21/12/2008

As 10 Virgens



Então, o Reino dos céus será semelhante a dez virgens que, tomando as suas lâmpadas, saíram ao encontro do noivo. E cinco delas eram prudentes e cinco néscias.
As néscias tomando as suas lâmpadas não levaram azeite consigo. Mas as prudentes levaram azeite em suas vasilhas com as suas lâmpadas. E, tardando o noivo foram todas tomadas de sono e adormeceram. Mas, à meia noite, ouviu-se um grito: Eis o noivo! Saí ao seu encontro!
Então, se levantaram todas aquelas virgens e prepararam as suas lâmpadas. E as néscias disseram às prudentes: Dai-nos do vosso azeite, porque as nossas lâmpadas estão se apagando.
Mas as prudentes responderam: Não, para que não nos falte a nós e a vós outros! Ide, antes, aos que o vendem e comprai-o. E, saindo elas para comprar, chegou o noivo, e as que estavam apercebidas entraram com ele para as bodas; e fechou-se a porta.
Mais tarde, chegaram as virgens néscias, clamando; Senhor, senhor, abre-nos a porta! Mas ele respondeu: Em verdade vos digo que não vos conheço. Vigiai, pois, porque não sabeis o dia nem a hora.


Parábolas de Jesus
Evangelho de Mateus cap. 25 vers. 2-13



17/12/2008

Lenda de Santa Iria



Conta a história que na antiga Nabância (Tomar) nasceu Iria, uma bela jovem. Desde cedo, Iria descobriu a sua vocação religiosa e entrou para um mosteiro. A região era governada pelo príncipe Castinaldo, cujo filho Britaldo tinha por hábito compor trovas junto da igreja de S. Pedro. Um dia, Britaldo viu Iria e ficou perdidamente apaixonado por ela. Ficou doente de amor e, em estado febril e desesperado, reclamava a presença da jovem. Temendo o pior, os pais foram buscá-la. Iria pediu-lhe que a esquecesse, porque o seu coração e o seu amor eram de Deus. Britaldo concordou sob a condição de que ela não pertencesse a mais nenhum homem. Passados tempos, Britaldo ouviu rumores infundados de que Iria tinha atraiçoado a sua promessa e amava outro homem. Furioso, seguiu-a num dos seus habituais passeios ao rio Nabão, apunhalou-a e atirou o seu corpo à água. O corpo de Iria foi levado pelas águas até ao Zêzere e daí ao Tejo. Foi encontrado junto da cidade de Scalabis (Santarém), encerrado num belo sepulcro de mármore. O povo rendeu-se ao milagre e, a partir de então, a cidade passou a chamar-se de Santa Iria, mais tarde Santarém. Cerca de seis séculos depois, as águas do Tejo voltaram a abrir-se para revelar o túmulo à rainha D. Isabel, que mandou colocar o padrão que ainda hoje se encontra na Ribeira de Santarém.

12/12/2008

O menino mau

HÁ muito tempo havia um velho poeta, um verdadeiro bom velho poeta.
Uma noite, enquanto estava confortavelmente em sua casa, desencadeou-se uma terrível tempestade; a chuva caía em torrentes, mas o velho poeta não sentia frio, sentado num canto, ao lado da estufa, na qual ardia alegremente o fogo e chiavam as maçãs que ele colocara para assar.
– Os infelizes que estão ao relento, com esta chuva, não terão sobre o corpo nem um só fio de roupa seco – murmurou, porque era um homem de bons sentimentos.
– Abra a porta, por favor! Estou com muito frio e sinto- me gelado até os ossos! – exclamou um menino gritando em altas vozes lá fora.
E continuou chorando, sem deixar de bater na porta, ao mesmo tempo em que o vento fazia as janelas tremerem.
– Pobrezinho! – exclamou o velho poeta, enquanto se encaminhava para a porta, a fim de abri-la.
Deparou com um menino completamente desnudo, com o cabelo ruivo empapado de chuva. Tiritava de frio, de modo que se não o fizesse entrar, certamente morreria de frio.
– Pobrezinho – repetiu o velho Poeta tomando-o pela mão. – Entre que você se aquecerá. Beberá um pouco de vinho e comerá uma maçã assada. Vejo que você é um belo menino.
E ele o era, realmente. Tinha os olhos brilhantes como duas estrelas e, mesmo molhado, seu cabelo caía em lindos cachos. Parecia um anjo-menino, mas o frio lhe tirara as cores e seus membros tremiam.
Carregava um lindo arco na mão, mas que estava muito estragado pela chuva; demais, as belas cores das setas haviam desaparecido, lavadas completamente pela água.
O velho poeta sentou-se perto da estufa e pousou o menino em seus joelhos; espremeu a água que havia em seus cabelos, aqueceu-lhe as mãozinhas e ofereceu-lhe um pouco de vinho.
Logo o menino se refez e o corado apareceu novamente em suas faces; pulou para o chão e, alegre ao extremo, começou a dançar.
– Você é muito alegre! – exclamou o ancião. – Como se chama?
– Cupido – respondeu o interpelado. Não me conhece? Este é o meu arco e garanto-lhe que sei manejá-lo. Veja, já começa a fazer bem tempo e a lua está brilhando no céu.
– Mas você está com o arco escangalhado – observou o dono da casa.
– É uma pena – replicou o menino. Examinou-o com extremo cuidado e acrescentou: – já secou totalmente. Continuará funcionando bem e a corda não se estragou muito. Veja, vou experimentá-lo. Não se mova.
Encurvou o arco, colocou no mesmo uma flecha, apontou e cravou uma seta no coração do ancião.
– Vê como o meu arco não se estragou? – exclamou sorrindo.
E logo se afastou, rindo-se às gargalhadas. Era um menino muito mau, pois atirou no velho poeta, que o tratara com tanta bondade, dando-lhe vinho e a melhor das maçãs que pusera para assar.
O ancião estava estendido no solo e chorava, porque recebera uma flechada no coração e dizia a si mesmo:
– Que mau é o Cupido! Darei conta disso a todos os meninos, para que tenham cuidado e nunca brinquem com ele, pois poderiam ser vítimas de alguma travessura.
Todos os meninos e meninas bondosos a quem contou a sua aventura tiveram o maior cuidado em evitar o pequeno Cupido, mas ele sempre conseguia enganá-los, porque é muito astuto.
Quando os escolares saem do colégio, ele começa a correr ao seu lado, coberto com uma camisola preta e levando um livro debaixo do braço. Eles não o reconhecem e dão-lhe o braço, tomando-o por um colega e então ele se aproveita para cravar-lhes uma flecha no coração.
Quando as mocinhas saem da escola e quando estão na igreja. Sempre a mesma coisa com todos. Senta-se nos carros, nos teatros e produz uma chama brilhante; as pessoas pensam que aquilo não passa. de uma lâmpada, mas logo percebem seu engano.
Circula pelos jardins e corre pelos muros e em certa ocasião chegou a cravar uma flecha no coração de seu pai e no de sua mãe.
Pergunte a eles e verá o que dizem. Esse Cupido é um menino mau. Mais cedo ou mais tarde consegue desviar a sua vítima e até a sua pobre avozinha não pôde evitar sua flechada.
Isso aconteceu há muito tempo e os efeitos dessa ferida já passaram, porém, é sempre uma coisa que não esquecemos jamais. Que mau é o Cupido!
E agora que você está inteirado de sua maldade, tome muito cuidado, pois do contrário se arrependerá.


Hans Christian Andersen



11/12/2008

Lenda de Martim Moniz



O nome de Martim Moniz está ligado à conquista de Lisboa aos Mouros.
A lenda conta que D. Afonso Henriques tinha posto cerco à cidade, ajudado pelos muitos cruzados que por aqui passaram a caminho da Terra Santa. O cerco durou ainda algum tempo, durante o qual se verificaram pequenas investidas por parte dos cristãos. Numa dessas tentativas de assalto a uma das portas da cidade, Martim Moniz enfrentou os mouros que saíam para repelir os cristãos e conseguiu manter a porta aberta mesmo a custo da sua própria vida. O seu corpo ficou atravessado entre os dois batentes e permitiu que os cristãos liderados por D. Afonso Henriques entrassem na cidade. D. Afonso Henriques quis honrar a sua valentia e o sacrifício da sua vida ordenando que aquela entrada passasse a ter o nome de Martim Moniz. O povo diz que foi D. Afonso Henriques que mandou colocar o busto do herói num nicho de pedra, onde ainda hoje se encontra junto à praça Martim Moniz.


09/12/2008

Lenda do convento de Santa Cruz dos Capuchos

Um dos habitantes do Convento de Santa Cruz ou dos Capuchos, foi Frei Honório, homem de muita fé e de grandes virtudes. Muito estimado e respeitado dos habitantes daquelas redondezas, ali viveu durante 30 anos, sofrendo dolorosa e resignada penitência. Seu corpo jaz na Igreja daquele curioso convento. Diz-se que certa vez, Frei Honório encontrou pelos campos uma linda rapariga, "para quem não olhou", mas que o forçou a fazer algo. Exigia-lhe que a confessasse. O virtuoso monge, naquele ermo não tinha confessionário, e sem querer fixar a pequena, mandou-a para o convento em procura de outro confessor. A bela de moçoila não se conformou com a resposta e insistiu ao mesmo tempo com o bom religioso.

Rubro como um tomate, a suar em bico – isto passou-se em Agosto- apressou o passo, sempre seguido daquela que lhe pedia a absolvição ou penitência, até que, voltando-se e tapando o rosto com uma das mãos para fugir à formosura que o diabo encarnara para o tentar e perder, com a outra fez o sinal da cruz, a que a endiabrada e tentadora, respondeu com um grito, fugindo para não mais ser vista.

Então, Frei Honório, por castigo por ter caído em tentação, isolou-se a pão e água numa gruta existente no Convento. E lá ficou até ao fim da sua vida.


Ficheiro:Convento-dos-Capuchos Sala-do-Capitulo 17-08-08.jpg

O leão enamorado

Leão de alta prosápia,
Passando por um prado,
Certa zagaia viu mui de seu gosto,
E esposa foi pedi-la.
Quisera o pai menos feroz o genro.
Bem duro lhe era o dar-lha: —
Mas também o negar-lha mal seguro;
E que inda a ser possível
Negar-lha, é de temer não venha a lume
Clandestino consórcio;
Que amava os valentões a mocetona.
De grado se encasquetam
As moças, de estofadas cabeleiras.
O pai, que não se atreve
A despedir o amante tanto às claras:
"Minha Filha é mimosa,
E vós podeis, entre esponsais carícias,
Arranhá-la com as unhas:
Consenti um cerceio em cada garra,
E em cada dente a lima.
Porque os beijos lhe sejam menos ásperos,
E a vós mais voluptuosos.
Que, sem tais sustos, há de a minha filha
Prestar mais meiga a boca".
Consente o leão: desmantelada a praça,
Falto de unhas e dentes.
Laçam-lhe os cães, vai-se o leão. Sem unhas
Como há de resistir-lhes?
Quando, Amor, nos agarras, bem podemos
Dizer: "Adeus, prudência!"


Filinto Elísio (Trad.)

06/12/2008

O pavão

O fazendeiro saiu e fechou a porteira do terreiro.
Tencionava voltar logo, mas passaram-se dias e ele não aparecia.
Os animais do terreiro estavam com fome e com sede. Até mesmo o galo deixou de cantar.
Todos mantiveram-se imóveis, à sombra de uma árvore, para não desperdiçarem suas forças.
Apenas o pavão pôs-se de pé, cambaleante, abriu como um leque sua cauda multicor e pôs-se a andar de um lado para o outro.
- Mamãe - perguntou um pintinho para a galinha - por que o pavão abre a cauda assim, todos os dias?
- Porque ele é vaidoso, filhinho. E a vaidade é um defeito que só desaparece com a morte.







02/12/2008

O ouro


Era uma vez um rei, que, tendo achado no seu reino minas de oiro, empregou a maior parte dos vassalos a extrair o oiro dessas minas; e o resultado foi que as terras ficaram por cultivar, e houve uma grande fome no país.
Mas a rainha que era prudente e que amava o povo, mandou fabricar em segredo frangos, pombas, galinhas e outras iguanas, todas de oiro fino; e, quando o rei quis jantar, mandou-lhe servir essas iguanas de oiro, com que ele ficou todo satisfeito, porque não compreendeu ao princípio qual era o sentido da rainha; mas, vendo que não lhe traziam mais nada de comer, começou a zangar-se. Pediu-lhe então a rainha, que visse bem que o oiro não era alimento, e que seria melhor empregar os seus vassalos em cultivar a terra, que nunca se cansa de produzir, do que trazê-los nas minas à busca do oiro, que não mata a fome nem a sede, e que não tem mais valor de que a estimação que lhe é dada pelos homens, estimação que havia de converter-se em desprezo, logo que o oiro aparecesse em abundância.
A rainha tinha juízo.



30/11/2008

A onça e o coelho



A onça possuía uma roça que estava coberta de capim. Por isso, resolveu reunir os outros animais, dizendo-lhes que aquele que conseguisse limpar a roça sem se coçar, ganharia um boi de presente. O macaco foi o primeiro a tentar, mas logo foi despedido porque se coçou. Depois dele, o veado e o bode também tentaram, mas tiveram o mesmo resultado. Então, o coelho ofereceu-se para o trabalho. Mas a onça replicou que se os outros animais não haviam conseguido, muito menos ele conseguiria. Acabou por aceitar o trabalho do coelho. Quando o coelho já havia limpado bom pedaço da roça, a onça, cansada, resolveu sair e deixar um filho tomando conta do trabalho do coelho, com o intuito de cuidar se este se coçava. O coelho, aproveitando-se da ingenuidade do menino, pergunta se o boi que ganharia era pintado, mostrando o lugar das pintas em seu próprio corpo e aproveitando para coçar-se. O menino, sem dar-se conta do que ocorrido, respondia que sim. Dessa forma, conseguiu terminar todo o trabalho e ganhando o boi. A onça disse-lhe que aquele boi deveria ser morto onde não houvesse moscas nem mosquito e onde galo nem galinha cantassem. O coelho, então, partiu com o seu boi. Durante a sua caminhada, ia prestando a atenção se encontrava moscas, mosquito, galos e galinhas. Quando encontrou o lugar certo, matou o boi. Nesse momento, apareceu a onça dizendo-lhe que gostaria de um pedaço da carne, pois estava grávida e temia abortar. O coelho lhe deu a carne, mas ela pediu mais, ameaçando matá-lo. Foi assim que a onça acabou por comer todo o boi. O coelho, então, voltou para casa prometendo a si mesmo que se vingaria da onça. Ao verificar o lugar por onde passava a onça, foi para lá cortar cipó. A onça, ao perceber a sua atividade, perguntou-lhe o que estava fazendo, ao que ele respondeu dizendo que Deus castigaria o mundo com uma grande ventania e que aqueles cipós serviriam para amarrá-lo. A onça insistiu muito para que ele a amarrasse primeiro. O coelho fingiu não querer amarrá-la, afirmando que ainda tinha de prender toda a sua família. Como a onça persistisse no seu pedido, o coelho disse que a amarraria por ela ser comadre. Após amarrá-la, saiu correndo. Quando o macaco passou, a onça pediu que ele a desamarrasse, porém ele respondeu que Deus deveria ajudar àquele que a havia posto ali, o mesmo acontecendo com o veado e com o bode. Ao lembrar-se da onça, o coelho foi ver se ela ainda estava viva. Assim que ela o viu pediu para ser solta. O coelho fingiu não ser o autor da façanha e estar com muita pena. Desamarrou os cipós. Assim que se viu livre a onça tentou devorar o coelho, mas ele fugiu para um buraco. Todavia, antes que ele entrasse a onça ainda lhe conseguiu pegar uma perna. O coelho, então, chamou-a de tola, dizendo que havia pegado uma raiz de pau. Ao ouvir isso, a onça soltou a perna. O coelho escondeu-se no fundo do buraco e a onça pediu a uma garça que cuidasse enquanto ela ia buscar um enxada para cavar o buraco. O coelho, percebendo o que acontecia, disse a garça que quem cuida de um coelho deve espiar no buraco com os olhos arregalado, ao que a garça atendeu. O coelho jogou-lhe areia aos olhos, saindo sem que ela visse. Quando a onça retornou, cavou sem encontrar coelho algum no buraco. Perguntando à garça sobre onde se encontrava o coelho obteve como resposta que esta não sabia, pois o bichinho havia lhe enchido os olhos de areia e fugido. A onça, desapontada, foi-se embora para casa.

Conto do Brasil

26/11/2008

O príncipe sapo


Há muito tempo, quando os desejos funcionavam, vivia um rei que tinha filhas muito belas. A mais jovem era tão linda que o sol, que já viu muito, ficava atónito sempre que iluminava seu rosto. Perto do castelo do rei havia um bosque grande e escuro no qual havia um lagoa sob uma velha árvore. Quando o dia era quente, a princesinha ia ao bosque e se sentava junto à fonte. Quando se aborrecia, pegava sua bola de ouro, a jogava alto e recolhia. Essa bola era seu brinquedo favorito. Porém aconteceu que uma das vezes que a princesa jogou a bola, esta não caiu em sua mão, mas sim no solo, rodando e caindo directo na água. A princesa viu como ia desaparecendo na lagoa, que era profunda, tanto que não se via o fundo. Então começou a chorar, mais e mais forte, e não se consolava e tanto se lamenta, que alguém lhe diz:
- Que te aflige princesa? Choras tanto que até as pedras sentiriam pena.
Olhou o lugar de onde vinha a voz e viu um sapo colocando sua enorme e feia cabeça fora d’água.
- Ah, és tu, sapo - disse - Estou chorando por minha bola de ouro que caiu na lagoa.
- Calma, não chores -, disse o sapo – Posso ajudar-te, porém, que me darás se te devolver a bola?
- O que quiseres, querido sapo - disse ela, - Minhas roupas, minhas pérolas, minhas jóias, a coroa de ouro que levo.
O sapo disse: - Não me interessam tuas roupas, tuas pérolas nem tuas jóias, nem a coroa. Porém me prometes deixar-me ser teu companheiro e brincar contigo, sentar a teu lado na mesa, comer em teu pratinho de ouro, beber de teu copinho e dormir em tua cama; se me prometes isto eu descerei e trarei tua bola de ouro”.
- Oh, sim- disse ela - Te prometo tudo o que quiseres, porém devolve minha bola – mas pensou- Fala como um tolo. Tudo o que faz é sentar-se na água com outros sapos e coachar. Não pode ser companheiro de um ser humano.
O sapo, uma vez recebida a promessa, meteu a cabeça na água e mergulhou. Pouco depois voltou nadando com a boa na boa, e a lançou na grama. A princesinha estava encantada de ver seu precioso brinquedo outra vez, colheu-a e saiu correndo com ela.
- Espera, espera - disse o sapo – Leva-me. Não posso correr tanto como tu -
Mas de nada serviu coachar atrás dela tão forte quanto pôde. Ela não o escutou e correu para casa, esquecendo o pobre sapo, que se viu obrigado a voltar à lagoa outra vez.
No dia seguinte, quando ela sentou à mesa com o rei e toda a corte, estava comendo em seu pratinho de ouro e algo veio arrastando-se, splash, splish splash pela escada de mármore. Quando chegou ao alto, chamou à porta e gritou:
- Princesa, jovem princesa, abre a porta.
Ela correu para ver quem estava lá fora. Quando abriu a porta, o sapo sentou-se diante dela e a princesa bateu a porta. Com pressa, tornou a sentar, mas estava muito assustada. O rei se deu conta de que seu coração batia violentamente e disse: - Minha filha, por que estás assustada? Há um gigante aí fora que te quer levar?
- Ah não, respondeu ela - não é um gigante, senão um sapo.
- O que quer o sapo de ti?
- Ah querido pai, estava jogando no bosque, junto à lagoa, quando minha bola de ouro caiu na água. Como gritei muito, o sapo a devolveu, e porque insistiu muito, prometi-lhe que seria meu companheiro, porém nunca pensei que seria capaz de sair da água.
Entretanto o sapo chamou à porta outra vez e gritou:
- Princesa, jovem princesa, abre a porta. Não lembras que me disseste na lagoa? Princesa, jovem princesa, abre a porta.
Então o rei disse:
- Aquilo que prometeste, deves cumprir. Deixa-o entrar.
Ela abriu a porta, o sapo saltou e a seguiu até sua cadeira. Sentou-se e gritou:
- Sobe-me contigo.
Ela o ignorou até que o rei lhe ordenou. Uma vez que o sapo estava na cadeira, quis sentar na mesa. Quando subiu, disse:
- Aproxima teu pratinho de ouro porque devemos comer juntos.
Ela o vez, porém se via que não de boa vontade. O sapo aproveitou para comer, porém ela enjoava a cada bocado. Em seguida disse o sapo:
- Comi e estou satisfeito, mas estou cansado. Leva-me ao quarto, prepara tua caminha de seda e nós dois vamos dormir.
A princesa começou a chorar porque não gostava da ideia de que o sapo ia dormir na sua preciosa e limpa caminha. Porém o rei se aborreceu e disse:
- Não devias desprezar àquele que te ajudou quando tinhas problemas.
Assim, ela pegou o sapo com dois dedos, e a levou para cima e a deixou num canto. Porém, quando estava na cama o sapo se arrastou até ela e disse:
- Estou cansado, eu também quero dormir, sobe-me senão conto a teu pai.
A princesa ficou então muito aborrecida. Pegou o sapo e o jogou contra a parede.
- Cale-se, bicho odioso – disse ela. Porém, quando caiu ao chão não era um sapo, e sim um príncipe com preciosos olhos. Por desejo de seu pai ele era seu companheiro e marido. Ele contou como havia sido encantado por uma bruxa malvada e que ninguém poderia livrá-lo do feitiço excepto ela. Também disse que no dia seguinte iriam todos juntos ao seu reino.
Se foram dormir e na manhã seguinte, quando o sol os despertou, chegou uma carruagem puxada por 8 cavalos brancos com plumas de avestruz na cabeça. Estavam enfeitados com correntes de ouro. Atrás estava o jovem escudeiro do rei, Enrique. Enrique havia sido tão desgraçado quando seu senhor foi convertido em sapo que colocou três faixas de ferro rodeando seu coração, para se acaso estalasse de pesar e tristeza.
A carruagem ia levar ao jovem rei a seu reino. Enrique os ajudou a entrar e subiu atrás de novo, cheio de alegria pela libertação, e quando já chegavam a fazer uma parte do caminho, o filho do rei escutou um ruído atrás de si como se algo tivesse quebrado. Assim, deu a volta e gritou:
- Enrique, o carro está se rompendo.
- Não amo, não é o carro. É uma faixa de meu coração, a coloquei por causa da minha grande dor quando eras sapo e prisioneiro do feitiço.
Duas vezes mais, enquanto estavam no caminho, algo fez ruído e cada vez o filho do rei pensou que o carro estava rompendo, porém eram apenas as faixas que estavam se desprendendo do coração de Enrique porque seu senhor estava livre e era feliz.






25/11/2008

A mulher teimosa afogada


Um homem que era casado
Com mulher néscia e teimosa,
Que tinha um gênio danado,
Foi um dia
Fazer certa romaria,
Distante do povoado.

Eis que um rio caudaloso
No fim da estrada encontraram,
Que passar era forçoso.
O marido
Sonda o vau, e prevenido
Teme entrar no pego undoso.

A mulher, teimosa e má,
Lhe diz: "Entra n'água, ó fona,
Que perigo nenhum há.
— Há perigo,
Torna-lhe ele, — e não prossigo!"
E ela diz: "Pois eu vou lá!"

Nisto, mete-se imprudente
À levada impetuosa
Feita pela grossa enchente;
Então cai,
E, indo ao fundo aos urros, vai
Envolvida na corrente.

Aterrado o pobre esposo,
Vendo aquela atroz desgraça,
Inda quer salvá-la ansioso;
Que a lastima,
E vai pelo rio acima
Procurando-a cuidadoso.

Os que viram abismá-la
Vendo-o ir contra a corrente,
Dizem: "Valha-te uma bala,
Ó borracho!
Se foi pelo rio abaixo,
Lá em cima é que hás de achá-la?"

Torna-lhe ele: "Este dragão
Sempre com todos viveu
Em fera contradição,
E por má
juro que subindo irá,
Se as águas descendo estão.

Às avessas da outra gente
Andou toda a sua vida;
Mas já teimosa imprudente
Não será;
Que o gênio que o berço dá
Tira-o a tumba somente".

Curvo Semedo (Trad.)

23/11/2008

O génio da garrafa


Era uma vez um pobre lenhador que trabalhava desde a manhã até a noite fechada. Quando finalmente ele conseguiu juntar um pouco de dinheiro, disse ao seu menino:
- Você é meu filho único e quero aplicar o meu dinheiro, que ganhei com o suor do meu rosto, na sua instrução. Se você aprender alguma coisa que preste, poderá me sustentar na minha velhice, quando os meus membros estiverem endurecidos e eu tiver de ficar sentado em casa.
Então o menino foi para uma boa escola e estudou com afinco, de modo que seus mestres o elogiavam, e ficou algum tempo por ali. Ele terminou um par de cursos, mas ainda não tinha se formado em tudo, quando aconteceu que o pouco dinheiro que o pai economizara se acabou e ele teve de voltar para casa.
- Aí, - disse o pai, tristonho - não posso dar-lhe mais nada e com esta carestia não consigo tampouco ganhar nem um vintém a mais que para o pão de cada dia.
- Querido pai, - respondeu o filho - não se preocupe com isso! Se Deus quiser, tudo terá sido para melhor; eu vou me arranjar.
Quando o pai ia sair para a floresta, para ganhar alguma coisa com a lenha preparada, o filho disse:
- Eu quero ir com você e ajudá-lo.
- Sim, meu filho - disse o pai. - Mas isto lhe será muito difícil; você não está acostumado ao trabalho duro e não vai agüentar. Além disso eu não tenho machado sobrando, e nem dinheiro para poder comprar um novo.
- Vá procurar o vizinho - respondeu o filho. - Ele lhe emprestará o seu machado até que eu possa ganhar o bastante para comprar um para mim.
Então o pai tomou um machado emprestado do vizinho e no dia seguinte, de manhã cedinho, os dois saíram juntos para a floresta. O filho ajudou o pai, com esforço e animado, sem se cansar.
E quando o sol estava a pique sobre eles, o pai falou:
- Vamos descansar e almoçar; depois o trabalho rende o dobro.
O filho pegou o seu pedaço de pão e disse:
- Descanse, pai, Eu não estou fatigado; quero passear um pouco pela floresta e procurar ninhos de passarinho.
- Ó rapazinho tolo! - disse o pai. -- Para que quer ficar correndo de um lado para outro, só para ficar cansado e depois não poder erguer o braço? Fique aqui sentado ao meu lado!
Mas o filho se embrenhou na floresta, comeu o seu pão, muito contente, e espiou por entre os galhos a ver se encontrava algum ninho. Assim ele andou de um lado para outro, até que chegou a um grande carvalho, que devia ter muitos séculos de idade, e cujo tronco cinco homens não poderiam abraçar. Ele parou, olhou para a árvore e disse:
- Aqui muitos pássaros devem ter construído seus ninhos.
Mas aí pareceu-lhe de repente ouvir uma voz. Prestou atenção e ouviu gritar em tom bastante abafado: “Deixe-me sair! Deixe-me sair!”
Olhou em volta e não conseguiu ver nada, mas pareceu-lhe que a voz saía de dentro da terra. Então gritou:
- Onde está você?
A voz respondeu:
- Estou encalhado aqui embaixo, junto das raízes. Deixe-me sair, deixe-me sair!
O estudante começou a cavocar debaixo da árvore e a procurar entre as raízes, até que por fim encontrou, num pequeno desvão, uma garrafa de vidro. Levantou-a e segurou-a contra a luz, e então viu lá dentro uma coisa que parecia um sapo, pulando para cima e para baixo.
- Deixe-me sair, deixe-me sair! - ouviu de novo. E o garoto, que não desconfiava de nada de mau, tirou a rolha da garrafa. Imediatamente escapou dela um gênio, que começou a crescer, e cresceu tão depressa que em poucos instantes uma figura terrificante, do tamanho da metade da árvore.
- Sabe - urrou a aparição com voz aparovante - qual é o seu prêmio por ter-me libertado?
- Não - respondeu o estudante, sem se assustar.
- Como posso saber disso?
- Então eu lhe direi - gritou o gênio. - Vou quebrar-lhe o pescoço em troca disso.
- Isto você devia ter-me dito antes - respondeu o estudante. - mas minha cabeça tem de permanecer no lugar!
- A recompensa merecida, esta você vai ganhar - gritou o gênio. - Ou pensa que foi por benevolência que me deixaram trancado dentro da garrafa por tanto tempo? Não, foi por castigo. Eu sou o poderoso Mercúrius; quem me soltar terá o pescoço quebrado.
- Mais devagar! - respondeu o estudante. -- As coisas não vão assim tão depressinha! Primeiro eu preciso ter certeza de que você, com este tamanho todo, estava de fato dentro dessa pequena garrafa, e de que você é o gênio verdadeiro; se você puder entrar e caber lá dentro de novo, então vou acreditar e poderá fazer comigo o que quiser.
O gênio falou, cheio de arrogância:
- Isto não é problema! - e começou a se encolher e ficou tão fino e pequeno como estivera antes, de modo que se enfiou, pela mesma abertura no gargalo, para dentro da garrafa.
Mas nem bem ele estava lá dentro, o estudante tampou depressa a garrafa com a mesma rolha, pôs a garrafa de volta no antigo lugar, e o gênio foi logrado.
Agora o estudante queria voltar para junto do pai, mas o gênio gritou, muito lamentoso:
- Deixe-me sair! Ó, deixe-me sair!
- Não, - respondeu o estudante - você iria me enganar como da primeira vez.
- Você está pondo a perder a sua própria felicidade - disse o gênio. - Eu não lhe farei mal, mas vou recompensá-lo ricamente.
O estudante pensou: “Vou tentar; quem sabe ele mantém a palavra; eu não deixarei que ele me faça mal”.
Então tirou a rolha, e o gênio saiu como da primeira vez, espreguiçou-se e ficou do tamanho de um gigante.
- Agora você terá a sua recompensa - disse ele, entregando ao estudante um pequeno pano, que parecia um emplastro, e continuou: - Se você esfregar um ferimento com uma ponta dele, a ferida se fechará; e se esfregar ferro ou aço com a outra ponta, o metal se transformará em prata.
- Preciso experimentar isso - disse o estudante.
Pegou o seu machado, feriu a casca de uma árvore com ele, e esfregou o corte com uma ponta do emplastro; imediatamente o corte se fechou e a casca sarou.
- Muito bem, a coisa funciona - disse ele ao gênio. - Agora podemos nos separar.
O gênio agradeceu-lhe pela sua libertação e o estudante agradeceu ao gênio pelo presente e voltou para junto do pai.
- Por onde você andou passeando? - perguntou o pai. - Por que esqueceu o trabalho? Bem que eu disse logo que você não seria capaz de fazer coisa alguma.
- Não se zangue, pai; eu vou alcança-lo.
- Sim, alcançar, alcançar; - disse o pai, irritado - isto não é tão fácil.
- Pois preste atenção, pai: vou já derrubar esta árvore aqui tão bem que ela vai tombar com um estrondo.
Então ele pegou o seu machado, esfregou-o com o emplastro e desferiu uma possante machadada na árvore. Mas como o ferro tinha virado prata, a lâmina perdeu todo o corte.
- Ei, pai, veja que machado ruim você me deu. Ele entortou todo com o primeiro golpe. O pai assustou-se e disse:
- Ai, o que foi que você fez! Agora terei de pagar pelo machado e não sei como nem com quê. É esta a vantagem que me traz o seu trabalho...
- Não se zangue, pai! - respondeu o filho. - Eu vou pagar pelo machado.
- Ó seu bobalhão, - exclamou o pai - com o que você vai pagá-lo, se não tem nada além do que lhe dou? Tolices de estudante, é só o que tem na cabeça, mas de cortar lenha você não entende nada.
Dali a pouco, o estudante disse:
- Pai, agora que eu não posso trabalhar mais mesmo, é melhor que encerremos a jornada e vamos para casa.
- Qual o quê! - respondeu o pai. - Você pensa que eu quero cruzar os braços no colo como você? Eu ainda preciso trabalhar, mas você pode se mandar para casa.
- Pai, é a primeira vez que eu estou aqui no meio da floresta, não sei achar o caminho de volta para casa sozinho, venha comigo!
Como a sua cólera já se acalmara, o pai deixou-se persuadir e voltou com o filho para casa. Então lhe disse:
Vá e venda o machado estragado e veja o que pode conseguir por ele. Vou tratar de ganhar a diferença com o meu trabalho, para pagar ao vizinho.
No dia seguinte, o filho pegou o machado e levou-o à cidade, a um ourives. Este fez a prova, colocou o machado na balança e disse:
- Ele vale quatrocentos talers; eu não tenho tanto dinheiro para pagar à vista.
O estudante falou:
- Dê-me o quanto tiver em dinheiro; eu espero pelo restante, em confiança.
O ourives pagou-lhe trezentos talers e ficou devendo cem. Com isso o estudante voltou para casa e disse:
- Pai, eu tenho dinheiro. Vá e pergunte o que o vizinho quer pelo seu machado.
- Isto eu já sei - disse o pai. - Um taler e seis décimos.
- Então dê-lhe dois talers e doze décimos, isto é, o dobro, e é suficiente. Está vendo, pai, eu tenho dinheiro de sobra!
E com isso ele entregou ao pai cem talers e disse:
- Nunca mais vai lhe faltar nada, pai. Viva agora em conforto.
- Meu Deus! - disse o velho. - Como foi que lhe veio essa riqueza?
Então o filho contou-lhe como tudo acontecera, e como ele, confiante na sorte, fizera tão rico achado. Mas com o dinheiro que sobrou, o rapaz voltou para a escola superior e continuou a estudar. E, como podia curar todos os ferimentos com o seu emplastro, ele tornou-se o médico mais famoso do mundo inteiro.






18/11/2008

Os dez anõezinhos da Tia Verde-Água


Era uma mulher casada, mas que se dava muito mal com o marido, porque não trabalhava nem tinha ordem no governo da casa; começava uma coisa e logo passava para outra, tudo ficava em meio, de sorte que quando o marido vinha para casa nem tinha o jantar feito, e à noite nem água para os pés nem a cama arranjada. As coisas foram assim, até que o homem lhe pôs as mãos e ia-a tocando, e ela a passar muito má vida. A mulher andava triste por o homem lhe bater, e tinha uma vizinha a quem se foi queixar, a qual era velha e se dizia que as fadas a ajudavam. Chamavam-lhe a Tia Verde-Água:
– Ai, Tia! vossemecê é que me podia valer nesta aflição.
– Pois sim, filha; eu tenho dez anõezinhos muito arranjadores, e mando-tos para tua casa para te ajudarem.
E a velha começou a explicar-lhe o que devia fazer para que os dez anõezinhos a ajudassem; que quando pela manhã se levantasse fizesse logo a cama, em seguida acendesse o lume, depois enchesse o cântaro de água, varresse a casa, aponteasse a roupa, e no intervalo em que cozinhasse o jantar fosse dobando as suas meadas, até o marido chegar. Foi-lhe assim indicando o que havia de fazer, que em tudo isto seria ajudada sem ela o sentir pelos dez anõezinhos. A mulher assim o fez, e se bem o fez melhor lhe saiu. Logo à boca da noite foi a casa da Tia Verde-Água agradecer-lhe o ter-lhe mandado os dez anõezinhos, que ela não viu nem sentiu, mas porque o trabalho correu-lhe como por encanto. Foram-se assim passando as coisas, e o marido estava pasmado por ver a mulher tornar-se tão arranjadeira e limposa; ao fim de oito dias ele não se teve que não lhe dissesse como ela estava outra mulher, e que assim viveriam como Deus com os anjos. A mulher contente por se ver agora feliz, e mesmo porque a féria chegava para mais, vai a casa da Tia Verde-Água agradecer-lhe o favor que lhe fez:
– Ai, minha Tia, os seus dez anõezinhos fizeram-me um servição; trago agora tudo arranjado, e o meu homem anda muito meu amigo. O que lhe eu pedia agora é que mos deixasse lá ficar.
A velha respondeu-lhe:
– Deixo, deixo. Pois tu ainda não viste os dez anõezinhos?
– Ainda não; o que eu queria era vê-los.
– Não sejas tola; se tu queres vê-los olha para as tuas mãos, e os teus dedos é que são os dez anõezinhos.
A mulher compreendeu a coisa, e foi para casa satisfeita consigo por saber como é que se faz luzir o trabalho.


Recolha de Teófilo Braga

16/11/2008

Justiça de Deus

Preso vai o conde, preso,
Preso vai a bom recado;
Não vai preso por ladrão,
Nem por homem ter matado,
Mas por violar a donzela
Que vinha de San Tiago:
Não bastou dormir com ela,
Senão dá-la ao seu criado!
Acometeu-a na serra,
Mui longe do povoado:
Por morta ali a deixara
Sem mais dó, sem mais cuidado
Chorou três dias, três noites,
E mais teria chorado,
Senão que Deus sempre acode
A amparar o desgraçado.
Passou por alo um velho,
Um pobre velho soldado,
Suas barbas brancas de neve,
Em sua espada abordoado;
Vieiras traz na esclavina,
O chapéu delas cercado;
Chegou-se à pobre romeira
Com muito amor, muito agrado:

– «Não chores mais, filha minha,
Filha, demais tens chorado;
Que esse vilão cavaleiro
Preso vai a bom recado.»
Levou consigo a donzela
O bom velho do soldado;
Vão à presença d el-rei,
Onde o conde era levado:

– «Eu te requeiro, bom rei,
Pelo Apóstolo sagrado,
Que nesta sua romeira
O foro seja guardado.
Da lei divina é casar-se,
Da humana ser degolado:
Que não valem fidalguias
Onde Deus é o agravado.»

Disse el-rei aos do conselho
Com semblante carregado:
– «Sem mais detença, este feito
Quero já desembargado.»
– «Visto está o feito, visto,
Julgado está, bem julgado:
Ou há-de casar com ela,
Ou se não... ser degolado.»
– «Pois que me praz» disse o rei:
O algoz que seja chamado:
Ou já casar, co a romeira
Ou aqui ser degolado.»

– «Venham algoz e cutelo.
Respondeu o acusado:
Mas antes morrer mil vezes
Que viver envergonhado»

Agora ouvireis o velho,
O bom velho do soldado:
– «Fazeis, bom rei, má justiça,
Mau feito tendes julgado:
Primeiro casar com ela,
E depois ser degolado.
Lava-se a honra com sangue,
Mas não se lava o pecado»

Palavras não eram ditas,
A espada tinha arrojado,
Despe insígnias de romeiro,
Despe as armas de soldado,
Nos trajos de um santo bispo
Aparece transformado;
Sua mitra de pedras finas,
De oiro puro o seu cajado:
Tomou a mão da romeira,
A mão do conde há tomado,
Por palavras de presente
Ali os tem desposado.
Choravam todos que o viam,
Chorava mais o culpado;
Chorando, pedia a morte
Por não ficar desonrado.
O santo bispo o absolvia
Contrito de seu pecado:
Dali o levam por morto,
Que nem o algoz foi chamado,
Justiça de Deus foi nele,
Antes de uma hora é finado!
Mas acudiu àquela alma
O Apóstolo sagrado,
Que outro não era o romeiro,
O bispo nem o soldado.


Romanceiro, Almeida Garrett





A Bela e a Cobra


Era uma vez um rei que tinha três filhas, uma das quais era muito formosa e ao mesmo tempo dotada de boas qualidades. Chamava-se Bela. O rei tinha sido muito rico, mas, por causa de um naufrágio, ficou completamente pobre.
Um dia foi fazer uma viagem; antes porém perguntou às filhas o que queriam que ele lhes trouxesse. – Eu, disse a mais velha, quero um vestido e um chapéu de seda.
– Eu, disse a do meio, quero um guarda-sol de cetim.
– E tu que queres? – perguntou ele à mais nova.
– Uma rosa tão linda como eu, respondeu ela.
– Pois sim, disse ele.
E partiu.
Passado algum tempo trouxe as prendas de suas filhas, disse à mais nova:
– Pega lá esta linda rosa. Bem cara me ficou ela!
Bela ficou muito preocupada e perguntou ao pai por que é que lhe tinha dito aquilo. Ele, a princípio, não lho queria dizer, mas ela tantas instâncias fez, que ele lhe respondeu que no jardim onde tinha colhido aquela rosa encontrou uma cobra, que lhe perguntou para quem ela era; que ele lhe respondeu que era para a sua filha mais nova e ela lhe disse que lha havia de levar, se não que era morto. Depois disse ela:
– Meu pai, não tenha pena, que eu vou.
Assim foi. logo que ela entrou naquele palácio, ficou admirada de ver tudo tão asseado, mas ia com muito medo. O pai esteve lá um pouco de tempo e depois foi-se embora. Bela, quando ficou só, foi a uma sala e viu a cobra. Ia-se a deitar quando começaram a ajudarem-na a despir. Estava ela na cama quando sentiu uma coisa fria; deu um grito e disse-lhe uma voz: – Não tenhas medo.
Em seguida foi ver o que era e apareceu-lhe uma cobra. Ela, a princípio, assustou-se, mas depois começou a afagá-la. Ao outro dia de manhã apareceu-lhe a mesa posta com o almoço. Ao jantar viu pôr a mesa, mas não viu ninguém; a noite foi-se deitar e encontrou a mesma cobra. Assim viveu durante muito tempo, até que um dia foi visitar o pai; mas quando ia a sair ouviu uma voz que lhe disse:
– Não te demores acima de três dias, senão morrerás.
Ia a continuar o seu caminho e já se esquecia do que a voz lhe tinha dito. Chegou a casa do pai. Iam a passar três dias quando se lembrou que tinha de tornar; despediu-se de toda a sua família e partiu a galope; chegou lá à noite, foi-se deitar, como tinha de costume, mas já não sentiu o tal bichinho. Cheia de tristeza, levantou-se pela manhã muito cedo, foi procurá-lo no jardim e qual não foi a sua admiração vendo-o no fundo dum poço! Ela começou a afagá-lo chorando; mas, quando chorava, caiu-lhe uma lágrima no peito da cobra; assim que a lágrima lhe caiu a cobra transformou-se num príncipe, que ao mesmo tempo lhe disse:
– Só tu, minha donzela, me podias salvar! Estou aqui há uns poucos de anos e, se tu não chorasses sobre o meu peito, ainda aqui estaria cem anos mais.
O príncipe gostou tanto dela que casou com ela e lá viveram durante muitos anos.


Recolha de José Leite de Vasconcelos

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