11/06/2008

O leão e o rato


Saiu da toca aturdido
Daninho pequeno rato,
E foi cair insensato
Entre as garras de um leão.

Eis o monarca das feras
Lhe concedeu liberdade,
Ou por ter dele piedade.
Ou por não ter fome então.

Mas essa beneficência
Foi bem paga, e quem diria
Que o rei das feras teria
De um vil rato precisão!
Pois que uma vez indo entrando
Por uma selva frondosa,
Caiu em rede enganosa
Sem conhecer a traição.

Rugidos, esforços, tudo
Balda sem poder fugir-lhe:
Mas vem o rato acudir-lhe
E entra a roer-lhe a prisão.
Rompe com seus finos dentes
Primeira e segunda malha;
E tanto depois trabalha,
Que as mais também rotas são.

O seu benfeitor liberta,
Uma dívida pagando,
E assim à gente ensinando
De ser grata à obrigação.
Também mostra aos insofridos,
Que o trabalho com paciência
Faz mais que a força, a imprudência
Dos que em fúria sempre estão.
Curvo Semedo (Trad.)

10/06/2008

O leão, a lebre e o cágado

A lebre só tinha uma cabra. Sabendo que o leão possuía um bode, propôs a ele que lhe emprestasse o animal por uns tempos para que sua cabra tivesse filhotes. Quando isso ocorreu, a lebre foi devolver o bode ao leão. Entretanto, ele exigiu as crias, alegando que sem o seu bichinho a cabra jamais as teria tido. Como não conseguiram entrar em um acordo, procuraram a ajuda do tribunal dos anciãos. O tribunal deu ganho de causa ao leão, apresentando a mesma justificativa que o vencedor já havia utilizado anteriormente, ou seja: sem o bode a cabra não teria tido filhotes. Todavia, como faltava o cágado, também membro no tribunal dos anciãos, a lebre solicitou que se aguardasse a sua chegada, com o que todos concordaram, por questão de justiça. Após um dia inteiro de espera, chega o cágado. O leão, furioso, perguntou a razão para tanto atraso, ao que ele respondeu que sua demora devia-se ao fato de que ele estava assistindo ao parto de seu pai. Todos riram, perguntando onde se viu homem dar à luz. Então, o cágado perguntou se não disso, afinal, que se tratava. Imediatamente, os anciãos mudaram de posicionamento, dando ganho de causa à lebre, pois compreenderam que, já que é a mulher quem dá à luz, a ela os filhos pertencem.


Conto de Angola


09/06/2008

As flores de Ida





– MINHAS pobres flores estão todas mortas, disse a pequena Ida. Ontem elas estavam tão belas! E agora as folhas caem secas. Que terá acontecido? – perguntou ela ao estudante que estava em cima do canapé e de quem ela gostava muito.
Ele sabia contar as estórias mais lindas e apresentar as figuras mais divertidas, de corações com meninas que dançavam, flores e grandes castelos dos quais não se podia abrir as portas. Oh! era um estudante muito alegre.
– Por que minhas flores se apresentam hoje com um ar tão triste?, – perguntou-lhe uma segunda vez –, mostrando-lhe o ramo seco.
– Vou dizer-lhe o que elas têm – disse o estudante. – Suas flores estiveram esta noite no baile onde dançaram muito e eis por que suas pétalas estão tão caídas.
– Mas as flores não sabem dançar – disse a pequena Ida balançando a cabeça.
– Sim, é verdade – respondeu o estudante. – Mas assim que anoitece e que nós dormimos, elas pulam e ficam alegres, quase todas as noites.
– E as crianças não podem ir a esse baile? Elas se divertiriam bastante.
– Sim – respondeu o estudante. As crianças do jardim, as pequenas margaridas e os pequenos muguets..
– Onde dançam as belas flores? Onde fica o salão de baile? – perguntou a pequena Ida.
– Você nunca saiu da cidade, do lado do grande castelo onde o rei faz sua residência, no verão, e onde existe um magnífico jardim cheio de flores? Você pode ver os cisnes que nadam docemente para perto de você, quando lhes dá migalhas de pão. Pois acredite, é lá que acontecem os grandes bailes.
– Mas eu fui ontem com mamãe ao jardim – replicou a menina – não havia mais folhas nas árvores e nem sequer uma flor. Onde estão elas agora? Eu vi tantas durante o verão!
– Estão no interior do castelo – disse o estudante. – Assim que o rei e os cortesãos voltam para a cidade, as flores abandonam prontamente o jardim, entram no castelo e levam uma vida agradável. Oh! se você visse isso! As duas mais belas rosas se assentam no trono e elas são o rei e a rainha. As cristas-de-galo escarlates ficam colocadas de cada lado e se inclinam: são os oficiais da casa real. A seguir vêm as outras flores e começa o grande baile... As violetas azuis representam os oficiais de marinha; dançam com os jacintos, que eles chamam de senhoritas. As tulipas e os grandes lírios verme-lhos são as velhas damas encarregadas de velarem para que se dance convenientemente e que tudo se passe como se deve.
– Mas – pergunta a pequena Ida – não há ninguém que castigue as flores por dançarem no castelo do rei? Nós não poderíamos dançar sem um convite.
– Ninguém fica sabendo – disse o estudante. – É verda-de que algumas vezes, durante a noite, chega o velho intendente que faz a sua ronda. Leva um grande molho de chaves com ele, e quando as flores ouvem o seu tilintar, ficam quietinhas e se escondem atrás das cortinas para não serem vistas. “Sinto que aqui existem flores”, diz o velho intendente; mas ele não as pode ver.
– É soberbo – disse a pequena Ida batendo as mãos – será que eu podia ver as flores dançarem?
– Talvez – disse o estudante. – Pense nisso quando você voltar ao jardim do rei. Olhe pela janela e você as verá. Eu o fiz hoje mesmo: havia um longo- lírio amarelo que estava estendido no canapé. Era uma dama da corte.
– Mas as flores do jardim das Plantas também vão? Como podem caminhar tanto?
– Sim – disse o estudante – pois quando elas querem, podem voar. Você nunca viu as belas borboletas vermelhas, amarelas e brancas? E por acaso elas não se parecem com as flores? E porque elas nunca foram outra coisa. As flores deixaram seus caules e se elevaram nos ares; lá elas agitaram suas folhas como se fossem asinhas e começaram a voar. E, já que se portaram muito bem, obtiveram a permissão para voar o dia inteiro, não precisando mais ficar agarradas ao seu caule. Foi assim que as folhas se transformaram em asas verdadeiras. Mas você mesma as viu. Ademais, pode ser que as flores do jardim das Plantas nunca tenham ido ao jardim do rei. Eis por que eu quero contar-lhe algo que fará com que o professor de botânica, nosso vizinho, arregale os olhos. Quando você for ao jardim, anuncie a uma flor que haverá um grande baile no castelo: ela o repetirá a todas as outras e elas voarão. Já imaginou a cara que fará o professor, quando ele for visitar o jardim e não ver nem uma flor, sem poder compreender para onde elas foram?
– Mas as flores não sabem falar.
– É verdade – respondeu o estudante –, mas elas são muito fortes em astúcia. Você nunca viu as flores, quando faz um pouco de vento, se inclinarem e fazerem sinais com a cabeça? Você nunca reparou que todas as folhas verdes se agitam? Esses movimentos são tão inteligíveis para elas, quanto as palavras são para nos.
– Será que o professor compreende a linguagem delas? – perguntou Ida.
– Sim, certamente. Um dia em que ele estava em seu jardim, percebeu uma grande urtiga que com suas folhas fazia sinais a um lindo cravo vermelho. Ela dizia: “Como você é belo! Como eu o amo!”, mas o professor se aborreceu e bateu nas folhas que servem de dedos à urtiga. Feriu-se, e, depois desse fato, lembrando-se sempre do quanto lhe custara, nunca mais tocou numa urtiga.
– É engraçado – disse a pequena Ida, e começou a rir.
– “Como se pode meter tais coisas na cabeça de uma criança?” – disse um enfadonho conselheiro que entrara durante a conversação para fazer uma visita e que se sentara no canapé.
Mas tudo o que o estudante contava à pequena Ida tinha para ela um encanto extraordinário e ela reflectia muito. As flores tinham as pétalas caídas, porque estavam cansadas de ter dançado toda a noite. Sem dúvida estavam doentes. Então ela as levou juntamente com seus outros brinquedos, que se encontravam sobre uma pequena mesa cuja gaveta estava cheia de belas coisas.
Encontrou a sua boneca Sofia, deitada e adormecida; mas a menina lhe disse: “É preciso levantar-se, Sofia, e contentar-se por esta noite com a gaveta. As pobres flores estão doentes e precisam tomar o seu lugar. Isso talvez as cure.”
E ela levantou a boneca. Esta tinha o ar muito contrariado e não disse uma só palavra, tanto estava aborrecida por não poder ficar na sua caminha!
Ida colocou as flores no leito de Sofia, cobriu-as bem com o cobertor e disse-lhes que ficassem quietinhas; ela iria fazer-lhes um chá para que elas pudessem tornar-se alegres novamente e se levantarem no dia seguinte cedo.
A seguir fechou as cortinas em volta do pequeno leito, a fim de que o sol não batesse em seus olhos.
Durante toda a noite ela não pôde deixar de sonhar com o que lhe contara o estudante, e, no momento de deitar-se, dirigiu-se para as cortinas das janelas, onde se encontravam as flores de sua mãe, jacintos e tulipas, e lhes disse baixinho: “Eu sei que vocês irão ao baile esta noite”.
As flores fizeram de conta que não compreendiam nada e não mexeram nem uma folha, o que não impediu Ida de saber o que queria.
Quando foi se deitar, pensou no prazer que seria ver as flores dançarem no castelo do rei. “Minhas flores teriam ido?” E ela adormeceu.
Acordou durante a noite: sonhara com as flores, com o estudante e o conselheiro. A vela ardia sobre a mesa, o pai e a mãe dormiam.
“Desejaria saber se minhas flores ainda estão no leito de Sofia! Sim, desejaria saber”.
Levantou-se e lançou um olhar pela porta entreaberta.
Ouviu e pareceu-lhe que o piano tocava no salão, mas tão suavemente que ela jamais ouvira coisa igual.
“São as flores que dançam. Gostaria tanto de vê-las!”
Mas ela não ousou levantar-se de fato, com medo de acordar seus pais.
“Oh! Se elas quisessem entrar aqui!”, pensou ela.
Mas as flores não apareceram e a musica continuou a tocar baixinho. Finalmente ela não pôde se conter; era bonito demais. Deixou seu pequeno leito e foi na ponta dos pés até a porta, a fim de olhar para o salão.
Oh! Foi maravilhoso o que viu!
Não havia iluminação, e verdade; no entanto, estava bastante claro. Os raios de lua caíam pela janela até o solo; podia-se enxergar como se fosse pleno dia.
Todos os jacintos e as tulipas estavam no solo; nem uma ficara na janela; todos os vasos estavam vazios.
No assoalho, todas as flores dançavam alegremente, umas no meio das outras, fazendo toda a espécie de figurações e se segurando nas suas longas folhas verdes, a fim de fazerem uma grande roda. Ao piano estava sentado um grande lírio amarelo, com o qual a pequena Ida travara conhecimento no verão, pois se lembrava muito bem do que o estudante dissera: “Veja como ele se parece com D. Carolina”.
Todo mundo caçoara dele, no entanto, Ida pensou reconhecer que a grande flor amarela se parecia de maneira extraordinária com essa senhorita.
Ela tocava piano da mesma maneira; balançava o corpo para lá e para cá, acompanhando o compasso com a cabeça. Ninguém reparara na pequena Ida. A seguir ela viu um grande crisântemo azul que saltou para o meio da mesa onde estavam seus brinquedos e que foi abrir a cortina do leito da boneca.
Era ali que dormiam as flores doentes; elas se levantaram e disseram às outras, por meio de um sinal de cabeça, que também tinham vontade de dançar. O velho bondoso do frasco de perfume, que perdera seu lábio inferior, levantou-se e cumprimentou as belas flores.
Elas readquiriram a sua bela aparência, misturaram-se às outras e se mostraram as mais alegres.
De repente, algo pulou da mesa; Ida olhou: era a vara que se lançava ao solo; também queria tomar parte na dança das flores. Sobre ela estava colocada uma pequena boneca de cera, que usava um grande chapéu exactamente igual ao do conselheiro.
A vara pulou no meio das flores e começou a marcar o tempo de uma mazurca; ninguém o fazia melhor do que ela; as outras flores eram muito leves e nunca fariam o mesmo ruído com os pés.
Subitamente, a boneca que estava agarrada à vara cresceu, voltou-se para as outras flores e gritou-lhes:
“Como podem meter tais coisas na cabeça de uma criança? E. uma fantasia idiota!” E a boneca de cera se parecia extraordinariamente com o conselheiro com o seu chapéu grande; tinha a mesma cor amarelada e o mesmo ar resmunguento.
Mas suas longas pernas sofreram com isso: as flores bateram nelas rudemente; ela diminuiu de repente e transformou-se numa bonequinha outra vez. Como tudo aquilo era divertido de ver!
A pequena Ida não pôde deixar de rir. A vara continuava a dançar e o conselheiro era obrigado a dançar com ela, apesar de toda a sua resistência, tanto quando cresceu, como quando voltou às suas proporções de pequena boneca com seu grande chapéu negro. Finalmente as outras flores intercederam por ela, sobretudo aquelas que haviam saído do leito e boneca; a vara deixou-se tocar por sua insistência e acabou se aquietando.
Depois alguém bateu violentamente na gaveta onde estavam guardados os outros brinquedos de Ida. O homem do frasco de perfume correu até à beira da mesa, deitou-se sobre o ventre e conseguiu abrir um pouco a gaveta. Imediatamente Sofia se levantou e olhou m volta espantada.
“Então há um baile aqui!” disse ela; “por que ninguém me avisou?”
– Quer dançar comigo? – perguntou homem dos perfumes.
“Por acaso, aí está um bailarino”? disse ela voltando-lhe as costas.
A seguir sentou-se sobre a gaveta. Naturalmente algumas das flores viriam convidá-la. Mas nenhuma se apresentou. O homem começou a dançar sozinho, saindo-se muito bem.
Como nenhuma das flores parecia prestar atenção a Sofia, ela pulou com grande ruído da gaveta para o chão. Todas as flores correram para ela, perguntando-lhe se estava machucada e mostrando-se, muito amáveis para com ela, sobretudo aquelas que haviam dormido em sua cama. Não se machucara e as flores de Ida lhe agradeceram por sua boa cama, levaram-na para o meio da sala, onde brilhava a lua, e começaram a dançar com ela. Todas as outras flores faziam círculos para vê-las. Sofia, alegre, disse-lhes que agora elas podiam ficar com a sua cama, pois ela não se importava de dormir dentro da gaveta.
As flores lhe responderam: “Agradecemos cordialmente; não poderemos viver muito tempo. Amanhã estaremos mortas. Mas diga à pequena Ida que nos enterre lá no canto do jardim onde foi enterrado o passarinho das Canárias. Nós ressuscitaremos no verão e nos tornaremos ainda mais belas”.
“Não, não quero que vocês morram” – disse Sofia – e beijou as flores.
Mas no mesmo instante a porta do salão se abriu e uma multidão de flores magníficas entrou dançando.
Ida não podia entender de onde elas vinham. Sem dúvida, eram todas flores do jardim do rei! Havia rosas esplêndidas, que usavam coroas de ouro: eram o rei e a rainha. A seguir apareceram os mais encantadores girassóis, os cravos mais maravilhosos, que saudaram de todos os lados.
Estavam acompanhados de uma orquestra; os jacintos tocavam como se possuíssem campainhas de verdade.
Era uma música inesquecível; todas as outras flores se reuniram à nova banda, e as violetas e as papoulas dançaram assim como as minúsculas margaridas.
E se abraçavam umas às outras. Era um espectáculo delicioso.
A seguir as flores se deram uma boa noite e a pequena Ida correu para a cama, onde ficou sonhando com tudo o que vira. No dia seguinte, assim que se levantou, correu para a mesinha a fim de ver se as flores ainda estavam lá. Abriu as cortinas do pequeno leito; as flores estavam todas, mas ainda mais murchas do que na véspera. Sofia dormia na gaveta e tinha o ar de sonhar profundamente.
“Lembra-se do recado que tem para mim”? – perguntou-lhe a pequena Ida.
Mas Sofia não disse uma só palavra.
“Você não é bondosa” – disse Ida – “no entanto, todas elas dançaram com você”.
A seguir apanhou uma caixa de papel que continha desenhos de belos pássaros e colocou dentro dela as flores mortas.
“Aqui está o seu caixão” – disse ela. “E mais tarde, quando meus priminhos vierem me ver, poderão me ajudar a enterrá-las no jardim, para que depois ressuscitem e se tornem ainda mais lindas”.
Os primos da pequena Ida eram dois meninos encantadores; chamavam-se Jonas e Adolphe. Seu pai lhes dera dois talabartes e eles os levaram, a fim de mostrá-los a Ida. A menina contou-lhes a triste estória das flores e pediu-lhes que a ajudassem a enterrá-las.
Os dois meninos caminharam na frente com seus dois talabartes nas costas e a pequena Ida os seguiu com as suas flores mortas dentro do seu pequeno caixão; abriram um buraco no jardim; depois de ter dado um último beijo nas flores, Ida colocou o caixãozinho no mesmo. Adolphe e Jonas deram dois golpes de flecha no enterro; pois eles não possuíam nem fuzil nem canhão.


Hans Christian Andersen



Lenda de Geraldo, o Sem Pavor

Esta lenda passou-se no ano de 1166, no tempo em que Évora era ainda a Yeborath árabe, para grande desgosto de D. Afonso Henriques que a desejava como ponto estratégico da reconquista de Portugal aos Mouros. Geraldo Geraldes, um homem de origem nobre que vivia à margem da lei, era chefe de um bando de proscritos que habitavam num pequeno castelo nos arredores de Yeborath. Conhecido também pelo Sem Pavor, Geraldo Geraldes decidiu conquistar Évora para resgatar a sua honra e o perdão para os seus homens. Disfarçado de trovador rondou a cidade e traçou a sua estratégia de ataque à torre principal do castelo que era vigiada por um velho mouro e pela sua filha. Numa noite, o Sem Pavor subiu sozinho à torre e matou os dois mouros, apoderando-se em silêncio da chave das portas da cidade. Mobilizou os seus homens e atacou a cidade adormecida numa noite sem lua que, surpreendida, sucumbiu ao poder cristão. No dia seguinte, D. Afonso Henriques recebeu surpreendido a grande novidade e tão feliz ficou que devolveu a Geraldo Geraldes as chaves da cidade, bem como a espada que ganhara, nomeando-o alcaide perpétuo de Évora. Ainda hoje, a cidade ostenta no brasão do claustro da Sé, a figura heróica de Geraldo Geraldes e as duas cabeças dos mouros decepadas, para além de lhe dedicar a praça mais emblemática de Évora.

Lenda de Évora




Lenda de Santa Maria de Aguiar

Reza a história que a Santa teve papel preponderante na vitória lusa ao receber no manto as balas disparadas pelos espanhóis.

A Santa começou a ser venerada há vários séculos na sequência de preciosa ajuda que teria dado às tropas portuguesas nas batalhas que travaram com os castelhanos. Assim, em 1664, nos campos que rodeiam o convento de Santa Maria de Aguiar travou-se uma grande batalha onde os espanhóis apesar de em maior número foram copiosamente derrotados e tantos os seus mortos que se passou a chamar àquela batalha, a “Batalha da Salgadela”. Diz a lenda que a Santa teve papel preponderante na vitória lusa ao receber no manto as balas disparadas pelos espanhóis, evitando assim que os portugueses fossem atingidos. «Mira que anda Santa Capeluda a aparar las balas com um azafáte» teria sido a expressão usada pelos castelhanos durante a batalha.



07/06/2008

O touro

Um touro fugido vinha devastando os rebanhos. Os pastores não tinham mais coragem de levar os animais para o pasto por causa daquele enorme animal selvagem que sempre aparecia de repente, atacando de cabeça baixa e dando chifradas em tudo o que via pela frente.
Os pastores sabiam, no entanto, que o touro odiava a cor vermelha, e um dia resolveram preparar-lhe uma armadilha.
Envolveram com um pano vermelho o tronco de um grossa árvore e em seguida esconderam-se.
Logo o touro apareceu, soprando pelas ventas.
Ao ver o tronco vermelho, baixou a cabeça para atacar e, com um grande estrondo, enterrou os chifres na árvore, tornando-se prisioneiro.






05/06/2008

Bernal-Francês

– «Quem bate à minha porta,
Quem bate, oh! quem 'stá aí?»
– «Sou Bernal-Francês, Senhora;
Vossa porta, amor, abri.»
– «Ai! se é Bernal-Francês,
A porta lhe vou abrir;
Mas se é outro cavaleiro,
Bem se pode daí ir.»

«Ao saltar da minha cama
Eu rompi o meu frandil,
Ao descer da minha escada
Me caiu o meu chapim,
Ao abrir a minha porta
Me apagaram o meu candil...
Pegaram-lhe pela mão
E o levei ao meu jardim,
Fiz-lhe uma cama de rosas,
Travesseiro de jasmins;
Lavei-o em água de flores
E o deitei a par de mim...»

– «Meia-noite já é dada
Sem te voltares para mim;
Que tens tu, amor querido,
Que nunca te vi assim?
Se teme-los meus criados,
Não virão agora aí;
Se teme-los meus irmãos,
Eles não moram aqui;
Se de meu marido temes,
Longes terras foi daqui,
Por má traça o matem moiros,
E a nova me venha a mim!...»
– «Não temo de teus irmãos
Que bem sei que são por mim,
Não temo dos teus criados
Que mais me querem que a ti;
A teu marido não temo
E dele nunca temi...

Teme tu, falsa traidora,
Pois o tens a par de ti!»
– «Ai! se tu és meu marido,
Quero-te mais que a mim,
Oh que sonho, tão mau sonho,
Que eu tive agora aqui!
Ergamo-nos já, marido,
Deixa-me vestir daí.»
– «Cala-te falsa traidora,
Que não me enganas assim.
Deixa tu vir a manhã,
Que eu é que te hei-de vestir:
Dar-te-ei saia de grana
E gibão de carmesim,
Gargantilha de cutelo,
Pois tu o quiseste assim.»
– «Deixa-me ir por aqui abaixo
Coa minha capa a cair,
Vou-me ver a minha dama
Se ainda se lembra de mim.»
– «Tua amada, meu senhor,
É morta, que eu bem a vi:
Os sinais que ela levava;
Eu tos digo agora aqui:
Levava saia de grana
E gibão de carmesim,
Gargantilha de cutelo,
Tudo por amor de ti
Os sinos que correram
Por minhas mãos os corri;
As andas em que a levaram
Eu de negro lhas cobri;
Caixão em que a amortalharam
Era de oiro e marfim;
Os frades que a acompanhavam
Não tinham conto nem fim;
Saíram-lhe sete condes,
Cavaleiros mais de mil;
As donzelas a chorar,
Os pajens iam a rir
Levaram-na a enterrar
À igreja de São Gil.»

Palavras não eram ditas,
Por morto no chão caí;
Passaram-se horas e horas
Quando me tornei a mim.
Fui-me àquela sepultura.
Queria morrer ali:
– «Abre-te, ó campa sagrada
Esconde-me a par de ti!»
Do fundo da cova triste
Ouvi uma voz sair:
– «Vive, vive, cavaleiro,
Vive tu que eu já morri:
Os olhos com que te olhava
De terra já os cobri,
Boca com que te beijava
Já não tem sabor em si,
O cabelo que entrançavas
Jaz caído a par de mim,
Dos braços que te abraçavam
As canas vê-las aqui!
Vive, vive, cavaleiro,
Vive tu, que eu já vivi:
A mulher com quem casares
Chamem-lhe Ana como a mim,
Quando chamares por ela
Hás-de-te lembrar de mim,
Conta-lhe os nossos amores,
Que aprenda na minha fim.
Filhas que dela tiveres
Ensina-as melhor que a mim,
Que se não percam por homens,
Como eu me perdi por ti».


Romanceiro, Almeida Garrett




04/06/2008

A douta escrava simpatia


Conta-se que vivia certa vez em Bagdá um mercador muito rico e cumulado com honrarias e privilégios. Mas Alá o privara de uma felicidade: Não tinha filho - nem mesmo uma filha. Na medida em que envelhecia e o peso dos anos encurvava-lhe as costas, aumentava seu desespero por nada conseguir de suas numerosas esposas. Um dia, porém, após ter distribuído esmolas e visitado santos e rezado com fervor, deitou com sua mulher mais jovem e, pela graça de Alá, engravidou-a. No fim de nove meses, a mulher deu à luz um menino tão lindo quanto um pedaço de lua. A título de agradecimentos a Alá, o mercador alimentou os pobres, as viúvas e os órfãos durante sete dias, e chamou seu filho Abu-Husn. A criança foi alvo de todos os cuidados como uma jóia rara. Quando atingiu a idade em que se começa a aprender, deram-lhe instrutores de todas as ciências e artes. Abu-Husn tornou-se assim ao mesmo tempo um adolescente instruído e de mágica beleza. Sua graça juvenil, o frescor de suas faces, as flores de seus lábios foram assim celebrados pelo poeta: Embora a primavera já tenha passado sobre as roseiras, aqui há botões que ainda não abriram. Neste agradável jardim que não conhece as mudanças, Abu-Husn reinará com dois cetros reunidos: a beleza e a graça. Abu-Husn iluminou assim os últimos anos de seu velho pai. Quando o pai sentiu aproximar-se o termo inelutável, chamou a si Abu-Husn e disse-lhe: "Meu filho, a minha hora chegou. Lego-te grandes riquezas que devem durar por toda a tua vida e a de teus
filhos e netos. Aproveita-as sem excesso, agradece ao Doador e sê moderado e bom para com todos." E o santo homem morreu. Abu-Husn quis seguir os conselhos do pai, mas seus camaradas levaram-no para outros caminhos. Freqüentou músicos e dançarinas, seguiu todos os caprichos, gastou imoderadamente - e, um dia, acordou para verificar que só lhe restava de todas as suas riquezas uma única jovem escrava.
Agora, parai, e admirai os caminhos do destino. Decretou ele que essa jovem seria a maravilha suprema das mulheres do Oriente e do Ocidente. Era chamada Simpatia. E nunca um nome foi mais apropriado a seu dono. Era erecta como a letra Alef. Sua boca parecia ter sido selada por Soleiman para nela guardar as pérolas mais preciosas. Seus seios eram como duas romãs separadas por um vale de sombras e luzes acima de um umbigo que parecia o centro de um planeta. E suas ancas! Deixavam impressa no divã a marca de curvas suaves. Disse dela um poeta: Se ela aparecesse aos pagãos,largariam seus ídolos e a adorariam. E se tomasse banho de mar, ao contacto de sua doçura, a água perderia seu sal e viraria doce.
Tendo verificado que estava arruinado, Abu-Husn caiu numa desolação que lhe roubou o apetite e o sono e pôs-lhe a vida em perigo. Mas sua escrava Simpatia decidiu tudo fazer para salva-lo. Vestiu-se tão elegantemente quanto pôde, usando o que lhe sobrava de jóias, e procurou seu amo. ‘ para por à fim a tuas desgraças com minha ajuda," disse-lhe. "Leva-me ao califa Harun Ar-Rachid e oferece-me a ele por 10 mil dinares. Se ele achar o preço alto, pede-lhe que me examine para dar-se conta de que valho mais do que isso." Na sua devassidão, Abu-Husn nunca reparara nas dádivas raras de sua bela escrava. Levou-a ao califa. O califa interessou-se por ela e perguntou-lhe: - Como te chamas? - Meu nome é Simpatia. – Ó Simpatia, és mesmo instruída e podes citar os ramos de saber nos quais te destacas? - Meu amo, estudei a sintaxe, a poesia, o direito, a música, a astronomia, a aritmética, a jurisprudência. Conheço de cor o Livro Sublime. Sei o número de suras, versículos, vocábulos, letras de que se compõe. Conheço as leis e o dogma. Conheço a lógica, a arquitectura, a filosofa. Sei compor poemas. Além disso, sei cantar, dançar e toco o alaúde e a flauta. Quando , vestida e perfumada, caminho balançando os quadris, posso matar. Quando toco em alguém dou-lhe a vida, e quando me afasto dele dou-lhe a morte. O califa ficou assombrado e disse a Abu-Husn: "Vou mandar os mestres da ciência porem à prova tua escrava. Se ela vencer, não apenas te darei 10 mil dinares como te cumularei de honrarias. Se ela fracassar, continuará a ser tua." O califa mandou reunir os maiores sábios, poetas, gramáticos, médicos, astrónomos, filósofos, jurisconsultos e teólogos. À ordem do califa, sentaram-se todos em uma roda, enquanto Simpatia pôs-se no meio deles, sorridente e com o rosto coberto com um véu transparente. Dirigindo-se à assembleia, declarou Harun Ar-Rachid: "Fiz-vos comparecer aqui, ó sumidades, para que examineis esta adolescente quanto à variedade e profundidade de seus conhecimentos. Não vos acanheis em exibir vossa própria A capacidade e erudição." Todos os presentes inclinaram-se e , pondo as mãos sobre os olhos e as frontes, responderam: "Obediência a Alá e a vós, ó Comandante dos Fiéis." As perguntas mais diversas choveram sobre Simpatia. A todos respondeu com infalível segurança e exactidão. Eis algumas das perguntas e respostas mais notáveis: - Quais são as principais obrigações de nossa religião? - As obrigações indispensáveis de nossa religião são cinco:a profissão de fé ("Não há Deus senão Alá, e Maomé"é o mensageiro de Alá"), as orações, a caridade, o jejum de Ramadã e a peregrinação a Meca. - Quais os actos de fé mais meritórios? - São seis: recitar as orações, distribuir esmolas, jejuar, visitar Meca, combater os maus instintos e participar da guerra santa. - O que é guerra santa? - É a guerra sustentada contra os descrentes quando o islã está em perigo. Só pode ser uma guerra defensiva. Armado, o crente deve andar para a frente e nunca recuar. - Qual é o fruto ou a utilidade das orações? - A verdadeira oração não tem utilidade terrena. Deve ser considerada apenas como um laço espiritual entre a criatura e seu Criador. E susceptível de produzir dez resultados imateriais: ilumina o coração, alegra o compassivo, irrita o demónio, atrai a piedade, expulsa o mal, preserva da aflição, protege contra os inimigos, fortalece o espírito vacilante e aproxima o escravo de seu Mestre e Senhor. - Fala-nos do jejum. - O jejum consiste em abster-se de comer, beber e ter relações sexuais todos os dias do mês de Ramadã, do levantar ao pôr-do sol. É bom também evitar toda conversa fútil e ler exclusivamente o Alcorão. - Qual é o valor do quinhão do pobre que todo crente deve pagar? - Se o crente possui até vinte dirhams de ouro, nada deve. Acima dessa importância, a proporção devida é de três por cento. Assim, um carneiro é pago a cada cinco camelos, um camelo a cada vinte e cinco camelos, e assim por diante. -Podes dizer-nos o que é uma coisa, a metade de uma coisa e menos que uma coisa. -O crente é uma coisa; o hipócrita é a metade de uma coisa e o descrente é menos que uma coisa. - Podes contar-nos em que versículo o Profeta julga os descrentes? - No versículo que proclama: "Os judeus dizem que os cristãos estão no erro; e os cristãos dizem que os judeus estão no erro. Neste ponto, ambos estão certos." - Qual é a causa de todas as doenças? - Nossos erros e excessos alimentares: comer antes que a refeição anterior tenha sido digerida; comer sem ter fome. A gula é causa da maioria das doenças que afligem a humanidade. - Dá-nos uma clara definição da cópula. -A cópula é o ato que une os sexos do homem e da mulher. É um ato benéfico: revigora o corpo e eleva a alma. Afasta a melancolia; acalma o fogo da paixão, promove o amor, satisfaz o coração, consola da ausência do amado e cura a insónia. - Podes dizer-nos que coisa vive sempre na prisão e morre quando respira o ar? - É o peixe. - Explica o seguinte: ` arrasto longas caudas atrás de mim tenho um olho, mas não me é dado ver; faço vestidos que não me é dado usar." - É a agulha. Um astrónomo perguntou-lhe: "Achas que choverá este mês?" Respondeu, dirigindo-se a Harun Ar-Rachid: "Ó Príncipe dos Crentes, peço-vos emprestar-me vossa espada por um momento para que corte a cabeça deste agnóstico sem fé." Ouvindo essas palavras, o califa e todos os sábios deram gargalhadas. E Simpatia prosseguiu: "Deverei ensinar-te, ó astrônomo, que há cinco coisas que somente Alá conhece: a hora da morte, o sexo do feto no útero materno, quando choverá, o que acontecerá amanhã e onde morreremos." Naquela altura, o sábio Ibrahim Ibn Sirah levantou a mão direita e testemunhou publicamente que a escrava Simpatia o ultrapassava em conhecimentos e sabedoria e era a maravilha dos tempos. O califa levantou-se por sua vez e disse: "Possa Alá aumentar ainda mais tuas qualidades, ó Simpatia, e abençoar os que te trouxeram para este mundo e os que te ensinaram." E mandou entregar a Abu-Husn 10 mil dinares de ouro, colocados em cem sacos. Depois virou-se novamente para Simpatia e perguntou-lhe: "Dize-me, ó adolescente maravilhosa , preferes entrar no meu harém e ter um palácio e uma comitiva próprias, ou voltar para a casa deste moço?" Simpatia beijou a terra entre as mãos do califa e respondeu: "Possa Alá continuar a abençoar o soberano do mundo. Vossa escrava prefere voltar para a casa de quem a trouxe para cá." Em vez de sentir-se ofendido, o califa presenteou Simpatia com 5 mil dinares de ouro, dizendo-lhe: "Possas ser tão destra no amor quanto o és na dialética." E todos saíram felizes, abençoando o saber de Simpatia e a generosidade de Harun Ar-Rachid.





02/06/2008

A luta de sabres

Essa história transcorre no século 17, no Japão, durante um período de fome.
Um camponês não tinha com o que alimentar sua família e se recorda do costume que promete forte recompensa àquele que seja capaz de desafiar e vencer o mestre de uma escola de sabre.
Ainda que nunca houvesse tocado numa arma em sua vida, o camponês desafia o mestre mais famoso da região. No dia fixado, diante de público numeroso, os dois homens se enfrenta. O camponês, sem se mostrar impressionado pela reputação do adversário, o espera com firmeza, enquanto o mestre de sabre estava um pouco perturbado por tal determinação. Quem será este homem?, pensa. Jamais nenhum vilão teria coragem de me desafiar. Não será uma armadilha de meus inimigos?
O camponês, acuado pela fome, se adianta resolutamente até seu rival. O mestre vacila, desconsertado pela total ausência de técnica de seu adversário. Finalmente, retrocede movido pelo medo. Antes do primeiro assalto, o mestre sente que será vencido. Baixa seu sabre e diz:
- Você é o vencedor. Pela primeira vez na vida seria abatido. Entre todas as escolas de sabre, a minha é a mais renomada. É conhecida com o nome de "A que num só gesto dá dez mil golpes". Posso perguntar-lhe, respeitosamente, o nome de sua escola?
- A escola da fome. - responde o camponês.

Conto Japonês


30/05/2008

Um desafio em corrida entre o cágado e o bambi

Certo dia, o cágado e o bambi discutiam sobre qual dos dois seria o melhor corredor. Então, o cágado propôs um desafio ao amigo bambi: fariam uma corrida, marcando o seu itinerário desde o ponto de partida até o ponto de chegada. Começariam juntos e veriam quem era capaz de chegar primeiro. O bambi, após aceitar o desafio foi dormir. O cágado, ao contrário, foi ter com seus iguais, os demais cágados. Combinou com eles que cada um se colocaria em um ponto do trajeto a espera do bambi. No outro dia, o bambi atrasou-se, mas o cágado já estava a sua espera. Na largada, o bambi saiu em vantagem, correndo em desabalada carreira. Em determinado ponto da estrada, parou e olhou para trás a fim de ver se enxergava o companheiro. Porém, um dos cágados que o aguardavam na estrada passou a sua frente, dizendo que, enquanto ele olhava para trás, ele, o cágado já havia passado havia muito tempo. Isso se repetiu várias vezes durante o trajeto, até que, extenuado, o bambi reconheceu que o cágado corria mais que ele, ao que este respondeu: — Amigo, já sou velho, tenho a escola toda!


Conto de Angola




28/05/2008

O Traidor Castigado


Na história intitulada Ala Eddim Abu- Chamat, deixamos Abu-Chamat superintendente do palácio de Harun Ar-Rachid, rico e coberto de honrarias, vivendo feliz com suas duas mulheres, Zubaida e Yasmina. Ora, quando, por convite do califa, Abu-Chamat tinha ido ao mercado de escravos com o vizir Jafar escolher sua segunda esposa, Yasmina, teve que vencer a concorrência contra o uáli da cidade, o emir Khaled, que queria comprar uma escrava para seu filho Bazaza. Esse filho, que acabara de chegar à puberdade, era tão feio que sua vista bastava para fazer uma mulher grávida abortar. Era estrábico, e tinha a boca tão grande quanto a vagina de uma vaca. Seu pai ó levara com ele ao mercado para que escolhesse ele mesmo sua companheira. O destino, que repousa entre as mãos de Alá, quis que os quatro interessados se encontrassem diante do mesmo leiloeiro. As moças oferecidas à venda eram de diversas cores, brancas, morenas, pretas, e de diversas raças, gregas, chinesas, abissínias, persas. Por uma coincidência curiosa, Abu-Chamat e Bazaza escolheram a mesma candidata e insistiram nela; e quando Abu-Chamat ganhou a concorrência, Bazaza entrou em desespero, recusou qualquer outra candidata e, de volta para casa, absteve-se de comer e beber. Recolheu-se a sua cama, dizendo que queria morrer. Sua mãe concebeu um ódio mortal contra Abu-Chamat e, para vingar-se dele, recorreu a uma mulher cujo filho era um ladrão famoso, chamado Ahmed Danaf. Esse Ahmed Danaf era tão hábil que conseguia roubar uma porta na presença do porteiro e fazê-la desaparecer tão sutilmente como se a tivesse engolido.Podia tirar o kohl dos olhos de uma mulher enquanto ela elogiava-lhe a honestidade. Meu filho está na cadeia com as mãos atadas, informou a mãe de Ahmed Danaf à mãe de Bazaza. Mas, se conseguires retirá-lo de lá, será com certeza a única pessoa capaz de servir-te neste assunto. A mãe de Bazaza recorreu ao marido, e este foi à cadeia onde
Ahmed Danaf estava preso e perguntou-lhe: "Ó Ahmed, tu te arrependes de teus crimes?" "Arrependo-me deles amargamente", respondeu o criminoso.
O uáli levou-o então à presença do califa, solicitando clemência ara ele. Surpreso de ver Ahmed Danaf ainda vivo, o califa gritou: "Ainda não morreste, ó ladrão Respondeu Ahmed: "Por Alá, ó Príncipe dos Crentes, nós os malandros custamos a morrer." O califa gostou da piada e mandou vir um ferreiro para remover as cadeias do prisioneiro. Depois, disse-lhe: "Conheço tuas façanhas e, como desejo manter-te no caminho da retidão, designo-te chefe da polícia, já que ninguém conhece melhor que tu os ladrões de Bagdá." Ahmed Danaf beijou a terra entre as mãos do califa e prometeu comportar-se com a máxima retidão. Depois, foi à taverna de Ibrahim celebrar seu novo título. Sua mãe encontrou-o lá, explicou-lhe a quem devia a sua libertação e acrescentou: "Deves, em retribuição, idealizar um meio de roubar a escrava
de Abu-Chamat." Ahmed assegurou-lhe que a coisa era simples e seria feita naquele mesmo dia. Ora, aquela era a primeira noite do mês, que o califa costumava passar com sua mulher predileta Zubaida. Antes de penetrar nos seus aposentos, sempre deixava sobre uma mesa no vestíbulo seu rosário de âmbar e turquesa, o sabre com punho de jade, incrustado de rubis, o lacre real e uma pequena lâmpada de ouro. Ahmed Danaf sabia desses detalhes. Esperou até que os escravos fossem dormir, escalou a parede do pavilhão da rainha e entrou no vestíbulo tão silenciosamente quanto uma sombra, levou os objetos e desceu com igual leveza. Correu até a casa de Abu-Chamat, entrou no pátio, levantou uma das placas de mármore que formavam o pavimento e escondeu lá três dos quatros objetos roubados, ficando com a lâmpada de ouro a título de recompensa. Removeu todo e qualquer vestígio de sua visita e voltou à taverna de Ibrahim para continuar a celebração. Ilimitada foi a cólera do califa quando não encontrou pela manhã nenhum de seus objetos pessoais. Chamou o chefe da polícia e disse-Ihe: "Se estes objetos que me são mais caros que todo o meu reino não forem recuperados até o fim do dia, tua cabeça e a de teu protetor o uáli irão enfeitar as paredes de meu palácio." Ahmed respondeu: "Comandante dos Fiéis, o ladrão será descoberto. Só preciso de um firma que me permita penetrar nas casas de todas as pessoas que têm função no palácio, inclusive o cádi, o vizir, Abu-Chamat e todos os outros." O califa deu-lhe o firma, dizendo: "Juro pela sepultura de meus antepassados que mandarei o autor dessa ignomínia à forca, fosse meu próprio filho." Munido da autorização, Ahmed levou dois dos guardas do cádi e dois dos guardas do uáli e foi fazer investigações. Visitou as casas de Jafar, do uáli, do cádi e finalmente a de Abu-Chamat. Chegando lá, disse a Abu-Chamat: "Não procurarei aqui nem em sonho pelos objetos roubados, sabendo que és o confidente favorito e fiel do califa. Basta que assines este papel e já me retirarei.” -Ao contrário, protestou Abu-Chamat, exijo que faças tuas investigações aqui como nos outros lugares. Resmungando que era apenas formalidade, Ahmed Danaf saiu negligentemente para o pátio e começou a bater nas placas de mármore com sua vara de latão. Quando bateu na placa que
conhecemos, ouviu-se um som diferente, e Ahmed exclamou: "Por Alá, deve haver alguma velha galeria por aqui. Não me surpreenderia descobrir nela algum tesouro antigo." Abu-Chamat disse aos guardas: "Levantai a placa." Levantaram a placa e lá estavam o rosário, a espada e o selo do califa. "Por Alá!" gritou Abu-Chamat e desmaiou, enquanto Ahmed mandava vir o uáli, o cádi e testemunhas - os quais redigiram e assinaram um relatório sobre o acontecido. Quando o califa foi informado da traição de seu melhor amigo, estabelecida por provas irrefutáveis, permaneceu taciturno e sombrio durante uma hora;
depois, disse: "Que seja enforcado." O capitão dos guardas foi então à casa de Abu-Chamat e confiscou seus bens e suas duas mulheres. O pai de Bazaza apoderou-se de Yasmina para seu filho, como era seu direito; e o capitão deu asilo a Zubaida pra protegê-la. Pois esse capitão gostava de Abu-Chamat como de um filho, e não acreditou em sua culpa. "Um dia, pensou, esse mistério será desvendado. Até lá, tenho que salvar a vida de meu amigo." Foi à cadeia, escolheu um condenado parecido com AbuChamat, tirou secretamente Abu-Chamat de sua cela e, na hora do enforcamento, substituiu-o pelo outro condenado. Depois, conseguiu esconder Abu-Chamat num saco e levá-lo até seu país, o Egito, pensando que um dia
o verdadeiro criminoso seria desmascarado e Abu-Chamat voltaria para Bagdá. Já dissemos que a
segunda mulher de Abu-Chamat, Yasmina, fora tomada pelo emir Khaled para satisfazer a paixão que seu filho sentia por ela. Quando Bazaza viu-a, relinchou como um cavalo e quis trepar nela. Mas a linda moça, sentindo um nojo incontrolável pelo garoto meio idiota e meio disforme, tirou um punhal escondido na roupa e disse-lhe: "Não me toques, senão mato-te e me mato em seguida." A mãe de Bazaza acorreu cheia de raiva. "Como ousas resistir ao desejo de meu filho, insolente mercadoria?
-Ó gente sem lei, retrucou a moça. Como pode uma mulher pertencer a dois homens ao mesmo tempo? Como pode um cachorro pastar na reserva do leão? Para castigar tamanha insubordinação, a mulher do uáli vestiu a bela Yasmina de empregada doméstica e disse-lhe: "Teu trabalho será descascar cebolas, acender o fogo, espremer tomates e preparar massa. E morarás com os escravos." - Prefiro tudo isso a olhar para teu filho, redargüiu a moça. Bazaza estava ouvindo. Voltou para a cama e não se levantou
mais. Poucos meses depois, Yasmina deu à luz um lindo menino, que havia concebido na primeira noite que passara com AbuChamat. Chamou-o Aslan, e ele cresceu na casa do uáli como se fosse seu filho.
E os anos foram passando. Um dia, quando Aslan já era um belo e atlético adolescente o destino quis que ele e Ahmed Danaf se encontrassem perto da taverna de Ibrahim. Ahmed convidou o jovem para beber
com ele. Sentaram-se a conversar e beber. O chefe da polícia ficou bêbado. Tirou uma pequena lâmpada de ouro do bolso e acendeu-a para melhor distinguir uma moeda. Ao ver a lâmpada, Aslan gritou: "Que lâmpada linda! Nunca vi coisa igual. Por favor, faça-me presente dela." - Como posso dar-te uma coisa que custou tantas vidas? Meu caro garoto, esta lâmpada matou um certo egípcio chamado Abu-Chamat, que era uma personalidade importante no palácio real. Aslan perguntou-Ihe como isso acontecera. E Ahmed contou-lhe toda a história, gloriando-se, na sua embriaguez, de ter agido com tamanha engenhosi-
dade.De volta para casa, o garoto repetiu à mãe a história de Ahmed e ficou atônito quando, ao ouvir a história, a mãe desmaiou. Quando voltou a si, Yasmina apertou o filho contra o peito e disse-lhe: "Filho querido, Alá revelou finalmente a verdade. O emir Khaled é teu pai adotivo. Teu verdadeiro pai era meu marido Abu-Chamat, que foi condenado no lugar do ladrão. Procura já o capitão dos guardas, que era o melhor amigo de teu pai, e relata-lhe o que descobriste. E jura-lhe que queres vingar teu pai."
Quando o capitão dos guardas ouviu a história, regozijou-se excessivamente e disse a Aslan: "Confia em Alá: ele te vingará." Eram palavras proféticas. O dia seguinte era o dia em que o califa jogava pólo com um grupo de jovens de que Aslan fazia parte. Um dos jogadores lançou a bola na direção do califa com
tanta força que lhe teria estourado um dos olhos, não fosse a velocidade e destreza com que Aslan desviou-a a um metro da cabeça do califa. O califa sorriu para o jovem, dizendo: "Ó belo atirador, ó filho
de Khaled." Com isso, pôs fim ao jogo e mandou reunir os notáveis da corte e, chamando Aslan, disse-lhe: "Ó descendente valoroso do uáli de Bagdá, desejo que escolhas tua própria recompensa.O garoto beijou a terra entre as mãos do califa e respondeu: "Peço vingança, ó Comandante dos Fiéis. O sangue de meu pai clama debaixo da terra, e seu assassino continua vivo e impune." O califa estranhou essas palavras: "O que é isto que estás dizendo de teu pai? Teu pai está aqui ao meu lado com excelente
saúde, graças a Alá." - Ó Comandante dos Fiéis, o emir Khaled é o melhor pai adotivo que qualquer menino possa ter. Meu pai verdadeiro é Abu-Chamat, que era superintendente do palácio real. Os olhos do califa se escureceram: "Meu filho, não sabes que teu pai traiu seu sultão?" - Alá preserve a memória de meu pai de tal vergonha, exclamou Aslan. O traidor de Vossa Majestade encontra-se ao vosso lado esquerdo, ó Príncipe dos Crentes: é Ahmed Danaf. Mandai que Ihe façam uma busca, pois ele leva no bolso a prova de sua infâmia. O califa tornou-se tão amarelo quanto o açafrão e gritou, numa voz terrível, ao chefe da guarda: "Faze a busca na minha presença." A lâmpada de ouro do califa foi encontrada nos
bolsos de Ahmed. - Donde te veio esta lâmpada? gritou Harun Ar-Rachid. - Comprei-a, ó Comandante dos Fiéis. - De quem? Ahmed não soube responder. O califa mandou torturá-lo. E ele logo confessou toda a verdade. Foi enforcado na hora. Quando tinha sido feita justiça, o califa pediu novamente a
Aslan para escolher a própria recompensa. Aslan disse: "Ó Príncipe dos Crentes, peço-vos que me devolvais meu pai." Harun Ar-Rachid chorou: "Meu filho, como posso devolver alguém que já está na eternidade?" A essas palavras, o capitão da guarda adiantou-se e disse: "Ó Comandante dos Fiéis, concedei-me segurança para que fale." - Fala. - Trago-vos boas notícias, ó Comandante dos Fiéis. Abu-
Chamat, vosso fiel amigo e servidor, está vivo. E ele contou como lhe havia salvo a vida, certo como estava de que sua inocência seria comprovada um dia. Harun ArRachid ficou radiante porque nunca deixara de pensar em Abu-Chamat e de amá-lo. Gritou: "Vai logo buscá-lo onde estiver e traze-o à minha presença." O califa recebeu Abu-Chamat com grande emoção e festejou esplendidamente o seu regresso.
Abu-Chamat agradeceu a Alá seus favores e regozijou-se por ter um filho tão bonito. Viveu em Bagdá muitos anos com três esposas: Zubaida, Yasmina e a princesa Miriam que conhecera no exílio.





27/05/2008

O Rei Vai Nu

Era uma vez um rei muito vaidoso e que gostava de andar muito bem arranjado. Um dia, vieram ter com ele dois aldabrões que lhe falaram assim:

- Majestade, sabemos que gosta de andar sempre muito bem vestido - bem vestido como ninguém; e bem o mereceis! Descobrimos um tecido muito belo e de tal qualidade que os tolos não são capazes de o ver. Com um fato assim Vossa Majestade poderá distinguir as pessoas inteligentes dos tolos, parvos e estúpidos que não servirão para a vossa corte.
- Oh! Mas é uma descoberta espantosa! - respondeu o rei. Tragam já esse tecido e façam-me o fato; quero ver as qualidades das pessoas que tenho ao meu serviço.
Os dois aldrabões tiraram as medidas e, daí a umas semanas, apresentaram-se ao rei dizendo:
- Aqui está o fato de Vossa Majestade.
O rei não via nada, mas como não queria passar por parvo, respondeu:
- Oh! Como é belo!
Então os dois aldrabões fizeram de conta qua estavam a vestir o fato, com todos os gestos necessários e gestos necessários e exclamações elogiosas:
- Ficais tão elegante! Todos vos invejarão!
A notícia correu toda a cidade: o rei tinha um fato que só os inteligentes eram capazes de ver. Um dia o rei resolveu sair para se mostrar ao povo. Toda a gente admirava a vestimenta, porque ninguém queria passar por estúpido, até que, a certa altura, uma criança, em toda a sua inocência, gritou:
- Olha, olha! O rei vai nu!
Foi um espanto! Gargalhada geral. Só então o rei compreendeu que fora enganado; envergonhado e arrependido da sua vaidade, correu a esconder-se no palácio.


O Semeador

Voltou Jesus a ensinar à beira mar. E reuniu-se numerosa multidão a ele, de modo que entrou num barco onde se assentou, afastando-se da praia. E todo o povo estava à beira-mar, na praia. Assim lhes ensinava muitas coisas por parábolas, no decorrer do seu doutrinamento.
Ouvi: Eis que saiu o semeador a semear.
E, ao semear, uma parte caiu à beira do caminho, e vieram as aves e a comeram.
Outra caiu em solo rochoso, onde a terra era pouca, e logo nasceu, visto não ser profunda a terra.
Saindo, porém, o sol a queimou, e, porque não tinha raiz, secou-se.
Outra parte caiu entre os espinhos; e os espinhos cresceram e a sufocaram, e não deu fruto.
Outra, enfim, caiu em boa terra e deu fruto que vingou e cresceu, produzindo a trinta a sessenta e a cem por um.
E acrescentou: Quem tem ouvidos para ouvir, ouça.


Parábolas de Jesus
Evangelho de Marcos cap.4 vers. 2-20






24/05/2008

O homem que foi mordido por um cão

Certo dia, um homem foi mordido por um cão. Muito aflito, correu à procura de alguém que o tratasse.
Encontrou um amigo que lhe deu o seguinte conselho:
- Molha um pouco de pão no sangue da tua ferida e dá-o ao cão que te mordeu. É remédio santo. Verás que te curas num instante.
O homem que tinha sido mordido riu-se deste tratamento e respondeu:
- Se fizesse o que me dizes, estaria a convidar todos os cães da aldeia a morderem-me!


Moral da história:
Não recompenses quem procedeu mal, pois, assim, incitas a que faça ainda pior.

O leão e o mosquito


"Vai-te, excremento do Orbe, vil insecto!"
(Ao mosquito dizia o leão um dia)
Quando, clamando guerra,
Respondia o mosquito:

— Cuidas que tenho susto, ou faço caso,
De que rei te intitules? Mais potente
É um rei, que tu não és, e eu dou-lhe o amanho,
Que me dá na vontade. — Assim falando.

Trombeta de si mesmo, e seu herói,
Toca a investir, e pondo-se de largo,
Lança as linhas, e atira-se ao pescoço
Do leão, que enlouquece,
Que escuma, e que nos olhos relampeja:
Ruge horrendo, e pavor em roda infunde
Tão rijo, que estremece, e que se esconde
Toda a gente. — E era obra dum mosquito
Tão insólito susto:
Atormenta-o essa esquírola de mosca,
Que ora helfas lhe pica, ora o costado,
Ora lhe entra nas ventas. —
Então lhe sobe ao galarim a sanha,
Então triunfa, e ri do seu contrário.
O invencível, de ver no irado busto,
Que dentes, garras, em lavá-lo em sangue
Seu dever desempenham.
O costado do leão se esfola, e rasga,
Dá num, dá noutro quadril com a cauda estalos.
Fere a mais não poder, com o açoite os ares. —
Desse extremo furor, que o cansa, e quebra.
Fica prostrado e torvo. —
Eis que o mosquito ali blasona ovante;
Qual a investir tocou, vitórias toca,
Pelo Orbe as assoalha,
Pavoneando gira. — Mas no giro
Certa aranha, que estava de emboscada,
De sobressalto o colhe,
E lhe chupa a ufania.
Doutrinas serviçais há nesta fábula.
Eis uma: Que o que mais entre inimigos
Devemos de temer, são muitas vezes
Os mais pequenos deles.
Outra é: Que alguém escapa aos perigos,
Que em menor lance acaba.

Filinto Elísio (Trad.)