15/02/2008

Princesinha

HOUVE uma vez um príncipe que queria casar-se, como é natural, com uma princesa, mas era preciso que fosse realmente uma verdadeira princesa. Com este propósito, o príncipe viajou pelo mundo inteiro, com o desejo de encontrar a prometida de seus sonhos, porém, embora visitasse muitas princesas, quando se inteirava a respeito de cada uma delas, sempre havia um ou outro inconveniente que o impedia de noivar.
Nesse tempo havia no mundo muito mais princesas do que hoje, todavia, quando se investigava se eram verdadeiras princesas, sempre existia uma certa dificuldade em prová-lo; e, em muitos casos, descobria-se algum detalhe nada agradável. Finalmente, aborrecido com a inutilidade de seus esforços, o príncipe empreendeu o regresso ao seu palácio.
Passou-se algum tempo e o príncipe continuava solteiro.
Uma noite desencadeou-se uma terrível tempestade; o dilúvio era espantoso, relampejando sem cessar. Em suma, era uma noite má, como existem poucas.
Quando a tormenta estava no auge, alguém bateu na porta do palácio e o velho Rei, em pessoa, apressou-se a abrir.
Lá fora estava uma princesa, embora em situação lamentável, por causa da chuva e do vento. A água caía a jorros pelos cabelos e pelo vestido, tinha os pés encharcados de água recolhida por seus sapatos, mas garantiu ser uma verdadeira princesa.
“Logo veremos se isso é verdade”, pensou a Rainha, embora não revelasse a ninguém seu pensamento, guardando para si as dúvidas que sentia.
Dirigiu-se para o dormitório destinado aos hóspedes, tirou toda a roupa de cama e pós uma ervilha sobre uma das tábuas de madeira; colocou por cima vinte colchões e outros tantos cobertores de plumas. Ali deveria dormir a princesa.
Chegando a manhã seguinte, perguntaram-lhe se dormira bem.
– Passei uma noite péssima – replicou a jovem. – Mal consegui fechar os olhos. Deus é que sabe o que havia na cama. Tive a sensação de estar deitada sobre um objecto muito duro, tanto assim que estou com o corpo todo dolorido. Foi terrível!
Então, tanto os reis como o príncipe compreenderam que ela devia ser uma verdadeira princesa, pois que fora capaz de sentir a ervilha através dos vinte colchões e dos vinte cobertores de plumas. Somente uma verdadeira princesa poderia ter uma pele tão delicada.
E assim, o príncipe a tomou por esposa, porque estava certo de ter encontrado uma verdadeira princesa. Quanto à ervilha, foi depositada num museu, onde pode ser vista até hoje, se ninguém tiver tido a tentação de roubá-la, o que acreditamos não ter sucedido.
E esta, sim, é uma estória verdadeira.


Hans Christian Andersen





14/02/2008

João e o pé de feijão





Há muitos e muitos anos existiu uma viú­va que tinha um filho chamado João.
João e a mãe eram muito pobres e, para se manterem, contavam apenas com uma vaca, cujo leite vendiam na cidade.
Um dia, porém, a vaca parou subitamen­te de dar leite, e a pobre mulher, tendo per­dido assim a fonte de seu sustento, ficou preocupada e sem saber o que fazer.
João, de sua parte, começou a procurar um emprego, com o qual pudesse ajudar a mãe. Mas os dias foram passando sem que ele arranjasse coisa alguma para fazer. As­sim, a única solução que encontraram foi vender a vaca, pois o dinheiro daria pelo me­nos para viverem por algum tempo.
João logo se ofereceu para ir vender o animal na cidade, mas a mãe, achando que ele não saberia negociar, a princípio não con­sentiu. Entretanto, porque ela própria pode­ria sair de casa naquele dia, não teve outro remédio senão concordar com a idéia. Amar­rou então uma corda no pescoço da vaca, para que João não a perdesse e, depois de dar muitos conselhos ao filho, deixou-o partir.
E lá se foi João, com destino à cidade.
Quando estava no meio do caminho, en­controu um vendedor ambulante que o cum­primentou muito simpático e perguntou-lhe aonde estava indo com a vaca.
Assim que João contou que estava indo vendê-la na cidade, o homem tirou do bolso um punhado de feijões, muito bonitos e de co­res e formatos variados, e mostrou-os ao me­nino, dizendo que eles eram encantados.
João ficou deslumbrado com a beleza dos grãos e, ao ouvir as palavras do vendedor, seus olhos brilharam de alegria. Morrendo de vontade de possuir os feijões encantados, perguntou ao homem se ele não gostaria de trocá-los pela vaca.
O vendedor concordou prontamente com a troca. E, horas depois, João chegava em casa muito satisfeito, achando que havia feito um excelente negócio.
A mãe o recebeu muito contente, mas, quando o menino lhe mostrou o que havia conseguido em troca do animal, ficou furiosa e disse:
— Como, meu filho?! Você teve coragem de trocar a única coisa que possuíamos por uma porcaria duns grãos de feijão?
E, quanto mais pensava na situação difí­cil em que ela e o filho estavam agora, mais nervosa ficava. Até que, num acesso de rai­va, jogou os feijões pela janela, gritando:
— Veja, seu tolo! Veja para o que ser­vem seus grãos encantados: para jogar fora!
O pobre menino, desconsolado, ficou olhando para a mãe sem nada conseguir dizer. E, como castigo, naquela noite foi man­dado para a cama sem jantar.
Na manhã seguinte, ao acordar, João ainda estava muito triste e não conseguia es­quecer o acontecimento do dia anterior. Es­tava deitado, tentando encontrar um jeito de remediar o que havia feito, quando notou que havia alguma coisa impedindo o sol de entrar pela janela. Levantou-se para espiar o que era e, espantado, descobriu que os grãos de feijão não só haviam brotado durante a noite, como também haviam crescido assustadora­mente, transformando-se numa planta enor­me, que subia até o céu.
Admirado e feliz, o menino correu até o quintal e, sem pensar duas vezes, começou a subir pelo pé de feijão. Subiu, subiu e subiu; atravessou muitas camadas de nuvens ma­cias como flocos de algodão e, por fim, des­cobriu que a planta terminava num estranho país, onde tudo parecia deserto.
Como queria saber onde estava, João resolveu andar para ver se encontrava alguém por ali. Mas o lugar parecia completa­mente desabitado, pois, mesmo andando ho­ras em seguida, não viu ninguém pelo cami­nho. Porém, quando já estava escurecendo e o seu estômago até doía de fome, João avis­tou um enorme castelo para onde se dirigiu. Encontrou na porta uma mulher que pareceu muito assustada em vê-lo ali.
— O que você está fazendo aqui, menino? — disse ela. — Não sabe que esse castelo per­tence ao meu marido, um gigante muito mau, devorador de carne humana?
Ao ouvir isso, João sentiu as pernas bambearem de medo. Mas, como a mulher lhe dissesse que o gigante estava fora, caçando, e também como a fome e o cansaço não o dei­xassem andar mais, pediu a ela que o abri­gasse e escondesse até o dia seguinte.
Embora fosse casada com um homem tão mau, a esposa do gigante era uma pessoa muito bondosa. Assim, ficou com muita pena do menino e levou-o para dentro do castelo, onde serviu-lhe uma mesa coberta de coisas deliciosas. João, que estava morto de fome, comeu tudo com tanto apetite e gosto que logo se esqueceu do perigo que estava correndo. De repente, porém, ouviu-se um grande barulho na porta, seguido de passos tão pe­sados que o castelo inteiro estremeceu.
— Oh, meu Deus! — disse a mulher, tre­mendo como vara verde. — É o gigante, me­nino ! Ele não pode encontrar você aqui senão vai devorar você e a mim também!
Ao vê-la tão assustada, João ficou para­lisado de medo. Mas a mulher o puxou rapi­damente pela mão, e mal teve tempo de escon­dê-lo dentro do forno, antes que o gigante en­trasse na cozinha, gritando com sua voz de trovão:
— Mulher! Mulher, estou sentindo cheiro de carne humana!

Um, dois e três,
diga-me de uma vez:
onde está esse abelhudo?
Vou comê-lo com ossos e tudo!

Mais que depressa, a mulher explicou que o cheiro de carne era dos franguinhos que ela havia matado para o jantar.

João, que estava espiando por uma frestinha do forno, ficou apavorado só de pensar no que aconteceria se o gigante o encontrasse. Mas a bondosa mulher, que sabia que o ma­rido era muito comilão, apressou-se em ser­vir a comida, antes que ele começasse a pro­curar por todos os cantos da casa até encon­trar o pobre menino.
O gigante sentou-se então à mesa e, para começar a refeição, engoliu uma dúzia de frangos assados, com ossos e tudo. Com os olhos arregalados, João assistiu à mulher tra­zendo para a mesa pratos e mais pratos, que o gigante engolia rapidamente, sem nunca ficar satisfeito.
Quando acabou finalmente sua refeição, o comilão gritou para a mulher:
— Traga-me o dinheiro!
— Está bem! — respondeu ela, saindo da cozinha.
E, logo em seguida, voltava com dois sa­cos cheios de moedas de ouro. Depois de ordenar que a mulher fosse dormir, o gigante colocou os sacos de moedas sobre a mesa e começou a contá-las, enquanto esperava o sono chegar.
Quando se cansou desse divertimento, guardou as moedas de novo nos sacos e de­pois colocou-os no chão, perto de si. Só que, por precaução, amarrou ao pé da mesa um cão de guarda, e depois recostou-se na ca­deira e pôs-se a dormir.
João, que a tudo assistia de seu escon­derijo, esperou que o gigante estivesse dor­mindo profundamente e, quando viu que ele estava roncando como um trovão, saiu de mansinho do forno para roubar o dinheiro. Entretanto, assim que pôs as mãos sobre os sacos de moedas, o cão de guarda começou a latir feito louco e o pobre menino, apavo­rado, julgou-se completamente perdido.
Acontece que o gigante tinha um sono pe­sado demais e os latidos fizeram apenas com que ele se mexesse na cadeira, sem conse­guir acordá-lo.
Mais sossegado, o menino subiu na mesa da cozinha e, depois de pegar um pedação de carne, jogou-o ao cão, que abanou o rabo e ficou em silêncio, deliciando-se com o petisco.
João pôde assim pegar o dinheiro e fugir dali. Correu sem parar até alcançar o pé de feijão, descendo habilmente até chegar ao quintal de casa.
Em seguida, chamou pela mãe e, depois de contar-lhe toda a aventura, entregou-lhe os dois sacos de moedas.
Corri o dinheiro roubado do gigante, João e a mãe passaram a levar uma vida de rei. Nada mais faltava na casa e eles não pre­cisavam mais temer a fome e a necessidade.
Mas o tempo foi passando e os sacos de moedas começaram a ficar vazios. E João pensou, então, em voltar ao castelo do gi­gante, para se apoderar de mais riquezas.
Contou sua vontade à mãe e ela, com medo de que alguma coisa pudesse acontecer-lhe, proibiu-o de ir.
— Já pensou se o gigante agarrar você? — disse ela. — E a mulher dele? Ela certamente o reconhecerá e poderá entregá-lo ao marido!
Percebendo que a mãe não ia mesmo per­mitir, João fingiu aceitar o que ela dizia. Mas, na primeira chance que teve, saiu es­condido e subiu novamente pelo pé de feijão, desta vez muito bem disfarçado para que a mulher do gigante não o reconhecesse.
Chegou assim mais uma vez ao estranho país e, depois de caminhar até o anoitecer, avistou o castelo do gigante, na porta do qual encontrou novamente a boa mulher.
— Menino! — disse ela, sem reconhecer João. — O que você faz aqui? Não sabe que esse castelo é do meu marido, um gigante muito mau, devorador de carne humana?
João fingiu-se muito assustado, e pediu à mulher que o escondesse até o dia seguinte, dizendo que não conseguiria encontrar o ca­minho de casa no escuro.
— Ah, não! — respondeu ela. — De jeito nenhum! Da última vez que fiz isso me ar­rependi amargamente! Já dei abrigo a um menino como você e o mal-agradecido fugiu, levando dois sacos de moedas de ouro do meu marido. Por causa disso, quase fui devorada no lugar do malandrinho! E o gigante, desde então, tem estado com um humor terrível, que eu sou obrigada a suportar!
Mas João sabia ser convincente e pediu tantas vezes que a boa mulher acabou con­cordando em escondê-lo. Assim, levou-o para dentro do castelo e deu-lhe de comer e de beber. E, novamente, mal teve tempo de es­conder João, desta vez dentro de um quarti­nho de despejo, e o gigante já chegava, com seu andar tão pesado que fazia o castelo es­tremecer. Dali a pouco, ele já estava na co­zinha, gritando com voz de trovão:
— Um, dois e três.
Cheiro de gente outra vez! Onde está esse abelhudo? Vou comê-lo com ossos e tudo!
Enquanto dizia isso, o gigante procurava por todos os cantos da casa.
João, que a tudo assistia pela fechadura da porta, ficou morrendo de medo de ser en­contrado. Mas a bondosa mulher mais uma vez convenceu o marido de que não havia ninguém na casa e, enchendo a mesa de co­mida, conseguiu distraí-lo.
Novamente o gigante comeu até se far­tar e depois disse à mulher:
— Mulher, traga-me a galinha!
Ela, como da outra vez, obedeceu às or­dens e saiu da cozinha, para voltar logo de­pois, trazendo uma galinha viva. O gigante colocou a galinha sobre a mesa e, assim que a mulher se retirou, ordenou:
— Bote!
E João viu, espantado, a galinha botar um ovo que não era nem branco e nem igual aos das galinhas comuns, e sim de ouro, ouro puro e maciço!
— Bote outro! — ordenou o gigante.
E a galinha obedeceu. Assim aconteceu sucessivamente, até que a mesa da cozinha ficou repleta de ovos de ouro, bonitos e re­luzentes.
De repente, o gigante se cansou de man­dar a galinha botar os ovos e, debruçando-se sobre a mesa, caiu, logo em seguida, num sono profundo.
Quando ouviu o gigante roncando outra vez como um trovão, João saiu em silêncio de seu esconderijo. E, como desta vez não havia nem o cão de guarda para atrapalhar, foi muito fácil agarrar a galinha e fugir cor­rendo do castelo, até chegar ao pé de feijão.
Logo que entrou em casa, João chamou a mãe e, depois de lhe contar a sua aventura, entregou-lhe a galinha dos ovos de ouro.
Daquele dia em diante, nada mais lhes faltou, pois, sempre que precisavam de algu­ma coisa, bastava ordenar à galinha que bo­tasse um ovo, e ela obedecia prontamente.
Mesmo sendo agora rico e feliz, João voltou a ter vontade de subir outra vez ao castelo do gigante. Mas, sempre que falava nisso, a mãe o repreendia tão severamente, que o menino acabava adiando a viagem, sem entretanto desistir da idéia.


Passaram-se assim três anos, no final dos quais João tomou uma decisão: ia subir de novo, custasse o que custasse, e não con­taria nada à mãe.
Assim, esperou pacientemente que che­gasse o verão, quando os dias são mais lon­gos e, depois de se disfarçar muito bem, subiu pelo pé de feijão antes que o sol nascesse, para que a mãe não o visse.
Novamente chegou ao castelo numa hora em que o gigante não estava, e mais uma vez não foi reconhecido pela mulher, que voltou a falar-lhe dos perigos que corria estando ali. Só que, desta vez, foi muito mais difícil con­vencê-la a recolher um estranho em seu cas­telo, pois o gigante, depois do último roubo, estava com um humor insuportável e cada dia se tornava mais malvado.
João, porém, sabia que a mulher era muito bondosa e continuou insistindo até que conseguiu convencê-la. Foi então acolhido, e de novo lhe foi servida uma refeição deli­ciosa.
Mas nesse dia o gigante chegou tão re­pentinamente que a mulher só teve tempo de colocar João dentro de um caldeirão, antes que o marido entrasse na cozinha gritando:
— Mulher! Sinto cheiro de carne huma­na!

Um, dois e três,
diga-me de uma vez:
onde está o abelhudo?
Vou comê-lo com ossos e tudo!

E estava tão furioso e desconfiado, que começou a procurar por todos os cantos, sem nem ouvir a esposa chamando-o para o jantar.
Procurou, procurou e procurou até que, finalmente, chegou bem perto do caldeirão onde João estava escondido. Ao ouvir aqueles passos que faziam o chão tremer e aquela voz de trovão gritando furiosamente, o pobre menino achou que estava mesmo perdido. Por sorte, entretanto, o gigante sentiu uma fome repentina e ficou com preguiça de levantar a tampa do caldeirão. Por isso, desistiu de procurar e gritou:
— Mulher! Quero jantar!
Dentro de seu esconderijo, João suspirou aliviado. E ali ficou bem quietinho, esperan­do que o comilão fizesse sua interminável refeição.
Quando, afinal, estava satisfeito, o gi­gante gritou para a mulher:
— Traga-me a harpa de ouro!
E ela, como sempre fazia, obedeceu-lhe prontamente. O gigante esperou que ela se retirasse para dormir, depois colocou o ins­trumento sobre a mesa e ordenou:
— Toque!
No mesmo instante, a harpa de ouro co­meçou a tocar sozinha uma melodia doce e suave, que deixou João maravilhado e que embalou os sonhos do malvado gigante. As­sim, o menino esperou até que ele estivesse roncando bem alto, saiu em silêncio do cal­deirão e correu na direção do valioso instru­mento.
Acontece que a harpa era encantada e, ao sentir que mãos estranhas a tocavam, co­meçou a gritar com uma voz fininha:
— Socorro! Socooorro!
E o gigante, ou porque não estivesse dor­mindo ainda, ou porque gostasse muito da harpa, acabou acordando. Ao ver que estava sendo roubado, levantou-se da cadeira, gri­tando, furioso:
— Ah, seu maldito! Desta vez você me paga! Quando eu o pegar, vou engoli-lo vivo, com ossos e tudo!
Disse isso e veio direto em cima do po­bre João, que, muito assustado, começou a correr até não poder mais. A harpa de ouro, por sua vez, continuava gritando, com sua vozinha fina:
— Socorro, meu senhor! Estão me rou­bando !
E João, ao ouvi-la falar, corria mais ainda, achando que o gigante o estava alcan­çando.
De repente, no entanto, João percebeu que havia já alguns minutos não ouvia mais os urros e o barulho dos passos de seu perse­guidor. Intrigado, virou-se para trás e desco­briu uma coisa que o deixou muito feliz: o gigante, embora fosse grande e forte, já esta­va velho e não conseguia correr muito.
Mesmo assim, ainda havia um longo cami­nho para chegar ao pé de feijão, e por isso o menino agarrou de novo a harpa, que não pa­rava de gritar por socorro, e continuou a correr.
Horas depois, alcançou de novo seu pé de feijão e começou a descer. Quando estava já no meio da haste da imensa planta, porém, João olhou para cima e viu que o gigante, por ser muito pesado, descia numa rapidez incrível. Assim, logo que avistou o quintal de casa, o menino começou a gritar pela mãe:
— Mamãe, mamãe! Traga-me um ma­chado, depressa!
Quando João pôs os pés no chão, a mãe já se preparava para dar os primeiros golpes na planta. Mas a viúva, ao olhar para cima e ver o tamanho do gigante, ficou paralisada de medo.
João estava muito cansado, mas conse­guiu reunir todas as suas forças e, apossando-se do machado, golpeou várias vezes o pé de feijão. Tendo sido cortada a planta, o gi­gante despencou lá do alto, caindo ao chão com um grande estrondo. Era tão pesado que | seu corpo, ao cair, fez uma cratera enorme, que demorou muitos anos para fechar.
Livre do perigo que o ameaçava, João nbraçou a mãe alegremente. E, desde aquele dia, os dois passaram a viver tranquilos.
Tempos depois, quando se tornou um ho­mem forte e bonito, João se casou com uma princesa, com quem viveu feliz por muitos e muitos anos.
Quanto ao pé de feijão, depois de cor­tado, secou completamente e, como não havia mais sementes, nunca mais nasceu outro igual.



13/02/2008

Milagre Autêntico

Um homem apresentou-se a um mestre e lhe disse:
- Meu anterior mestre faleceu. Ele era um homem santo capaz de realizar muitos milagres. Que milagres és tu capaz de realizar?
- Eu quando como, como; quando durmo, durmo - respondeu o mestre.
- Mas isso não é nenhum milagre, eu também como e durmo.
- Não. Quando tu comes, pensas em mil coisas; quando dorme, fantasias e sonhas. Eu somente como e durmo. Isto é um milagre.






A Gata Borralheira



Era uma vez um fidalgo que casara em segundas núpcias com a mulher mais arrogante e orgulhosa que alguma vez se viu, mãe de duas filhas como ela e iguais como duas gotas de água. O marido também tinha uma filha, mas esta era doce e boa como a sua mãe, que fora a melhor pessoa do mundo.
Assim que se casaram, a madrasta mostrou logo que era muito má. Não podia suportar as boas qualidades da rapariguinha, pois, ao lado dela, as suas filhas pareciam ainda mais antipáticas. Por isso, começou a obrigá-la a fazer os trabalhos domésticos mais humildes: tratava da cozinha, limpava as escadas, arrumava os quartos da senhora e das suas filhas; dormia no sótão, num colchão de palha, enquanto as irmãs dormiam em quartos bonitos, com espelhos onde se podiam ver da cabeça aos pés. A pobre menina suportava tudo aquilo com paciência e não se queixava ao pai, porque sabia que ele lhe ralharia.
Quando acabava de limpar a casa, a boa rapariga refugiava-se a um canto da lareira e sentava-se nas cinzas. Por isso chamavam-lhe Gata Borralheira. Esta, porém, com os seus pobres vestidinhos, era cem vezes mais bonita do que as suas meias-irmãs que, no entanto, se vestiam como grandes senhoras.
Um dia o filho do rei organizou um baile e convidou todas as pessoas importantes. As duas irmãs foram convidadas, porque eram pessoas distintas no país. Começaram logo a escolher os vestidos e os penteados mais bonitos, cheias de alegria. A Gata Borralheira, coitada, teve que engomar os saiotes e os punhos dos vestidos das irmãs. Em casa só se falava do modo como iriam vestidas na noite da festa.
- Eu - decidiu a mais velha - vou levar o vestido de veludo vermelho com guarnição de renda da Inglaterra.
- Eu - declarou a mais nova - vou vestir o meu vestido do costume mas com o manto de flores de ouro e o colar de diamantes. Ficará um fato invulgar!
Chamaram as melhores cabeleireiras que lhes fizeram duas filas de caracóis. Por fim, chamaram a Gata Borralheira, cujo gosto muito apreciavam, para que desse a sua opinião. Ela deu-lhes óptimos conselhos, além de se oferecer para as ajudar a vestir, o que aceitaram imediatamente. Enquanto as vestia e penteava, as meias-irmãs perguntaram:
- Ó Gata Borralheira, gostavas de ir ao baile?
- Ah, meninas, estão a troçar! Essa festa não é para mim!
- Tens razão! Até dava vontade de rir, ver uma Gata Borralheira como tu num baile!
Qualquer outra rapariga no lugar dela teria feito tudo para as vestir mal, mas como era boa, vestiu-as melhor do que ninguém. As meias-irmãs fizeram dieta, não comeram durante dois e ficarem com cinturas de vespa.
Chegou finalmente o grande dia e as irmãs partiram. A Gata Borralheira seguiu-as com os olhos enquanto pôde e, quando desapareceram, desatou a chorar. A madrinha, que tinha vindo visitá-la, quis saber o que se passava.
- Eu queria... eu queria... - a Gata Borralheira chorava de tal maneira que nem conseguia falar.
A madrinha, que era uma fada, consolou-a:
- Também querias ir ao baile, não é?
- É isso mesmo - suspirou.
- Bem, prometi a mim própria ajudar-te e vou fazer com que vás ao baile - garantiu a madrinha. - Vai à horta e traz-me uma abóbora.
A Gata Borralheira foi a correr buscar a abóbora mais bonita que conseguiu encontrar. A madrinha esvaziou-a muito bem, até ficar só a casca, bateu-lhe com a varinha mágica e, de um momento para o outro, ela transformou-se numa linda carruagem completamente dourada.
A seguir, foi ver a ratoeira onde encontrou seis ratinhos ainda vivos. Pediu à Gata Borralheira que levantasse o ferro que os prendia e mal cada ratinho saía tocava-lhe com a varinha mágica. Imediatamente ele se transformava num belo cavalo. Assim conseguiu seis cavalos magníficos, cinzentos cor de rato. Mas como não soubesse de que havia de fazer o cocheiro, a Gata Borralheira lembrou:
- Vou ver se na outra ratoeira há algum rato, para fazer o cocheiro.
- Está bem - concordou a madrinha. - Vai ver.
Daí a pouco regressou com a ratoeira onde havia três grandes ratos. Dos três, a Fada escolheu o que tinha os bigodes mais compridos e, ao tocar-lhe, transformou-o num belo cocheiro com o bigode mais bonito que alguma vez se viu. Depois, a fada mandou:
- Vai ao jardim. Por trás do regador, encontrarás seis lagartos. Trá-los cá.
A Gata Borralheira obedeceu imediatamente. Trouxe os lagartos que a madrinha logo transformou em seis lacaios de librés magníficas. Estes subiram para a parte de trás da carruagem e ficaram lá, bem direitos como se nunca na vida tivessem feito outra coisa. Por fim, a fada perguntou:
- Aqui tens tudo o que é preciso para ires ao baile. Estás contente?
- Oh sim! Mas como hei-de ir com este vestido tão feio?
Mal a fada lhe tocou com a sua varinha, o pobre vestido transformou-se completamente. A Gata Borralheira tinha agora um vestido de brocado de ouro e prata, todo salpicado de pedras preciosas. Nos pés, um par de maravilhosos sapatinhos de cristal. Assim vestida, subiu para a carruagem.
A madrinha recomendou-lhe então que não voltasse depois da meia-noite, avisando-a de que, se ficasse no baile mais um minuto que fosse, a carruagem transformar-se-ia de novo em abóbora, os cavalos em ratinhos, os lacaios em lagartos e o vestido voltaria a ter o aspecto esfarrapado que ela conhecia.
A Gata Borralheira prometeu à madrinha que sairia do baile antes da meia-noite e partiu toda satisfeita. O filho do rei, a quem fora anunciada a chegada de uma princesa desconhecida, correu a recebê-la, deu-lhe a sua mão para a ajudar a descer da carruagem e conduziu-a à sala. Fez-se um grande silêncio. Todos pararam de dançar. Os violinos deixaram de tocar. Todos ficaram espantados com a grande beleza da menina. Só se ouvia murmurar:
- Oh! Como é linda!
O próprio rei, embora velho, segredou baixinho à rainha que há muitos anos não via mulher tão bonita e graciosa. Nenhuma dama tirava os olhos dela. Observavam atentamente o penteado e o vestido, para o poderem imitar no dia seguinte, mal descobrissem um tecido tão bonito e modista tão habilidosa. O príncipe concedeu-lhe um lugar de honra e convidou-a para dançar. Ela dançou com tanta elegância que deixou todos maravilhados. Foi servido um magnífico refresco, que ele nem sequer provou, de tal modo estava encantado. Foi então que ela foi para junto das meias-irmãs. Falou-lhes com delicadeza e ofereceu-lhes as laranjas e os limões que o príncipe lhe tinha oferecido, o que as encantou, tanto mais que não a reconheceram.
Enquanto conversavam, a Gata Borralheira ouviu o relógio tocar um quarto para a meia-noite. Imediatamente se despediu e partiu, rápida como o vento. Mal chegou a casa, foi ter com a madrinha. Agradeceu-lhe e disse-lhe que gostaria muito de ir à festa do dia seguinte, já que o filho do rei tanto lho tinha pedido.
Enquanto lhe contava os pormenores da festa, as duas irmãs tocaram à porta e a Gata Borralheira foi abrir.
- Vieram tão tarde! - disse ela, esfregando os olhos e espreguiçando-se, como se tivesse acabado de acordar.
Mas na verdade não sentia sono nenhum.
- Se tivesses ido ao baile - disse-lhe uma das irmãs - não te terias aborrecido. Estava lá a princesa mais bonita do mundo. Foi muito delicada connosco e ofereceu-nos laranjas e limões.
A Gata Borralheira não cabia em si de contente. Perguntou o nome da princesa, mas as irmãs não sabiam.
Contaram-lhe, porém, que o filho do rei queria muito saber quem ela era e que, para o saber, daria o que quer que fosse. A Gata Borralheira sorriu e disse:
- Então ela devia realmente ser muito bonita! Meu Deus, que sorte a vossa! Como gostava de a ver! Menina Julieta, empresta-me só por esta vez o seu vestido amarelo, o que usa todos os dias?
- Aquele que eu também quero? - Perguntou Julieta. - Emprestar o meu vestido a uma Gata Borralheira como tu? Só se eu fosse maluca!
A menina já esperava esta resposta e, por isso, ficou contente, pois estaria metida num grande sarilho se a meia-irmã lhe tivesse emprestado o vestido.
Na noite seguinte as duas irmãs foram de novo ao baile. A Gata Borralheira também foi, vestida de forma ainda mais luxuosa do que da primeira vez. O filho do rei não a deixou nem um momento e todo o serão lhe segredou frases apaixonadas e galantes. A menina, que não estava nada aborrecida, esqueceu-se das recomendações da madrinha de tal modo que, quando ouviu a primeira badalada da meia-noite, pensou que ainda fossem onze horas. Mas, ao dar-se conta do que se passava, levantou-se e fugiu, ligeira como um gamo. O príncipe correu atrás dela, mas não a conseguiu apanhar. Ao fugir, a Gata Borralheira perdeu um sapatinho de cristal que ele guardou com o maior carinho.
A Gata Borralheira chegou a casa sem fôlego, sem carruagem, nem lacaios. Trazia o vestido com que costumava andar e, de todo o luxo, apenas lhe restava um dos sapatinhos. Tinha perdido o outro no caminho.
Tentaram saber se os porteiros do palácio real haviam visto sair alguma princesa, mas eles responderam que não saíra ninguém, a não ser uma rapariga tão mal vestida que mais parecia uma camponesa.
Quando as irmãs regressaram do baile, logo a Gata Borralheira lhes perguntou se se tinham divertido e se lá estava também aquela linda senhora. Que sim, mas que fugira no momento em que batia a meia-noite, e tão depressa que deixara cair um dos seus sapatinhos de cristal, o sapatinho mais bonito do mundo. Que o filho do rei o tinha guardado e não fizera outra coisa senão olhar para ele enquanto durou o baile, o que queria dizer que se apaixonara perdidamente pela linda senhora a quem o sapatinho pertencia.
As irmãs diziam a verdade. Com efeito, poucos dias depois, o príncipe mandou proclamar ao som das trombetas que casaria com a menina em cujo pé o sapatinho servisse perfeitamente.
Em primeiro lugar experimentaram as princesas, depois as duquesas e todas as damas da corte, mas em vão. O sapatinho acabou por chegar a casa das duas irmãs, que fizeram o impossível para o calçarem, mas não conseguiram.
A Gata Borralheira, que as observava e que reconhecera o sapatinho, acabou por sugerir:
- Vejamos se me serve a mim!
As irmãs desataram a rir e a fazer pouco dela. O cavalheiro encarregado de experimentar o sapatinho, encantado com a beleza da Gata Borralheira, achou que era justo, uma vez que tinha ordem para que todas as meninas do reino o experimentassem. Deixou-a sentar-se e tentou calçar-lhe o sapatinho. Servia-lhe como uma luva. Grande foi o espanto das irmãs. Porém, maior ficou quando a Gata Borralheira tirou do bolso o outro e o calçou no outro pé.
Nesse momento chegou a madrinha que tocou com a varinha de condão nas roupas da Gata Borralheira, tornando-as mais luxuosas que nunca. Foi então que as irmãs reconheceram nela a linda senhora do baile e, ajoelhando-se aos seus pés, pediram-lhe desculpa pelos maus tratos. A Gata Borralheira mandou-as levantarem-se e abraçou-as. Disse-lhes que lhes perdoava do fundo do coração e pediu-lhes que gostassem sempre dela. Depois, magnificamente vestida, foi levada à presença do príncipe, aos olhos de quem parecia ainda mais bonita, e casaram poucos dias depois.
Como tinha tanto de bondosa como de bonita, convidou as duas meias-irmãs a irem ao palácio e, nesse mesmo dia, casou-as com dois fidalgos.




12/02/2008

A Figueira

Exortação à Vigilância



Aprendei, pois, a parábola da figueira: quando já os seus ramos se renovam e as folhas brotam, sabeis que está próximo o verão. Assim também vós: quando virdes todas essas coisas, sabei que está próximo, às portas.
Em verdade vos digo que não passará esta geração sem que tudo isso aconteça. Passará o céu e a terra, porém as minhas palavras não passarão. Mas a respeito daquele dia e hora ninguém sabe, nem os anjos dos céus, nem o Filho, senão o Pai.
Pois assim como foi nos dias de Noé, também será a vinda do Filho do Homem. Porquanto, assim como nos dias anteriores ao dilúvio comiam e bebiam, casaram e davam-se em casamento, até ao dia em que Noé entrou na arca. E não o perceberam, senão quando veio o dilúvio e os levou a todos, assim será também a vinda do Filho do Homem.
Então, dois estarão no campo, um será tomado, e deixado o outro; duas estarão trabalhando num moinho, uma será tomada, e deixada a outra. Portanto, vigiai, porque não sabeis em que dia vem o vosso Senhor.
Mas considerai isto: se o pai da família soubesse a que hora viria o ladrão, vigiaria e não deixaria que fosse arrombada a sua casa. Por isso, ficai também vós apercebidos; porque, à hora em que não cuidais, o Filho do Homem virá.


Parábolas de Jesus
Evangelho de Mateus cap. 24 vers. 32-44


08/02/2008

O Homem e sua Mulher / O Galo e as 50 Galinhas

Na história intitulada O conselheiro, quando o homem deu uma risada ao ouvir o segundo conselho dado pelo burro ao boi, sua mulher (que não conhecia a linguagem dos animais) ficou perplexa e curiosa e quis saber por que ele riu. O homem não podia revelar que conhecia a linguagem dos animais. Respondeu à mulher que esse riso envolvia um segredo que lhe era proibido divulgar sob pena de morte. - Quero que me contes esse segredo, mesmo que tenhas que morrer insistiu a mulher. Como o homem amava sua mulher e nada lhe recusava, consentiu em revelar-lhe o segredo e perder a vida. Mandou, pois, vir o cádi e as testemunhas para deixar consignadas oficialmente suas últimas vontades. E mandou vir seus parentes e os de sua mulher para despedir-se deles. Todos aconselharam à mulher desistir de seu propósito e não empurrar para o túmulo seu marido e pai de seus filhos. Ela, porém, teimou, repetindo: "Quero conhecer o segredo, mesmo que ele tenha que morrer”.Toda essa movimentação despertou a atenção do cão e dos animais da capoeira. O cão censurou o galo por estar cantando quando o amo deles todos estava para morrer. O galo perguntou: "E por que nosso amo está para morrer?”
O cão contou-lhe a história. Comentou o galo: "Por Alá, nosso amo é muito tolo. Eu tenho cinquenta esposas. Agrado a uma; desagrado a outra; mas não permito nenhuma rebelião entre elas. E ele tem apenas uma esposa e não consegue controlá-la. O que ele deve fazer é apanhar umas varas verdes nas amoreiras e bater nela até que se arrependa e não mais lhe exija nada." O homem ouviu o que o galo disse ao cão, pensou e decidiu seguir o conselho do galo. Cortou umas varas das amoreiras, escondeu-as no quarto do casal e chamou a mulher: "Vem comigo até nossa alcova para que te conte o segredo e me despeça de ti para sempre”.Quando a mulher entrou no quarto, o homem trancou a porta, apanhou as varas e bateu nela até que ficou cega de dor e gritou: ‘ Arrependo-me. " E beijou lhe as mãos e os pés. Em seguida, saíram juntos em paz para iniciar uma nova vida. E os parentes e os vizinhos se regozijaram por eles.





O Conselheiro




Contam que certo lavrador possuía um burro que o repouso engordara e um boi que o trabalho abatera. Um dia, o boi queixou-se ao burro e perguntou-lhe: "Não terás, ó irmão, algum conselho que me salve desta dura labuta?" O burro respondeu: "Finge-te de doente e não comas tua ração. Vendo-te assim, nosso amo não te levará para lavrar o campo e poderás descansar." Dizem que o lavrador entendia a linguagem dos animais e compreendeu o que eles conversaram. Na manhã seguinte, viu que o boi não comera sua ração. Deixou-o e levou o burro em seu lugar. O burro foi obrigado a puxar o arado o dia todo, e quase morreu de cansaço. E lamentou o conselho que dera ao boi. Quando voltou à noite, perguntou-lhe o boi: "Como vais, querido irmão?" Respondeu o burro: "Vou muito bem. Gostei da luz do sol e da alegria dos campos. Mas ouvi algo que me fez estremecer por tua causa. Ouvi nosso amo dizer: `Se o boi continuar doente, deveremos matá-lo para não perdermos sua carne.' Minha opinião é que comas tua ração e voltes para tua tarefa a fim de evitar tamanho infortúnio." O boi concordou e devorou toda a sua ração.O lavrador estava ouvindo, e riu.



Desapego

Um cidadão fez voto de desapego e pobreza. Dispôs de todos os seus bens e propriedades, reservou para si apenas duas tangas, e saiu Índia afora em busca de todos os sábios, medindo na verdade o desapego de cada um. Levava apenas uma tanga no corpo e outra para troca, sempre necessário.
Estava convencido de não encontrar quem ganhasse de si em despojamento, quando soube de um velho guru, bem ao norte, aos pés do Himalaia. Tomando as direcções, parte ao encontro do velho sábio.
Quando lá chegou, tristeza e decepção! Encontrou terras bem cuidadas, um palácio faustoso, muita riqueza, muita pompa. Indignado, procura pelo guru. Um velho servo lhe diz que ele está em uma ala dos magníficos jardins com seus discípulos, estudando desapego. Como era costume da casa Ter gentileza para com os hóspedes, o servo convida o andarilho para o banho, repouso e refeição, antes de se dirigir à presença do sábio.
Achando tudo muito estranho, o desapegado aceita a sugestão. Toma um bom banho, lava sua tanga usada, coloca-a para secar no quarto e sai em busca do guru. Completamente injuriado, queria contestar e desmascarar aquele que julgava um impostor, pois em sua concepção desapego não combinava com posses. Aproxima-se do grupo, que ouve embevecido as palavras do mestre e fica ruminando um ardil para atacar o guru, quando, correndo feito um doido, chega um dos serviçais gritando:
- Mestre, mestre, o palácio está pegando fogo, um incêndio tomou conta de tudo. O senhor está perdendo uma fortuna! O sábio, impassível, continua sua prédica. O desapegado viajante das duas tangas dá um salto e sai em desabalada carreira, gritando:
- Minha tanga, minha tanga, o fogo está destruindo minha tanga...






06/02/2008

Lenda da Serra da Estrela




Era uma vez um pastor que vivia com o seu rebanho numa alta serra do centro de Portugal. Como todos os pastores, fazia da solidão uma amiga. A companhia da natureza e dos animais bastavam-lhe. Há muito tempo que tinha trocado a aldeia pelos altos e grandes prados, onde sempre se tinha sentido melhor. De dia, corria e brincava com os animais e, quando já estava cansado, então via apenas. Observava a vastidão e o colorido de uma paisagem sempre a mudar,
Já lhe conhecia bem as maneiras, os sons e os cheiros. E à noite, recolhido o rebanho ainda lhe sobrava tempo para falar de tudo o que lhe apetecia com a sua grande amiga. Era mesmo grande aquela estrela que se erguia imponente e luminosa bem acima do alto da serra, rodeada por milhares de outras mais pequenas. Era a sua confidente de todas as noites. Ouvia-o sem nunca se aborrecer. E ele voltava sempre à procura daqueles momentos mágicos em que encontrava paz e entusiasmo para recomeçar um novo dia. Certa vez, chegou aos ouvidos do Rei que nas suas terras havia um pastor que falava com as estrelas e logo, por curiosidade ou inveja, o mandou chamar à sua presença, propondo-lhe que trocasse a estrela falante por uma grande riqueza. Afinal de contas, não era qualquer rei que se podia gabar de falar com uma estrela.
O pastor disse-lhe então que não trocaria a sua amiga por riqueza alguma deste mundo. Antes ser pobre e continuar feliz.
Desapontado, mas compreendendo as suas razões, o rei, mandou-o em paz.
Quando chegou à cabana no alto da serra, mal anoiteceu, foi ter com a sua amiga estrela e, dessa vez, foi ela a confessar-lhe os seus receios. Entoando uma doce melodia, disse-lhe que, por momentos, chegou a pensar que ele a tivesse trocado pelo dinheiro do poderoso rei. Foi a vez do pastor a sossegar, dizendo-lhe que a sua amizade era para ele a mais preciosa das coisas e, em alta e profética voz, deu o seu nome àquela que era também a sua serra: Serra da Estrela.
Ainda hoje se diz que na Serra, uma estrela diferente das outras brilha à procura do seu pastor.


05/02/2008

Crono


Vencedor de seu pai Urano, Crono se tornou o senhor todo-poderoso do universo. Em vez de beneficiar seus parentes, libertando os irmãos, preferiu reinar sozinho e os deixou encerrados nas profundezas da terra. Sua mãe, furiosa, predisse seu fim:
"Você também, filho meu, será deposto do trono por um dos seus filhos!"
Temendo a realização dessa profecia, Crono fez como o pai: arranjou um jeito de eliminar os filhos que lhe dava sua esposa Réia. Cada vez que nascia um, ele o devorava. Isso ocorreu com cinco recém-nascidos.
A mãe deles, desesperada, foi ver Gaia:
"Querida avó, preciso da sua ajuda. Seu filho faz desaparecer todos os filhos que concebo. Um sexto acaba de nascer. E um menino. Ajude-me a salvá-lo!"
"Você precisa ser mais astuciosa do que ele, minha filha", respondeu-lhe maliciosamente Gaia. "Enrole uma pedra numa coberta e entregue a Crono, no lugar do bebé. Ele nem vai desconfiar e vai engolir a pedra, como engoliu os outros filhos!"
A profecia de Gaia não tardaria a se realizar: o bebê que elas acabavam de salvar era Zeus. O jovem deus logo tomou do pai o poder absoluto sobre o mundo...

Contos e Lendas da Mitologia Grega


04/02/2008

Urano e Gaia




Da união deles nasceram primeiro seis meninos e seis meninas, os Titãs e as Titânides, todos de natureza divina, como seus pais. Eles também tiveram filhos.
Um deles, Hiperíon, uniu-se à sua irmã Téia, que pôs no mundo Hélio, o Sol, e Selene, a Lua, além de Eo, a Aurora. Outro, Jápeto, casou-se com Clímene, uma filha de Oceano. Ela lhe deu quatro filhos, entre eles Prometeu. O mais moço dos Titãs, Crono, logo, logo ia dar o que falar.
A descendência de Urano e Gaia não parou nesses filhos. Conceberam ainda seres monstruosos como os Ciclopes, que só tinham um olho, bem redondo, no meio da testa, e os Cem-Braços, monstros gigantescos e violentos. Os coitados viviam no Tártaro, uma região escondida nas profundezas da terra. Nenhum deles podia ver a luz do dia, porque seu pai os proibia de sair.
Gaia, a mãe, quis libertá-los. Ela apelou para seus primeiros filhos, os Titãs, mas todos se recusaram a ajudá-la, excepto Crono. Os dois arquitectaram juntos um plano que deveria acabar com o poder tirânico de Urano.
Certa noite, guiado pela mãe, Crono entrou no quarto dos pais. Estava muito escuro lá, mas o luar lhe permitiu ver seu pai, que roncava tranqüilo. Com um golpe de foice, cortou-lhe os testículos. Urano, mutilado, berrou de raiva, enquanto Gaia dava gritos de alegria. Esse atentado punha fim a uma autoridade que ela estava cansada de suportar, e a inútil descendência deles parava aí — ou quase... Algumas gotas de sangue da ferida de Urano caíram na terra e a fecundaram, dando origem a demónios, as Erínias,1 a outros monstros, os Gigantes, e às ninfas,2 as Melíades.


Contos e Lendas da Mitologia Grega



1 Divindades infernais. Com seu corpo alado, sua cabeleira de serpentes e munidas de tochas e chicotes, atormentam suas vítimas, levando-as à loucura.
2 Deusas que vivem nos bosques, nas montanhas, nos rios, no mar.


03/02/2008

O vinho de Maomé


Certo dia colocaram vinho, este divino suco da uva, dentro de uma magnífica taça de ouro que estava a mesa de Maomé.
- Oh, que honra! - pensou o vinho - que glória para mim estar à mesa de Maomé!
Porém, subitamente ocorreu-lhe outro pensamento e ele disse consigo mesmo:
- Mas que honra é essa, e que glória? Por que estou tão satisfeito? Nada disso é verdade. Escute, chegou a hora de minha morte. Dentro em breve deixarei minha linda casa, esta magnífica taça de ouro, para entrar na escura caverna do corpo humano.
E uma vez lá dentro, meu suco doce e perfumado será transformado em água.
Oh, céus! - gritou desesperado - façam justiça, vinguem-me por tal ofensa! Não é justo que me desprezem assim! Júpiter, pai Júpiter - orou o vinho - mesmo que esta terra produza as melhores e mais lindas uvas do mundo, fazei com que elas não se transformem em vinho!
Júpiter ouviu a prece do vinho e decidiu atendê-la.
Quando Maomé terminou de beber o conteúdo da taça de ouro, Júpiter fez com que todos os vapores do vinho lhe subissem à cabeça e ele ficou embriagado. E enquanto estava sob o efeito do vinho, Maomé comportou-se como um louco, fazendo bobagens uma atrás da outra. Quando finalmente ficou novamente sóbrio, baixou uma lei proibindo a seus seguidores que tomassem vinho.
Desse dia em diante, a vinha, com suas gostosas frutas, foi deixada em paz.






01/02/2008

A Águia e a Coreixa


A Águia tomou nas unhas um Cágado para cevar-se, e trazendo-o pelo ar, e dando-lhe picadas, não podia matá-lo, porque estava mui recolhido em sua concha. Embravecia-se muito com isso a Águia, sem lhe prestar, quando chega a Coreixa, e diz:
- A caça que tomastes é em extremo boa, mas não podereis gozar dela senão por manha.
Disse a Águia que lhe ensinasse a manha e partiria com ela da caça. A Coreixa o fez dizendo:
- Subi-vos sobre as nuvens, e de lá deixai cair o Cágado sobre alguma laje, quebrará a concha e ficar-nos-á a carne descoberta.
A Águia assim o fez; sucedendo como queriam, comeram ambas da caça.


A raposa e a cegonha



Quis a raposa matreira
Que excede a todas na ronha.
Lá por piques de outro tempo,
Pregar um ópio à cegonha.

Topando-a, lhe diz: "Comadre,
Tenho amanhã belas migas,
E eu nada como com gosto
Sem convidar as amigas.

De lá ir jantar comigo
Quero que tenha a bondade:
Vá em jejum porque pode
Tirar-lhe o almoço a vontade".

Agradeceu-lhe a cegonha
Uma oferenda tão singela,
E contava que teria
Uma grande fartadela.

Ao sítio aprazado foi.
Era meio-dia em ponto.
E com efeito a raposa
Já tinha o banquete pronto.

Espalhadas em um lajedo
Pôs as migas do jantar
E à cegonha diz: "Comadre,
Aqui as tenho a esfriar.

Creio que são muito boas, —
Sansfaçon, — vamos a elas".
Eis logo chupa metade
Nas primeiras lambidelas.

No longo bico a cegonha
Nada podia apanhar;
E a raposa em ar de mofa,
Mamou inteiro o jantar.

Ficando morta de fome,
Não disse nada a cegonha;
Mas logo jurou vingar-se
Daquela pouca vergonha.

A dar-me o gosto amanhã
D'ir também jantar comigo".

A raposa lambisqueira
Na cegonha se fiou,
E ao convite, às horas dadas,
No outro dia não faltou.

Uma botija com papas
Pronta a cegonha lhe tinha;
E diz-lhe: "Sem cerimônia,
A elas, comadre minha".

Já pelo estreito gargalo
Comendo, o bico metia;
E a esperta só lambiscava
O que à cegonha caía.

Ela, depois de estar farta,
Lhe disse: "Prezada amiga,
Demos mil graças ao céu
Por nos encher a barriga".

A raposa conhecendo
A vingança da cegonha,
Safou-se de orelha baixa.
Com mais fome que vergonha.

Enganadores nocivos,
Aprendei esta lição.
Tramas com tramas se pagam.
Que é pena de Talião.

Se quase sempre os que iludem
Sem que os iludam não passam.
Nunca ninguém faça aos outros
O que não quer que lhe façam.

Curvo Semedo (Trad.)

31/01/2008

João Pequenito

Um homem pobre, que tinha três filhos, sugeriu-lhes que fossem correr mundo em busca de fortuna, pois ele não lhes podia dar nada. Os filhos partiram, chegando à corte de um rei turco muito malvado. O rei os recebeu no palácio e os botou para dormirem na cama de suas três filhas, cobertos por uma carapuça, para que fossem mortos durante a noite. O irmão mais jovem, João Pequenito, levantou-se à noite, retirou a carapuça da cabeça dos rapazes e colocou-as nas cabeças das filhas do rei, fugindo do palácio com os irmãos. Quando já estavam muito longe, João disse aos outros dois que eles deveriam separar-se. Pequenito foi ao palácio de um rei, oferecendo-se para ser seu criado, sendo nomeado jardineiro. Sendo um ótimo empregado, o rei o estimava mais do que aos outros criados, que começaram a ter muita inveja de João. Tanta que foram dizer ao rei que Pequenito dissera ser capaz de ir roubar uma bolsa de ouro que ficava à cabeceira do rei turco, o malvado. Ao ser interrogado pelo rei, o jovem disse que iria, sem problemas. Chegando ao palácio do turco, subiu pela parede, entrou pela janela, tirou a bolsa debaixo do travesseiro enquanto o rei malvado dormia e fugiu. Porém, o papagaio começou a gritar e o malvado acordou. Como joão já fosse muito longe, o turco perguntou da janela se ele voltaria, ao que o jovem respondeu que sim. Depois de alguns dias, os invejosos foram dizer ao rei que o Pequenito afirmara ser capaz de roubar a coberta de campainhas do turco. Ao ser questionado, o jardineiro disse que iria. A situação repetiu-se como da primeira vez e João levou a coberta ao rei, que ficou cada vez mais encantado com o rapaz. Então, os invejosos falaram que o Pequenito disse que pegaria o papagaio do turco. O jovem, sem nenhuma dúvida, foi em busca do papagaio. Finalmente, os invejosos disseram que, desta vez, João furtaria o rei turco. O rei, então, lhe garantiu que se ele trouxesse o turco, casaria com a princesa sua filha. João pediu um exército e alguns navios e partiu. Foi ao palácio do malvado, envolveu-o nas roupas de cama, desceu com ele pela janela e lá foi à frente de seu exército, levando o turco ao seu amo. Pequenito casou com a princesa e mandou buscar seus pais e irmãos para viverem consigo na corte.