08/02/2008

O Homem e sua Mulher / O Galo e as 50 Galinhas

Na história intitulada O conselheiro, quando o homem deu uma risada ao ouvir o segundo conselho dado pelo burro ao boi, sua mulher (que não conhecia a linguagem dos animais) ficou perplexa e curiosa e quis saber por que ele riu. O homem não podia revelar que conhecia a linguagem dos animais. Respondeu à mulher que esse riso envolvia um segredo que lhe era proibido divulgar sob pena de morte. - Quero que me contes esse segredo, mesmo que tenhas que morrer insistiu a mulher. Como o homem amava sua mulher e nada lhe recusava, consentiu em revelar-lhe o segredo e perder a vida. Mandou, pois, vir o cádi e as testemunhas para deixar consignadas oficialmente suas últimas vontades. E mandou vir seus parentes e os de sua mulher para despedir-se deles. Todos aconselharam à mulher desistir de seu propósito e não empurrar para o túmulo seu marido e pai de seus filhos. Ela, porém, teimou, repetindo: "Quero conhecer o segredo, mesmo que ele tenha que morrer”.Toda essa movimentação despertou a atenção do cão e dos animais da capoeira. O cão censurou o galo por estar cantando quando o amo deles todos estava para morrer. O galo perguntou: "E por que nosso amo está para morrer?”
O cão contou-lhe a história. Comentou o galo: "Por Alá, nosso amo é muito tolo. Eu tenho cinquenta esposas. Agrado a uma; desagrado a outra; mas não permito nenhuma rebelião entre elas. E ele tem apenas uma esposa e não consegue controlá-la. O que ele deve fazer é apanhar umas varas verdes nas amoreiras e bater nela até que se arrependa e não mais lhe exija nada." O homem ouviu o que o galo disse ao cão, pensou e decidiu seguir o conselho do galo. Cortou umas varas das amoreiras, escondeu-as no quarto do casal e chamou a mulher: "Vem comigo até nossa alcova para que te conte o segredo e me despeça de ti para sempre”.Quando a mulher entrou no quarto, o homem trancou a porta, apanhou as varas e bateu nela até que ficou cega de dor e gritou: ‘ Arrependo-me. " E beijou lhe as mãos e os pés. Em seguida, saíram juntos em paz para iniciar uma nova vida. E os parentes e os vizinhos se regozijaram por eles.





O Conselheiro




Contam que certo lavrador possuía um burro que o repouso engordara e um boi que o trabalho abatera. Um dia, o boi queixou-se ao burro e perguntou-lhe: "Não terás, ó irmão, algum conselho que me salve desta dura labuta?" O burro respondeu: "Finge-te de doente e não comas tua ração. Vendo-te assim, nosso amo não te levará para lavrar o campo e poderás descansar." Dizem que o lavrador entendia a linguagem dos animais e compreendeu o que eles conversaram. Na manhã seguinte, viu que o boi não comera sua ração. Deixou-o e levou o burro em seu lugar. O burro foi obrigado a puxar o arado o dia todo, e quase morreu de cansaço. E lamentou o conselho que dera ao boi. Quando voltou à noite, perguntou-lhe o boi: "Como vais, querido irmão?" Respondeu o burro: "Vou muito bem. Gostei da luz do sol e da alegria dos campos. Mas ouvi algo que me fez estremecer por tua causa. Ouvi nosso amo dizer: `Se o boi continuar doente, deveremos matá-lo para não perdermos sua carne.' Minha opinião é que comas tua ração e voltes para tua tarefa a fim de evitar tamanho infortúnio." O boi concordou e devorou toda a sua ração.O lavrador estava ouvindo, e riu.



Desapego

Um cidadão fez voto de desapego e pobreza. Dispôs de todos os seus bens e propriedades, reservou para si apenas duas tangas, e saiu Índia afora em busca de todos os sábios, medindo na verdade o desapego de cada um. Levava apenas uma tanga no corpo e outra para troca, sempre necessário.
Estava convencido de não encontrar quem ganhasse de si em despojamento, quando soube de um velho guru, bem ao norte, aos pés do Himalaia. Tomando as direcções, parte ao encontro do velho sábio.
Quando lá chegou, tristeza e decepção! Encontrou terras bem cuidadas, um palácio faustoso, muita riqueza, muita pompa. Indignado, procura pelo guru. Um velho servo lhe diz que ele está em uma ala dos magníficos jardins com seus discípulos, estudando desapego. Como era costume da casa Ter gentileza para com os hóspedes, o servo convida o andarilho para o banho, repouso e refeição, antes de se dirigir à presença do sábio.
Achando tudo muito estranho, o desapegado aceita a sugestão. Toma um bom banho, lava sua tanga usada, coloca-a para secar no quarto e sai em busca do guru. Completamente injuriado, queria contestar e desmascarar aquele que julgava um impostor, pois em sua concepção desapego não combinava com posses. Aproxima-se do grupo, que ouve embevecido as palavras do mestre e fica ruminando um ardil para atacar o guru, quando, correndo feito um doido, chega um dos serviçais gritando:
- Mestre, mestre, o palácio está pegando fogo, um incêndio tomou conta de tudo. O senhor está perdendo uma fortuna! O sábio, impassível, continua sua prédica. O desapegado viajante das duas tangas dá um salto e sai em desabalada carreira, gritando:
- Minha tanga, minha tanga, o fogo está destruindo minha tanga...






06/02/2008

Lenda da Serra da Estrela




Era uma vez um pastor que vivia com o seu rebanho numa alta serra do centro de Portugal. Como todos os pastores, fazia da solidão uma amiga. A companhia da natureza e dos animais bastavam-lhe. Há muito tempo que tinha trocado a aldeia pelos altos e grandes prados, onde sempre se tinha sentido melhor. De dia, corria e brincava com os animais e, quando já estava cansado, então via apenas. Observava a vastidão e o colorido de uma paisagem sempre a mudar,
Já lhe conhecia bem as maneiras, os sons e os cheiros. E à noite, recolhido o rebanho ainda lhe sobrava tempo para falar de tudo o que lhe apetecia com a sua grande amiga. Era mesmo grande aquela estrela que se erguia imponente e luminosa bem acima do alto da serra, rodeada por milhares de outras mais pequenas. Era a sua confidente de todas as noites. Ouvia-o sem nunca se aborrecer. E ele voltava sempre à procura daqueles momentos mágicos em que encontrava paz e entusiasmo para recomeçar um novo dia. Certa vez, chegou aos ouvidos do Rei que nas suas terras havia um pastor que falava com as estrelas e logo, por curiosidade ou inveja, o mandou chamar à sua presença, propondo-lhe que trocasse a estrela falante por uma grande riqueza. Afinal de contas, não era qualquer rei que se podia gabar de falar com uma estrela.
O pastor disse-lhe então que não trocaria a sua amiga por riqueza alguma deste mundo. Antes ser pobre e continuar feliz.
Desapontado, mas compreendendo as suas razões, o rei, mandou-o em paz.
Quando chegou à cabana no alto da serra, mal anoiteceu, foi ter com a sua amiga estrela e, dessa vez, foi ela a confessar-lhe os seus receios. Entoando uma doce melodia, disse-lhe que, por momentos, chegou a pensar que ele a tivesse trocado pelo dinheiro do poderoso rei. Foi a vez do pastor a sossegar, dizendo-lhe que a sua amizade era para ele a mais preciosa das coisas e, em alta e profética voz, deu o seu nome àquela que era também a sua serra: Serra da Estrela.
Ainda hoje se diz que na Serra, uma estrela diferente das outras brilha à procura do seu pastor.


05/02/2008

Crono


Vencedor de seu pai Urano, Crono se tornou o senhor todo-poderoso do universo. Em vez de beneficiar seus parentes, libertando os irmãos, preferiu reinar sozinho e os deixou encerrados nas profundezas da terra. Sua mãe, furiosa, predisse seu fim:
"Você também, filho meu, será deposto do trono por um dos seus filhos!"
Temendo a realização dessa profecia, Crono fez como o pai: arranjou um jeito de eliminar os filhos que lhe dava sua esposa Réia. Cada vez que nascia um, ele o devorava. Isso ocorreu com cinco recém-nascidos.
A mãe deles, desesperada, foi ver Gaia:
"Querida avó, preciso da sua ajuda. Seu filho faz desaparecer todos os filhos que concebo. Um sexto acaba de nascer. E um menino. Ajude-me a salvá-lo!"
"Você precisa ser mais astuciosa do que ele, minha filha", respondeu-lhe maliciosamente Gaia. "Enrole uma pedra numa coberta e entregue a Crono, no lugar do bebé. Ele nem vai desconfiar e vai engolir a pedra, como engoliu os outros filhos!"
A profecia de Gaia não tardaria a se realizar: o bebê que elas acabavam de salvar era Zeus. O jovem deus logo tomou do pai o poder absoluto sobre o mundo...

Contos e Lendas da Mitologia Grega


04/02/2008

Urano e Gaia




Da união deles nasceram primeiro seis meninos e seis meninas, os Titãs e as Titânides, todos de natureza divina, como seus pais. Eles também tiveram filhos.
Um deles, Hiperíon, uniu-se à sua irmã Téia, que pôs no mundo Hélio, o Sol, e Selene, a Lua, além de Eo, a Aurora. Outro, Jápeto, casou-se com Clímene, uma filha de Oceano. Ela lhe deu quatro filhos, entre eles Prometeu. O mais moço dos Titãs, Crono, logo, logo ia dar o que falar.
A descendência de Urano e Gaia não parou nesses filhos. Conceberam ainda seres monstruosos como os Ciclopes, que só tinham um olho, bem redondo, no meio da testa, e os Cem-Braços, monstros gigantescos e violentos. Os coitados viviam no Tártaro, uma região escondida nas profundezas da terra. Nenhum deles podia ver a luz do dia, porque seu pai os proibia de sair.
Gaia, a mãe, quis libertá-los. Ela apelou para seus primeiros filhos, os Titãs, mas todos se recusaram a ajudá-la, excepto Crono. Os dois arquitectaram juntos um plano que deveria acabar com o poder tirânico de Urano.
Certa noite, guiado pela mãe, Crono entrou no quarto dos pais. Estava muito escuro lá, mas o luar lhe permitiu ver seu pai, que roncava tranqüilo. Com um golpe de foice, cortou-lhe os testículos. Urano, mutilado, berrou de raiva, enquanto Gaia dava gritos de alegria. Esse atentado punha fim a uma autoridade que ela estava cansada de suportar, e a inútil descendência deles parava aí — ou quase... Algumas gotas de sangue da ferida de Urano caíram na terra e a fecundaram, dando origem a demónios, as Erínias,1 a outros monstros, os Gigantes, e às ninfas,2 as Melíades.


Contos e Lendas da Mitologia Grega



1 Divindades infernais. Com seu corpo alado, sua cabeleira de serpentes e munidas de tochas e chicotes, atormentam suas vítimas, levando-as à loucura.
2 Deusas que vivem nos bosques, nas montanhas, nos rios, no mar.


03/02/2008

O vinho de Maomé


Certo dia colocaram vinho, este divino suco da uva, dentro de uma magnífica taça de ouro que estava a mesa de Maomé.
- Oh, que honra! - pensou o vinho - que glória para mim estar à mesa de Maomé!
Porém, subitamente ocorreu-lhe outro pensamento e ele disse consigo mesmo:
- Mas que honra é essa, e que glória? Por que estou tão satisfeito? Nada disso é verdade. Escute, chegou a hora de minha morte. Dentro em breve deixarei minha linda casa, esta magnífica taça de ouro, para entrar na escura caverna do corpo humano.
E uma vez lá dentro, meu suco doce e perfumado será transformado em água.
Oh, céus! - gritou desesperado - façam justiça, vinguem-me por tal ofensa! Não é justo que me desprezem assim! Júpiter, pai Júpiter - orou o vinho - mesmo que esta terra produza as melhores e mais lindas uvas do mundo, fazei com que elas não se transformem em vinho!
Júpiter ouviu a prece do vinho e decidiu atendê-la.
Quando Maomé terminou de beber o conteúdo da taça de ouro, Júpiter fez com que todos os vapores do vinho lhe subissem à cabeça e ele ficou embriagado. E enquanto estava sob o efeito do vinho, Maomé comportou-se como um louco, fazendo bobagens uma atrás da outra. Quando finalmente ficou novamente sóbrio, baixou uma lei proibindo a seus seguidores que tomassem vinho.
Desse dia em diante, a vinha, com suas gostosas frutas, foi deixada em paz.






01/02/2008

A Águia e a Coreixa


A Águia tomou nas unhas um Cágado para cevar-se, e trazendo-o pelo ar, e dando-lhe picadas, não podia matá-lo, porque estava mui recolhido em sua concha. Embravecia-se muito com isso a Águia, sem lhe prestar, quando chega a Coreixa, e diz:
- A caça que tomastes é em extremo boa, mas não podereis gozar dela senão por manha.
Disse a Águia que lhe ensinasse a manha e partiria com ela da caça. A Coreixa o fez dizendo:
- Subi-vos sobre as nuvens, e de lá deixai cair o Cágado sobre alguma laje, quebrará a concha e ficar-nos-á a carne descoberta.
A Águia assim o fez; sucedendo como queriam, comeram ambas da caça.


A raposa e a cegonha



Quis a raposa matreira
Que excede a todas na ronha.
Lá por piques de outro tempo,
Pregar um ópio à cegonha.

Topando-a, lhe diz: "Comadre,
Tenho amanhã belas migas,
E eu nada como com gosto
Sem convidar as amigas.

De lá ir jantar comigo
Quero que tenha a bondade:
Vá em jejum porque pode
Tirar-lhe o almoço a vontade".

Agradeceu-lhe a cegonha
Uma oferenda tão singela,
E contava que teria
Uma grande fartadela.

Ao sítio aprazado foi.
Era meio-dia em ponto.
E com efeito a raposa
Já tinha o banquete pronto.

Espalhadas em um lajedo
Pôs as migas do jantar
E à cegonha diz: "Comadre,
Aqui as tenho a esfriar.

Creio que são muito boas, —
Sansfaçon, — vamos a elas".
Eis logo chupa metade
Nas primeiras lambidelas.

No longo bico a cegonha
Nada podia apanhar;
E a raposa em ar de mofa,
Mamou inteiro o jantar.

Ficando morta de fome,
Não disse nada a cegonha;
Mas logo jurou vingar-se
Daquela pouca vergonha.

A dar-me o gosto amanhã
D'ir também jantar comigo".

A raposa lambisqueira
Na cegonha se fiou,
E ao convite, às horas dadas,
No outro dia não faltou.

Uma botija com papas
Pronta a cegonha lhe tinha;
E diz-lhe: "Sem cerimônia,
A elas, comadre minha".

Já pelo estreito gargalo
Comendo, o bico metia;
E a esperta só lambiscava
O que à cegonha caía.

Ela, depois de estar farta,
Lhe disse: "Prezada amiga,
Demos mil graças ao céu
Por nos encher a barriga".

A raposa conhecendo
A vingança da cegonha,
Safou-se de orelha baixa.
Com mais fome que vergonha.

Enganadores nocivos,
Aprendei esta lição.
Tramas com tramas se pagam.
Que é pena de Talião.

Se quase sempre os que iludem
Sem que os iludam não passam.
Nunca ninguém faça aos outros
O que não quer que lhe façam.

Curvo Semedo (Trad.)

31/01/2008

João Pequenito

Um homem pobre, que tinha três filhos, sugeriu-lhes que fossem correr mundo em busca de fortuna, pois ele não lhes podia dar nada. Os filhos partiram, chegando à corte de um rei turco muito malvado. O rei os recebeu no palácio e os botou para dormirem na cama de suas três filhas, cobertos por uma carapuça, para que fossem mortos durante a noite. O irmão mais jovem, João Pequenito, levantou-se à noite, retirou a carapuça da cabeça dos rapazes e colocou-as nas cabeças das filhas do rei, fugindo do palácio com os irmãos. Quando já estavam muito longe, João disse aos outros dois que eles deveriam separar-se. Pequenito foi ao palácio de um rei, oferecendo-se para ser seu criado, sendo nomeado jardineiro. Sendo um ótimo empregado, o rei o estimava mais do que aos outros criados, que começaram a ter muita inveja de João. Tanta que foram dizer ao rei que Pequenito dissera ser capaz de ir roubar uma bolsa de ouro que ficava à cabeceira do rei turco, o malvado. Ao ser interrogado pelo rei, o jovem disse que iria, sem problemas. Chegando ao palácio do turco, subiu pela parede, entrou pela janela, tirou a bolsa debaixo do travesseiro enquanto o rei malvado dormia e fugiu. Porém, o papagaio começou a gritar e o malvado acordou. Como joão já fosse muito longe, o turco perguntou da janela se ele voltaria, ao que o jovem respondeu que sim. Depois de alguns dias, os invejosos foram dizer ao rei que o Pequenito afirmara ser capaz de roubar a coberta de campainhas do turco. Ao ser questionado, o jardineiro disse que iria. A situação repetiu-se como da primeira vez e João levou a coberta ao rei, que ficou cada vez mais encantado com o rapaz. Então, os invejosos falaram que o Pequenito disse que pegaria o papagaio do turco. O jovem, sem nenhuma dúvida, foi em busca do papagaio. Finalmente, os invejosos disseram que, desta vez, João furtaria o rei turco. O rei, então, lhe garantiu que se ele trouxesse o turco, casaria com a princesa sua filha. João pediu um exército e alguns navios e partiu. Foi ao palácio do malvado, envolveu-o nas roupas de cama, desceu com ele pela janela e lá foi à frente de seu exército, levando o turco ao seu amo. Pequenito casou com a princesa e mandou buscar seus pais e irmãos para viverem consigo na corte.

Pequena Sereia



BEM no fundo do mar a água é azul como as folhas das centáureas, pura como o cristal mais transparente, mas tão transparente, mas tão profunda que seria inútil jogar ali a âncora e, para medi-la, seria preciso colocar uma quantidade enorme de torres de igreja umas sobre as outras a fim de verificar a distância que vai do fundo à superfície.
Lá é a morada do povo do mar. Mas não pensem que esse fundo se compõe somente de areia branca; não, ali crescem plantas e árvores estranhas e tão leves, que o menor movimento da água faz com que elas se agitem, como se estivessem vivas. Todos os peixes, grandes e pequenos, vão e vêm entre seus galhos, assim como os pássaros o fazem no ar.
No lugar mais profundo está o castelo do rei do mar, cujos muros são de coral, as janelas de âmbar amarelo e o teto é feito de conchas que se abrem e fecham para receber a água e para despejá-la. Cada uma dessas conchas encerra pérolas brilhantes e a menor delas honraria a mais bela coroa de qualquer rainha.
Há muitos anos que o rei do mar estava viúvo e sua velha mãe dirigia a casa. Era uma mulher espiritual, mas tão orgulhosa de sua linhagem, que usava doze ostras na cauda, enquanto que as outras grandes personagens não usavam senão seis.
Ela merecia elogios, pelos cuidados que tinha para com as suas netas bem-amadas, todas princesas encantadoras.
No entanto, a mais moça era ainda mais linda do que as outras; sua pele era suave e transparente como uma folha de rosa, seus olhos eram azuis como um lago profundo seus longos cabelos louros como o trigo; todavia, não possuía pés: assim como suas irmãs, seu corpo terminava por uma cauda de peixe.
Durante o dia inteiro, as crianças brincavam nas grandes salas do castelo, onde flores viçosas apareciam entre os muros. Assim que se abriam as janelas de âmbar amarelo, os peixes entravam como fazem os pássaros connosco e comiam na mão das pequenas princesas, que os acariciavam.
Em frente ao castelo havia um grande jardim com árvores de um azul profundo e um vermelho de fogo. Os frutos brilhavam como se fossem de ouro, e as flores, agitando sem cessar suas hastes e suas folhas, assemelhavam-se a pequenas chamas.
O solo se compunha de areia branca e fina, ornado aqui e ali de delicadas conchas e uma luminosidade azul maravilhosa, que se espalhava por todos os lados, dava a impressão de se estar no ar, no meio do azul do céu, ao invés de se estar no mar. Nos dias de calmaria, podia-se perceber a, luz do sol, semelhante a uma pequena flor cor de púrpura que despejasse a luz de sua corola.
Cada uma das princesas tinha seu terreno no jardim, o qual ela cultivava a seu belo prazer.
Uma lhe dava a forma de uma baleia, a outra, a de uma sereia; mas a menor fez o seu em forma de sol e plantou nele flores rubras como ele.
Era uma jovem estranha, silenciosa e pensativa.
Enquanto suas irmãs brincavam com diferentes objectos provenientes dos navios naufragados, ela se divertia olhando para uma estatueta de mármore branco, representando um rapaz encantador, colocada sob um chorão magnífico, cor-de-rosa, que a cobria de uma sombra cor de violeta.
Seu maior prazer era ouvir as estórias sobre o mundo em que viviam os homens. Todos os dias pedia à avó que lhe falasse dos objectos, das cidades, dos homens e dos animais.
Admirava-se, principalmente, de que na terra as flores exalassem um perfume que não havia sob a água do mar e de que as florestas fossem verdes. Enquanto suas irmãs brincavam com diferentes objectos provenientes dos navios naufragados... objectos, das cidades, dos homens e dos animais.
Não podia imaginar como é que os peixes cantassem e saltitassem entre as árvores. A avó os chamava de pássaros: assim mesmo, ela não compreendia.
“Quando você completar quinze anos”, disse a avó, “eu lhe darei permissão para subir à superfície do mar e de sentar-se ao luar sobre os rochedos, para ver os grandes navios passarem e para tomar conhecimento das florestas e das cidades. Você verá um mundo todo novo”.
No ano seguinte a primeira das jovens completaria quinze anos, e, como não havia senão um ano de diferença entre cada uma delas, a mais moça teria que esperar ainda cinco anos para subir à superfície do mar.
Mas uma prometia sempre à outra contar tudo, o que visse na sua primeira saída, pois o que a avo contava ainda era pouco e havia tantas coisas que elas ainda desejavam saber!
A mais curiosa era realmente a mais jovem; muitas vezes, durante a noite, ela ficava perto da janela aberta, tentando perceber os ruídos dos peixes que batiam suas nadadeiras e suas caudas. Olhava bem para o alto e conseguia ver as estrelas e a lua, mas elas lhe pareciam muito pálidas e muito aumentadas pelo efeito da água.
Assim que alguma nuvem as escurecia, ela sabia ser uma baleia ou um navio carregado de homens, que nadavam sobre ela. Certamente esses homens nem pensavam em que uma encantadora sereiazinha estendia suas mãos brancas para o casco do navio que fendia as águas.
Chegou finalmente o dia em que a princesa mais velha completou quinze anos; então ela subiu à superfície do mar, a fim de descobrir o mundo; o desconhecido. Ao voltar, estava cheia de coisas para contar. Oh! disse ela, é delicioso ver, estendida ao luar sobre um banco de areia, no meio do mar calmo, as praias da grande cidade, onde as luzes brilham como se fossem centenas de estrelas; ouvir a música harmoniosa, o som dos sinos das igrejas, e todo aquele barulho de homens e de seus carros!.
Oh! como sua irmãzinha ouvia atentamente!
Todas as noites, em frente da janela aberta, olhando através da enorme massa de água, ela sonhava longamente com a grande cidade, da qual a irmã mais velha falara com tanto entusiasmo, com seus ruídos e suas luzes, seus habitantes e seus edifícios e pensava ouvir os sinos tocarem bem perto dela.
No ano seguinte, a segunda obteve a permissão para subir. Muito contente, ela emergiu a cabeça no momento em que o céu tocava o horizonte e a magnificência desse espectáculo levou-a ao auge da alegria.
O céu inteiro, disse ela ao voltar, parecia ser de ouro e a beleza das nuvens estava além de tudo aquilo que podemos imaginar. Passavam à minha frente, vermelhas e roxas e no meio delas voava em direcção ao sol, como se fosse um longo véu branco, um bando de cisnes selvagens. Eu também quis nadar na direcção do grande astro vermelho; mas de repente ele desapareceu e também a luz rosada que havia em cima das águas e as nuvens desapareceram.
Depois chegou a vez da terceira irmã. Era a mais imprudente, e assim, subiu pela embocadura do rio e foi seguindo o seu curso. Avistou admiráveis colinas plantadas de vinhedos e árvores frutíferas, castelos e fazendas situados no meio de florestas soberbas e imensas.
Ouviu o canto dos pássaros e o calor do sol obrigou-a a mergulhar muitas vezes na água, a fim de refrescar-se.
No meio de uma baía, ela viu uma multidão de seres humanos que brincavam e se banhavam. Quis brincar com eles, mas todos se assustaram e um animal preto – era um cão – começou a latir com tanta força, que ela ficou com muito medo e fugiu para o mar alto.
A sereia jamais pôde esquecer as soberbas florestas, as colinas verdes e as gentis crianças que sabiam nadar, embora não possuíssem cauda de peixe.
A quarta irmã, que era menos afoita, gostou mais de ficar no meio do mar selvagem, onde a vista se perdia ao longe e onde o céu se arredondava em volta da água, como um grande sino de vidro. Percebia os navios ao longe; os delfins brincalhões davam cambalhotas e as baleias colossais lançavam jatos de água para o ar.
E o dia da quinta irmã chegou; estavam exactamente no inverno: e assim ela viu o que as outras não puderam ver. O mar perdera sua cor azul e adquirira um tom esverdeado e por todo lado navegavam, com formas estranhas e brilhantes como diamantes, montanhas de gelo. Cada uma delas, dizia a viajante, parece-se com uma pérola maior do que as torres da Igreja em que os homens são batizados.
Ela se sentou sobre uma das maiores e todos os navegadores fugiam daquele lugar, onde ela abandonava seus cabelos ao sabor do vento.
À noite, uma tempestade cobriu o céu de nuvens.
Os relâmpagos brilhavam, o trovão ribombava, enquanto que o mar, negro e agitado, elevava os grandes pedaços de gelo, fazendo-os brilhar ao clarão dos relâmpagos.
O terror espalhou-se por todos os lados; mas ela, tranquilamente sentada sobre a sua montanha de gelo, viu a tempestade cair em ziguezague sobre a água revolta.
A primeira vez que uma das irmãs subia à superfície, ficava sempre encantada com tudo o que via; mas depois de crescida, quando podia subir à vontade, o encanto desaparecia, ela dizia que lá em baixo era tudo melhor, que nada valia o seu lar. E renunciava bem depressa às suas viagens por lugares distantes.
Muitas vezes, as cinco irmãs, de mãos dadas, subiam à superfície do mar. Possuíam vozes encantadoras como nenhuma criatura humana poderia possuir, e, se por acaso algum navio cruzava o seu caminho, elas nadavam até ele entoando cantos magníficos sobre a beleza do fundo do mar, convidando os marinheiros a visitá-las.
Mas estes não podiam compreender as palavras das sereias e nunca viram as maravilhas que elas descreviam; e assim, quando o navio afundava, os homens se afogavam e somente seus cadáveres chegavam até o castelo do rei do mar.
Durante a ausência de suas cinco irmãs, a mais jovem ficava ao pé da janela, seguia-as com o olhar e tinha vontade de chorar. Mas uma sereia não chora, e assim, seu coração sofre muito mais.
– Oh! se eu tivesse quinze anos! – dizia ela: – Sinto desde já que amarei muito o mundo lá em cima e os homens que ali moram.
E chegou o dia em que ela também completou quinze anos.
“Você vai partir”, disse-lhe a avó e velha rainha: “venha, para que eu faça a sua toillete, assim como fiz a suas irmãs.”
E ela colocou em seus cabelos uma coroa de lírios brancos, em que cada folha era a metade de uma pérola; depois prendeu à cauda da princesa oito grandes ostras, para designar a sua linhagem elevada.
– Como elas me machucam!, – disse a sereiazinha.
– Quando se quer ser elegante é preciso sofrer um pouco, – replicou a velha rainha.
Entretanto, a sereiazinha teria dispensado todos esses luxos e a pesada coroa que levava na cabeça. Gostava muito mais das flores vermelhas de seu jardim; todavia, não ousava fazer observações.
“Adeus!”, disse ela; e, ligeira com uma bola de sabão, atravessou a água.
Assim que sua cabeça apareceu na superfície da água, o sol acabava de se deitar; mas as nuvens brilhavam ainda, como rosas de ouro e a estrela vespertina iluminava o meio do céu. O ar estava doce e fresco e o mar aprazível.
Perto da sereiazinha estava um navio de três mastros; não levava mais do que uma vela, por causa da calmaria e os marujos estavam sentados nas vergas e no cordame. A música e as canções ressoavam sem cessar e, a aproximação da noite, tudo ficou iluminado por cem lanternas penduradas por toda a parte: podia-se acreditar estar vendo as bandeiras de todas as nações.
A sereiazinha nadou até a janela do grande aposento, e, de cada vez que se alçava, percebia através dos vidros transparentes uma quantidade de homens magnificamente trajados. O mais belo deles era um jovem príncipe muito elegante, de longos cabelos negros, com a idade ao redor dos dezesseis anos e era para celebrar sua festa que todos aqueles preparativos estavam sendo realizados.
Os marujos dançavam no convés, e quando o jovem príncipe ali apareceu, cem tiros ecoaram no ar, desprendendo uma luz como aquela do dia.
A sereiazinha mergulhou imediatamente; mas assim que reapareceu, todas as estrelas do céu pareceram cair sobre ela. Ela nunca vira fogos de artifício; dois grandes sóis de fogo rodavam no ar, e todo o mar, puro e calmo, brilhava. Sobre o navio podia-se vislumbrar cada cordinha e melhor ainda, os homens. Oh! como o jovem príncipe era lindo! Ele apertava a mão de todos, falava e sorria a cada um, enquanto a música enviava para o ar os seus sons harmoniosos.
Já era muito tarde, mas a sereiazinha não se cansava de admirar o navio e o belo príncipe. As lanternas não brilhavam mais e os tiros de canhão já haviam cessado; todas as velas tinham sido içadas e o veleiro se afastava a grande velocidade. A princesa o seguiu, sem desviar os olhos das janelas.
Mas logo a seguir o mar começou a agitar-se; as ondas aumentaram e grandes nuvens negras se agrupavam no céu. À distância brilhavam os relâmpagos e uma terrível tempestade se preparava. O veleiro se balançava sobre a água do mar impetuoso, numa marcha rápida. As vagas rolavam sobre ele, tão altas como montanhas.
A sereiazinha continuou com a sua viagem acidentada; divertia-se bastante. Mas assim que o veleiro, sofrendo as conseqüências da tempestade, começou a estalar e a adernar, ela compreendeu o perigo e teve que tomar cuidado para não ferir-se nos pedaços de madeira que vinham até ela.
Por um instante fez-se uma tal escuridão, que não se avistava absolutamente nada; outras vezes, os relâmpagos tornavam visíveis os menores detalhes da cena.
A agitação tomara conta do pessoal do navio; mais uma sacudidela! ouviu-se um grande barulho e o barco partiu-se ao meio; e a sereiazinha viu o príncipe mergulhar no mar profundo.
Louca de alegria, ela imaginou que ele fosse visitar a sua morada; mas depois lembrou-se de que os homens não podem viver dentro da água e que, em conseqüência, ele chegaria morto ao castelo de seu pai.
Então, para salvá-lo, ela atravessou a nado a distância que a separava do príncipe, passando pelos destroços do navio, arriscando-se a se machucar, mergulhou profundamente nas águas por várias vezes e assim pôde chegar até o jovem príncipe, justamente no instante em que suas forças começavam a abandoná-lo e quando ele já fechava os olhos, a ponto de estar para morrer.
A sereiazinha levou para o alto das águas, sustentou sua cabeça fora delas, depois abandonou-se com ele ao capricho das ondas.
Na manhã seguinte o bom tempo voltou, mas já quase nada restava do veleiro. Um sol vermelho, de raios penetrantes, parecia chamar à vida o jovem príncipe, mas seu olhos continuavam cerrados. A sereiazinha depositou um beijo em sua fronte e ergueu seus cabelos molhados.
Achou-o parecido com a sua estátua de mármore do jardim e rezou pela sua saúde. Passou em frente à terra firme, coberta por altas montanhas azuis, no alto das quais brilhava a neve branca. Perto da costa, no meio de uma soberba floresta verde, havia uma cidade com uma igreja e um convento.
As casas possuíam os tetos vermelhos. Em volta das casas havia grandes palmeiras e os pomares estavam cheios de laranjeiras e limoeiros; não longe dali o mar formava um pequeno golfo, entrando por um rochedo coberto de fina areia branca.
Foi ali que a sereia colocou o príncipe com cuidado, tomando cautela para que ele ficasse com a cabeça alta e pudesse receber os raios do sol. Pouco a pouco as cores foram voltando ao rosto do príncipe desmaiado.
Daí a pouco os sinos da igreja começaram a tocar e uma quantidade enorme de moças apareceu nos jardins.
A sereiazinha afastou-se nadando e escondeu-se atrás de umas grandes pedras para observar o que acontecia ao jovem príncipe.
Logo depois, uma das moças passou por ele; no início pareceu assustar-se, mas logo a seguir, foi buscar outras pessoas, que começaram a tratar do príncipe.
A sereia viu-o recobrar os sentidos e sorrir a todos aqueles que tratavam dele; só não sorriu para ela, pois não sabia que o havia salvo. E assim, logo que o viu ser conduzido para uma grande mansão, ela mergulhou tristemente e voltou para o castelo de seu pai.
A sereiazinha sempre fora silenciosa e pensativa; a partir desse dia, ficou muito mais ainda. Suas irmãs perguntaram-lhe o que ela vira lá em cima, mas ela não quis contar nada.
Mais de uma vez, à noite e pela manhã, ela voltou ao lugar onde deixara o príncipe. Viu as flores morrerem, os frutos do jardim amadurecerem, viu a neve desaparecer das altas montanhas, mas jamais viu o príncipe; e voltou cada vez mais triste para o fundo do mar.
Lá, seu único consolo era sentar-se em seu pequeno jardim e abraçar a linda estatueta de mármore que se parecia tanto com o príncipe, enquanto que suas flores negligenciadas e esquecidas, cresciam pelas aléias como umas selvagens, entrelaçavam seus longos galhos nos ramos das árvores, formando uma pequena floresta que obscurecia tudo.
Finalmente essa existência tornou-se insuportável; e ela contou tudo a uma de suas irmãs, que o contou às outras, as quais repetiram a estória a algumas amigas íntimas. E acontece que uma destas, que também vira a festa do navio, conhecia o príncipe e sabia onde estava situado o seu reino.
“Venha, irmãzinha”, disseram as princesas; e, passando os braços por suas costas, carregaram com a sereiazinha pelo mar em fora, e depositaram-na em frente ao castelo do príncipe.
O castelo era construído de pedras amarelas e luzidias; grande escadaria de mármore levava até o jardim; galerias imensas estavam ornamentadas com estátuas de mármore que pareciam vivas. As salas, magníficas, eram ornamentadas de quadros e tapeçarias incomparáveis e as paredes estavam cobertas de quadros maravilhosos.
No grande salão, o sol iluminava, através de uma grande janela de vidro, as plantas mais raras, que estavam num grande vaso e embaixo de vários jactos de água.
Desde então, a sereiazinha começou a ir a esse lugar, tanto durante o dia, como à noite; aproximava-se da costa, ousava mesmo sentar-se sob a grande varanda de mármore que projectava uma sombra em seus olhos; muitas vezes, ao som da música, o príncipe passava por ela em seu barco florido, mas ao ver seu véu branco em meio aos arbustos verdes, pensava tratar-se de um cisne ao abrir suas asas.
Ela ouvia também os pescadores falarem muito bem do jovem príncipe e então ela ficava feliz de lhe ter salvo a vida, o que, aliás, ele ignorava completamente.
Sua afeição pelos homens crescia dia a dia e cada vez mais ela desejava se elevar até eles. Seu mundo lhe parecia muito mais vasto do que o dela; eles sabiam navegar pelos mares com seus navios, subir pelas altas montanhas até as nuvens; eles possuíam imensas florestas e campos verdejantes.
Suas irmãs não podiam satisfazer toda a sua curiosidade, então ela perguntou à sua velha avo, que conhecia muito o mundo mais elevado, o que muito justamente era chamado de país à beira-mar.
– Os homens vivem eternamente?, – perguntou a jovem princesa. – Eles não morrem assim como nós?
– Sem dúvida, – respondia a velha, eles morrem e sua existência é mesmo mais curta do que a nossa. Nós outros vivemos algumas vezes trezentos anos; depois, ao morrermos, nós nos transformamos em espuma, pois no fundo do mar não existem túmulos para receberem os corpos inanimados. Nossa alma não é imortal; depois da morte está tudo acabado. Nós somos com as rosas verdes: uma vez cortadas, não florescem mais! Os homens, pelo contrário, possuem uma alma que vive eternamente, que vive mesmo depois que seus corpos viram cinzas; essa alma voa até o céu e vai até as estrelas que brilham e mesmo que nós possamos sair da água e ir até o pais dos homens, não podemos ir a certos lugares maravilhosos e imensos, que são inacessíveis ao povo do mar.
– E por que não possuímos a mesma alma imortal? – pergunta a sereiazinha muito aflita – eu daria de boa vontade as centenas de anos que ainda tenho que viver para ser homem, nem que fosse por um dia e partir depois para o mundo celeste.
– Não pense em semelhantes tolices – replicou a velha – nós somos muito mais felizes aqui embaixo, do que os homens lá em cima.
– No entanto, chegará o dia em que deverei morrer. Não serei mais do que uma espuminha; para mim, não mais o murmúrio das vagas, nada de flores nem de sol! Não há nenhum meio de conquistar uma alma imortal?
– Somente um, mas é quase impossível. Seria preciso que um homem concebesse por você um amor infinito, que você lhe fosse mais cara do que seu pai ou sua mãe. Então, agarrado a você com toda a sua alma e o seu coração, ele unisse sua mão à de você com o testemunho de um padre, jurando fidelidade eterna, sua alma se comunicaria ao seu corpo e você seria admitida na felicidade dos homens. Mas jamais isso poderá ser feito! O que é considerado mais lindo aqui no mar, que é a sua cauda de peixe, eles acham detestável na terra. Pobres homens! Para serem lindos acham que precisam daqueles suportes grosseiros que chamam de pernas!
A sereiazinha suspirou tristemente, olhando para a ua cauda de peixe.
Sejamos alegres!, diz a velha, saltemos e nos divirtamos durante os trezentos anos de nossa existência; é um lapso de tempo muito agradável e nós conversaremos mais tarde. Esta noite há um baile na corte.
Não se pode fazer idéia na terra de uma tal magnificência. A grande sala de baile era inteira de cristal; milhares de ostras enormes, colocadas de cada lado, nos muros também transparentes, iluminavam o mar a grande distância. Viam-se muitos peixes nadando, grandes e pequenos, cobertos de escamas luzentes como a púrpura, como ouro e prata.
No meio da sala corria um grande rio no qual dançavam os delfins e as sereias, ao som de sua própria voz que era maravilhosa. A sereiazinha era a que cantava melhor e ela foi tão aplaudida, que, por um instante, sua alegria fez com que esquecesse as maravilhas da terra.
Mas dentro em breve ela retornou à sua tristeza, pensando no belo príncipe e na sua alma imortal. Abandonou os cantos e os risos, saiu silenciosamente do castelo e sentou-se no seu pequeno jardim. De lá ela ouvia o som dos coros, que atravessava a água.
Eis que passa, aquele que eu amo de todo o meu coração, aquele que ocupa todos os meus pensamentos e a quem eu desejaria confiar minha vida! Arriscaria tudo por ele e para ganhar uma alma imortal. Enquanto minhas irmãs dançam no castelo de meu pai, eu vou procurar a feiticeira do mar, que eu tanto temi até agora. Talvez ela possa me dar conselhos e ajudar-me.
E a sereiazinha, saindo de seu jardim, dirigiu-se para as rochas escuras onde vivia a feiticeira. Jamais ela seguira por esse caminho. Não havia nem uma flor nem uma árvore. No fundo, a areia cinzenta e lisa, formava um redemoinho.
A princesa viu-se obrigada a atravessar esse terrível turbilhão para chegar aos domínios da feiticeira, onde sua casa se elevava no meio da mais estranha floresta.
Todas as árvores e as rochas não eram mais do que polidos, metade animal metade planta, parecidos com as serpentes que saem da terra.
Os galhos eram braços ondeantes, terminados por dedos em forma de copos, que se mexiam continuamente.
Esses braços agarravam tudo que aparecia à sua frente e não os largavam mais.
A sereiazinha, tomada de pavor, teve vontade de retroceder; todavia, ao pensar no príncipe e na sua alma imortal, armou-se de toda a sua coragem. Prendeu seu cabelo em torno da cabeça, para que os pólipos não a pudessem agarrar, cruzou os braços no peito e nadou assim, entre aquelas horríveis criaturas.
Chegou finalmente a um grande lugar no meio daquela floresta, onde enormes serpentes do mar mostravam seus ventres amarelos. No meio do local estava a casa da feiticeira, construída com ossos de náufragos, e onde a feiticeira, sentada numa grande pedra, dava de comer a um grande sapo, assim como os homens dão migalhas aos passarinhos. Chamava suas serpentes de meus franguinhos e se divertia fazendo-as rolarem sobre seus ventres amarelos.
“Sei o que você deseja”, falou ela ao ver a princezinha; “seus desejos são idiotas; de qualquer forma, eu os satisfarei, mesmo sabendo que eles só lhe trarão infelicidade. Você quer desembaraçar-se dessa cauda de peixe e trocá-la por duas peças daquelas com que marcham os homens, a fim de que o príncipe se apaixone por você, case-se com você e lhe dê uma alma imortal.”
Ao dizer isso, ela deu uma gargalhada espantosa, que fez com que o sapo e as serpentes rolassem no chão.
– Afinal, você fez bem em vir; amanhã, ao nascer do sol, vou preparar-lhe um elixir que você levará para terra. Sente-se na costa e beba-o. Logo a sua cauda se dividirá, transformando naquilo que os homens chamam de duas belas pernas. Mas eu lhe aviso que isso lhe fará sofrer como se lhe cortassem com uma espada afiada. Todo mundo admirará a sua beleza, você conservará sua marcha ligeira e graciosa, mas cada um de seus passos doerá tanto, como se você caminhasse sobre espinhos, fazendo o sangue correr. Se estiver disposta a sofrer tanto, eu poderei ajudá-la.
– Suportarei tudo!, – disse a sereia com voz trêmula, pensando no príncipe e na alma imortal.
– Mas não se esqueça de que, – continuou a feiticeira –, uma vez transformada em ser humano, você não poderá voltar a ser uma sereia! Você nunca mais verá o castelo de seu pai; e se o príncipe, esquecendo-se de seu pai e de sua mãe, não se apegar a você de todo o coração e não se unir a você em casamento, você jamais terá uma alma imortal – No dia em que ele se casar com uma outra mulher, seu coração se quebrará e você não será mais do que uma espuma no alto das vagas.
– Concordo – disse a princesa, pálida como uma morta.
– Nesse caso – prosseguiu a feiticeira é preciso que você me pague; e eu não lhe peço pouca coisa. Sua voz é a mais linda do os sons do mar, você pensa com ela encantar o príncipe, mas é justamente a sua voz que eu exijo como pagamento. Desejo o que você tem de mais precioso, em troca do meu elixir; porque, para torná-lo bem eficaz, eu tenho que jogar dentro dele o meu próprio sangue.
– Mas se você tomar a minha voz, – perguntou a sereiazinha – que me restará?
– Sua figura encantadora – respondeu a feiticeira –, seu caminhar leve e gracioso e seus olhos expressivos, isso é mais do que suficiente para enfeitiçar qualquer homem. Vamos! Coragem! Estire a língua para que eu a corte, depois lhe darei o elixir.
– Seja – respondeu a princesa e a feiticeira cortou-lhe a língua. A pobre menina ficou muda.
A seguir, a feiticeira colocou seu caldeirão no fogo para fazer ferver o seu magico elixir.
– A propriedade é uma bela coisa – disse ela apanhando um pacote de víboras para limpar o caldeirão. Depois, dando um talho com a faca em seu próprio peito, deixou cair seu negro sangue dentro do caldeirão.
Um vapor elevou-se, formando figuras estranhas e assustadoras. A cada instante a velha juntava mais ingredientes e quando tudo começou a ferver, ela acrescentou um pó feito de dentes de crocodilo. Uma vez pronto, o elixir tornou-se totalmente transparente.
“Aqui está”, disse a feiticeira, depois de ter derramado o elixir num frasco. “Se os pólipos quiseram agarrá-la ao sair, basta jogar-lhes uma gota desta bebida e eles se farão em mil pedaços.”
Este conselho foi inútil; pois os pólipos, apercebendo-se do elixir nas mãos da sereia, recuaram assustados. E assim, ela pôde atravessar sem sustos a floresta e os redemoinhos.
Quando chegou ao castelo de seu pai, as luzes da grande sala de danças estavam apagadas; todo mundo dormia, mas ela não ousou entrar.
Não podia falar com eles e logo iria deixá-los para sempre – Parecia que seu coração se partia de dor. A seguir foi até seu jardim, colheu uma flor de cada um dos de suas irmãs, enviou uma porção de beijos ao castelo e subiu à superfície do mar, afastando-se para sempre.
O sol ainda não estava alto, quando ela chegou ao castelo do príncipe. Sentou-se na praia e bebeu o elixir; foi como se uma espada afiada penetrasse em seu corpo; ela desmaiou e ficou estendida na areia como morta.
O sol já estava alto quando ela acordou sentindo uma dor cruciante. Mas à sua frente estava o príncipe encostado a um rochedo, lançando sobre ela um olhar cheio de admiração. A sereiazinha baixou os olhos e então viu que a sua cauda de peixe desaparecera, dando lugar a duas pernas brancas e graciosas.
O príncipe perguntou-lhe quem era ela e de onde vinha; ela fitou-o com um olhar doce e aflito, sem poder dizer uma só palavra. Depois o jovem a tomou pela mão e levou-a para o castelo. Assim como dissera a feiticeira, a cada passo que ela dava, sentia dores atrozes; entretanto, subiu a escadaria de mármore pelo braço do príncipe, leve como uma bola de sabão e todos admiraram o seu andar gracioso. Vestiram-na de seda, sem deixarem de admirar a sua beleza; mas ela continuava muda. Escravas vestidas de ouro e prata cantavam para o príncipe; ele aplaudia e sorria para a jovem.
Se ele soubesse, pensava ela, que por ele eu sacrifiquei uma voz mais linda ainda!
Depois de cantarem, as escravas dançaram. Mas assim que a pequena sereia começou a dançar nas pontas dos pés, quase sem tocar o solo, todos ficaram extasiados. Nunca haviam visto uma dança mais linda e harmoniosa. O príncipe pediu-lhe que não o deixasse mais e permitiu-lhe que dormisse à sua porta, numa almofada de veludo. Todos ignoravam o seu sofrimento ao dançar.
No dia seguinte o príncipe lhe deu um traje de amazona para que ela o seguisse a cavalo. Depois de terem saído da cidade aclamados pelos súditos do príncipe, eles atravessaram prados cheios de flores, florestas perfumadas e alcançaram altas montanhas; e a princesa, rindo-se, sentia seus pés arde-rem.
A noite, enquanto os outros dormiam, ela descia secretamente a escadaria de mármore e ia até a praia, a fim de refrescar os pés doridos na água fria do mar e a lembrança de sua pátria vinha ao seu espírito.
Uma noite, ela viu suas irmãs de mãos dadas; cantavam tão tristemente ao nadarem, que a sereiazinha não pôde deixar de fazer-lhes um sinal. Tendo-a reconhecido, elas lhe contaram como ela havia deixado todos tristes. Todas as noites elas voltavam e uma vez chegaram a levar a avó, que há muitos anos não punha a cabeça na superfície e o rei do mar com a sua coroa de coral. Os dois estenderam as mãos para a filha; mas não ousaram, assim como as irmã, aproximar-se da praia.
Cada dia que se passava o príncipe mais a amava, como se ama uma criança bondosa e gentil, sem ter a idéia de transformá-la em sua esposa. No entanto, para que ela tivesse uma alma imortal, era preciso que ele se casasse com ela.
– Não me ama mais do que a todas as outras? – eis o que pareciam dizer os olhos tristes da pequena muda, quando o tomava nos braços e depositava um beijo na sua fronte.
– É claro que sim – respondia o príncipe – pois você possui o melhor coração de todas; você é mais devotada e se parece com a jovem que eu encontrei um dia, mas que talvez não veja nunca mais. Quando eu estava num navio, sofri um naufrágio e fui depositado em terra pelas ondas, perto de um convento habitado por muitas jovens. A mais moça delas encontrou-me na praia e me salvou a vida, mas eu a vi somente duas vezes. Jamais neste mundo, eu poderia amar outra que não a ela; pois bem! Você se parece com ela, muitas vezes chega mesmo a substituir a imagem dela em meu coração.
Ai de mim!, pensou a sereiazinha, ele ignora ter sido eu a salvá-lo, e a colocá-lo perto do convento. Ama uma outra! No entanto, essa jovem está encerrada num convento e jamais sai; talvez ele a esqueça por mim, por mim que o amarei sem-pre e lhe devotarei toda a minha vida.
“0 príncipe vai-se casar com a linda filha do rei vizinho”, disseram um dia; “está equipando um soberbo navio sob o pretexto de visitar o rei, mas a verdade é que ele vai-se casar com a filha”.
Isso fez a princesa sorrir, pois ela sabia melhor do que ninguém quais os pensamentos do príncipe. Ele lhe dissera: “já que meus pais exigem, irei conhecer a princesa, mas jamais eles farão com que eu a tome em minha esposa. Não posso amá-la; ela não se parece, como você, com a jovem do convento e eu preferiria casar com você, pobre menina abandonada, de olhos tão expressivos, malgrado o seu eterno silêncio”.
E, depois de falar dessa maneira, ele depositou um beijo em seus longos cabelos.
O príncipe partiu.
“Espero que você não tenha medo do mar”, disse-lhe ele no navio que os levava.
A seguir falou-lhe nas tempestades e no mar furioso, nos estranhos peixes e em tudo que se encontrava no fundo do mar. Essas conversas faziam-na sorrir, pois ela conhecia o fundo do mar melhor do que qualquer outra pessoa.
Sob o luar, quando os outros dormiam, ela, então, se sentava na amurada do navio e alongava seu olhar através da transparência da água, acreditando perceber o castelo de seu pai e os olhos de sua avó fixados na quilha do navio. Uma noite suas irmãs apareceram; olharam-na tristemente agitando as mãos.
A jovem chamou-as por sinais e esforçou-se por dar-lhes a entender que tudo ia bem; mas no mesmo instante um grumete se aproximou e elas desapareceram, fazendo crer ao pequeno marujo que ele vira uma espuma no mar.
No dia seguinte o navio entrou no porto da cidade em que morava o rei vizinho. Todos os sinos repicaram, a música enchia a cidade e os soldados, no alto das torres, balançavam as suas bandeiras. Todos os dias havia festas, bailes e noitadas; mas a princesa ainda não chegara do convento, onde recebera uma brilhante educação.
A sereiazinha estava muito curiosa para ver a sua beleza e, finalmente, teve essa satisfação. Teve de reconhecer jamais ter visto uma tão linda figura, uma pele tão branca e olhos negros tão sedutores.
É você!, gritou o príncipe ao vê-la, foi você que me salvou quando eu estava na praia. E apertou entre os braços a sua noiva toda corada. É muita felicidade!, continuou ele, voltando-se para a sereiazinha. Meus desejos mais ardentes se realizaram! Você compartilhará de minha felicidade, pois ama-me mais do que qualquer pessoa.
A jovem do mar beijou a mão do príncipe, embora tivesse o coração ferido.
No dia do casamento daquele que ela amava, a sereiazinha devia morrer e transformar-se em espuma.
A alegria reinava por todos os lados; os arautos anunciavam o noivado em todas as ruas e ao som de suas cornetas. Na grande igreja, um óleo perfumado brilhava nas lâmpadas de prata e os padres agitavam os incensários; os dois noivos deram-se as mãos e receberam a bênção do bispo. Vestida de seda e ouro, a sereiazinha assistiu à cerimônia; mas ela só pensava na sua morte próxima e em tudo o que perdera neste mundo.
Na mesma noite, os recém-casados embarcaram ao som das salvas da artilharia. Todos os pavilhões estavam içados no meio do navio que estava pintado de ouro e púrpura e onde fora preparado um magnífico leito. As velas se inflaram e o navio afastou-se ligeiramente sobre o mar claro.
Ao aproximar-se a noite, acenderam lanternas de várias cores e os marujos começaram a dançar alegremente no convés. A sereiazinha lembrou-se da noite em que ela os vira dançar pela primeira vez. E começou a dançar também, leve como uma borboleta e foi admirada como um ser sobre-humano.
Mas é impossível descrever o que se passava em seu coração; no meio da dança, ela pensava naquele por quem deixara sua família e sua pátria, sacrificando sua bela voz e sofrendo inúmeros tormentos – Essa era a última noite em que ela respirava o mesmo ar que ele, em que poderia olhar para o mar profundo e para o céu cheio de estrelas. Uma noite eterna, uma noite sem sonhos a aguardava, já que ela não possuía uma alma imortal. justamente até a meia-noite a alegria reinou em torno dela; ela própria ria e dançava, com a morte no coração.
Finalmente, o príncipe e a princesa retiraram-se para a sua tenda armada no convés: ficou tudo silencioso e o piloto quedou-se sozinho em frente ao leme. A sereiazinha, apoiando seus braços brancos na amurada do navio, olhava para o oriente, do lado do nascer do sol; sabia que o primeiro raio de sol a mataria.
De repente, suas irmãs saíram do mar, tão pálidas quanto ela mesma; elas nadaram em volta do barco e chamaram por sua irmã que ficara muito triste: os longos cabelos de suas irmãs não flutuava mais ao vento, elas o haviam cortado.
– Nós os entregamos à feiticeira, – disseram elas, para que ela venha em seu auxílio e a salve da morte. Em troca ela nos deu um punhal bem afiado, que aqui está. Antes do nascer do sol, é preciso que você o enterre no coração do príncipe e, assim que o sangue ainda quente cair aos seus pés, eles se unirão e se transformarão numa cauda de peixe. Você voltará a ser uma sereia; poderá descer para a água junto de nós e somente daqui a trezentos anos é que se transformará em espuma. Venha, você ficará alegre novamente. Tornará a ver nossos jardins, nossas grutas, o palácio, a sua voz maviosa será ouvida outra vez; junto a nós você percorrerá os mares i-mensos. Mas não demore! Pois antes do nascer do sol é preciso que um de vocês morra. Mate-o e venha, nós lhe suplicamos! Está vendo aquela luz vermelha no horizonte? Dentro de alguns minutos o sol nascerá e tudo estará terminado para você! Venha! Venha!.
A seguir, com um longo suspiro, elas mergulharam novamente, a fim de irem encontrar-se com a velha avó que esperava ansiosa pela sua volta.
A sereiazinha levantou a cortina da tenda e viu a jovem esposa adormecida, com a cabeça apoiada no peito do príncipe. Aproximou-se dos dois e depositou um beijo na fronte daquele que tanto amara. A seguir, voltou seu olhar para a aurora que se aproximava, para o punhal que levava nas mãos e para o príncipe que pronunciava em sonhos o nome de sua esposa, levantou a mão que empunhava o punhal e ... lançou-o no meio das vagas. No lugar onde ele caíra, pareceu-lhe ver várias gotas de sangue rubro. A sereiazinha lançou mais um olhar para o príncipe e precipitou-se no mar, onde sentiu seu corpo dissolver-se em espuma.
.Nesse instante o sol saiu das vagas; seus raios benéficos caíram sobre a espuma fria e a sereiazinha não sentiu mais a morte; ela viu o sol brilhante, as nuvens de púrpura e em sua volta flutuarem milhares de criaturas celestes e transparentes. Suas vozes formavam uma melodia encantadora, mas tão sutil, que nenhum ouvido humano poderia ouvir, assim como nenhum olhar humano poderia ver as criaturas. A jovem do mar apercebeu-se de que possuía um corpo igual ao delas e que, pouco a pouco, ela se elevava sobre a espuma.
“Onde estou?”, perguntou ela com uma voz da qual música alguma pode dar uma idéia.
“Junto com as filhas do ar, responderam as outras. A sereia não possui uma alma imortal e só pode conseguir uma, através do amor de um homem; sua vida eterna depende de um poder estranho. Assim como as sereias, as filhas do ar não possuem uma alma imortal, mas podem ganhar uma, por meio de boas ações.
“Nós voamos para os países quentes, onde o ar pestilento mata os homens, para levar-lhes o frescor; espalhamos pelos ares o perfume das flores por toda a parte por onde passamos, levamos o socorro e damos saúde. Depois que praticamos o bem durante trezentos anos, adquirimos uma alma imortal a fim de participar da felicidade eterna dos homens.
“Pobre sereiazinha, você esforçou-se da mesma forma que nós; como nós você sofreu e, saindo vitoriosa de suas provações, elevou-se até o mundo dos espíritos do ar e agora depende de você ganhar ou não uma alma imortal, por meio de suas boas ações..
E a sereiazinha, levantando os braços para o céu, derramou lágrimas pela primeira vez. Os gritos de alegria foram ouvidos novamente sobre o navio; mas ela viu o príncipe e sua bela esposa olharem fixamente e melancolicamente para as espumas brilhantes, como se soubessem que ela se precipitara nas ondas.
Invisível ela abraçou a esposa do príncipe, lançou um sorriso aos recém-casados, depois subiu com as outras filhas do ar para uma nuvem cor-de-rosa, que se elevou no céu.


Hans Christian Andersen




A cigarra e a formiga



Tendo a cigarra em cantigas
Folgado todo o verão
Achou-se em penúria extrema
Na tormentosa estação.

Não lhe restando migalha
Que trincasse, a tagarela
Foi valer-se da formiga,
Que morava perto dela.

Rogou-lhe que lhe emprestasse,
Pois tinha riqueza e brio,
Algum grão com que manter-se
Até voltar o aceso estio.

"Amiga, — diz a cigarra —
Prometo, à fé d'animal,
Pagar-vos antes de agosto
Os juros e o principal."

A formiga nunca empresta.
Nunca dá, por isso junta:
"No verão em que lidavas?"
A pedinte ela pergunta.

Responde a outra: "Eu cantava
Noite e dia, a toda hora.
— Oh! Bravo!, torna a formiga:
Cantavas? Pois dança agora!"


Bocage (Trad.)

30/01/2008

Bela Infanta (variante)


Dona Clara, Dona Infante
Estava no seu jardim,
Penteando tranças de oiro
Com seu pente de marfim,
Sentada numa almofada
De veludo carmesim.
Botou os olhos ao mar
E avistou formosa armada:
Capitão que a governava
Que bem a traz preparada!
Saltou em terra ele só
Com a viseira calada,
Vem saudar a dona Infante
Que assim triste lhe falou:
– «Viste tu o meu marido
Que há tempo que me deixou?»
– «Teu marido não conheço,
Diz-me que sinais levou.»
– «Levou seu cavalo branco
Com sua sela dourada,
Na ponta de sua lança
Uma fita encarnada;
Um cordão do meu cabelo
Que lhe prendia a espada.
Se porém tu não viste,
Cavaleiro da cruzada,
Ó triste de mim viúva,
Ó triste de mim coitada!
De três filhas que eu tenho
E nenhuma ser casada.»
– «Sou soldado, ando na guerra,
Nunca teu marido vi:
Mas quanto deras, senhora,
A quem o trouxera aqui?»
– «Dera-te tanto dinheiro
Que não tem conto nem fim;
E as telhas do meu telhado
Que são de oiro e marfim.»
– «Não quero oiro ou dinheiro
Que me não pertence a mi:
Sou soldado, ando na guerra,
Nunca teu marido vi.
Quanto deras mais, senhora,
A quem o trouxera aqui?»
– «Dera-te as minhas jóias
Que não têm peso e medida;
Dera-te o meu tear de oiro,
Roca de prata polida.»
– «Não quero oiro nem prata:
Com ferro minha mão lida.
Sou soldado, ando na guerra,
Nunca teu marido vi:
Mas quanto deras senhora,
A quem no trouxera aqui?»
– «Das três filhas que eu tenho,
Eu tas dera a escolher,
São formosas como a lua,
Como o sol a amanhecer.»
– «Eu não quero tuas filhas,
Não me podem pertencer.
Sou soldado, ando na guerra;
Nunca teu marido vi:
Mas quanto deras, senhora,
A quem no trouxera aqui?»
– «Não tenho mais que te me dar
Nem tu mais que me pedir.»
– «Inda tens mais que dar,
Não estejas a mentir;
Tens teu leito de oiro fino
Onde eu quisera dormir.»
– «Cavaleiro que tal diz
Merece ser arrastado
Em roda do meu jardim
Aos pés de um cavalo atado.
Vinde cá, criados meus,
Castigai este soldado.»
– «Não chames os teus criados
Que criados são de mi.»
– «Se tu és o meu marido
Porque me falas assim?»
– «Por ver se me eras leal
É que disfarçado vim.
Lembras-te, ó dona infante,
Quando eu daqui saí,
O anel de sete pedras
Que contigo reparti?
Se as tuas não perdeste,
As minhas ei-las aqui.»
– «Vinde cá, ó minhas filhas,
Vosso pai é já chegado.
Abri-vos, portão de jaspe
Há tanto tempo fechado!
Folgai, folgai, meus vassalos,
Que é Dom Infante a meu lado.»

Romanceiro, Almeida Garrett

Os três conselhos


Um pobre rapaz tinha casado, e para arranjar a sua vida, logo ao fim do primeiro ano teve de ir servir uns patrões muito longe. Ele era assim bom homem, e pediu ao amo que lhe fosse guardando na mão o dinheiro das soldadas. Ao fim de uns quatro anos já tinha um par de moedas, que lhe chegava para comprar um eidico, e quis voltar para casa. O patrão disse-lhe:
– Qual queres, três bons conselhos que te hão-de servir para toda a vida, ou o teu dinheiro?
– Ele, o dinheiro é sangue, como diz o outro.
– Mas podem roubar-to pelo caminho e matarem-te.
– Pois então venham de lá os conselhos.
Disse-lhe o patrão:
– O primeiro conselho que te dou é que nunca te metas por atalho, podendo andar pela estrada real.
– Cá me fica para meu governo.
– O segundo, é que nunca pernoites em casa de homem velho casado com mulher nova. Agora o terceiro vem a ser: nunca te decidas pelas primeiras aparências.
O rapaz guardou na memória os três conselhos, que representavam todas as suas soldadas; e quando se ia embora, a dona da casa deu-lhe um bolo para o caminho, se tivesse fome; mas que era melhor comê-lo em casa com a mulher, quando lá chegasse. Partiu o homenzinho do Senhor, e encontrou-se na estrada com uns almocreves que levavam uns machos com fazendas; foram-se acompanhando e contando a sua vida, e chegando lá a um ponto da estrada, disse um almocreve que cortava ali por uns atalhos, porque poupava meia hora de caminho. O rapaz foi batendo pela estrada real, e quando ia chegando a um povoado, viu vir o almocreve todo esbaforido sem os machos; tinham-no roubado e espancado na quelha. Disse o moço:
– Já me valeu o primeiro conselho.
Seguiu o seu caminho, e chegou já de noite a uma venda, onde foi beber uma pinga, e onde tencionava pernoitar; mas quando viu o taverneiro já homem entrado, e a mulher ainda frescalhuda, pagou e foi andando sempre, Quando chegou à vila, ia lá um reboliço; era que a Justiça andava em busca de um assassino que tinha fugido com a mulher do taverneiro que fora morto naquela noite. Disse o rapaz lá consigo:
– Bem empregado dinheiro o que me levou o patrão por este conselho.
E picou o passo, para ainda naquele dia chegar a casa. E lá chegou; quando se ia aproximando da porta, viu dentro de casa um homem, sentado ao lume com a sua mulher! A sua primeira ideia foi ir matar logo ali a ambos. Lembrou-se do conselho, e curtiu consigo a sua dor, e entrou muito fresco pela porta dentro. A mulher veio abraçá-lo, e disse:
– Aqui está meu irmão, que chegou hoje mesmo do Brasil. Que dia! E tu também ao fim de quatro anos!
Abraçaram-se todos muito contentes, e quando foi a ceia para a mesa, o marido vai a partir o bolo, e aparece-lhe dentro todo o dinheiro das suas soldadas. E por isso diz o outro, ainda há quem faça bem.


Recolha de Teófilo Braga

Lenda do Cabo da Roca

Conta a lenda, que perto do Cabo da Roca, desapareceu de casa de sua mãe, um menino, cuja idade rondava os cinco anos, sem que sua triste mãe pudesse saber onde ele estava. Já o presumia caído de alto penhasco abaixo no mar, e afogado. Já o deplorava morto. Mas a verdade era outra. Umas bruxas o tinham tirado de sua casa e lançaram-no num despenhadeiro num monte sobre o mar.
Aos choros que o menino dava, acudiram uns pastores de gado que rapidamente deram a noticia à vila. De lá saíram muitos aldeões com a desconsolada mãe para socorrerem o pobre menino.
Para o tirarem do buraco que parecia de fundo inacessível foi uma tarefa complicada, mas rapidamente o conseguiram. Todos alegres por o verem são e salvo logo a mãe lhe perguntou quem o tinha posto ali; e quem lhe dera de comer durante tanto tempo. O menino explicou que tinham sido umas mulheres que o tinham trazido pelo ar e o tinham atirado para a tal cova, porém, disse que uma senhora, muito formosa, todos os dias lhe levava umas sopinhas de cravos para ele comer.
Depois da história explicada e tudo estar resolvido, toda a aldeia mais a mãe e o menino dirigiram-se à igreja para agradecer a Nossa Senhora tudo ter acabado em bem. Ao entrar na igreja e vendo a Senhora no altar o menino disse com estas formais palavras: "Ó mãe, eis ali a senhora que todos os dias me dava as sopinhas de cravo para eu comer". Este menino chamava-se José Gomes, mas foi sua alcunha que ficou conhecida na praça de Cascais, Chapinheiro.

Num retábulo pintado no interior da Igreja, que está ao pé do farol da Guia (Cascais), datado de 1858, encontra-se inscrito este milagre.