16/03/2008

Lenda da Galanteria de D.Rodrigo



Loulé era já conhecida dos romanos que aí exploravam minas. Em 1249 D. Paio Peres Correia, mestre de Santiago, tomou Loulé aos Mouros. A Loulé foi dado foral em Agosto de 1266. A igreja matriz data de D. Dinis.

Esta lenda nasceu em Loulé, no Cabeço do Mestre. Estava-se no reinado de D. Afonso III, o Conquistador. D. Paio Peres Correia queria conquistar o Algarve; dispunha de muitos cavaleiros a seu mando e, de entre eles, surgia D. Rodrigo de Mascarenhas, famoso por ser galante com as damas.

As tropas cristãs tinham chegado às portas de Loulé. Os cavaleiros cristãos tinham entrado na fortaleza e fizeram prisioneiros. Entre estes, estava um jovem ricamente vestido mas triste.
- Porque estais triste? Na guerra ou se vence ou se é vencido- disse D.Rodrigo.
O rapaz contou que se chamava Abindarráez e que era da linhagem dos bencerragens (pertenciam à poderosa tribo do Califa de Granada).
Quando eu era pequeno, fui criado juntamente com a filha do alcaide de Cártama (antiga vila do califado de Córdova que hoje faz parte da província de Málaga em Espanha); lá eu brincava com Jarrefa. Ela cresceu, tornou-se uma bela mulher quando quisemos unirmos, o pai dela não deixou. E enviaram-me para aqui. Há dois dias, um mensageiro de Jarrefa, disse para eu ir ter a Silves ou Xelb*. Vesti o meu melhor fato e quando soube que as vossas tropas estavam aqui, tive que lutar e ainda perdi! Jarrefa está em perigo em Silves e não a posso ajudar. Se eu pudesse!
- Vou dar-te uma oportunidade- disse D. Rodrigo. Vais buscá-la mas, voltam para cá como cativos.
O rapaz foi buscá-la e disse que se ela não quisesse ser esposa de um cativo, ele iria sozinho. A rapariga acedeu. Voltaram ambos; chegados a campo cristão, foram bem recebidos. A beleza da jovem e o porte do rapaz encantaram todos. Mais tarde, o rei cristão concedeu-lhes perdão e o pai da rapariga também. Jarrefa, emocionada, pegou na mão de D. Rodrigo e perguntou como podia agradecer.
Respondeu D. Rodrigo:- Sorrindo, bela dama. O vosso sorriso é o mais belo do mundo. E assim, D. Rodrigo deixou-os partir.
Semanas mais tarde, o rapaz enviou emissários com dois bonitos cavalos brancos e uma grande quantia em dinheiro. D. Rodrigo recusou dizendo que a sua função não era roubar damas mas, servi-las e honrá-las. Apenas enviava as suas homenagens à mais bela dama e ao jovem de sangue nobre.

* Silves- ou Xelb- foi conquistada no reinado de D. Sancho I em 1189, reconquistada por Ibne Iuçufe em 1191 e reconquistada pelos cristãos em 1198.Só paio pires toma a cidade,quando governava Muça Ibne mahomed ou Ibne Maholf, o Almançor.



14/03/2008

Adultério com os olhos


Quando as três irmãs estavam brincando com o carregador (história do Carregador e as jovens mulheres), bateram à porta. A irmã mais nova foi abrir e voltou, dizendo: "Completou-se nossa alegria esta noite, pois encontrei à porta três estrangeiros semi-anões do tipo Saaluks tendo cabeça pequena e pescoço fino. Os três têm a barba raspada e bigodes compridos e são zarolhos do olho esquerdo, e cada um apresenta um aspecto mais divertido que o outro. Pediram-me asilo. Se os deixarmos entrar, vamos nos divertir gostosamente às suas custas”.As duas outras irmãs concordaram e os três Saaluks foram admitidos. Após cumprimentar a todos, animaram-se de repente e tomaram parte na festa, tocando alaúde, tamborim e flauta, dançando e cantando. Depois, cada um deles contou sua história. A do segundo Saaluk é a mais divertida. Disse: Em verdade, eu não nasci zarolho, e a história que vou contar é tão assombrosa que se fosse escrita com uma agulha no canto interno dos olhos, serviria de lição a todo homem circunspecto. Embora esteja hoje mal vestido e de aparência comum, eu sou um rei, filho de rei, um homem educado acima do normal. Li o Alcorão e os livros dos mestres e aprendi as ciências e os segredos dos astros. Minha fama espalhou-se a tal ponto que, um dia, o rei da Índia solicitou a meu pai que me deixasse visitá-lo. Meu pai consentiu e mandou preparar seis navios para acompanhar-me, enchendo-os dos presentes mais preciosos. Após navegar trinta dias, chegamos a terra firme, carregamos os dez cavalos e dez camelos que estavam conosco com os presentes destinados ao rei da Índia e iniciamos a marcha. Mas logo fomos assaltados por um bando de sessenta árabes do deserto, os quais mataram meus escravos, apoderaram-se de meus cavalos e ameaçaram matar-me também. Fugi e me refugiei numa gruta encontrada por acaso. No dia seguinte, sai de meu esconderijo e pus-me a caminhar até que cheguei a uma grande e bela cidade que a primavera cobria de rosas. Estava errando pelas ruas quando passei pela porta de um alfaiate que cosia na sua loja. Cumprimentei-o, e ele me cumprimentou, e sentimos uma mútua simpatia ligar-nos. Convidou-me a entrar, e vendo-me pálido e exausto ofereceu-me o que comer e beber e perguntou-me de onde vinha. Contei-lhe minha história. - Meu simpático amigo, disse-me, não contes tua história a ninguém por aqui, pois o rei desta terra é inimigo de teu pai por causa de uma antiga desavença, e espera uma oportunidade para vingar-se dele. Quanto a teu saber, de nada te pode servir neste ambiente onde ninguém se interessa por cultura ou sequer sabe ler. Resigna-te, aceita minha hospitalidade, descansa três dias, depois apanha um machado e vai cortar lenha na floresta até que Alá te abra uma porta melhor. Segui as sugestões de meu novo amigo. Após descansar, comprei um machado e, todos os dias, acompanhava os outros lenhadores. Cortava lenha que carregava sobre a cabeça e vendia nas ruas por meio dinar. Um dia, enquanto cavava a terra em volta das raízes de uma árvore, meu machado ficou preso no anel de uma placa de cobre. Levantei a placa e descobri uma escada. Desci pela escada e, ao fundo, deparei com uma porta. Abri-a e achei-me na sala de um magní6co palácio. E lá encontrei uma jovem mais bela que todas as pérolas. Minha fadiga desapareceu por magia, ajoelhei-me diante dela e adorei-a. Olhou para mim e perguntou: "És um homem ou um gênio?" Respondi: "Sou um homem”.- Como então pudeste chegar a este lugar onde vivo há mais de vinte anos sem ter visto um filho de Adão? Respondi: "Princesa, foi Alá que me conduziu até aqui para me compensar de minhas privações e sofrimentos”.E contei-lhe minha história. Chorou e contou-me a sua: "Sou a filha do rei Ifitamous, da Índia. Meu pai casou-me com meu primo, mas na própria noite do casamento, e antes que minha virgindade fosse tomada, o Afrit Jurgis me raptou e trouxe-me para este palácio, que encheu com tudo que se possa desejar em iguarias, bebidas, vestidos e móveis. Desde então, vem passar uma noite comigo de dez em dez dias. Se precisar dele antes da noite marcada, basta-me esfregar essa inscrição que vês ali na parede. E ele logo aparece. A última vez que veio foi há quatro dias. Faltam seis dias para a sua próxima visita. Poderás ficar comigo até lá e ir embora antes de sua chegada. Pois ele é de um ciúme perigoso." E cantou para mim na mais melodiosa das vozes: Se soubéssemos de tua vinda, teríamos espalhado nosso coração como um tapete para teus pés. Depois, passamos uma noite mais cheia de prazeres que as noites prometidas aos fiéis no Paraíso. Perguntei-lhe: "Não me deixarás levar-te deste subterrâneo e livrar-te do gênio?" Respondeu: "O pobre Afrit tem apenas uma noite e tu tens nove. Satisfaze-te assim”.Eu, entretanto, na minha paixão e estupidez, quebrei a inscrição mágica deixada pelo Afrit, supondo que o impediria assim de voltar àquela morada. Mas ele logo apareceu, um gigante capaz de derrubar sozinho um exército inteiro. Fugi pela escada, mas, na minha agitação, esqueci minhas sandálias e meu machado.
- De quem são esse machado e essas sandálias, ó traidora infame? perguntou o Afrit. - Nunca reparei neles, respondeu a jovem. Talvez os tenhas trazido, agarrados a tuas vestes, sem o perceber. - Tu te tornas ainda mais culpada, acrescentando a mentira à traição, bradou o Afrit. E pondo-a toda nua, crucificou-a entre quatro estacas e começou a bater nela. Não podendo agüentar vê-la maltratada assim, saí pela abertura e recoloquei a tampa no lugar. Mal tinha chegado à casa do alfaiate, chamaram-me da rua, dizendo que um mouro achara meu machado e minhas sandálias e queria mos devolver. O Afrit tinha, com efeito, apanhado minhas coisas e interrogado todos os lenhadores até descobrir que eram minhas. Arrastou-me e levou-me de volta ao palácio da moça, e disse-lhe: "Eis teu amante, desavergonhada rameira." Ela negou conhecer-me. "Neste caso, corta-lhe a cabeça com esta espada," ordenou o gênio. Mas ela parou diante de mim e largou a espada sem força para me matar. - É tua vez, disse-me o gênio. Corta-lhe a cabeça. Olhei para ela e olhou para mim. - Cometeste adultério com os olhos, gritou o Afrit, e cortou-lhe os pés e os braços e, depois, a cabeça. Quanto a ti, disse-me, como não tenho provas de que cometeste adultério com ela, não te matarei; mas, para que não penses que me enganaste, vou te enfeitiçar. Que preferes ser: um asno, um cachorro, uma mula, um corvo ou um macaco? Escolhe rapidamente. Comecei a suplicar-lhe, mas ele me apanhou, subiu comigo ao espaço até que vi a Terra do tamanho de uma bola de gude; depois, depositou-me no cume de uma montanha, feito macaco, um macaco de horrível aspecto. E sumiu. Vivi lá meses. Desci mais tarde pouco a pouco até a costa. O capitão de um navio mandou apanhar-me para levar-me de presente à filha de seu rei. Assim que ela olhou para mim, cobriu a face e disse ao pai: "Este não é um macaco. É um príncipe, filho do rei Ifitamous. Foi enfeitiçado pelo Afrit Jurgis. E ele não é apenas um homem, é um homem culto, sábio, educado”.- Confirmas o que minha filha disse de ti? Perguntou o rei, olhando-me fixamente. Abanei a cabeça e comecei a chorar. Voltando-se para a filha, o rei perguntou-lhe como sabia dessas coisas. Respondeu: "Lembras-te da velha que me servia de babá quando era menina? Foi ela que me ensinou a magia. Depois, aperfeiçoei-me, estudando centenas de livros e códigos secretos. Hoje, sou capaz de remover este palácio com seus fundamentos e mesmo esta cidade inteira para o outro lado do monte Ka£" - Então, em nome de Alá, exclamou o rei, liberta este jovem para que faça dele meu vizir. A moça pegou uma faca que tinha palavras hebraicas gravadas num lado, fez com ela um círculo no ar e pronunciou palavras mágicas; e, de repente, o próprio Afrit Jurgis surgiu no meio da sala, com olhos feito tições, e disse à 6lha do rei: "Ó pérfida, não concordamos que nenhum de nós contrariaria o outro? Bem mereces a sorte que te espera”.E, de súbito, o Afrit transformou-se num leão e precipitou-se sobre a rapariga para devorá-la. Ela, porém, com uma velocidade de raio, arrancou um fio de seu cabelo, transformou-o numa espada e com ela cortou o leão em dois. Mas a cabeça do leão transformou-se num escorpião gigante, e a moça reagiu, transformando-se numa serpente. Ambos travaram uma luta feroz. Em seguida, o escorpião transformou-se num abutre e a serpente em águia. Depois, o abutre transformou-se num gato e a águia num lobo. Finalmente, a moça virou uma tocha enorme e queimou o terrível Afrit.
A princesa aspergiu-me então com água mágica, repetindo: "Em nome de Alá Todo-Poderoso, volta à tua primeira forma!" Foi assim que me tornei de novo um ser humano, mas tendo um olho só. Em seguida, a moça orou ao fogo, e chispas negras emanaram do corpo queimado e invadiram-lhe o peito e o rosto, enquanto repetia: "Juro que não há Deus senão Alá e que Maomé é o mensageiro de Alá." De repente, vimo-la pegar fogo e ser reduzida em pouco tempo a um monte de cinzas ao lado das cinzas do Afrit. Chorando e lamentando a perda da filha, disse-me o rei: "Jovem, antes de tua chegada, todos aqui vivíamos na felicidade. Agora, por tua causa, perdi minha 6lha que valia mais que cem homens. Pudéssemos nunca ter visto teu rosto de mau augúrio. Sai deste país. O que já nos aconteceu por tua causa basta!" Saí satisfeito, apesar de ter perdido um de meus olhos, pois dizia a mim mesmo: `Antes a perda de um olho do que a de minha cabeça." Disfarcei-me em Saaluk para poder viajar em segurança. Percorri vários países e, finalmente cheguei a Bagdad.



13/03/2008

Lenda da Gruta da Fada


Diz a lenda que nesta gruta, que se situa no Jardim da Pena muito perto do portão de entrada, uma fada todas as noites, cerca da meia-noite, ali vai carpir o seu destino.


A Bela Adormecida




Era uma vez um Rei e uma Rainha que viviam muito tristes por não terem filhos. Fizeram tratamentos em termas de todo o mundo, promessas, peregrinações e devoções especiais. Experimentaram tudo, mas sem resultado. Até que um dia a Rainha ficou grávida e deu à luz uma menina.
Fizeram-lhe um baptismo magnífico. Foram escolhidas como madrinhas da Princesinha todas as fadas que foi possível encontrar no país (e encontraram-se sete), para que, com os dons que lhe concedessem, conforme era costume das fadas naquele tempo, a Princesa tivesse todas as perfeições possíveis e imagináveis.
Depois da cerimónia do baptismo, regressaram todos em cortejo ao palácio real, onde tinha sido preparado um grande banquete em honra das fadas. O lugar de cada uma tinha sido marcado com um estojo de ouro maciço que continha uma colher, um garfo e uma faca de ouro, enfeitado com diamantes e rubis.
Enquanto cada qual se sentava no seu lugar, chegou uma fada velha, que ninguém se tinha lembrado de convidar, pois havia mais de cinquenta anos que não saía da sua torre e todos pensavam que já estivesse morta. O Rei arranjou-lhe um lugar na mesa, mas não lhe foi possível dar-lhe um estojo de ouro maciço como o das outras, porque só haviam sido feitos sete, um para cada uma das sete fadas. A velha julgou que estavam a desprezá-la e resmungou entredentes palavras ameaçadoras.
Uma das jovens fadas, a que estava sentada ao seu lado, ouviu-a e, temendo que pudesse dar à Princesinha algum presente maléfico, mal todos se levantaram da mesa, foi-se esconder por detrás de um cortinado, para ser a última a falar e, deste modo, poder reparar o mal que a velha lhe viesse a fazer. Entretanto, as fadas começaram a desfiar os dons que traziam à princesa.
A mais jovem deu-lhe o condão de ser a mulher mais bonita do mundo; a segunda, o de ser boa como um anjo; a terceira, ter um encanto admirável em tudo o que fizesse; a quarta, dançar maravilhosamente; a quinta, cantar como um rouxinol; e a sexta, saber tocar qualquer instrumento musical com a máxima perfeição.
Chegada a sua vez, a velha fada disse, abanando a cabeça mais por despeito do que por velhice, que a Princesa espetaria o bico de um fuso na mão e, desse modo, morreria. Um tão terrível dom fez estremecer os presentes, e não houve quem não chorasse. Nesse preciso momento a jovem fada saiu de trás do cortinado e pronunciou em voz clara estas palavras:
- Rei e Rainha, tranquilizai-vos! A vossa filha não morrerá assim. Infelizmente, não tenho poder que chegue para desfazer tudo o que fez uma fada mais velha do que eu. Sim, a Princesinha picar-se-á na mão com um fuso, mas, em vez de morrer, apenas cairá num sono profundo que durará cem anos, findos os quais um príncipe virá acordá-la.
O Rei, desejoso de evitar a desgraça anunciada pela velha, mandou logo distribuir um edital em que se proibia, a quem quer que fosse, fiar com um fuso ou ter fusos em casa, sob pena de morte.
Passados quinze ou dezasseis anos, numa altura em que o Rei e a Rainha tinham ido para uma das suas casas de campo, aconteceu que a jovem Princesa, passeando pelo castelo de quarto em quarto, chegou ao cimo de uma torre. Aí, num pequeno sótão, encontrou uma simpática velha que estava sozinha a fiar.
- Que está a fazer, avozinha? - perguntou a Princesa.
- Estou a fiar, minha querida - respondeu-lhe a velha, que não a conhecia.
- Ah... Que bonito! - exclamou a Princesa. - Como se faz? Deixe-me experimentar, a ver se também sou capaz.
No seu entusiasmo, nem sequer teve tempo de pegar no fuso. O que a fada tinha anunciado, cumpriu-se e a jovem Princesa espetou a mão e caiu sem sentidos. A boa velha pôs-se a gritar por socorro. Acorreu gente de todo o lado. Salpicaram de água o rosto da Princesa, desapertaram-lhe os laços, deram-lhe pancadinhas nas mãos, esfregaram-lhe as têmporas com água-de-colónia, mas nada a fez voltar a si.
Então o Rei, que tinha subido depois de ouvir todo aquele rebuliço, lembrou-se do presságio das fadas. Mandou transportar a Princesa para o mais belo quarto do palácio e deitá-la numa cama bordada a ouro e prata. Parecia um anjo, tão bonita era. O desmaio não lhe alterara as cores: as faces permaneceram rosadas e os lábios cor de coral. Tinha os olhos fechados, mas podia sentir-se a respiração suave, o que significava que não morrera.
O Rei ordenou que a deixassem dormir tranquila, até que chegasse a sua hora de acordar. A fada boa que lhe salvara a vida, encontrava-se no reino de Mataquim, a doze mil léguas de distância, quando se verificou aquele incidente. Contudo, foi logo avisada por um anãozinho que calçava as botas das sete léguas. A fada partiu de imediato e, uma hora depois, viram-na chegar num carro de fogo, puxado por dragões.
O Rei deu-lhe o braço para a ajudar a descer do carro e a fada aprovou tudo o que ele tinha feito, mas, porque era muito previdente, pensou que, quando a Princesa acordasse, se sentiria perdida, se ficasse completamente sozinha naquele velho castelo.
Assim, tocou com a sua varinha em tudo o que se encontrava no castelo (excepto no Rei e na Rainha): governantas, damas de honor, criadas de quarto, cortesãos, oficiais, mordomos, cozinheiros, ajudantes, moços, guardas, pajens, escudeiros. Tocou também em todos os cavalos que havia nas cavalariças, nos grandes mastins de guarda e, por fim, na pequena Pufi, a cadelinha da Princesa, que estava junto dela na cama. Mal lhes tocou, todos adormeceram, para só acordarem quando a sua Princesa acordasse. Deste modo, todos estariam prontos a servi-la quando fosse necessário. Até os espetos que estavam ao lume cheios de perdizes e de faisões adormeceram; e o mesmo aconteceu com o lume.
Tudo isto se passou num instante: as Fadas são desembaraçadas nas suas tarefas.
Então o Rei e a Rainha, depois de terem beijado a sua querida filha sem a despertarem, saíram do castelo e decidiram proibir que alguém se aproximasse dali. Esta proibição não era necessária, pois dentro de um quarto de hora cresceu a toda a volta do parque uma tal quantidade de árvores, grandes e pequenas, de silvas e de tojos, tão emaranhados uns nos outros que nem animal, nem homem algum poderia passar. Assim, só se conseguiam ver as ameias das torres do castelo e mesmo só de muito longe.
Passados cem anos, o filho do rei que então reinava, e que pertencia a uma família diferente da da Princesa, passou por aqueles lugares à caça. Quis saber o que eram as torres que se avistavam sobre tão grande e tão densa floresta. Cada qual lhe repetia o que tinha ouvido dizer. Segundo uns, tratava-se de um velho castelo habitado por espíritos, segundo outros, todos os bruxos do país vinham celebrar ali as suas cerimónias mágicas. De acordo com a maioria das pessoas, o edifício era habitado por um ogre que para ali levava todas as crianças que conseguia apanhar, a fim de as comer confortavelmente e sem ser incomodado, pois só ele possuía o condão de abrir uma passagem através do bosque. O Príncipe não sabia em que havia de acreditar, até que um velho camponês lhe disse:
- Meu bom Príncipe, há mais de cinquenta anos ouvi o meu pai dizer que naquele castelo há uma Princesa, a mais bela do mundo. Deverá dormir durante cem anos e será acordada pelo filho de um Rei, ao qual está destinada.
Ao ouvir estas palavras, o jovem Príncipe sentiu uma grande emoção e decidiu sem hesitar que teria de ser ele a pôr fim a tão bela aventura. Levado pelo amor e pela glória, resolveu ir imediatamente saber o que realmente se passava.
Quando avançou em direcção ao bosque, as grandes árvores, as silvas e os tojos afastaram-se para o deixarem passar. Caminhou, sem dificuldade, em direcção ao castelo e, surpreendido, verificou que nenhum dos membros da sua comitiva tinha podido segui-lo, porque as árvores se voltavam a cerrar mal ele passava.
Entrou num grande pátio e tudo o que aí viu o enregelou de medo: um silêncio terrível, por todo o lado a imagem da morte. Corpos de homens e de animais, estendidos no chão, pareciam sem vida.
Atravessou um grande pátio, subiu a escadaria, entrou na sala dos guardas que permaneciam alinhados, ressonando ruidosamente. Passou por vários quartos cheios de fidalgos e de damas, todos adormecidos, uns de pé, outros sentados. Entrou depois num quarto todo dourado, onde viu, sobre uma cama, uma Princesa muito bela que parecia ter quinze ou dezasseis anos. Aproximou-se a tremer e ajoelhou-se a admirá-la. Então, chegado o fim do encantamento, a Princesa acordou e, olhando-o ternamente, disse-lhe:
- Sois vós, meu Príncipe? Demorastes muito tempo!
O Príncipe, fascinado com estas palavras, não sabia como demonstrar a sua alegria. Declarou-lhe simplesmente que a amava mais do que a si próprio. Sentia-se mais tímido do que ela, o que não é para admirar: a linda Princesa tivera muito tempo para sonhar com o que havia de lhe dizer, pois, segundo parece a boa Fada, durante tão longo sono, dera-lhe o prazer de ter bons sonhos. Havia quatro horas que conversavam e ainda não tinham dito metade das coisas que queriam dizer um ao outro.
Entretanto, todo o palácio tinha acordado com a Princesa. Cada um tratava do que lhe dizia respeito e, como não estavam apaixonados, estavam cheios de fome. A dama de honor disse à Princesa que a refeição estava servida. O Príncipe ajudou a Princesa a levantar-se. Estava magnificamente vestida e muito linda.
Passaram ao salão dos espelhos e aí jantaram, servidos pelos criados da Princesa. Os violinos e os oboés tocaram músicas antigas mas muito bonitas, embora tivessem estado quase cem anos sem se fazerem ouvir.
Terminada a refeição, celebrou-se o casamento. Os príncipes abriram o baile e a festa durou uma semana.





O olmo e a figueira






Uma figueira, carregada de figos que ainda não haviam amadurecido, olhou para uma árvore que lhe fazia sombra e viu que ela não tinha frutos.
- Quem é você para ousar impedir que meus figos recebam Sol?
- Sou o olmo - respondeu a árvore.
- E não tem um só fruto! - prosseguiu a figueira - você não tem vergonha de ficar em pé na minha frente? Mas espere só esses meus filhos crescerem, e aí você vai ver. Cada um vai tornar-se uma árvore e todos juntos vamos formar uma floresta e cercar você.
E realmente os figos amadureceram. Porém, quando estavam maduros, passou um batalhão de soldados. subiram na árvore para apanhar os figos, quebrando os galhos e as folhas. Não sobrou nem um só fruto, e a pobre figueira ficou estragada e mutilada.
O olmo teve pena e disse:
- Oh, figueira, teria sido melhor para você não ter tido filhos! Você não teria tido tantas falsas esperanças. É por isso que você agora se encontra nesse estado.





11/03/2008

O galo e a pérola


Um galo achou num terreiro
Uma pérola, e ligeiro
Corre a um lapidário e diz:
"Isto é bom, é de valia.
De milho um grão todavia
Era um achado mais feliz".

Um néscio ficou herdeiro
De um manuscrito, e a um livreiro
Vai à pressa, e fala assim:
"É bom, é livro acabado.
Concordo, mas um ducado
Valia mais para mim!"


Gonçalves Crespo (Trad.)

09/03/2008

Lenda das Águas de Almofala



Há muito tempo, vivia em Almofala uma jovem muito bela chamada Salúquia. Fascinados pela sua beleza, todos os que a conheciam satisfaziam os seus caprichos.
Um dia, um jovem governador árabe veio chefiar aquela região. Pediu a todos obediência na organização da luta contra os cristãos. Todos baixaram as cabeças, excepto Salúquia, habituada a não obedecer e a ser obedecida. O governador, inteirando-se do estranho poder de Salúquia, disse-lhe que se não obedecesse seria castigada. Desafiadora, Salúquia respondeu que se ele ousasse castigá-la seria amaldiçoado. Perante o desafio, o governador mandou que lhe dessem seis vergastadas.
Passado algum tempo, o governador começou a padecer de dores estranhas que nem os melhores físicos conseguiam curar. Era a maldição de Salúquia que começava a fazer efeito.
Salúquia, amargurada pelo castigo, andava pelos campos, vagueando sozinha. Num dos seus passeios, encontrou um cristão velho e ferido que lhe pediu ajuda. Temendo agir contra as ordens do governador, Salúquia recusou o pedido. Quando o cristão lhe perguntou se o governador era cruel, Salúquia surpreendeu-se a si própria ao dizer que era apenas justo. Foi então que o cristão lhe deu o recado do seu Deus: apesar de ter amaldiçoado, o governador Salúquia amava-o. Pelo seu lado, o governador também a amava e nunca a tinha esquecido. Se Salúquia o ajudasse, o Deus dos cristãos também a ajudaria a reparar o mal que tinha feito com a sua maldição. Assim, Salúquia levou-o a uma fonte próxima e verificou com espanto que as suas águas lhe saravam as feridas. Nesse momento, ia a passar o governador que os viu. As dores fortes que sentia interromperam as suas primeiras recriminações. Salúquia deu-lhe a beber a água da fonte e começou a chorar, dizendo-lhe que era capaz de dar a vida por ele. Curado das suas dores, o governador abraçou-a. O cristão desapareceu e Salúquia e o governador viveram felizes para sempre. Mais tarde, quando aquelas terras foram conquistadas pelos cristãos, foram ambos baptizados.
As águas de Almofala continuam ainda hoje, diz o povo, a manter os seus incríveis poderes curativos.

Lenda da Guarda

03/03/2008

A Bela Adormecida


Há muitos anos atrás, havia um rei e uma rainha que desejavam muito ter um filho. Um dia, quando a rainha estava tomando banho, um sapo pulou pela janela e disse-lhe:
- Seu desejo será satisfeito. Antes de um ano você terá uma filhinha.
As palavras do sapo tornaram-se realidade. A rainha teve uma linda menina. O rei exultou de alegria. Preparou uma grande festa para a qual convidou todos os parentes, amigos e vizinhos. Convidou também as fadas, para que elas fossem boas e amáveis para com a menina. Havia treze fadas no reino, mas o rei tinha apenas doze pratos de ouro para servi-las, de modo que uma das fadas teria que ser posta de lado.
A festa realizou-se com todo o esplendor e, quando chegou ao fim, cada uma das fadas ofereceu um presente mágico à criança. Uma deu-lhe virtude; outra, beleza; a terceira, riqueza, e assim por diante, foram-lhe dando tudo o que ela poderia vir a desejar no mundo. Quando onze das fadas já haviam feito suas ofertas, de repente, apareceu a décima terceira fada. Ela desejava mostrar o despeito de que estava possuída por não ter sido convidada. Sem cumprimentar nem olhar para ninguém, entrou no salão e gritou para que todos ouvissem:
- Quando a princesa completar quinze anos, picar-se-á com um fuso de tear envenenado e cairá morta.
Sem dizer mais nada, retirou-se.
Todos os presentes ficaram horrorizados. A décima segunda fada, porém, que ainda não tinha formulado o seu desejo, deu um passo à frente. Ela não tinha capacidade para cortar o efeito da praga, mas podia abrandá-la, de modo que disse:
- Sua filha não morrerá, mas dormirá um sono profundo, que durará cem anos.
O rei ficou tão preocupado em livrar a filha daquele infortúnio, que deu ordens para que todos os fusos de tear que se encontrassem no reino fossem destruídos. À medida que o tempo ia passando, as promessas das fadas iam se realizando. A princesa cresceu tão bonita, modesta, amável e inteligente, que todos que a viam se encantavam por ela. Aconteceu que, justamente no dia em que ela completava quinze anos, o rei e a rainha tiveram necessidade de sair. A menina, encontrando-se sozinha, começou a vagar pelo castelo, revistando todos os compartimentos. Finalmente chegou a uma velha torre onde havia uma escada estreita, em caracol. Por ela foi subindo, até que chegou a uma pequena porta, em cuja fechadura havia uma chave enferrujada. Dando-lhe a volta, a porta abriu-se. Num pequeno quarto, estava sentada uma velhinha, muito ocupada com um tear, fiando. Vivia tão isolada na torre, que não tomara conhecimento da ordem do rei, com relação aos fusos e teares.
- Bom dia, vovozinha, disse a princesa. Que está fazendo?
- Estou fiando, respondeu a velhinha e inclinou a cabeça sobre o trabalho.
- Que coisa é esta que gira tão depressa? perguntou a princesa, tomando o fuso na mão.
Mal o tocou, porém, levou uma picada no dedo e, imediatamente caiu numa cama que havia ao lado, entrando num sono profundo. A velhinha desapareceu. Quem sabe se ela não era a fada má? O rei e a rainha, que acabavam de chegar, deram alguns passos no vestíbulo e adormeceram também. O mesmo sucedeu com os cortesãos. Os cavalos dormiram nas cocheiras; os cães, no pátio; os pombos, no telhado; as moscas, nas paredes.
Até o fogo, na lareira, parou de crepitar. A carne, que estava assando, no fogão, parou de estalar. A ajudante de cozinha, que estava sentada, tendo à frente uma galinha para depenar, caiu no sono. O cozinheiro, que estava puxando o cabelo do copeiro, por qualquer tolice que ele havia feito, largou-o e ambos adormeceram. O vento parou e, nas árvores em frente ao castelo, nem uma folha se mexia. À volta do muro, começou a crescer uma sebe de roseira brava. Cada ano ia ficando mais alta, até que já não se podia mais ver o castelo.
Décadas se passaram e surgiu na região uma lenda, sobre a "Bela Adormecida", como era chamada a princesa. De tempos em tempos, apareciam príncipes que tentavam fazer caminho através da sebe, para entrar no castelo. Não conseguiam, entretanto, porque os espinhos os impediam e eles ficavam presos no meio deles.
Após muitos anos, um príncipe muito audacioso veio à cidade e ouviu um velho falar sobre a lenda do castelo que ficava atrás da sebe, no qual uma linda moça, chamada a "Bela Adormecida", dormia havia cem anos e, com ela, todos os habitantes do castelo. Contou-lhe também que muitos príncipes tinham tentado atravessar a sebe e nela haviam ficado presos, morrendo.
O príncipe então declarou:
- Não tenho medo. Irei e verei a "Bela Adormecida".
O bondoso velho fez o que pode para impedir que ele fosse, mas o rapaz não quis ouvi-lo.
Agora, os cem anos já se haviam completado. Quando o príncipe chegou à sebe, como por encanto, os arbustos que estavam cheios de brotos, afastaram-se e deram-lhe caminho. Após sua passagem, fecharam-se novamente. No pátio, ele viu os cães dormindo. No telhado, estavam os pombos, com as cabecinhas escondidas debaixo das asas. Quando entrou no castelo, viu moscas dormindo nas paredes. Perto do trono, estavam o rei e a rainha, também adormecidos. Na cozinha, o cozinheiro ainda tinha a mão levantada, como se fosse sacudir o copeiro. A ajudante de cozinha tinha à sua frente uma galinha preta para depenar.
O rapaz continuou a percorrer o castelo. Estava tudo quieto. Finalmente chegou à torre, abriu a porta do quarto onde a princesa dormia e entrou. Lá estava ela, tão bonita que ele não se conteve: abaixou-se e beijou-a. Assim que a tocou, a "Bela Adormecida" abriu os olhos e sorriu para ele. Levantou-se, deu-lhe a mão e desceram juntos. O rei, a rainha e os cortesãos acordaram também e entreolharam-se, espantados. Os cavalos, nas cocheiras, abriram os olhos e sacudiram as crinas. Os cães olharam à volta e abanaram as caudas. As pombas do telhado tiraram as cabeças de sob as asas, olharam ao redor e voaram em seguida para o campo. As moscas, na parede, começaram a mover-se, lentamente. O fogo, na cozinha, acendeu-se novamente e assou a carne. O cozinheiro puxou as orelhas do copeiro, enquanto a ajudante começou a depenar a galinha.
O príncipe, apaixonado, casou-se com a princesa, num claro dia de sol, numa grande festa no castelo, e viveram felizes por muitos e muitos anos.





02/03/2008

O Carregador e as Jovens Mulheres


Havia certa vez na cidade de Bagdá um adolescente que era celibatário por convicção e hammal por profissão. Certo dia, como estava encostado preguiçosamente em seu cesto na praça do mercado, uma mulher, usando um véu de seda enfeitado com ouro e brocado, parou diante dele e ergueu ligeiramente o véu. A.pareceram dois olhos negros com longas pestanas, feitos para fazer um homem sonhar. Disse com voz melodiosa: "Moço, pega o cesto e segue-me”.O carregador a seguiu. Percorreram todo o mercado. A dama comprou vinho, maçãs, marmelos, pêssegos de Omã, jasmins de Alepo, nenúfares de Damasco, pepinos, limões, cidras, flores. Cada vez, colocava as compras no cesto e dizia ao hammal: "Carrega e segue-me”.Depois, comprou carne, mel, pastéis recheados, uva, bananas. - Se me tivesse avisado, eu teria trazido uma mula para tomar conta de tantas coisas, queixou-se o carregador. Por única resposta, a dama sorriu-lhe e comprou ainda dez variedades de águas: água de flor de laranja, água de rosas e outras. Comprou bebidas alcoólicas. E cada vez, repetia com o sorriso: "Carrega e segue-me”.E ele seguia, pensando que acertou o sábio quando disse: Se a beleza comete um delito, seus encantos inventam-lhe mil desculpas. Finalmente, acabou de fazer compras e levou o hammal até uma casa suntuosa. Bateu delicadamente a moça à porta, e outra moça igualmente linda abriu os dois batentes. Entraram e chegaram a uma sala espaçosa que dava para um pátio central. Embelezavam a sala cortinas, vasos, móveis finos incrustadas de ouro. No meio da sala havia um leito de mármore e nele se deitava uma moça que possuía todas as graças próprias às mulheres. Foi dela sem dúvida que disse o poeta: Quem te comparou a um ramo na primavera cometeu um erro e uma falsificação. O ramo, gostamos de vê-lo revestido. E tu, gostamos de ver te desnuda. A moça levantou-se, e as três irmãs retiraram as compras do cesto e arrumaram-nas numa mesa. Depois, pagaram dois dinares ao carregador, dizendo-lhe: "Vira as costas e some”.Mas ele parecia pregado no chão a contemplar as três belezas, pensando: "Nunca vi nada igual em toda a minha vida”.E notou que não havia homens naquela casa. A mais velha das irmãs disse lhe: "Por que não te vás? Achas a paga insuficiente?" E voltando-se para uma irmã, disse-lhe: "Dá-lhe mais um dinar." Mas ele opôs-se: "Por Alá, minhas senhoras, minha paga normal é apenas um dinar. Já recebi demais de vós. Mas não consigo compreender por que viveis sozinhas. As mulheres não podem ser realmente felizes sem homens. Um minarete isolado não tem valor, a menos que seja um dos quatro minaretes que ornam a mesquita. Vós sois três. Falta-vos o quarto. E como diz o poeta, um acorde nunca será harmonioso sem os quatro instrumentos reunidos: a harpa, o alaúde, a cítara e pífaro. Vós sois três: falta-vos o pífaro." - Mas, ó moço, nós somos virgens e tememos a indiscrição dos homens. O carregador gritou: “Juro pelas vossas vidas que sou um homem fiel e discreto. E sou culto. Estudei a história e li muitos livros. E só falo de coisas agradáveis. Sigo os dizeres do poeta: O nobre de coração nunca divulga um segredo. Coloco os segredos que me confiam num cofre. Depois, jogo a chave nos rios ou nos mares. - Neste caso, fica connosco, disse a que havia feito as compras. E ele, vendo-se já montado nas três irmãs, sentiu-se num outro mundo, e mal acreditava que não estava sonhando. Depois veio o vinho e depois, as carícias. Embriagado, cantou:
Como é curta a noite do encontro
E como é longo o dia da separação!
Depois, tomou uma segunda taça e cantou baixinho estes versos:
A felicidade te acompanha todos os dias apesar dos olhos dos invejosos.
E possam teus dias continuarem brancos, enquanto os dos invejosos se tomem cada vez mais negros.
Breve estavam todos cantando e dançando. O hammal abraçava cada uma das moças por sua, vez e beijava-a. E dizia-lhe gracejos. Quando reinou a alegria, a mais jovem ergueu-se de repente e despojou se de todas as suas vestes e saltou na bacia cheia de água que estava no pátio. Pegava água nas mãos e deixava-a cair entre as coxas para refrescá-las. Depois, saiu da bacia e correu a lançar-se no colo do jovem carregador. Indicando as coisas que estava entre as suas pernas, perguntou: "Meu querido, sabes como se chama isto?" Ah! Ah! Respondeu o hammal. Geralmente, chamam-na a casa da compaixão.
A moça gritou: "Iú! Iú! Não tens vergonha?" E, segurando-o pela nuca, começou a dar-lhe palmadas. - Não, não, retratou-se ele. É chamada: a Coisa. A moça abanou a cabeça negativamente. "Então, é a tua peça anterior”, disse o carregador. A moça negou de novo. - É teu vespão, disse o carregador. Mas a moça recomeçou a bater nele com tamanha força que lhe raspou a pele. "Então, dize tu o seu nome”, suplicou-lhe o hammal. E ela respondeu: "Manjericão das serras”.- Bendito sejas, ó manjericão das serras, gracejou o moço. Depois, as taças passaram e repassaram. A segunda moça, despindo-se inteiramente por sua vez, saltou na bacia e, ao sair, jogou-se no colo do carregador. Apontando para suas pernas e a coisa que estava entre elas, perguntou: "Luz de minha vida, qual é o nome disto?" – Tua fenda, respondeu o carregador. - Oh! Ouvi esta palavra feia e malcriada, gritou a moça, e bateu no moço tão violentamente que a casa repetiu o eco. - Então é o manjericão das serras. Ela, porém, gritou de novo que não, e recomeçou a bater-lhe na nuca.
"Então, dize tu qual é o seu nome”,gemeu. E ela respondeu: "É sésamo descascado”.A terceira moça levantou-se por sua vez, despiu-se e jogou-se na água como suas irmãs. Após sair, estendeu-se no colo do hammal e, apontando para suas partes delicadas, disse-lhe: ‘Adivinha o nome disto.’ "O hammal deu um nome e outro e outro sem acertar, e acabou pedindo à moça para lhe dizer o nome e parar de bater nele”. “Este é Khan Al-Mansur " , proclamou ela. Então, para completar o jogo, o hammal levantou-se, despiu-se e jogou-se na água. Tomou banho como fizeram as moças. Ao sair da água, jogou-se no colo da segunda irmã, a que mais lhe agradava. Apontando para seu órgão, perguntou: "Qual é o nome dele, ó rainha de meu coração?" Ouvindo a pergunta, as três moças caíram na gargalhada ao mesmo tempo e disseram de uma só voz: "É teu zib!" "Não " , retrucou o moço, e mordeu cada uma delas a título de castigo Então, gritaram, é teu instrumento." "Não," repetiu o hammal, e beliscou os seios de cada uma delas. -Mas, é mesmo teu instrumento, insistiram, pois está quente. É teu zib porque se move. Cada vez, o moço abanava negativamente a cabeça e beijava-as, beliscava-as e apertava-as. E elas riam, felizes. No fim, tiveram que perguntar-lhe como se chamava. Ele tomou um ar sério, refletiu. Olhou entre as pernas e, piscando os olhos, disse: "Minhas senhoras, este menino, meu zib, declara: `Meu nome é o Mulo intrépido que pasta o manjericão das serras, festeja com sésamo descascado e passa a noite em Khan Al Mansur' Continuaram a rir e beber até a noite. Então, disseram ao hammal: "Vai-te embora agora. Vira a face e deixa-nos ver a largura de tuas espáduas”.Mas ele suplicou: "Por Alá, é mais fácil para a minha alma sair de meu corpo do que para eu sair de vossa casa, ó minhas senhoras incomparáveis! Deixemos a noite prolongar esta festa alegre, e amanhã poderemos separar-nos e cada um seguir seu destino nos caminhos de Alá." A mais jovem das irmãs disse: "Por minha vida, minhas irmãs, permitamos a este moço sem vergonha, mas tão amável, passar a noite connosco. E continuemos a nos divertir às custas dele." - Concordamos, responderam as duas outras, e disseram ao moço: "Deves jurar não perguntar nada a respeito do que venha a passar-se aqui esta noite." Ele jurou. - Levanta-te, mandaram, e lê o que está escrito atrás da porta. Levantou-se e leu: "Não fales do que não te diz respeito, se não quiseres ouvir o que não te agrada”.- Senhoras minhas, disse o moço, sois testemunhas de que não direi uma palavra sobre o que não me diz respeito nem falarei a ninguém do que se passará aqui esta noite. E pôs-se a cantar: Disseram-me: enlouqueceste! Respondi: Só os loucos são felizes. Devolvei-me aquela que me enlouqueceu. E vede se não me curo na hora.






Ambição

Na China antiga, um eremita meio mágico vivia numa montanha profunda. Um belo dia, um velho amigo foi visitá-lo. Senrin, muito feliz por recebê-lo, ofereceu-lhe um jantar e um abrigo para a noite. Na manha seguinte, antes da partida do amigo, quis ofertar-lhe um presente. Tomou de uma pedra e, com o dedo, converteu-a num bloco de ouro puro. O amigo não ficou satisfeito. Senrin apontou o dedo para uma rocha enorme, que também se transformou em ouro. O amigo, porém, continuava sem sorrir.
- Que queres, então? - indagou Senrin.
Respondeu-lhe o amigo:
- Corta esse dedo, quero-o.





27/02/2008

As Botas de Abu-Kassim Attanburi

Contam que vivia certa vez em Bagdá um homem chamado Abu-Kassim At Tanburi, que usava as mesmas botas havia sete anos. Todas as vezes que alguma parte delas se rasgava, ele a remendava, de modo que as botas se tornaram excessivamente pesadas e passaram a ser citadas em provérbio. Um dia, Abu-Kassim foi ao mercado de vidros. Um corretor lhe disse: "Ó Abu-Kassim, chegou hoje um negociante de Alepo com um carregamento de frascos dourados que ninguém quer comprar. Compra-o. Eu o revenderei para ti mais tarde, e tu ganharás o dobro de teu investimento”.Abu-Kassim comprou os vidros por sessenta dinares. Foi em seguida ao mercado de perfumes, e outro corretor lhe disse: "Ó Abu-Kassim, chegou-nos hoje de Tassibina um negociante com um carregamento de água de rosas da melhor qualidade! O negociante precisa prosseguir logo sua viagem, e podes, por isso, comprar-lhe a mercadoria por um preço muito barato; compra-a. Eu a revenderei para ti dentro em pouco, e tu ganharás o dobro de teu investimento”.Abu-Kassim comprou a água de rosas por sessenta dinares, colocou-a nos frascos dourados e levou-os para casa e os arrumou sobre uma prateleira. Depois, foi aos banhos públicos. Enquanto se banhava, um de seus amigos o interpelou: "Ó Abu-Kassim, gostaria de ver-te mudar essas botas; elas já estão feias demais, e tu és um homem de posses pela graça de Deus”."Tens razão”, retrucou Abu-Kassim, "seguirei teu conselho”.Quando saiu do banho para vestir-se, viu junto de suas botas um par de sandálias novas. Pensou que fosse o seu amigo que lhas havia ofertado; calçou-as e dirigiu-se para casa. Ora, as sandálias novas pertenciam ao cádi, que estava tomando banho naquele mesmo local. Quando saiu, procurou suas sandálias e não as encontrou. "Meus amigos”,perguntou ele,"aquele que levou minhas sandálias não deixou nada no seu , lugar?" Procuraram e só encontraram as botas de Abu-Kassim, que todo mundo reconheceu, pois eram famosas. O cádi mandou os seus homens revistarem a casa de Abu-Kassim. As sandálias estavam, de fato, lá. O cádi ordenou a Abu-Kassim comparecer à sua presença, confiscou-lhe as sandálias e fê-lo flagelar, multar e encarcerar. Abu-Kassim saiu da cadeia cheio de cólera contra suas botas. Levou-as e atirou-as ao rio Tigre. Elas afundaram. Mas um pescador, tendo atirado sua rede à procura de peixes, recolheu as botas. Reconheceu-as e pensou: "Abu-Kassim deve tê-las perdido no Tigre." Levou-as para a casa de Abu-Kassim; não o encontrou; mas viu uma janela aberta e jogou as botas para dentro da casa. As botas caíram sobre a prateleira onde estavam os frascos com a água de rosas. A prateleira desmontou-se; os vidros caíram no chão e se quebraram; toda a água de rosas se perdeu. Ao voltar, Abu-Kassim compreendeu o que se passara e começou a se lamentar e desesperar: "Ó desgraça! Estas malditas botas me arruinaram!" Então, foi de noite abrir um buraco para enterrá-las e livrar-se delas. Mas os vizinhos, ouvindo o ruído da escavação, pensaram que alguém estivesse procurando demolir a sua casa. Queixaram-se ao governador, que mandou prender Abu-Kassim e o repreendeu: "Como te permites cavar junto ao muro de teus vizinhos?" Então, aprisionou-o e só o soltou depois de Ihe ser cobrada uma multa. Abu-Kassim saiu da cadeia mais furioso ainda contra as suas
botas. Levou-as e atirou-as nas privadas do caravançarai. Mas as botas entupiram os esgotos; as imundícies transbordaram; o povo protestou contra o mau cheiro. Procuraram a causa e acharam as botas; examinaram-nas: eram as botas de Abu-Kassim! Levaram-nas ao governador e relataram-lhe o ocorrido. O Governador mandou vir Abu-Kassim, censurou-o severamente, encarcerou-o e obrigou-o a pagar o conserto dos esgotos e outra soma igual a título de multa. Abu-Kassim saiu da prisão com as botas e, na sua ira, jurou nunca mais se separar delas. Lavou-as e pô-las a secar no terraço de sua casa. Um cão as viu e, tomando-as por uma carniça, pegou-as. Mas enquanto pulava para outro terraço, as botas lhe escaparam e caíram sobre um homem, ferindo-o gravemente. Examinaram as botas e reconheceram-nas. O caso foi levado ao juiz, que condenou Abu-Kassim a indenizar o homem, de todas as despesas requeridas pelo seu tratamento. Assim, Abu-Kassim gastou o último dinar que possuía. Apanhou então as botas e levou-as ao cádi e disse-Ihe: "Solicito de Vossa Excelência que redija um ato de separação solene entre minhas botas e eu, que proclame que nada mais temos um com o outro, que nenhum de nós é responsável pelo outro e que eu não poderei ser culpado pelo que minhas botas venham a fazer”.E contou ao cádi tudo que lhe sucedera por causa dessas botas. O cádi soltou boas gargalhadas e deu um presente a Abu-Kassim antes de despedi-lo.







O grão de mostarda e o fermento



O reino dos céus é semelhante a um grão de mostarda, que um homem tomou e lançou no seu campo.
Esse grão é, na verdade, a menor de todas as sementes, mas depois de crescida é a maior das hortaliças, e se faz árvore, de tal modo que as aves vêm fazer ninho em seus ramos.
O reino dos céus é semelhante ao fermento, que uma mulher tomou e escondeu em três me­didas de farinha, até que ficasse levedada toda a massa.


Parábolas de Jesus
Mat. 13:31-33

Lenda do penedo dos ovos (pedra amarela)

Existe, no meio da serra de Sintra um penedo elevado a prumo, caprichosamente, pela Natureza, ou produzidos pelas convulsões vulcânicas do terreno em tempos ignotos, anda ligada à seguinte lenda:

Dizia-se em tempos que por baixo de tal pedra havia um tesouro escondido (um tesouro encantado) que pertenceria a quem fosse capaz de derrubar o penedo , atirando-lhe com ovos.
Uma velha meteu então na cabeça que esse tesouro havia de lhe pertencer. Para tal, a velha começou a juntar tantos ovos quantos podia. Quando achou que já tinha uma boa provisão, deu início à sua ingénua tarefa. Carregou, pouco a pouco, todos os ovos para as imediações do penedo, e meteu mãos à obra. Um a um, dois a dois, e com quanta força dispunha, ia arremessando os ovos contra o penedo. Quando já não lhe restava nenhum, terrível decepção! O penedo continuava erecto e firme, lavado com ovos!
E foi assim que, em vez de cair por terra, o penedo, pondo a descoberto o maravilhoso tesouro, caíram por terra desfeitos todos os sonhos e todas as esperanças da pobre velha! E ainda hoje, o povo sempre propenso ao maravilhoso, julga ver nos musgos amarelados que cobrem o penedo, as gemas dos ovos que a velha contra ele arremessou.

O menino e o mestre-escola


Tenho em vista zurzir na minha história
Todo o pedante, autor de vão discurso,
Que ralhando, não vale a quem se afoga,
A míngua de recurso.

Rapaz travesso, doidejando às soltas,
Perto da margem de empolado rio
Tais cabriolas fez que, ao fim de contas,
Dentro d'água caiu.

Quis o céu que no sítio do sinistro
Vegetasse, a propósito, um salgueiro,
A que, abaixo de Deus, salvar a vida
Deveu o calaceiro.

Passava por ali um mestre-escola;
E o rapaz a gritar: "Senhor, socorro!
Acudi-me, por Deus, que o ramo estala,
E, em se quebrando, eu morro".

Ouvindo este clamor, o pedagogo,
Sem notar ser imprópria a ocasião,
Dirige ao pobre, prestes a afogar-se,
Este longo sermão:

"Vede a que ponto chega a travessura!
Vão lá matar-se por traquinas tais!
Como é difícil tomar conta deles!
Oh! Desgraçados pais!

Quanto à família e os mestres envergonham!
Que sustos causam! Que profunda mágoa!"
Tendo assim esgotado o palanfrório,
Tira o menino d'água.

Gente, em que não pensais, aqui se abrange;
Pedantes, tagarelas e censores,
Entram no quadro, que esboçado fica
Com verdadeiras cores.

Faz grande turma cada classe dessas,
— Raça, da Providência abençoada,
Que em tudo busca exercitar, sem peias,
Sua língua afiada. —

Mas ouve, amigo meu: Se em transes luto
Vem primeiro livrar-me do embrechado;
Deita arenga depois e a gosto exaure
O teu palavreado.

Barão de Paranapiacaba (Trad.)

24/02/2008

O Último Combate





Na terra, a luta não havia terminado. Para se tornar definitivamente o soberano dos deuses e dos homens, Zeus ainda precisava combater um temível demónio, Tífon, que era o filho mais moço de Gaia.
Quando esse ser monstruoso se aproximava, todo mundo fugia, e os próprios deuses receavam enfrentá-lo. Sua força inesgotável, sua estatura descomunal e sua feiúra superavam as de todos os outros filhos de Gaia. Na extremidade de seus braços imensos, agitavam-se cabeças de dragão com língua preta. Cada uma delas soltava centelhas de fogo pelos olhos e gritos de animal selvagem.
Zeus as ouviu gemer, berrar e rugir uma após a outra. Preparou-se para a luta e empunhou suas armas. O choque foi terrível: a terra tremeu, o céu ficou em brasa, e o mar se ergueu num vagalhão fervente. Dentre os dentes dos dragões jorravam chamas que os relâmpagos de Zeus desviavam. De repente, juntando todas as suas forças, Zeus lançou um dardo1 poderoso, feito de seu raio, que inflamou de uma só vez as múltiplas cabeças de dragão. O monstro se consumiu num fogaréu gigantesco, queimando toda a vegetação em torno. Então, finalmente vitorioso, o senhor supremo do trovão o precipitou no fundo do Tártaro. Agora Zeus podia reinar. Voltou à sua morada no cume do monte Olimpo. Encoberto por nuvens espessas, o palácio do soberano dos céus ali se erguia, majestoso. Os deuses costumavam se encontrar no salão de mármore para alegres banquetes, em que se deleitavam com néctar e ambrósia. Eles gostavam das festas, e volta e meia suas risadas e cantos ressoavam no Olimpo. Sentado num trono de ouro e marfim, Zeus dominava os deuses e o mundo em baixo.
Com seu raio, podia agitar o céu e, com um meneio da cabeça, sacudir a terra. Todos temiam seu poder, mas respeitavam sua justiça.
Essa vitória assinalou o início de uma nova era, em que nasceram os Mortais.2 Os da época de Crono eram diferentes.

Contos e Lendas da Mitologia Grega


1 Espécie de lança, que se atira com a mão ou com a ajuda de uma arma.
2 Os homens são chamados desse modo em oposição aos deuses, que são imortais.