13/07/2008

Lenda do Vai-te com o Diabo

A Lenda do Vai-te com o Diabo faz parte da tradição oral da ilha Graciosa, arquipélago dos Açores, e refecte os medos e as crenças de um povo supersticioso e ainda muito ligado ao misticismo e ocultismo.

Reza esta lenda que uma mulher de poucas posses que vivia na localidade do Guadalupe, ia casar uma filha dentro de poucos dias.
Ultimavam-se os preparativos, cozinhava-se o pão, faziam-se os doces, assavam-se as carnes, preparavam-se as coisas para um casamento feito em casa à moda antiga, como era normal nesses tempos.
Com todos estes afazeres a pobre mulher já tinha gasto mais dinheiro do que as suas parcas posses lhe permitiam. Tendo faltado um ingrediente importante para a boda, a filha foi junto da mãe pedir-lhe mais dinheiro para o ir comprar. Já farta de tantos gastos, meio chateada, meio furiosa, a mãe virou-se para a filha e vociferou : "Vai-te com o diabo, rapariga, que me levas tudo o que tenho!"
Era um desabafo e ninguém prestou atenção a estas palavras. No entanto e como a rapariga nunca mais voltava , começaram a achar estanho e puseram-se à procura dela.Mas não a encontraram nem nas imediações nem nos caminhos que ela deveria ter percorrido.
Os vizinhos da vila do Guadalupe foram alertados e imediatamente todos se puseram à procura dela por todos os lados da vila, de casa em casa, no porto, nos chafarizes, em casa do noivo que também participava na busca, nos moinhos, palheiros, em todos os locais possíveis.
Depois da vila, expandiram as buscas para as pastagens e para a serra onde, junto do lugar denominado Caldeirinha, encontraram aquilo que poderiam ser os primeiros vestígios. Com o ojectivo de encontrarem a rapariga, desceram rapidamente a perigosa vereda.
Na descida encontraram as galochas da rapariga em cima de uma rocha, fazendo com que todas as dúvidas se dissipassem.
Se ela não estava ali, pelo menos devia estar por perto. E se não estava em local visível, só podia estar dentro da Caldeirinha. Foram então à vila buscar cordas suficientemente fortes para aguentarem o peso das pessoas, e atando-as à volta da cintura o noivo desceu à procura da sua amada.
Estavam todos ansiosos pois muitos acreditavam que a caldeira poderia ser uma das entradas do Inferno. Cheio de medo, aos poucos o noivo foi descendo pela abertura estreita da caldeira, um buraco negro e medonho.
Foi lá no fundo que encontrou a rapariga, a tremer de medo e com um ar apático. Amarrou-a às cordas que levara consigo e os dois foram puxados pelas pessoas que lá em cima ansiosos os observavam
Tinham-na encontrado, estava viva e saudável, e podiam assim retomar o casamento. Quando perguntaram à rapariga o que se tinha passado e como tinha ido ali parar, ela pura e simplesmente não sabia responder . Foi então que a mãe se recordou da blasfémia que tinha dito ao mandá-la para o diabo. O mesmo que, acreditam os povos, anda sempre à procura de almas para levar para o Inferno, e que logo a levou consigo, escondendo-a nos fundos da Caldeirinha


09/07/2008

Dona Ausenda





À porta de Dona Ausenda
Está uma erva fadada;
Mulher que ponha a mão nela
Logo se sente pejada.
Foi pôr-lhe a mão Dona Ausenda
Em má hora desgraçada:
Assim que pôs a mão nela,
Logo se sentiu pejada
Vinha seu pai para a mesa,
Veio ela muito apressada
Para lhe dar água às mãos,
Como filha bem criada.
Pôs-lhe ele os olhos direitos,
Ela fez-se mui corada.
– «Que é isso, Dona Ausenda?
Voto a Deus que estás pejada.»
– «Não diga tal, senhor pai,
É da saia mal talhada;
Que eu nunca tive amores
Nem homem me deve nada».

Mandou chamar os dois xastres
Que tinham mais nomeada:
– «Vejam-me esta saia, mestres;
Aonde está ela errada?»
Olharam um para o outro:
– «Esta saia não tem nada;
O erro que ela tem
É a menina estar pejada.»
– «Confessa-te Dona Ausenda,
Que amanhã serás queimada.»
– «Ai triste da minha vida,
Ai triste de mim coitada!
Sem nunca ter tido amores,
Vou a morrer desonrada!»

Foram chamar o ermitão
Da ponte da Aliviada;
Era um fradinho velho
Que o encontraram na estrada.
Mal o frade chega à porta,
Deitou-se à erva fadada
Cortou-a pela raiz,
Na manga a leva guardada,
– «Ajoelhai, Dona Ausenda,
Que a vossa hora é chegada:
Confessai vosso pecado
A Deus e à Virgem sagrada.»
– «Padre, eu nunca tive amores,
Nem homem me deve nada;
Más artes são do demónio
Ver-me eu donzela – e pejada!»
– «Há quanto tempo, senhora,
Vos sentis embaraçada?»
– «Os nove meses faz hoje
Que ali naquela ramada
Na noite de São João
Adormeci descuidada;
Sentia o cheiro das flores
E da erva rociada,
Sentia-me eu tão ditosa,
Tão feliz e regalada,
Que o despertar me deu pena
Quando veio a madrugada.
– «Tomai agora esta erva,
Que é uma erva fadada:
Com a bênção que lhe eu deito
Ficará erva sagrada.»
– «Ai! este cheiro meu padre,
É o que eu senti na ramada.»
Não disse mais Dona Ausenda,
Do sono ficou tomada.
Virtude tinha aquela erva,
Outra virtude fadada:
Mulher pejada que a toque
Logo fica despejada.
Ali, sem mais dor nem pena,
Em boa hora abençoada,
Pare uma linda criança
Bem nascida e bem medrada.
Meteu-a o frade na manga,
Foi-se sem dizer mais nada.

Já desperta Dona Ausenda,
Já se sente aliviada;
De tudo quanto passou
Apenas está lembrada:
Um mau sonho lhe parece
Que a deixou perturbada.
Chamou por suas donzelas,
Chamou por sua criada,
Vestiu suas galas mais ricas,
Sua saia mais bem talhada,
Foi-se encontrar com seu pai
Que estava na alpendurada
Vendo armar a fogueira
Em que a queria queimada:
– «Senhor pai, aqui me tendes
Já disposta e confessada;
Agora a vossa vontade
Seja em mim executada.»
O pai que a mira e remira
Tão esbelta e bem pregada,
O seu corpo tão gentil,
Sua saia tão bem talhada:
– «Que feitiço era este, filha,
Com que estavas embruxada?
Como se desfez o encanto,
Que te vejo tão mudada?»
– «Fosse ele poder de encanto,
Ou condão de erva fadada,
Quebrou-o aquele fradinho
Da ponte da Aliviada.»
– «Metade de quanto eu tenho,
Ametade bem contada,
A esse bom ermitão
Desta hora lhe fica dada.»
Palavras não eram ditas
O ermitão que chegava:
– «Aceito a oferta, bom conde,
Se a metade é bem contada,
Se entra nela Dona Ausenda,
E ma dais por desposada.»
Riram-se todos do frade;
Ele sem dizer mais nada,
Despe o hábito e o capuz,
Ergue a cabeça curvada;
Ficou um gentil mancebo,
Senhor de capa e de espada
Era o conde Dom Ramiro,
Que dali perto morava.
Em boa hora Dona Ausenda
Pôs a mão na erva fadada!

Romanceiro, Almeida Garrett

04/07/2008

Donzela que vai à guerra

- «Já se apregoam as guerras
Entre a França e Aragão:
Ai de mim que já sou velho,
Não nas posso brigar, não!
De sete filhas que tenho
Sem nenhuma ser barão!...»
Responde a filha mais velha
Com toda a resolução:
- «Venham armas e cavalo
Que eu serei filho barão.»
- «Tendes los olhos mui vivos
Filha, conhecer-vos-ão.»
- «Quando passar pela armada
Porei os olhos no chão.»
- «Tendes los ombros mui altos
Filha, conhecer-vos-ão.»
- «Venham armas bem pesadas,
Os ombros abaterão.»
- «Tende-los peitos mui altos
Filha, conhecer-vos-ão.»
- «Venha gibão apertado,
Os peitos encolherão.»
- «Tende’-las mãos pequeninas
Filha conhecer-vos-ão.»
«Venham já guantes de ferro,
E compridas ficarão.»
- «Tende’-los pés delicados,
Filha, conhecer-vos-ão.»
- «Calçarei botas e esporas,
Nunca delas sairão.»
- «Senhor pai, senhora mãe,
Grande dor de coração;
Que os olhos do conde Daros
São de mulher, de homem não.»
- «Convidai-o vós, meu filho,
Para ir convosco ao pomar.
Que se ele mulher for,
À maçã se há-de pegar.
A donzela por discreta,
O camoês foi apanhar.
- «Oh que belos camoeses
Para um homem cheirar!
Lindas maças para damas
Quem lhas poderá levar!)
- «Senhor pai, senhora mãe,
Grande dor de coração;
Que os olhos do conde Daros
São de mulher, de homem não.»
- «Convidai-o vós, meu filho,
Para convosco jantar;
Que, se ele mulher for
No estrado se há-de encruzar.
A donzela, por discreta,
Nos altos se foi sentar.
- «Senhor pai, senhora mãe,
Grande dor de coração;
Que os olhos do conde Daros
São de mulher, de homem não.»
- «Convidai-o vós, meu filho,
Para convosco feirar;
Que, se ele mulher for,
Às fitas se há-de pagar.»
A donzela, por discreta,
Uma adaga foi comprar58.
- «Oh que bela adaga esta
Para com homens brigar!
Lindas fitas para damas:
Quem lhas poderá levar!»
- «Senhor pai, senhora mãe,
Grande dor de coração;
Que os olhos do conde Daros
São de mulher, de homem não.»
- «Convidai-o vós, meu filho,
Para convosco nadar;
Que, se ele mulher for,
O convite há-de escusar.»
A donzela, por discreta,
Começou-se a desnudar...
Traz-lhe o seu pajé uma carta,
Pôs-se a ler, pôs-se a chorar:
- «Novas me chegaram agora,
Novas de grande pesar:
De que minha mãe é morta,
Meu pai se está a finar.
Os sinos da minha terra
Os estou a ouvir dobrar;
E duas irmãs que eu tenho,
Daqui as oiço chorar.»
- «Monta, monta, cavaleiro!
Se me quer acompanhar.»
Chegavam a uns altos paços,
Foram-me logo apear.
- «Senhor pai, trago-lhe um genro,
Se o quiser aceitar;
Foi meu capitão na guerra,
De amores me quis contar...
Se ainda me quer agora,
Com meu pai há-de falar.»

Sete anos andei na guerra
E fiz de filho barão.
Ninguém me conheceu nunca
Senão o meu capitão;
Conheceu-me pelos olhos,
Que por outra coisa não.

Romanceiro, Almeida Garrett




Como se fosse um sonho

PERTO de Gudenaa, ao lado da floresta de Silkerborg, se eleva, parecido com uma grande vaga, um cume arredondado chamado Aasen, sob o qual, hoje ainda, se encontra uma pequena casa de camponeses, rodeada por algumas terras de lavoura. Entre as plantações de centeio e cevada espalhadas, brilha a areia.
Já se passaram muitos anos após os acontecimentos que vamos narrar. As pessoas que habitavam então a pequena morada exploravam as suas terras e mantinham, além delas, duas ovelhas, um porco e dois bois.
Logo, como eles sabiam contentar-se com o pouco que tinham, viviam muito bem. Poderiam até mesmo possuir alguns cavalos, mas diziam como os outros campônios:
– O cavalo come a si mesmo. Ele emagrece à medida que come.
Jaques, no verão cultivava seu pequeno campo, e, no inverno, confeccionava tamancos com mão hábil e diligente.
Não lhe faltava nem mesmo um auxílio: tinha com ele um homem que entendia perfeitamente da fabricação de tamancos. Estes eram tão sólidos quanto leves e de bom gosto. Fabricavam tamancos e colheres de pau; isso representava dinheiro e não se podia dizer que Jaques fosse um homem pobre.
O pequeno Ib, um garoto de sete anos, filho único da casa, sentado perto deles, via-os trabalhar. As vezes cortava um pedaço de madeira e assim ocupava seus dedos. Um dia, cortou dois pedaços que se pareciam com dois pequenos tamancos. Era, dizia ele, para dar à pequena Cristina.
Esta era a filha de um barqueiro. Era tão delicada e encantadora, como uma criança de boa família. Ninguém suporia que ela vinha de uma casa de turfa da charneca de Seis. Era lá que morava seu pai, um viúvo que tirava a sua subsistência cortando madeira na floresta de Silkerborg.
Muitas vezes, quando ele se dirigia de barco até Randers, a pequena Cristina ia até a casa de Jaques Ib e a pequena Cristina se entendiam às maravilhas.
Corriam e brincavam, subindo nas árvores e nos montes.
Um dia arriscaram-se a ir até o alto do cume arredondado e penetraram um pouco na floresta. Ali encontraram um ovo de pernalta; foi um acontecimento muito importante.
Ib jamais estivera na charneca de Seis; nunca atravessara os lagos que levam a Gudenaa. Mas isso ia acontecer finalmente. Ele fora convidado pelo barqueiro, e à noite, na véspera, acompanhara-o até sua casa.
Pela manhã, bem cedinho, as duas crianças estavam sentadas no barco, sobre um grande pedaço de lenha, comendo pão e framboesas. O barqueiro e seu rapaz avançavam a remo, a corrente facilitando seu trabalho, e eles atravessavam os lagos que pareciam fechados por todos os lados por árvores e arbustos. Mas sempre eles encontravam uma passagem.
No entanto, as velhas árvores se debruçavam até eles, com seus galhos estendidos, como se quisessem mostrar seus braços nus e ossudos. Velho troncos, solidamente presos ao solo por suas raízes, pareciam ilhas no meio do lago. Os nenúfares balançavam-se sobre a água. Foi uma viagem maravilhosa. Finalmente, resolveram pescar. A água borbulhava perto do barco. Que espetáculo para Ib e Cristina!
Antigamente, não havia ali nem fábrica nem cidade, mas o velho dique, que não exigia nada dos homens.
O barulho da água caindo dos açudes, os gritos dos patos selvagens, eram os únicos indícios de vida dentro do silêncio e da natureza.
Depois de descarregar a madeira, o pai de Cristina comprou um grande pacote de enguias e uma vasilha de leite. Foi tudo colocado na parte traseira do barco.
Para voltar, era preciso subir a corrente. Mas o vento era favorável; ele inflava as velas e eles avançavam tão bem, como se fossem puxados por cavalos.
Durante a travessia da floresta, quando já estavam a curta distância de casa, o pai de Cristina e o companheiro desceram do barco, recomendando às crianças que ficassem quietas e ajuizadas. Elas ficaram, mas por pouco tempo: quiseram olhar dentro da cesta que continha as enguias e a vasilha do leite e levantá-la no ar, mas quando o fizeram, deixaram-na cair dentro da água. E a corrente a levou. Foi espantoso.
Ib, muito angustiado, pulou em terra e correu um pouco. A seguir Cristina o alcançou.
– Leve-me com você – gritou ela.
E eles entraram na floresta. Dentro em breve o barco e o rio desapareceram de suas vistas. Correram mais um pouco e Cristina caiu. A menina começou a chorar.
Ib a levantou.
– Venha – disse ele. – Nossa casa fica logo ali.
Infelizmente, ela não estava lá. Os dois caminharam e caminharam sobre as folhas secas e os galhos caídos, que estalavam aos seus pés. Subitamente, ouviram um poderoso apelo. Pararam e aguçaram os ouvidos: uma águia começara a gritar terrivelmente.
Ficaram mortos de medo; mas à frente deles, no bosque, havia a maior quantidade de aves jamais vista.
Era muito tentador para que eles não parassem. Havia ovos e frutos, e eles ficaram, comeram e mancharam-se com o suco das frutas a boca e as bochechas de azul. Novamente ouviu-se um grito.
– Vamos levar uma surra por causa daquela vasilha de leite – disse Cristina.
– Vamos para minha casa – disse Ib. Deve ficar aqui no bosque.
Caminharam; chegaram a uma estrada ondulante; mas esta não os levava à sua casa. A noite caiu e eles sentiram medo. O silêncio extraordinário em volta deles só era quebrado pelos gritos assustadores dos grandes pássaros e pelo canto de outros que eram desconhecidos para eles.
Afinal eles se perderam num bosquezinho, Cristina começou a chorar e Ib também; e depois que choraram um instante, deitaram-se no meio das folhas e adormeceram.
O sol já estava alto no céu quando eles despertaram.
Estavam com frio. Mas lá no alto, sobre a colina, onde o sol parecia tão brilhante através das árvores. “É eles poderiam aquecer-se”, pensou Ib. E de lá, sem dúvida, veriam também a casa de seus pais.
Mas eles se encontravam muito longe, do outro lado da floresta. A muito custo subiram a colina e chegaram a uma cascata, que ficava sobre um lago claro e transparente. Ali nadavam peixes, sob os raios do sol. Pertinho dali descobriram um lugar cheio de nozes.
Colheram-nas, quebraram-nas e comeram-nas.
Eles não estavam senão no início de sua surpresa e temor. De uma moita surgiu uma grande e velha mulher, de pele crestada e cabelos de um negro brilhante.
O branco de seus olhos brilhava. Levava um feixe de lenha nas costas e um bastão nodoso na mão. Era uma cigana.
As crianças não entenderam imediatamente o que ela dizia. A mulher tirou do bolso três grandes nozes.
Dentro de cada uma delas, – contou ela, estavam escondidas as coisas mais esplêndidas: eram nozes mágicas.
Ib examinou a mulher: parecia muito simpática. Eis por que, criando coragem, ele pediu-lhe as nozes. Ela as entregou e tratou de colher mais avelãs a fim de encher seus bolsos.
Ib e Cristina ficaram olhando para as três grandes nozes abrindo os seus grandes olhos.
– Aqui se encontra uma carruagem puxada por cavalos? – perguntou ele.
– Encontra-se mesmo uma carruagem de ouro com cavalos dourados – respondeu a mulher.
– Então dê-me a noz! – pediu a pequena Cristina.
Ib entregou-lhe a noz, que a mulher amarrou no lenço da menina.
– E nessa aqui? – perguntou Ib. – Há um lenço tão lindo quanto o de Cristina?
– Há dois lenços – respondeu a mulher – além de belos trajes, meias e um chapéu.
– Então eu a quero também – disse Cristina.
Então Ib lhe deu a segunda noz. A terceira era pequena e negra.
– Essa você pode guardar – disse Cristina. – Ademais, ela também é bonita.
– E que contém ela? – interrogou Ib.
– O que há de melhor para você – respondeu a cigana.
Ib segurou bem a sua noz. A mulher prometeu-lhe colocá-los no caminho para sua casa. Puseram-se a caminho, mas justamente na direcção oposta àquela que eles desejavam. Mas nem por sombras eles desconfiavam de que a cigana pretendia raptá-los.
No meio do bosque, lá onde existem vários atalhos, os dois se encontraram com o guarda-florestal, que Ib conhecia. Graças a ele, Ib e a pequena Cristina puderam voltar para a casa, onde havia grande ansiedade por causa deles. Perdoaram-lhes, embora eles merecessem ser surrados, primeiramente porque haviam derramado a vasilha de leite na água e depois porque haviam fugido.
Cristina voltou para a casa dela, na charneca e Ib ficou na sua pequena casa da floresta. A primeira coisa que ele fez, ao chegar a noite, foi apanhar a noz que continha .aquilo que era melhor para ele.. Colocou-a entre a porta e a parede e fechou a porta. A noz quebrou. Não continha uma semente; estava cheia de uma espécie de fumo picado.
“Eu devia ter desconfiado”, pensou Ib. “Como é que dentro de uma pequena noz poderia haver o que há de melhor? Cristina também não vai retirar das suas nem belos trajes nem uma carruagem de ouro”.
O inverno chegou, depois o ano novo.
Muitos anos se passaram. Ib seguia as aulas de catecismo e o padre morava longe dali. Nessa época, o barqueiro foi um dia à casa dos pais de Ib e contou-lhes que a pequena Cristina já estava na época de trabalhar.
“Era” – dizia ele – “uma verdadeira felicidade para ele que ela fosse parar em tão boas mãos e que fosse servir tão boa gente. Devia partir para a região de Herning, para a casa de ricos hoteleiros. Ajudaria a dona da casa e, se correspondesse à expectativa, ficariam com ela”.
Ib e Cristina se despediram um do outro. Passavam por noivos junto aos seus pais. No momento da partida, ela mostrou-lhe que possuía ainda as duas nozes que ele lhe dera quando os dois se perderam na floresta. Contou-lhe que guardava os pedaços num cofre.
Após a confirmação, Ib permaneceu na casa de sua mãe. Ele era hábil tamanqueiro e no verão explorava suas terras com grande lucro. Ademais, ela não tinha senão a ele: o pai de Ib tinha morrido.
Não se ouvia falar de Cristina senão raramente, geralmente por intermédio de um postilhão ou de um vendedor ambulante de enguias. A moça estava muito bem na casa dos hoteleiros.
Quando foi confirmada, escreveu ao seu pai e enviou saudações para Ib e para a mãe deste. Falava em sua carta de um presente de seis blusas novas e de um belo vestido que ganhara de seus patrões. Em suma, eram boas notícias.
Na primavera seguinte, bateram um belo dia na porta de Ib e sua mãe, e o barqueiro entrou com Cristina.
Esta viera de visita por um dia. Aparecera uma companhia para a viagem com uns vizinhos e ela aproveitara a ocasião.
Estava linda, graciosa e elegante como uma senhorita e usava belos vestidos, muito bem feitos e que lhe assentavam às mil maravilhas. Apareceu em grande toillete, enquanto que Ib usava suas roupas de trabalho.
A alegria e a surpresa tiraram-lhe a fala. Deu-lhe a mão e manteve-a bem apertada, com a maior felicidade irradiando-se de seus olhos, mas sem poder mover os lábios. A pequena Cristina foi mais activa; conversou com muita animação e deu um beijo na boca de Ib.
– Você me reconhece? – perguntou ela.
Quando ficaram a sós, ele ainda segurava a mão da moça e só pôde balbuciar:
–Você se transformou numa linda dama e aconteceu que eu aparecesse com a roupa suja. Quantas vezes pensei em você e no tempo passado!
De braços dados eles subiram o cume, para os lados de Gudenaa, até os limites da charneca de Seis. Ib não dizia nada.
Mas quando se separaram, pareceu-lhe claramente que era preciso que ela se tornasse sua esposa. Desde crianças que todos os chamavam de noivos. Somente eles nunca tinham trocado idéias a respeito.
Não puderam ficar várias horas juntos, pois ela precisava voltar ao local de onde viera, a fim de tomar o caminho de volta, de manhã cedinho.
Ib e o pai dela a acompanharam. Fazia um lindo luar. Quando soou a hora da separação, Ib não pôde largar a mão dela. Seus olhares significavam claramente os seus desejos mais íntimos. E ele exprimia em poucas palavras o que cada um sentia de seu ser:
– Sim, ultimamente você tem levado uma vida um tanto luxuosa, mas se quiser viver comigo, como minha esposa, na casa de minha mãe, um dia poderemos ser marido e mulher ... E. claro que ainda podemos esperar um pouco.
– Sim, Ib, veremos isso mais tarde – disse ela.
Ib apertou-lhe a mão e beijou-a na boca.
– Confio em você, Ib – disse Cristina e gosto de você. Mas deixe-me pensar.
Separaram-se. Ib contou ao barqueiro a sua conversa com Cristina e este achou que tudo se passara como ele esperara. Mais tarde foi até a casa de Ib e os dois dormiram na mesma cama. E não se falou mais em noivado.
Um ano se passou. Ib e Cristina trocaram duas cartas que terminavam com “Fiel até a morte”. Um dia, o barqueiro entrou na casa de Ib. Trazia-lhe as saudações de Cristina.
Parecia-lhe penoso exprimir aquilo que tinha a dizer; o principal é que Cristina estava bem; mesmo, ela era uma linda moça, estimada e considerada.
O filho do hoteleiro viera vê-lo, à sua casa. Tinha um emprego muito importante em Copenhague numa grande casa de comércio.
Cristina agradava-lhe, e seus pais não se opunham.
Somente Cristina achava que Ib ainda pensava nela e, portanto, estava disposta a renunciar à sua felicidade.
No primeiro instante Ib não pronunciou uma só palavra, mas ficou de uma palidez mortal. Depois disse:
– Não é preciso que Cristina renuncie à sua felicidade.
– Escreva-lhe dizendo-lhe qual o seu ponto-de-vista – disse o barqueiro.
Ib escreveu. Mas não conseguia dizer o que queria. Finalmente, ao amanhecer, estava com uma carta pronta para a pequena Cristina.
“Eu li a carta que você escreveu ao seu pai; vejo que está satisfeita e que ainda poderá estar mais. Interrogue seu próprio coração, Cristina, e pense bem neste que a espera. Não tenho muito o que lhe oferecer.
Não pense em mim, no que me acontecerá, mas somente no seu próprio interesse. Você não está ligada a mim por nenhuma promessa.
Querida Cristina, desejo-lhe todas as felicidades do mundo e serei feliz também ao vê-la feliz. Deus saberá consolar-me. Seu melhor amigo para sempre: Ib”.
Esta carta foi enviada e Cristina a recebeu.
O dia de Sant-Martin foi celebrado na igreja do povoado de Sis e em Copenhague, onde residia seu noivo.
Cristina foi com sua futura sogra, porque, por causa de seus inúmeros negócios, o rapaz não podia fazer a longa viagem.
Cristina devia encontrar-se com seu pai no lugarejo de Funder, por onde passaria, e que não ficava muito longe de Seis. Foi ali que eles se despediram. Pronunciaram algumas palavras, mas Ib não disse nada.
Ele estava muito quieto, dizia sua velha mãe. Sim, Ib reflectia e voltava ao passado; e foi assim que começou a pensar nas três nozes que recebera quando criança. da cigana, das quais dera duas a Cristina.
Eram nozes mágicas, que deviam dar a Cristina uma carruagem de ouro puxada por cavalos dourados e os mais belos trajes. Sim, sim, isto estava acontecendo.
Lá em Copenhague, na linda cidade real, ela iria compartilhar de um destino magnífico. Para ela o desejo se realizava! Para Ib, não havia mais do que a noz cheia de pó e de terra. “O melhor para você”, dissera a cigana. Pois bem, isso também se realizava.
O melhor para ele eram o pó e a terra. Actualmente ele compreendia o que a cigana quisera dizer: o melhor para ele era ficar dentro da terra negra, numa fria tumba.
Mais alguns anos se passaram – não muitos, mas que pareceram muito longos a Ib.
Os velhos hoteleiros morreram, com pouco intervalo um do outro. Os filhos herdaram toda a fortuna. Sim, agora Cristina podia rodar numa carruagem de ouro e usar belos vestidos.
Nos dois anos que se seguiram, o pai não recebeu nem uma carta de Cristina. E quando recebeu uma, tinham-se acabado a riqueza e a alegria. Pobre Cristina! Nem ela nem seu marido puderam fugir às circunstâncias.
A riqueza não lhes trouxera nem felicidade e desaparecera como viera.
As árvores floriram. As flores murcharam. A neve caiu no inverno sobre a terra de Seis e sobre a colina ao pé da qual Ib levava a sua vida tranquila. O sol da primavera apareceu. Ib cultivava seu campo.
Certa vez, a um solavanco do arado, ele viu que o mesmo batera numa pedra. Um objecto esquisito veio à superfície, parecido com um pedaço de madeira negra.
Quando Ib o apanhou, percebeu que ele era de metal.
O local em que o arado batera brilhava estranhamente.
Havia um pesado e grande bracelete de ouro da época pagã.
Ib acabava de descobrir os ornamentos preciosos de um túmulo antigo. Mostrou sua descoberta ao padre, o qual avaliou-a num grande preço. Então ele se dirigiu ao conselheiro do distrito, que o enviou a Copenhague e deu a Ib o conselho de que levasse ele mesmo o precioso achado.
– Você encontrou na terra o que havia de melhor – disse o conselheiro.
“De melhor!’, pensou 1b. “O que havia de melhor para mim e dentro da terra! Então a cigana tinha razão, se isso é o melhor”.
Partiu para a capital com o barco postal. Para ele, que nunca saíra de Gudenaa, era como se fosse uma viagem para além do Oceano. E chegou a Copenhague.
Pagaram-lhe o preço do ouro encontrado. Era uma grande quantia. A seguir, Ib, que viera das florestas do povoado de Seis, resolveu passear pelas ruas de Copenhague.
Exactamente na noite em que ele ia partir para Aarhus, Ib perdeu-se, tomou uma direcção totalmente oposta àquela que desejava, e, passando pela ponte de Roudino, chegou até o porto de Christian, ao lado da porta do Oeste. Tomara nota da direcção do Oeste, mas enganara-se bastante. Não havia viva alma nas ruas.
Finalmente, uma menina saiu de uma casa miserável.
Ele perguntou-lhe o caminho.
A pequena sobressaltou-se, fitou-o e as lágrimas vieram- lhe aos olhos. Então ele quis saber o que a criança tinha. E ela lhe disse algo que ele não entendeu.
Mas assim que se encontraram sob uma lâmpada e que a luz bateu no rosto da menina, Ib ficou emocionadíssimo, pois pareceu-lhe estar na frente da pequena Cristina, em carne e osso, aquela de quem ele se lembrava da época em que eram crianças.
Seguiu a menina até a pobre morada, subiu por uma escada estreita e chegou a uma pequena mansarda situada imediatamente sob o teto. Um ar pesado enchia o ambiente, que não era iluminado por nenhuma claridade.
Ouviu uns suspiros e uma respiração penosa que vinha de um canto. Acendeu um fósforo. Era a mãe da criança que jazia num catre.
–Posso ajudá-la em alguma coisa? – perguntou Ib. – Encontrei a menina na rua, mas eu mesmo sou estranho na cidade. A senhora não tem uma vizinha ou alguém a quem eu possa chamar? Dizendo essas palavras, ele levantou-lhe a cabeça.
Era a Cristina da terra de Seis.
Havia anos que seu nome não era pronunciado na Jutlândia. A tranquilidade de Ib fora totalmente perturbada; os rumores que corriam a respeito dela não eram nada bons. A fortuna que seu marido herdara dos pais tornara-o orgulhoso e leviano. Abandonara a sua situação estável e viajara durante seis meses no estrangeiro.
Depois voltara e contraria muitas dívidas. A situação foi indo de mal a pior. Todos os seus alegres comensais declararam que isso era justo, pois ele agira verdadeiramente como louco. E certa manhã, seu cadáver foi encontrado no fosso do castelo.
Após sua morte, Cristina só contava consigo mesma.
Seu filho mais novo, nascido ainda no tempo da abundância, não sobrevivera e já estava no túmulo.
E agora Cristina estava no ponto de, agonizante, abandonar-se num quarto miserável, tão miserável, que ela, acostumada ao luxo, não conseguia mais suportar.
Era a sua filha mais velha, igualmente uma pequena Cristina, que sofria fome como ela e acabava de levar-lhe Ib.
– Tenho medo de que em breve a morte me separe de minha pobre filha – suspirou ela. – Que vai ser da menina?
Não pôde dizer mais nada.
Ib acendeu outro fósforo e encontrou um pedaço de vela para iluminar o aposento.
Olhava para a menina e lembrava-se de Cristina na idade dela. Ele podia, pelo amor de Cristina, fazer um bem àquela criança que lhe era estranha. A moribunda o fitou. Seus olhos se tornaram cada vez maiores.
Tê-lo-ia reconhecido? Ninguém podia saber. Ele não a ouviu dizer mais nada.
Estava-se na floresta de Gudenaa, perto da terra de Seis. O ar estava cinzento e as flores murchas. O vento oeste soprava, espalhando as folhas secas pelo chão; a grande casa estava agora habitada por estranhos.
Mas ao pé da colina, à sombra das altas árvores, a casa pequena estava clara e alegre. Na sala, com o fogo aceso na lareira, havia o sol que brilhava em dois olhos de criança. A vida sorria na morada onde a pequena Cristina fizera a sua entrada.
Estava sentada nos joelhos de Ib. Este fazia o papel de pai e de mãe, todos dois desaparecidos, como se tudo fosse um sonho, para a criança e para o adulto.
Em sua casa, limpa e confortável, Ib estava à vontade.
A mãe da menina repousava no cemitério dos pobres, em Copenhague, a cidade real.
Ib tinha dinheiro – diziam todos – o ouro encontrado na terra, e tinha também a pequena Cristina.

Hans Christian Andersen






03/07/2008

As Viagens de Sinbad O Marinheiro


Embora talvez não tivesse saído de sua casa, ou nem sequer existisse, Sinbad o Marinheiro é o mais célebre dos viajantes - é mais celebre que Cabral, Cristóvão Colombo, Fernão de Magalhães, Vasco da Gama, mais que os descobridores dos pólos e os escaladores do Himalaia. Suas viagens nas Mil e uma noites fazem a delícia de crianças e adultos. Ele mesmo as conta. Começa assim: "Deveis saber que meu pai era um grande mercador. Dava generosamente aos necessitados e, quando morreu, legou-me uma fortuna considerável em espécie, terras e aldeias. "Comecei logo a gastar com imoderação, pensando que meus bens eram inesgotáveis, até que, um dia, acordei um homem pobre. Lembrei-me então das palavras sábias de meu pai: `O túmulo é mais confortável que a pobreza.' "Preferindo a aventura à mendicância, como diz o provérbio , vendi o pouco que me restava, conseguindo juntar assim 3 mil dracmas, comprei com esta soma mercadorias variadas, entrei num navio com outros mercadores e fui de terra em terra e de ilha em ilha, vendendo e comprando, tentando assim recuperar minha fortuna." Não sabia Sinbad o Marinheiro o que o esperava ao iniciar essa aventura. Fez ao todo sete viagens, cada uma delas mais cheia de episódios extraordinários que as outras. As duas viagens mais repletas de maravilhas são a terceira e a quarta, que damos adiante na íntegra. Mas há também acontecimentos que desatam a imaginação em três outras. Ei-los: "Um dia," conta Sinbad em sua primeira viagem, "após navegarmos semanas sem avistar terra, chegamos a uma ilha verdejante que. parecia o Jardim do Éden. O capitão mandou lançar a âncora e deixou-nos desembarcar. "Fomos todos à terra, levando mantimentos e utensílios de cozinha. Alguns acenderam fogo e começaram a preparar com ida e lavar roupa. Outros satisfaziam-se, como eu próprio, em passear naquele paraíso terrestre. "Estávamos assim absorvidos em nossas tarefas e prazeres quando, de repente, a ilha estremeceu com tamanha violência que fomos jogados ao chão. Enquanto permanecíamos deitados, tontos de espanto, vimos o capitão chamar-nos com gestos desesperados e voz angustiante: `Salvai-vos, passageiros! Largai tudo e vinde depressa a bordo! Isto não é uma ilha. É uma baleia gigante! Vive neste mar há gerações, e as árvores desceram na areia do mar amontoada no seu lombo. Vós a despertastes com vossas fogueiras. Agora está se movendo. Fugi antes que ela mergulhe no mar e vos afogue. Apressai-vos! O navio está se afastando!' "Os passageiros abandonaram roupa, mantimentos e utensílios e correram para o navio. Alguns o alcançaram. Outros ficaram em cima da baleia e morreram quando ela mergulhou no mar. "Eu tinha ficado em cima da baleia; mas Alá me socorreu pondo a meu alcance uma tábua de salvação. Agarrando-me a ela, e fazendo esforços extenuantes com pés e braços, cheguei a uma pequena ilha vizinha..." Na segunda viagem, o navio que levava Sinbad ancorou numa ilha. O clima e o tempo eram tão agradáveis que Sinbad dormiu debaixo de uma árvore. "Quando acordei, não vi nenhum dos meus companheiros e descobri que o navio tinha ido embora sem que ninguém notasse minha ausência. "Dando-me conta de que meus lamentos de nada adiantariam, trepei numa árvore para evitar encontros fatais com algum animal feroz ou algum inimigo. Olhando em todas as direcções, avistei ao longe algo redondo, enorme e branco. Desci e fui até lá, e vi que se tratava de uma cúpula desmedida. Andei em volta dela, mas não encontrei nenhuma porta de entrada."Enquanto reflectia no que poderia fazer para penetrar e me refugiar nela, notei que o dia se transformava rapidamente em noite escura. Supus que fosse uma nuvem espessa a obscurecer o sol, embora achasse o fenómeno impossível em pleno verão. Ergui, pois, a cabeça para verificar e vi uma ave de tamanho e asas colossais que ocultava o sol. "Não conseguia acreditar no que via até que me lembrei de que viajantes e marujos me haviam falado de um pássaro de dimensões terrificantes chamado abutre que vivia numa ilha distante e era capaz de levantar um elefante. Concluí que aquela ave era o abutre e que a cúpula branca e lisa nada mais era que um de seus ovos. "Fiquei certo de minhas conclusões quando vi a ave descer a terra e cobrir o ovo para chocá-lo. Nesta posição, ela deixou as duas patas pendentes de cada lado do ovo, e adormeceu. "Vista de perto, cada uma das patas parecia maior que o tronco de uma velha árvore. Veio-me então a ideia da salvação. Desfiz o tecido que envolvia meu turbante, torci-o numa corda sólida que enrolei em volta da cintura e amarrei numa das unhas da ave. Pois, pensei, este abutre acabará por voar, e depois pousará em algum lugar mais próximo dos homens que esta ilha isolada. Levantar-me-á com ele e me depositará onde pousar." Foi assim que Sinbad o Marinheiro se salvou mais uma vez. Um dia, Sinbad decidiu não mais viajar. "Devo contar-vos, meus amigos, que após voltar da sexta viagem, afastei da mente toda ideia de enfrentar outra vez o desconhecido e quis, antes, gozar preguiçosamente a vida. Mas meu destino me perseguiu. O califa arun Ar-Rachid quis que eu levasse uma carta sua e presentes ao rei de Sarandib. Vi-me, pois, obrigado a partir. Embarquei em Basra. “O vento favoreceu-nos e, após dois meses, chegamos em Sarandib”.
Entreguei a carta e os presentes do califa e, desculpando-me junto ao rei por não poder demorar em sua Terra, reembarquei num navio que vinha para Basra. "O vento continuou a favorecer-nos por algum tempo; mas, um dia, quando estávamos a uma semana da ilha de Sin, irrompeu um vendaval terrível. E uma chuva torrencial nos inundou. O capitão subiu ao alto do mastro, de onde examinou o horizonte. Quando desceu, estava lívido. Puxou a barba, bateu com os punhos no rosto e disse em tom de desespero: `A corrente nos desviou de nossa rota, atirando-nos aos confins dos mares do mundo. Chorai e dizei adeus à vida. Estamos todos perdidos.' "Tirou então um livro escondido no peito e folheou-o atentamente; depois, virando-se para nós, declarou: `Meu livro mágico confirma meus piores temores. A terra que vedes ao longe é a Região dos Reis, onde nosso senhor Soleiman Ibn Daud está sepultado.
Monstros marinhos pululam nessas costas, e o mar está cheio de peixes gigantes que podem engolir de uma vez um navio inteiro. Agora sabeis o pior. Adeus!' "Ficamos gelados pelo medo e o horror. De repente, o navio foi levantado e depois depositado entre as ondas, enquanto um bramido mais terrível que o trovão chegava do mar. Os ventos e as ondas remoinhavam a nosso redor, e vimos um monstro marinho do tamanho de uma montanha avançar para nós, seguido por outro monstro ainda maior e por um terceiro monstro igual aos dois primeiros juntos. "Este último, abrindo uma goela do tamanho de um vale entre duas colinas, tragou três quartos de nossa embarcação, com tudo que ela continha. Tive apenas tempo de recuar até o alto do convés e saltar às águas antes que o monstro engolisse todo o navio e sumisse nas profundezas do mar, com seus dois companheiros." Mas uma vez, superando os perigos graças a sua sorte e engenhosidade, Sinbad voltou para Bagdad, são, salvo e rico. Entre outras curiosidades que contou, disse que havia escalado uma montanha tão alta que chegou a ouvir os anjos cantarem louvores ao Senhor dos Mundos. Desta vez, era mesmo a última viagem. Viveu na felicidade em Bagdad até que foi visitado por aquela que interrompe as alegrias, quebra as amizades, destrói os palácios e edifica os túmulos: a amarga morte. Gloria Àquele que vive para sempre!






A gata metamorfoseada em mulher


A uma gata que tinha, um tal pascácio
Com paixão adorava.
Era tão meiga, delicada e bela!
E tão doce miava!

Doido, mais doido que os que estão no hospício,
O nosso namorado,
Com preces, choro, encantos, sortilégios,
Logrou dobrar o fado.

Numa bela manhã nossa gatinha
Em mulher se mudou;
E o seu adorador, no mesmo dia,
Por esposa a tomou.

Doido de amor, qual fora de amizade,
O hipocôndrico esposo
julga a mulher — das perfeições da Terra
Santo ideal formoso.

Enche-a de adulações, cobre-se de mimos;
E nem longes sequer
Lhe vê de gata; ilude-se, julgando-a
Toda e em tudo mulher.

Uns ratinhos, porém, roendo a esteira,
Vieram perturbá-los.
Presto a moça levanta-se do leito;
Mas não pôde apanhá-los.

Tornam os ratos a arranhar a esteira;
E a noiva, de gatinhas,
Agarra, desta vez, os tais murganhos
Com dentes e mãozinhas.

Em forma de mulher os pobres ratos
Não na podem fugir,
É deles sorte à gata transformada
De incentivo servir.

Este caso o poder da natureza
Nos demonstra de sobra;
Passado certo tempo o vaso embebe,
O pano toma a dobra.

Em vão do sestro e propensão que a levam
Quereis desavezá-la;
Por mais que trabalheis, zomba de tudo;
Não podeis reformá-la.

Nem à força de rilha, ou de forcados,
Mudará de feição;
Nem lograreis o impulso dominar-lhe,
Empunhando um bastão.

Fechai-lhe a porta, como se expelísseis
Figadal inimigo;
Há de voltar a rápido galope
Ou forçar o postigo.

Barão de Paranapiacaba (Trad.)

30/06/2008

O simplório e o tratante




Certo sujeito simplório seguia por uma estrada, arrastando seu asno atrás de si pelo cabresto, quando um par de malandros o viu; e um disse ao outro: "Vou tomar o asno daquele camarada." Perguntou o outro: "Como irás fazê-lo?" "Segue-me e verás," respondeu o primeiro. O gatuno foi até junto do asno, desprendeu-o do cabresto e entregou-o ao companheiro. Depois passou o cabresto pelo seu próprio pescoço e seguiu o João Bobo até ver que o companheiro tinha sumido com o asno; então, parou. O idiota puxou o cabresto, mas o patife não se mexeu. O burriqueiro virou-se e, vendo o cabresto no pescoço de um homem, perguntou: "Quem és tu?" Respondeu o tratante: "Sou teu asno, e minha história é espantosa. Sabe que cu tenho uma velha mãezinha muito piedosa e, um dia, cheguei junto a ela muito embriagado. Ela me disse: "Ó meu filho, arrepende-te ante o Altíssimo por esses teus pecados." Mas eu tomei meu bordão e bati-lhe, e ela me amaldiçoou, e me transformou num asno e fez-me cair em tuas mãos. Contudo, hoje, minha mãe lembrou-se de mim e seu coração ansiou por mim; e ela me perdoou ante o Altíssimo, e o Senhor restituiu-me minha forma antiga entre os filhos de Adão." Gritou o bobo: "Não há Majestade e não há Poder senão em Alá, o Glorioso, o Omnipotente! Com Alá sobre ti, ó meu irmão, perdoa-me o que tenho feito contigo, montando em ti, e tudo o mais." Então, o simplório deixou o patife ir embora e voltou para casa, bêbado de pesar e inquieto, como se tivesse tomado vinho. Sua mulher perguntou-lhe: "Que te incomoda, e onde está o jumento?" "Não sabes o que era aquele jumento; mas eu te contarei," respondeu ele. Contou-lhe a história toda, e a mulher exclamou: "Ó, ai de nós, ai de nós pela punição que receberemos do Todo- Poderoso! Como pudemos usar um homem como uma besta de carga, durante todo esse tempo?" E deu esmolas, e fez penitência, e suplicou o perdão dos Céus. O homem ficou algum tempo em casa, ocioso e inútil, até que a mulher lhe disse: "Por quanto tempo vais ficar sentado em casa, sem fazer nada? Vai ao mercado, compra-nos outro asno e vai fazer teu trabalho com ele." Então, ele foi ao mercado, parou junto ao local de venda de asnos, e lá viu seu próprio animal exposto à venda. Aproximou-se dele e, encostando a boca ao seu ouvido, disse-lhe: "Pobre de ti, que nunca procedes bem. Com certeza andaste bebendo novamente e batendo em tua mãe. Mas, por Alá, nunca mais te comprarei." E deixou-o ali e foi-se embora.



A pomba e a formiga


Enquanto a sede uma pomba
Em clara fonte mitiga,
Vê por um triste desastre
Cair n'água uma formiga.

Naquele vasto oceano
A pobre luta e braceja,
E vir à margem da fonte
Inutilmente deseja.

A pomba, por ter dó dela,
N'água uma ervinha lança;
Neste vasto promontório
A triste salvar-se alcança.

Na terra a põe uma aragem;
E livre do precipício,
Acha logo ocasião
De pagar o benefício:

Que vê atrás de um valado,
já fazendo à pomba festa,
Um descalço caçador
Que dura farpa lhe assesta.

Supondo-a já na panela,
Diz: "Hei de te hoje cear!"
Mas nisto a formiga astuta
Lhe morde num calcanhar.

Sucumbe à dor, torce o corpo,
Erra o tiro, a pomba foge;
Diz-lhe a formiga: "Coitado!
Foi-se embora a ceia de hoje!"

De boca aberta ficando,
Conhece o pobre glutão
Que só devemos contar
Com o que temos na mão.

E posto enfim que haja ingratos,
Notar devemos também
Que as mais das vezes no mundo
Não se perde o fazer bem.

Curvo Semedo (Trad.)

29/06/2008

Lenda das Obras de Santa Engrácia

Diz a lenda que Simão Pires, um cristão-novo, cavalgava todos os dias até ao convento de Santa Clara para se encontrar às escondidas com Violante. A jovem tinha sido feita noviça à força porque o seu pai não estava de acordo com o amor de ambos.
Um dia, Simão pediu à sua amada para fugir com ele. No dia seguinte, Simão foi acordado pelos homens do rei que o vinham prender acusando-o do roubo das relíquias da igreja de Santa Engrácia, que ficava perto do convento. Para não prejudicar Violante, Simão não revelou a razão porque tinha sido visto no local. Apesar de invocar a sua inocência foi preso e condenado à morte na fogueira. A cerimónia da condenação tinha lugar junto da nova igreja de Santa Engrácia, cujas obras já tinham começado. Quando as labaredas envolveram o corpo de Simão, este gritou que era tão certo morrer inocente como as obras nunca mais acabarem.
Certo é que as obras da igreja iniciadas à época da execução de Simão pareciam nunca mais ter fim. De tal forma, que o povo se habituou a comparar tudo aquilo que parece não ter fim às obras de Santa Engrácia.


27/06/2008

Reginaldo

– «Reginaldo, Reginaldo,
Pajem del-rei tão querido,
Não sei porquê, Reginaldo
Te chamam o atrevido.»
– «Porque me atrevi, senhora,
A querer o defendido.»
– «Não foras tu tão covarde
Que já dormiras comigo.»
– «Senhora zombais de mim
Porque sou vosso cativo.»
– «Eu não no digo zombando,
Que deveras te lo digo.»
– «Pois quando o quereis, infanta,
Que vá pelo prometido?»
– «Entre las dez e las onze
que el rei não seja sentido.»

Inda não era sol posto,
Reginaldo adormecido:
As dez não eram bem dadas,
Reginaldo já erguido.
Calçou sapato de pano,
Que el rei não fosse ouvido,
Foi-se à câmara da infanta,
Deu-lhe um ai, deu-lhe um gemido.
«Quem suspira a essa porta,
Quem será o atrevido?
– «É Reginaldo, senhora
Que vem pelo prometido.»
– «Levantai-vos minhas aias,
Que assim Deus vos dê marido!
E ide abrir mansinho a porta
Que el-rei não seja sentido.»
Vela o pajem toda a noite...
Por manhã é adormecido;
Chamava o rei que chamava
Que lhe desse o seu vestido:

– «Reginaldo não responde,
alguma tem sucedido!
Ou está morto o meu pajem
Ou grande traição há sido.»
Responderam os vassalos
Que tudo tinham sentido:
– «Morto não é Reginaldo,
de sono estará perdido.»

Vestiu-se el-rei muito à pressa,
E leva um punhal consigo
Vai correndo sala e sala,
Abrindo porta e postigo,
Chega ao camarim da infanta,
Dormiam tão sossegados
Como mulher e marido.
De nada do que se passava
De nada davam sentido.
Acudiram os vassalos,
Que viram a el-rei perdido:
– «Nunca vossa majestade
Mate um homem adormecido.»
Tira el-rei seu punhal de oiro,
Deixa-o entre os dois metido,
O cabo para a princesa.
Para o Reginaldo o bico.
Ia-se a virar o pajem,
Sentiu-se cortar no fio:
– «Acorda já, bela infanta,
Triste sono tens dormido!
Olha o punhal de teu pai
Que entre nós está metido.»
– «Cala-te daí Reginaldo,
Não sejas tão dolorido;
Vai já deitar-se a seus pés,
Que el-rei é bom e sofrido.
Para o mal que temos feito
Não há senão um castigo;

Mas se el-rei mandar matar-me,
Eu hei-de morrer contigo.»
– «Donde vens, ó Reginaldo?»
– «Senhor, de caçar sou vindo.
– «Que é da caça que caçaste,
Reginaldo o atrevido?»
– «Senhor rei, da caça venho,
Mas não a trago comigo;
Que o trazer caça real
A vassalo é defendido.
Só vos trago uma cabeça,
A minha: dai-lhe o castigo.»
– «Tua sentença está dada,
Morrerás por atrevido.»
Vedes hora o bom do rei
Dando voltas ao sentido:
– «Se mato a bela infanta,
Fica o meu reino perdido...
Para matar Reginaldo,
Criei-o de pequenino...
Metê-lo-ei numa torre
Por princípio de castigo.»
– «Dizei-me vós, meus vassalos,
Pois tudo tendes ouvido,
Que mais justiça faremos
Deste pajem atrevido?»
Respondem os condes todos,
E muito bem respondido:
– «Pajem de rei que tal faz,
Tem a cabeça perdido.»

Já o metem numa torre,
Já o vão encarcerar.
Mas ano e dia é passado,
E a sentença por dar.

Veio a mãe de Reginaldo
O seu filho a visitar:
– «Filho, quando te pari
Com tanta dor e pesar,
Era um dia como este,
Teu pai estava a expirar.
Eu coas lágrimas nos olhos,
Filho, te estava a lavar;
Cabelos desta cabeça
Com eles te fui limpar.
E teu pai já na agonia,
Que me estava a encomendar:
Enquanto fosses pequeno
De bom ensino te dar,
E depois que fosses grande
A bom senhor te entregar.
Ai de mim, triste viúva,
Que te não soube criar!
A el-rei te dei por amo,
Que melhor não pude achar:
Tu vais dormir coa Infanta,
De teu senhor natural!
Perdeste a cabeça, filho,
Que el-rei ta manda cortar!...
Ai! meu filho, antes que morras,
Quero ouvir o teu cantar.»
– «Como hei-de eu cantar, mi madre
Se me sinto já finar?»
– «Canta, meu filhinho, canta,
Para haver minha benção,
Que me estou lembrando agora
De teu pai nesta prisão.
Canta-me o que ele cantava
Na noite de São João;
Que tantas vezes mo ouviste
Cantar co meu coração.»

– «Um dia antes do dia
Que é dia de São João,
Me encerraram nestas grades
Para fazer penação.
E aqui estou, pobre coitado,
Metido nesta prisão,
Que não sei quando o sol nasce,
Quando a lua faz serão.»

De suas varandas altas
El-rei estava a escutar;
Já se vai onde a Princesa,
Pela mão a foi buscar:
– «Anda ouvir, ó minha filha,
Este tão lindo cantar,
Que ou são os anjos no céu,
Ou as sereias no mar.»
– «Não são os anjos no céu,
nem as sereias no mar,
mas o triste sem ventura
a quem mandais degolar.»
– «Pois já revogo a sentença
E já o mando soltar;
Prende-o tu, Infanta, agora,
Pois contigo há-de casar.»

Romanceiro, Almeida Garrett




26/06/2008

Modo correcto


Um Monge de grande devoção e instruído, atravessava uma vez um rio em um barco quando ao passar ao lado de uma pequena ilhota, ouviu uma voz de um homem que muito torpemente tentava elevar suas preces. No interior do monge não pode mais que entristecer-se.
- Como era possível que alguém fora capaz de entoar tão mal aqueles mantras? Talvez aquele homem ignorava que os mantras deviam ser recitados com entonação adequada, com ritmo e musicalidade precisas, com pronuncia perfeita.
Decidiu então ser generoso e desviando-se de seu rumo aproximou-se a ilhota para instruir aquele homem sobre a importância da correcta execução dos mantras. Não era em vão que se considerava um frande especialista e aqueles mantras não tinham para ele qualquer segredo. Quando desembarcou a ilhota, pode ver um pobre homem de aspecto sossegado cantando alguns mantras um pouco sem acerto. O monge, com serena paciência, dedicou algumas horas a instruir minuciosamente a aquele indivíduo que a cada momento mostrava efusivas mostras de agradecimento a seu instrutor. Quando entendeu que por fim aquele sujeito poderia recitar os mantras com certa capacidade despediu-se dele, advertindo-lhe:
- E lembre-se meu bom amigo, é tal a potência de estes mantras que sua correcta pronuncia permite que um homem seja capaz de caminhar sobre as aguas.
Mas apenas havia percorrido alguns metros com seu barco, ouviu a voz daquele homem a recitar os mantras ainda pior que antes.
- Que horror. Há pessoas que são incapazes de aprender nada de nada, assim pensou o monge.
- Hey, monge - escutou atrás de si uma voz muito perto.
Ao voltar-se viu ao pobre homem que, caminhando sobre a as águas, aproximava-se de seu barco e perguntava:
- Nobre monge, já esqueci-me tua instruções sobre o modo correcto de recitar os mantras. Serias, tão amável de repeti-lo novamente?




Conto Indiano


21/06/2008

O Príncipe Sapo

Era uma vez um rei que não tinha filhos e tinha muita paixão por isso, e a mulher disse que Deus lhe desse um filho mesmo que fosse um sapo. Houve de ter um filhinho como um sapo; depois botaram as folhas a ver se havia quem o queria criar, mas ninguém se animava a vir. O rei, vendo que o sopito do filho não havia quem o queria criar, anunciou que, se houvesse alguma mulher que o quisesse criar, lho dava em casamento e lhe dava o reino. Nisto aí apareceu uma rapariga e disse: «Se Vossa Real Majestade me dá o filho, eu animo-me a vi-lo criar.» O rei disse que sim e a rapariga veio criar o sopito. Depois passou algum tempo e ele foi crescendo e ela lavava-o e esmerava-o como se ele fosse uma criança. Foi indo e ele tinha uns olhos muito bonitos e falava, e a rapariga dizia: «Os olhos dele e a fala não são de sapo.» Já estava grande, passaram-se anos e ela, uma noite, teve um sonho em que lhe diziam ao ouvido que o sapo era gente, mas pela grande heresia que a mãe disse que estava formado em sapo, que se o rei lho desse para ela casar com ele que casasse e quando fosse na primeira noite que se fosse deitar, que ele tinha sete peles e ela levasse sete saias e quando ele dissesse: «Tira uma saia», lhe dissesse ela: «Tira uma pele.» Assim foi e casou o sapo com a rapariga e na noite do casamento ele pediu-lhe que tirasse ela as saias e ela foi-lhe pedindo que tirasse as peles e depois de ele as tirar ficou um homem. Ao outro dia ele tornou a vestir as peles e ficou outra vez sapo. E ela disse-lhe: «Tu para que vestes as peles? Assim és tão bonito e vais ficar sapo.» «Assim me é preciso, cala-te.» Ela, assim que se pôs a pé, foi contar tudo à rainha, e o rei mais a rainha disseram-lhe: «Quando hoje te deitares, diz-lhe o mesmo e depois de ele tirar as peles e estar a dormir, deixa a porta do quarto aberta que nós queremos ir vê-lo.» Foram-no ver e viram que ele era homem. Ao outro dia o príncipe tornou a vestir as peles e vai o pai disse-lhe: «Tu, porque vestes as peles e queres ser feio?» «Eu quero ser sapo, porque o meu pai tem mão interior e, se eu fico bonito, impõem a minha mulher.» O rei disse-lhe: «Eu não a impunha, mas queria que tu ficasses bonito.» Depois, como viram que ele não queria deixar de ser sapo, pediram a ela que, assim que ele adormecesse, lhes trouxesse as peles para eles as queimarem. Ela assim fez e eles botaram as peles ao fogo aceso. De manhã vai ele para vestir as peles e não as acha. «Que é das peles?» «Vieram aqui o teu pai e a tua mãe e levaram-nas.» «Mal hajas tu se lhas destes, mais quem te deu o conselho. Adeus. Se alguma vez me tornares a ver, dá-me um beijo na boca.»

A mulherzinha ficou mas o rei e a mulher, assim que viram que o filho faltou, puseram-na fora da porta. Ela, coitada, não tinha com que se tratar; o que era do rei lá ficou e ela estava muito pobrezinha. A todas as pessoas que via perguntava se tinham visto um homem assim e assim e lá lhe dava as notícias do príncipe. Vieram por onde ela estava uns cegos e ela fez-lhes a pergunta. Os moços dos cegos disseram-lhe: «Nós vimos no rio Jordão um homem e certamente era ele; estava botando fatias de pão para trás das costas e dizendo: «Pela alma de meu pai, pela alma de minha mãe, pela alma de minha mulher.» Ela disse-lhes: «Vocês quando tornam para essa banda?» «Nós para o fim do outro mês voltamos para lá; havemos de passar por esse rio.» A mulherzinha aprontou-se e foi com eles. Chegou lá e era o príncipe. Ela chegou ao pé dele e deu-lhe o beijo na boca como ele tinha dito e disse-lhe: «Ora vamos embora, que se acabou o nosso fado.» E foram para casa e foram muito felizes e tiveram muitos filhos.


Recolha de Adolfo Coelho