17/04/2008

A Velha Mansão

AQUELA velha mansão! Tinha perto de trezentos anos, como se podia ver por uma inscrição gravada numa viga, no meio de uma guirlanda de tulipas. Sob a porta podiam-se ler versos escritos na ortografia antiga, e sob cada janela estavam esculpidas figuras que faziam caretas engraçadas.
A casa tinha dois andares e no teto havia uma goteira terminada por uma cabeça de dragão. A chuva devia escoar-se na rua por essa cabeça; mas ela se escoava pelo ventre, pois a goteira tinha um buraco no meio.
Todas as outras mansões daquela rua eram novas e próprias, ornadas de grandes azulejos e muros brancos. Pareciam desdenhar a sua velha vizinha.
“Quanto tempo ainda este barraco vai ficar aqui?”, pensavam elas; “tira-nos toda a vista de um lado. Sua escadaria é larga como a de um castelo e alta como a da torre de uma igreja. A grande porta de ferro maciço parece a de uma antiga sepultura, com seus botões de couro. Que coisa! Imaginem só!”
Numa dessas lindas mansões, na frente da velha, estava na janela um menino de rosto alegre, faces coradas e olhos brilhantes.
Gostava muito da velha mansão, tanto à luz do sol como ao clarão da lua. Ele se divertia em copiar as cabeças que faziam caretas, os ornamentos que representavam soldados armados e as goteiras que se pareciam com dragões e serpentes.
A velha mansão era habitada por um homem idoso que usava calções curtos, um casaco com botões de couro e uma imponente peruca.
Nunca se via ninguém, excepto um velho doméstico, o qual, todas as manhãs, vinha arrumar seu quarto e fazer compras. Algumas vezes olhava para a janela e então o menino o cumprimentava amistosamente; nosso homem respondia e assim eles se tornaram amigos sem nunca se terem falado.
Os pais do menino diziam sempre: “Esse velhote daí em frente parece estar à vontade; mas é uma pena que viva tão só”.
Eis por que o menino, num domingo, depois de ter embrulhado algo num pedaço de papel, foi para a rua e disse ao velho doméstico: “Ouça, se você quisesse levar isto ao velho senhor lá em frente, me daria um grande prazer. Tenho dois soldados de chumbo, e dou-lhe um, para que ele não se sinta tão só’.
O velho doméstico executou o encargo com alegria e levou o soldado de chumbo para a velha mansão. Mais tarde, o menino, convidado a visitar o ancião, correu para lá com a permissão de seus pais.
No interior a maior arrumação reinava por todos os lados; o corredor estava ornado de antigos retratos de cavaleiros em suas armaduras e de senhoras com vestido de seda. No fundo desse corredor havia uma grande varanda, pouco sólida, era verdade, mas toda guarnecida de folhagens e de velhos vasos de flores que tinham por alças orelhas de asno.
A seguir o menino chegou ao aposento onde estava sentado o ancião. – Obrigado pelo soldado de chumbo, meu amiguinho – disse este último. Obrigado pela sua visita!.
– Disseram-me, – replicou o menino –, que você estava sempre sozinho; eis por que enviei-lhe um de meus soldados de chumbo para fazer-lhe companhia.
– Oh! – replicou o velho sorrindo –, nunca estou totalmente sozinho; muitas vezes velhos pensamentos vêm me visitar e agora você vem também; não posso queixar-me..
A seguir ele apanhou numa estante um livro de figuras onde se viam procissões magníficas, carruagens estranhas, como não existem mais e soldados levando o uniforme de valete-de-paus.
Viam-se ainda as suas corporações com todas as suas bandeiras: a dos alfaiates levava dois pássaros sustidos por dois leões; a dos sapateiros estava ornada com uma águia, sem sapatos, é verdade, mas de duas cabeças. Os sapateiros gostam de ter tudo em dobro, a fim de formarem um par.
E, enquanto o menino olhava as figuras, o ancião ia até o aposento vizinho procurar doces, frutas, biscoitos e avelãs. Na verdade a velha mansão não era desprovida de conforto.
“Nunca poderia suportar essa existência, dizia o soldado de chumbo, colocado sobre um cofre. “Como tudo aqui é triste! Que solidão! Que infelicidade encontrar-se em semelhante situação, para quem está acostumado à vida de família! O dia não acaba nunca. Que diferença da sala onde seu pai e sua mãe conversavam alegremente e você e seus irmãos brincavam! Este ancião, na sua solidão, jamais recebe carícias; não rir e sem dúvida passa o Natal sem a sua árvore. Esta habitação se parece com uma tumba; eu nunca suportaria uma tal existência”
“Não se lamente tanto – respondia o menino – pois eu gosto daqui: e depois você sabe que ele recebe sempre a visita de seus velhos pensamentos”.
“É possível, mas eu nunca os veio; nem os conheço. jamais poderia ficar aqui!”
“No entanto, é preciso ficar.”
O velho voltou com um rosto sorridente, trazendo os doces, as frutas e as avelãs e o menino não pensou mais no soldadinho de chumbo.
Após ter-se regalado, voltou contente e feliz para a sua casa; e não deixava de fazer um sinal amistoso ao seu velho amigo, de cada vez que o percebia na janela.
Algum tempo depois, ele fez uma segunda visita à velha mansão.
“Não posso mais!” disse o soldadinho de chumbo; “aqui é muito triste. Tenho chorado chumbo derretido! Gostaria mais de ir para a guerra, arriscando-me a perder pernas e braços. Pelo menos seria uma mudança. Não agüento mais! Agora já sei o que é a visita dos velhos pensamentos; os meus vieram me visitar, mas sem dar-me o menor prazer. Eu os via na casa em frente, como se estivessem aqui. Assisti à prece matutina, às suas lições de música e me achava no meio de todos os outros brinquedos. Ai de mim! Não passavam de velhos pensamentos. Diga-me como se comporta a sua irmã, a pequena Maria. Dê-me notícias também do meu camarada, o outro soldado de chumbo; ele tem mais sorte do que eu. Não posso mais, não posso mais”.
“Você não mais me pertence – respondeu o menino – e eu não tomarei aquilo que dei de presente. Entregue-se à sua sorte”.
O ancião trouxe para o menino umas figuras e um jogo de antigas cartas, enormes e douradas, para diverti-lo.
A seguir abriu o seu clavicórdio, tocou um minueto e cantarolou uma velha canção.
“À guerra! à guerra!”, gritou o soldado de chumbo. E atirou-se ao chão.
O ancião e o menino quiseram levantá-lo, mas procuraram por todos os lados sem conseguir encontrá-lo.
O soldado de chumbo caíra numa fenda.
Um mês mais tarde era inverno e o menino soprava as vidraças a fim de fundir o gelo e limpar o vidro. Dessa maneira ele poderia fitar a velha mansão da frente. A neve cobria completamente a escadaria, todas as inscrições e todas as esculturas. Não se via ninguém, e, realmente, não havia ninguém; o ancião tinha morrido.
Na mesma noite um carro parava na frente da porta para receber o corpo que devia ser enterrado no campo.
Ninguém seguia esse carro; todos os amigos do ancião também estavam mortos. Somente o menino enviou um beijo com a ponta dos dedos para o caixão que partia.
Alguns dias mais tarde, a velha mansão foi posta à venda, e o menino, da sua janela, viu levarem os retratos dos velhos cavaleiros e das castelãs, os vasos de plantas de orelhas de asno, os móveis de carvalho e o velho clavicórdio.
Ao chegar a primavera a velha mansão foi demolida.
“Não passa de um barraco!”, repetia todo mundo, e em algumas horas, não se via mais do que um monte de escombros.
“Até que enfim!”, disseram as casas vizinhas se pavoneando.
Alguns anos mais tarde, no local da velha mansão se erguia uma casa nova e magnífica, com um pequeno jardim rodeado de uma grade de ferro; era habitada por um de nossos antigos conhecidos, o menino amigo do ancião. O menino crescera, casara-se; e, no jardim, ele olhava para sua esposa que plantava uma flor.
De repente ela retirou a mão dando um grito; algo pontudo ferira seu dedo.
Que acham que era? Nada mais do que o soldadinho de chumbo, o mesmo que o menino presenteara ao ancião. jogado para cá e para lá, ele terminara afundando na terra.
A jovem senhora limpou o soldado, primeiro com uma folha verde, depois com o seu lenço. E ele despertou de um longo sono.
“Deixe-me ver!”, disse seu marido sorrindo. “Oh! não, não é ele! Mas eu me lembro da estória de um outro soldado de chumbo que me pertenceu quando eu era criança”.
Então ele contou à esposa a estória da velha mansão, do ancião e do soldado de chumbo que ele dera a este último para fazer-lhe companhia.
Ao ouvi-lo, seus olhos se encheram de lágrimas.
“Quem sabe não se trata do mesmo soldado?”, disse ela. “De qualquer forma vou guardá-lo. Mas você poderia mostrar-me o túmulo do ancião?”
“Não’ – respondeu o marido – “não sei onde está e ninguém sabe também. Todos os seus amigos morreram antes dele, ninguém o acompanhou até a última morada e eu não passava de uma criança.
– Que coisa triste é a solidão!
“Coisa pavorosa, realmente” pensou o soldadinho de chumbo. “Em todo caso, é melhor ficar só do que ser esquecido”.


Hans Christian Andersen




14/04/2008

Riquete do Topete

Era uma vez uma rainha que deu à luz um filho tão feio e tão deformado que, durante muito tempo, se duvidou que tivesse forma humana. Uma fada que estava presente quando ele nasceu assegurou que, apesar do seu aspecto, seria amável e muito inteligente. Acrescentou ainda que, graças ao dom que ela lhe concedera, poderia dar à pessoa que mais amasse uma inteligência igual à sua. Estas palavras consolaram um pouco a pobre mãe que estava tristíssima por ter posto no mundo uma criança tão feia. Com efeito, mal começou a falar, o menino disse logo coisas engraçadas e inteligentes, causando grande admiração entre quem o escutava.
Já me esquecia de dizer que o menino nasceu com uma pequena poupa de cabelo na cabeça, o que fez com que lhe chamassem Riquete do Topete, uma vez que Riquete era o seu nome de família.
Alguns anos mais tarde, a rainha de um reino vizinho deu à luz duas meninas. A primeira era mais bela do que o dia e a rainha ficou tão feliz que se temeu que tanta alegria lhe fizesse mal. Estava presente a mesma fada que assistira ao nascimento do pequeno Riquete do Topete e, para moderar a alegria da mãe, disse-lhe que a princesa teria pouca inteligência e que seria tão estúpida quanto era bonita. A rainha ficou muito triste mas, momentos depois, teve um desgosto ainda maior porque a segunda filha que deu à luz era muitíssimo feia.
- Não se aflija, Majestade – disse a fada – a vossa filha será tão inteligente que a sua fealdade quase não será notada.
- Deus o queira, – respondeu a rainha – mas não haverá meio de conceder um pouco de inteligência à mais velha que é tão bela?
- Não posso valer-lhe no que toca à inteligência, – disse a fada – mas posso fazer tudo em relação à beleza. E como não há nada que eu não faça para vos satisfazer, concedo-lhe o dom de poder tornar bonita a pessoa que ela quiser.
À medida que as duas princesas foram crescendo, cresceram também os seus dotes, e não se falava senão da beleza da mais velha e da inteligência da mais nova. Também é verdade que os seus defeitos aumentaram muito com a idade.
A mais nova estava cada vez mais feia e a estupidez da mais velha crescia de dia para dia: ou não respondia ao que se lhe perguntava ou então dizia um disparate qualquer. Além disso, era tão desajeitada que não conseguia pousar quatro chávenas na borda da chaminé sem partir uma, nem conseguia beber um copo de água sem entornar metade por cima do vestido.
Ainda que a beleza seja uma grande vantagem numa jovem, o certo é que a mais nova suplantava quase sempre a mais velha quanto a companhias durante os serões. A princípio, as pessoas rodeavam a mais velha para a verem e admirarem mas, pouco depois, iam para junto da mais inteligente escutar as mil e uma coisas espirituosas que ela dizia. Em menos de um quarto de hora a mais velha ficava sozinha, enquanto que mais nova tinha toda a gente em seu redor.
A mais velha, apesar de ser muito estúpida, apercebia-se do que se passava e teria dado de bom grado toda a sua beleza em troca de metade da inteligência da irmã. A rainha, ainda que ponderada, não conseguia deixar de a repreender pela sua estupidez, o que entristecia ainda mais esta pobre princesa.
Um dia, foi para o bosque para poder chorar à vontade. Nisto, aproximou-se dela um homenzinho muito feio e desajeitado, mas ricamente vestido. Era o jovem príncipe Riquete do Topete que se tinha apaixonado perdidamente por ela, depois de ver os seus retratos que circulavam por todo o mundo. Abandonara o reino do seu pai para ter o prazer de a ver e de falar com ela. Encantado por a ter encontrado sozinha, dirigiu-lhe a palavra com muita delicadeza. Notando a sua melancolia, disse-lhe:
- Senhora, não compreendo como é que uma pessoa tão bela como vós pode estar tão triste. Asseguro-vos que nunca vi beleza semelhante à vossa.
- Isso di-lo o senhor – respondeu a princesa.
- A beleza constitui um tal privilégio que supera tudo o resto. Quando alguém a possui, não acredito que exista alguma coisa que a possa afligir muito – acrescentou Riquete do Topete.
- Preferia ser feia como vós e ser inteligente, em vez de ser tão bela como sou – confessou a princesa.
- Se é só isso que vos apoquenta, posso facilmente pôr fim à vossa dor.
- E como o farias? – Perguntou a princesa.
- Tenho o dom de dar inteligência à pessoa que mais amar. E, como vos amo, dar-vos-ei o que pretendes se aceitares casar comigo.
A princesa ficou sem palavras, tal foi o seu espanto.
- Vejo que este pedido vos desagrada, o que não me admira nada – continuou Riquete do Topete. – Contudo, dou-vos um ano para decidires.
A princesa era tão pouco inteligente e ao mesmo tempo desejava tanto sê-lo que pensou que um ano seria demasiado tempo para esperar. Por isso, aceitou logo a proposta que lhe fora feita.
Assim que ela prometeu que casaria com Riquete do Topete dentro de um ano naquele mesmo lugar, sentiu-se uma pessoa diferente, sem dificuldade em dizer tudo o que lhe apetecia, de uma maneira elegante, clara e natural. Iniciou logo um diálogo de tal forma espirituoso, que Riquete pensou ter-lhe dado mais inteligência do que a que ele próprio possuía.
Quando regressou ao palácio, a corte nem sabia o que pensar da sua extraordinária mudança. Em situações onde outrora ouviam um chorrilho de disparates, ouviam agora pensamentos claros e muito espirituosos. A única pessoa que não ficou totalmente satisfeita com esta mudança foi a irmã mais nova, porque havia perdido a única vantagem que tinha em relação a ela. O rei passou a ouvir as suas opiniões e, por vezes, pedia-lhe conselhos. Os rumores sobre esta transformação espalharam-se pelo reino e os jovens príncipes dos reinos vizinhos esforçavam-se por conquistar a sua afeição. Muitos pediram-na em casamento, mas a princesa não os achou suficientemente inteligentes e recusou todos os pedidos.
Por fim, houve um príncipe tão poderoso, tão rico, tão inteligente e tão belo que a pediu em casamento, que a ela não pode deixar de pensar no seu pedido. O pai notou o seu interesse pelo príncipe e disse-lhe que podia ser ela a escolher o noivo que entendesse. Só teria que dizer de quem gostava.
Para poder decidir com calma, foi passear, por acaso, para o bosque onde tinha conhecido Riquete do Topete. Foi então que ouviu vozes em surdina, mesmo por baixo dos seus pés, como se aí estivessem muitas pessoas atarefadas, andando de um lado para o outro.
Prestou mais atenção e ouviu alguém pedir:
- Traz-me essa panela.
E logo a seguir:
- Dá-me aquele pote.
E outra pessoa:
- Põe lenha no lume!
Nesse preciso momento o chão abriu-se e ela viu lá em baixo um enorme espaço semelhante a uma cozinha cheia de cozinheiros, de criados e de todo o género de ingredientes que são necessários para se fazer um festim magnífico. Um grupo de vinte ou trinta salsicheiros dirigiu-se para uma alameda do bosque. Puseram-se à volta de uma mesa muito comprida e começaram a trabalhar ao ritmo de uma bela canção.
A princesa, espantada com o que via, perguntou-lhes para quem trabalhavam.
- O nosso amo é o príncipe Riquete do Topete que se casa amanhã – respondeu-lhe o mais vistoso do grupo.
Foi então que a princesa se lembrou que tinha prometido casar-se com Riquete do Topete naquele mesmo dia. Quase desmaiou! Porém, havia uma razão para o seu esquecimento: naquela altura, era apenas uma tonta. Assim que recebeu do príncipe uma nova inteligência, esqueceu todas as tolices que dizia.
Ainda não dera trinta passos quando Riquete do Topete surgiu diante de si, em trajes magníficos, conforme convém a um príncipe que se vai casar.
- Aqui estou, Senhora, pronto a cumprir a minha palavra. Não duvido que também vieste cumprir a vossa e, assim, tornar-me o homem mais feliz do mundo.
- Confesso, com toda a franqueza, que ainda não me decidi e penso que nunca poderei tomar a decisão que deseja – respondeu a princesa.
- Muito me admiro, Senhora! – Respondeu Riquete do Topete.
- Acredito que, se estivesse a falar com um homem grosseiro e bruto, estaria agora bastante embaraçada. «Uma princesa deve cumprir a sua palavra - dir-me-ia ele.» Mas como estou a falar com o homem mais inteligente do mundo, estou certa que me compreenderá. Sabe que, quando era tonta, nem ao menos pude decidir se queria casar consigo ou não. Se pretendia casar comigo não me devia ter livrado da minha estupidez. Agora vejo as coisas com mais clareza!
- Alteza, quereis que me contenha no momento em que a minha felicidade está em jogo? Será razoável que as pessoas inteligentes se encontrem em desvantagem em relação às que o não são? Mas vejamos os factos, se o permitis. Além da minha fealdade há mais alguma coisa que não vos agrade? Desagrada-vos a minha origem, as minhas capacidades, o meu carácter ou as minhas maneiras?
- Não, pelo contrário, todas essas características me agradam - respondeu a Princesa, sem hesitar.
- Então, serei feliz – continuou Riquete do Topete – pois está na vossa mão tornar-me o mais atraente dos homens. Basta que me ames o suficiente. A mesma fada que me concedeu o dom de tornar inteligente a pessoa de quem mais gostasse, também vos concedeu, a vós, o dom de tornar bonito aquele a quem ames.
- Se o que dizes é verdade, desejo do fundo do coração que vos torneis o príncipe mais bonito do mundo – declarou a princesa.
Ainda a princesa não tinha acabado de falar e já Riquete do Topete parecia, aos seus olhos, o homem mais bonito e fascinante que alguma vez vira.
Há quem diga que esta mudança do príncipe não aconteceu graças ao feitiço da Fada, mas que só por amor se pode obter uma metamorfose assim. Dizem que a Princesa, depois de pensar nas qualidades do seu namorado, deixou de ver o seu corpo deformado.
A Princesa prometeu que casaria com ele de imediato, desde que o seu pai concordasse. O Rei, quando soube que a filha sentia grande admiração por Riquete do Topete, príncipe muito conhecido pela sua grande sabedoria, aceitou-o com prazer como genro.
No dia seguinte, celebrou-se a boda, tal como Riquete tinha previsto e de acordo com as ordens que dera há já muito tempo.






12/04/2008

As Fadas



Era uma vez uma viúva que tinha duas filhas. A mais velha era tal e qual a mãe, tanto na aparência como no mau feito. Eram ambas tão mal-humoradas e orgulhosas que ninguém podia viver com elas. A mais nova, pelo contrário, era gentil, boa e muito linda. Era tal e qual o pai. Como cada um prefere o seu igual, a mãe gostava muito da mais velha e detestava a mais nova, obrigando-a a tomar as refeições na cozinha e a trabalhar o dia todo.
Entre outras tarefas, a pobre menina tinha que ir duas vezes por dia buscar água a uma fonte que ficava a meia milha de distância. De regresso, vinha carregada com a bilha cheia de água. Certo dia, quando estava na fonte, acercou-se dela uma pobre mulher que lhe implorou um pouco de água.
- Sim, avozinha – respondeu a menina delicadamente.
Lavou cuidadosamente a bilha, encheu-a no sítio onde a água era mais límpida e ofereceu de beber à velhinha, segurando na bilha para que ela pudesse beber com calma.
Depois de saciar a sede, a boa senhora disse-lhe:
- És tão bela, tão boa e tão gentil que não resisto a conceder-te um dom.
A velhinha era, afinal, uma fada que tinha tomado a forma de uma pobre mulher para ver até que ponto a menina era gentil e bondosa.
- Concedo-te o dom – continuou a fada – de lançares pela boca uma flor ou uma pedra preciosa sempre que proferires uma palavra.
Quando a menina chegou a casa, a mãe ralhou-lhe muito porque se atrasara.
- Peço perdão por ter chegado tão tarde, mãe – disse a menina, ao mesmo tempo que lhe saíam da boca duas rosas, duas pérolas e dois diamantes enormes.
- O que se passa? – exclamou a mãe muito admirada. – Parece que te estão a sair da boca pérolas e diamantes. Como é possível, minha filha? (Foi a primeira vez que lhe chamou filha).
A pobre menina contou-lhe o que acontecera, enquanto lhe saíam da boca uma infinidade de diamantes.
- Tenho que lá mandar a minha filha. Olha, Joaquina, vê o que sai da boca da tua irmã quando fala. Gostarias de ter o mesmo dom? Só tens que ir buscar água à fonte e dar de beber a uma velhinha quando ela te pedir.
- Havia de ter graça, ir agora à fonte… – respondeu a malcriada.
- Faz imediatamente o que te mando – repreendeu-a a mãe.
Ela assim fez, mas de muito mau modo. Pegou na jarra de prata mais bonita que havia em casa e partiu. Assim que chegou à fonte viu aproximar-se uma senhora que saíra do bosque. Vinha magnificamente vestida e pediu-lhe de beber. Era a mesma fada que aparecera à sua irmã, mas que agora tinha o aspecto de uma princesa. Pretendia averiguar até que ponto chegava a rudeza daquela rapariga.
- Então julgas que vim aqui para te dar de beber? – perguntou a malcriada. – Trouxe um jarro de prata de propósito para dar de beber a sua excelência! Ora sirva-se sozinha, se tem sede!
- Não és nada gentil – repreendeu-a a fada, sem se zangar. – Muito bem! Já que és tão pouco afável dou-te o dom de te saírem sapos ou serpentes pela boca, sempre que falares.
Assim que a mãe a viu chegar a casa gritou-lhe:
- Então, minha filha?
- Então, minha mãe? – respondeu-lhe a malcriada, cuspindo duas víboras e dois lagartos.
- Céus! Que vejo eu? – gritou a mãe, horrorizada. – A culpa é da tua irmã, mas ela paga-mas.
Como a mãe lhe queria bater, a menina fugiu para a floresta. O filho do rei, que voltava da caça, encontrou-a e ficou deslumbrado com a sua beleza. Perguntou-lhe o que fazia ali sozinha e porque estava a chorar.
- Ai de mim, senhor! Foi a minha mãe que me expulsou de casa…
O filho do rei, que viu saírem-lhe da boca cinco ou seis pérolas e outros tantos diamantes, pediu-lhe que lhe dissesse de onde vinham aquelas riquezas. A menina contou-lhe a sua aventura. O príncipe, que entretanto se apaixonara por ela, achou que um dom assim valia muito mais do que qualquer dote. Então, levou-a consigo para o palácio do rei seu pai e casou com ela.
Quanto à irmã, tornou-se tão horrorosa que até a mãe a expulsou de casa. Como ninguém queria estar com ela, acabou por se esconder num canto do bosque onde morreu sozinha.



08/04/2008

Sons Inaudíveis

Um rei mandou seu filho estudar no templo de um grande Mestre, com o objectivo de prepará-lo para ser uma grande pessoa. Quando o príncipe chegou ao templo, o Mestre o mandou sozinho para uma floresta. Ele deveria voltar um ano depois, com a tarefa de descrever todos os sons da floresta. Quando o príncipe retornou ao templo, após um ano, o Mestre lhe pediu para descrever todos os sons que conseguira ouvir. Então disse o príncipe:
- Mestre, pude ouvir o canto dos pássaros, o barulho das folhas, o alvoroço dos beija-flores, a brisa batendo na grama, o zumbido das abelhas, o barulho do vento cortando os céus...
E ao terminar o seu relato, o Mestre pediu que o príncipe retornasse à floresta, para ouvir tudo o mais que fosse possível. Apesar de intrigado, o príncipe obedeceu a ordem do Mestre, pensando:
- Não entendo, eu já distingui todos os sons da floresta...
Por dias e noites ficou sozinho ouvindo, ouvindo, ouvindo... mas não conseguiu distinguir nada de novo além daquilo que havia dito ao Mestre. Porém, certa manhã, começou a distinguir sons vagos, diferentes de tudo o que ouvira antes. E quanto mais prestava atenção, mais claros os sons se tornavam. Uma sensação de encantamento tomou conta do rapaz. Pensou:
- Esses devem ser os sons que o Mestre queria que eu ouvisse...
E sem pressa, ficou ali ouvindo e ouvindo, pacientemente. Queria Ter certeza de que estava no caminho certo. Quando retornou ao templo, o Mestre lhe perguntou o que mais conseguira ouvir.
Paciente e respeitosamente o príncipe disse:
- Mestre, quando prestei atenção pude ouvir o inaudível som das flores se abrindo, o som do sol nascendo e aquecendo a terra e da grama bebendo o orvalho da noite...
O Mestre sorrindo, acenou com a cabeça em sinal de aprovação, e disse:
- Ouvir o inaudível é ter a calma necessária para se tornar uma grande pessoa. Apenas quando se aprende a ouvir o coração das pessoas, seus sentimentos mudos, seus medos não confessados e suas queixas silenciosas, uma pessoa pode inspirar confiança ao seu redor; entender o que está errado e atender às reais necessidades de cada um."


Conto oriental





07/04/2008

Cortar Lenha

Um jovem com grande habilidade e rapidez no corte de lenha, procurou um mestre, o melhor cortador de lenha da região e pediu para ser aceito como seu discípulo a fim de aperfeiçoar seus conhecimentos. O mestre concordou e passou a ensiná-lo. Não se passou muito tempo e o discípulo julgou ser muito melhor que o mestre, desafiando-o para uma competição em público. Tendo o mestre aceito o desafio, tudo foi marcado, preparado e teve início a competição. O jovem trabalhava no corte da lenha sem parar, e, de vez em quando, olhava para conferir como estava o trabalho do mestre.
Para grande surpresa do jovem, o mestre encontrava-se muitas vezes sentado, tendo isto ocorrido durante toda a competição. E isto fortaleceu ainda mais a determinação do jovem, que continuou a cortar a lenha e a pensar
- Coitado, o mestre realmente está muito velho...
Ao término da competição foram medir os resultados, e o mestre havia cortado mais lenha que o discípulo. O jovem indignado disse:
- Não consigo entender, não parei de cortar lenha o dia todo, com toda minha energia, e cada vez que eu olhava o senhor estava descansando!
O mestre respondeu:
- Não meu jovem, eu não apenas descansava. Eu amolava o meu machado. Você, por estar tão empolgado em cortar mais lenha, se esqueceu desse pequeno detalhe. Afiar seu próprio machado! E por isso, sua produtividade caiu e você perdeu!








05/04/2008

Contra os de gosto exigente


Se ao nascer, eu tivesse em partilha,
Esses dons geniais e seletos,
Que, a mãos cheias, a mãe da Epopéia
Conferiu a seus vates diletos;

Às mentiras de Esopo os sagrara;
Porque foram mentira e poesia
Sempre amigas, vivendo no seio
Da mais plena e perfeita harmonia.

Mas não sou tão mimoso do Pindo,
Que alindar ouse tantas ficções;
Posso e tento somente algum brilho
Dar do Frígio às gentis invenções.

Talvez outros anais hábeis consigam
Este fito alcançar, que mirei;
Entretanto, de certa maneira,
O sistema do mestre alterei.

Até aqui, em linguagem que é nova,
Pus o lobo e o cordeiro a falar;
Inda mais — arvoredos e plantas
Fiz em seres parlantes mudar.

Quem não vê nisto tudo magia?
"Grande coisa (dirão os censores)
Numas seis narrações de crianças,
Esgotastes da forma os primores!"

— "Quereis contos de autêntica origem,
E de estilo grandíloquo e sério?
Vou, de pronto, exigentes censores,
Sujeitá-los ao vosso critério...

Lassos os Gregos de lutar dez anos
Contra as velhas, ilíacas muralhas,
Ferem assaltos mil e cem batalhas,
Sem alcançar vitória dos Troianos.
Um cavalo de pau, que se dizia
De Palas artifício e invento novo,
Os chefes principais do argivo povo
Em seus enormes flancos recebia.
Diomedes prudente, Ajax fogoso,
O sábio Ulisses, esquadrões a rodo,
Leva em si o colosso monstruoso,
Que deve Tróia destruir de todo.
Nem poupam numes do furor tremendo.
O engenhoso, inaudito estratagema
Paga do construtor fadiga extrema..."
"— Basta! (Vai um dali me interrompendo)
Que período longo! Estou cansado!
Esse grande cavalo de madeira,
Tanto herói, tanta gente assim guerreira,
É tema tedioso e repisado.
Antes o canto do raposo arteiro,
Que do estólido corvo a voz exalta.
Demais — é vosso tom muito altaneiro!
Mudai de solfa; assunto não vos falta".

Desço de tom. Eis um tema
Que, há pouco, me não lembrava:
"Amarílide ciumenta
Em seu Alcino pensava;

Julga ter por testemunhas
Somente o cão e os carneiros.
Tireis, que a vira de longe,
Metendo-se entre os salgueiros.

Ouve a pastora, que às brisas
Atira o terno descante,
Pedindo-lhes vão levá-lo
À seu dedicado amante..."

— "Vede essa quadra (diria
Um crítico impertinente):
Metei-a outra vez na forja,
Pois não tem rima cadente".

— "Duro censor! Não te calas?
Não queres que finde o conto?
Agradar meticulosos
É bem delicado ponto".

Os que têm gosto difícil
Em tudo encontram defeitos;
Nada lhes toa. Infelizes!
Nunca vivem satisfeitos!

Barão de Paranapiacaba (Trad.)

O ursinho e as abelhas


Um filhote de urso estava passeando pela floresta quando viu um buraco no tronco de uma árvore.
Olhando mais de perto, reparou que uma porção de abelhas entravam e saíam constantemente do buraco. algumas permaneciam em frente à entrada como se estivessem montando guarda. Outras chegavam voando e entravam. Outras ainda saíam e sumiam pela floresta a dentro.
Cada vez mais curioso, o ursinho pôs-se em pé nas patas traseiras, meteu o focinho no buraco, farejou e depois enfiou uma pata.
Quando retirou a pata ela estava lambusada de mel.
Porém mal começara a lambê-la quando um enxame de abelhas enfurecidas saiu do buraco e atacou-o, mordendo-lhe o focinho, as orelhas, a boca, todo ele.
O ursinho tentou defender-se, mas se enxotava as abelhas para um lado elas voltavam e atacavam pelo outro. Enfurecido, tentou vingar-se através de golpes pelos dois lados. Porém, querendo atingir a todas, não conseguiu derrubar nenhuma. Finalmente rolou pelo chão até que, vencido pelo medo e pela dor das picadas, voltou correndo e chorando para junto de sua mãe.






03/04/2008

O saco prodigioso


Contam que o califa Harun Ar-Rachid, atormentado certa noite pela insónia, apelou a Jafar, seu vizir, para que lhe proporcionasse algum divertimento. Jafar respondeu: "Ó Emir dos Crentes, tenho um amigo chamado Ali que sabe uma porção de histórias deliciosas, óptimas para apagar as mágoas e acalmar os ânimos irritados!" Ali foi imediatamente chamado à presença do califa, e o califa disse-lhe: "Escuta, Ali! Disseram-me que conheces histórias capazes de dissipar a mágoa e de trazer o sono. Desejo de ti uma dessas histórias." Ali respondeu: "Ouço e obedeço, ó Emir dos Crentes! Porém, não sei se devo contar-vos algo que tenha ouvido com meus ouvidos ou que haja visto com meus olhos!" Ar-Rachid disse: "Prefiro uma história de que tu mesmo participes!" Então, disse Ali: "Um dia, estava eu sentado em minha tenda, vendendo e comprando, quando chegou um curdo para negociar comigo alguns objectos; mas, de repente, apoderou-se de um saco que eu tinha diante de mim, e sem se dar sequer ao trabalho de
ocultá-lo, quis levá-lo, como se fosse de sua absoluta propriedade. De um salto, agarrei o curdo pela aba da roupa e exigi que me devolvesse o saco; mas ele encolheu os ombros e disse: `Ora este saco é meu com tudo o que contém!' "Então, gritei o mais alto que pude: `Ó muçulmanos, salvai das mãos deste infiel o que é meu!' Ao ouvir meus gritos, todo o mercado agrupou-se em redor de nós, e os mercadores me aconselharam a queixar-me ao Cádi. “Quando chegamos à presença do cádi, mantivemo-nos de pé respeitosamente, e começou ele por perguntar-nos: `Quem de vós é o querelante e de quem se queixa?' O curdo, então, sem dar-me tempo para abrir a boca, adiantou-se alguns passos e respondeu:
"`Dê Alá seu apoio a nosso amo, o cádi! Este saco é meu. Pertence-me com todo o seu conteúdo. Havia-o perdido, e acabo de reencontrá-lo diante deste homem!' "O cádi perguntou-lhe: `Quando o perdeste?'
"O curdo respondeu: Ontem, e sua perda impediu-me de dormir à noite!' "O cádi disse-lhe: `Enumera-me os objectos que contém!' "Sem titubear um instante, respondeu o curdo: `Em meu saco, ó nosso amo cádi, há um lenço, dois copos de limonada com a borda dourada, duas colheres, um almofadão, dois tapetes para mesa de jogo, duas panelas com água, duas cestas de vime, uma bandeja, uma marmita, um depósito de água de barro cozido, uma caçarola de cozinha, uma agulha grossa de fazer malha, dois sacos com provisões, uma gata, duas cadelas, uma vasilha com arroz, dois burros, duas liteiras para mulher, um
traje de pano, duas peliças, uma vaca, dois bezerros, uma ovelha com dois cordeiros, uma fêmea de camelo com dois camelinhos, dois dromedários de carga com suas fêmeas, um búfalo, dois bois, uma leoa com dois leões, uma ursa, dois zorros, duas camas, um palácio com dois salões de recepção, duas tendas de fazenda verde, dois dosséis, uma cozinha com duas portas e uma assembléia de curdos de minha espécie, dispostos a dar fé de que este saco é meu saco.' "Então o cádi olhou para mim e perguntou-me: `E que tens tu para contestar?' "Eu, ó Emir dos Crentes, estava estupefacto com tudo aquilo. Entretanto, avancei um pouco e respondi: `Que Alá leve e honre o nosso amo cádi! Eu sei que em meu saco há somente um pavilhão em ruínas, uma casa sem cozinha, um canil, uma escola de adultos, uns jovens jogando dados, uma guarida de salteadores, um exército com seus chefes, a cidade de Basra e a cidade de Bagdá, o palácio antigo do emir Chedad-Ben-Aad, um forno de ferreiro, um caniço de pescar, um cajado de pastor, cinco rapazes e doze donzelas intactas e mil condutores de caravanas dispostos a jurar que este saco é meu!' Quando o curdo ouviu minha resposta, irrompeu em choro e soluços, e depois exclamou com a voz entrecortada por lágrimas: `Ó nosso amo cádi, este saco que me pertence é conhecido e reconhecido, e todo mundo sabe que é de minha propriedade. Aliás, contém, além do que enumerei e que ia esquecendo, duas cidades fortificadas e dez torres, dois alambiques de alquimista, quatro jogadores de xadrez, uma égua e dois potros, uma sementeira, duas jaqueiras, duas lanças, duas lebres, um rapaz inteligente, dois mediadores, um cego, um coxo e dois paralíticos, um capitão de marinha, um navio com seus marinheiros, um sacerdote cristão, um patriarca e dois frades e, por fim, um cádi e duas testemunhas dispostas a jurar que este saco é meu!.' `f1o ouvir estas palavras, o cádi olhou para mim e perguntou-me: `Que tens para contestar a tudo isso?' "Eu, ó Emir dos Crentes, sentia-me enraivecido até a ponta dos cabelos. Adiantei-me, contudo, mais alguns passos e respondi com toda a calma de que era capaz: `Alá esclareça e consolide o juízo de nosso amo, ó cádi! Devo acrescentar que neste saco há, além do que já enumerei e que também ia esquecendo, medicamentos contra dor de cabeça, filtros e amuletos, cotas de malhas e armários cheios de armas, mil carneiros destinados a lutar a chifradas, um parque com gado, homens dados às mulheres, outros afeiçoados aos rapazes, jardins cheios de árvores e de flores, vinhas carregadas de uvas, maçãs e figos, sombras e fantasmas, frascos e copos, cinco casais recém-casados com o seu séquito, vinte cantoras, cinco formosas escravas abissínias, três hindus, quatro gregas, cinquenta turcas, setenta persas, quarenta cachemirenses, oitenta curdas, outras tantas chinesas, noventa georgianas, todo o país do Iraque, o paraíso terrestre, dois estábulos, uma esquita, vários banheiros públicos, cem mercadores, uma mesa de madeira, um escravo negro que toca clarinete, mil dinares, vinte caixões cheios de tecidos, cinqüenta armazéns, as cidade de Kufa, Gaza, Damieta, Assua, os palácios de Kisra Anuchiruan e de Salomão, todas as comarcas situadas entre Balkh e Ispahan, a Índia, o Sudão e o Khorassan. Meu saco contém ainda (Alá preserve os dias de nosso amo cádi) uma mortalha, um ataúde e uma navalha de barbear para a barba do cádi se o cádi não quiser reconhecer meus direitos e não sentenciar que este saco é de minha propriedade!' "Quando o cádi ouviu tudo aquilo, olhou-nos e disse: `Por Alá, ou sois dois gaiatos que quereis zombar da lei e de seu representante, ou este saco é um abismo sem fundo ou o próprio Vale do Dia do Juízo!' "E para verificar quem estava mentindo, o cádi mandou abrir o saco ante as testemunhas. Continha umas cascas de laranja e uns caroços de azeitonas!
"Então, admirando-me o quanto pode alguém admirar-se, declarei ao cádi que aquele saco pertencia ao curdo e que o meu havia desaparecido. E fui-me." Quando o califa Harun Ar-Rachid ouviu esta história, riu gostosamente, deu um magnífico presente a Ali, e dormiu até a manhã seguinte!







O Azeiteiro e o Burro

Dois estudantes encontraram, numa estrada, um azeiteiro com um burro carregado de bilhas de azeite. Os estudantes estavam sem dinheiro; por isso, decidiram roubar o animal. Enquanto o pobre homem seguia o seu caminho, um deles tirou a cabeçada do burro e colocou-a no pescoço. O outro estudante fugiu com o animal e a carga. De repente, o azeiteiro olhou para trás e viu um rapaz em vez do burro.
Nesse momento, o estudante exclamou: «Ah! senhor, quanto lhe agradeço ter-me dado uma pancada na cabeça! Quebrou-me o encanto que durante tantos anos me fez ser burro!...»
O azeiteiro tirou o chapéu e disse-lhe: «Afinal, o meu burro estava enfeitiçado! Perdi o meu ganha-pão! Peço-lhe muitos perdões por tê-lo maltratado tanta vez - mas que quer? - o senhor era muito teimoso!»
- Está perdoado, bom homem! - disse o estudante. O que lhe peço é que me deixe em paz.
O pobre azeiteiro lamentou-se porque já não podia vender o azeite. Então, foi pedir dinheiro a um compadre para ir à feira comprar outro burro. Quando lá chegou, viu um estudante a vender o seu burro. O azeiteiro pensou que o rapaz se tinha transformado, outra vez, num animal! Aproximou-se do burro e gritou com toda a força: «Olhe, senhor burro, quem o não conhecer que o compre».


Recolha de Adolfo Coelho



01/04/2008

Conde Yanno





Chorava a infanta, chorava,
Chorava e razão havia,
Vivendo tão descontente;
Seu pai por casar a tinha.
Acordou el-rei da cama
Com o pranto que fazia:
– «Que tens tu, querida infanta.
Que tens tu, ó filha minha?»
– «Senhor pai, o que hei-de eu ter
Senão que me pesa a vida?
De três irmãos que nós éramos,
Solteira eu só ficaria.»
– «Que queres tu que te eu faça?
Mas a culpa não é minha.
Cá vieram embaixadas
De Guitaina e Normandia;
Nem ouvi-las não quiseste,
Nem fazer-lhes cortesia...
Na minha corte não vejo
Marido que te daria...
Só se fosse o conde Yanno,
E esse já mulher havia».
«Ai! rico pai da minha alma,
Pois esse é que eu queria.
Se ele tem mulher e filhos,
A mim muito mais devia,
Que me não soube guardar
A fé que me prometia».
Manda el-rei chamar o conde,
Sem saber o que faria:
Que lhe viesse falar...
Sem saber que lhe diria.
– «Inda agora vim do paço,
Já el-rei lá me queria!
Ai! será para meu bem?
Ai! para meu mal seria?»

Conde Yanno que chegava,
El-rei a que buscar o vinha:
– «Beijo a mão a vossa alteza;
Que quer vossa senhoria?»
Responde-lhe agora o rei
Com grande merencoria:
– «Beijai, que mercê vos faço;
Casareis com minha filha.»
Cuidou de cair por morto
O conde que tal ouvia:
– «Senhor rei, que sou casado
Já passa mais de ano e dia!»
– «Matareis vossa mulher,
Casareis com minha filha.»
– «Senhor, como hei-de matá-la,
Se a morte me não mer’cia?»
– «Calai-vos conde, calai-vos,
Não vos quero demasia;
Filhas de reis não se enganam
Como uma mulher cativa.»
– «Senhor, que é muita razão,
Mais razão que ser devia,
Para me matar a mim
Que tanto vos ofendia;
Mas matar uma inocente
Com tamanha aleivosia!
Nesta vida nem na outra
Deus me não perdoaria.»
– «A condessa há-de morrer
Pelo mal que cá fazia;
Quero ver sua cabeça
Nessa doirada bacia».
Foi-se embora o conde Yanno,
Muito triste que ele ia,
Adiante um pajem del-rei
Levava a negra bacia,
O pajem ia de luto,
De luto o conde vestia:
Mais dó levava no peito
Cos apertos da agonia.
A condessa que o esperava,
De muito longe que o via,
Com o filhinho nos braços
Para abraçá-lo corria:
– «Bem-vindo sejais, meu conde,
Bem-vinda minha alegria!»
Ele sem dizer palavra
Pelas escadas subia.
Mandou fechar seu palácio,

Coisa que nunca fazia;
Mandou logo pôr a ceia
Como quem lhe apetecia.
Sentaram-se ambos à mesa,
Nem um nem outro comia;
As lágrimas era um rio
Que pela mesa corria.
Foi a beijar o filhinho
Que a mãe aos peitos trazia,
Largou o seio o inocente,
Como um anjo lhe sorria.
Quando tal viu a condessa,
O coração lhe partia;
Desata em tamanho chora
Que em toda a casa se ouvia;
– «Que tens tu, ó querido conde,
Que tens tu, ó vida minha?
Tira-me já destas ânsias
El-rei o que te queria?»
Ele afogava em soluços,
Responder-lhe não podia;
Ela, apertando-o nos braços,
Com muito amor lhe dizia:
– «Abre-me o teu coração,
Desafoga essa agonia,
Dá-me da tua tristeza
Dar-te-ei da minha alegria».
Levantou-se o conde Yanno,
A condessa que o seguia.
Deitaram-se ambos no leito;
Nem um nem outro dormia.
Ouvireis a desgraçada;
Ouvide ora o que dizia:
– «Peço-te por Deus do céu
E pela Virgem Maria,
Antes me mates, meu conde,
Que eu ver-te nessa agonia.»
– «Morto seja quem tal manda,
Mais a sua tirania!
– «Ai! não te entendo; meu conde,
Dize-me, por tua vida,
Que negra ventura é esta.
Que entre nós está metida?»
– «Ventura da sem ventura.
Grande foi tua mofina!
Manda-me el-rei que te mate,
Que case com sua filha.»
Palavras não eram ditas,
Inda mal lhas ouviria,
A desgraçada condessa
Por morta no chão caía.
Não quis Deus que ali morresse...
Triste que ali não morria!
Maior dor que a da morte
A torna a chamar à vida.
– «Cala, cala, conde Yanno,
Que inda remédio haveria;
Ai! não me mates, meu conde,
E um alvitre te daria:
A meu pai me mandarás,
Pai que tanto me queria!
Ter-me-ão por filha donzela
E eu a fé te guardaria.
Criarei este inocente
Que a outra não criaria;
Manter-te-ei castidade
Como sempre ta mantia.»
– «Ai como pode isso ser,
Condessa minha querida,
Se el-rei quer tua cabeça
Nesta doirada bacia?»
– «Cala, cala, conde Yanno,
Que inda remédio teria.
Meter-me-ás num convento
Da ordem da freiraria;
Dar-me-ão o pão por onça
E a água por medida:
Eu lá morrerei de pena,
E a infanta o não saberia.»
– «Ai! como pode isso ser,
Condessa minha querida,
Se quer ver tua cabeça
Nesta maldita bacia?»
– «Fecháras-me numa torre,
Nem sol, nem lua veria,
As horas da minha vida
Por meus ais as contaria.»
– «Ai como pode isso ser,
Condessa minha querida,
Se el-rei quer tua cabeça
Nesta doirada bacia?»
Palavras não eram ditas,
El-rei que à porta batia:
Se a condessa não é morta,
Que então ele a mataria.
– «A condessa não é morta
Mas está na agonia.»
– «Deixa-me dizer, meu conde,
Uma oração que eu saiba.»
– «Dizei depressa, condessa,
Antes que amanheça o dia.»
– «Ai! quem podera rezar,
Ó virgem Santa Maria!
Que eu não me pesa da morte,
Pesa-me da aleivosia:
Mais me pesa de ti, Conde,
E da tua covardia.
Matas-me por tuas mãos,
Só porque el-rei o queria!
Ai! Deus te perdoe, Conde,
Lá na hora da contia.
Deixar-me dizer adeus
A tudo o que eu mais queria;
Às flores deste jardim,
Às águas da fonte fria.
Adeus cravos, adeus rosas,
Adeus flor da Alexandria!
Guardai-me vós meus amores
Que outrém me não guardaria.
Dêem-me cá esse menino,
Entranhas da minha vida;
Deste sangue de meu peito
Mamará por despedida.
Mama, meu filhinho, mama
Desse leite da agonia;
Que até agora tinhas mãe,
Mãe que tanto te queria,
Amanhã terás madrasta
De mais alta senhoria...»
Tocam nos sinos na sé...
Ai Jesus! Quem morreria?
Responde o filhinho ao peito,
Respondeu – que maravilha!
– «Morreu, foi a nossa Infanta.
Pelos males que fazia;
Descasar os bem casados:
Coisa que Deus não queria.»


Romanceiro, Almeida Garrett


31/03/2008

As filhas de Faram

Faram e sua esposa tinham duas filhas, Mate e Secanhuma, sendo a primeira mais velha. Os pais sempre preveniram às meninas de que, após a morte deles, elas deveriam se manter unidas. O tempo passou e os pais das moças morreram. Mate, ao sair para trabalhar a terra, preparando-a para o plantio, disse a Secnhuma que não abrisse a porta a ninguém, quando ela chegasse cantaria “Secnhuma yóó-bara e tio alumbrem jilio-jeli-yeee” e então a menina saberia que era ela e poderia abrir. Porém, um irã escondido ouviu tudo o que Mate disse a irmão. Após alguns dias, Mate teve de voltar para o trabalho e deu novamente a mesma recomendação. Não havia passado muito tempo quando Secanhuma ouviu a canção: “Secnhuma yóó-bara e tio alumbrem jilio-jeli-yeee”. A moça abriu a porta, mas quem estava a sua frente não era Mate, mas o irã, que raptou a menina e a levou para a sua terra. Ao voltar, Mate ficou pensando sobre o que poderia fazer para encontrar e trazer de volta a sua irmã. Decidiu procurar um pássaro que a pudesse ajudar. Para isso era necessário um pássaro que conseguisse cantar aquela canção e o único que conseguiu foi o falcão. Mate sentou-se às costas do falcão e os dois partiram. Ao chegarem à terra do irão, o falcão começou a cantar: “Secnhuma yóó-bara e tio alumbrem jilio-jeli-yeee”. Uma velha perguntou a Mate o fazia ali, ao que ela respondeu que viera buscar a irmã. A velha, então disse-lhe que buscaria a moça e, de fato, voltou com ela. As duas moças voltaram para casa às costas do falcão. Durante o período em que Secanhuma estivera em casa do irão, não cortara os cabelos, que tinham até ninhos de passarinhos. No dia seguinte, Secanhuma pediu a irmã que retirasse aquele ovos de seus cabelos, e cada ovo que Mate retirava transformava-se em vaca, cabra, porco, galinha e diversos animais. Foi dessa forma que as duas filhas de Faram tornaram-se ricas.


Conto da Guiné-Bissau


O trigo e o joio



O reino dos céus — disse o Cristo — é semelhante a. um homem que semeou boa se­mente no seu campo. Mas, enquanto os servos dormiam, veio um inimigo dele, semeou joio no meio do trigo e retirou-se.
Quando a erva cresceu e deu fruto, então apareceu também o joio.
Chegando os servos ao dono do campo, disseram-lhe:
— Senhor, não semeaste boa semente no teu campo? donde, pois, vem o joio?
E ele lhes disse:
- Homem inimigo é que fêz isso.
Os servos continuaram:
- Queres, então, que o arranquemos?
— Não — respondeu ele —, para que não suceda que, tirando o joio, arranqueis junta­mente com ele também o trigo. Deixai crescer ambos juntos até à ceifa; e no tempo da ceifa direi aos ceifeiros:
- Ajuntai primeiro o joio e atai-o em feixes para o queimar, mas o trigo, recolhei-o no meu celeiro.


Parábolas de Jesus
Mat. 13:24-30


30/03/2008

O homem e o jabuti

O jabuti estava em um buraco tocando gaita. As pessoas que passavam paravam para escutar. Um homem aproximou-se e chamou o bichinho. Quando o jabuti saiu da toca, o homem o apanhou, levando-o para casa e colocando-o dentro de uma caixa. Quando saiu para trabalhar, o homem preveniu os filhos de que não deveriam deixar o animal escapar. Porém, ao ouvir o bchinho tocando sua gaita, as crianças ficaram encantadas. Então, o jabuti disse a elas que, se toca gaita tão bem, dança ainda melhor, e as crianças o soltaram para que dançasse. Durante algum tempo, o jabuti dançou, mas depois pediu para ir fazer xixi. Os meninos deixaram, lembrando-o de que deveria voltar. Todavia, em vez de voltar, o jabuti escondeu-se no mato. Ao retornar para casa o homem pediu que as crianças colocassem o jabuti na panela. Os meninos, então, puseram em seu lugar uma pedra pintada. Ao dar-se conta do havia acontecido, o homem saiu para chamar o jabuti de volta, mas este só lhe respondia tocando flauta. O homem desgostou-se da situação e desistiu do jabuti.


Conto do Brasil


27/03/2008

A história da caveira

Era uma vez um granjeiro que tinha apenas um filho. Este filho morreu e o pai não quis ir ao enterro porque antes houve uma briga entre eles. Passado um tempo, morreu um vizinho e ele foi ao seu enterro. Depois da cerimónia e ainda estando o granjeiro no cemitério, olhando distraído ao redor viu uma caveira.
Juntou-a e disse, pensativo:
- Gostaria de saber alguma coisa sobre ti...
E a caveira falou:
- Amanhã irei passar a noite contigo, se vieres passar outra noite comigo.
-Assim farei - disse o granjeiro.
No caminho de volta, encontrou um sacerdote e comentou o que tinha ocorrido. O sacerdote lhe disse que deveria ter sonhado, posto que as caveiras não falam.
O granjeiro lhe contou que na noite seguinte seria visitado pela caveira, e o sacerdote concordou em ir.
Assim, na noite seguinte, estavam o granjeiro e o sacerdote conversando quando, em seguida, chamaram à porta e apareceu a caveira. Ela subiu à mesa e comeu tudo que nela havia. Depois, saiu e desapareceu.
- Por que não falaste nada? inquiriu o granjeiro ao sacerdote.
-Por que TU não falaste?. respondeu o outro.
Na noite seguinte, como dia combinado com a caveira, o granjeiro foi até o cemitério e, não vendo nada, desceu os três degraus que estavam junto à Igreja.
De pronto se encontrou no meio de um campo, cheio de homens que lutavam entre si. Ao ver o granjeiro, perguntaram-lhe se procurava o crânio. Ao assentir, eles disseram:
- Acaba de ir para o campo ao lado.
No outro campo viu homens e mulheres que lutavam entre si. - Estás procurando um crânio? - perguntaram. Pois bem, acaba se ir ao campo do lado.
O granjeiro se foi ao campo do lado e viu uma grande casa. Ao entrar viu que era a habitação de uma dama e uma criada. A dama caminhava de um lado a outro da casa, e cada vez que chegava perto do fogo para se aquecer, a criada a empurrava. Também lhe perguntaram se buscava um crânio e que se era isso, que saira pela porta esquerda da casa e por ali saiu o granjeiro.
Ao entrar na casa contígua, encontrou a caveira e esta lhe perguntou se queria cear, com o que assentiu o granjeiro. A caveira o conduziu a cozinha onde estavam três mulheres. A caveira pediu a uma delas que servisse a ceia, e esta serviu pão preto e uma jarra d’água, o que ele não conseguiu comer. Em seguida pediu à segunda mulher que fizesse o mesmo, e ela serviu pior ao granjeiro do que a primeira. Por fim a caveira pediu à terceira mulher, e esta serviu uma deliciosa refeição, com uma profusão de pratos e excelentes vinhos.
Depois de comer, perguntou ao crânio o que tinha sido aquilo.
- Os homens que viste no primeiro campo se dedicavam a lutar entre si enquanto estavam vivos, porque tinham terras próximas e se acostumavam a mover as estacas e agora precisam lutar entre si para sempre. Os homens e mulheres que viste eram casais casados que viviam a brigar e agora devem seguir eternamente em brigas. A senhora que viste na casa e que a criada não deixava se aquecer fez o mesmo com a criada, que um dia chegou molhada e com frio, e agora a criada faz o mesmo com ela, até o dia do Juízo Final. As três mulheres na cozinha foram minhas três esposas. Quando pedia à primeira que me preparasse a ceia, me oferecia pão preto e água, a segunda ainda coisa pior mas a terceira me servia o banquete que ceaste.
A caveira então olhou lugubremente o lavrador e disse:
-E quanto a ti, foste trazido a este lugar por não querer ir ao funeral do teu filho, apesar de teres ido ao de um vizinho. Assim, sugiro que, se queres te salvar, vá onde enterraram teu filho e pede-lhe perdão e, caso o obtenhas, saiba que desde o dia que saíste de casa até chegar aqui se passaram 700 anos.
O lavrador ficou petrificado e, como despertando de um sonho, se viu caminhando pelos campos, por lugares que antes ele havia passado mas que haviam mudado de forma pelo tempo transcorrido. Ao fim chegou ao cemitério e conseguiu localizar a tumba do filho . Ali se ajoelhou e pediu perdão. O perdão a seu filho.
Por fim surgiu uma mão da tumba, que tomou a sua e ambos, pai e filho, subiram juntos ao céu.


Conto Celta

24/03/2008

A História de Kafur, o Negro

Irmãos, minha história começa quando eu tinha oito anos, pois já então era um mentiroso consumado. Nunca contei mais de uma mentira por ano, mas era uma mentira de tamanho brilho que meu dono, que era mercador de escravos, costumava cair no chão quando a ouvia. Finalmente, não podendo mais aguentar comigo, mandou oferecer-me à venda nestes termos: "Quem quer comprar um negro com um defeito?" Um comerciante perguntou qual era o defeito. Disseram-lhe que eu mentia uma vez por ano. Comprou-me, defeito e tudo, por seiscentos dirhams. Meu novo amo vestiu-me com roupa que me caía muito bem, e vivi com ele pelo restante daquele ano. O ano novo chegou com promessas de colheitas abundantes nos campos e nas hortas, e os comerciantes festejaram-no e prestaram homenagens uns aos outros nos jardins fora da cidade. Quando chegou a vez de meu amo, este mandou preparar abundantes comidas e bebidas e ofereceu aos amigos na sua casa de campo uma festa sumptuosa que duraria da manhã à noite. Mas aconteceu que ele esquecera algo em sua residência. Mandou-me, pois, montar uma mula e voltar à cidade. Devia pedir o objecto esquecido a minha ama e levá-lo de volta o mais rapidamente possível. Ao aproximar-me da casa, comecei a lamentar-me em alta voz e derramar abundantes lágrimas. Os vizinhos acorreram. As mulheres apareceram às janelas, acompanhadas pelas filhas. Todos me perguntavam o que tinha acontecido. Respondi através dos gemidos: "Meu amo estava no jardim com seus convidados quando uma muralha caiu sobre ele e o esmagou. Pulei sobre minha mula e vim avisar a família." Ouvindo essa notícia, minha ama e suas filhas entraram em pranto, rasgaram os vestidos, bateram no rosto. E minha ama, querendo exibir a aflição conforme as tradições, pôs-se a destruir a casa, quebrando armários, portas e outros móveis e jogando na rua o que não conseguia quebrar. Manchou e sujou as paredes e pediu-me para ajudá-la nessa demolição generalizada.
Não me fiz de rogado. Comecei imediatamente a destruir os objectos mais pesados. Quebrei também a louça, queimei as camas, os tapetes, as cortinas, as almofadas. Depois, passei ao tecto e às paredes até que toda a casa virou uma só ruína. Durante esse tempo, não parava de chorar e gemer: "Meu amo! Oh, meu Amo!
Minha ama e suas filhas saíram à rua com os rostos descobertos e o cabelo desarrumado. Pediram-me para guiá-las ao lugar onde meu amo estava enterrado sob a muralha. Andei na frente delas, lamentando: "Meu amo! Oh, meu amo!" Breve, uma multidão juntou-se a nós. E alguém aconselhou à minha ama a comunicar o acidade ao uáli. Deixei-os dirigirem-se à residência do uáli e corri até o jardim onde estava meu amo; cobri meu cabelo com poeira, bati no rosto e aproximei-me do jardim gritando:"Minha ama! Oh, minha ama! Minhas pequenas amas! Meus pobres pequenos amos!" Pulei no meio dos convivas numa manifestação extravagante de aflição, gemendo: "Oh, quem me ajudará? Que mulher será jamais tão boa quanto minha pobre ama! Naturalmente, meu amo mudou de cor e perguntou-me o que acontecera. "Meu amo, respondi, quando cheguei em casa, vi que ela havia caído sobre tua mulher e teus filhos."
- Mas a minha mulher se salvou, não?
- Que pena, não, respondi. Ninguém escapou. Tua filha mais velha foi a primeira a morrer.
- E minha filha menor?
- Morta, morta!
- E meus dois filhos varões?
- Morreram. Morreram todos.
- E meu camelo?
- Morreu também. Oh, meu amo, ninguém escapou. As paredes da casa e as paredes do estábulo caíram juntas e esmagaram a todos, até os cabritos, os cachorros, as galinhas e os pássaros. Ninguém escapou. Oh, meu amo, o senhor não tem mais nem casa nem família.
A luz virou escuridão nos olhos de meu amo. Rasgou a roupa, arrancou a barba, bateu nas faces até que sangraram, gritando: “Meus filhos! Minha mulher!"
Os convivas cercaram-no, procurando fortalecê-lo. E todos se reuniram e se dirigiram para o local da tragédia quando viram ao longe uma multidão aproximar-se. Quando os dois grupos se encontraram, a primeira pessoa com quem meu amo cruzou foi a própria mulher. Ao constatar que estava cercada por todos os seus filhos, pôs-se a rir como um louco. Seus familiares jogaram-se por sua vez nos seus braços, gritando: "Meu marido, meu pai, graças a Deus estás salvo. Como conseguiste escapar da muralha que desabou sobre ti?" Gritava ele por sua vez: "Estais todos salvos, meus queridos. Como conseguistes vos salvar quando a casa desabou sobre vós?" Não demoraram uns e outros a dar-se conta de que tinham sido trágica e cinicamente enganados pelas minhas mentiras. Meu amo lançou-se sobre mim, berrando: "Escravo miserável, imundo, negro azarento, filho de uma prostituta e de um milhar de cachorros, amaldiçoado filho de uma raça maldita. Por que nos mergulhaste a todos nessa terrível aflição? Por Alá, vou separar tua pele de tua carne e tua carne de teus ossos." Respondi sem medo: "Desafio-te a fazer-me o menor mal. Compraste-me com meu defeito na presença de testemunhas. Foste especificamente avisado de que meu defeito era dizer uma mentira por ano." Quando chegamos a casa e ele a viu em ruínas, tendo a mulher lhe contado com algum exagero que tudo fora obra minha, ficou mais furioso ainda. "Bastardo, filho de uma cachorra," gritou e levou-me ao uáli. Lá deram-me inumeráveis chicotadas até que perdi os sentidos. Enquanto estava inconsciente, chamaram um barbeiro que me castrou completamente. Acordei um eunuco de verdade, e ouvi meu amo dizer: "Destruíste coisas que me eram muito caras, e eu destruí coisas que te eram muito caras." Depois, levou-me ao mercado e vendeu-me por um preço superior ao que tinha pago por mim porque eu já era um eunuco. Continuei a causar danos com minhas mentiras anuais. Mas sinto-me bastante enfraquecido desde que perdi meus testículos.