ao seu criado!
Acometeu-a na serra,
Mui longe do povoado:
Por morta ali a deixara
Sem mais dó, sem mais cuidado
Chorou três dias, três noites,
E mais teria chorado,
Senão que Deus sempre acode
A amparar o desgraçado.
Passou por alo um velho,
Um pobre velho soldado,
Suas barbas brancas de neve,
Em sua espada abordoado;
Vieiras traz na esclavina,
O chapéu delas cercado;
Chegou-se à pobre romeira
Com muito amor, muito agrado:

– «Não chores mais, filha minha,
Filha, demais tens chorado;
Que esse vilão cavaleiro
Preso vai a bom recado.»
Levou consigo a donzela
O bom velho do soldado;
Vão à presença d el-rei,
Onde o conde era levado:

– «Eu te requeiro, bom rei,
Pelo Apóstolo sagrado,
Que nesta sua romeira
O foro seja guardado.
Da lei divina é casar-se,
Da humana ser degolado:
Que não valem fidalguias
Onde Deus é o agravado.»

Disse el-rei aos do conselho
Com semblante carregado:
– «Sem mais detença, este feito
Quero já desembargado.»
– «Visto está o feito, visto,
Julgado está, bem julgado:
Ou há-de casar com ela,
Ou se não... ser degolado.»
– «Pois que me praz» disse o rei:
O algoz que seja chamado:
Ou já casar, co a romeira
Ou aqui ser degolado.»

– «Venham algoz e cutelo.
Respondeu o acusado:
Mas antes morrer mil vezes
Que viver envergonhado»

Agora ouvireis o velho,
O bom velho do soldado:
– «Fazeis, bom rei, má justiça,
Mau feito tendes julgado:
Primeiro casar com ela,
E depois ser degolado.
Lava-se a honra com sangue,
Mas não se lava o pecado»

Palavras não eram ditas,
A espada tinha arrojado,
Despe insígnias de romeiro,
Despe as armas de soldado,
Nos trajos de um santo bispo
Aparece transformado;
Sua mitra de pedras finas,
De oiro puro o seu cajado:
Tomou a mão da romeira,
A mão do conde há tomado,
Por palavras de presente
Ali os tem desposado.
Choravam todos que o viam,
Chorava mais o culpado;
Chorando, pedia a morte
Por não ficar desonrado.
O santo bispo o absolvia
Contrito de seu pecado:
Dali o levam por morto,
Que nem o algoz foi chamado,
Justiça de Deus foi nele,
Antes de uma hora é finado!
Mas acudiu àquela alma
O Apóstolo sagrado,
Que outro não era o romeiro,
O bispo nem o soldado.


Romanceiro, Almeida Garrett





31/10/2008

Dom Gaifeiros

Sentado está Dom Gaifeiros
Lá em palácio real,
Assentado ao tabuleiro
Para as tábulas jogar.
Os dados tinha na mão,
Que já os ia deitar,
Senão quando vem seu tio
Que lhe entra a pelejar:
– «Para isso és, Gaifeiros,
Para os dados arrojar;
Não para ir tomar damas,
Com a moirisma jogar.
Tua esposa lá têm moiros,
Não sabes ir buscar:
Outrem fora seu marido,
Já lá não havia estar.»
Palavras não eram ditas,
Os dados vão pelo ar...
A que não fora o respeito
Da pessoa e do lugar,
Távolas e tabuleiro
Tudo fora espedaçar.
A seu tio, Dom Roldão,
Tal resposta lhe foi dar:
– «Sete anos a busquei, sete,
Sem a poder encontrar;
Os quatro por terra firme,
Os três sobre águas do mar.
Andei por montes e vales,
Sem dormir, nem descansar;
O comer, da carne crua,
No sangue a sede matar.
Sangue vertiam meus pés
Cansados de tanto andar;
E os sete anos cumpridos
Sem a poder encontrar.
Agora a saber sou vindo
Qua Sansonha foi parar;
E eu sem armas nem cavalo
Com que a possa ir buscar:
Que a meu primo Montezinhos
Há pouco os fui emprestar
Para essa festa de Hungria
Onde se foi a justar.
Mercê vos peço, meu tio,
Se ma vós quiséreis dar,
Vossas armas e cavalo
Que mos queirais emprestar.»
– «Sete anos são cumpridos,
Bem nos deves de contar,
Que Melisendra é cativa
E a vida leva a chorar.
E sempre te vi com armas,
Com cavalos a adestrar;
Agora que estás sem eles
É que a queres ir buscar?
Minhas armas não te empresto
Que as não posso desarmar;
Meu cavalo bem vezeiro,
Não o quero mais vezar.»
– «As vossas armas, meu tio,
Que mas não queirais negar
A minha esposa cativa
Como a hei-de eu ir buscar?
– Em São João de Latrão
Fiz juramento no altar,
De a ninguém não prestar armas
Que mas faça acobardar.»

Dom Gaifeiros, que isto ouviu,
A espada foi a tirar;
Saltam-lhe os olhos da cara
De merencório a falar:
– «Bem parece, mal pesar!
O muito amor que me tendes
Para assim me afrontar.
Mandai-me dizer por outrem
Que me las possa pagar,
Essas palavras, meu tio,
Que vos não quero tragar.»
Acode ali Dom Guarino,
O almirante do mar,
Durandarte e Oliveiros
Que os vêm a separar;
Com outros muitos dos Doze
Que ali sucedeu de estar.
Dom Roldão muito sereno
Assim lhe foi a falar:
– Bem parece, Dom Gaifeiros,
Bem se deixa de mostrar
Que a falta de anos, sobrinho,
Em tudo vos faz faltar.
Aquele que mais te quer
Esse te há-de castigar:
Foras tu mau cavaleiro,
Nunca eu te dissera tal,
Porque sei que tu és bom, to disse...
E agora, armar e selar!
Meu cavalo e minhas armas
Aí estão a teu mandar,
E mais, terás o meu corpo
Para te ir acompanhar.»
– «Mercês, meu tio, hei-de ir só,
Só, tenho de a ir buscar.
Venham armas e cavalo
Que já me quero marchar,
De covarde a mim! ninguém
Nunca ninguém me há-de apelidar.»
Dom Roldão a sua espada
Ali lhe foi entregar:
– «Pois só queres ir, sobrinho,
Esta te há-de acompanhar.
Meu cavalo é generoso,
Não o queiras sopear;
Dá-lhe mais rédea que espora,
Nele te podes fiar».

Andando vai Dom Gaifeiros,
Andando de bom andar.
Por essas terras de Cristo,
Té a Moirama chegar.
Ia triste e pensativo,
Cheio de grande pesar;
Melisendra em mãos de moiros,
Como lha há-de sacar?...
Pára às portas de Sansonha
Sem saber como há-de entrar:
Estando neste cuidado
As portas se abrem de par.
El-rei com seus cavaleiros
Saía ao campo a folgar;
Mui galãs iam de festa,
Mui ledos a cavalgar.
Furtou-lhe as voltas de Gaifeiros,
Pelas portas foi entrar;
Deu com um cristão cativo
Que ali andava a trabalhar:

– «Por Deus te peço cativo,
E ele te venha livrar!
Assim me digas se ouviste
Nesta terra anomear
A uma dama cristã,
Senhora de alto solar,
Que anda cativa entre moiros
E a vida leva a chorar.»
– «Deus te salve, cavaleiro,
Ele te venha ajudar!
A assim me dê outra vida,
Que esta se vai a chorar.
Pelos sinais que me destes,
Já bem te posso afirmar
Que a dama que andas buscando
Em palácio deve estar.
Toma essa rua direita
Que leva ao paço real,
Lá verás pelas janelas
Muitas cristãs a folgar.»
Tomou a rua direita
Que no passo vai dar
Alçou os olhos ao alto,
Melisendra viu estar,
Sentada àquela janela
Tão entregue a seu pensar,
Que as outras em redor dela
Não nas sentia folgar.
Rua abaixo, rua acima
Gaifeiros a passear.
– «Oh que lindo cavaleiro,
De tão gentil cavalgar!»
– «Melhor sou jogando às damas,
Com moiros a batalhar!»
Melisendra que isto ouviu
Começava a chorar:
Não já que ela o conhecesse,

Nem tal se podia azar,
Tão coberto de armas brancas,
Tão dif ‘rente no trajar;
Mas por ver um cavaleiro
Que lhe fazia lembrar
Aqueles Doze de França,
Aquela terra sem par,
As justas e os torneios
Que ali soíam de armar
Quando por sua beleza
Andavam a disputar.
Com voz chorosa e sentida
Começou de o chamar:
– «Cavaleiro, se a França ides,
Recado me heis levar,
Que digais a Dom Gaifeiros
Por que me não vem buscar.
Se não é medo de moiros
De com eles pelejar,
Já serão outros amores
Que o fizeram olvidar...
Enquanto eu presa e cativa
A vida levo a chorar
E mais se este meu recado,
O não quis aceitar.
Dá-lo-eis a Oliveiros
A Dom Beltrão o heis-de dar.
E a meu pai o Imperador
Que já me mande buscar,
Pois me querem fazer moira
E de Cristo renegar.
Com um rei mouro me casam
De além das bandas do mar,
Dos sete reis de Moirama
Rainha me hão-de coroar.»
– «Esse recado, senhora,
Vós mesma lho haveis de dar;
Dom Gaifeiros aqui o tendes
Que vos vem a libertar.»

Palavras não eram ditas,
Os braços lhe foi a dar,
Ela do balcão abaixo
Se deitou sem mais falar.
Maldito perro de moiro
Que ali andava a rondar!
Em altos gritos o moiro
Começava a bradar:
– «Acudam à Melisendra,
Que a vêm os cristãos roubar.»
«Melisendra minha esposa,
Como havemos de escapar?
– «Com Deus e a Virgem Maria
Que hão-de acompanhar.»
– «Melisendra, Melisendra,
Agora é o esforçar!»
Aperta a cilha ao cavalo,
Afrouxa-lhe o peitoral,
Saltou-lhe em cima de um pulo
Sem pé no estribo poisar.
Tomou-a pela cintura,
Que o corpo ergueu por lhe dar;
Assenta a esposa à garupa
Para que o possa abraçar,
Finca esporas ao cavalo,
Que o sangue lhe fez saltar.
Aqui vai, acolá voa...
Ninguém no pode alcançar.
Os moiros pela cidade
A correr e a gritar;
Quantas portas ela tinha
Todas as foram cerrar.
Sete vezes deu a volta
Da cerca sem a passar,
O cavalo às oito vezes
De um salto a foi saltar.
Já os moiros da cidade
O não podem avistar:
Acode o rei Almançor
Que vinha de montear,
Com todos seus cavaleiros
Lá deitam a desfilar,
Sentiu logo Dom Gaifeiros
Como o iam alcançar:
– «Não te assustes, Melisendra,
Que é força aqui apear
Entre estas árvores verdes
Um pouco me hás-de aguardar.

Enquanto eu volto a esses cães
Que os hei-de afugentar.
As boas armas que trago
Agora as vou a provar.»
Apeou-se Melisendra,
Ali ficava a rezar.
O cavalo, sem mais rédea,
Aos moiros se foi voltar:
Cansado ia de fugir
Que já mal podia andar,
Cheirou-lhe ao sangue maldito,
Todo é fogo de abrasar
Se bem peleja Gaifeiros,
Melhor é seu pelejar;
A qual dos dois anda a lida
Mais moiros há-de matar
Já caem tantos e tantos
Que não têm conto nem par;
Com o sangue que corria
O campo se ia a alagar.
Rei Almançor que isto via,
Começava de bradar
Por Alá e Mafamede
Que o viessem amparar:
«Renego de ti, cristão,
E mais do teu pelejar!
Não há outro cavaleiro
Que se te possa igualar,
Será este Urgel de Nantes,
Oliveiros singular,
Ou o infante Dom Guarim
Esse almirante e do mar?
Não há nenhum dentre os Donze
Que bastasse para tal...
Só se fosse Dom Roldão
O encantado sem par!»

Dom Gaifeiros que o ouvia,
Tal resposta lhe foi dar:
– «Cala-te daí, rei moiro,
Cala-te, não digas tal,
Muito cavaleiro em França
Tanto como esses val.
Eu nenhum deles não sou,
E me quero nomear:
Sou o infante Dom Gaifeiros,
Roldão meu tio carnal,
Alcaide-mor de Paris
Minha terra natural.»

Não quis o rei mais ouvir
E não quis mais porfiar,
Voltou rédeas ao cavalo,
Foi-se em Sansonha encerrar.
Gaifeiros, senhor do campo,
Não tem com quem pelejar;
Cheio de grande alegria
Melisendra foi buscar.
– «Ai! se vens ferido, esposo?
Eram tantos esses moiros,
E tu só a batalhar.
Mangas de minha camisa,
Com elas te hei-de pensar;
Toucas de minha cabeça
Faixas para te apertar.»
– «Cala-te daí, infanta,
E não queiras dizer tal;
Por mais que foram n‘os moiros,
Não me haviam fazer mal:
São de meu tio Roldão
Estas armas de provar;
Cavaleiro que as trouxesse,
Nunca pode perigar.»

Cavalgam, vão caminhando,
Não cessam de caminhar,
Por essa Moirama fora
Sem mais temor nem pesar;
Falando de seus amores
Sem de mais nada pensar.
Em terras de cristandade
Por fim vieram a entrar.
A Paris já são chegados,
Já saem para os encontrar,
Sete léguas da cidade
A corte os vai esperar.
Saía o Imperador
A sua filha a abraçar;
Palavras que lhe dizia,
As pedras fazem chorar.
Saíu toda a fidalguia,
Cleresia e secular,
Os Doze Pares de França,
Damas sem conto nem par.
Dona Alda com Dom Roldão

E o almirante do mar,
O arcebispo Turpim
E Dom Julião de além-mar,
E o bom velho Dom Beltrão,
E quantos soem de estar
Ao redor do Imperador
Em sua mesa a jantar.

Grande honra a Dom Gaifeiros!
Os parabéns lhe vão dar;
Por sua muita bondade
Todos o estão a louvar,
Pois libertou sua esposa
Com valor tão singular.
As festas que se fizeram
Não têm conto nem par.


Romanceiro, Almeida Garrett





06/10/2008

A Morena

Fui-me à porta da Morena,
Da Morena mal casada:
- «Abre-me a porta, Morena
Abre-ma por tua alma!»
- «Como te hei-de abrir a porta
Meu frei João da minha alma,
Se tenho a menina ao peito
E meu marido à ilharga?»
Estando nestas razões,
O marido que acordava:
- «Que é isso, mulher minha,
A quem dás as tuas falas?»
- «Digo à moça do forno,
Que veio ver se amassava,
Se amasasse pão de leite,
Que lhe deitasse pouca água.»
- «Ergue-te, ó mulher minha
Vai cuidar da tua casa;
Manda teus moços à lenha,
Teus escravos buscar água.»
- «Ergue-te daí, marido,
Vai ao monte pela caça;
Não há coelho mais certo
Do que é o da madrugada.»

O marido que sáia,
Morena que se enfeitava;
Seu mantéu de cochonilha
De doze tostões a vara,
Meia de seda encarnada
Que na perna lhe estalava,
Sua bengala na mão
Que mal no chão lhe tocava.
Foi-se direita ao convento,
À portaria chegava.
O porteiro é frei João
Que pela mão a tomava;
Levou-a à sua cela,
Muito bem a confessava...
Penitência que lhe deu,
Logo ali mesmo a rezava.

À saída do convento
O marido que a encontrava:
- «Donde vens, ó mulher minha,
Donde vens tão arraiada?»
- «Venho de ouvir missa nova,
Missa nova bem cantada:
Disse-a o padre frei João,
Que assim venho consolada.»
- «Consolar-te hei-de eu agora
Com a ponta desta espada...»
Deu-lhe um golpe pelos peitos,
Deixou-a morta deitada.
- «Não se me dá de morrer,
Que o morrer não custa nada;
Dá-se-me da minha filha,
Que a não deixo desmamada!»
- «Foras tu melhor mãe que és,
Não foras tão mal casada,
Não havias de morrer
Desta morte desastrada.»

Levavam-na ao convento,
Numa tumba amortalhada:
Sorria-se o frei João,
E o marido... é quem chorava.

Romanceiro, Almeida Garrett






19/09/2008

Claralinda

Meia noite já é dada,
Os galos querem cantar,
O conde Claros na cama
Não podia repousar.
Chamou pajens e escudeiros,
Que se quer já levantar;
Que lhe tragam de vestir,
Que lhe tragam de calçar.
Deram-lhe uma alva camisa.
Que el-rei não a tinha tal;
Deram-lhe saia de seda,
Cintura de oiro e firmal.
Trazem-lhe esporas douradas.
Para com elas montar;
Cavalgou no seu cavalo,
Pôs-se logo a caminhar.

– «Deus te salve, Claralinda,
Tão cedo estás a bordar?
Salve-te Deus, conde Claros!
Donde vais a caminhar?»
– «Aos moiros me vou, senhora,
Grandes guerras guerrear.»
– «Que belo corpo que tendes
Para com eles brigar!»
– «Melhor o tenho, senhora,
Para convosco folgar...»

Palavras não eram ditas
Um pajem que ia a passar;
– «As palavras que são ditas,
A el-rei vou já contar.»
– «Palavras que ditas são,
A el-rei não vás levar:
Dar-te-ei de oiro e de prata
Quanto possas carregar.
– «Não quero oiro nem prata,
Se oiro e prata me heis-de dar;
Quero guardar lealdade
A quem na devo guardar:
As palavras que são ditas,
A el-rei as vou contar.

Foi dali o bom do pajem
Andando de bom andar
À casa da Estudaria,
Onde el-rei estava a estudar:
– Deus vos salve senhor rei,
E a vossa coroa real!
Lá deixei o conde Claros
Com a princesa a folgar
– Se à puridade o dissesses,
Tença te havia de dar;
Mas pois tão alto falaste,
Alto hás-de ir a enforcar.

Castigar os chocalheiros
Boa justiça real:
Mas o pobre conde Claros
Também vai a degolar!
– «Vinde, vinde, Claralinda...
Como estais a descansar!
Vinde ver o conde Claros
Que el-rei o manda matar.»
– «Acudi, minhas donzelas,
Vinde-me acompanhar:
Que se el-rei lhe não perdoa,
Com ele quero acabar.»

– «Deus vos salve, senhor rei,
E a vossa c’roa real!
Que vos fez a conde Claros
Para o mandardes matar?»
– «Se eu tivera outra filha
Para em meu reino reinar,
Juro-te, ó Claralinda,
Que o ias acompanhar.
Mas toma-o tu por marido,
Por genro o quero eu tomar;
E ninguém mais nesta corte
Se atreva a mexericar.»

Romanceiro, Almeida Garrett





14/09/2008

Dom Beltrão

– «Quedos, quedos, cavaleiros,
Que el-rei os manda contar!»
Contaram e recontaram,
Só um lhe vinha a faltar:
Era esse Dom Beltrão,
Tão forte no batalhar;
Nunca o acharam de menos
Senão naquele contar,
Senão ao passar do rio,
Nos portos do mal passar.
Deitam sortes à ventura
A qual o devia ir buscar:
Que ao partir fizeram todos
Preito, homenagem no altar,
O que na guerra morresse
Dentro em França se enterrar.
Sete vezes deitam sortes
A quem no há-de ir buscar;
Todas sete lhe caíram
Ao bom velho de seu pai.
Volta rédeas ao cavalo,
Sem mais dizer nem falar...
Que lha sorte não caíra,
Nunca ele havia de ficar.
Triste e só se foi andando,
Não cessava de chorar;
De dia vai pelos montes,
De noite vai pelo val;
Aos pastores perguntando
Se viram ali passar
Cavaleiro de armas brancas,
Seu cavalo tremedal.
– «Cavaleiro de armas brancas,
Se cavalo tremedal,
Por esta ribeira fora
Ninguém não no viu passar.»
Vai andando, vai andando,
Sem nunca desanimar,
Chega àquela mortandade
Donde fora Roncesval:
Os braços já tem cansados
De tanto morto virar;
Viu a todos os franceses,
Dom Beltrão não pode achar.
Volta atrás o velho triste,
Voltou por um areal,
Viu estar um perro moiro
Em um adarve a velar:
– «Por Deus te rogo, bom moiro,
Me digas sem me enganar,
Cavaleiro de armas brancas
Se o viste por aqui passar.
Ontem à noite seria,
Horas de o galo cantar.
Se entre vós está cativo,
A oiro o hei-de pesar.»
– «Esse cavaleiro, amigo,
Diz-me tu que sinais traz.»
– «Brancas são as suas armas,
O cavalo tremedal.
Na ponta de sua lança
Levava um branco cendal,
Que lhe bordou sua dama
Bordado a ponto real.»
– «Esse cavaleiro, amigo,
Morto está nesse pragal,
Com as pernas dentro d’água,
O corpo no areal.
Sete feridas no peito
A qual será mais mortal;
Por uma lhe entra o sol,
Por outra lhe entra o luar,
Pela mais pequena delas
Um gavião a voar.»
– «Não torno culpa a meu filho,
Nem aos moiros de o matar;
Torno a culpa ao seu cavalo
De o não saber retirar.»
Milagre! quem tal diria,
Quem tal pudera contar!
O cavalo meio morto
Ali se pôs a falar:
– «Não me tornes essa culpa,
Que ma não podes tornar:
Três vezes o retirei,
Três vezes para p salvar;
Três me deu de espora e rédea
Co’a sanha de pelejar,
Três vezes me apertou cilhas,
Me alargou o peitoral...
À terceira fui a terra
Desta ferida mortal.»

Romanceiro, Almeida Garrett

29/08/2008

Dom Claros de Além-Mar

– «Quero fazer uma aposta,
Ou eu não sei apostar:
Claralinda há-de ser minha
Antes do galo cantar.»
– «Apostar, apostareis,
Mas não haveis de ganhar;
Que é discreta a Claralinda,
Ninguém na pode enganar.»
Não quis ali dizer nada,
Não quis ali mais falar;
Vestiu trajos de donzela
E se pôs a caminhar.
Lá estava a Claralinda
De seu balcão a mirar:
– «Que donzela tão bonita!
Quem é e o que vem buscar?»
– «É a tecedeira, senhora,
Que vem das praias do mar;
Tem a sua teia urdida,
E a falta vem na buscar.»
– «Aí tenho a falta, donzela,
Mas inda está por dobar.»
– «Senhora, que se faz tarde
E eu não posso esperar:
De noite pelos caminhos
Donzelas não hão-de andar.»
– «Para honra da donzela,
Aqui hoje há-de poisar.»
– «Tendes criados tão moços,
Tão atrevidos do olhar...»
– «Para honra da donzela
No meu quarto há-de ficar.»

A donzela, de contente,
À noite não quis cear;
Tinha sono, tanto sono,
Que se quis logo deitar.
Lá por essa noite adiante
Claralinda de gritar...
– «Cala-te, ó Claralinda,
Não te queiras difamar,
Que eu sou de nobre gente
E contigo hei-de casar:
Fia-te nesta palavra
De Dom Claros de Além-mar.»

Passados são tantos dias,
Tão compridos de esperar:
Não voltou a tecedeira,
Mas a teia ia a dobar
Aos sete para oito meses
O pai à mesa a jantar:
– «Claralinda, Claralinda,
Que feio é o teu trajar!»
– «Não diga tal, senhor pai,
Ninguém lhe oiça tal falar:
Não sou eu, é da vasquinha
Que é mal feita e dá mau ar.»
Mandou chamar alfaiates
Para se desenganar:
Disseram uns para os outros:
– «Não tem falta a saia tal.»

Não há ali mais que dizer,
Não há mais que perguntar:
– «Prepara-te, ó Claralinda,
Que amanhã vais a queimar.»
– «Não se me dá que me matem,
Que me levem a queimar,
Dá-se-me deste meu ventre
Que é de sangue real!...
Haverá por aí um pajem
Que o meu pão queira ganhar,
E que me leve esta carta
A Dom Claros de Além-mar?»
Aparece um pajenzito
Discreto no seu falar:
– «Aqui está um mensageiro
Que o recado quer levar.»
– «Se o meu pão queres comer,
A toda a pressa hás-de andar,
E entregarás esta carta
A Dom Claros de Além-mar.»

– «Que quereis, ó pajenzito,
Que vindes aqui buscar?»
– «Trago uma carta, senhor,
Novas de muito pesar;
Novas lhe trago, más. Novas
Da sua amiga leal:
Hoje se lhe ajunta a lenha,
Amanhã vai a queimar.»
Ele pôs-se a ler a carta,
Não a podia acabar;
As lágrimas eram tantas
Que o faziam cegar:
– «Oh lá, oh lá, escudeiros,
Os cavalos a ferrar;
Jornada de quatro dias
Esta noite se há-de andar.»

Chega a um convento de frades,
Estava o sino a dobrar:
– «Por quem dobra o sino, padre,
Por quem está a tocar?»
– «É a infanta Claralinda
Que se está a agonizar:
Ontem juntaram-lhe a lenha,
Hoje a levam a queimar.»
Era quase manhã clara,
Mandou seus pajens deitar,
Vestiu-se em trajos de frade,
Foi ao caminho esperar:
– «Parem lá os da justiça,
Justiça de mau pesar,
Que a menina que aí levam
Inda vai por confessar.»

Deixaram-no ao bom do frade
Para a infanta confessar.
Mal se ele viu só com ela,
De amores lhe foi falar:
– «Venha cá, minha menina,
Que a quero confessar;
No primeiro mandamento
Um beijinho me há-de dar.»
– «Não permita Deus do céu
Nem os santos do altar!
Onde Claros pôs a boca
Não me há-de um frade beijar.»
– «Venha cá, minha menina,
Que a quero confessar;
No segundo mandamento,
Um abraço me há-de dar.»

– «Vai-te na má hora, frade,
Que a mim não hás-de chegar;
Que a mim nunca chegou homem,
Se não – inda mal pesar!
Senão só esse Dom Claros,
Dom Claros o de Além-mar,
Que, por meus grandes pecados,
Por ele vou a queimar!»

Dom Claros que tal ouviu,
Não pôde o riso ocultar.
– «Por esse riso que dais,
Sois Dom Claros de Além-mar...»
– «Cala-te, ó Claralinda,
Que te venho libertar;
Já está tecida a teia,
Vamo-la agora a curar.»

Tomou-a logo nos braços
Puseram-se a caminhar:
Estava perto o convento,
Viram-nos os pajens chegar.
Chegavam, não chegariam...
A justiça de bradar.
– «Nas ancas de meu cavalo,
Menina, haveis de montar.
Assim foi livre a. infanta
Por Dom Claros de Além-mar.»


Romanceiro, Almeida Garrett




27/07/2008

Rainha e cativa

– «À guerra, à guerra, moirinhos,
Quero uma cristã cativa!
Uns vão pelo mar abaixo,
Outros pela terra acima:
Tragam-ma cristã cativa,
Que é para a nossa rainha.»

Uns vão pelo mar abaixo,
Outros pela terra acima:
Os que foram mar abaixo,
Não encontraram cativa;
Os que foram terra acima:
Tiveram melhor atina,
Deram com o conde Flores
Que vinha de romaria:
Vinha lá de Santiago,
Santiago de Galiza;
Mataram o conde Flores,
A condessa vai cativa.
Mal que o soube a rainha,
Ao caminho lhe saia:

– «Venha embora a minha escrava,
Boa seja a sua vinda!
Aqui lhe entrego estas chaves
Da despensa e da cozinha;
Que me não fio de moiras
Não me dêem feitiçaria.
– «Aceito as chaves, senhora,
Por grande desdita minha.
Ontem condessa jurada,
Hoje moça de cozinha!»

A rainha está pejada,
A escrava também o vinha:
Quis a boa ou má fortuna
Que ambas parissem num dia.
Filho varão teve a escrava,
E uma filha a rainha;
Mas as perras das comadres,
Para ganharem alvíssaras.
Deram à rainha o filho,
À escrava deram a filha.

– «Filha minha da minha alma,
Com que te baptizaria?
As lágrimas de meus olhos
Te sirvam de água bendita.
Chamar-te-ei Branca Rosa,
Branca-flor de Alexandria,
Que assim se chamava dantes
Uma irmã que eu tinha:
Cativaram-na os moiros
Dia de Páscoa florida,
Andando apanhando rosas
Num rosal que meu pai tinha.»

Estas lástimas choradas
Veis-la rainha que ouvia,
E coas lágrimas nos olhos
Muito depressa acudia:
– «Criadas, minhas criadas,
Regalem-me esta cativa;
Que se eu não fora de cama,
Eu é que a serviria».

Mal se levanta a rainha
Vai-se ter com a cativa:
– «Como estás, ó minha escrava,
Como está a tua filha?»
– «A filha boa, senhora,
Eu como mulher parida. »
– «Se estiveras em tua terra,
Que nome lhe chamarias?»
– «Chamara-lhe Branca Rosa,
Branca-flor de Alexandria;
Que assim se chamava dantes
Uma irmã que eu tinha:
Cativaram-na os moiros
Dia de Páscoa florida,
Andando apanhando rosas
Num rosal que meu pai tinha.»

– «Se vira lá tua irmã,
Se tu a conhecerias?»
– «Assim eu a vira nua
Da cintura para cima;
Debaixo do peito esquerdo
Um sinal preto ela tinha.»

– «Ai triste de mim, coitada,
Al triste de mim mofina!»
Mandei buscar uma escrava,
Trazem uma irmã minha!»

Não são passados três dias,
Morre a filha da rainha:
Chorava a condessa Flores
Como quem por sua a tinha;
Porém mais chorava a mãe,
Que o coração lho dizia.
Deram à língua as criadas,
Soube-se o que sucedia:
A mãe, co filho nos braços,
Cuidou morrer de alegria.
Não são passadas três horas,
Uma à outra se dizia:
– «Quem se vira em Portugal,
Terra que Deus bendizia!»

Juntaram muita riqueza
De oiro e de pedraria;
Uma noite abençoada
Fugiram da moiraria.
Foram ter à sua terra,
Terra de Santa Maria;
Meteram-se num mosteiro,
Ambas professam num dia.


Romanceiro, Almeida Garrett


THE LADY AND THE UNICORN TAPESTRY WAll HANGING - A MON SEUL DESIR (One Of The Famous Medieval Tapestries)


09/07/2008

Dona Ausenda





À porta de Dona Ausenda
Está uma erva fadada;
Mulher que ponha a mão nela
Logo se sente pejada.
Foi pôr-lhe a mão Dona Ausenda
Em má hora desgraçada:
Assim que pôs a mão nela,
Logo se sentiu pejada
Vinha seu pai para a mesa,
Veio ela muito apressada
Para lhe dar água às mãos,
Como filha bem criada.
Pôs-lhe ele os olhos direitos,
Ela fez-se mui corada.
– «Que é isso, Dona Ausenda?
Voto a Deus que estás pejada.»
– «Não diga tal, senhor pai,
É da saia mal talhada;
Que eu nunca tive amores
Nem homem me deve nada».

Mandou chamar os dois xastres
Que tinham mais nomeada:
– «Vejam-me esta saia, mestres;
Aonde está ela errada?»
Olharam um para o outro:
– «Esta saia não tem nada;
O erro que ela tem
É a menina estar pejada.»
– «Confessa-te Dona Ausenda,
Que amanhã serás queimada.»
– «Ai triste da minha vida,
Ai triste de mim coitada!
Sem nunca ter tido amores,
Vou a morrer desonrada!»

Foram chamar o ermitão
Da ponte da Aliviada;
Era um fradinho velho
Que o encontraram na estrada.
Mal o frade chega à porta,
Deitou-se à erva fadada
Cortou-a pela raiz,
Na manga a leva guardada,
– «Ajoelhai, Dona Ausenda,
Que a vossa hora é chegada:
Confessai vosso pecado
A Deus e à Virgem sagrada.»
– «Padre, eu nunca tive amores,
Nem homem me deve nada;
Más artes são do demónio
Ver-me eu donzela – e pejada!»
– «Há quanto tempo, senhora,
Vos sentis embaraçada?»
– «Os nove meses faz hoje
Que ali naquela ramada
Na noite de São João
Adormeci descuidada;
Sentia o cheiro das flores
E da erva rociada,
Sentia-me eu tão ditosa,
Tão feliz e regalada,
Que o despertar me deu pena
Quando veio a madrugada.
– «Tomai agora esta erva,
Que é uma erva fadada:
Com a bênção que lhe eu deito
Ficará erva sagrada.»
– «Ai! este cheiro meu padre,
É o que eu senti na ramada.»
Não disse mais Dona Ausenda,
Do sono ficou tomada.
Virtude tinha aquela erva,
Outra virtude fadada:
Mulher pejada que a toque
Logo fica despejada.
Ali, sem mais dor nem pena,
Em boa hora abençoada,
Pare uma linda criança
Bem nascida e bem medrada.
Meteu-a o frade na manga,
Foi-se sem dizer mais nada.

Já desperta Dona Ausenda,
Já se sente aliviada;
De tudo quanto passou
Apenas está lembrada:
Um mau sonho lhe parece
Que a deixou perturbada.
Chamou por suas donzelas,
Chamou por sua criada,
Vestiu suas galas mais ricas,
Sua saia mais bem talhada,
Foi-se encontrar com seu pai
Que estava na alpendurada
Vendo armar a fogueira
Em que a queria queimada:
– «Senhor pai, aqui me tendes
Já disposta e confessada;
Agora a vossa vontade
Seja em mim executada.»
O pai que a mira e remira
Tão esbelta e bem pregada,
O seu corpo tão gentil,
Sua saia tão bem talhada:
– «Que feitiço era este, filha,
Com que estavas embruxada?
Como se desfez o encanto,
Que te vejo tão mudada?»
– «Fosse ele poder de encanto,
Ou condão de erva fadada,
Quebrou-o aquele fradinho
Da ponte da Aliviada.»
– «Metade de quanto eu tenho,
Ametade bem contada,
A esse bom ermitão
Desta hora lhe fica dada.»
Palavras não eram ditas
O ermitão que chegava:
– «Aceito a oferta, bom conde,
Se a metade é bem contada,
Se entra nela Dona Ausenda,
E ma dais por desposada.»
Riram-se todos do frade;
Ele sem dizer mais nada,
Despe o hábito e o capuz,
Ergue a cabeça curvada;
Ficou um gentil mancebo,
Senhor de capa e de espada
Era o conde Dom Ramiro,
Que dali perto morava.
Em boa hora Dona Ausenda
Pôs a mão na erva fadada!

Romanceiro, Almeida Garrett

04/07/2008

Donzela que vai à guerra

- «Já se apregoam as guerras
Entre a França e Aragão:
Ai de mim que já sou velho,
Não nas posso brigar, não!
De sete filhas que tenho
Sem nenhuma ser barão!...»
Responde a filha mais velha
Com toda a resolução:
- «Venham armas e cavalo
Que eu serei filho barão.»
- «Tendes los olhos mui vivos
Filha, conhecer-vos-ão.»
- «Quando passar pela armada
Porei os olhos no chão.»
- «Tendes los ombros mui altos
Filha, conhecer-vos-ão.»
- «Venham armas bem pesadas,
Os ombros abaterão.»
- «Tende-los peitos mui altos
Filha, conhecer-vos-ão.»
- «Venha gibão apertado,
Os peitos encolherão.»
- «Tende’-las mãos pequeninas
Filha conhecer-vos-ão.»
«Venham já guantes de ferro,
E compridas ficarão.»
- «Tende’-los pés delicados,
Filha, conhecer-vos-ão.»
- «Calçarei botas e esporas,
Nunca delas sairão.»
- «Senhor pai, senhora mãe,
Grande dor de coração;
Que os olhos do conde Daros
São de mulher, de homem não.»
- «Convidai-o vós, meu filho,
Para ir convosco ao pomar.
Que se ele mulher for,
À maçã se há-de pegar.
A donzela por discreta,
O camoês foi apanhar.
- «Oh que belos camoeses
Para um homem cheirar!
Lindas maças para damas
Quem lhas poderá levar!)
- «Senhor pai, senhora mãe,
Grande dor de coração;
Que os olhos do conde Daros
São de mulher, de homem não.»
- «Convidai-o vós, meu filho,
Para convosco jantar;
Que, se ele mulher for
No estrado se há-de encruzar.
A donzela, por discreta,
Nos altos se foi sentar.
- «Senhor pai, senhora mãe,
Grande dor de coração;
Que os olhos do conde Daros
São de mulher, de homem não.»
- «Convidai-o vós, meu filho,
Para convosco feirar;
Que, se ele mulher for,
Às fitas se há-de pagar.»
A donzela, por discreta,
Uma adaga foi comprar58.
- «Oh que bela adaga esta
Para com homens brigar!
Lindas fitas para damas:
Quem lhas poderá levar!»
- «Senhor pai, senhora mãe,
Grande dor de coração;
Que os olhos do conde Daros
São de mulher, de homem não.»
- «Convidai-o vós, meu filho,
Para convosco nadar;
Que, se ele mulher for,
O convite há-de escusar.»
A donzela, por discreta,
Começou-se a desnudar...
Traz-lhe o seu pajé uma carta,
Pôs-se a ler, pôs-se a chorar:
- «Novas me chegaram agora,
Novas de grande pesar:
De que minha mãe é morta,
Meu pai se está a finar.
Os sinos da minha terra
Os estou a ouvir dobrar;
E duas irmãs que eu tenho,
Daqui as oiço chorar.»
- «Monta, monta, cavaleiro!
Se me quer acompanhar.»
Chegavam a uns altos paços,
Foram-me logo apear.
- «Senhor pai, trago-lhe um genro,
Se o quiser aceitar;
Foi meu capitão na guerra,
De amores me quis contar...
Se ainda me quer agora,
Com meu pai há-de falar.»

Sete anos andei na guerra
E fiz de filho barão.
Ninguém me conheceu nunca
Senão o meu capitão;
Conheceu-me pelos olhos,
Que por outra coisa não.

Romanceiro, Almeida Garrett




27/06/2008

Reginaldo

– «Reginaldo, Reginaldo,
Pajem del-rei tão querido,
Não sei porquê, Reginaldo
Te chamam o atrevido.»
– «Porque me atrevi, senhora,
A querer o defendido.»
– «Não foras tu tão covarde
Que já dormiras comigo.»
– «Senhora zombais de mim
Porque sou vosso cativo.»
– «Eu não no digo zombando,
Que deveras te lo digo.»
– «Pois quando o quereis, infanta,
Que vá pelo prometido?»
– «Entre las dez e las onze
que el rei não seja sentido.»

Inda não era sol posto,
Reginaldo adormecido:
As dez não eram bem dadas,
Reginaldo já erguido.
Calçou sapato de pano,
Que el rei não fosse ouvido,
Foi-se à câmara da infanta,
Deu-lhe um ai, deu-lhe um gemido.
«Quem suspira a essa porta,
Quem será o atrevido?
– «É Reginaldo, senhora
Que vem pelo prometido.»
– «Levantai-vos minhas aias,
Que assim Deus vos dê marido!
E ide abrir mansinho a porta
Que el-rei não seja sentido.»
Vela o pajem toda a noite...
Por manhã é adormecido;
Chamava o rei que chamava
Que lhe desse o seu vestido:

– «Reginaldo não responde,
alguma tem sucedido!
Ou está morto o meu pajem
Ou grande traição há sido.»
Responderam os vassalos
Que tudo tinham sentido:
– «Morto não é Reginaldo,
de sono estará perdido.»

Vestiu-se el-rei muito à pressa,
E leva um punhal consigo
Vai correndo sala e sala,
Abrindo porta e postigo,
Chega ao camarim da infanta,
Dormiam tão sossegados
Como mulher e marido.
De nada do que se passava
De nada davam sentido.
Acudiram os vassalos,
Que viram a el-rei perdido:
– «Nunca vossa majestade
Mate um homem adormecido.»
Tira el-rei seu punhal de oiro,
Deixa-o entre os dois metido,
O cabo para a princesa.
Para o Reginaldo o bico.
Ia-se a virar o pajem,
Sentiu-se cortar no fio:
– «Acorda já, bela infanta,
Triste sono tens dormido!
Olha o punhal de teu pai
Que entre nós está metido.»
– «Cala-te daí Reginaldo,
Não sejas tão dolorido;
Vai já deitar-se a seus pés,
Que el-rei é bom e sofrido.
Para o mal que temos feito
Não há senão um castigo;

Mas se el-rei mandar matar-me,
Eu hei-de morrer contigo.»
– «Donde vens, ó Reginaldo?»
– «Senhor, de caçar sou vindo.
– «Que é da caça que caçaste,
Reginaldo o atrevido?»
– «Senhor rei, da caça venho,
Mas não a trago comigo;
Que o trazer caça real
A vassalo é defendido.
Só vos trago uma cabeça,
A minha: dai-lhe o castigo.»
– «Tua sentença está dada,
Morrerás por atrevido.»
Vedes hora o bom do rei
Dando voltas ao sentido:
– «Se mato a bela infanta,
Fica o meu reino perdido...
Para matar Reginaldo,
Criei-o de pequenino...
Metê-lo-ei numa torre
Por princípio de castigo.»
– «Dizei-me vós, meus vassalos,
Pois tudo tendes ouvido,
Que mais justiça faremos
Deste pajem atrevido?»
Respondem os condes todos,
E muito bem respondido:
– «Pajem de rei que tal faz,
Tem a cabeça perdido.»

Já o metem numa torre,
Já o vão encarcerar.
Mas ano e dia é passado,
E a sentença por dar.

Veio a mãe de Reginaldo
O seu filho a visitar:
– «Filho, quando te pari
Com tanta dor e pesar,
Era um dia como este,
Teu pai estava a expirar.
Eu coas lágrimas nos olhos,
Filho, te estava a lavar;
Cabelos desta cabeça
Com eles te fui limpar.
E teu pai já na agonia,
Que me estava a encomendar:
Enquanto fosses pequeno
De bom ensino te dar,
E depois que fosses grande
A bom senhor te entregar.
Ai de mim, triste viúva,
Que te não soube criar!
A el-rei te dei por amo,
Que melhor não pude achar:
Tu vais dormir coa Infanta,
De teu senhor natural!
Perdeste a cabeça, filho,
Que el-rei ta manda cortar!...
Ai! meu filho, antes que morras,
Quero ouvir o teu cantar.»
– «Como hei-de eu cantar, mi madre
Se me sinto já finar?»
– «Canta, meu filhinho, canta,
Para haver minha benção,
Que me estou lembrando agora
De teu pai nesta prisão.
Canta-me o que ele cantava
Na noite de São João;
Que tantas vezes mo ouviste
Cantar co meu coração.»

– «Um dia antes do dia
Que é dia de São João,
Me encerraram nestas grades
Para fazer penação.
E aqui estou, pobre coitado,
Metido nesta prisão,
Que não sei quando o sol nasce,
Quando a lua faz serão.»

De suas varandas altas
El-rei estava a escutar;
Já se vai onde a Princesa,
Pela mão a foi buscar:
– «Anda ouvir, ó minha filha,
Este tão lindo cantar,
Que ou são os anjos no céu,
Ou as sereias no mar.»
– «Não são os anjos no céu,
nem as sereias no mar,
mas o triste sem ventura
a quem mandais degolar.»
– «Pois já revogo a sentença
E já o mando soltar;
Prende-o tu, Infanta, agora,
Pois contigo há-de casar.»

Romanceiro, Almeida Garrett




05/06/2008

Bernal-Francês

– «Quem bate à minha porta,
Quem bate, oh! quem 'stá aí?»
– «Sou Bernal-Francês, Senhora;
Vossa porta, amor, abri.»
– «Ai! se é Bernal-Francês,
A porta lhe vou abrir;
Mas se é outro cavaleiro,
Bem se pode daí ir.»

«Ao saltar da minha cama
Eu rompi o meu frandil,
Ao descer da minha escada
Me caiu o meu chapim,
Ao abrir a minha porta
Me apagaram o meu candil...
Pegaram-lhe pela mão
E o levei ao meu jardim,
Fiz-lhe uma cama de rosas,
Travesseiro de jasmins;
Lavei-o em água de flores
E o deitei a par de mim...»

– «Meia-noite já é dada
Sem te voltares para mim;
Que tens tu, amor querido,
Que nunca te vi assim?
Se teme-los meus criados,
Não virão agora aí;
Se teme-los meus irmãos,
Eles não moram aqui;
Se de meu marido temes,
Longes terras foi daqui,
Por má traça o matem moiros,
E a nova me venha a mim!...»
– «Não temo de teus irmãos
Que bem sei que são por mim,
Não temo dos teus criados
Que mais me querem que a ti;
A teu marido não temo
E dele nunca temi...

Teme tu, falsa traidora,
Pois o tens a par de ti!»
– «Ai! se tu és meu marido,
Quero-te mais que a mim,
Oh que sonho, tão mau sonho,
Que eu tive agora aqui!
Ergamo-nos já, marido,
Deixa-me vestir daí.»
– «Cala-te falsa traidora,
Que não me enganas assim.
Deixa tu vir a manhã,
Que eu é que te hei-de vestir:
Dar-te-ei saia de grana
E gibão de carmesim,
Gargantilha de cutelo,
Pois tu o quiseste assim.»
– «Deixa-me ir por aqui abaixo
Coa minha capa a cair,
Vou-me ver a minha dama
Se ainda se lembra de mim.»
– «Tua amada, meu senhor,
É morta, que eu bem a vi:
Os sinais que ela levava;
Eu tos digo agora aqui:
Levava saia de grana
E gibão de carmesim,
Gargantilha de cutelo,
Tudo por amor de ti
Os sinos que correram
Por minhas mãos os corri;
As andas em que a levaram
Eu de negro lhas cobri;
Caixão em que a amortalharam
Era de oiro e marfim;
Os frades que a acompanhavam
Não tinham conto nem fim;
Saíram-lhe sete condes,
Cavaleiros mais de mil;
As donzelas a chorar,
Os pajens iam a rir
Levaram-na a enterrar
À igreja de São Gil.»

Palavras não eram ditas,
Por morto no chão caí;
Passaram-se horas e horas
Quando me tornei a mim.
Fui-me àquela sepultura.
Queria morrer ali:
– «Abre-te, ó campa sagrada
Esconde-me a par de ti!»
Do fundo da cova triste
Ouvi uma voz sair:
– «Vive, vive, cavaleiro,
Vive tu que eu já morri:
Os olhos com que te olhava
De terra já os cobri,
Boca com que te beijava
Já não tem sabor em si,
O cabelo que entrançavas
Jaz caído a par de mim,
Dos braços que te abraçavam
As canas vê-las aqui!
Vive, vive, cavaleiro,
Vive tu, que eu já vivi:
A mulher com quem casares
Chamem-lhe Ana como a mim,
Quando chamares por ela
Hás-de-te lembrar de mim,
Conta-lhe os nossos amores,
Que aprenda na minha fim.
Filhas que dela tiveres
Ensina-as melhor que a mim,
Que se não percam por homens,
Como eu me perdi por ti».


Romanceiro, Almeida Garrett




23/05/2008

Silvaninha

Passeava-se a Silvana
Pelo corredor acima;
Viola de oiro levava,
Oh! Que tão bem a tangia!
Melhor romance fazia.
A cada passo que dava,
Seu padre a acometia:
– «Atreves-te tu, Silvana,
Uma noite a seres minha?»

– «Fora uma, fora duas,
Fora, meu pai, cada dia;
Mas as penas do inferno
Quem por mim as penaria?»
– «Pená-las-ei eu, Silvana,
Que as peno cada dia.»

Foi-se dali a Silvana,
Mui agastada que ia;
Foi-se encontrar com sua madre
Lá no adro da ermida;
– «Que tens tu, minha Silvana,
Que tens tu, ó filha minha?»

– «Oh! Que tal pai não tivera,
Quem não fora sua filha!
Que me acomete de amores,
Ó minha mãe, cada dia.»

– «Vai filha, vai para casa,
Veste uma alva camisa,
Que o cabeção seja de oiro,
As mangas de prata fina:
Deitar-te-ás no meu leito,
E no teu me deitaria...
E há-de valer-nos a Virgem,
A Virgem Santa Maria.»

Lá junto da meia-noite
Seu padre que a acometia...
– «Se eu soubera, Silvana,
Que estavas tão corrompida,
Oh! as penas do inferno
Por ti as não penaria...»

– «Esta não é a Silvana,
É a mãe que a paria;
Também pariu Dom Alardos,
Senhor de cavalaria,
Também pariu a Dom Pedro,
Príncipe da infantaria,
Também pariu a Silvana
Que seu pai acometia.»
– «Oh! mal haja que haja a filha
Que seu padre descobria!»
– «Oh! mal haja que haja o padre
Que sua filha cometia!»

Manda-a meter numa torre
Que nem sol nem lua via:
Dão-lhe a comida por onça
E a água por medida;
Ao cabo de sete anos
Veis a torre que se abria...

Assomou-se a Silvana
A uma ventana mui alta,
Foi encontrar com sua madre
Lavrando numa almofada;

– «Estejais, embora, madre,
Ó madre já da minha alma:
Peço-vos por Deus do céu
Que me deis um jarro de água;
Que se aparta a vida,
Que se me arranca a alma.»

– «Dera-ta eu, filha minha,
Se a tivera salgada,
Que há sete para oito anos
Que por ti sou mal casada.
Se teu padre tem jurado
Pela cruz de sua espada,
Quem primeiro te desse água
Tinha a cabeça cortada».

Assomou-se a Silvana
A outra ventana mais alta,
Foi-se encontrar c´os irmãos
Que estavam jogando as canas:
– «Estejais, embora, irmãos
Meus irmãos já da minha alma:
Peço-vos por Deus do Céu
Que me deis um jarro de água,
Que se me aparta a vida,
Que se me arranca a alma!»

– «Dera-ta eu, irmã minha,
Se a tivesse empeçonhada:
Que nosso pai tem jurado
Pela cruz da sua espada
Quem primeiro te desse água
Tinha a cabeça cortada.»

Assomou-se a Silvana
A outra ventana mais alta,
Foi-se encontrar com seu padre
A jogar a emboscada:

– «Estejais embora, padre,
Padre meu já da minha alma:
Peço-vos por Deus do céu
Que me deis um jarro d’água,
Que se me aparta a vida,
Que se me aparta alma...
E de hoje por diante
Serei vossa namorada.

– «Alevantem-se, meus pagens,
Criados da minha casa,
Uns venham com jarros de oiro,
Outros com jarros de prata;
O primeiro que chegar
Tem a comenda ganhada
O segundo que chegar
Tem a cabeça cortada»
Os criados que chegavam,
Silvaninha que finava
Nos braços da Virgem Santa,
Dos anjos amortalhada!

– «Vai-te embora, Silvaninha,
Silvaninha da minha alma:
Tua alma vai para o céu,
A minha fica culpada.»


Romanceiro, Almeida Garrett





03/05/2008

Dom Aleixo

Nós éramos três irmãs,
Todas três de um igualhar;
Uma ensinava à outra
A coser e a bordar.
A mais pequena de todas
Se foi, por noite, a folgar
Com duas tochas acesas
À porta do laranjal.
Vestiu vestido de pajem
Que lhe ficava a matar,
Seu punhal de oiro na cinta,
Seu borzeguim de alamar.
Foi-se pela rua a baixo,
Tornou acima a voltar:
– «Das três irmãs que aqui moram,
A qual hei-de eu namorar?»
Nós de dentro do balcão,
A rirmos do seu brincar.
As tochas tinha apagado,
Vinha saindo o luar,
Passando junto da porta,
Que os olhos foi a baixar,
Viu estar um ermitão
Assentado no poial.
– «Que fazeis aqui, meu padre,
Que fazeis neste lugar?»
O ermitão, sem responder,
Começou-se a levantar...
Tão alto em demasia,
Alto, alto de pasmar
– «Se tu és coisa má,
Eu te quero esconjurar,
Ou se és alma que anda em penas
Te farei encomendar.»
– «Eu não sou a coisa má
Que tenhas de esconjurar;
Também não sou alma em penas
Para tu me encomendar:
Sou a alma de Dom Aleixo,
Que aviso te venho dar:
Sete te estão esperando
Na esquina, àquele portal,
E juram por Deus sagrado
Que a vida te hão-de tirar.»

– «Pois eu por esse lhe juro,
E pela virgem Maria
Que outros sete que eles foram,
Eu atrás não tornaria.
Oh lá, oh lá, cavaleiros,
Não levem de covardia,
Puxem por suas espadas,
Que eu puxarei pela minha.
O que não trouxer espada,
Eu esta lhe emprestaria,
Que eu cá com meu punhal de oiro
Defenderei minha vida».

Palavras não eram ditas,
O ermitão se descobria;
Foi a tomá-la nos braços
Com sobeja demasia...
Ela com seu punhal de oiro,
Que na cintura trazia,
Tal golpe lhe deu nos peitos,
Que ali por morto caía.
– «Quem te matou, D. Aleixo,
Quem te matou, minha vida?»
– «Mataste-me tu, senhora,
Que outro ninguém não podia.»
Ergue-te, Dona Maria,
Bem calçada e mal vestida,
Agora, por mais que chores
Tua alma fica perdida.

Romanceiro, Almeida Garrett





26/04/2008

Conde da Alemanha


Já lá vem o sol na serra,
Já lá vem o claro dia,
E inda o conde da Alemanha
Com a rainha dormia.
Não o sabe homem nascido
De quantos na corte havia;
Só o sabia a infanta,
A infanta sua filha.
– «Não nas chegue eu a romper
Mangas da minha camisa,
Se em vindo meu pai da caça,
Eu logo lho não diria.»
– «Cal'-te, cal'-te, lá infanta,
Não digas tal, minha filha,
Que o conde da Alemanha
De oiro te vestiria.»
– «Não quero vestidos de oiro;
Mau fogo em quem nos vestira!
Padrasto com meu pai vivo;
Nunca eu o consentiria.»
Palavras não eram ditas,
El-rei que à porta batia.
– «Deus venha co senhor pai
E o traga na sua guia!
Tenho para lhe contar
Um conto de maravilha.
Estando eu no meu tear
Seda amarela tecia,
Veio o conde da Alemanha
Três fios dela me tira...»
– «Cal'-te daí, minha filha,
Ninguém te oiça dizer tal:
Que o conde da Alemanha
É menino, quer brincar».
– «Arrenego dos seus brincos
Mais do seu negro folgar!
Que me tomou nos seus braços,
À cama me quis levar.»
– «Cal'te já minha filha,
Ninguém te oiça mais falar;
Que em antes que o sol se ponha
Vai o conde a degolar.»
Veis-lo conde da Alemanha,
Veis-lo vai a degolar;
Ao rabo do seu cavalo
Lá o levam a arrastar.
– «Venha cá, senhora mãe,
Venha ao mirante folgar,
Veja um conde tão formoso
Que aí vai a degolar.»
– «Mal haja, filha, o meu leite,
Mais quem to deu de mamar,
Que a um conde tão bonito
A morte foste causar».
– «Cal'te daí, minha mãe,
Ninguém lhe oiça dizer tal,
Que a morte que o Conde leva
Não lha faça eu levar.»


Romanceiro, Almeida Garrett