02/09/2008

O Anjo

DE cada vez que morre uma criança, vem um anjo a terra, toma o menino em seus braços, estende as suas grandes asas brancas e voa por todos os lugares que a criança amou durante sua vida.
Então, o anjo colhe um punhado de flores que leva à presença de Deus, para que ali vivam mais viçosas do que na terra. O bom Deus aperta as flores contra o peito, porém beija aquelas que prefere entre todas.
Esse beijo lhes dá voz e palavras e assim elas podem tomar parte nos hinos de louvor eterno ao Criador.
Isso foi o que contou um anjo, ao levar para o céu um menino morto e este ouvia como se fosse um sonho; depois voaram por cima daqueles lugares em que o pequeno costumava brincar e assim visitaram vários jardins cheios de flores.
– Quais as que levaremos para plantar no céu? – perguntou o garoto.
À curta distância havia uma bela roseira, mas certa mão malvada quebrava o caule e seus ramos pendiam quase murchos.
– Pobre roseira! – exclamou o menino –Vamos levá-la, para que floresça no jardim de Deus.
O anjo apanhou a roseira e beijou o menino por ter tido tão bela ideia. O pequeno abriu os olhos. Também escolheram algumas flores magníficas, sem se esquecerem as desprezadas maravilhas e as pequenas margaridinhas.
– Agora já temos muitas flores – disse o menino.
O anjo concordou inclinando a cabeça, mas ainda não levantou voo em direção ao tesouro céu. Era noite e esta estava muito aprazível e tranquila.
Ficaram na grande cidade e voaram por cima de uma rua estreita, cheia de palha e de lixo. Era fim de mês e havia várias mudanças na rua, de maneira que esta estava cheia de coisas velhas, inúteis e sujas.
No meio do lixo, o anjo descobriu um vaso quebrado e alguns torrões de terra presos pelas raízes de uma flor silvestre, grande e amarela. Não servia para nada e por isso tinha sido jogada à rua.
– Levaremos também esta flor – disse o anjo. – já lhe explicarei o motivo durante o voo.
Realmente, enquanto voava, o anjo disse:
– Nesta rua estreita, num dos sótãos mais escuros, vivia um menino pobre o doente. Desde pequenino que não abandonara o leito. Quando melhorava, só podia passear um pouco pelo aposento, apoiando-se nas muletas. Nada mais. Durante os dias de verão o sol iluminava o quarto da frente por espaço de meia hora mais ou menos. O menino ia sentar-se ao sol para aquecer-se e olhava para o sangue de seus dedos fracos e transparentes, que levava à frente dos olhos. Em tais ocasiões diziam dele: “Hoje ele, saiu”.
Tudo o que sabia dos bosques em seu primeiro frescor da primavera devia aos ramos de faia que lhe levava um menino vizinho. Levantava-os sobre a cabeça e sonhava estar sentado ao pé da faia, onde brilhava o sol e cantavam os pássaros.
Certo dia o vizinho levou-lhe também algumas flores silvestres e, entre elas, havia por acaso, uma com raízes. Plantou-a num vaso e -la colocar na janela, perto de sua cama.
Uma mão carinhosa cuidou da planta, que cresceu, deitou novos ramos e durante alguns anos deu lindas flores. Para o menino doente aquele era um formoso jardim e o maior tesouro da terra.
Regava e cuidava dela. Cresceu em seus sonhos, floresceu até o dia em que o Pai Celestial o chamou para si.
Regava e cuidava da planta, fazia o possível para que recebesse a maior quantidade de sol possível, tanto quanto este chegava até a pequena janela.
Cresceu em seus sonhos, floresceu para ele e para ele também espalhava seu aroma e alegrava seus olhos. E com o rosto virado para ela morreu, quando o Pai Celestial o chamou para si.
Agora, faz um ano que tem um lugar na presença de Deus e durante esse tempo a flor foi esquecida na janela, onde murchou, e, ao levarem a mudança, foi jogada ao monte de lixo da rua. E é essa flor que estamos levando incorporada ao nosso ramo, porque ela proporcionou mais alegrias do que a flor mais preciosa do jardim da rainha.
– Como sabe de tudo isso? – perguntou o menino nos carinhosos braços do anjo.
– Porque era eu o menino doente, que andava de muletas. E pode estar certo de que conheço muito bem a minha flor.
O menino abriu muito os olhos, fitou o formoso e feliz rosto do anjo e naquele instante chegaram ao céu, onde tudo era alegria e felicidade.
O Pai Celestial apertou o menino morto contra o peito e logo o recém-chegado recebeu um par de asas como o outro anjo, de modo que ambos puderam voar de mãos dadas.
E Deus apertou as flores contra o coração, beijando a pobre flor silvestre emurchecida, a qual recebeu o dom da voz e da palavra, e assim pôde unir-se ao coro de anjos que rodeava o Senhor.
Alguns estavam muito perto, outros em círculos distantes, que se estendiam até o Infinito; mas todos eram igualmente felizes.
Todos entoavam a alegre canção, grandes e pequenos, o menino bom e a pobre flor silvestre, que tinha sido arrancada do monte de lixo de uma das ruas mais estreitas e sinuosas daquela cidade.

Hans Christian Andersen






01/09/2008

A gota e a aranha


Quando a aranha e a doença da gota
Rebentaram do abismo infernal,
"Sois, ó filhas, lhes disse o demônio,
Dois terríveis agentes do mal.

Cumpre agora escolher os lugares,
Para vossa morada talhados;
Vede aqueles humildes casebres,
E esses lindos palácios dourados;

Decidi-vos por uns, ou por outros,
Pois que neles deveis habitar;
E, na falta de acordo, é preciso
Pela sorte essa escolha fixar."

"Vá morar quem quiser em choupanas!"
(Diz a aranha com ar de desprezo).
Mas a gota que vira em palácio
Uma escola hipocrática em peso;

Refletiu que entre tantos doutores
Não podia à vontade viver;
Preferiu a palhoça e no artelho
De um lapuz foi-se, a gosto, esconder.

"Creio (diz) que não fico inativa
Neste posto que a salvo escolhi,
E que a gente que segue a Esculápio
Não me obrigue a mudar daqui.

Num floreio dourado do teto
Fez a aranha segura guarida,
Trabalhando a valer, qual se houvesse
Arrendado aposento por vida.

Que engenhosa era a teia que urdira!
Quantas moscas na rede prendeu!
Mas no dia seguinte a criada
Todo aquele artefato varreu.

Surge a rede tecida de novo,
E a vassoura outra vez a arrepanha,
Compelindo a mudar de aposento
Cada dia coitada da aranha.

Tendo embalde exaurido os recursos,
Foi o inseto da gota em procura;
Encontrou-a no campo gemendo
Entre as garras de atroz desventura.

Nem a mais infeliz das aranhas
Poderá comparar-se com ela.
Racha lenha com seu hospedeiro.
Cava, sacha, revolve a coirela.

Atormente-se a gota (é provérbio)
E metade da cura teremos. —
Diz a gota "Ai, irmã! Já não posso!
Eu vos peço — de casa troquemos."

Pronta a irmã da palavra lhe pega
E a cabana investiu sem tardança;
Lá não acha vassouras que a forcem
A viver em contínua mudança.

Eis a gota, que às juntas, de um bispo
Do seu lado, frechara direito.
Ceva nele o furor, condenando-o
A não mais levantar-se do leito.

São baldadas fricções, cataplasmas;
Vai de mal a pior o doente;
Nem se pejam os tais doutoraços
De entreter a moléstia da gente.

Foi-lhes útil, portanto, o remédio;
Dessa troca vantagens colheram.
Ambas tendo conforto e agasalho
Satisfeitas da sorte viveram.

Barão de Paranapiacaba (Trad.)

31/08/2008

O raposo e o bode


O capitão raposo
Ia caminho ao lado
De seu amigo bode,
D'alta armação dotado.

Este não via um palmo
Diante do nariz;
Era formado aquele;
Nas burlas mais subtis.

Ungidos pela sede,
Lograram penetrar
Num poço, cujas águas
Sorveram a fartar.

Disse o raposo ao bode:
"O que fazer agora?
Beber não foi difícil;
É sim vir para fora.

As tuas mãos e pontas
Ergue, compadre, acima,
E o corpo sobre o muro
Solidamente arrima.

Subindo por teu lombo,
Trepando na armação,
Alcançarei a borda,
A fim de dar-te a mão."


BODE
"Por minhas barbas, digo:
Podes ficar ufano!
Jamais eu descobrira
Tão engenhoso plano."

Safando-se o raposo,
O bode lá deixou;
E sobre a paciência
Este sermão pregou:


RAPOSO
"Se Deus te dera tino
Em dose, à barba igual,
De certo não caíras
Em arriosca tal.

O caso é que estou fora!
E pois, compadre, adeus!
Livra-te desse apuro,
Dobrando esforços teus.

Veda negócio urgente
Que eu possa te valer."

Quem entra numa empresa
O fim deve prever.

Barão de Paranapiacaba (Trad.)

29/08/2008

Dom Claros de Além-Mar

– «Quero fazer uma aposta,
Ou eu não sei apostar:
Claralinda há-de ser minha
Antes do galo cantar.»
– «Apostar, apostareis,
Mas não haveis de ganhar;
Que é discreta a Claralinda,
Ninguém na pode enganar.»
Não quis ali dizer nada,
Não quis ali mais falar;
Vestiu trajos de donzela
E se pôs a caminhar.
Lá estava a Claralinda
De seu balcão a mirar:
– «Que donzela tão bonita!
Quem é e o que vem buscar?»
– «É a tecedeira, senhora,
Que vem das praias do mar;
Tem a sua teia urdida,
E a falta vem na buscar.»
– «Aí tenho a falta, donzela,
Mas inda está por dobar.»
– «Senhora, que se faz tarde
E eu não posso esperar:
De noite pelos caminhos
Donzelas não hão-de andar.»
– «Para honra da donzela,
Aqui hoje há-de poisar.»
– «Tendes criados tão moços,
Tão atrevidos do olhar...»
– «Para honra da donzela
No meu quarto há-de ficar.»

A donzela, de contente,
À noite não quis cear;
Tinha sono, tanto sono,
Que se quis logo deitar.
Lá por essa noite adiante
Claralinda de gritar...
– «Cala-te, ó Claralinda,
Não te queiras difamar,
Que eu sou de nobre gente
E contigo hei-de casar:
Fia-te nesta palavra
De Dom Claros de Além-mar.»

Passados são tantos dias,
Tão compridos de esperar:
Não voltou a tecedeira,
Mas a teia ia a dobar
Aos sete para oito meses
O pai à mesa a jantar:
– «Claralinda, Claralinda,
Que feio é o teu trajar!»
– «Não diga tal, senhor pai,
Ninguém lhe oiça tal falar:
Não sou eu, é da vasquinha
Que é mal feita e dá mau ar.»
Mandou chamar alfaiates
Para se desenganar:
Disseram uns para os outros:
– «Não tem falta a saia tal.»

Não há ali mais que dizer,
Não há mais que perguntar:
– «Prepara-te, ó Claralinda,
Que amanhã vais a queimar.»
– «Não se me dá que me matem,
Que me levem a queimar,
Dá-se-me deste meu ventre
Que é de sangue real!...
Haverá por aí um pajem
Que o meu pão queira ganhar,
E que me leve esta carta
A Dom Claros de Além-mar?»
Aparece um pajenzito
Discreto no seu falar:
– «Aqui está um mensageiro
Que o recado quer levar.»
– «Se o meu pão queres comer,
A toda a pressa hás-de andar,
E entregarás esta carta
A Dom Claros de Além-mar.»

– «Que quereis, ó pajenzito,
Que vindes aqui buscar?»
– «Trago uma carta, senhor,
Novas de muito pesar;
Novas lhe trago, más. Novas
Da sua amiga leal:
Hoje se lhe ajunta a lenha,
Amanhã vai a queimar.»
Ele pôs-se a ler a carta,
Não a podia acabar;
As lágrimas eram tantas
Que o faziam cegar:
– «Oh lá, oh lá, escudeiros,
Os cavalos a ferrar;
Jornada de quatro dias
Esta noite se há-de andar.»

Chega a um convento de frades,
Estava o sino a dobrar:
– «Por quem dobra o sino, padre,
Por quem está a tocar?»
– «É a infanta Claralinda
Que se está a agonizar:
Ontem juntaram-lhe a lenha,
Hoje a levam a queimar.»
Era quase manhã clara,
Mandou seus pajens deitar,
Vestiu-se em trajos de frade,
Foi ao caminho esperar:
– «Parem lá os da justiça,
Justiça de mau pesar,
Que a menina que aí levam
Inda vai por confessar.»

Deixaram-no ao bom do frade
Para a infanta confessar.
Mal se ele viu só com ela,
De amores lhe foi falar:
– «Venha cá, minha menina,
Que a quero confessar;
No primeiro mandamento
Um beijinho me há-de dar.»
– «Não permita Deus do céu
Nem os santos do altar!
Onde Claros pôs a boca
Não me há-de um frade beijar.»
– «Venha cá, minha menina,
Que a quero confessar;
No segundo mandamento,
Um abraço me há-de dar.»

– «Vai-te na má hora, frade,
Que a mim não hás-de chegar;
Que a mim nunca chegou homem,
Se não – inda mal pesar!
Senão só esse Dom Claros,
Dom Claros o de Além-mar,
Que, por meus grandes pecados,
Por ele vou a queimar!»

Dom Claros que tal ouviu,
Não pôde o riso ocultar.
– «Por esse riso que dais,
Sois Dom Claros de Além-mar...»
– «Cala-te, ó Claralinda,
Que te venho libertar;
Já está tecida a teia,
Vamo-la agora a curar.»

Tomou-a logo nos braços
Puseram-se a caminhar:
Estava perto o convento,
Viram-nos os pajens chegar.
Chegavam, não chegariam...
A justiça de bradar.
– «Nas ancas de meu cavalo,
Menina, haveis de montar.
Assim foi livre a. infanta
Por Dom Claros de Além-mar.»


Romanceiro, Almeida Garrett




D. Caio


Era um alfaiate muito poltrão, que estava trabalhando à porta da rua; como ele tinha medo de tudo, o seu gosto era fingir-se de valente. Vai de uma vez viu muitas moscas juntas e de uma pancada matou sete. Daí em diante não fazia senão gabar-se:
- Eu cá mato sete de uma vez!
Ora o rei andava muito aparvalhado, porque lhe tinha morrido na guerra o seu general Dom Caio, que era o maior valente que havia, e as tropas do inimigo já vinham contra ele, porque sabiam que não tinha quem mandasse a combatê-las. Os que ouviram o alfaiate andar a dizer por toda a parte: “Eu cá mato sete de uma vez!” foram logo metê-lo no bico do rei, que se lembrou de que quem era tão valente seria capaz de ocupar o posto de Dom Caio.
Veio o alfaiate à presença do rei que lhe perguntou:
- É verdade que matas sete de uma vez?
- Saberá Vossa Majestade que sim.
- Então nesse caso vais comandar as minhas tropas e atacar os inimigos que me estão cercando.
Mandou vir o fardamento de dom Caio e fê-lo vestir ao alfaiate, que era muito baixinho, e que ficou com o chapéu de bicos enterrado até às orelhas; depois disse que trouxessem o cavalo branco de Dom Caio para o alfaiate montar. Ajudaram-no a subir para o cavalo, e ele já estava a tremer como varas verdes; assim que o cavalo sentiu as esporas botou à desfilada, e o alfaiate a gritar:
- Eu caio, eu caio!
Todos os que o ouviam por onde passava diziam:
- Ele agora diz que é o Dom Caio; já temos homem.
O cavalo, que andava acostumado às escaramuças, correu para o sítio em que se combatia, e o alfaiate com medo de cair ia agarrado às crinas, a gritar como um desesperado:
- Eu caio, eu caio!
O inimigo, assim que viu o cavalo branco do general valente e ouviu o grito: “Eu caio, eu caio!”, conheceu o perigo em que estava, e disseram os soldados uns para os outros:
- Estamos perdidos, que lá vem o Dom Caio; lá vem o Dom Caio!
E botaram a fugir à debandada; os soldados do rei foram-lhes no encalço e mataram-nos, e o alfaiate ganhou assim a batalha só em agarrar-se ao pescoço do cavalo e em gritar: “Eu caio”.
O rei ficou muito contente com ele e, em paga da vitória, deu-lhe a princesa em casamento, e ninguém fazia senão louvar o sucessor de Dom Caio pela sua coragem.


Recolha de Teófilo Braga


27/08/2008

O malmequer



Ouvi com atenção esta pequenina história:
No campo, junto da estrada real, havia uma casinha muito bonita, que deveis ter visto muitas vezes. Há na frente um jardinzinho com flores, rodeado por uma sebe verdejante. Ali perto, nas bordas do vaiado, no meio da erva espessa, floria um pequenino malmequer. Desabrochava a olhos vistos, graças ao Sol, que repartia igualmente a sua luz tanto por ele como pelas grandes e
ostentosas flores do magnífico jardim. Uma linda manhã, já inteiramente luminosa, com as folhinhas alvas e desabrochando, parecia um sol em miniatura circundado de raios.
Pouco se lhe dava que o vissem no meio da erva e não fizessem caso dele, pobre florinha insignificante. Vivia satisfeito, aspirando deliciado o calor do Sol, e ouvindo o canto da cotovia, que se perdia nos ares.
Nesse dia o malmequer, apesar de ser numa segunda-feira, sentia-se tão feliz como se fosse um domingo. Enquanto as crianças sentadas nos bancos da escola estudavam a lição, ele, sentado na haste verdejante, estudava na formosura da natureza a bondade de Deus, e tudo o que sentia misteriosamente, em silêncio, julgava ouvi-lo traduzido com admirável nitidez nas canções alegres da cotovia. Por isso, pôs-se a olhar com uma espécie de respeito, mas sem inveja, para essa avezinha feliz que cantava e voava.
– Eu vejo e oiço, ponderou o malmequer; o Sol aquece-me e o vento acaricia-me. Ora, adeus! não tenho razão de me queixar.
Dentro da sebe havia muitas flores altivas, aristocráticas; quanto menos aromas rescendiam, mais orgulhosas se aprumavam. As dálias empertigavam-se, para fingir maior tamanho que o das rosas; mas não é o volume que faz a rosa. As túlipas davam-se ares pela beleza das cores, pavoneando-se pretensiosamente. Nem se dignavam lançar os olhos ao pequenino malmequer, enquanto que o pobrezinho as admirava exclamando: – «Que ricas e que bonitas! A cotovia irá certamente visitá-las. Graças a Deus, poderei assistir a este belo espectáculo». – E no mesmo instante a cotovia dirigiu o voo, não para as dálias e túlipas, mas para a relva, junto do triste malmequer, que morto de ventura nem sabia o que havia de pensar.
E o passarinho, saltitando em roda alegremente, cantava: – «Que erva tão macia! ai! que bonita flor, com um coração de oiro, vestidinha de prata!»
Não pode imaginar-se a felicidade do malmequer!
A ave acariciou-o com o bico, gorjeou de novo, e perdeu-se depois no azul do firmamento. Durante mais de um quarto de hora não pôde o malmequer reprimir a sua comoção. Meio envergonhado, mas todo contente, olhou para as outras flores do jardim, testemunhas da grande glória que ele acabava de alcançar; mas a haste vermelha e pontiaguda das túlipas manifestava o despeito. As dálias tinham a cabeça toda inchada.
Se falassem, diriam coisas bem desagradáveis ao pobre malmequer. A florinha viu isto, e ficou melancólica.
Daí a pouco entrou no jardim uma rapariguita com uma grande faca afiada e brilhante, aproximou-se das túlipas, e cortou-as uma a uma.
– Que desgraça! disse o malmequer suspirando; é horrível; foram-se todas.
E, enquanto a rapariga levava as túlipas, o malmequer alegrava-se por ser apenas uma florinha simples escondida entre as ervas. Agradecido à bondade de Deus, cerrou as folhas ao cair da tarde, e sonhou toda a noite com a luz do Sol e a cotovia.
No outro dia de manhã, assim que o malmequer abriu as folhas reconheceu a voz do passarinho, mas o seu canto era triste, muitíssimo triste. Pobre cotovia! Tinham-na encerrado numa gaiola, suspensa entre uma janela aberta; prisioneira, cantava a alegria da liberdade, a beleza dos campos e as suas antigas viagens luminosas através do espaço ilimitado.
O pequenino malmequer bem desejaria acudir-lhe: mas como? Era difícil. A compaixão pela desventurada cotovia fez-lhe esquecer as belezas que o cercavam, o doce calor do Sol e a alvura resplandecente das suas próprias folhas.
Nisto dois rapazinhos entraram no jardim. O mais velho trazia aberta uma navalha comprida e afiada como a da pequerrucha, que cortara as túlipas. Encaminharam-se para o malmequer, que não lhes compreendia as intenções.
– Levemos daqui um pedaço de erva para a cotovia, disse um dos rapazes.
E começou a fazer um quadrado profundo à volta da florinha.
– Arranca a flor, disse o outro.
A estas palavras o malmequer estremeceu de medo. Ia morrer e nunca abençoara tanto a existência, como no momento em que esperava entrar com a relva na gaiola da cotovia.
– Não; deixemo-la, tornou o mais velho. Está aí muito bem.
Foi por conseguinte poupado, e entrou na gaiola da cotovia.
O pobre passarinho, queixando-se amargamente do cativeiro, batia com as asas sangrentas nos arames da gaiola. E o malmequer, se não falava, como é que o havia de consolar em tamanha dor?
Correu assim a manhã.
– Água! exclamou a prisioneira. Saiu toda a gente, e não me deixaram ao menos uma gota de água. A garganta escalda-me, ardo em febre. Ai! Não há remédio senão morrer, longe do sol esplêndido, longe da fresca verdura e de todas as maravilhas da criação!
Depois mergulhou o bico na relva húmida, para se refrescar um pouco. Viu então o malmequer; fez-lhe um sinal de cabeça amigável, e disse-lhe afagando-o:
– Também tu, pobre flor, morrerás aqui! Em vez do mundo inteiro, que já foi meu, deram-me a tua companhia e este pedacito de relva. Nada mais! Oh! que saudades das belas coisas que perdi!
– Se eu te pudesse consolar! cismava o malmequer, incapaz do mais ligeiro movimento.
No entanto o seu hálito perfumado tornou-se mais intenso que de costume; a cotovia sentiu-o, e, apesar da sede devoradora que a obrigava a arrancar a erva, teve o máximo cuidado em não bulir, nem de leve, na pequenina flor.
Caiu a noite; e não voltara ninguém, que enchesse o bebedoiro à desventurada cotovia. Então ela abriu as suas lindas asas, agitou-as angustiadamente, e pôs-se a cantar uma cançãozinha melancólica; e o seu coração, quebrado de penas, enfim, deixara de bater. O malmequer, diante disto, não pôde já, como na véspera, cerrar as folhas e dormir; curvou-se para o chão, doente de mágoa e de tristeza.
Os rapazitos só no outro dia voltaram, e, dando com o passarinho morto,debulhados em lágrimas, fizeram-lhe uma cova. Meteram o cadáver numa caixa vermelha, lindíssima, e celebraram-lhe um enterro grandioso, juncando-lhe a sepultura com folhas de rosas e madressilvas.
Pobre passarinho! Enquanto viveu e cantou, esqueceram-se dele deixando-o morrer à sede na gaiola; depois de morto é que o choraram, prestando-lhe homenagens bem inúteis.
A relva e o malmequer, deitaram-nos à poeira do caminho; a flor, que tão extremosamente amara a cotovia, dessa é que ninguém se lembrou.



22/08/2008

Os Lavradores Maus




Havia um homem, dono da casa, que plantou uma vinha. Cercou-a de uma sebe, construiu nela um lagar, edificou-lhe uma torre e arrendou-a a uns lavradores.
Depois, se ausentou do país. Ao tempo da colheita, enviou os seus servos aos lavradores, para receber os frutos que lhe tocavam. E os lavradores, agarrando os servos, espancaram a um, mataram
a outro e a outro apedrejaram.
Enviou ainda outros servos em maior número; e trataram-nos da mesma sorte. E, por último, enviou-lhe o seu próprio filho, dizendo: A meu filho respeitarão.
Mas os lavradores, vendo o filho, disseram entre si: este é o herdeiro, ora, vamos, matemo-lo e apoderemo-nos da sua herança. E, agarrando-o, lançaram-no fora da vinha e o mataram.
Quando, pois, vier o senhor da vinha, que fará aqueles lavradores?
Responderam-lhe: Fará perecer horrivelmente a estes malvados e arrendará a vinha a outros lavradores que lhe remetam os frutos nos seus devidos tempos.
Perguntou-lhes Jesus: Nunca lestes nas Escrituras: A pedra que os construtores rejeitaram, essa veio a ser a principal pedra angular; isto procede do Senhor e é maravilhoso aos nossos olhos?
Portanto, vos digo que o reino de Deus vos será tirado e será entregue a um povo que lhe produza os respectivos frutos.
Todo o que cair sobre esta pedra ficará em pedaços; e aquele sobre quem ela cair ficará reduzido a pó.
Os principais sacerdotes e os fariseus, ouvindo estas parábolas, entenderam que era a respeito deles que Jesus falara; e, conquanto buscassem prendê-lo, temeram as multidões, porque estas o consideravam como profeta.


Parábolas de Jesus
Evangelho de Mateus cap. 21 vers. 33-46




20/08/2008

História da donzela de pau


Contam os livros do passado muitas histórias verdadeiras. Por exemplo, que um dia quatro homens: um carpinteiro, um ourives, um alfaiate e um monge, foram viagem. Depois de viajarem certo tempo, aconteceu terem que tiveram de passar a noite numa região perigosa. Temendo ser agredidos por animais ferozes, resolveram que cada um deles, por sua vez, vigiaria algum tempo. O primeiro foi o carpinteiro. Enquanto os outros dormiam, sentiu-se ele invadido de cansaço e, para afugentar o sono, pegou suas ferramentas. Derrubou uma árvore delgada, pôs-se a talhar a madeira, e acabou formando uma figura de donzela, com a cabeça, a mãos e os pés.
Depois foi a vez do ourives. Ao cabo de certo tempo, também este sentiu sono e procurou em que se ocupar. Então seus olhos encontraram a donzela de pau.
Admirou a arte com que estava feita e, para não ceder à sonolência, também deu provas de sua habilidade, fabricando para a estátua brincos, braceletes e outros adornos femininos, com os quais a enfeitou maravilhosamente.
Terminada a vigília do ourives, o alfaiate, por seu turno, ao despertar, avistou, com forte surpresa, o lindo figurino, e exclamou:
- Eu também tenho de mostrar a minha arte.
E fez um encantador vestido de festa para a donzela e vestiu-a da cabeça aos pés Quem a visse sem saber que era apenas uma figura esculpida, toma-la-ia por um ser vivo, tão parecido estava com um espírito encarnado.
Quando a vigília do alfaiate chegou ao fim, ele acordou o monge e foi deitar-se. Mal o monge abriu os olhos, viu a formosa figura Teve a impressão de um viandante a cujos olhos, em meio as trevas nocturnas, de repente rebrilha uma luz - e aproxima-se dela. Que viu? Uma linda figura - de tal formosura – que nem ascetas -e anacoretas - a deixariam de adorar; - uma bela – donzela - sem-par; - suas sobrancelhas, um oratório, para o amante -suplicante - rezar;
- os rubis dos lábios numa tez de marfim - prometiam prazeres sem fim. - logo o monge os braços alçou. -implorando a Quem as almas criou:
O Deus todo-poderoso, - que do seio do nada brumoso -para os campos floridos do ser - arrancaste o homem e a mulher, tu, só tu, tens o poder - de fazer brotar do córtice duro -fruto doce, fofo, maduro; - ó Deus, demonstra-me tua graça, -não me precipites na desgraça, -- ante os meus companheiros não me humilhe; eu te invoco, - empresta alma a este corpo oco. -a fim de que goze da existência - exaltando a tua clemência.
Assim rezava com todo fervor. Como fosse homem de coração puro, o Senhor ouviu-lhe a prece. Com sua inesgotável misericórdia, o Eterno presenteou a estátua com uma alma, e mandou-a viver. Ela se tornou uma linda donzela, cola a vida ligada a uma brilhante estrela; - começou a andar, - a se balancear, - como os ciprestes oscilam no ar - e sem demora se pôs a falar, - e tudo o que dizia era gaio - como a fala de um papagaio.
Ao chegar da aurora e, com ela, do Sol, delicia do mundo, as olhos dos quatro viandantes caíram sobre o ídolo arrebatador chamado à vida durante a noite.
Apenas viram a esplêndida mulher, - uma louca paixão lhes invadiu o ser, - os anéis de seus cabelos prenderam-nos em cadeias. - e feitos moscas ao redor e candeias, voaram em torno dela, dementes, - e de paixão doentes - os quatro começaram a brigar.
Sou eu - disse o carpinteiro - de sua vida o autor verdadeiro - Meu direito a vós outros vence; - a mim, só a mim ela pertence.
Porém o ourives falou assim:
Não lhe dei brincos, braceletes, enfim? Isso, como todos devei saber, - é metade da alma de uma mulher. Ora, se tanto fiz por ela, claro que é minha esta donzela.
Disse o alfaiate, por sua vez:
Despesas com da minha bolsa também fez; - vesti-a seda e brocado, - tomando o seu encanto perfeito e acabado - comunicando-lhe um brilho tal - que acendeu nela a chama vital. Portanto, sou eu o sou dono, - e a ninguém a abandono.
Mas o monge exclamou:
Não! - Tudo o que disseste é vão. Então esqueces me sua vida é fruto de minhas preces? - Foi a mim que deu o Supremo Juízo, - como antegozo das huris do Paraíso - Para mim a requisito; - meu direito é manifesto!.
Em poucas palavras. não encontraram outra saída a não ser si meter suas reivindicações à decisão de um tribunal; e iam-se caminhar ao mais próximo, quando aparece diante deles um viandante vestido de pano de chita. Logo os quatro resolvem fazê-lo árbitro de sua divergência o aceitar qualquer sentença ele pronunciasse. Chamaram-no, pois. e contaram-lhe minuciosamente todo o sucedido. Mas logo o daroês viu a linda donzela - apaixonou-se por ela, - e, como flauta plangente, entrou a gemer de repente, - reflectiu uni momento, e, para curar o seu próprio tormento, assim falou aos quatro viajantes:
- Ó muçulmanos que palavras estultas acabais de pronunciar! Não temeis o Todo-Poderoso ao cometer tamanho crime querendo-me roubar minha legítima esposa?
Um de vós até ousa pretender havê-la talhado na madeira; outro ter pronunciado uma prece por ela. Dizei, afinal, algo de razoável, algo de possível segundo a lei divina! Esta é a minha mulher e as vestes e os objectos que ela usa, fui eu que mandei fazê-los. Alguns dias atrás, houve entre nós uma briga sem importância; aborrecida com isso, minha mulher deixou a casa esta noite. O desejo de encontrá-la fez-me ir à procura dela. Graças a Deus consegui encontrá-la,
efectivamente. Cuidai vós outros pois, de não vos tonardes ridículos com conversas, destituídas de qualquer fundamento.
Assim o daroês, em vez de resolver a contenda, sobrepujou as reivindicações dos quatro viajantes, e então foram cinco a pretender cada um estar com razão contra os demais. Em discussões e brigas chegaram a uma cidade, e sem demora se dirigiram ao chefe de polícia para expor o seu caso. Mal o chefe de policia viu a jovem, apaixonou-se por ela com veemência mil vezes maior do que a dos cinco forasteiros, e, no intuito de obtê-la para si investiu deste modo contra eles:
- Homens pérfidos, esta criatura era mulher de irmão mais velho. Este foi morto por ladrões, que lhe roubaram a esposa. Mas, graças a Deus, sangue derramado não se perde e vossos pés vos conduziram ao laço.
Destarte o chefe de policia terminou sendo um rival mais impetuoso ainda que os outros cinco; mandou citá-los sem tardança perante a justiça e ele mesmo os acompanhou ao cádi. Cada um se esforçava por explicar sua pretensão àquele respeitável personagem, quando ele de súbito olhou para o rosto da mulher.

Surgiu-lhe ante os olhos formosa menina.
Dos pés a cabeça – graciosa, divina!
Altivo cipreste, perdido deixava
Enfermo de amores, a quem fitava.

Quando o cádi viu ante si essa criatura, sentiu-se presa do desejo de possuí-la.
- Meus amigos, disse ele, a contenda que estais levantando é nula. Esta linda mulher é uma escrava crescida em minha casa e tratada desde criança como se fora minha filha. Seduzida por homens maus, abandonou-me, levando as jóias e as vestes com que a vedes. Graças sejam dadas ao Altíssimo que ma restitui mercê de vossa obsequiosidade. Espero que Deus, que tudo sabe, leve em conta o serviço que me acabais de prestar e vos dê merecido prémio.
Ao ouvir tais palavras, quatro dos competidores de apartaram, porque sabiam que o cádi lhes poderia infligir humilhações e castigos sem que eles se pudessem defender. Mas o darôes teve coragem para levantar a voz:
- Achas lícito, tu que pretender estar sentado no tapete do Profeta, não resolver uma contenda de muçulmanos ortodoxos segundo a lei sagrada, mas, pelo contrário, levantar tu mesmo uma pretensão, procurando arrebatar-nos esta donzela? Que religião te autoriza semelhante injustiça? Como te atreverás a comparecer amanhã, perante o Criador do mundo?
- Olha, ladrão de estátuas – respondeu o cádi, tu que por meios de jejuns encovaste as faces para enganar as gentes; tu que pretender fazer crer que andas curvado pelo temor de Deus, olha o provérbio que diz: “Um bom mentiroso deve ter não só excelente memória, mas também uma inteligência penetrante e aguda.”
Onde a tua inteligência? Querendo contar-nos patranhas, procura, ao menos, dar-lhes uma aparência decente. Será possível fazer um ser humano de um pedaço de madeira? Renuncia a pretensões tão ridículas e vai-te para onde quiseres. Eu felizmente recuperei minha escrava.
Havia no pátio do tribunal alguns cidadãos que assistiam à disputa. Referindo-se a estes, disse o monge:
- Os cidadãos aqui presentes, como ignoram o verdadeiro estado das coisas, devem supor, ó cádi, que a verdade está contigo Mas nós outros sabemos bem o que aconteceu.Teme pois, a Deus, e, em respeito ao Santo Profeta, decide o caso segundo a lei sagrada.
O cádi replicou ao monge, o monge por sua vez respondeu ao cádi com as palavras que lhe pareceram mais violentas, e de pronto o diálogo se transformou em veemente discussão.Os sete homens, todos mortalmente apaixonados, preparavam-se para a luta. Porém, os mais razoáveis dos circunstantes deliberaram reconciliá-los e disseram-lhes:
- Muçulmanos, a vossa contenda é um nó insolúvel, a menos que o Magnífico se digne desatá-lo. Portanto, atendendo ao conselho de um ditado do Profeta que nos foi transmitido:

Se a um caso da vida não sabes achar solução,
Consulta os que dormem seu sono debaixo do chão.

- Vamos todos juntos ao cemitério; ali vós rezareis e nós pronunciaremos o amém Destarte se pode esperar que Aquele-Que-Tudo-Segura elucide o mistério.
A proposta foi aceita e transportaram-se todos ao cemitério, onde o monge, erguendo os braços ao céu, e com lágrimas nos olhos, pronunciou com o mais intenso fervor, esta oração:
- Ó Fortíssimo, cujo poder não tem lindas, - que os pensamentos mais secretos deslindas -, cuja mente de antemão conhece – a nossa prece, - imploramo-te que desates o nó, que nos causa tanto dó – e declares bondosamente – quem diz a verdade e quem mente.
Quando acabou de pronunciar estas palavras, toda a assembleia exclamou a uma voz:
- Amém!
Nesse instante aconteceu que uma grande árvore, à qual se recostara a linda donzela durante a oração, fendeu-se de súbito, engoliu a donzela, e novamente se fechou, ficando como dantes. Dessa maneira se verificou mais uma vê a verdade da misteriosa sentença: “Todas as coisas voltam a sua origem.”
Tal desfecho pôs fim a qualquer discussão. Com os olhos da certeza, todos reconheceram que os quatro viajantes haviam dito a verdade e os outros homens haviam mentido. Assim a razão dos peregrinos se manifesta – e desmascara-se a fraude infesta. O darôes, o chefe de polícia e o cádi ali ficaram – e quedaram – de todos desprezados – e envergonhados.
Mas os quatro peregrinos – apaixonados pelo lindo figurino, ficaram perplexos ao ver a virgem – tornar destarte à sua origem.


Conto Árabe

18/08/2008

Lukoie

NINGUÉM no mundo é capaz de contar tantas e tão bonitas estórias como Olé Lukoie. Quantas estórias ele sabe! Quando anoitece e as crianças estão em volta da mesa, comportando-se da melhor maneira possível, sentadas em suas cadeiras, Olé Lukoie entra cautelosamente.
Sobe as escadas descalço, tão silenciosamente e abrindo a porta com tanto cuidado, que ninguém pode ouvi-lo.
Imediatamente, puff! joga um punhado de pó muito branco e muito fino nos olhos das crianças, que já não conseguem tê-los muito abertos, devido ao sono que está chegando e por isso não o vêem.
Vai até as suas costas e sopra em seus pescoços de tal forma, que as cabecinhas vão ficando pesadas, como se fossem de chumbo; mas nunca lhes causa o menor dano, já que age dessa maneira por gostar muito de crianças. Só deseja que fiquem quietinhas, para que possa deitá-las, e quando já estão em suas caminhas, conta-lhes as suas estórias.
Enquanto as crianças estão adormecendo, Olé Lukoie se senta na cama. Vai muito bem vestido; sua roupa é de seda, mas seria impossível saber de que cor é, porque de cada vez que se volta ela brilha com reflexos veres, vermelhos e azuis.
Debaixo de cada braço leva um guarda-chuva, um com desenhos no pano, que estende sobre os meninos bondosos, para que sonhem com as estórias mais lindas durante a noite.
O outro guarda-chuva não tem desenhos e ele o abre sobre os meninos que foram maus; assim eles dormem sem sonhar durante toda a noite.
Vou falar-lhes sobre um menino em casa de quem Olé Lukoie apareceu durante uma semana inteira. Chamava-se Marcelo.
E aqui lhes conto sete estórias, porque, como todos sabem, a semana tem sete dias.

SEGUNDA-FEIRA
– Agora espere – disse Olé Lukoie à noite, depois que Marcelo se deitara. – Primeiramente vou arrumar umas coisas.
De repente, todas as plantas que havia nos vasos se transformaram em árvores enormes, cujos ramos chegavam até o teto e ao longo das paredes, de modo que o quarto ficou parecendo uma deliciosa praça.
Os ramos estavam cobertos de flores e estas eram mais lindas do que as rosas; exalavam um perfume delicioso e se alguém tentasse comê-las, veria que sabiam muito melhor que o doce mais estranho. Os frutos brilhavam como ouro e havia bolos recheados de ameixas. Uma maravilha!
Subitamente, ouviram-se tristes queixumes vindos da gaveta da mesa, onde estavam guardados os livros escolares de Marcelo.
– Que é isso? – perguntou Olé Lukoie, indo abrir a gaveta.
Era a estória que se queixava e se retorcia, porque havia uma conta errada na soma escrita sobre ela e estava a ponto de quebrar-se em mil pedaços.
O lápis saltava e patinhava preso por um fio de barbante, esforçando-se por consertar a soma, mas não conseguia.
Também o caderno de escrita de Marcelo queixava-se tristemente; em cada uma de suas páginas havia uma fila de letras maiúsculas manuscritas, com a sua correspondente minúscula ao lado.
Em baixo delas, havia outras letras que davam a ilusão de se parecerem com as primeiras. Eram as que Marcelo escrevera. Pareciam ter caído e não poderem ficar em pé.
– Vejam bem como devem ficar – diziam as letras da primeira linha. – Assim... um pouco inclinadas e com um elegante traço para fora.
– Bem que gostaríamos – diziam as letras de Marcelo, – mas não podemos. Fizeram-nos tão torcidas!
– Nesse caso, tomarão uma dose de remédio – disse Olé Lukoie.
– Oh, não! – exclamaram elas, fazendo esforços para se endireitarem da melhor maneira possível.
– Bem, agora já não podemos contar mais nenhuma estória – disse Olé Lukoie. – É preciso que essas letras façam algum exercício. Um, dois! Um, dois!
E assim fez as letras trabalharem, e elas se mantinham tão retas, que os modelos da primeira linha não podiam resistir-lhes. Porém, quando Olé Lukoie foi embora e Marcelo despertou pela manhã, observou que elas estavam tão torcidas quanto antes.

TERÇA-FEIRA
Assim que Marcelo foi para a cama, Olé Lukoie tocou os móveis com a sua varinha de madeira e todos começaram a falar. Falavam de si mesmos, pois não tinham outro assunto.
Havia um quadro com moldura dourada, que estava colocado sobre a cómoda; representava uma paisagem, na qual se viam velhas e grandes árvores, flores na grama e uma grande extensão de água, assim como um rio que nascia nela e se ocultava atrás do bosque, passando na frente de muitos castelos antes de desembocar no mar.
Olé Lukoie, tocou o quadro com sua varinha e os pássaros do quadro começaram a cantar. Os ramos das árvores se agitaram e as nuvens atravessaram lentamente o céu. E viam-se também suas sombras projectadas no chão.
Então Olé Lukoie levantou Marcelo até a altura da moldura e o menino enfiou a perna direita no quadro, pousando o pé na grama e ali ficou.
O sol brilhava sobre ele, passando pelos ramos das árvores.
Marcelo se aproximou da água e embarcou num bote pequeno que estava ancorado. Fora pintado de branco e vermelho e suas velas brilhavam como se fossem de prata.
Seis cisnes, todos com coroas de ouro em volta do pescoço e uma estrela de brilhantes na cabeça, levaram o barco para mais longe, no fundo do bosque, onde as árvores contavam estórias de bruxas e ladrões; as flores contavam outros contos sobre os pequenos e lindos elfos, que por sua vez lhe tinham contado as mariposas.
Peixes formosos com escamas de ouro e prata nadavam seguindo o barco; de vez em quando saltavam para fora da água e ruidosamente voltavam a cair nela.
Pássaros vermelhos e azuis, grandes e pequenos, voavam, formando duas filas atrás do pequeno barco; zumbiam os mosquitos e os besouros voavam com grande ruído. Todos queriam acompanhar Marcelo e cada um deles tinha uma estória para contar.
Foi um passeio muito agradável. Às vezes ele passava na frente de bosques espessos e escuros ou avistava jardins cheios de sol e flores; e dentro deles havia castelos de cristal e mármore.
Algumas princesas apareciam nas janelas e acontecia que todas eram meninas e conhecidas de Marcelo, meninas com quem ele costumava brincar.
Estendiam as mãos e todas tinham na mão direita um veadinho de açúcar, o mais lindo com que se podia sonhar.
Marcelo apanhava, ao passar, um pedaço do veadinho de açúcar e a princesa o segurava pelo outro lado, de modo que cada um ficava com a sua parte, sendo que a maior correspondia a Marcelo.
Na frente de cada castelo montavam guarda pequenos príncipes, que cumprimentavam com suas espadas de ouro e lhe atiravam ameixas confeitadas e soldadinhos de chumbo. Não se podia duvidar de que fossem verdadeiros príncipes.
Continuando com o passeio, atravessava às vezes um bosque, outras vezes um prado, outras vezes várias salas ou um povoado; passou por um onde vivia sua ama, a que cuidava dele quando era muito pequenino e gostava dele ao extremo.
A boa mulher o saudou agitando a mão que levava uma cançãozinha de que era a autora e que enviou a Marcelo:

Com você sonho quase sempre,
Marcelo, meu menino querido.
Quantas vezes o acariciei,
Meu querido, amado menino!
Seus primeiros balbucios
Soaram junto ao meu ouvido.
Queira Deus que ainda se lembre
De meus braços que eram seu ninho!

Os pássaros cantavam também, as flores dançavam nos caules e as velhas árvores se inclinavam, do mesmo modo como se o velho Olé Lukoie lhes contasse algumas estórias.

QUARTA-FEIRA
Como chovia lá fora! Mesmo em sonhos Marcelo ouvia o barulho da chuva e quando Olé Lukoie abriu a janela, pôde ver que a água chegava até o parapeito.
Estava tudo convertido em um lago e a pouca distância da casa havia um barco.
– Você quer navegar comigo, pequeno Marcelo? – perguntou Olé Lukoie. – Se for do seu agrado, você poder á ir esta noite a longínquos países e voltar pela manhã.
Imediatamente Marcelo se viu trajado com a sua melhor roupa de domingo e a bordo do formoso barco; e navegando, eles percorreram várias ruas, passaram na frente da igreja, e, finalmente, chegaram ao alto-mar. E se afastaram tanto, que perderam a terra de vista.
Admiraram um bando de cegonhas que empreendiam a sua viagem para os países mais quentes. Voavam em fila, uma atrás da outra.
Percorreram uma grande distância. Uma das cegonhas estava tão cansada, que suas asas apenas a podiam levar um pouco mais longe; era a que fechava o cortejo.
E logo foi ficando para trás, até que caiu com as asas abertas; foi descendo, descendo, tentou voar novamente, até que se chocou contra as enxárcias do barco e deslizou ao longo de uma vela, até chegar ao convés.
Um grumete recolheu-a e colocou-a no galinheiro, em companhia das galinhas, dos patos e perus; a pobre cegonha ficou entre eles e, segundo tudo indicava, estava muito deprimida.
– Vejam que bicho esquisito! – exclamaram as galinhas.
O peru arrepiou as penas para adquirir um aspecto mais majestoso e perguntou-lhe quem era. E os patos retrocediam, ao mesmo tempo em que grasnavam: Quác, Quác!
Imediatamente a cegonha começou a falar-lhes sobre o sol da África, sobre as Pirâmides e sobre os avestruzes que corriam pelos areais como um cavalo selvagem; mas os patos não entenderam e, dando empurrões uns nos outros, disseram:
– Não acham que ela é mesmo uma tola?
– É mesmo, – respondeu o peru.
Então a cegonha silenciou, concentrando seus pensamentos na sua amada África.
– Bonitas pernas você tem! – exclamou o peru. – A quanto vende o metro?
– Quác, quác, quác! – exclamaram os patos a rir.
Mas a cegonha parecia não escutar.
– Você tem a minha permissão para rir disse o peru. – Foi uma observação muito engraçada, embora um tanto elevada para você. Não possui grandes qualidades – acrescentou, dirigindo-se aos outros, – mas servirá para nos divertir.
Então as galinhas começaram a cacarejar e os patos a grasnar. E não há dúvida de que se divertiam bastante.
Marcelo foi até o galinheiro, abriu a porta e chamou a cegonha. Esta saiu com um pulo do galinheiro e se aproximou do menino. já descansara, e, ao chegar junto dele, inclinou a cabeça para Marcelo, a fim de agradecer-lhe.
A seguir abriu suas asas e alçou o seu voo para os países cálidos. E as galinhas cacarejaram, os patos grasnaram e a crista do peru ficou vermelha como brasa.
– Amanhã faremos uma sopa de você! – disse Marcelo – Então acordou e se viu estendido em sua própria cama.
Na verdade, Olé Lukoie o levara para uma viagem extraordinária.

QUINTA-FEIRA
– Vou dizer-lhe uma coisa – avisou Olé Lukoie. – Não se assuste e eu lhe mostrarei um ratinho. – Realmente, abriu a mão e na palma da mesma apareceu um rato pequeno. – Ele veio convidá-lo para um casamento. Esta noite dois ratos vão se casar. Vivem embaixo do solo da despensa de sua mamãe e dizem que é uma residência deliciosa.
– Mas como poderei entrar pelo buraco do chão que dá para a cova dos ratos? – perguntou Marcelo.
– Deixe isso por minha conta – respondeu Olé Lukoie. – Vou fazê-lo ficar bem pequenino.
Tocou em Marcelo com a sua varinha mágica e o menino foi diminuindo de tamanho até ficar do tamanho do dedo mínimo.
– Agora é melhor que peça emprestado o uniforme do soldadinho de chumbo. Creio que lhe assentará muito bem e você sabe que quando se vai fazer uma visita, deve-se estar vestido de uniforme. Isso é muito elegante além de ser necessário.
– Tem razão – replicou Marcelo, que dali a pouco estava trajado como o mais elegante soldadinho de chumbo.
– Agora faça o favor de entrar no dedal de sua mamãe – disse o rato – e eu terei a honra de arrastá-lo.
– Por que vai ter esse trabalho? – perguntou Marcelo com muita galanteria.
Mas o rato insistiu e daí a pouco eles se dirigiam para a casa dos ratos, a fim de assistirem à cerimonia.
Primeiramente penetraram num local que estava debaixo do solo, seguiram por um comprido corredor, cuja altura era apenas suficiente para dar-lhes passagem.
O corredor estava muito bem iluminado com iscas.
– Reparou com o ambiente está perfumado? – perguntou o rato que o arrastava, – O assoalho todo foi untado com toucinho. Não se podia imaginar nada melhor.
Chegaram à sala nupcial, onde todas as senhoritas ratazanas se encontravam à direita, falando em voz baixa ou rindo, como se estivessem se divertindo uma à custa da outra.
A esquerda estavam todos os cavalheiros, que, com as patas dianteiras, alisavam os bigodes. Os noivos ocupavam o centro da sala, num pedaço de queijo, beijando-se com a maior energia na frente dos convidados, porém, como iam casar-se, ninguém dava grande importância ao assunto.
Entraram novas visitas, de maneira que os ratos estavam de tal modo comprimidos um contra o outro, que, afinal, o casal de noivos foi para junto da porta, a fim de que mais ninguém pudesse sair ou entrar.
A sala, assim como o corredor, estava toda untada de toucinho; não havia refrigerantes, porém, como sobremesa apanharam uma folha de ervilha, na qual a família gravou com dentadas o nome dos noivos, isto é, as iniciais de cada um, o que já era uma coisa bem extraordinária.
Todos os ratos disseram ter sido um casamento magnífico e a conversação sumamente agradável.
Então Marcelo regressou à sua casa; encontrara-se em meio a uma companhia distinta, mas, para chegar até lá, precisara ficar muito pequenino, o que lhe permitira vestir o uniforme do soldadinho de chumbo.

SEXTA-FEIRA
– É assombroso verificar quantas pessoas adultas quiseram apoderar-se de mim! – exclamou Olé Lukoie. – Especialmente aquelas que não possuem a consciência tranquila. “Bondoso e velho Olé”, me dizem. “Não podemos fechar os olhos e somos obrigados a passar a noite inteira com a lembrança de nossas más acções’. São semelhantes a Elfos malvados; chegam para perto de nossas camas, sentam-se nelas e jogam água quente em nossos olhos. Quer vir expulsá-los, para que possamos dormir?.
E suspiram profundamente. “Pagaremos muito bem, Olé, boa noite. Você encontrará o dinheiro no peitoril da janela”. – Mas eu não trabalho por dinheiro – exclamou Olé Lukoie.
– Que vamos fazer esta noite? – perguntou Marcelo.
– Não sei se gostaria de assistir a outro casamento, embora seja diferente do que você assistiu ontem. A boneca mais velha de sua irmã, aquela que está vestida de homem e que se chama Augusto, vai casar-se com Berta. Além disso, é seu aniversário, de forma que os presentes serão numerosos – Sim, já ouvi falar nisso. Quando as bonecas precisam de roupa nova, minha irmã diz que é seu aniversário ou que vão se casar. Isto já aconteceu centenas de vezes.
– Sim, mas esta noite é o casamento número cento e um e o centésimo e o primeiro são o fim de todas as coisas. Por esse motivo, a cerimonia será esplêndida. Veja!
Marcelo olhou para a mesa; ali estava a casinhola de papelão com luzes nas janelas e na parte externa, todos os soldadinhos de chumbo apresentavam armas.
Os noivos estavam sentados no chão, com as costas apoiadas no pé da mesa; pareciam muito pensativos e tinham razões de sobra para isso.
Olé Lukoie, vestido com a roupa preta da vovó, casou-os; uma vez terminada a cerimonia, todos os móveis do aposento entoaram a seguinte canção, que o lápis escrevera. A música era de uma outra canção muito popular. Dizia assim:

Como o vento oscilará nosso canto,
Até que os noivos morram de velhos.
Vão custar muito a morrer,
Pois seu corpo é de madeira.
Vivam os noivos! Vivam felizes por mil anos!

Logo chegaram os presentes, mas os noivos se recusaram a receber comestíveis. Para eles o amor era mais do que suficiente e não precisavam de nada mais.
– Iremos viajar pelo país ou pelo estrangeiro?
Consultaram a andorinha, que viajara muito e perguntaram também à velha galinha, que chegara a criar cinco ou seis ninhadas. A primeira contou-lhes tudo o que sabia sobre os países cálidos, onde cresciam as uvas e o ar era tão suave como o das montanhas, e igual não se podia ver em outra parte.
– Mas não possuem as nossas couves verdes – objectou a galinha. –Passei um verão no campo, junto com meus franguinhos. Havia um monte de terra que escarvávamos todos os dias e depois tivemos permissão para entrar numa horta, onde cresciam as couves. Que verdes eram! Não posso imaginar nada tão lindo!
– Mas uma couve se parece exactamente com outra qualquer – observou a andorinha – e, por outro lado, aqui faz muito mau tempo.
– Já estamos acostumados – replicou a galinha.
– Mas faz muito frio e neva.
– Isso é benéfico para as couves – exclamou a galinha; – além do mais, as vezes faz muito calor. Há quatro anos, durante cinco semanas, tivemos um verão com um calor tremendo, de tal modo que apenas podíamos respirar. Por outro lado, aqui não temos animais venenosos, que são próprios dos países estrangeiros e tampouco existem ladrões. Quem pensar que o nosso não seja o melhor país do mundo, não está bom da cabeça. E não merece viver aqui. – A galinha começou a chorar e, tentando acalmar-se um pouco, acrescentou: – Eu também viajei, por doze milhas, metida num barril e asseguro-lhes que as viagens não dão prazer algum.
– A galinha é uma mulher ajuizada – observou Berta, a noiva. – Também não gosto muito de viajar pelas montanhas, porque primeiro é preciso subir, para depois descer. Não, será melhor fazermos uma pequena excursão pelos arredores do monte de terra e depois visitarmos a horta das couves.
E assim terminou a discussão.

SÁBADO
– Esta noite não iremos a lugar algum? – perguntou Marcelo, quando Olé Lukoie o obrigou a meter-se na cama.
– Não temos tempo – respondeu Olé, enquanto abria seu guarda-chuva mais lindo. – Olhe para estes chineses. – O guarda-chuva inteiro tinha o aspecto de um conto chinês, rodeado de árvores azuis, muito grandes, pontes arqueadas e nelas umas tantas pessoas que inclinavam a cabeça. – Para amanhã todo mundo deve estar bem limpo – disse Olé. –Lembre-se de que é domingo. Subirei até o alto do igreja, a fim de ver se os anõezinhos encarregados da limpeza cuidaram bem dos sinos, a fim de que soem bem. Terei de ir aos campos, para verificar se os ventos varreram bem o pó da grama e das folhas. Mas o trabalho mais pesado é baixar as estrelas, para limpá-las; coloco-os em meu avental, mas é preciso numerá-las, para poder recolocá-las em seus devidos lugares, pois, do contrário, não poderia prendê-las correctamente e aí haveria muitas estrelas errantes, pois uma cairia atrás da outra.
– Ouça, Sr. Lukoie – disse um dos antigos retratos, que estavam pendurados na parede. – Sou o bisavô de Marcelo e estou muito agradecido ao senhor pelas estórias que conta, mas convém que não diga disparates. As estrelas são planetas como a nossa própria Terra, e portanto, não há mais o que dizer e chega de disparates.
– Muito obrigado, senhor bisavô – respondeu Olé Lukoie. – Aceite, pois, a minha maior gratidão; o senhor é o chefe da família, uma antigüidade, mas eu sou muito mais velho que o senhor. Sou um velho deus pagão; os gregos e os romanos me chamavam Morfeu, ou o deus dos sonhos. Tenho entrada nas melhores casas do mundo inteiro e tanto os grandes como os pequenos chamam por mim. E já que não está de acordo comigo, conte o senhor as estórias que quiser para o seu bisneto.
Dizendo isto, Olé Lukoie foi embora, carregando o guarda-chuva.
– Melhor seria que não tivesse dado a minha opinião! – exclamou o retrato antigo.
E depois acordou Marcelo.

DOMINGO
– Boa noite – disse Olé Lukoie.
Marcelo respondeu, inclinando a cabeça. Logo ficou em pé de um salto e voltou o rosto do bisavô para a parede, a fim de que não pudesse falar como na noite anterior.
– Agora seria bom que me contasse algumas estórias a respeito das Cinco ervilhas verdes que viviam em sua vagem. e também a do Galo que foi cumprimentar a senhora Galinha ou então a Agulha de cerzir que era tão fina que parecia ser uma agulha corrente.
– Nunca se deve abusar do que é bom – disse o velho Olé Lukoie. – Prefiro mostrar-lhe uma coisa que você já conhece. Vou levá-lo até meu irmão; também se chama Olé Lukoie, mas nunca faz mais do que uma visita.
E então o leva a visitá-lo, monta-o em seu cavalo e lhe conta uma estória. Só sabe duas; uma é tão linda que ninguém na Terra poderia imaginar algo parecido e a outra, horrível até mais não poder.
Então Olé levantou Marcelo até a janela e acrescentou:
– Veja meu irmão, o outro Olé Lukoie. Também é chamado pelo nome de Morte. Você pode ver que não tem um aspecto tão feio como às vezes é apresentado nos desenhos, nem formado de ossos e ligaduras. Não, em torno de seu casaco leva uma tira bordada de prata. Veste um belo uniforme de oficial russo e usa uma capa de veludo, a qual se estende pela garupa de seu cavalo. Veja como galopa.
Marcelo viu, realmente, como cavalgava o outro Olé Lukoie, levando velhos e moços, depois de montá-los na garupa de seu cavalo. Tinha um à sua frente e outros mais atrás, mas antes sempre lhes perguntava:
– Que nota você tem em seu boletim?
Todos respondiam que era boa, mas ele obrigava-os a mostrá-la. Os que tinham nota “Muito boa” ou ‘Excelente” ele montava na parte dianteira do cavalo e lhes contava aquela estória maravilhosa e bela, sobre toda a ponderação. Mas os que só tinham a nota “Regular” ou ‘Má”, eram obrigados a montar na garupa e ouvir a estória horrível. Estremeciam de medo, choravam e faziam esforços para apear, mas não podiam, porque estavam firmemente presos ao cavalo.
– Vejo que a Morte é formosa, Olé Lukoie, – disse Marcelo. – Não me dá medo algum.
– Você não tem que temer meu irmão – replicou Olé Lukoie, – contanto que sempre tenha nota boa em seu boletim.
– Acho isso ótimo - resmungou o retrato do bisavô. – Afinal, é sempre bom dar a minha opinião.
E sorriu muito contente.
E assim termina a estória de Olé Lukoie. É muito provável que esta noite ele mesmo possa contar-lhes muito mais a seu respeito. Esperem por ele.


Hans Christian Andersen



17/08/2008

Uardan, o Açougueiro, e e filha do Vizir


Conta-se, entre tantas outras histórias, que vivia certa vez no Cairo um homem chamado Uardan que era açougueiro de profissão. Todos os dias, uma jovem de notável beleza, mas de olhos cansados e cor pálida, vinha a sua loja, seguida por um carregador. Comprava carnes e testículos de carneiro, pagava com moedas de ouro, colocava as carnes e os testículos no cesto do carregador e ia percorrer o mercado, comprando algo em cada loja. Repetiu essa rotina diária tantas vezes que Uardan foi invadido pela curiosidade e quis desvendar o mistério que se escondia atrás da jovem. Um dia, o carregador da moça passou sozinho em frente do açougue. Uardan aproveitou para oferecer-lhe de presente uma cabeça de carneiro e dizer-lhe: "Estou perplexo a respeito da moça que te emprega todos os dias. Quem é ela? De onde vem? Que faz com os testículos de carneiro? Por que sua face e olhos estão sempre cansados?" - Por Alá, respondeu o carregador, estou tão curioso a seu respeito quanto tu. Mas contar-te-ei o que sei. Quando todas as compras estão feitas, minha ama vai ao mercador cristão da esquina e adquire por um dinar vinho velho de qualidade e, depois, me conduz até a entrada dos jardins do vizir. Lá, veda-me os olhos com um pedaço de pano, toma-me pela mão e vamos andando até uma escada, que descemos juntos. Seus servidores levam o cesto cheio e me entregam outro vazio, com meio dinar pelo meu trabalho. Depois, conduzem-me de volta até a entrada dos jardins, libertam-me os olhos e me mandam embora. Nunca consegui saber o que fazia com toda essa quantidade de carnes, frutas, amêndoas, que me faz carregar até aquele subterrâneo todos os dias. - Aumentaste minha perplexidade, ó carregador, disse Uardan. No dia seguinte, decidido a esclarecer o mistério a qualquer custo, Uardan esperou que a mulher passasse por sua loja com as compras e seguiu-a de modo a não ser descoberto. Na entrada dos jardins do vizir, escondeu-se atrás de uma árvore, e quando, após dispensar o carregador, a moça dirigiu-se aos fundos do jardim, Uardan tirou os sapatos e continuou a segui-la tão furtivamente quanto um gato. Viu-a parar diante de uma rocha, virar a rocha sobre si mesma graças a determinado gesto e desaparecer numa escada que descia na terra. Após deixar passar um momento, Uardan aproximou-se da rocha, manipulou-a com o jeito que observara a moça usar e desceu a escada. E eis o que descobriu, como ele mesmo me contou: "Assim que meus olhos se habituaram à escuridão, vi uma porta fechada de trás da qual vinha uma tempestade de risos e grunhidos. Dirigi-me para lá, olhei pelo buraco da fechadura e vi, abraçados em cima de um divã e se debatendo em mil contorções lascivas, a moça que eu estava seguindo e um macaco enorme, com um rosto quase humano. "Após um momento, a moça libertou-se do abraço do macaco , pôs-se de pé, tirou toda a roupa e voltou a deitar, completamente nua, no mesmo divã. E vi o macaco saltar sobre ela e cobri-la. Quando tinha terminado o ato, levantou-se, deu dois passos e cobriu-a de novo. Repetiu o mesmo ato dez vezes seguidas, enquanto ela lhe respondia com prazer e emoção como se fosse um homem. Finalmente, os dois se separaram, exaustos, e deitaram-se em total imobilidade. "Mesmo em meio a meu espanto, disse a mim mesmo: Agora ou nunca.' E, quebrando a porta com o ombro, precipitei-me na sala, brandindo minha faca de açougueiro, e cortei com um golpe a cabeça do macaco. A moça, abrindo os olhos, viu-me de faca em punho, exalou um grito de terror tão angustiado que receei vê-la cair morta. Mas, percebendo que eu não lhe queria mal, recobrou pouco a pouco os sentidos e me reconheceu. Então disse: `Ó Uardan, é assim que recompensas uma cliente fiel?' - Ó inimiga de tua própria salvação, bradei, não são os homens bastante fortes para que tenhas que procurar o gozo com tais substitutos? - Ó Uardan, respondeu, escuta enquanto te contar a causa de tudo isso e talvez me perdoes. Sou filha única do vizir. Até a idade de 15 anos, vivi tranquilamente no palácio paterno. Mas, um dia, um escravo preto ensinou-me aquilo que tinha que aprender de alguma forma e tomou de mim aquilo que tinha para dar. Talvez saibas que não existe nada igual a um negro para inflamar o interior de uma mulher, especialmente quando esse esterco preto é o primeiro que o jardim recebe. Meu jardim tornou-se tão esfomeado que precisava do preto para alimenta-lo a todo momento. "Após um certo tempo, o negro morreu na sua tarefa, e eu contei minha desgraça e meu abandono a uma velha comadre. Abanou a cabeça e disse: `A única coisa que pode substituir um negro é um macaco, minha filha. Os macacos são inimitáveis neste ato.' "Pensei: `Por que não tentar?' Um dia, estava na janela do palácio quando um circo passou à minha frente. Incluía vários macacos. Tirei meu véu e fixei meu olhar no maior deles. Imediatamente, o animal quebrou as suas cadeias e fugiu. Deu uma volta imensa e entrou no palácio. Correu directamente até meu aposento, tomou-me nos braços e fez mais de dez vezes seguidas o que o viste fazer hoje. Guardei-o em segredo. Mas, um dia, meu pai ouviu falar de minha tara e quase me matou. Tive que construir este subterrâneo para proteger meu amante e continuar a gozar os prazeres com ele. "Todos os dias, trazia-lhe comida e bebida. Infelizmente , hoje, o destino me traiu. Descobriste meu esconderijo e mataste meu companheiro." "Tentei consolá-la, dizendo: `Uma coisa está certa, ama querida. Posso substituir merecidamente o macaco. Podes julgar por ti mesma.' E montei nela naquele dia e todos os dias seguintes. E meu desempenho era igual ao do macaco e do negro mortos. `Assim mesmo, as coisas estragaram-se. A moça ficava cada vez mais quente e mais insaciável, e um homem, por mais vigoroso que seja, não é um macaco. Aguentei o que podia. Depois, consultei uma mulher entendida em preparos químicos e mágicos. `Não saberias como reduzir o apetite tempestuoso de uma mulher?' perguntei-lhe. - A coisa é fácil, disse, para quem sabe preparar as misturas que preparo. "Preparou uma mistura de ervas e disse-me para copular com minha amiga e logo em seguida colocar-lhe o produto entre as coxas. Segui as instruções, e qual não foi meu espanto ao ver dois vermes saírem dali e andarem pelas pernas da mulher. Examinando-os, vi que eram duas enguias, uma amarela e outra preta. "Quando contei essas coisas à curandeira, disse-me: `Dá graças a Deus. Essas duas enguias eram a causa dos desejos imoderados de que te queixavas. Uma delas nasceu da copulação com o negro, a outra da copulação com o macaco. Agora, a mulher será como as demais mulheres.' "E assim foi. Como gostava dela, pedi-a em casamento, e como estava acostumada a mim, ela aceitou. Vivemos felizes. Mas reconheço que, muitas vezes, lamento aquele incêndio de desejos que as ervas da curandeira apagaram em minha mulher."


Waiting for her Beloved

13/08/2008

História do compadre rico e do compadre pobre


Moravam numa aldeia dois compadres. Um era pobre e o outro rico, mas muito miserável. Naquela terra era uso todos quantos matavam porco dar um lombo ao abade. O compadre rico, que queria matar porco sem ter de dar o lombo, lamentou-se ao pobre, dizendo mal de tal uso. Este deu-lhe de conselho que matasse o porco e o dependurasse no quintal, recolhendo-o de madrugada, para depois dizer que lho tinham roubado.

Ficou muito contente com aquela ideia e seguiu à risca o que o compadre pobre lhe tinha dito. Depois deitou-se com tenção de ir de madrugada ao quintal buscar o porco. Mas o compadre pobre, que era espertalhão, foi lá de noite e roubou-lho. No dia seguinte, quando o rico deu pela falta do porco, correu a casa do compadre pobre e muito aflito contou-lhe o acontecido. Este, fazendo-se desentendido, dizia-lhe: «Assim, compadre! Bravo! Muito bem, muito bem! Assim é que há-de dizer para se esquivar de dar o lombo ao abade!»

O rico cada vez teimava mais ser certo terem-lhe roubado o porco; e o pobre cada vez se ria mais, até que aquele saiu desesperado, porque o não entendiam.

O que roubou o porco ficou muito contente e disse à mulher: «Olha, mulher, desta maneira também havemos de arranjar vinho. Tu hás-de ir a correr e a chorar para casa do compadre, fingindo que eu te quero bater; levas um odre debaixo do fato, e quando sentires a minha voz, foges para a adega do compadre e enquanto eu estou falando com ele, enches o odre de vinho e foges pela outra porta para casa.» A mulher, fingindo-se muito aflita, correu para casa do compadre, pedindo que lhe acudisse, porque o marido a queria matar. Nisto ouviu a voz do marido e correu para a adega do compadre, e enquanto este diligenciava apaziguar-lhe a ira, enchia ela o odre. Tinha-lhe esquecido, porém, um cordão para o atar, mas tendo uma ideia gritou para o marido: «Ah! Goela de odre sem nagalho!» O marido, que entendeu, respondeu-lhe: «Ah, grande atrevida!... Que se lá vou abaixo, com a fita do cabelo te hei-de afogar!» Ela, apenas isto ouviu, desatou logo o cabelo, atou com a fita a boca do odre e fugiu com ela para casa. Desta maneira tiveram porco e vinho sem lhes custar nada, e enganaram o avarento do compadr


Recolha de Adolfo Coelho


12/08/2008

Lenda da Serra do Nó

No tempo em que os mouros dominavam parte da península ibérica, vivia um chefe mouro, Abakir, na região de Viana do Castelo. Abakir morava num castelo, mesmo do topo da serra do Nó, tinha fama de conquistador de terras e de mulheres e era dos mais ricos do mundo, segundo se dizia. Um dia, quando regressava a casa após mais uma batalha bem sucedida, Abakir viu uma linda pastora por quem se apaixonou imediatamente. Mandou que a trouxessem à sua presença e disse-lhe que queria que ela ficasse ali a viver com ele para sempre. Conhecendo a reputação de Abakir, a jovem pastora recusou a oferta. Enfurecido, Abakir mandou prender a pastora na torre do castelo até que lhe pedisse perdão por ter ousado afrontá-lo. Como ela nunca o fez, Abakir ofereceu-lhe o seu amor incondicional. Então, a pastora impôs-lhe uma condição: afastar-se de outras mulheres e só ter olhos para ela. Abakir aceitou a imposição.
Viveram felizes até que um dia a ameaça dos exércitos cristãos se fez sentir e Abakir aconselhou os seus súbditos a fugir, tendo ficado sozinho com a sua pastora no castelo. Quando se ouviam já os gritos de vitória dos cristãos, Abakir abraçou a sua amada, pegou no Corão, sussurrou umas palavras misteriosas e fez um sinal mágico com a mão. Quando os cristãos chegaram à Serra do Nó, o castelo tinha desaparecido.
Segundo conta a lenda, quem conseguir descobrir a entrada do castelo encantado através de uma gruta ficará possuidor de maravilhosas riquezas!
Abakir e a pastora ainda podem ser vistos em noites de luar, vagueando pela serra, aparecendo àqueles que ousam tentar descobrir o mistério do castelo encantado!

Lenda de Seteais

Seteais é um dos mais belos recantos da serra de Sintra.

Conta a lenda que quando Sintra ainda pertencia aos mouros, um dos primeiros cavaleiros cristãos a subir a serra de Xentra (como os mouros chamavam a Sintra) foi D. Mendo de Paiva. No meio da confusão da debandada de uns e chegada de outros, encontrou-se junto a uma pequena porta secreta por onde fugiram vários mouros da fortaleza. Entre eles viu uma moura muito bonita, acompanhada pela velha aia.
Ao dar com os olhos no cristão, a moura suspirou por se sentir descoberta, e a velha, que ainda não reparara no cavaleiro, apressou-se a pedir-lhe que não suspirasse. Porém, reparando no olhar da ama, fixo num ponto determinado, seguiu-
-o e viu finalmente o inimigo, que sorridente lhe disse:
- Acaba o que ias dizendo!
Mas a velha, de sobrolho carregado, respondeu-lhe:
- O que tenho para dizer não serve para ouvires, cáfir! Os cristãos já têm tudo
quanto queriam: os nossos bens, as nossas terras, o castelo. Vai-te! Vai-te e deixa-nos em paz, conforme o combinado.
- Vai-te tu, velha! A rapariga é minha prisioneira!
A moura, ao ouvir tal coisa, suspirou novamente, de medo e comoção. A velha, ao ouvir aquele novo ai, achou que era melhor confessar o seu segredo ao cristão:
- Não digas mais nada, cristão! Não digas mais nada, que a minha ama carrega desde o berço uma terrível maldição!...
- Como assim velha?!- perguntou o cavaleiro, ao mesmo tempo que a moura dava o terceiro suspiro.
- Ah, cavaleiro! À nascença a minha ama foi amaldiçoada por uma feiticeira que odiava a sua mãe por lhe ter roubado o homem que amava. Fadou-a a morrer no dia em que desse sete ais... e como vês, já deu três!
D. Mendo deu uma alegre gargalhada, e a jovem outro ai.
- Não acredito nessas coisas, velha! Olha, a partir de agora ambas ficarão à minha guarda. Eu quero para mim a tua bela ama!
A moura suspirou de novo e a velha, numa aflição sem limites, gritou:
- Ouviste, cavaleiro, ouviste?! É o quinto ai! Que Alá lhe possa valer!
- Não tenhas medo! Espera aqui um pouco... Voltarei para vos levar a um sítio sossegado!
O cristão afastou-se rapidamente e, assim que desapareceu dentro das muralhas, um grupo de mouros que ouvira a conversa surgiu subitamente para roubar as duas mulheres. Com um golpe de adaga cortaram a cabeça à velha, que nem teve tempo de dar um ai. A jovem é que, ao ver a sua velha aia morrer daquele modo inesperado e cruel, soltou um novo e dolorido ai. Era o sexto, e o sétimo foi a última coisa que disse, no momento em que viu a adaga voltear para lhe cair sobre o pescoço.
Quando pouco depois D. Mendo voltou com uma escolta, ficou tristemente espantado: afinal cumprira-se a maldição!
D. Mendo jurou vingança e a partir desse dia tornou-se o cristão mais desapiedado que os mouros jamais encontraram no seu caminho.
E, em memória da moura que desejara e uma maldição matara, chamou, àquele recanto de Sintra, Seteais.
Ainda hoje, nos belos jardins de Seteais há um sítio onde se alguém disser um "ai" ouvirá um eco que o repetirá seis vezes, ouvindo-se assim sete ais em honra da mouro que um dia lá morreu.




10/08/2008

O cego e o moço

Um cego andava pedindo esmola pela mão de um moço; a uma porta deram-lhe um naco de pão e um bocado de linguiça. O moço pegou no pão e deu-o ao cego para metê-lo na sacola, e ia comendo a linguiça muito à sorrelfa. O cego, desconfiado, pelo caminho começa a bradar com o moço:
– Ó grande tratante, cheira-me a linguiça! Acolá deram-me linguiça e tu só me entregaste o pão.
– Pela minha salvação, que não deram senão pão.
– Mas cheira-me a linguiça, refinado larápio!
E começou a bater com o bordão no moço pancadas de criar bicho. O moço era ladino e disse lá para si que o cego lhas havia de pagar. Quando iam por uns campos onde estavam uns sobreiros, o moço embicou o cego para um tronco, e grita-lhe:
– Salta, que é rego. O cego vai para saltar e bate com os focinhos no sobreiro. Grita ele:
– Ó rapaz do diabo! Que te racho.
Diz-lhe ele:
Pois cheira-lhe o pão a linguiça,
E não lhe cheira o sobreiro à cortiça?


Recolha de Teófilo Braga


03/08/2008

O salgueiro e a vinha




O salgueiro é uma árvore de crescimento rápido e vigoroso. Seus ramos crescem a olhos vistos e logo tornam-se mais longos que os de qualquer outra árvore.
Um dia, porém, a fim de ter companhia, o salgueiro resolveu casar com a vinha.
- Você está louco! - disse-lhe uma amiga - nós, os salgueiros, somos feitos para crescer mais depressa que qualquer outra árvore. O que é que você vai fazer com uma vinha pendurada em você?
Porém, mesmo assim, houve o casamento. O salgueiro juntou-se à vinha, ou melhor, permitiu-lhe agarrar-se a seu tronco.
Porém a vinha produziu lindos cachos de uva, ao passo que o salgueiro não dá frutos. E então, certo dia, quando o fazendeiro descobriu a vinha enrolada no salgueiro, resolveu podar ambos, temendo que o salgueiro arrancasse a vinha do chão.
E assim, ano após ano, os belos ramos do salgueiro foram podados pelo cuidadoso fazendeiro, e a árvore, decepada e mutilada, passou a ser apenas um apoio para os cachos de uva de sua afortunada companheira.