03/07/2008

As Viagens de Sinbad O Marinheiro


Embora talvez não tivesse saído de sua casa, ou nem sequer existisse, Sinbad o Marinheiro é o mais célebre dos viajantes - é mais celebre que Cabral, Cristóvão Colombo, Fernão de Magalhães, Vasco da Gama, mais que os descobridores dos pólos e os escaladores do Himalaia. Suas viagens nas Mil e uma noites fazem a delícia de crianças e adultos. Ele mesmo as conta. Começa assim: "Deveis saber que meu pai era um grande mercador. Dava generosamente aos necessitados e, quando morreu, legou-me uma fortuna considerável em espécie, terras e aldeias. "Comecei logo a gastar com imoderação, pensando que meus bens eram inesgotáveis, até que, um dia, acordei um homem pobre. Lembrei-me então das palavras sábias de meu pai: `O túmulo é mais confortável que a pobreza.' "Preferindo a aventura à mendicância, como diz o provérbio , vendi o pouco que me restava, conseguindo juntar assim 3 mil dracmas, comprei com esta soma mercadorias variadas, entrei num navio com outros mercadores e fui de terra em terra e de ilha em ilha, vendendo e comprando, tentando assim recuperar minha fortuna." Não sabia Sinbad o Marinheiro o que o esperava ao iniciar essa aventura. Fez ao todo sete viagens, cada uma delas mais cheia de episódios extraordinários que as outras. As duas viagens mais repletas de maravilhas são a terceira e a quarta, que damos adiante na íntegra. Mas há também acontecimentos que desatam a imaginação em três outras. Ei-los: "Um dia," conta Sinbad em sua primeira viagem, "após navegarmos semanas sem avistar terra, chegamos a uma ilha verdejante que. parecia o Jardim do Éden. O capitão mandou lançar a âncora e deixou-nos desembarcar. "Fomos todos à terra, levando mantimentos e utensílios de cozinha. Alguns acenderam fogo e começaram a preparar com ida e lavar roupa. Outros satisfaziam-se, como eu próprio, em passear naquele paraíso terrestre. "Estávamos assim absorvidos em nossas tarefas e prazeres quando, de repente, a ilha estremeceu com tamanha violência que fomos jogados ao chão. Enquanto permanecíamos deitados, tontos de espanto, vimos o capitão chamar-nos com gestos desesperados e voz angustiante: `Salvai-vos, passageiros! Largai tudo e vinde depressa a bordo! Isto não é uma ilha. É uma baleia gigante! Vive neste mar há gerações, e as árvores desceram na areia do mar amontoada no seu lombo. Vós a despertastes com vossas fogueiras. Agora está se movendo. Fugi antes que ela mergulhe no mar e vos afogue. Apressai-vos! O navio está se afastando!' "Os passageiros abandonaram roupa, mantimentos e utensílios e correram para o navio. Alguns o alcançaram. Outros ficaram em cima da baleia e morreram quando ela mergulhou no mar. "Eu tinha ficado em cima da baleia; mas Alá me socorreu pondo a meu alcance uma tábua de salvação. Agarrando-me a ela, e fazendo esforços extenuantes com pés e braços, cheguei a uma pequena ilha vizinha..." Na segunda viagem, o navio que levava Sinbad ancorou numa ilha. O clima e o tempo eram tão agradáveis que Sinbad dormiu debaixo de uma árvore. "Quando acordei, não vi nenhum dos meus companheiros e descobri que o navio tinha ido embora sem que ninguém notasse minha ausência. "Dando-me conta de que meus lamentos de nada adiantariam, trepei numa árvore para evitar encontros fatais com algum animal feroz ou algum inimigo. Olhando em todas as direcções, avistei ao longe algo redondo, enorme e branco. Desci e fui até lá, e vi que se tratava de uma cúpula desmedida. Andei em volta dela, mas não encontrei nenhuma porta de entrada."Enquanto reflectia no que poderia fazer para penetrar e me refugiar nela, notei que o dia se transformava rapidamente em noite escura. Supus que fosse uma nuvem espessa a obscurecer o sol, embora achasse o fenómeno impossível em pleno verão. Ergui, pois, a cabeça para verificar e vi uma ave de tamanho e asas colossais que ocultava o sol. "Não conseguia acreditar no que via até que me lembrei de que viajantes e marujos me haviam falado de um pássaro de dimensões terrificantes chamado abutre que vivia numa ilha distante e era capaz de levantar um elefante. Concluí que aquela ave era o abutre e que a cúpula branca e lisa nada mais era que um de seus ovos. "Fiquei certo de minhas conclusões quando vi a ave descer a terra e cobrir o ovo para chocá-lo. Nesta posição, ela deixou as duas patas pendentes de cada lado do ovo, e adormeceu. "Vista de perto, cada uma das patas parecia maior que o tronco de uma velha árvore. Veio-me então a ideia da salvação. Desfiz o tecido que envolvia meu turbante, torci-o numa corda sólida que enrolei em volta da cintura e amarrei numa das unhas da ave. Pois, pensei, este abutre acabará por voar, e depois pousará em algum lugar mais próximo dos homens que esta ilha isolada. Levantar-me-á com ele e me depositará onde pousar." Foi assim que Sinbad o Marinheiro se salvou mais uma vez. Um dia, Sinbad decidiu não mais viajar. "Devo contar-vos, meus amigos, que após voltar da sexta viagem, afastei da mente toda ideia de enfrentar outra vez o desconhecido e quis, antes, gozar preguiçosamente a vida. Mas meu destino me perseguiu. O califa arun Ar-Rachid quis que eu levasse uma carta sua e presentes ao rei de Sarandib. Vi-me, pois, obrigado a partir. Embarquei em Basra. “O vento favoreceu-nos e, após dois meses, chegamos em Sarandib”.
Entreguei a carta e os presentes do califa e, desculpando-me junto ao rei por não poder demorar em sua Terra, reembarquei num navio que vinha para Basra. "O vento continuou a favorecer-nos por algum tempo; mas, um dia, quando estávamos a uma semana da ilha de Sin, irrompeu um vendaval terrível. E uma chuva torrencial nos inundou. O capitão subiu ao alto do mastro, de onde examinou o horizonte. Quando desceu, estava lívido. Puxou a barba, bateu com os punhos no rosto e disse em tom de desespero: `A corrente nos desviou de nossa rota, atirando-nos aos confins dos mares do mundo. Chorai e dizei adeus à vida. Estamos todos perdidos.' "Tirou então um livro escondido no peito e folheou-o atentamente; depois, virando-se para nós, declarou: `Meu livro mágico confirma meus piores temores. A terra que vedes ao longe é a Região dos Reis, onde nosso senhor Soleiman Ibn Daud está sepultado.
Monstros marinhos pululam nessas costas, e o mar está cheio de peixes gigantes que podem engolir de uma vez um navio inteiro. Agora sabeis o pior. Adeus!' "Ficamos gelados pelo medo e o horror. De repente, o navio foi levantado e depois depositado entre as ondas, enquanto um bramido mais terrível que o trovão chegava do mar. Os ventos e as ondas remoinhavam a nosso redor, e vimos um monstro marinho do tamanho de uma montanha avançar para nós, seguido por outro monstro ainda maior e por um terceiro monstro igual aos dois primeiros juntos. "Este último, abrindo uma goela do tamanho de um vale entre duas colinas, tragou três quartos de nossa embarcação, com tudo que ela continha. Tive apenas tempo de recuar até o alto do convés e saltar às águas antes que o monstro engolisse todo o navio e sumisse nas profundezas do mar, com seus dois companheiros." Mas uma vez, superando os perigos graças a sua sorte e engenhosidade, Sinbad voltou para Bagdad, são, salvo e rico. Entre outras curiosidades que contou, disse que havia escalado uma montanha tão alta que chegou a ouvir os anjos cantarem louvores ao Senhor dos Mundos. Desta vez, era mesmo a última viagem. Viveu na felicidade em Bagdad até que foi visitado por aquela que interrompe as alegrias, quebra as amizades, destrói os palácios e edifica os túmulos: a amarga morte. Gloria Àquele que vive para sempre!






A gata metamorfoseada em mulher


A uma gata que tinha, um tal pascácio
Com paixão adorava.
Era tão meiga, delicada e bela!
E tão doce miava!

Doido, mais doido que os que estão no hospício,
O nosso namorado,
Com preces, choro, encantos, sortilégios,
Logrou dobrar o fado.

Numa bela manhã nossa gatinha
Em mulher se mudou;
E o seu adorador, no mesmo dia,
Por esposa a tomou.

Doido de amor, qual fora de amizade,
O hipocôndrico esposo
julga a mulher — das perfeições da Terra
Santo ideal formoso.

Enche-a de adulações, cobre-se de mimos;
E nem longes sequer
Lhe vê de gata; ilude-se, julgando-a
Toda e em tudo mulher.

Uns ratinhos, porém, roendo a esteira,
Vieram perturbá-los.
Presto a moça levanta-se do leito;
Mas não pôde apanhá-los.

Tornam os ratos a arranhar a esteira;
E a noiva, de gatinhas,
Agarra, desta vez, os tais murganhos
Com dentes e mãozinhas.

Em forma de mulher os pobres ratos
Não na podem fugir,
É deles sorte à gata transformada
De incentivo servir.

Este caso o poder da natureza
Nos demonstra de sobra;
Passado certo tempo o vaso embebe,
O pano toma a dobra.

Em vão do sestro e propensão que a levam
Quereis desavezá-la;
Por mais que trabalheis, zomba de tudo;
Não podeis reformá-la.

Nem à força de rilha, ou de forcados,
Mudará de feição;
Nem lograreis o impulso dominar-lhe,
Empunhando um bastão.

Fechai-lhe a porta, como se expelísseis
Figadal inimigo;
Há de voltar a rápido galope
Ou forçar o postigo.

Barão de Paranapiacaba (Trad.)

30/06/2008

O simplório e o tratante




Certo sujeito simplório seguia por uma estrada, arrastando seu asno atrás de si pelo cabresto, quando um par de malandros o viu; e um disse ao outro: "Vou tomar o asno daquele camarada." Perguntou o outro: "Como irás fazê-lo?" "Segue-me e verás," respondeu o primeiro. O gatuno foi até junto do asno, desprendeu-o do cabresto e entregou-o ao companheiro. Depois passou o cabresto pelo seu próprio pescoço e seguiu o João Bobo até ver que o companheiro tinha sumido com o asno; então, parou. O idiota puxou o cabresto, mas o patife não se mexeu. O burriqueiro virou-se e, vendo o cabresto no pescoço de um homem, perguntou: "Quem és tu?" Respondeu o tratante: "Sou teu asno, e minha história é espantosa. Sabe que cu tenho uma velha mãezinha muito piedosa e, um dia, cheguei junto a ela muito embriagado. Ela me disse: "Ó meu filho, arrepende-te ante o Altíssimo por esses teus pecados." Mas eu tomei meu bordão e bati-lhe, e ela me amaldiçoou, e me transformou num asno e fez-me cair em tuas mãos. Contudo, hoje, minha mãe lembrou-se de mim e seu coração ansiou por mim; e ela me perdoou ante o Altíssimo, e o Senhor restituiu-me minha forma antiga entre os filhos de Adão." Gritou o bobo: "Não há Majestade e não há Poder senão em Alá, o Glorioso, o Omnipotente! Com Alá sobre ti, ó meu irmão, perdoa-me o que tenho feito contigo, montando em ti, e tudo o mais." Então, o simplório deixou o patife ir embora e voltou para casa, bêbado de pesar e inquieto, como se tivesse tomado vinho. Sua mulher perguntou-lhe: "Que te incomoda, e onde está o jumento?" "Não sabes o que era aquele jumento; mas eu te contarei," respondeu ele. Contou-lhe a história toda, e a mulher exclamou: "Ó, ai de nós, ai de nós pela punição que receberemos do Todo- Poderoso! Como pudemos usar um homem como uma besta de carga, durante todo esse tempo?" E deu esmolas, e fez penitência, e suplicou o perdão dos Céus. O homem ficou algum tempo em casa, ocioso e inútil, até que a mulher lhe disse: "Por quanto tempo vais ficar sentado em casa, sem fazer nada? Vai ao mercado, compra-nos outro asno e vai fazer teu trabalho com ele." Então, ele foi ao mercado, parou junto ao local de venda de asnos, e lá viu seu próprio animal exposto à venda. Aproximou-se dele e, encostando a boca ao seu ouvido, disse-lhe: "Pobre de ti, que nunca procedes bem. Com certeza andaste bebendo novamente e batendo em tua mãe. Mas, por Alá, nunca mais te comprarei." E deixou-o ali e foi-se embora.



A pomba e a formiga


Enquanto a sede uma pomba
Em clara fonte mitiga,
Vê por um triste desastre
Cair n'água uma formiga.

Naquele vasto oceano
A pobre luta e braceja,
E vir à margem da fonte
Inutilmente deseja.

A pomba, por ter dó dela,
N'água uma ervinha lança;
Neste vasto promontório
A triste salvar-se alcança.

Na terra a põe uma aragem;
E livre do precipício,
Acha logo ocasião
De pagar o benefício:

Que vê atrás de um valado,
já fazendo à pomba festa,
Um descalço caçador
Que dura farpa lhe assesta.

Supondo-a já na panela,
Diz: "Hei de te hoje cear!"
Mas nisto a formiga astuta
Lhe morde num calcanhar.

Sucumbe à dor, torce o corpo,
Erra o tiro, a pomba foge;
Diz-lhe a formiga: "Coitado!
Foi-se embora a ceia de hoje!"

De boca aberta ficando,
Conhece o pobre glutão
Que só devemos contar
Com o que temos na mão.

E posto enfim que haja ingratos,
Notar devemos também
Que as mais das vezes no mundo
Não se perde o fazer bem.

Curvo Semedo (Trad.)

29/06/2008

Lenda das Obras de Santa Engrácia

Diz a lenda que Simão Pires, um cristão-novo, cavalgava todos os dias até ao convento de Santa Clara para se encontrar às escondidas com Violante. A jovem tinha sido feita noviça à força porque o seu pai não estava de acordo com o amor de ambos.
Um dia, Simão pediu à sua amada para fugir com ele. No dia seguinte, Simão foi acordado pelos homens do rei que o vinham prender acusando-o do roubo das relíquias da igreja de Santa Engrácia, que ficava perto do convento. Para não prejudicar Violante, Simão não revelou a razão porque tinha sido visto no local. Apesar de invocar a sua inocência foi preso e condenado à morte na fogueira. A cerimónia da condenação tinha lugar junto da nova igreja de Santa Engrácia, cujas obras já tinham começado. Quando as labaredas envolveram o corpo de Simão, este gritou que era tão certo morrer inocente como as obras nunca mais acabarem.
Certo é que as obras da igreja iniciadas à época da execução de Simão pareciam nunca mais ter fim. De tal forma, que o povo se habituou a comparar tudo aquilo que parece não ter fim às obras de Santa Engrácia.


27/06/2008

Reginaldo

– «Reginaldo, Reginaldo,
Pajem del-rei tão querido,
Não sei porquê, Reginaldo
Te chamam o atrevido.»
– «Porque me atrevi, senhora,
A querer o defendido.»
– «Não foras tu tão covarde
Que já dormiras comigo.»
– «Senhora zombais de mim
Porque sou vosso cativo.»
– «Eu não no digo zombando,
Que deveras te lo digo.»
– «Pois quando o quereis, infanta,
Que vá pelo prometido?»
– «Entre las dez e las onze
que el rei não seja sentido.»

Inda não era sol posto,
Reginaldo adormecido:
As dez não eram bem dadas,
Reginaldo já erguido.
Calçou sapato de pano,
Que el rei não fosse ouvido,
Foi-se à câmara da infanta,
Deu-lhe um ai, deu-lhe um gemido.
«Quem suspira a essa porta,
Quem será o atrevido?
– «É Reginaldo, senhora
Que vem pelo prometido.»
– «Levantai-vos minhas aias,
Que assim Deus vos dê marido!
E ide abrir mansinho a porta
Que el-rei não seja sentido.»
Vela o pajem toda a noite...
Por manhã é adormecido;
Chamava o rei que chamava
Que lhe desse o seu vestido:

– «Reginaldo não responde,
alguma tem sucedido!
Ou está morto o meu pajem
Ou grande traição há sido.»
Responderam os vassalos
Que tudo tinham sentido:
– «Morto não é Reginaldo,
de sono estará perdido.»

Vestiu-se el-rei muito à pressa,
E leva um punhal consigo
Vai correndo sala e sala,
Abrindo porta e postigo,
Chega ao camarim da infanta,
Dormiam tão sossegados
Como mulher e marido.
De nada do que se passava
De nada davam sentido.
Acudiram os vassalos,
Que viram a el-rei perdido:
– «Nunca vossa majestade
Mate um homem adormecido.»
Tira el-rei seu punhal de oiro,
Deixa-o entre os dois metido,
O cabo para a princesa.
Para o Reginaldo o bico.
Ia-se a virar o pajem,
Sentiu-se cortar no fio:
– «Acorda já, bela infanta,
Triste sono tens dormido!
Olha o punhal de teu pai
Que entre nós está metido.»
– «Cala-te daí Reginaldo,
Não sejas tão dolorido;
Vai já deitar-se a seus pés,
Que el-rei é bom e sofrido.
Para o mal que temos feito
Não há senão um castigo;

Mas se el-rei mandar matar-me,
Eu hei-de morrer contigo.»
– «Donde vens, ó Reginaldo?»
– «Senhor, de caçar sou vindo.
– «Que é da caça que caçaste,
Reginaldo o atrevido?»
– «Senhor rei, da caça venho,
Mas não a trago comigo;
Que o trazer caça real
A vassalo é defendido.
Só vos trago uma cabeça,
A minha: dai-lhe o castigo.»
– «Tua sentença está dada,
Morrerás por atrevido.»
Vedes hora o bom do rei
Dando voltas ao sentido:
– «Se mato a bela infanta,
Fica o meu reino perdido...
Para matar Reginaldo,
Criei-o de pequenino...
Metê-lo-ei numa torre
Por princípio de castigo.»
– «Dizei-me vós, meus vassalos,
Pois tudo tendes ouvido,
Que mais justiça faremos
Deste pajem atrevido?»
Respondem os condes todos,
E muito bem respondido:
– «Pajem de rei que tal faz,
Tem a cabeça perdido.»

Já o metem numa torre,
Já o vão encarcerar.
Mas ano e dia é passado,
E a sentença por dar.

Veio a mãe de Reginaldo
O seu filho a visitar:
– «Filho, quando te pari
Com tanta dor e pesar,
Era um dia como este,
Teu pai estava a expirar.
Eu coas lágrimas nos olhos,
Filho, te estava a lavar;
Cabelos desta cabeça
Com eles te fui limpar.
E teu pai já na agonia,
Que me estava a encomendar:
Enquanto fosses pequeno
De bom ensino te dar,
E depois que fosses grande
A bom senhor te entregar.
Ai de mim, triste viúva,
Que te não soube criar!
A el-rei te dei por amo,
Que melhor não pude achar:
Tu vais dormir coa Infanta,
De teu senhor natural!
Perdeste a cabeça, filho,
Que el-rei ta manda cortar!...
Ai! meu filho, antes que morras,
Quero ouvir o teu cantar.»
– «Como hei-de eu cantar, mi madre
Se me sinto já finar?»
– «Canta, meu filhinho, canta,
Para haver minha benção,
Que me estou lembrando agora
De teu pai nesta prisão.
Canta-me o que ele cantava
Na noite de São João;
Que tantas vezes mo ouviste
Cantar co meu coração.»

– «Um dia antes do dia
Que é dia de São João,
Me encerraram nestas grades
Para fazer penação.
E aqui estou, pobre coitado,
Metido nesta prisão,
Que não sei quando o sol nasce,
Quando a lua faz serão.»

De suas varandas altas
El-rei estava a escutar;
Já se vai onde a Princesa,
Pela mão a foi buscar:
– «Anda ouvir, ó minha filha,
Este tão lindo cantar,
Que ou são os anjos no céu,
Ou as sereias no mar.»
– «Não são os anjos no céu,
nem as sereias no mar,
mas o triste sem ventura
a quem mandais degolar.»
– «Pois já revogo a sentença
E já o mando soltar;
Prende-o tu, Infanta, agora,
Pois contigo há-de casar.»

Romanceiro, Almeida Garrett




26/06/2008

Modo correcto


Um Monge de grande devoção e instruído, atravessava uma vez um rio em um barco quando ao passar ao lado de uma pequena ilhota, ouviu uma voz de um homem que muito torpemente tentava elevar suas preces. No interior do monge não pode mais que entristecer-se.
- Como era possível que alguém fora capaz de entoar tão mal aqueles mantras? Talvez aquele homem ignorava que os mantras deviam ser recitados com entonação adequada, com ritmo e musicalidade precisas, com pronuncia perfeita.
Decidiu então ser generoso e desviando-se de seu rumo aproximou-se a ilhota para instruir aquele homem sobre a importância da correcta execução dos mantras. Não era em vão que se considerava um frande especialista e aqueles mantras não tinham para ele qualquer segredo. Quando desembarcou a ilhota, pode ver um pobre homem de aspecto sossegado cantando alguns mantras um pouco sem acerto. O monge, com serena paciência, dedicou algumas horas a instruir minuciosamente a aquele indivíduo que a cada momento mostrava efusivas mostras de agradecimento a seu instrutor. Quando entendeu que por fim aquele sujeito poderia recitar os mantras com certa capacidade despediu-se dele, advertindo-lhe:
- E lembre-se meu bom amigo, é tal a potência de estes mantras que sua correcta pronuncia permite que um homem seja capaz de caminhar sobre as aguas.
Mas apenas havia percorrido alguns metros com seu barco, ouviu a voz daquele homem a recitar os mantras ainda pior que antes.
- Que horror. Há pessoas que são incapazes de aprender nada de nada, assim pensou o monge.
- Hey, monge - escutou atrás de si uma voz muito perto.
Ao voltar-se viu ao pobre homem que, caminhando sobre a as águas, aproximava-se de seu barco e perguntava:
- Nobre monge, já esqueci-me tua instruções sobre o modo correcto de recitar os mantras. Serias, tão amável de repeti-lo novamente?




Conto Indiano


21/06/2008

O Príncipe Sapo

Era uma vez um rei que não tinha filhos e tinha muita paixão por isso, e a mulher disse que Deus lhe desse um filho mesmo que fosse um sapo. Houve de ter um filhinho como um sapo; depois botaram as folhas a ver se havia quem o queria criar, mas ninguém se animava a vir. O rei, vendo que o sopito do filho não havia quem o queria criar, anunciou que, se houvesse alguma mulher que o quisesse criar, lho dava em casamento e lhe dava o reino. Nisto aí apareceu uma rapariga e disse: «Se Vossa Real Majestade me dá o filho, eu animo-me a vi-lo criar.» O rei disse que sim e a rapariga veio criar o sopito. Depois passou algum tempo e ele foi crescendo e ela lavava-o e esmerava-o como se ele fosse uma criança. Foi indo e ele tinha uns olhos muito bonitos e falava, e a rapariga dizia: «Os olhos dele e a fala não são de sapo.» Já estava grande, passaram-se anos e ela, uma noite, teve um sonho em que lhe diziam ao ouvido que o sapo era gente, mas pela grande heresia que a mãe disse que estava formado em sapo, que se o rei lho desse para ela casar com ele que casasse e quando fosse na primeira noite que se fosse deitar, que ele tinha sete peles e ela levasse sete saias e quando ele dissesse: «Tira uma saia», lhe dissesse ela: «Tira uma pele.» Assim foi e casou o sapo com a rapariga e na noite do casamento ele pediu-lhe que tirasse ela as saias e ela foi-lhe pedindo que tirasse as peles e depois de ele as tirar ficou um homem. Ao outro dia ele tornou a vestir as peles e ficou outra vez sapo. E ela disse-lhe: «Tu para que vestes as peles? Assim és tão bonito e vais ficar sapo.» «Assim me é preciso, cala-te.» Ela, assim que se pôs a pé, foi contar tudo à rainha, e o rei mais a rainha disseram-lhe: «Quando hoje te deitares, diz-lhe o mesmo e depois de ele tirar as peles e estar a dormir, deixa a porta do quarto aberta que nós queremos ir vê-lo.» Foram-no ver e viram que ele era homem. Ao outro dia o príncipe tornou a vestir as peles e vai o pai disse-lhe: «Tu, porque vestes as peles e queres ser feio?» «Eu quero ser sapo, porque o meu pai tem mão interior e, se eu fico bonito, impõem a minha mulher.» O rei disse-lhe: «Eu não a impunha, mas queria que tu ficasses bonito.» Depois, como viram que ele não queria deixar de ser sapo, pediram a ela que, assim que ele adormecesse, lhes trouxesse as peles para eles as queimarem. Ela assim fez e eles botaram as peles ao fogo aceso. De manhã vai ele para vestir as peles e não as acha. «Que é das peles?» «Vieram aqui o teu pai e a tua mãe e levaram-nas.» «Mal hajas tu se lhas destes, mais quem te deu o conselho. Adeus. Se alguma vez me tornares a ver, dá-me um beijo na boca.»

A mulherzinha ficou mas o rei e a mulher, assim que viram que o filho faltou, puseram-na fora da porta. Ela, coitada, não tinha com que se tratar; o que era do rei lá ficou e ela estava muito pobrezinha. A todas as pessoas que via perguntava se tinham visto um homem assim e assim e lá lhe dava as notícias do príncipe. Vieram por onde ela estava uns cegos e ela fez-lhes a pergunta. Os moços dos cegos disseram-lhe: «Nós vimos no rio Jordão um homem e certamente era ele; estava botando fatias de pão para trás das costas e dizendo: «Pela alma de meu pai, pela alma de minha mãe, pela alma de minha mulher.» Ela disse-lhes: «Vocês quando tornam para essa banda?» «Nós para o fim do outro mês voltamos para lá; havemos de passar por esse rio.» A mulherzinha aprontou-se e foi com eles. Chegou lá e era o príncipe. Ela chegou ao pé dele e deu-lhe o beijo na boca como ele tinha dito e disse-lhe: «Ora vamos embora, que se acabou o nosso fado.» E foram para casa e foram muito felizes e tiveram muitos filhos.


Recolha de Adolfo Coelho




20/06/2008

O Filho Pródigo




Um homem tinha dois filhos. O mais novo disse ao pai: "Pai, dá-me a parte dos bens que me corresponde". E o pai repartiu os bens entre os dois. Poucos dias depois o filho mais novo, juntando tudo, partiu para uma terra longínqua e por lá esbanjou tudo quanto possuía, vivendo dissolutamente. Tendo gasto tudo, houve grande fome nesse país e ele começou a passar privações. Então foi servir a um dos habitantes daquela terra, o qual o mandou para os seus campos guardar porcos. Bem desejava ele encher o estômago com as alfarrobas que os porcos comiam, mas ninguém lhas dava. E, caindo em si disse: Quantos jornaleiros de meu pai têm pão em abundância e eu, aqui morro de fome! Levantar-me-ei e irei ter com meu pai, e dir-lhe-ei: Pai, pequei contra o Céu e contra ti, já não sou digno de ser chamado teu filho, trata-me como um dos teus jornaleiros. E, levantando-se, foi ter com o pai. Ainda estava longe quando o pai o viu, e enchendo-se de compaixão, correu a lançar-se-lhe ao pescoço cobrindo-o de beijos. O filho disse-lhe: Pai pequei contra o Céu e contra ti, já não mereço ser chamado teu filho. Mas o pai disse aos seus servos: Trazei depressa a mais bela túnica e vesti-lha; ponde-lhe um anel no dedo e sandálias nos pés. Trazei o vitelo gordo e matai-o; comamos e alegremo-nos, porque este meu filho estava morto e reviveu, estava perdido e encontrou-se. E a festa principiou. Ora, o filho mais velho estava no campo. Quando regressou, ao aproximar-se de casa, ouviu a música e as danças. Chamou um dos servos, perguntou-lhe o que era aquilo. Disse-lhe ele: "O teu irmão voltou e teu pai matou o vitelo gordo, porque chegou são e salvo". Encolerizado, não queria entrar; mas o pai saiu e instou com ele. Respondendo ao pai, disse-lhe: "Há já tantos anos que te sirvo sem nunca transgredir uma ordem tua e nunca deste um cabrito para me alegrar com os meus amigos; e agora, ao chegar esse teu filho que te consumiu os teus bens com meretrizes, mataste-lhe o vitelo gordo". O pai respondeu-lhe: "Filho, tu sempre estás comigo e tudo o que é me é teu. Mas tínhamos de fazer uma festa e alegrar-nos, porque este teu irmão estava morto e reviveu: estava perdido e encontrou-se".

Parábolas de Jesus
Lc 15,11 -32


Ano de sol

Houve um tempo em que não chovia e os animais morram de tanta sede. Então, todos resolveram se reunir a fim de solucionar o problema. O coelho recusou-se a participar das tentativas de encontrar água. Os animais cavaram, cortaram árvores, até que, em uma dessas árvores a tartaruga encontrou água suficiente para forma um pequeno lago. Fizeram festa, tocaram batuque durante três semanas, pois não sentiriam mais sede. O leão sugeriu que não deixassem o coelho beber a água deles e todos concordaram. Quando os animais saíram para a caça, deixaram a gazela tomando conta do lago. Sentindo sede, o coelho colocou mel dentro de uma cabaça, foi até à gazela e chamou. A gazela perguntou quem era e o que queria. O coelho respondeu que lhe trouxera mel de presente. Sem saber o que era mel. O coelho a convenceu que provasse. Ela gostou tanto que implorou mais ao coelho. Este, então, lhe disse que ela ainda não havia sentido todo o sabor do mel, pois isso só aconteceria se ela o comesse atada a uma árvore. Dessa forma, a gazela deixou-se amarrar. O coelho não deu mais mel à gazela e, ainda, foi ao lago beber água e tomar banho, sujando toda a lagoa. Quando os outros animais chegaram, repreenderam a gazela e puseram o macaco de guarda. No dia seguinte o coelho, novamente, chamou e o macaco respondeu que não perdesse o seu tempo, pois todos os seus artifícios já era conhecidos. O coelho disse que era uma pena, pois trazia consigo uma coisa muito saborosa, e fingiu ir-se embora. O macaco pediu para ao menos ver do que se tratava. O coelho passou um pouco de mel em seus lábios e o macaco ficou maravilhado com o sabor. Quando o macaco implorou um pouco mais, o coelho disse-lhe que não poderia dar-lhe, pois tinha medo que depois ele o seguisse para descobrir onde ele obtinha o mel. O macaco jurou que não faria isso e o coelho pediu-lhe, como prova, que o deixasse atar-lhe a uma árvore. Louco pelo mel, o macaco permitiu, repetindo-se com ele o mesmo que com a gazela. Ao retornarem, os animais ficaram enfurecidos. O mesmo sucedeu com o búfalo, o hipopótamo, o elefante e com os demais bichos, deixando o leão exasperado. Até que a tartaruga ofereceu-se para ficar de guarda. Ela, então, resolveu ficar de guarda dentro do lago, escondendo-se em baixo da água. Chegando ao lago, o coelho pensou que os outros tivessem desistido de enfrentá-lo. Entrou na lagoa e fez a festa. Quando ia sair da água, a tartaruga agarrou-lhe a perna. Ele implorava que a tartaruga lhe largasse a perna e nada. Quando os animais retornaram, ficaram muito contentes, julgando o coelho e condenando-o à morte. O condenado exigiu o seu direito a uma última vontade: ser executado no colo da mulher do chefe. No momento em que a onça ia atirar, o coelho começou a fazer gracinhas, fazendo-a rir e errar o alvo, acertando a mulher do chefe, possibilitando a fuga do coelho. Por isso, todos os animais o procuram, a fim de executá-lo. Desde então, têm-se visto o coelho, sempre sozinho, correndo de um lado para o outro, aos saltos e aos ziguezagues.


Conto de Moçambique





17/06/2008

Defeito ou qualidade?


Todos os dias um empregado ia a uma fonte buscar água para a casa. Levava uma vara ao pescoço com dois grandes potes, um de cada lado. Um dos potes tinha uma racha e pelo caminho perdia metade da água. Um dia o pote falou com o homem:
- Estou envergonhado, quero pedir-te desculpas.
- Por quê? Do que estás envergonhado?
- Por causa desta racha apenas consigo entregar metade da minha carga. Tu andas de um lado para o outro e os teus esforços não são compensados.
O homem falou:
- Quando retornarmos para a casa do meu senhor, quero que percebas as flores ao longo do caminho.
- Já notaste que no teu lado do caminho há muitas flores? E só há flores do teu lado. Cada dia que voltamos do poço, com a água que perdes regas as flores. Eu colho essas flores para ornamentar a mesa do meu senhor. Se não fosses como és, ele não poderia ter essas belezas para dar graça à sua casa.





A serpente branca

Há muitos e muitos anos, vivia um rei muito celebrado por sua sabedoria. Nada era oculto para ele. Era como se o conhecimento das coisas mais secretas chegasse até ele pelo ar. Mas tinha um estranho costume. Quando a refeição do meio-dia acabava, a mesa era tirada e não havia mais ninguém presente, um criado de confiança lhe trazia um prato a mais. Esse prato era coberto. Nem mesmo o criado sabia o que havia ali dentro. Nem ele nem mais ninguém, porque o rei só tirava a tampa e comia depois que ficava sozinho.
Um dia, depois que isso já acontecia há algum tempo, o criado não agüentou mais de curiosidade na hora de levar o prato embora. Secretamente o carregou para seu quarto, trancou a porta com cuidado e, quando levantou a tampa, viu que dentro havia uma serpente branca.
Depois de ver a cobra, não agüentou ficar sem dar uma provadinha. Cortou um pedaço bem pequeno dela e o pôs na boca. Assim que o pedacinho da serpente tocou a língua dele, o criado começou a ouvir sussurros suaves e estranhos do lado de fora da janela. Quando se debruçou para ver o que era, descobriu que as vozes que murmuravam eram de pardais conversando, que contavam uns aos outros tudo o que tinham visto pelos bosques e campos. Provar a serpente tinha lhe dado o poder de entender a linguagem das aves e dos animais.
Ora, aconteceu que justamente naquele dia desapareceu o melhor anel da rainha. Como o criado de confiança tinha toda a liberdade para ir onde bem entendesse no palácio, suspeitaram que o tivesse roubado. O rei mandou chamá-lo e brigou com ele, dizendo que, a não ser que ele desse o nome do ladrão até o dia seguinte, seria considerado culpado e decapitado. Não adiantou jurar inocência. O rei mandou-o embora sem uma palavra de consolo.
Com medo e se sentindo desgraçado, ele foi até o quintal e ficou pensando, vendo se encontrava um jeito para sair daquela situação. Alguns patos estavam calmamente sentados na beira de um riacho, à vontade, se alisando com o bico e batendo papo. O criado parou e escutou. Cada um dizia aos outros o que tinha acontecido em todos os lugares por onde tinha nadado naquela manhã, e toda a comida gostosa que tinha comido. Mas um deles disse, queixoso:
— Estou com um peso no estômago... Estava comendo tão depressa que engoli um anel que estava no chão bem embaixo da janela da rainha...
O criado rapidamente agarrou o pato pelo pescoço, levou-o direto para a cozinha e disse ao cozinheiro:
— Olha só que pato gordo... Se eu fosse você, assava ele.
— É mesmo... — disse o cozinheiro, pesando o pato com a mão. — Já que ele se esforçou para ganhar tanto peso, é tempo agora de ir para o forno.
Cortou o pescoço do pato e depois, quando estava limpando a ave para assar, encontrou o anel da rainha no estômago dela. Com isso, não foi difícil o criado convencer o rei de sua inocência. Querendo reparar a injustiça que tinha feito, o rei lhe perguntou se havia alguma coisa que ele desejasse, e lhe ofereceu o cargo que ele quisesse escolher na corte.
O criado recusou todas as honras e disse que só queria um cavalo e um pouco de dinheiro, porque desejava ver o mundo e viajar um bocado. O rei logo lhe deu o que queria, e ele partiu.
Um dia, passando por um lago, notou que três peixes estavam presos nuns caniços e estavam ficando sem água. Dizem que os peixes são mudos, mas ele ouviu muito bem como eles gemiam se lamentando, diante da morte horrível que os esperava. Como era um bom sujeito, desceu do cavalo e pôs os três cativos novamente na água. Eles puseram as cabecinhas de fora, se abanando de alegria, e disseram:
— Vamos lembrar disso e recompensar você por nos ter salvo.
Ele continuou seu caminho e, pouco depois, ouviu uma voz que vinha da areia a seus pés. Prestou atenção e ouviu a queixa do rei das formigas:
— Se os humanos conseguissem manter seus animais desajeitados bem longe de nós, seria ótimo! Esse cavalo estúpido com esses cascos imensos e pesados está esmagando meu povo sem piedade...
Ouvindo isso, o criado saiu por um caminho lateral, e o rei das formigas gritou:
— Vamos lembrar disso e recompensar você...
O caminho levava a uma floresta. Lá, ele viu um casal de corvos empurrando os filhotes para fora do ninho:
— Fora, seus marmanjões! — gritavam. — Não podemos mais encher as barrigas de vocês. Já estão bem grandinhos para buscarem sua própria comida.
Os pobres filhotes batiam as asas desajeitados e não conseguiam levantar-se do chão.
— Ainda somos filhotes indefesos... — gritavam. — Como é que podemos arranjar comida se ainda nem sabemos voar? Vocês vão nos fazer morrer de fome!
Ouvindo isso, o bom jovem apeou, matou o cavalo com a espada e deu sua carne para alimentar os filhotes de corvo. Eles vieram saltitando, comeram até se fartar, e disseram:
— Vamos lembrar disso e recompensar você.
Daí para a frente, ele teve que usar as pernas. Depois de muito caminhar, chegou a uma grande cidade. As ruas estavam cheias de barulho e movimento. Um homem a cavalo anunciava que a filha do rei estava procurando marido, mas que quem quisesse pedir a mão dela precisava primeiro cumprir uma tarefa muito difícil e, se falhasse, perderia a vida. Muitos já tinham tentado, mas arriscaram a vida à toa. Quando o jovem viu a filha do rei, ficou tão estonteado com a beleza dela que se esqueceu do perigo, foi até o rei e se apresentou como pretendente.
Foi levado diretamente à beira do mar. Lá, diante de seus olhos, jogaram n'água um anel de ouro. Depois, o rei lhe disse que ele precisaria ir buscar o anel lá no fundo. E acrescentou:
— Se você sair da água sem ele, será jogado de volta, tantas vezes quantas necessário, até morrer nas ondas.
Os cortesãos todos ficaram com pena do jovem e lamentaram sua sorte, tão bonito. Depois, deixaram-no sozinho na praia.
Ele ficou um pouco ali parado, pensando no que ia fazer. De repente, viu três peixes nadando em sua direção — justamente os três cujas vidas ele tinha salvo. O do meio tinha uma concha na boca. Depositou-a na praia, junto aos pés do rapaz. Quando ele pegou a concha e abriu, viu que dentro estava o anel de ouro.
Todo contente, levou o anel até o rei, esperando receber a recompensa prometida. Mas a princesa era muito prosa e, quando viu que ele era inferior a ela em nascimento, desprezou-o e disse que ele ia precisar cumprir uma segunda tarefa. Desceu até o jardim e espalhou dez sacos cheios de farelo pelo meio da grama.
— Você vai ter que recolher tudo isso até amanhã, antes do sol nascer — disse ela —, sem faltar nem um grãozinho.
O rapaz sentou no jardim e começou a pensar em um jeito de cumprir a tarefa, mas não lhe ocorria nada. E lá ficou ele, tristíssimo, esperando que o levassem para a morte quando o dia nascesse. Mas quando os primeiros raios do sol chegaram ao jardim, ele viu que os dez sacos estavam de pé, cheios até a borda, sem faltar nem um grãozinho. O rei das formigas tinha vindo durante a noite, com milhares e milhares de formigas, e os bichinhos agradecidos tinham juntado todos os grãos de farelo dentro dos sacos outra vez.
A filha do rei veio em pessoa até o jardim e ficou espantadíssima de ver que a tarefa tinha sido cumprida. Mas seu coração prosa ainda se recusava a se render. Por isso, ela disse:
— Ele cumpriu as duas tarefas. Mas não será meu marido enquanto não me trouxer um fruto da árvore da vida.
O rapaz nem sabia onde ficava essa árvore da vida. Partiu procurando, resolvido a andar até onde as pernas o levassem, mas sem qualquer esperança de encontrar.
Uma noite, depois de procurar por três reinos, ele chegou a uma floresta. Sentou-se debaixo de uma árvore e estava quase adormecendo quando ouviu um barulho nos galhos e uma fruta de ouro caiu em suas mãos. Ao mesmo tempo, três corvos desceram voando da árvore, pousaram em seus joelhos e disseram:
— Nós somos os filhotes de corvo que você não deixou morrer de fome. Quando crescemos e ouvimos dizer que você estava procurando a fruta de ouro, voamos por cima do mar até o fim do mundo, onde cresce a árvore da vida, e pegamos a fruta.
Muito contente, o rapaz voltou para casa. Deu a fruta de ouro para a princesa e, depois disso, ela não tinha mais desculpa. Dividiram a maçã da vida e a comeram juntos. Aí o coração dela se encheu de amor por ele, e os dois viveram até a velhice numa felicidade perfeita.






12/06/2008

O Caçador





Era uma vez um homem quem era caçador, e seu nome era Caçador, também. Um dia, ele estava caçando quando encontrou um cervo. Quando mirou no animal, o cervo desapareceu. Ele mirou novamente e de repente o cervo se transformou num homem. Caçador ficou apavorado. O homem chegou perto dele e disse: "Por que você sempre caça cervos e pássaros? Você não sabe que eles têm um dono?" "Eu tenho que alimentar minha família, e esta é sua única forma", replicou Caçador.
"Qual o tamanho de sua família?" Perguntou o homem. "Dois meninos, uma menina, minha mulher e eu", respondeu Caçador, "e isso é o que nos mantêm vivos".
"Bem", disse o homem, "se eu lhe der dinheiro, você pára com isso?" "É claro", disse Caçador, "assim que eu tiver dinheiro, nunca mais caçarei". Neste momento, o homem pegou cinquenta dinares e deu-os a Caçador. "Antes que você vá, qual é seu nome?" o homem perguntou. "Sou Caçador, e você?" disse Caçador.
"Chamo-me Abdala", respondeu o homem, "e eu tenho uma família, como você".
Caçador chegou em casa, limpou sua arma e encostou-a na parede. Ele disse a sua mulher que nunca mais iria caçar e que Deus lhe tinha dado uma fonte de dinheiro. Porém, não muito depois, o dinheiro acabou, e Caçador pegou novamente sua arma e saiu para caçar. Quando ele chegou na mata, encontrou o cervo no mesmo lugar e na mesma hora. Ele mirou, e imediatamente o animal transformou-se em Abdala. "Não tínhamos um acordo?" perguntou Abdala. "Mas o dinheiro acabou", disse Caçador, "e nós quase morremos de fome". "Você vê aquela rocha?" disse Abdala, "Sempre que você precisar de mim, apenas vá até ela e diga 'Ó irmão Abdala', e virei imediatamente." Então ele deu ao caçador outros cinqüenta dinares.
Caçador voltou feliz para casa. Quando ele deu o dinheiro a sua esposa, ela exigiu saber onde ele o tinha conseguido. Ele disse que tinha encontrado um amigo que lhe prometera ajuda todas as vezes que necessitasse; Caçador somente tinha que ir à rocha e chamá-lo. "Você é um homem pão-duro!" disse a esposa de Caçador, "Você deveria convidá-lo a vir a nossa casa, nós poderíamos comer juntos e reforçar essa amizade." Então Caçador voltou a rocha e chamou Abdala.
Após se desculpar por não convidá-lo, Abdala insistiu para que primeiro a família de Caçador fosse a sua casa. Após combinarem para às oito da manhã, Caçador voltou para casa para contar à esposa as novidades.
Caçador e sua família compraram um presente e se dirigiram à rocha com as crianças. Quando eles lá chegaram, encontraram Abdala e sua família esperando.
Cada um da família Abdala deu boas-vindas a um membro da família Caçador e eles sacudiram as mãos. Num piscar de olhos, eles estavam num mundo diferente.
A família Abdala preparou um banquete e convidou todos os vizinhos que trouxeram presentes e dinheiro para Caçador e sua família. Após ficarem algum tempo, Caçador e sua família juntaram os presentes e o dinheiro e foram para casa. Eles tinham dinheiro suficiente para construir uma boa casa. Poucos meses depois, num feriado, Caçador foi visitar seu amigo. Quando Abdala apareceu, ele segurou a mão de Caçador e num piscar de olhos, eles estavam um lugar diferente.
Abdala deu mil dinares a Caçador.
Caçador pegou o dinheiro e foi para casa. Sua esposa disse que eles tinham o suficiente para casar seu filho mais velho. Eles encontraram uma boa garota para ele e marcaram a data do casamento. É claro que Caçador convidou Abdala e sua família. Abdala disse a Caçador que preparasse uma sala separado para ele e outras vinte pessoas e não deixar ninguém se aproximar deles. No dia do casamento, todos da cidade foram convidados e Caçador fez o que Abdala pediu.
As pessoas podiam ver Caçador entrar na sala separada com bandejas cheias e sair com elas vazias, sem no entanto poderem ver o que estava lá dentro.
Após todos irem embora, Abdala perguntou a Caçador se eles poderiam dar o presente da noiva, e cada um deu um linda jóia. Antes de Abdala ir, ele disse a Caçador que todos estavam convidados para sua casa a semana toda.
Uma dupla de ladrões da cidade sabiam onde a noiva tinha colocado sua caixa de jóias, então entraram na casa e levaram. Quando Caçador e sua família voltaram para casa, descobriram o roubo. Todos os Caçadores pediram ajuda a Abdala, que os confortou e lhes disse que abrissem novamente a caixa das jóias. Eles encontraram o dobro de jóias que havia inicialmente. Abdala virou-se para Caçador e disse: "Na próxima vez, meu irmão, quando você for nos visitar, nós protegeremos sua casa".

Conto palestiniano

11/06/2008

O leão e o rato


Saiu da toca aturdido
Daninho pequeno rato,
E foi cair insensato
Entre as garras de um leão.

Eis o monarca das feras
Lhe concedeu liberdade,
Ou por ter dele piedade.
Ou por não ter fome então.

Mas essa beneficência
Foi bem paga, e quem diria
Que o rei das feras teria
De um vil rato precisão!
Pois que uma vez indo entrando
Por uma selva frondosa,
Caiu em rede enganosa
Sem conhecer a traição.

Rugidos, esforços, tudo
Balda sem poder fugir-lhe:
Mas vem o rato acudir-lhe
E entra a roer-lhe a prisão.
Rompe com seus finos dentes
Primeira e segunda malha;
E tanto depois trabalha,
Que as mais também rotas são.

O seu benfeitor liberta,
Uma dívida pagando,
E assim à gente ensinando
De ser grata à obrigação.
Também mostra aos insofridos,
Que o trabalho com paciência
Faz mais que a força, a imprudência
Dos que em fúria sempre estão.
Curvo Semedo (Trad.)

10/06/2008

O leão, a lebre e o cágado

A lebre só tinha uma cabra. Sabendo que o leão possuía um bode, propôs a ele que lhe emprestasse o animal por uns tempos para que sua cabra tivesse filhotes. Quando isso ocorreu, a lebre foi devolver o bode ao leão. Entretanto, ele exigiu as crias, alegando que sem o seu bichinho a cabra jamais as teria tido. Como não conseguiram entrar em um acordo, procuraram a ajuda do tribunal dos anciãos. O tribunal deu ganho de causa ao leão, apresentando a mesma justificativa que o vencedor já havia utilizado anteriormente, ou seja: sem o bode a cabra não teria tido filhotes. Todavia, como faltava o cágado, também membro no tribunal dos anciãos, a lebre solicitou que se aguardasse a sua chegada, com o que todos concordaram, por questão de justiça. Após um dia inteiro de espera, chega o cágado. O leão, furioso, perguntou a razão para tanto atraso, ao que ele respondeu que sua demora devia-se ao fato de que ele estava assistindo ao parto de seu pai. Todos riram, perguntando onde se viu homem dar à luz. Então, o cágado perguntou se não disso, afinal, que se tratava. Imediatamente, os anciãos mudaram de posicionamento, dando ganho de causa à lebre, pois compreenderam que, já que é a mulher quem dá à luz, a ela os filhos pertencem.


Conto de Angola