10/05/2008

Barba Azul



Era uma vez um homem que tinha belas casas na cidade e no campo, baixela de ouro e prata, móveis trabalhados e carruagens douradas; mas, por desventura, esse homem tinha a barba azul: isto o fazia tão feio e tão terrível que não havia mulher nem moça que não fugisse ao vê-lo.
Uma de suas vizinhas, dama de alta linhagem, tinha duas filhas absolutamente belas. Ele pediu-lhe uma delas em casamento, deixando a escolha à vontade materna. Nenhuma das duas o queria, e cada uma o passava à outra, pois nenhuma podia decidir-se a aceitar um homem de barba azul. Aborrecia-as também a circunstância de ele já ter desposado várias mulheres sem que ninguém soubesse o que era feito delas.
Para travar relações com as moças, Barba-Azul levou-as, juntamente com a mãe e as três ou quatro melhores amigas, e algumas jovens da vizinhança, a uma das suas casas de campo, onde passaram nada menos de oito dias. E eram só passeios, caçadas e pescarias, danças e festins e merendas: ninguém dormia, levavam a noite a pregar peças uns aos outros; afinal, tudo correu às mil maravilhas, e a mais nova das meninas começou a achar que o dono da casa não tinha a barba tão azul, e que era homem muito digno. E, logo que tornaram à cidade, realizou-se o casamento.
Ao cabo de um mês, Barba-Azul disse à mulher que tinha de fazer uma viagem à província, de seis semanas, no mínimo, para um negócio de importância; que lhe pedia se divertisse à vontade durante a ausência dele - mandasse buscar suas boas amigas, levasse-as ao campo, se quisesse, comesse do bom e do melhor.
- Aqui estão - disse-lhe - as chaves dos dois grandes guarda-móveis; aqui as da baixela de ouro e de prata que só se usa nos grandes dias; aqui as dos meus cofres, onde está o meu ouro e a minha prata, as dos cofres de minhas jóias e aqui a chave de todas as dependências da casa. Esta chavezinha é a chave do gabinete que fica no extremo da grande galeria do porão: pode abrir tudo, pode ir aonde quiser, mas neste pequeno gabinete eu lhe proíbo de entrar, e o proíbo de tal maneira que, se acontecer abri-lo, não há nada que você não possa esperar da minha cólera.

Ela prometeu cumprir à risca tudo quanto acabava de ser ordenado: e ele, depois de beijá-la, toma sua carruagem e parte.
As vizinhas e as boas amigas não esperaram, para ir à residência da jovem esposa, que as mandassem buscar, tão sôfregas estavam de ver-lhe todas as riquezas da casa, não havendo ousado ir lá enquanto o marido se achava por causa de sua barba azul, que lhes fazia medo. E ei-las, sem perda de tempo, a percorrer os quartos, gabinetes, vestiários, cada um mais belo que os outros. Subiram depois aos guarda-móveis, onde não se cansavam de admirar o número e a beleza das tapeçarias, dos leitos, dos sofás, dos guarda-roupas, dos veladores, das mesas e dos espelhos, nos quais a gente se via da cabeça aos pés, e cujos ornatos, uns de vidro, outros de prata, ou de prata dourada, eram os mais belos e magníficos que já se poderiam ter visto. Não cessavam de exagerar e invejar a felicidade da amiga, a quem, no entanto, não alegravam todas essas riquezas, ansiosa que estava de abrir o gabinete do porão.
Sentiu-se tão premida pela curiosidade que, sem refletir que era uma indelicadeza deixar sozinhas as visitas, desceu até lá por uma escadinha oculta, e com tamanha precipitação que por duas ou três vezes pensou em quebrar o pescoço. Chegando à porta do gabinete, aí se deteve algum tempo, lembrando-se da proibição que o marido lhe fizera e considerando que lhe poderia acontecer uma desgraça por haver sido desobediente; mas a tentação era tão forte que ela não a pôde vencer: tomou da chavezinha e abriu, trêmula, a porta do gabinete.
A princípio não viu coisa alguma, porque as janelas se achavam fechadas; momentos depois começou a notar que o assoalho estava todo coberto de sangue coalhado, no qual se espelhavam os corpos de várias mulheres mortas, presas ao longo das paredes (eram todas mulheres que Barba-Azul desposara e que havia estrangulado). Cuidou morrer de susto, e a chave do gabinete que acabava de retirar da fechadura, caiu-lhe da mão. Após haver recobrado um pouco o ânimo, apanhou a chave, fechou a porta e subiu ao quarto para refazer-se; não o conseguia, porém, devido à sua grande perturbação.
Tendo notado que a chave do gabinete estava manchada de sangue, limpou-a duas ou três vezes, mas o sangue não desaparecia; lavou-a, esfregou-a com sabão e pedra-pomes; debalde: o sangue ficava sempre, pois a chave era fada, e não havia meio de limpá-la inteiramente: quando se tirava o sangue de um lado, ele voltava do outro.
Barba-Azul regressou de sua viagem logo nessa noite, e disse haver recebido, no caminho, notícias de que o negócio que o levara a partir acabara de realizar-se com vantagem para ele. A mulher fez quanto pôde para se mostrar encantada com esse breve retorno.
No dia seguinte ele pediu-lhe as chaves, e ela as entregou, porém a mão tremia tanto que Barba-Azul adivinhou sem esforço todo o ocorrido.
- Por que é - perguntou-lhe - que a chave do gabinete não está junto com as outras?
- Devo tê-las deixado lá em cima, sobre a minha mesa.
- Quero a chave aqui, já!
Depois de várias delongas, a mulher teve que levá-la. Barba-Azul examinou-a e disse:
- Por que há sangue nesta chave?
- Não sei nada disso - respondeu a pobre criatura, mais pálida que a morte.
- Você não sabe nada - continuou ele - mas eu sei muito bem; você quis entrar no meu gabinete! Está certo, senhora, lá entrará e irá ter o seu lugar ao lado das que lá encontrou.
Ela se atirou aos pés do marido, chorando e pedindo-lhe perdão, com todos os sinais de um arrependimento sincero de não haver sido obediente. Bela e aflita como estava, seria capaz de enternecer um rochedo; mas Barba-Azul tinha o coração mais duro que um rochedo:
- Tem de morrer, senhora, e imediatamente.
- Visto que tenho que morrer - respondeu ela, fitando-o com os olhos banhados de lágrimas - dê-me um pouco de tempo para rezar a Deus.
- Dou-lhe meio quarto de hora - replicou Barba-Azul - e nem um momento a mais.
Quando ela se viu sozinha, chamou a irmã e disse-lhe:
- Minha irmã, sobe ao alto da torre, eu te suplico, para ver se meus irmãos não vêm; eles me prometeram que me viriam ver hoje, e, se os vires, faze-lhes sinal para que se apressem.
A irmã subiu ao alto da torre, e a pobre aflita gritava-lhe de vez em quando:
- Ana, minha irmã, não vês ninguém?
E a irmã respondia:
- Não vejo nada a não ser o Sol que brilha e a erva que verdeja. Entrementes, Barba-Azul, com um grande cutelo na mão, gritava para a esposa com toda a força:
- Desce depressa, ou eu subirei aí.
- Mais um momento, por favor -, respondia-lhe a mulher. E logo, baixinho:
- Ana, minha irmã, não vês ninguém?
E a irmã Ana respondia:
- Não vejo nada a não ser o Sol que brilha e a erva que verdeja.
- Desce depressa - bradava Barba-Azul -, ou eu subirei aí.
- Já vou - respondeu a mulher. E depois:
- Ana, minha irmã, não vês ninguém?
- Só vejo - respondeu a irmã Ana - uma grossa poeira que vem desta banda.
- São meus irmãos?
- Infelizmente não, minha irmã; é um rebanho de carneiros.
- Não queres descer? - bradava Barba Azul.
- Mais um momento - respondia a mulher.
E depois:
- Ana, minha irmã, não vês ninguém?
- Vejo - respondeu ela - dois cavaleiros que vêm deste lado, mas ainda estão muito longe… Louvado seja Deus! - exclamou um instante depois. - São meus irmãos; estou lhes fazendo sinal, tanto quanto me é possível, para que se apressem.
Barba Azul pôs-se a gritar tão alto que a casa estremeceu. A pobre mulher desceu e atirou-se aos pés dele, desgrenhada e em prantos.
- Isto não adianta nada - disse Barba Azul. - Tens de morrer.
Em seguida, segurando-a com uma das mãos pelos cabelos e erguendo-a com a outra o cutelo no ar, ia cortar-lhe a cabeça. A pobre mulher, voltando-se para ele, rogou-lhe que lhe concedesse um breve momento para se recolher.
- Não, não - disse ele -, e encomenda bem tua alma a Deus. E ia erguendo o braço… Neste momento bateram à porta com tanta força que Barba Azul se deteve instantaneamente. Abriram e logo se viu entrar dois cavaleiros que, sacando da espada, correram direto a Barba Azul.
Ele reconheceu que eram os irmãos da esposa, um deles dragão e o outro mosqueteiro, e fugiu sem demora para salvar-se; mas os dois irmãos o perseguiram tão de perto que o alcançaram antes que ele pudesse atingir a escada externa. Atravessaram-no a fio de espada, e o deixaram morto. A pobre dama estava quase tão morta quanto o marido, nem lhe restavam forças para beijar os irmãos.
Verificou-se que Barba-Azul não tinha herdeiros, razão por que sua mulher se tornou dona de todos os seus bens. Empregou parte deles no casamento de sua irmã Ana com um jovem fidalgo, que a amava desde muito tempo; outra parte na compra do posto de capitão para seus dois irmãos, e o resto no casamento dela própria com um homem muito distinto, que lhe fez esquecer o mau tempo que ela passara com Barba Azul.





09/05/2008

Frei João Sem Cuidados


O rei ouvia sempre falar em Frei João Sem Cuidados como um homem que não se afligia com coisa nenhuma deste mundo.
- Deixa estar, que eu é que te hei-de meter em trabalhos!
Mandou-o chamar à sua presença e disse-lhe:
- Vou dar-te uma adivinha e, se dentro de três dias não me souberes responder, mando-te matar. Quero que me digas quanto pesa a Lua, quanta água tem o mar, e o que é que eu penso?
Frei João Sem Cuidados saíu do palácio bastante atrapalhado, pensando na resposta que havia de dar àquelas perguntas. O seu moleiro encontrou-o no caminho e lá estranhou de ver Frei João Sem Cuidados de cabeça baixa e macambúzio.
- Olá, senhor Frei João Sem Cuidados, então que é isso que o vejo tão triste?
- É que o rei disse-me que me mandava matar se dentro de três dias eu não lhe respondesse a estas perguntas:Quanto pesa a Lua? Quanta água tem o mar? O que ele pensa? O moleiro pôs-se a rir e disse-lhe que não tivesse cuidados, que lhe emprestasse o hábito de frade, que ele iria disfarçado e havia de dar boas respostas ao rei.
Passados os três dias o moleiro, vestido de frade, foi pedir audiência ao rei. O rei perguntou-lhe: - Então quanto pesa a Lua?
- Saberá Vossa Majestade que não pode pesar mais do que um arrátel, porque todos dizem que ela tem quatro quartos.
- É verdade... E agora: quanta água tem o mar?
Respondeu o moleiro:
- Isso é muito fácil de saber. Mas como Vossa Majestade só quis saber da água do mar, é preciso primeiro que mande tapar todos os rios, porque sem isso nada feito.
O rei achou bem respondido. Mas zangado por ver que Frei João Sem Cuidados se escapava das dificuldades, tornou:
- Agora, se não souberes o que penso, mando-te matar!
O moleiro respondeu:
- Ora Vossa Majestade pensa que está a falar com o Frei João Sem Cuidados, e está mas é a falar com o seu moleiro!
Deixou cair o hábito de frade, e o rei ficou pasmado com a sua esperteza.


Recolha de Teófilo Braga

07/05/2008

Kamar Az-Zaman e a Princesa Budur


Conta-se que havia na Pérsia, em tempos idos, um rei chamado Chahriman, dono de exércitos e riquezas e poder, que tinha um filho tão lindo que o chamou Kamar Az-Zaman, Lua do Tempo. Um dia, o pai disse-lhe: "Meu filho, desejaria ver-te casado e provido de descendentes que continuarão nossa linhagem." Kamar Az-Zaman mudou de cor e respondeu: "Pai, não sinto inclinação para o casamento, e meu coração não se regozija na companhia das mulheres. Li nos livros dos sábios tantas crônicas sobre a perfídia desse sexo que prefiro morrer a viver com uma mulher." Aconselhado pelo vizir, o rei deixou passar um ano antes de voltar ao assunto. Mas quando a ele voltou, achou o filho tão oposto ao casamento quanto antes. "Como estão iludidos os pais quando desejam filhos," lamentou o rei. "Pois um filho é uma decepção e uma mágoa encarnadas." Ora, vivia na mesma época um rei da China chamado Ghayur que tinha uma filha mais esplêndida que a aurora e que ele chamou Budur, Luas - diversas luas reunidas numa só. Amava-a tanto que mandara construir para ela sete palácios, cada qual diferente dos outros: o primeiro era de cristal; o segundo, de mármore; o terceiro, de ferro chinês; o quarto, de pedras preciosas; o quinto, de prata; o sexto, de ouro; e o sétimo, de jóias. Disse um admirador: "Vi a jovem passeando em seus palácios; será surpreendente que tenha perdido a razão?" Todos os reis procuraram essa beleza incomparável para seus filhos; mas cada vez que o pai Ihe falava em casamento, Budur respondia: "Sou a rainha e a dona de mim mesma. Como pode meu corpo, que mal agüenta o toque da seda, tolerar o contacto rude de um homem`?" Quando seu pai insistia, ela ameaçava matar-se. Para castigar a desobediência do filho, o rei Chahriman o tinha condenado a viver numa torre antiga abandonada, atrás da qual havia um poço onde se refugiara uma jovem Afrita da descendência de Ibliss, chamada Maimuna. Era a filha de Dimiryat, rei dos gênios subterrâneos. Uma noite, Maimuna avistou luzes na torre inabitada e, curiosa, quis ver o que lá acontecia. Voou e entrou nos aposentos iluminados e viu Kamar Az Zaman deitado seminu na cama. As palavras não conseguem descrever sua surpresa e alegria. Ela nunca havia visto beleza igual. Ficou uma hora a contemplá-lo, depois depositou beijos delicados em seus lábios, olhos, faces e saiu descontrolada. Cruzou na saída com o Afrit Dachnack, que chegava da China onde ficara deslumbrado com a beleza da princesa Budur. Contou sua aventura a Maimuna. Maimuna recebeu suas confidências com escárnio: "Tuas observações acerca dessa jovem desgostam-me. Como ousas compará-la ao jovem que eu amo? Ele é tão lindo que, se o visses apenas em sonho, cairias como um epilético e roncarias como um camelo." Para pôr fim à discussão, os dois gênios decidiram visitar os dois jovens e comparar-Ihes a beleza. Apostaram mil dinares no vencedor. Maimuna levou então o Afrit até o aposento de Kamar Az-Zaman, e ele disse: "Maimuna, compreendo teu entusiasmo. Nunca vi, com efeito, tantas perfeições reunidas num só jovem; contudo, digo-te que o molde em que o fabricaram foi usado para produzir uma cópia feminina, que é a princesa Budur, filha de Ghayur." Maimuna ficou furiosa e disse ao Afrit: "Voa rápido e traze a tal maravilha para cá, a fim de que possamos colocar os dois jovens lado a lado e compará-los." Dachnack apanhou seu chifre e sumiu no espaço como uma flecha. Uma hora depois, estava de volta carregando a princesa adormecida, vestida com uma simples camisola. E os dois feiticeiros levaram-na e estenderam-na ao lado do príncipe Kamar Az-Zaman. Maimuna teve que admitir que os dois eram iguais - menos nas partes que fizeram deles homem e mulher. Assim mesmo, cada Afrit afirmava ter ganho a aposta e, para resolver sua divergência, decidiram recorrer a um árbitro. Imediatamente apareceu um Afrit de horrível feiúra. Tinha seis chifres e três caudas; um de seus braços media dez metros de comprimento; o outro, apenas dois. E seu zib era quarenta vezes maior que o zib de um elefante. Seu nome era Fakrach Ibn Atrach, da linha de Abu-Hanfach. Convidado a indicar o mais belo dos dois, o gênio contemplou-os longamente e, constrangido, reconheceu: "Por Alá são iguais em beleza. A única diferença entre eles refere-se ao sexo. Se assim mesmo insistirem em descobrir alguma superioridade num deles, acordemo-los, enquanto permanecemos invisíveis, e aquele dos dois que manifestar maior paixão pelo outro terá reconhecido que os encantos do outro são mais poderosos." Os três concordaram e Dachnack, transformando-se numa pulga, mordeu Kamar Az-Zaman no pescoço. Kamar Az Zaman, meio-acordado após a irritação de seu pescoço, deixou a mão cair, e ela pousou na perna nua de Budur. O jovem abriu os olhos, mas eles voltaram logo a fechar-se, ofuscados que foram pela visão da beleza. Encantado, levantou a cabeça e contemplou longamente a desconhecida que dormia a seu lado. Depois, virou-se e exclamou: "Que traseiro glorioso E começou a acariciar-lhe o ventre, os seios, as pernas, as nádegas.
Devemos acrescentar que fora Dachnack quem provocara um sono profundo em Budur para permitir ao jovem manipulá-la à vontade. Kamar Az-Zaman aplicou seus lábios nos de Budur e procurou acordá-la, mas em vão. Concluiu: "Não posso esperar. Devo penetrar nela enquanto dorme." Mas pensou de repente que provavelmente o pai mandara colocar a jovem lá para provocá-lo, e que ele estava observando-o de algum esconderijo. Se tocasse nela, o pai o censuraria por não querer mulher para assegurar a sua posteridade, enquanto a queria para o divertimento e o vício. Virou, pois, as costas e voltou a dormir. Budur acordou finalmente e, já apaixonada por Kamar Az Zaman, pediu-lhe: "Por favor, abre os olhos, ó mestre da beleza. Só tu conseguiste acender um fogo em mim. Oh, por que não acordas? Acorda, senão vou morrer." E começou a acariciá-lo. De repente, sua mão tocou em algo que ela não conhecia. E a coisa começou a crescer em sua mão e a provocar nela novas sensações. Comparando seus dois corpos, compreendeu o papel daquele órgão e introduziu-o onde cabia. Os três Afarit acompanhavam tudo isso sem perder um gesto. Deixaram a operação chegar ao fim, depois aproximaram-se da cama, levantaram a moça sobre as espáduas, voaram com ela e a depositaram em sua cama no palácio de seu pai na China. E foram embora em direcções diferentes. Pela manhã, Kamar Az-Zaman acordou, a mente cheia das imagens da noite. Não encontrando a moça, teve a certeza de que se tratava de uma manobra do pai para levá-lo a casar-se. Chamou seu escravo e perguntou-lhe: "Aonde levaste a jovem, ó Sauab?" "Que jovem, meu senhor?" perguntou o escravo. "Hoje, não agüento tuas mentiras, velhaco abominável" retrucou Kamar Az-Zaman. Apanhou o escravo, estendeu-o no chão e pôs-se a bater nele, dizendo: "Vou bater em ti até que confesses onde está a jovem ou até que morras." Uma vez coberto de sangue e tendo um braço quebrado, o escravo gritou: Por favor, para de bater em mim, e confessarei tudo." Assim que o príncipe parou de bater nele, o escravo pediu licença para ir lavar o sangue e aproveitou para correr ao palácio e dizer ao rei, chorando, que Kamar Az-Zaman tinha enlouquecido. E descreveu ao rei e ao vizir as alucinações que presenciara.O rei, após insultar o vizir, responsabilizando-o por tudo, mandou-o verificar o que se passava. Kamar Az-Zaman, considerando o vizir de conluio com seu pai, naquela farsa, exigiu dele que lhe trouxesse a moça. Como o vizir negava tudo, o príncipe bateu nele também e lhe arrancou fios da barba. E o ministro voltou à presença do rei num estado lamentável, repetindo que Kamar Az-Zaman tinha enlouquecido. Insultando o novamente, o rei correu à torre para ver o filho. Achou-o tranqüilo, lendo o Alcorão. "Meu filho, disse o rei, por incrível que pareça, esse nojento escravo e esse vizir maluco alegam que enlouqueceste, pois os acusas de ter levado uma mulher que dormiu contigo aqui à noite." - Pai, respondeu o filho, não agüento mais essa farsa. Tenho provas do que digo. Primeiro, este anel que ela me deu em troca do meu. Depois, quando acordei, tinha sangue embaixo do umbigo, o sangue da virgem que se entregara a mim. A água com que lavei o sangue está ainda no banheiro. Fiquei tão apaixonado por ela que, se não conseguir encontrá-la e casar-me com ela, ó pai, ficarei doente até morrer. O rei examinou a água e convenceu-se da veracidade das palavras ao filho, mas não conseguia penetrar o mistério e muito menos adivinhar quem era a moça e onde procurar por ela. E o filho foi definhando. Na China, a noite estava acabando quando os três Afarit devolveram a dama Budur a seu leito. Ao acordar pela manhã, sorriu e com os olhos ainda fechados estendeu os braços para apertar seu amante, mas só abraçou o ar. Não encontrando ninguém na cama, emitiu um grito tão agudo que sua governanta e suas nove escravas acorreram para junto dela. "O que aconteceu, minha ama?" perguntou a governanta. - Perguntas como se não soubesses, astuciosa bruxa. Dize-me logo onde está o jovem mais belo que a lua que passou a noite comigo e a quem entreguei meu corpo, meu coração e minha virgindade. Essa declaração causou tamanho escândalo que toda a corte foi perturbada. O rei acorreu aos aposentos da filha e disse-lhe: "Minha querida, que alucinações tomaram conta de ti? Por que essa conduta indecorosa?" Por resposta, Budur rasgou a camisa, do pescoço até os pés, bateu nas faces e afundou num mar de lágrimas. O rei chamou então todos os sábios, astrólogos, doutores e alquimistas do reino e disse-lhes: "Minha filha Budur está em tal e tal estado. Quem conseguir curá-la a terá por esposa e herdará o trono depois de mim. Mas se aproximar dela sem a curar, terá a cabeça cortada." Ora, a princesa Budur tinha um irmão de leite, Marjan, que havia estudado a magia e a feitiçaria em livros hindus e egípcios. Visitou-a em segredo, munido de um astrolábio, de livros mágicos e de uma lâmpada, e entendeu que Budur estava apaixonada por um jovem desconhecido, e não tinha nada mais. O único problema era descobrir o jovem. Marjan, que amava a irmã, decidiu tudo abandonar e percorrer os países na esperança de localizar, por um acaso feliz, o homem que lhe devolveria a alegria de viver. Para ajudá-lo nas buscas, Budur entregou-lhe o anel de Kamar Az-Zaman que lhe ficara no dedo. Marjan viajou de cidade em cidade e de ilha em ilha, ouvindo em toda parte notícias e rumores sobre a estranha alienação mental da princesa Budur. Seis meses depois, chegou à terra de Kholidan e lá começou a ouvir a história de Kamar Az-Zaman, vítima de alucinações que pareceram a Marjan similares às da princesa Budur. Um dia, encontrou-se com o vizir do rei Chahriman, o qual, conversando com ele, ficou impressionado com seus conhecimentos em todos os campos, notadamente na medicina, e pensou: "Este moço será sem dúvida capaz de curar o filho de meu soberano." E convidou-o a visitar o palácio real. Na primeira entrevista que teve com Kamar Az-Zaman, Marjan convenceu-se de que ele era o jovem que sua irmã de leite procurava e que ela era a jovem que o príncipe procurava. Mostrou a Kamar Az-Zaman o anel de Budur. No mesmo instante, o príncipe curou-se completamente, e as cores da juventude voltaram-lhe às faces. Sem pedir licença ao rei, os dois jovens iniciaram imediatamente a viagem rumo à terra da princesa Budur. Quando lá chegaram, havia já quarenta cabeças penduradas na praça pública - as cabeças daqueles que haviam tentado curar a princesa sem o conseguir. Na entrada do palácio da princesa, os eunucos encarregados da segurança olharam com pena para esse novo pretendente, tão belo e que breve iria ter a cabeça cortada. Mas ele apanhou um papel e escreveu: "De Kamar Az-Zaman, filho do sultão Chahriman, para a princesa Budur, filha do rei Ghayur. Se tivesse que descrever toda a paixão de meu coração, não haveria bastante tinta no mundo. Contudo, se a tinta faltar, meu sangue escreverá o resto. Com esta mensagem, envio-te teu anel como prova indiscutível de que sou o jovem cujo coração transformaste em incêndio e em tempestade e que chora e clama por ti. Kamar Az-Zaman" O príncipe colocou o bilhete e o anel num envelope, selou-o e entregou-o ao eunuco. O escravo transmitiu-o a sua ama, dizendo: "Há um jovem astrólogo atrás da cortina, tão audacioso que alega ser capaz de curar as pessoas sem as ver. Enviou-te este papel." Mal a princesa abriu o envelope e reconheceu seu anel, gritou de alegria e, empurrando o eunuco, correu até o amante e lançou-se nos seus braços. Beijaram-se como dois pombos que havia sido separados pela maldade do destino O eunuco correu a informar o rei: ‘ aquele jovem astrólogo é mais sábio que todos eles. Curou a princesa Budur antes mesmo de a ter visto." O rei foi ao aposento da filha e, vendo que estava de fato curada, beijou-a entre os olhos, abraçou Kamar Az-Zaman e perguntou-lhe de onde vinha. "Venho de Kholidan. Sou o filho do rei Chahriman." E contou toda a
história. - Por Alá, comentou o rei, essa história é tão maravilhosa que se fosse escrita com uma agulha no canto interno dos olhos, ensinaria a prudência, a reflexão, mas também a audácia e a esperança. Mandou vir o cádi e as testemunhas e fez redigir o contrato de casamento entre Budur e Kamar Az-Zaman. A cidade foi decorada e iluminada durante sete dias e sete noites. O povo comeu, bebeu e se regozijou. E os dois enamorados amaram-se à vontade no meio dos festejos, agradecendo Àquele que os tinha feito um pelo outro. Numa noite, Kamar Az-Zaman viu seu pai num sonho, dizendo-lhe: "É assim que me abandonas, ó Kamar Az-Zaman? Vê , estou morrendo de saudade." Quando acordou, disse à princesa Budur: `Amanhã devemos tomar o caminho de meu reino onde meu pai está doente. Apareceu-me em sonho, e está esperando por mim, chorando." - Ouço e obedeço, disse Budur com meiguice. E logo foi procurar o rei. "Pai, disse-lhe, solicito tua compreensão para que acompanhe meu marido à terra de seus pais." - Não tenho objeção, respondeu o rei, desde que nos venhais visitar de ano em ano. A princesa beijou a mão do pai, agradeceu-lhe a bondade e chamou Kamar Az-Zaman, que fez o mesmo. Depois, viajaram até o reino de Chahriman onde foram recebidos com grandes festejos e regozijos. Cada ano, Budur, acompanhada do marido, ia visitar os pais. E todos viveram em perfeita harmonia até seu ultimo dia.


Talvez...




Um homem possuía um belo cavalo. Certo dia, o cavalo desapareceu e seus vizinhos sabendo da notícia, exclamaram:
- Que azar!
Mas o homem simplesmente respondeu:
- Talvez...
Passado algum tempo, o cavalo reapareceu, trazendo consigo três ou quatro cavalos selvagens tão ou ainda mais belos e formosos do que ele. Os vizinhos, tomando conhecimento do fato, disseram:
- Que sorte!
Mas o fazendeiro simplesmente respondeu:
- Talvez...
O filho mais moço do fazendeiro então resolveu domar um dos cavalos mas o cavalo era selvagem e em um movimento brusco arremessou o rapaz ao solo e este ao cair quebrou a perna. E os vizinhos imediatamente se dirigiram ao pai mencionando: - Que azar!
Mas o fazendeiro simplesmente respondeu:
- Talvez...
Estourou uma guerra naquela região e muitos pais sofreram pois quase todos os jovens, querendo ou não, foram injustamente enviados para a guerra, menos um, que foi dispensado por que estava com a perna quebrada: O filho do fazendeiro!




O Açor e o Príncipe - Lenda dos Três Milagres

O mito da Senhora dos Milagres nasceu na Aldeia Rica, em Celorico da Beira.

Em tempos que já lá vão, houve um rei espanhol que, desesperado por não ter filhos, invocou a bênção de uma Nossa Senhora dos Milagres, do sítio de Aldeia Rica, em Celorico da Beira, famosa por ter salvo um pastor e a sua vaca de morrerem afogados. O filho nascido deste milagre tornou-se inválido e em vão foram consultados sábios e físicos. A rainha resolveu pedir à Santa um segundo milagre e juntamente com o rei e o príncipe partiram em romagem à Virgem. Já perto de Aldeia Rica, o pequeno príncipe morreu e o rei desesperado culpou a rainha da iniciativa da viagem e decidiu enterrar o filho ali mesmo. A rainha não o consentiu e, apoiada na sua fé, quis levar o corpo do principezinho até junto da Virgem dos Milagres, depondo-o aos pés da imagem e ali ficando a rezar. O rei descrente resolveu ir caçar e quando lhe disseram que um dos caçadores tinha soltado um dos seus açores reais por achar que as aves tinham sido criadas por Deus para voarem e não para estarem presas. Quando soube o rei condenou-o à morte, ordenando que começassem por lhe cortar a mão que tinha soltado o açor. Quando o carrasco já tinha levantado o machado, o açor veio pousar na mão que ia ser cortada. O caçador gritou "Milagre!" e ao mesmo tempo chegou a rainha com o seu filho vivo, gritando ela também pelo milagre de Nossa Senhora. O rei libertou o caçador e todos os açores do reino e resolveu construir a igreja de Santa Maria dos Açores, que ainda hoje encerra três lindos painéis que representam "O Aparecimento da Virgem ao Rústico da Vaca", "O Açor Pousado na Mão do Caçador" e "O Filho do Rei, Já Ressuscitado".



O lobo pleiteando contra o raposo perante o macaco


Queixou-se uma vez o lobo
De que se via roubado,
E um mau vizinho raposo
Foi deste roubo acusado.

Perante o mono foi logo
O réu pelo autor levado,
E ali se expôs a querela
Sem escrivão, nem letrado.

"À porta da minha fuma.
Dizia o lobo enraivado.
Pegadas deste gatuno
Tenho na terra observado."

Dizia o réu em defesa:
"Tu, que és ladrão refinado!
O que, se vives de roubos.
Podia eu ter-te furtado?

— Furtaste! — Mentes! — Não minto!
Questões, gritos, muito enfado.
Já do severo juiz
Tinham a testa azoado.

Nunca Têmis vira um pleito
Tão dúbio, tão intrincado!
Nem que pelos litigantes
Fosse tão bem manejado.

Mas da malícia dos dois
Instruído o magistrado,
Lhes disse: "Há tempo que estou
De quem vós sois informado:

Portanto, em custas em dobro
Seja um e outro multado,
E tanto o réu como o autor,
Por três anos degredado".

Dando por paus e por pedras
O mono tinha assentado,
Que sempre acerta o juiz,
Quando condena um malvado.

Curvo Semedo (Trad.)

06/05/2008

As Cegonhas

UMA cegonha construíra seu ninho no telhado da última casa de um povoado. A mamãe cegonha estava sentada no ninho com seus filhotes, que assomavam seus biquinhos negros, pois ainda não haviam adquirido sua cor vermelha.
Papai-cegonha estava a pouca distância, na beira do telhado, em pé e entorpecido, com um pé recolhido em baixo do corpo, fazendo de sentinela. Parecia esculpido em madeira, devido à sua imobilidade.
– Minha esposa deve ficar satisfeita ao ver uma sentinela guardando seu ninho – pensava. – Ninguém sabe que sou seu marido e talvez todos pensem que recebi ordens para montar guarda aqui. Isso é muito importante.
E continuou de pé num só pé, porque as cegonhas são verdadeiras equilibristas.
Um grupo de garotos brincava na rua; e, ao ver a cegonha, um dos mais atrevidos, seguido pelos outros que lhe faziam coro, entoou uma cantiga a respeito das cegonhas, cantando – a meio de improviso:

Vela por teu ninho, pai-cegonha,
Onde te esperam três pequeninos.
O primeiro morrerá de uma estocada,
O segundo queimado
E o terceiro enforcado.

– Que dizem esses garotos? – perguntaram os filhotes. – Dizem que morreremos queimados ou enforcados?
– Não façam caso – respondeu a mamãe-cegonha. – Não os ouçam, pois ninguém lhes fará nenhum mal.
Mas os meninos continuavam cantando e apontando para as cegonhas; somente um, chamado Pedro, disse que era vergonhoso divertir-se à custa daquelas pobres aves e não quis imitar os companheiros.
Mamãe-cegonha consolou seus pequeninos, dizendo-lhes:
– Não se preocupem com isso. Vejam seu pai como está firme em cima de um só pé.
– Temos muito medo – replicaram os filhotes, escondendo as cabecinhas dentro do ninho.
No dia seguinte, quando os meninos voltaram a brincar, viram novamente as cegonhas e repetiram a canção.
– E. verdade que morreremos queimados ou enforcados? – perguntaram de novo os filhotes.
– De forma alguma! – replicou a mãe. – Vocês aprenderão a voar. Eu os ensinarei. Logo iremos para os campos em busca de rãs. Elas vivem na água e quando nos vêem, fazem muitos cumprimentos e começam a coaxar. Mas nós as engoliremos. Esse é um verdadeiro banquete, de que vocês vão gostar muito.
– E depois? – perguntaram os filhotes.
– Mais tarde todas as cegonhas do país se reúnem para as manobras do outono e então vocês terão que voar da melhor maneira possível, pois quem não puder voar se verá atravessada pelo bico do chefe. Assim sendo, vocês terão que ter muito cuidado para aprender o máximo que puderem, quando começarem os exercícios.
– De qualquer forma é bem possível que acabemos do jeito que dizem os garotos. Veja, eles voltam a cantar a mesma coisa.
– Ouçam a mim e não a eles – replicou secamente a mãe-cegonha. – Depois das grandes manobras, voaremos para os países cálidos, que ficam muito longe, para além dos bosques e das montanhas. Iremos para o Egipto, onde existem casas de três cantos, cujas pontas chegam até as nuvens; chamam-se Pirâmides e são muito mais antigas do que qualquer cegonha pode imaginar. Ali existe um rio que inunda as suas margens e toda a terra se cobre de lodo. E então podemos andar por ali comodamente, sem deixar de comer rãs.
– Oh! – exclamaram os filhotes.
– Sim, é esplêndido. Durante o dia inteiro não se faz mais do que comer. E enquanto nós estamos bem ali, neste país não há uma só folha nas arvores; e faz tanto frio que as nuvens se gelam em pedacinhos que caem ao solo.
Queria descrever a neve, mas não sabia fazê-lo melhor.
– E as crianças más não se gelam em pedacinhos? – perguntaram os filhotes.
– Não, mas lhes acontece algo parecido e têm de passar muitos dias presas em suas casas escuras; vocês, em troca, voarão para países distantes, recebendo o calor do sol entre as flores.
Passou-se algum tempo e os filhotes se desenvolveram bastante para ficarem em pé no ninho e olharem à sua volta. Papai-cegonha voava todos os dias de ida e volta ao ninho com rãs e serpentes, além de outros bons bocados que conseguia arranjar.
E era muito divertido observar as manobras que fazia para divertir seus filhos; virava a cabeça completamente em direcção à cauda e batia o bico como se fosse um chocalho. E lhes contava tudo que lhe acontecera nos pântanos.
– Bem, já é hora de que aprendam a voar – disse um dia sua mãe.
E os pequenos tiveram de ficar em pé, na beira do telhado. Quanto lhes custou conservar o equilíbrio batendo as asas e como estiveram a ponto de cair!
– Agora olhem para mim – disse a mãe. – Vejam como têm de sustentar a cabeça. E os pés se movem assim. Um, dois, um, dois. Desta forma poderão percorrer o mundo inteiro.
Logo voaram durante algum tempo e os pequenos deram uns saltos horríveis e caíram, porque seus corpos eram muito pesados.
– Não quero voar – disse um dos filhotes voltando para o ninho. – Não faço questão de ir para os países mais quentes.
– Quer gelar aqui, ao chegar o inverno? Prefere que venham os meninos e o queimem ou enforquem? Não me custará nada chamá-los. .
– Não, não! – respondeu assustada a pequena cegonha. E imediatamente voltou para a beira do telhado, onde já estavam os irmãos.
No terceiro dia todos voavam muito bem. Tentaram voar por mais tempo, porém, quando se esqueceram de bater com as asas, aconteceu a queda irremediável.
Os meninos que as observavam entoaram novamente a sua canção.
– Querem que desçamos voando e lhes arranquemos os olhos? – perguntaram as pequenas cegonhas.
– Não, deixem-nos em paz – disse a mãe. Prestem atenção ao que faço, pois isso é muito mais importante. Um, dois, três. Agora vamos voar para a direita; um, dois, três; agora para a esquerda e em volta da chaminé. Já foi bastante bem. Este último voo foi tão bom, que, como prémio, eu consentirei que me acompanhem ao pântano amanhã. Várias cegonhas distintas vão até lá com seus filhos, de modo que vocês devem esforçar-se para que os meus sejam os melhores de todos – Não se esqueçam de levantar as cabeças. Isso é muito elegante e confere um ar de extrema importância.
– Mas não nos vingaremos desses meninos maus? – perguntaram as pequenas cegonhas.
– Deixem que gritem o quanto quiserem; vocês voarão para a terra das pirâmides, enquanto que eles ficarão aqui gelando. Nessa ocasião não haverá por aqui nem uma folha verde nem uma maçã doce.
– Pois nós queremos vingar-nos – disseram as pequenas cegonhas.
Logo depois recomeçaram com os exercícios de voo.
Dentre todos os meninos da rua, nenhum caçoava das cegonhas com maior insistência do que o primeiro a cantar aquela canção burlesca. Era um garoto pequeno, que devia contar uns seis anos. É claro que as cegonhas lhe davam pelo menos cem anos, pois ele era muito mais corpulento do que seu pai ou sua mãe e elas não tinham a mínima ideia da corpulência que podem alcançar as pessoas maiores.
Reservavam pois a sua vingança para o menino que fora o primeiro a entoar aquela canção e que não deixava de repeti-la a todo instante. As jovens cegonhas estavam muito irritadas com ele e juraram vingar-se, o que só fariam no dia anterior à sua ida daquele povoado.
– Primeiro vamos ver como se comportam nas manobras. Se cometerem algum engano e o general se vir obrigado a atravessar-lhes o peito com o seu bico, os meninos da rua terão acertado na sua profecia. Veremos como se comportam.
– Você verá – responderam optimistas os filhotes.
E não pouparam esforços. Todos os dias praticavam, até que foram capazes de voar como seus próprios pais o faziam. Era um prazer observá-los.
Chegou o outono. Todas as cegonhas começaram a reunir-se, antes de empreenderem a viagem aos países quentes, nos quais passariam o inverno.
Aquelas sim é que foram verdadeiras manobras – Tiveram que voar sobre os bosques, cidades e povoados, para experimentarem as asas, pois iriam realizar uma longa viagem. As jovens cegonhas se comportaram tão bem, que receberam uma quantidade enorme de rãs e serpentes como recompensa. Receberam também óptima colocação e logo foram comer tranquilamente coisas que fizeram, pois seu apetite era enorme.
– Agora nos vingaremos – disseram.
– Sem dúvida – replicou sua mãe. – Agora vocês vão tomar conhecimento do meu plano e acho que gostarão dele. Sei onde fica o reservatório em que se encontram os pequenos humanos e onde ficam até que as cegonhas vão buscá-los para levá-los para a casa de seus pais. As lindas criaturinhas estão dormindo, sonhando coisas muito agradáveis que nunca mais voltarão a sonhar. Todos os pais desejam filhos e todas as crianças almejam ter um irmãozinho ou uma irmãzinha, destinados aos meninos que nunca cantaram essa canção contra nós ou que não tenham caçoado das cegonhas. Todavia, os que a cantaram, jamais receberão um irmão ou uma irmãzinha.
– E que faremos com esse menino mau que cantou a canção? – gritaram as pequenas cegonhas. – Que faremos com esse garoto? Porque devemos fazer algo para vingar-nos como desejamos.
– No reservatório há um menino morto. Morreu sonhando, sem se dar conta. Vamos buscá-lo e levá-lo para a casa desse menino, que chorará muito ao ver que lhe levamos uma criança morta. Em troca, vocês não se esquecerão do menino bom que diz: “É uma vergonha caçoar assim das cegonhas”. Para ele levaremos um irmão e uma irmã; e como ele se chama Pedro, você também – acrescentou, dirigindo-se a uma das cegonhas se chamará assim como o menino.
E foi tal como disse. E é por isso também, que, em nossos dias, todas as cegonhas levam o nome de Pedro.


Hans Christian Andersen




03/05/2008

Dom Aleixo

Nós éramos três irmãs,
Todas três de um igualhar;
Uma ensinava à outra
A coser e a bordar.
A mais pequena de todas
Se foi, por noite, a folgar
Com duas tochas acesas
À porta do laranjal.
Vestiu vestido de pajem
Que lhe ficava a matar,
Seu punhal de oiro na cinta,
Seu borzeguim de alamar.
Foi-se pela rua a baixo,
Tornou acima a voltar:
– «Das três irmãs que aqui moram,
A qual hei-de eu namorar?»
Nós de dentro do balcão,
A rirmos do seu brincar.
As tochas tinha apagado,
Vinha saindo o luar,
Passando junto da porta,
Que os olhos foi a baixar,
Viu estar um ermitão
Assentado no poial.
– «Que fazeis aqui, meu padre,
Que fazeis neste lugar?»
O ermitão, sem responder,
Começou-se a levantar...
Tão alto em demasia,
Alto, alto de pasmar
– «Se tu és coisa má,
Eu te quero esconjurar,
Ou se és alma que anda em penas
Te farei encomendar.»
– «Eu não sou a coisa má
Que tenhas de esconjurar;
Também não sou alma em penas
Para tu me encomendar:
Sou a alma de Dom Aleixo,
Que aviso te venho dar:
Sete te estão esperando
Na esquina, àquele portal,
E juram por Deus sagrado
Que a vida te hão-de tirar.»

– «Pois eu por esse lhe juro,
E pela virgem Maria
Que outros sete que eles foram,
Eu atrás não tornaria.
Oh lá, oh lá, cavaleiros,
Não levem de covardia,
Puxem por suas espadas,
Que eu puxarei pela minha.
O que não trouxer espada,
Eu esta lhe emprestaria,
Que eu cá com meu punhal de oiro
Defenderei minha vida».

Palavras não eram ditas,
O ermitão se descobria;
Foi a tomá-la nos braços
Com sobeja demasia...
Ela com seu punhal de oiro,
Que na cintura trazia,
Tal golpe lhe deu nos peitos,
Que ali por morto caía.
– «Quem te matou, D. Aleixo,
Quem te matou, minha vida?»
– «Mataste-me tu, senhora,
Que outro ninguém não podia.»
Ergue-te, Dona Maria,
Bem calçada e mal vestida,
Agora, por mais que chores
Tua alma fica perdida.

Romanceiro, Almeida Garrett





30/04/2008

O Corcunda, o Alfaiate, o Corretor, Cristão, o Intendente e o Médico Judeu



Conta-se, ó rei afortunado, que vivia na antiguidade, no fundo das idades e dos séculos, numa cidade da China, um alfaiate próspero e de génio alegre que gostava de divertimentos e passeava de vez cm quando com a mulher nos jardins e nas ruas. Certo dia, quando estavam voltando para casa após um desses passeios, cruzaram com um corcunda de aparência tão engraçada que nem a tristeza nem a melancolia podiam viver um instante na sua presença, e o homem sisudo ria gostosamente à sua vista.
Para distrair-se com sujeito tão jocoso, o alfaiate e sua mulher convidaram-no para sua casa. O corcunda aceitou. Enquanto estavam jantando, a mulher do alfaiate, querendo brincar, pegou uma posta de peixe inteira e enfiou-a na boca do corcunda; e, pondo a mão nos lábios do infeliz, obrigou-o a engoli-la. Por
inclemência do destino, havia dentro da posta uma espinha enorme que atravessou a garganta do corcunda, e ele morreu na hora. Quando o alfaiate viu o corcunda morto, exclamou: "Não há poder e força senão em Alá! Que azar que este homem tenha morrido cm nossa casa!" - De que adianta lamentar-se! censurou a mulher. Levanta-te e ajuda-me a carregar o corpo para fora. Cubramo-lo com um pano de seda e levemo-lo agora mesmo na escuridão da noite. Andarei na frente. Tu, atrás, repetirás numa voz audível: "Este é meu filho. E esta é sua mãe. Estamos procurando um médico. Onde encontrar um médico de noite?" Executaram imediatamente seu plano e repetiram tantas vezes: "Onde encontrar um médico? Queremos um médico" que os transeuntes indicaram-lhes a porta de um médico judeu. Chamaram de fora e foram atendidos por uma enfermeira negra. Perguntaram: "Onde está o médico?" Respondeu a enfermeira: "Está no segundo andar preparando um relatório." - Queremos que ele examine logo nosso filho. Dá-lhe este dinar adiantado e pede-lhe que desça. Assim que a enfermeira se afastou, deixando a porta aberta, o homem e a mulher entraram, largaram o corpo numa poltrona e fugiram.
Ao ver o dinar, o médico judeu ficou tão satisfeito que esqueceu de apanhar uma lâmpada e desceu a escada precipitadamente no escuro. Seu pé tropeçou, e ele caiu sobre o corcunda. Examinou-o e,achando-o sem vida, pensou que ele próprio o tinha matado. Gritou: "Jeová! Jeová! Pelas dez palavras sagradas, como poderei livrar-me deste corpo?" Consultou a mulher. A mulher invocou o nome de Harun, de Josué, filho de Nun, e de outros santos judeus, e gritou: "Devemos nos livrar dele já. Se for encontrado aqui ao levantar do Sol, estaremos perdidos. Vamos levá-lo até o terraço e atirá-lo para a casa de nosso vizinho muçulmano. Ele é intendente da cozinha imperial e sua casa está infestada de ratos, gatos e cachorros. Devorarão o corpo, e ninguém saberá de nada." Levaram o corpo até o terraço e baixaram-no mansamente até o pátio do muçulmano, deixando-o encostado na parede da cozinha. Aconteceu que, naquele mesmo momento, o intendente voltava para a casa e viu uma figura de homem apoiada na parede da cozinha. "Ah! exclamou. Não eram então os cachorros e os gatos que roubavam minhas carnes, mas este ladrão." Pegou num porrete, aproximou-se do homem e bateu repetidamente nele. Mas a figura não se mexeu. Olhando bem, o intendente deu-se conta de que tinha batido num morto. Dirigiu-se a ele, dizendo: "Não te bastava, ó infeliz, ser corcunda? Tinhas que ser ladrão também?" Vendo que a noite estava ainda escura, carregou o corpo até os confins do mercado e deixou-o à porta de uma loja. Ora, um corretor cristão bêbado que repetia: "Cristo está chegando! Cristo está chegando!" passou por lá e, imaginando que o corcunda queria atacá-lo, saltou sobre ele e cobriu-o de
socos. Um guarda municipal acorreu e, vendo o corcunda morto, gritou: "Onde já se viu isto? Um cristão ousando matar um crente!" Amarrou o corretor e levou-o à casa do uáli. Diante da evidência, o uáli só podia condenar o cristão à forca. Os guardas levaram o condenado até a praça pública para ser enforcado. Mas enquanto preparavam a forca, o intendente da cozinha do sultão chegou, correndo e gritando: "Parai! Parai! Fui eu que matei o homem." Por que o mataste? perguntou-lhe o uáli. - Encontrei-o encostado à parede de minha cozinha e pensei que fosse ele que roubava todos os dias minhas provisões.
Bati nele com um porrete, e ele morreu. Carreguei-o nas costas e deixei-o à porta da loja. Sou eu que devo ser enforcado. Ouvindo esta confissão, o uáli ordenou aos guardas que libertassem o cristão e enforcassem o intendente. Mas enquanto preparavam a forca, apareceu de repente o médico judeu, forçou caminho no meio da multidão e gritou: : "Parai! Parai! Fui eu que matei o homem. Veio à minha clínica para ser medicado. Tropecei no escuro, caí sobre ele e provoquei a sua morte." O uáli deu ordens para enforcar o médico judeu. Mas antes que a ordem fosse cumprida, o alfaiate chegou, gritando: "Parai! Parai! Só eu matei aquele homem. Não enforqueis um inocente. Enforcai-me." E contou a história do jantar, da posta de peixe e da caminhada até a casa do médico. Nesta altura, o uáli estava assombrado como nunca em toda a sua vida. Disse: "A história deste corcunda deveria ser registrada nos anais e contadas nos livros." E mandou o carrasco libertar o judeu e enforcar o alfaiate. Ora, este corcunda era o bobo predilecto do sultão. Quando sumira, o sultão perguntou por ele, e os informantes lhe contaram que ele tinha sido morto e que quatro pessoas se haviam declarado sucessivamente responsáveis por sua morte. Divertido e curioso, o sultão mandou que ninguém fosse enforcado e que todos comparecessem diante dele. O mensageiro do sultão chegou minutos antes que o alfaiate fosse enforcado. Libertaram-no, e todos foram à presença do sultão. O uáli beijou a terra entre as mãos do sultão e contou-lhe a história do corcunda, do início ao fim. O sultão ficou maravilhado, riu gostosamente e mandou o historiador do palácio registrar essa história em letras de ouro líquido. Depois, perguntou a todos os presentes: "Já ouvistes histórias iguais a esta?" O corretor cristão, o intendente, o médico judeu e o alfaiate aproximaram-se um por um, beijaram a terra entre as mãos do sultão e contaram histórias supostamente iguais à do corcunda. O sultão gostou de todas elas, mas não conseguiu superar a melancolia que se tinha apoderado pouco a pouco dele por causa da morte de seu bobo predilecto. Havia entre os presentes um barbeiro. Após ouvir as diversas histórias e ter sido informado da causa da morte do corcunda, abanou a cabeça gravemente e disse: "Por Alá! Esta é a coisa mais extraordinária que já ouvi. Levantai o pano que cobre o corpo do defunto e deixai-me vê-lo." Assim que o corpo foi descoberto, o barbeiro aproximou-se dele, sentou-se a seu lado e colocou-lhe a cabeça sobre os joelhos. Após observar-lhe atentamente a face por muito tempo, soltou alegres gargalhadas e disse: "Ó afortunado rei, jura que há ainda vida neste corpo. Vou prová-lo." Tirou de um frasco um unguento que passou sobre o pescoço do corcunda. Depois, introduziu-lhe na garganta um par de pinças de ferro e retirou a posta de peixe com a espinha. Imediatamente, o corcunda tossiu fortemente, abriu os olhos e levantou-se, proclamando: "Não há Deus senão Alá, e Maomé é o profeta de Alá." Os presentes ficaram pasmos e cheios de admiração pelo barbeiro. O rei elogiou-o, dizendo: "Nunca vi um homem ressuscitar outro homem. L o prodígio dos prodígios!" Todos repetiram: "É o prodígio dos prodígios!" O rei da China mandou escrever a história do corcunda e do barbeiro em letras de ouro para ser guardada na biblioteca real. E distribuiu vestes de honra a todos os réus: ao alfaiate, ao médico, ao intendente, ao corretor, e deu-lhes lugares de honra em sua corte.Finalmente, cobriu o corcunda e o barbeiro de presentes valiosos, nomeou o corcunda seu companheiro oficial e o barbeiro, seu barbeiro pessoal. E todos saíram satisfeitos e pedindo as bênçãos de Alá sobre o sultão.

O Bom Samaritano





Certa vez, estando Jesus a ensinar, “eis que se levantou um doutor da lei e lhe disse, para o experimentar:
— Mestre, que hei-de fazer para alcançar a vida eterna?
Respondeu-Lhe Jesus:
— Que está escrito na lei? Como é que lês?
Tornou aquele:
— “Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma, com todas as tuas forças e de toda a tua mente; e a teu próximo como a ti mesmo.”
— Respondeste bem, disse-Lhe Jesus. Fase isto, e viverás.
Mas ele, querendo justificar-se, perguntou ainda:
— E quem é o meu próximo?
Ao que Jesus tomou a palavra e disse:
Um homem descia de Jerusalém a Jericó e caiu nas mãos dos ladrões que logo o despojaram do que levava; e depois de o terem maltratado com muitas feridas, retiraram-se, deixando-o meio morto. Casualmente, descia um sacerdote pelo mesmo caminho; viu-o e passou para o outro lado. Igualmente, chegou ao lugar um levita; viu-o e também passou de largo. Mas, um samaritano, que ia seu caminho, chegou perto dele e, quando o viu, se moveu à com­paixão. Aproximou-se, deitou-lhe óleo e vinho nas chagas e ligou-as; em seguida, fê-lo mon­tar em sua cavalgadura, conduziu-o a uma hospedaria e teve cuidado dele. No dia se­guinte, tirou dois denários e deu-os ao hos­pedeiro, dizendo: Toma cuidado dele, e o que gastares a mais pagar-to-ei na volta. Qual desses três se houve como próximo daquele que caíra nas mãos dos ladrões?
Respondeu logo o doutor:
— Aquele que usou com o tal de miseri­córdia.
Então lhe disse Jesus:
— Pois vai, e fase tu o mesmo.”


Parábolas de Jesus
Lucas, 10º, 25-37

A história de Blimundo



Havia um boi chamado Blimundo. Era grande, forte e amante da vida e da liberdade. Além disso, era muito amado e respeitado por todos, pois sabia pensar por si próprio, além de ser muito gentil com todos. Ao saber da existência de criatura tão autêntica, Senhor Rei perguntou-se que boi seria esse, que ousava ser tão livre em seus posicionamentos e fazendo com que os outros bois lhe seguissem o exemplo. Se ele continuasse assim, quem faria, depois, o trabalho pesado do reino. Ordenou, então, que Blimundo fosse pego morto ou vivo, a trazido até a sua presença. Os homens do Senhor Rei saíram em busca do boi, mas este os encontrou primeiro e deu um fim neles. Ao saber da notícia, Senhor Rei reuniu os homens mais valentes do reino e os mandou capturar Blimundo, e os homens partiram. O boi, novamente, deu cabo dos homens. Quando recebeu tão triste notícia, Senhor Rei desesperou-se, mas logo ouviu falar de um rapaz que fora criado no borralho da cinza e que se prontifica a ir buscar Blimundo. O menino pediu um cavaquinho, um “bli” dágua e uma bolsa de “prentém”. Além disso, quando retornasse queria a metade da riqueza do reino e a mão da princesa. Senhor Rei concordou e o jovem partiu. Então o jovem sai em busca do boi cantando uma canção que deixa Bilmundo encantado, na qual o jovem diz que, se Blimundo for com ele, casará com a Vaquinha da Praia. O boi pergunta se é verdade, o rapaz responde que sim. O jovem pede a Blimundo que o deixe montar, pois o caminho é muito longo. Ele deixa com a condição de que o rapaz continue cantando. Senhor Rei colocou a tropa em pontos estratégicos para receber Blimundo. Ao ver o boi chegar, carregando o rapaz no lombo, cansado e feliz, Senhor Rei não acreditou. À porta do palácio, o rapaz pediu para descer do lombo de Blimundo a fim de fazer a barba antes de ser apresentado à Vaquinha da Praia. O jovem conta o seu plano ao Senhor Rei e leva até o boi um barbeiro com seus instrumentos. Atrás deles, Senhor Rei. O barbeiro, enquanto Blimundo sonha com o amor da Vaquinha da Praia, corta-lhe a garganta com a navalha. Antes de morrer, o boi atinge o rei com uma patada que o mata. O rapaz e o barbeiro fogem, mas jamais esquecem o último olhar de revolta de uma criatura cujo único erro foi acreditar na harmonia, na justiça e na liberdade.


Conto de Cabo Verde

28/04/2008

O conselho dos ratos


Havia um gato maltês,
Honra e flor dos outros gatos;
Rodilardo era o seu nome.
Sua alcunha — Esgana-ratos.

As ratazanas mais feras
Apenas o percebiam,
Mesmo lá dentro das tocas
Com susto dele tremiam;

Que amortalhava nas unhas
Inda o rato mais muchucho,
Tendo para o sepultar
Um cemitério no bucho.

Passava entre aqueles pobres,
De quem ia dando cabo,
Não por um gato maltês.
Sim por um vivo diabo.

Mas janeiro ao nosso herói
Já dor de dentes causava,
E ele de telhas acima
O remédio lhe buscava.

Dona Gata Tartaruga,
De amor versada nas lides,
Era só por quem na roca
Fiava este novo Alcides.

Em tanto o deão dos ratos,
Achando léu ajuntou
Num canto do estrago o resto,
E ansioso assim lhe falou:

"Enquanto o permite a noite.
Cumpre, irmãos meus, que vejamos
Se à nossa comum desgraça
Algum remédio encontramos.

Rodilardo é um verdugo
Em urdir nossa desgraça;
Se não se lhe obstar, veremos
Finda em breve a nossa raça.

Creio que evitar-se pode
Este fatal prejuízo:
Mas cumpre que do agressor
Se prenda ao pescoço um guizo.

Bem que ande com pés de lã.
Quando o cascavel tinir,
Lá onde quer que estivermos
Teremos léu de fugir'".

Foi geralmente aprovado
Voto de tanta prudência;
Mas era a dúvida achar
Quem Fizesse a diligência.

"Vamos saber qual de vós,
Disse outra vez o deão.
Se atreve a dar ao proposto
A devida execução.''

— Eu não vou lá, disse aquele;
— Menos eu, outro dizia;
— Nem que me cobrissem de ouro,
Respondeu outro, eu lá ia!

— Pois então quem há de ser?
Disse o severo deão;
Mas todos à boca cheia
Disseram: "Eu não, eu não!"

Tornou-se em nada o congresso;
Que o aperto às vezes é tal,
Que o remédio que se encontra
Inda é pior do que o mal.

Assim mil coisas que assentam
Numa assembléia, ou conselho;
Mas vê-se na execução
Que tem dente de coelho.

Curvo Semedo (Trad.)

27/04/2008

A Divindade dos Homens

Houve um tempo em que todos os homens eram deuses. Mas eles abusaram tanto de sua divindade que Brahma, o mestre dos deuses, tomou a decisão de lhes retirar o poder divino. Resolveu então escondê-lo em um lugar onde seria absolutamente impossível reencontrá-lo. O grande problema era encontrar um esconderijo. Brahma convocou um conselho dos deuses menores, para juntos resolverem o problema.
- Enterremos a divindade do homem na terra, foi a primeira ideia dos deuses.
- Não, isso não basta, pois o homem vai cavar e encontrá-la.
Então os deuses retrucaram:
- Joguemos a divindade no fundo dos oceanos.
Mas Brahma não aceitou a proposta, pois achou que o homem, um dia iria explorar as profundezas dos mares e a recuperaria. Então os deuses concluíram:
- Não sabemos onde escondê-la, pois não existe na terra ou no mar lugar que o homem não possa alcançar um dia.
Brahma então se pronunciou:
- Eis o que vamos fazer com a divindade do homem: vamos escondê-la nas profundezas dele mesmo, pois será o único lugar onde ele jamais pensará em procurá-la.
Desde esse tempo, conclui a lenda, o homem deu a volta na terra, explorou escalou, mergulhou e cavou, em busca de algo que se encontra nele mesmo.

Conto oriental





26/04/2008

Conde da Alemanha


Já lá vem o sol na serra,
Já lá vem o claro dia,
E inda o conde da Alemanha
Com a rainha dormia.
Não o sabe homem nascido
De quantos na corte havia;
Só o sabia a infanta,
A infanta sua filha.
– «Não nas chegue eu a romper
Mangas da minha camisa,
Se em vindo meu pai da caça,
Eu logo lho não diria.»
– «Cal'-te, cal'-te, lá infanta,
Não digas tal, minha filha,
Que o conde da Alemanha
De oiro te vestiria.»
– «Não quero vestidos de oiro;
Mau fogo em quem nos vestira!
Padrasto com meu pai vivo;
Nunca eu o consentiria.»
Palavras não eram ditas,
El-rei que à porta batia.
– «Deus venha co senhor pai
E o traga na sua guia!
Tenho para lhe contar
Um conto de maravilha.
Estando eu no meu tear
Seda amarela tecia,
Veio o conde da Alemanha
Três fios dela me tira...»
– «Cal'-te daí, minha filha,
Ninguém te oiça dizer tal:
Que o conde da Alemanha
É menino, quer brincar».
– «Arrenego dos seus brincos
Mais do seu negro folgar!
Que me tomou nos seus braços,
À cama me quis levar.»
– «Cal'te já minha filha,
Ninguém te oiça mais falar;
Que em antes que o sol se ponha
Vai o conde a degolar.»
Veis-lo conde da Alemanha,
Veis-lo vai a degolar;
Ao rabo do seu cavalo
Lá o levam a arrastar.
– «Venha cá, senhora mãe,
Venha ao mirante folgar,
Veja um conde tão formoso
Que aí vai a degolar.»
– «Mal haja, filha, o meu leite,
Mais quem to deu de mamar,
Que a um conde tão bonito
A morte foste causar».
– «Cal'te daí, minha mãe,
Ninguém lhe oiça dizer tal,
Que a morte que o Conde leva
Não lha faça eu levar.»


Romanceiro, Almeida Garrett





23/04/2008

A protegida de Maria


Tradução de Karin Volobuef


Na orla de uma extensa floresta morava um lenhador e sua esposa. Eles tinham apenas uma filha, que era uma menina de três anos. Mas eles eram tão pobres que não tinham mais o pão de cada dia e já não sabiam o que haveriam de dar-lhe para comer. Certa manhã o lenhador foi com grande preocupação até a floresta para cuidar de seu trabalho e, quando estava cortando lenha, lá apareceu de repente uma mulher alta e bela que trazia na cabeça uma coroa de estrelas cintilantes e lhe disse “Sou a Virgem Maria, mãe do Menino Jesus, e tu és pobre e necessitado: traga-me tua filha, vou levá-la comigo, ser sua mãe e cuidar dela.” O lenhador obedeceu, foi buscar a filha e entregou-a à Virgem Maria, que a levou consigo para o Céu. Lá a menina passava muito bem, comia pão doce e bebia leite açucarado, e seus vestidos eram de ouro, e os anjinhos brincavam com ela. Quando completou quatorze anos, a Virgem Maria a chamou e disse “Querida menina, partirei em uma longa viagem; tome sob tua guarda as chaves das treze portas do reino celestial; tu poderás abrir doze delas e contemplar os esplendores que há lá dentro, mas a décima terceira, cuja chave é esta pequena aqui, está proibida para ti: cuidado para não abri-la, pois seria a tua infelicidade.” A menina prometeu ser obediente e, quando a Virgem Maria havia partido, começou a olhar os cômodos do reino celestial: a cada dia abria um deles, até que todos os doze tinham sido vistos. Em cada um dos cômodos estava sentado um apóstolo cercado de grande esplendor, e toda aquela suntuosidade e magnificência dava grande alegria a ela, e os anjinhos, que sempre a acompanhavam, alegravam-se também. Até que, então, faltava apenas a porta proibida, e ela sentiu um grande desejo de saber o que estava escondido atrás dela. Por isso disse aos anjinhos “Não abrirei a porta por inteiro e também não entrarei, mas vou entreabri-la para olharmos um pouquinho pela fresta”. “Oh, não,” disseram os anjinhos, “seria um pecado: a Virgem Maria proibiu fazer isso, além do mais, isso poderia facilmente trazer-te a desgraça.” Então ela se calou, mas o desejo não silenciou em seu coração, mas, ao contrário, continuou roendo e corroendo-a com força, não lhe permitindo ficar em paz. E certa vez, quando os anjinhos haviam todos saído, pensou “Agora estou totalmente sozinha e poderia olhar lá dentro, afinal, ninguém ficará sabendo o que fiz”. Procurou a chave e, tão logo a apanhou, enfiou-a na fechadura e, uma vez ela estando lá, sem pensar duas vezes, girou-a. A porta abriu de um salto e ela viu a Trindade sentada em meio ao fogo e à luz. Ficou parada um momento, observando tudo com assombro, depois tocou de leve com o dedo aquela luz, e o dedo ficou totalmente dourado. No mesmo instante foi tomada de intenso pavor, bateu a porta com força e correu dali. Mas o pavor não diminuía, ela podia fazer o que fosse mas o coração continuava batendo acelerado e não havia como acalmá-lo: assim também o ouro continuou no dedo e não saía de jeito algum, não importa o quanto lavasse e esfregasse.

Não passou muito tempo e a Virgem Maria retornou de sua viagem. Ela chamou a menina e solicitou as chaves de volta. Quando ela apresentou o molho, a Virgem olhou em seus olhos e perguntou: “E não abriste mesmo a décima terceira porta?” “Não”, respondeu. Então ela pousou a mão sobre o coração da menina e sentiu como ele estava batendo sobressaltado, de modo que percebeu que sua ordem tinha sido desobedecida e a porta fora aberta. Então perguntou mais uma vez: “Realmente não a abriste?” “Não”, respondeu a menina pela segunda vez. Aí a Virgem avistou o dedo que ficara dourado pelo toque do fogo celestial e teve certeza de que ela pecara, e perguntou pela terceira vez: “Não a abriste?” “Não”, respondeu a menina pela terceira vez. Então a Virgem Maria disse: “Tu não me obedeceste e além disso ainda mentiste, portanto não és mais digna de permanecer no Céu.”

Nesse momento a menina caiu em profundo sono e quando despertou jazia lá embaixo sobre a terra em meio a um lugar agreste. Quis gritar, mas não conseguiu emitir qualquer som. Levantou-se de um salto e quis fugir, mas para onde quer que se dirigisse sempre era detida por sebes espinhosas que não conseguia atravessar. Nesse ermo em que estava encerrada havia uma velha árvore oca que agora teria de ser sua morada. Era lá para dentro que rastejava quando caía a noite, e era lá que dormia, e, quando vinham chuvas e tempestades, era lá que buscava abrigo. Levava uma vida lastimável, e quando recordava como tudo havia sido tão bom no Céu, e como os anjinhos costumavam brincar com ela, chorava amargamente. Raízes e frutas silvestres eram seus únicos alimentos, e ela os procurava ao redor até onde podia ir. No outono juntava as nozes e folhas que haviam caído no chão e levava-as para o oco da árvore; comia as nozes no inverno e, quando chegavam a neve e o gelo, arrastava-se como um animalzinho para debaixo das folhas para não sentir frio. Não demorou muito e suas vestimentas começaram a se rasgar e um pedaço após outro foi caindo do corpo. Tão logo o Sol voltava a brilhar trazendo o calor, ela saía e sentava-se diante da árvore e seus longos cabelos encobriam-na de todos os lados como um manto. Assim foi passando ano após ano e ela ia experimentando a miséria e sofrimento do mundo.

Uma vez, quando as árvores tinham acabado de cobrir-se outra vez de verde, o rei que lá reinava estava caçando na floresta e perseguia uma corça, e como esta havia se refugiado nos arbustos que rodeavam a clareira da floresta, ele desceu do cavalo e com sua espada foi arrancando o mato e abrindo caminho para poder passar. Quando finalmente chegou do outro lado, avistou sob a árvore uma donzela de maravilhosa beleza que lá estava sentada totalmente coberta até os dedos dos pés pelos seus cabelos dourados. Ficou parado admirando-a com assombro até que finalmente dirigiu-lhe a palavra e disse: “Quem és tu? Por que estás aqui no ermo?” Mas ela não respondeu, pois sua boca estava selada. O rei falou novamente: “Queres vir comigo até meu castelo?” Ela apenas assentiu levemente com a cabeça. Então o rei a tomou nos braços, carregou-a até seu corcel e cavalgou com ela para casa, e, quando chegou ao castelo real, ordenou que a vestissem com belos trajes e tudo lhe foi dado em abundância. Embora não pudesse falar, ela era afável e bela, e assim ele começou a amá-la do fundo de seu coração e, não demorou muito, casou-se com ela.

Quando se havia passado cerca de um ano, a rainha deu à luz um filho. Nessa mesma noite, quando estava deitada sozinha em seu leito, apareceu-lhe a Virgem Maria, que disse “Se quiseres dizer a verdade e confessar que abriste a porta proibida, destravarei tua boca e devolverei tua fala, mas se insistires no pecado e teimares em negar, levarei comigo teu filho recém-nascido.” Nesse momento foi dado à rainha responder, porém ela manteve-se obstinada e disse: “Não, não abri a porta proibida”, e a Virgem Maria tomou-lhe o filho recém-nascido dos braços e desapareceu com ele. Na manhã seguinte, quando não foi possível encontrar a criança, começou a correr um murmúrio no meio do povo de que a rainha comia carne humana e teria matado seu próprio filho. Ela ouvia tudo isso e não podia dizer nada em contrário, mas o rei recusou-se a acreditar naquilo porque a amava muito.

Depois de um ano nasceu mais um filho da rainha. Naquela noite voltou a parecer a Virgem Maria junto dela dizendo: “Se quiseres confessar que abriste a porta proibida, devolverei teu filho e soltarei tua língua; mas se insistires no pecado e negares, levarei também este recém-nascido comigo.” Então a rainha disse novamente: “Não, não abri a porta proibida”, e a Virgem tomou-lhe a criança dos braços e levou-a consigo para o Céu. De manhã, quando mais uma vez uma criança havia desaparecido, o povo afirmou em voz bem alta que a rainha a tinha devorado, e os conselheiros do rei exigiram que ela fosse levada a julgamento. Mas o rei a amava tanto que não quis acreditar em nada, e ordenou aos conselheiros que, se não estivessem dispostos a sofrer castigos corporais ou mesmo a pena de morte, que deixassem de insistir no assunto.

No ano seguinte a rainha deu à luz uma linda filhinha e, pela terceira vez, apareceu à noite a Virgem Maria e disse: “Acompanha-me”. Tomou-a pela mão e conduziu-a até o Céu, mostrando-lhe então os dois meninos mais velhos, que riam e brincavam com o globo terrestre. A rainha alegrou-se com aquilo e a Virgem Maria disse: “Teu coração ainda não se abrandou? Se confessares que abriste a porta proibida, devolverei teus dois filhinhos.” Mas a rainha respondeu pela terceira vez “Não, não abri a porta proibida”. Então a Virgem Maria a fez descer novamente à terra, tomando-lhe também a terceira criança.

Na manhã seguinte, quando a notícia correu, todo o povo gritava “a rainha come gente, ela tem que ser condenada”, e o rei não conseguiu mais conter seus conselheiros. Ela foi submetida a julgamento e, como não podia responder e se defender, foi condenada a morrer na fogueira. Quando haviam juntado a lenha e ela estava amarrada a um pilar e o fogo começava a arder a sua volta, então derreteu-se o duro gelo do orgulho e seu coração encheu-se de arrependimento e ela pensou: “Ah, se antes de morrer eu ao menos pudesse confessar que abri a porta”. Nesse momento voltou-lhe a voz e ela gritou com força “Sim, Maria, eu a abri!” No mesmo instante uma chuva começou a cair do céu apagando as chamas do fogo, e sobre sua cabeça irradiou uma luz, e a Virgem Maria desceu tendo os dois meninos, um de cada lado, e carregando a menina recém-nascida no colo. Ela falou-lhe com bondade: “Quem confessa e se arrepende de seu pecado, sempre é perdoado”, e entregou-lhe as três crianças, soltou-lhe a língua e deu-lhe de presente a felicidade para a vida inteira.