09/02/2009

O Lidador e a Porta da Traição



Foi numa noite sem luar, cercava o exército de D. Afonso Henriques a fortaleza de Óbidos onde os mouros, encurralados,resistiam, há cerca de dois meses, que tudo começou
D. Afonso Henriques e Gonçalo Mendes da Maia, o Lidador, tinham decidido antes de se retirarem para as suas tendas que o ataque seria realizado na madrugada do dia seguinte.
Dormia já o Lidador quando foi acordado por uma voz de mulher que lhe pedia para ser conduzida à tenda do rei de Portugal, pois tinha algo de importante a comunicar-lhe. A jovem vivia no castelo dos mouros mas não sabia se era moura porque nunca tinha conhecido os seus pais. Temendo uma cilada dos mouros, foi com alguma hesitação que o Lidador a conduziu à presença do rei, perante o qual a jovem revelou o sonho que se repetia há três noites.
Neste sonho, aparecia-lhe um homem novo de barbas castanhas e bondoso olhar que a encarregou de transmitir uma mensagem para o rei de Portugal : o rei deveria reunir os soldados e liderá-los num ataque surpresa à parte fronteiriça do castelo, enquanto o Lidador se deveria dirigir com dez homens às traseiras onde a jovem donzela abriria uma porta para os deixar passar. O homem barbudo prometia Óbidos aos cristãos e a salvação à jovem donzela. Apesar da hesitação do Lidador, D. Afonso Henriques já não se atrevia a duvidar dos desígnios divinos após o Milagre de Ourique. Na manhã seguinte, Óbidos foi conquistada conforme o sonho da misteriosa jovem que nunca mais foi vista.
A porta que franqueou a entrada dos cristãos ficou para sempre conhecida como a Porta da Traição.



07/02/2009

Piloto

Piloto era o mais inteligente e o mais afectuoso dos cães, e o infatigável companheiro dos brinquedos das crianças da quinta.
Fazia gosto vê-lo atirar-se ao tanque a agarrar o pau, que o João lhe lançava o mais longe que podia; pegava nele, metia-o na boca e trazia-o à margem, com grande alegria do pequerrucho e de sua irmã Joaninha.
Esta brincadeira recomeçava vinte vezes sem cansar nunca a paciência do Piloto. Depois eram corridas, festas, gargalhadas, saltos, até que o assobio do criado da quinta chamava o fiel animal ás suas obrigações; partia então como um raio, para escoltar as vacas que levavam aos pastos, e impedi-las de entrar no lameiro do vizinho.
Quando o hortelão ia vender os legumes ao mercado, era o Piloto o guarda da carroça; e muito atrevido seria quem saltasse à noite a parede da quinta.
Uma vez deu prova de urna extraordinária sagacidade: um jornaleiro, que se empregava muitas vezes em levar sacos de trigo da quinta para casa, tentou de noite roubar um saco.
O Piloto, que o conhecia, não fez a menor demonstração de hostilidade enquanto o homem seguiu o caminho da quinta, mas, desde que se afastou tomando por outro, o guarda vigilante, agarrou-o pela blusa, sem o largar.
Era como se dissesse: «Aonde vais tu com o trigo do meu dono?»
O ladrão quis pôr outra vez o saco donde o tinha roubado; mas o Piloto não deixou, e teve-o em guarda, sem o morder nem ferir, até de manhã; o quinteiro foi dar com ele nesta difícil posição, repreendeu-o vivamente, e despediu-o sem divulgar o caso, para o não desonrar.
O homem, porém, ficou com ódio ao cão, e muito tempo depois, aproveitando a ausência do quinteiro e dos filhos, chamou o Piloto, que correu para ele sem desconfiança; atou-lhe uma corda ao pescoço e arrastou-o à margem do ribeiro.
Atou à outra ponta da corda um grande calhau, e, levantando o animal, arrojou-o à água; mas arrastado ele próprio com o peso e com o esforço, caiu também.
Como não sabia nadar, teria sido despedaçado pela roda do moinho, se o corajoso Piloto, obedecendo ao seu instinto de salvador, e desembaraçando-se da pedra mal atada, não mergulhasse duas vezes, trazendo para terra o seu mortal inimigo.
Este, que já estava quase desmaiado, compreendeu, quando voltou a si, que o cão, que ele tinha querido afogar, lhe salvara a vida.
Envergonhou-se do acto miserável: e desde esse dia, violentando-se, combateu as suas mas inclinações.
O exemplo do cão corrigiu o homem.




05/02/2009

A noiva arraiana

- «Deus vos salve, minha tia,
Na vossa roca a fiar!»
- «Venha embora o cavaleiro
Tão cortês no seu falar!»
- «Má hora se ele foi, tia,
Má hora torna a voltar!
Que já ninguém o conhece
De mudado que há-de estar.
Por lá o matassem moiros,
Se assim tinha de tornar!»
- «Ai sobrinho de minha alma,
Que és tu pelo teu falar!
Não vês estes olhos, filho,
Que cegaram de chorar?»
- «E meu pai e minha mãe,
Tia, que os quero abraçar?»
- «Teu pai é morto, sobrinho,
Tua mãe foi a enterrar.»
- «Qu’é da minha armada, tia,
Que eu aqui mandei estar?»
- «A tua armada, sobrinha,
Mandou-a o fronteiro ao mar.»
- «Qu’é do meu cavalo, tia,
Que eu aqui deixei ficar?»
- «O teu cavalo, sobrinho,
El-rei o mandou tomar.»
- «Qu’é de minha dama, tia,
Que aqui ficou a chorar?»
- «Tua dama faz hoje a boda,
Amanhã se vai casar.»
- «Dizei-me onde é, minha tia,
Que me quero lá chegar.»
- «Sobrinho, não digo, não,
Que te podem lá matar.»
- «Não me matam, minha tia;
Cortesia eu sei usar:
E onde faltar cortesia,
Esta espada há-de chegar.»

- «Salve Deus, ó lá da boda,
Em bem seja o seu folgar!»
- «Venha embora o cavaleiro;
- «Salve Deus, ó lá da boda,
Em bem seja o seu folgar!»
- «Venha embora o cavaleiro;

Vindo ela lá de dentro
Toda lavada em chorar,
Mal que viu o cavaleiro,
Quis morrer, quis desmaiar.
- «Se tu choras por me veres,
Já me quero retirar;
Se é os teus gastos que choras,
Aqui estou para os pagar.»
- «Pagar devia co’a vida
Quem me queria enganar,
Quando te deram por morto
Nessas terras de além mar.
Mas que fiquem com a boda
E bem lhes preste o jantar,
Que os meus primeiros amores
Ninguém mos há-de quitar.»

- Venha juiz de Castela,
Alcaide de Portugal;
Que, se aqui não há justiça,
Co’esta espada a hei-de tomar.»

Romanceiro, Almeida Garrett



04/02/2009

A mosca e a formiga


Uma mosca importuna contendia
Com a negra formiga, e lhe dizia:
"Eu ando levantada lá nos ares,
E tu por esse chão sempre a arrastares;
Em palácios estou de grande altura,
Tu debaixo da terra em cova escura:
A minha mesa é rica e delicada;
Tu róis grãos de trigo e de cevada:
Eu levo boa vida, e tu, formiga,
Andas sempre em trabalho e em fadiga".
A formiga lhe disse:

"Tu me enfadas
Com essas tuas vãs fanfarronadas.
Que te importa que eu ande cá de rastos
Com desprezo das pompas e dos fastos?
Para amparo e abrigo não há prova
De valer mais palácio do que cova.
O palácio é do rei ou da rainha,
E não teu; mas a cova é muito minha;
Eu a fiz com a minha habilidade:
Porventura tens tal capacidade?
Pára aqui. Tuas prendas afamadas
Não passam de zunir e dar picadas.
No que toca a comer, os meus bocados
Não me sabem pior que os teus guisados.
Teus lhe chamo?— os que furtas: nesta parte
Vás comigo, que eu uso da mesma arte;
Porém não vivo em ócio e em preguiça,
Como tu, lambareira, metediça;
Por isso te aborrecem e te enxotam
Com uma raiva tal, que ao chão te botam.
Fazem-me porventura esse agasalho?
Louvam-me em diligência e em trabalho:
Eu faço para inverno provimento:
Morres nele — ou por falta de alimento,
Ou por vir sobre ti algum nordeste,
Que para a tua casta é uma peste".

Couro Guerreiro (Trad.)

03/02/2009

O Pequeno Polegar


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Numa noite fria de inverno, um campo­nês estava sentado na sala de sua casa, con­versando com a mulher, enquanto descansa­vam do trabalho do dia.
— Como nossa casa é triste! — dizia ele. — Nas outras há sempre barulho e alegria, mas aqui, como não temos filhos, reina um silêncio tão grande!
— Pois é — respondeu a mulher. — Eu também daria tudo para termos um filho! Nem que tivéssemos um só, e nem que ele fosse tão pequenininho como este meu dedo polegar, mesmo assim eu ficaria imensamen­te feliz!
Dias depois de terem essa conversa, a mulher começou a sentir-se indisposta e, passados sete meses, teve um filho, um menino perfeito e bonito, mas que era muito peque­nino, do tamanho mesmo do dedo polegar da mãe. Felizes por verem seu desejo atendido, os camponeses nem se importaram com o ta­manho da criança, e deram-lhe o nome de Pequeno Polegar.
Os pais amavam muito o Pequeno Pole­gar e de tudo fizeram para ver se ele crescia: deram-lhe uma alimentação especial, cuida­ram dele com todo o carinho, mas nada con­seguiu fazer com que o menino aumentasse de tamanho. Assim o tempo passou, mas o Pequeno Polegar continuou sempre tão pe­queno como no dia em que havia nascido.
No entanto, o que o menino não tinha em tamanho, tinha em beleza e inteligência. Era muito vivo e sabia sair-se bem de todos os problemas.
Um dia, o pai estava se preparando para ir buscar lenha na floresta e disse baixinho, para si mesmo:
— Que bom seria se alguém fosse me buscar na floresta com a carroça! Assim eu não precisaria trazer a lenha nas costas!
O Pequeno Polegar, que estava por perto e tinha escutado tudo, disse prontamente:
— Eu vou, papai! Pode ficar descansa­do que na hora certa estarei lá com a carroça!
— Você, meu filho? — disse o pai, sor­rindo. — Mas você é muito pequeno para fa­zer isso! Como vai conseguir segurar as ré­deas e guiar o cavalo?
— Se a mamãe atrelar o cavalo na car­roça para mim — respondeu o menino —, eu me sentarei na orelha do cavalo e irei dizendo para ele como e aonde deve ir!
O camponês achou engraçada a idéia e respondeu:
— Está bem! Não custa nada tentar, não é?
Na hora combinada, a mãe atrelou o ca­valo à carroça e lá se foi o pequenino, senta­do confortavelmente numa das orelhas do animal, indicando-lhe o caminho com muita esperteza. O cavalo obedecia às ordens do Pequeno Polegar e seguia pela estrada como se um cocheiro invisível estivesse segurando as ré­deas. Ao chegarem numa curva do caminho, o menino gritou bem alto para o animal que virasse à esquerda. Nisso, iam passando dois forasteiros que, não vendo o cocheiro que guiava a carroça e ouvindo uma voz que dava ordens ao cavalo, ficaram assombrados.
— Credo! — disse um deles. — Que coisa mais esquisita! Uma carroça guiada por um homem invisível?!
— Esse negócio está muito estranho mes­mo! — respondeu o outro. — É melhor seguir­mos essa carroça para ver onde ela vai parar!
Com muita habilidade o Pequeno Polegar chegou até o lugar onde o pai já o esperava, no meio da floresta, sem perceber que estava sendo seguido.
— Cheguei, papai! — gritou, parando o cavalo. — Viu como eu consegui? Agora, por favor, me desça daqui!
O camponês, todo satisfeito, segurou o ca­valo com a mão esquerda e, com a direita, ti­rou o filho da orelha do animal. Muito con­tente com seu trabalho, o Pequeno Polegar foi se sentar num galhinho para observar o pai colocando a lenha rachada dentro da carroça.
Enquanto isso, os dois forasteiros, que a tudo observavam, ficaram boquiabertos ao ver o tamanho e a esperteza da criança. Quando passou o susto, um deles cochichou no ouvido do outro:
— Já pensou quanto dinheiro poderíamos ganhar com esse menino? Poderíamos com­prá-lo e exibi-lo no circo, cobrando entrada! ficaríamos ricos!
— Claro! — respondeu o outro, entusias­mado com a idéia. — Vamos conversar com o pai dele!
Fazendo-se gentis, os dois se aproxima­ram da carroça do camponês e lhe disseram:
— Bom dia, senhor. Estávamos obser­vando o trabalho desse anãozinho e gostaríamos de comprá-lo do senhor. Podemos pagar muito bem por ele.
— Como?! — respondeu o pai, indignado. — Vocês acham que eu ia vender meu filho? Ele faz parte do meu coração, meus senho­res, e eu não o venderia por todo o ouro do mundo!
O Pequeno Polegar, ao ouvir a discussão, mais do que depressa agarrou-se pelas roupas do pai e subiu até seu ombro. Sentou-se ao lado de seu ouvido e cochichou:
— Venda-me, papai! Pode ficar sossegado que eu darei um jeito de escapar e voltar para casa!
O camponês ficou confuso ao ouvir o que o menino dizia. Como os homens continuas­sem a insistir e o Pequeno Polegar a afirmar, com tanta certeza, que saberia voltar para casa, ele acabou aceitando o negócio. Depois que os forasteiros garantiram que cuidariam muito bem do menino, o pai acabou entre­gando-o aos dois homens, em troca de muitas moedas de ouro.
Em seguida, despediu-se do filho e voltou para casa cheio de tristeza.
Antes de partirem, um dos homens per­guntou ao Pequeno Polegar onde ele gostaria de viajar.
— Na aba de seu chapéu — disse o me­nino. — Assim eu posso ir passeando e obser­vando a paisagem.
O homem fez a vontade do pequenino e lá se foram eles, viajando por muitas horas, até o anoitecer. Quando viu que tudo ao redor estava ficando bem escuro, o Pequeno Polegar pediu ao homem que o levava na aba do chapéu que o pusesse no chão, pois precisava ir ao banheiro.
— Não se preocupe! — respondeu o homem, dando uma gargalhada. — Os passari­nhos vivem fazendo estas coisas no meu chapéu; por isso, pode ficar aí mesmo!
— Não! — respondeu o Pequeno Polegar, muito bravo. — Não foi assim que minha mãe me educou! Preciso descer agora!
Insistiu tanto e estava tão bravo que o homem acabou colocando seu chapéu no chão, à margem da estrada, para que ele descesse. Assim que se viu fora do alcance das mãos de seus donos, entretanto, o menino saiu cor­rendo, o mais rápido que podia, fugindo pelo meio dos montes de terra e das raízes das ár­vores. Quando perceberam que haviam sido enganados, os dois homens ficaram furiosos e começaram a perseguir o Pequeno Polegar pelo meio do mato. Mas o menino era muito esperto, e logo encontrou um buraco de rato, justamente o que estava procurando, e se escondeu lá dentro, gritando para os dois foras­teiros :
— Boa noite, meus amigos! Vocês podem muito bem seguir seu caminho sem mim!
Loucos de raiva, os dois pegaram um enorme pedaço de pau e começaram a cutu­car a toca do rato, na esperança de que, acuado, o Pequeno Polegar resolvesse sair. Mas foi trabalho perdido, pois o buraco onde ele estava era bem fundo e, por mais que os homens tentassem, não conseguiram tirá-lo de lá.
Como a noite havia caído e tudo estava escuro como breu, os dois homens percebe­ram que seria inútil continuar tentando; por isso, foram embora, furiosos e com a bolsa vazia. Depois de estar bem certo de que eles haviam partido, o Pequeno Polegar saiu de seu esconderijo.
— Nossa! Que escuridão! — disse ele ao sair. — Não seria bom ficar andando nesse escuro, pois eu poderia até quebrar uma perna!
Assim, pensando em voltar para casa quando o dia amanhecesse, o Pequeno Polegar saiu procurando um lugar seguro para passar a noite. Acabou encontrando uma cisca de caramujo vazia e lá se ajeitou confortavelmente para dormir.
Quando já estava quase pegando no sono, ouviu vozes bem perto de onde estava. Eram dois homens conversando e um deles dizia:
— Como vamos fazer para roubar o ouro e a prata da casa do padre?
Mais que depressa o menino gritou, de dentro do caramujo:
— Eu posso ensinar!
— Foi você quem disse isso? — pergun­tou, assustado, um dos ladrões.
— Não! — respondeu o outro, com os olhos arregalados de medo.
— Fui eu que falei! — gritou o Pequeno Polegar.
Cada vez mais assustados, os dois ladrões resolveram ficar em silêncio para descobrir se não estavam ouvindo coisas.
— Por que não me levam com vocês? — tornou a gritar o menino. — Eu posso aju­dá-los !

...

O Gato das Botas


Gato de Botas de Perrault, conto infantil


Um gato
travesso como toda a gataria
calçou botas e foi
ao rei levar presentes certo dia.
Seu dono era bem pobre.
Só tinha um belo olhar e um belo porte
Mas o gato de Botas transformou sua vida e sua sorte.


Há muito tempo, um velho moleiro, que tinha trabalhado a vida inteira, chamou seus três filhos e distribuiu entre eles tudo o que possuía. Entregou o moinho ao mais velho, deu o barro para o segundo, e para o terceiro, que era o caçula, sobrou só o gato. Quando os três filhos ficaram sozinhos, o mais velho combinou viver e trabalhar junto com o segundo irmão.
Ele podia fazer farinha no moinho, e o outro iria vendê-la na cidade, com o burro.
Mas o caçula, que só tinha um gato, era melhor que fosse embora com ele, pois para nada servia.
O caçula ficou muito triste, mas concordou:
— Vocês têm razão. O mais que posso fazer com um gato é comer uns bifes e usar a pele para um gorro.
Depois fez sua trouxa e pôs-se a caminho, levando o gato. Não sabia para onde ir. Andou durante muito tempo… Quando se cansou? sentou-se num. tronco caído, para pensar.
O gato ouvira a conversa dos irmãos, e, agora que estava sozinho com o dono, falou:
— Meu amo! Poderei ser-lhe mais útil vivo que morto. Arranje-me um par de botas para andar no bosque e um saco. Você vai ver do que eu sou capaz.
O rapaz estranhou o pedido, mas arranjou as botas e o saco para o gato.
— Quero só ver o que um gato pode fazer com isto — pensou.
Assim que recebeu o que pedira, saiu depressa,cantando alegremente:
De hoje em diante meu destino Com este saco de pano é ao meu dono servir. vou para o bosque distante, Hei de cobri-lo de ouro! Um cérebro que trabalha Basta de me divertir! faz fortuna num instante.
Enquanto caminhava em direção ao bosque, o gato ia fazendo seus planos. Seria difícil imaginar um gato mais esperto do que aquele.
Bem que ele dizia que sua cabeça funcionava! Ele não perdia tempo. Seu dono nunca poderia adivinhar o que ele pretendia fazer…
Chegando ao bosque, o gato pôs no chão o saco bem aberto e dentro jogou uns pedacinhos de pão. Depois, deitou-se ali perto fechou os olhos e fingiu de morto. Dali a pouco uma lebre se aproximou e foi comer o pão. Entrou no saco e… zás! Num piscar de olho o gato puxou os cordões, fechando o saco, colocou-o ao ombro, e correu ao palácio do rei.
— Majestade, venho trazer-vos esta lebre, que meu amo e senhor, Marquês de Carabá, caçou especialmente para vós.
O rei agradeceu o presente e mandou o cozinheiro preparar a lebre para o jantar.
Nos dias que se seguiram, o gato tornou a levar ao rei vários presentes do Marquês de Carabá: lebres, codornas, coelhos, faisões. O gato chegava ao palácio e, fazendo uma grande reverência, entregava ao rei a caça do dia:
— Majestade , Eis aqui duas perdizes, que vos envia meu amo, o Marquês de Carabá!
O rei ficava encantado. Estava cada vez mais curioso para conhecer o Marquês de Carabá, que o presenteava tanto.
Os próprios cortesãos perguntavam uns aos outros quem era o tal marquês. E o rei pensava:
— Se é tão bonito quanto é bom caçador, se é tão rico como esplêndido senhor, da minha filha eu lhe darei a mão e o amor!
Um dia o gato soube que o rei ia dar um passeio de carruagem com a filha. Levou o amo até um lago que ficava perto da estrada por onde o rei deveria passar, e, quando a carruagem se aproximava, mandou o dono despir-se e entrar na água.
— Mas, que é isso, gato? Você perdeu o juízo?
— Depressa, meu amo, depressa! Faça o que lhe digo, e não se arrependerá!
O rapaz nao teve outro jeito senão obedecer.
Tirou a roupa e pulou para dentro da água. A carruagem do rei já estava perto, e o gato começou a gritar:
— Socorro! Meu amo está se afogando! Socorro, Majestade!
O rei ordenou ao cocheiro que parasse e que seus guardas tirassem o marquês de dentro do rio. O gato agradeceu ao rei e disse:
— O pobre marquês… foi atirado ao rio por dois bandidos… que lhe roubaram…
— A peruca? — perguntou o rei.
— E também as roupas! — disse o gato.
O rei ordenou então a um dos seus servos que corresse ao palácio e trouxesse o traje mais bonito de seu guarda-roupa.
O furto da roupa era mais uma invenção do gato. E claro que o Marquês de Carabá não poderia apresentar-se vestido com as roupas pobres de um moleiro…
Quando o servo chegou com o belo traje do rei, o rapaz vestiu-se e aproximou-se da carruagem. Inclinou-se numa reverência e agradeceu ao rei por tê-lo salvo.
A princesa pediu ao pai que convidasse o Marquês de Carabá para entrar na carruagem e continuar o passeio com eles. O rapaz aceitou o convite, e o rei, vendo que a filha se interessava pelo moço, começou a pensar:
— Um marquês desconhecido! Preciso saber quem ele é, e também se é rico.
Enquanto isso o gato correra na frente e já estava longe.
Ao encontrar camponeses trabalhando a terra, o gato ordenou em voz grossa:
— Se alguém perguntar de quem são estas terras, digam que pertence . ao Marquês de Carabá. Se não responderem assim, eu os picarei em pedacinhos e farei salsicha de vocês!
Daí a pouco chegou a carruagem do rei. Os camponeses o saudaram e ele pergunto de quem eram aquelas terras.
— São do Marquês de Carabál
O rei olhou admirado para o rapaz, que disse modestamente:
­ É apenas um campo que quase não dá lucro… não dá nem para comprar os cartuchos para minha espingarda!
O gato, que não perdia tempo, já estava longe, falando com outros — Se alguém perguntar de quem é o trigo que vocês estão colhendo, digam que é do Marquês de Carabá. Senão, eu os pico em pedacinhos!
Logo apareceu a carruagem e o rei perguntou:
— De quem é este trigo?
— É do Marquês de Carabál
— responderam os camponeses.
O rei estava cada vez mais admirado com a riqueza do marquês e não parava de cumprimentá-lo.
O gato, entretanto, continuara a correr e chegara a um castelo.
Com a maior cara-de-pau deste mundo, bateu à porta.
— Quem é ? — perguntou o guarda.
— Pode dizer-me de quem é este castelo ?
— E de um terrível feiticeiro! — respondeu o guarda. — É melhor você ir andando, porque hoje ele espera hóspedes para um banquete.
O gato insistiu:
— Não posso passar por aqui sem parar para ver seu patrão. Pode anunciar-me: sou o gato do Marquês de Carabá e quero cumprimentá-lo
— Um gato! Que visita estranha! —disse o feiticeiro, que era muito vaidoso. E mandou-o entrar, pensando que o gato viesse prestar-lhe homenagens.
— Aproxime-se! — ordenou o feiticeiro ao gato. — Vejamos se consegue me agradar.
— Que bela barba o senhor tem! — exclamou o gato. — E que barriga tão gorda!
— Bravo, gato! Você sabe fazer elogios. E agora, o que tem para me dizer?
— Ouvi falar que… mas não é possível… não acredito… que o senhor é capaz de se transformar num leão!
— Quem ousou dizer isso? — perguntou o feiticeiro, ofendido.
— Oh! As más línguas… Mas. se o senhor me der uma prova de seu poder… — Claro. Posso me transformar no que quiser — respondeu o feiticeiro.
Um… dois… três!. O feiticeiro se transformou num enorme leão. O gato teve tanto medo, que até suas botas tremeram. Mas acalmou-se e disse:
— Muito bem, muito bem! Mas deve ser fácil virar leão. O senhor é grande e o leão também é…
Não vejo dificuldade nisso !
— Posso virar qualquer coisa, já disse. Até uma coisinha bem pequena!
— Não é possível — retrucou o gato. — Ainda mais porque agora o senhor já deve estar cansado!
— Sou um feiticeiro, e os feiticeiros não se cansam. Pode escolher qualquer bicho,e me transformarei nele.
O gato, que era muito esperto, pediu ao feiticeiro que virasse um ratinho bem pequeno.
— Isso é fácil — disse o feiticeiro.
— Fique olhando: um, dois e três! O feiticeiro, grande como era, virou um ratinho.
O gato não perdeu tempo: num instante pegou o ratinho e comeu. Livre do feiticeiro, o gato percorreu o castelo, dizendo:
— O feiticeiro morreu. O novo dono do castelo é o Marquês de Carabá. GuardasI Servos! Cozinheiros! Preparem-se para receber o Marquês de Carabá e Sua Majestade, o rei, em pessoa!
— O banquete que o feiticeiro ia oferecer aos amigos será servido ao rei — continuou o gato.
— Depressal A carruagem real se aproximai De fato, exatamente naquele momento a carruagem do rei passava pela frente do castelo. O gato correu à estrada e disse:
— Sua Majestade seja bem-vindo ao castelo do Marquês de Carabál
— Oh! meu caro marquês, não sabia que o senhor possuía também um castelo !
— Para dizer a verdade, nem eu! — respondeu o rapaz.
— Tem um lindo castelo! — disse-lhe o rei — bem construído e belo! O moço em confusão pensava quieto: — Isso é obra do gato, por certo !
O rei disse no ouvido
da princesa: — Que tal o marquês por marido?
— É mais lindo que o nosso — fez a princesa — gosto mais do vosso!
— Aceito com prazer, se ele também quiser!
Disse o marquês na hora :
— Se for por mim a gente casa agora!
— Agora — disse o gato — é hora da ceia, que já está pronta no salão do meio!
Foram todos a ceia festejar: o gato, o rei e mau o novo par.

E assim termina
a estória desse gato
que foi de fato
o mais esperto que houve.
Gato de Botas
que levou sua estória a tão
bom fim.
Feliz de quem tiver
um gato assim!

Gato de Botas de Perrault, conto infantil

A amoreira

Há muito tempo havia um homem rico casado com uma mulher muito bonita e religiosa; eles se amavam muito mas não tinham filhos, e por mais que desejassem tê-los, não apareciam. À frente da casa havia uma amoreira. Em certo inverno a mulher estava debaixo da amoreira descascando uma maçã e cortou o dedo; o sangue escorreu e caiu na neve. “Ah”, disse a mulher com profundo suspiro, olhando tristonha para aquele sangue, “se eu tivesse um menino vermelho como o sangue e branco como a neve!” Mal acabara de falar sentiu-se serena como se tivesse um pressentimento. Voltou para casa.
Passou uma lua e a neve desapareceu; após duas luas a terra reverdeceu; após três luas desabrocharam as flores; após quatro luas todas as árvores do bosque se revestiram de galhos viçosos; os pássaros cantavam ressoando por todo o bosque e as flores caíam das árvores; passara a quinta lua o perfume da amoreira era tão suave que a mulher sentiu o coração palpitar de felicidade e caiu de joelhos, fora de si de alegria; depois da sexta lua as frutas iam se tornando mais grossas e ela se acalmou; na sétima lua colheu algumas amoras e comeu-as avidamente, mas se tornou triste e adoeceu; passou a oitava lua e ela chamou o marido e lhe disse chorando: “Se eu morrer, enterra-me debaixo da amoreira.” Depois voltou a ficar tranquila e alegre até que uma outra lua, a nona, passou; então nasceu-lhe um menino, alvo como a neve e vermelho como o sangue e, quando o viu, sua alegria foi tanta que morreu.
O marido a enterrou sob a amoreira e chorou muito durante um ano; no ano seguinte chorou menos e, finalmente, parou de chorar e se casou novamente.
Da segunda mulher teve uma filha. Quando a mulher olhava a filha sentia que a amava com imensa ternura; mas quando olhava o menino sentia algo a lhe aguilhoar o coração e achava que era um estorvo para todos. Pensava continuamente o que deveria fazer para que a herança passasse toda à filha. O demónio lhe inspirava os piores sentimentos; passou a odiar o rapazinho, a enxotá-lo de um canto para o outro, a esmurrá-lo e empurrá-lo, de maneira que o pobre menino vivia completamente aterrorizado e não encontrava um minuto de paz.
Certo dia a mulher se dirigiu à despensa e a filhinha a seguiu. “Mamãe”, pediu, “dá-me uma maçã.” “Sim, minha filhinha”, disse a mulher tirando uma bela maçã de dentro do caixão, o qual tinha uma tampa muito grossa e pesada além de uma grossa e cortante fechadura de ferro. “Mamãe”, disse a menina, “não dás uma também a meu irmão?” A mulher se irritou, mas respondeu: “Dou sim, quando ele voltar da escola”. Quando da janela o viu chegando foi como se estivesse possessa; tirou a maçã da mão da filha dizendo: “Não deves ganhá-la antes de teu irmão.” Jogou a maçã dentro do caixão e o fechou. Quando o menino entrou ela lhe disse, com fingida doçura: “Meu filho, queres uma maçã?” e lançou-lhe um olhar arrevezado. “Oh, mamãe” disse o menino “que cara assustadora tens! Sim, dá-me a maçã.” “Vem comigo” disse ela animando-o, e levantou a tampa “tira tu mesmo a maçã.” Quando o menino se debruçou para pegar a maçã, o demónio tentou-a e paff! ela deixou cair a tampa cortando-lhe a cabeça, que rolou sobre as maçãs. Então se sentiu tomada de pavor e pensou: “Ah, como poderei me livrar dele?!” Subiu então ao seu quarto, tirou da primeira gaveta da cómoda um lenço branco, ajeitou a cabeça no devido lugar atando-lhe em seguida o lenço, depois o sentou numa cadeira perto da porta, com a maçã na mão.
Pouco depois Marleninha foi à cozinha, onde a mãe estava mexendo num caldeirão cheio de água quente. “Mamãe, meu irmão está sentado perto da porta ... todo branco, e tem uma maçã na mão; pedi-lhe que ma desse, mas ele não respondeu e eu me assustei.” “Volta lá” disse a mãe “e se não quiser te responder dá-lhe uma bofetada.” Marleninha voltou e disse: “Meu irmão, dá-me um pedaço de maçã!” Como ele continuou calado deu-lhe uma bofetada e a cabeça lhe caiu. Ela começou a chorar e correu para a mãe, dizendo: “Ah, mamãe, arranquei a cabeça de meu irmão!” E chorava sem parar. “Marleninha, que fizeste!” disse a mãe. “Acalma-te, não chores, para que ninguém o perceba; não há mais remédio! Vamos cozinhá-lo em molho escabeche.”
A mãe pegou o menino, cortou-o em pedaços, pôs numa panela e cozinhou com vinagre. Marleninha, porém, chorava sem parar e suas lágrimas caíam todas dentro da panela. Assim não precisaram salgá-lo.
O pai chegou em casa, sentou-se à mesa e perguntou: “Onde está meu filho?” Então a mãe trouxe-lhe uma travessa cheia de carne em escabeche. Marleninha chorava sem se conter. O pai repetiu: “Onde está meu filho?” “Ele foi para o campo, para a casa de um parente onde deseja passar algum tempo” respondeu a mãe. “E que vai fazer lá? Saiu sem ao menos se despedir de mim!” “Ora, tinha vontade de ir e me pediu para ficar lá algumas semanas. Será bem tratado, verás!” “Ah, isso me aborrece!” retorquiu o homem, “não está direito, devia ao menos se despedir de mim.” Assim dizendo começou a comer. “Marleninha, por que choras?” perguntou ele. “Teu irmão voltará logo. Oh mulher, como está gostosa esta comida! Dá-me mais um pouco.” Mais comia mais queria comer, e dizia: “Dá-me mais, não sobrará nada para vocês; parece que é só para mim.” E comia, comia, jogando os ossinhos debaixo da mesa. Marleninha foi buscar seu lenço de seda mais bonito, na última gaveta da cómoda, recolheu todos os ossos e ossinhos que estavam debaixo da mesa, amarrou-os bem no lenço e levou-os para fora, chorando lágrimas de sangue. Enterrou-os entre a relva verde, sob a amoreira, e tendo feito isso se sentiu logo aliviada e não chorou mais. A amoreira começou então a se mover, os ramos se apartavam e se reuniam de novo, como quando alguém bate palmas de alegria. Da árvore se desprendeu uma nuvem e dentro da nuvem parecia ter um fogo ardendo; do fogo saiu voando um lindo passarinho, que cantava maravilhosamente e alçou voo rumo ao espaço; quando desapareceu a amoreira voltou ao estado de antes e o lenço com os ossos havia desaparecido. Marleninha se sentiu aliviada e feliz, como se o irmão ainda estivesse vivo. Voltou para casa muito contente, sentou-se à mesa e comeu.
O pássaro voou para longe, foi pousar sobre a casa de um ourives e se pôs a cantar:

Minha mãe me matou,
meu pai me comeu,
minha irmã Marleninha
meus ossos juntou,
num lenço de seda os amarrou,
debaixo da amoreira os ocultou,
piu, piu, que lindo pássaro sou!

O ourives estava na oficina confeccionando uma corrente de ouro; ouviu o pássaro cantando sobre o telhado e achou o canto maravilhoso. Levantou-se para ver e ao sair perdeu um chinelo e uma meia, mas foi ao meio meio da rua mesmo com um chinelo e uma meia só. Estava com o avental de couro, numa das mãos tinha a corrente de ouro e na outra a pinça; o sol estava resplandecente e iluminava toda a rua. Ele se deteve, e olhando para o pássaro disse: “Pássaro, como cantas bem! Canta-me outra vez a tua canção.” “Não,” disse o pássaro, “não canto de graça duas vezes; dá-me a corrente de ouro que eu a cantarei outra vez.” “Aqui está a corrente, agora canta outra vez!” disse o ourives. O pássaro então voou e foi buscar a corrente de ouro, apanhou-a com a patinha direita, sentou-se diante do ourives e cantou:

Minha mãe me matou,
meu pai me comeu,
minha irmã Marleninha
meus ossos juntou,
num lenço de seda os amarrou,
debaixo da amoreira os ocultou,
piu, piu, que lindo pássaro sou!

Depois o pássaro voou para a casa de um sapateiro; pousou sobre o telhado e cantou:

Minha mãe me matou,
meu pai me comeu,
minha irmã Marleninha
meus ossos juntou,
num lenço de seda os amarrou,
debaixo da amoreira os ocultou,
piu, piu, que lindo pássaro sou!

O sapateiro o ouviu e correu à porta em mangas de camisa; olhou para o telhado resguardando os olhos com a mão para que o sol não o cegasse. “Pássaro, como cantas bem!” E da porta chamou: “mulher, vem cá, está aqui um pássaro que canta divinamente! Vem ver.” Depois chamou a filha, os filhos, os ajudantes, o criado e a criada, e todos foram para a rua ver o passarinho, que era realmente lindo com as penas vermelhas e verdes, em volta do pescoço parecia de ouro puro e os olhinhos eram cintilantes como estrelas. “Pássaro, canta outra vez a tua canção!” pediu o sapateiro. “Não, “respondeu o pássaro, “não canto de graça duas vezes, tens que me dar alguma coisa.” “Mulher, atrás da banca, na parte mais alta, tem um lindo par de sapatos vermelhos, traz aqui” disse o sapateiro. A mulher foi buscar os sapatos. “Aqui tens, pássaro; agora canta novamente a tua canção.” O pássaro foi buscar os sapatos com a pata esquerda, depois voou para o telhado e cantou:

Minha mãe me matou,
meu pai me comeu,
minha irmã Marleninha
meus ossos juntou,
num lenço de seda os amarrou,
debaixo da amoreira os ocultou,
piu, piu, que lindo pássaro sou!

Terminado o canto foi-se embora, levando a corrente na pata direita e os sapatos na esquerda, e voou para longe, longe, sobre um moinho, e o moinho girava fazendo clipe clape, clipe clape, clipe clape. E na porta do moinho estavam sentados os ajudantes do moleiro, que batiam com o martelo na mó: tique taque, tique taque, tique taque; e o moinho girava: clipe clape, clipe clape, clipe clape. Então o pássaro pousou numa tília em frente ao moinho e cantou:

Minha mãe me matou,
E um ajudante parou de trabalhar.
meu pai me comeu,
Outros dois ajudantes pararam de trabalhar para ouvir.
minha irmã Marleninha
Outros quatro pararam de trabalhar.
meus ossos juntou,
num lenço de seda os amarrou,
Oito ainda continuavam batendo.
debaixo da amoreira
Mais outros cinco pararam.
os ocultou,
Ainda mais um, mais outro.
piu, piu, que lindo pássaro sou!

Então o último ajudante também largou o trabalho e pôde ouvir o fim do canto. “Pássaro, como cantas bem! Deixa-me ouvir-te também, canta outra vez.” “Não” disse o pássaro, “não canto de graça duas vezes; dá-me essa mó e cantarei de novo.” “Sim, se fosse só minha eu ta daria.” “Sim” disseram os outros, “se cantar novamente a terá.” Então o pássaro desceu e os moleiros todos, pegando uma alavanca, suspenderam a mó, dizendo: oop, oop, oop, oop! O pássaro enfiou a cabeça no buraco da mó como se fosse uma coleira; depois voltou para a árvore e cantou:

Minha mãe me matou,
meu pai me comeu,
minha irmã Marleninha
meus ossos juntou,
num lenço de seda os amarrou,
debaixo da amoreira os ocultou,
piu, piu, que lindo pássaro sou!

Acabando de cantar abriu as asas, levando na pata direita a corrente de ouro, na esquerda o par de sapatos e no pescoço a mó, e foi-se embora voando para a casa do pai.
Na sala estavam o pai, a mãe e Marleninha sentados à mesa; o pai disse: “Ah, que alegria; estou me sentindo tão feliz!” “Oh não” disse a mãe, “eu estou com medo, assim como quando se anuncia forte tempestade.” Marleninha, sentada em seu lugar, chorava, chorava. Então chegou o pássaro, e quando pousou em cima do telhado o pai disse: “Ah, que alegria! Como o sol brilha lá fora! É como se tornasse a ver um velho amigo!” “Ah não” disse a mulher, “eu sinto tanto medo, estou batendo os dentes e parece-me ter fogo nas veias.” Assim dizendo tirou o corpete. Marleninha continuava sentada em seu lugar e chorava, segurando o avental diante dos olhos e banhando-o de lágrimas. Então o pássaro pousou sobre a amoreira e cantou:

Minha mãe me matou,

e a mãe tapou os ouvidos e fechou os olhos para não ver e não ouvir, mas zumbiam-lhe os ouvidos como se fosse o fragor da tempestade e os olhos lhe ardiam como se fossem tocados pelo raio.

meu pai me comeu,

“Ah mãe” disse o homem, “há aí um pássaro que canta tão bem! E o sol está tão brilhante! E o ar recende a cinamomo.”

minha irmã Marleninha

Então Marleninha inclinou a cabeça nos joelhos e irrompeu num choro violento, mas o homem disse: “Vou lá fora, quero ver esse pássaro de perto.” “Não vás, não!” disse a mulher, “parece-me que a casa toda está estremecendo e ardendo.” O homem porém saiu.

meus ossos juntou,
num lenço de seda os amarrou,
debaixo da amoreira os ocultou,
piu, piu, que lindo pássaro sou!

Com isso o pássaro deixou cair a corrente de ouro exactamente em volta do pescoço de seu pai, servindo-lhe esta tão bem como se fora feita especialmente para ele. O homem entrou em casa e disse: “Se visses que lindo pássaro! Deu-me esta bela corrente de ouro, e é tão bonito!” Mas a mulher, transida de medo, caiu estendida no chão, deixando cair a touca da cabeça. E o pássaro cantou novamente:

Minha mãe me matou,

“Ah, se eu pudesse estar mil léguas debaixo da terra para não ouvi-lo!”

meu pai me comeu,

A mulher se debateu, e parecia morta.

minha irmã Marleninha

“Oh” disse Marleninha, “eu também quero ir lá fora; quem sabe se o pássaro dá algum presente também a mim!” E saiu.

meus ossos juntou,
num lenço de seda os amarrou,
e atirou-lhe os sapatos.
debaixo da amoreira os ocultou,
piu, piu, que lindo pássaro sou!

Marleninha então se sentiu alegre e feliz. Calçou os sapatos vermelhos; pulando e dançando, entrou em casa. “Estava tão triste quando saí e agora estou tão alegre! Que pássaro maravilhoso! Deu-me um par de sapatos vermelhos.” “Oh não” disse a mulher; ergueu-se de um salto e os cabelos se lhe eriçaram como labaredas de fogo. “Parece-me que vai cair o mundo, vou sair também, quem sabe não me sentirei melhor?”
Quando transpôs a soleira da porta pac! o pássaro lhe atirou na cabeça a pesada mó, que a esmigalhou. O pai e Marleninha, ouvindo isso, correram e viram se desprender do solo fogo e fumaça, e quando tudo desapareceu eis que surge o irmãozinho, estendendo as mãos para o pai e Marleninha; e muito felizes entraram os três em casa, sentaram-se à mesa e começaram a comer.







O macaco e o filhote de passarinho

Certo dia um jovem macaco vinha saltando de galho em galho quando viu um ninho cheio de filhotes de passarinho. Encantado, aproximou-se e estendeu a mão para pegá-los, mas como eles já sabiam voar, fugiram todos, deixando no ninho apenas o menor.
Feliz como um rei, o macaquinho levou o passarinho para casa e achou-o tão lindo que pôs-se a beijá-lo e acariciá-lo, apertando-o contra seu peito.
- Cuidado para não machucá-lo - disse a mãe macaco.
- Mas eu gosto dele! - respondeu o macaquinho - gosto tanto dele!
E continuou a beijar o filhote de passarinho, a brincar com ele e a abraçá-lo até que, finalmente, esmagou-o.

Moral da Estória:
Esta fábula é dedicada àqueles que não conseguem castigar seus próprios filhos, e mais tarde sofrem as consequências.






O vinho de Maomé

Diz a lenda que certo dia, quando Maomé se sentara à mesa para almoçar, alguém quis agradá-lo colocando à sua frente uma grande taça de ouro cheia de vinho. Ao perceber o que aconteceria, o vinho pensou entusiasmado:- Oh, quanta honra para mim! Que dirão os meus quando souberem que tive a glória de fazer parte da refeição de Maomé!

Mas logo em seguida um outro pensamento lhe ocorreu:

- Onde é que estou com a cabeça? Que honra é essa? De qual glória estou falando? Por que estou satisfeito, se o que chegou, na verdade, foi a hora da minha morte? A qualquer momento vou entrar na caverna escura de um corpo humano, e uma vez lá dentro, o que vai me acontecer? Deixarei de ser o vinho doce e perfumado que deleita tanta gente fina e de bom gosto, para me transformar em água, só água, igual a milhões, e milhões, e milhões de outras águas que jazem obscuras em qualquer depressão perdida no pedaço de chão mais desconhecido do planeta. Oh, céus! Que se faça justiça! Que alguém me vingue por essa ofensa imperdoável! Não é justo que os homens me desprezem dessa forma, porque eu não fui feito para isso! Júpiter, meu pai Júpiter, mesmo que esta terra produza as melhores e mais lindas uvas do mundo, fazei com que elas não mais se transformem em vinho!

Júpiter ouviu a prece feita pelo vinho e decidiu atendê-lo. Assim, quando Maomé bebeu o que a taça de ouro continha, todos os vapores do vinho lhe subiram à cabeça, e por isso ele saiu de seu estado natural e passou a fazer coisas que normalmente não faria. Quando finalmente voltou ao normal, e lhe contaram o que havia acontecido, Maomé proibiu a seus seguidores o uso do vinho, e daí em diante a vinha, com suas frutas saborosas, foi deixada em paz por eles.



Moral da história: Versos antigos já diziam que o álcool não é amigo do homem, porque primeiro ele desce pra barriga, mas depois sobre pra cabeça.


Baseado em uma fábula de Leonardo da Vinci.






02/02/2009

Conde Nilo

Conde Nilo, conde Nilo
Seu cavalo vai banhar;
Enquanto o cavalo bebe,
Armou um lindo cantar.
Com escuro que fazia
El-rei não o pode avistar.
Mal sabe a pobre da infanta
Se há-de rir, se há-de chorar.
- «Cala, minha filha, escuta,
Ouvirás um bel cantar:
Ou são os anjos no céu,
Ou a sereia no mar.»
- «Não são os anjos no céu
Nem a sereia no mar:
É o conde Nilo, meu pai,
Que comigo quer casar.»
- «Quem fala no conde Nilo,
Quem se atreve a nomear
Esse vassalo rebelde
Que eu mandei desterrar?»
- «Senhor, a culpa é só minha,
A mim deveis castigar:
Não posso viver sem ele...
Fui eu que o mandei chamar.»
- «Cala-te, filha traidora,
Não te queiras desonrar.
Antes que o dia amanheça
Vê-lo-ás ir a degolar.»
- «Algoz que o matar a ele,
A mim me tem de matar;
Adonde a cova lhe abrirem,
A mim me têm de enterrar.»

Por quem dobra aquela campa,
Por quem está a dobrar?
- «Morto é o conde Nilo,
A infanta já a expirar
Abertas estão as covas,
Agora os vão enterrar:
Ele, no adro da igreja,
A infanta, ao pé do altar.»
De um nascera um cipreste,
E do outro um laranjal;
Um crescia, outro crescia,
Co’as pontas se iam beijar.
El-rel, apenas tal soube,
Logo os mandara contar.
Um deitava sangue vivo,
O outro sangue real;
De um nascera uma pomba,
De outro um pombo torcaz.
Senta-se el-rei a comer,
Na mesa lhe iam poisar:
- «Mal haja tanto querer,
E mal haja tanto amar!
Nem na vida nem na morte
Nunca os pude separar.»

Romanceiro, Almeida Garrett





A mãe





Uma desventurada mãe, louca de dor, velava o berço de seu filhinho agonizante. A criancinha pálida tinha os olhos fechados. Respirava ansiosa, e às vezes tão profundamente, que parecia gemer. A mãe, no entanto, causava ainda mais lástima do que o pequenino moribundo.
Nisto bateram à porta, e entrou um velho miserável embuçado numa manta de arrieiro. Era em Dezembro. Lá fora, no escuro, um lençol de neve, e o vento cortando que nem uma navalha.
O pobre homem tremia de frio; a criança adormecera por alguns instantes, e a mãe levantou-se, a chegar as brasas uma caneca de cerveja. O velho começou a embalar a criança, e a mãe sentou-se ao lado dele. E contemplando o seu filhinho doente, que respirava cada vez com mais dificuldade, tomou-lhe a mãozinha descarnada e disse para o velho:
– Oh! Nosso Senhor não mo há-de levar! não é verdade?
E o velho, que era a Morte, meneou a cabeça de modo estranho, em ar de duvida. A mãe deixou pender a fronte para o chão, e as lágrimas deslizavam-lhe em fio pelo rosto. Sentiu-se estonteada, com um grande peso na cabeça; estava sem dormir havia três dias e três noites. Passou levemente pelo sono, durante um minuto, e despertou sobressaltada a tremer de frio.
– Que é isto?! exclamou, lançando em roda o olhar alucinado. No berço ninguém!
O velho partira, roubando-lhe a criança.
E a triste mãe, soluçante, correu desgrenhada por montes e vales, à procura do filho. Encontrou uma mulher no meio da neve vestida de luto.
– A Morte entrou-te em casa, disse-lhe ela. Vi-a a sair muito ligeira, levando o teu filho. Anda mais do que o vento, e o que ela rouba não torna a dar.
– Por onde foi ela? gritou a mãe. Diz-mo! Diz-mo pelo amor de Deus!
– Sei o caminho por onde ela foi, respondeu a mulher vestida de negro. Mas só to ensino, se me cantares primeiro todas as canções que cantavas ao teu filho. São lindas, e tens uma voz harmoniosa. Eu sou a Noite e muitas vezes tas ouvi cantar, debulhada em lágrimas.
– Cantar-tas-ei todas, todas, mas logo, disse a mãe. Agora não me demores, porque quero encontrar o meu filho.
A Noite ficou silenciosa. A mãe então, desfeita em lágrimas, começou a cantar. Cantou muitas canções, mas as lagrimas foram ainda mais do que as palavras. No fim disse-lhe a Noite:
– Toma a direita, pela floresta escura de pinheiros. Por ai e que a Morte seguiu
com o teu filho.
A mãe correu para a floresta. No meio, porém, dividia-se o caminho, e não sabia
que direcção escolher. Diante dela havia um matagal, cheio de silvas, sem folhas nem flores, de cujos ramos pendia a neve cristalizada.
– Não viste a Morte que levava o meu filho? perguntou a mãe.
– Vi, respondeu o matagal, mas não te ensino o caminho sem me aqueceres primeiro no teu seio, porque estou gelado.
E a mãe estreitou o matagal contra o coração; os espinhos dilaceraram-lhe o peito, donde corria sangue. Mas o matagal vestiu-se de folhas frescas e verdejantes, e cobriu-se de flores numa noite de Inverno frigidíssima; tal é o calor febricitante do selo de uma pobre mãe angustiosa.
E o matagal ensinou-lhe o caminho por onde ela devia ir. Foi andando, andando, até que chegou: à margem de um grande lago, onde não havia nem barcos, nem navios.
Não estava suficientemente gelado para se andar por ele, e era profundo de mais para o passar a vau. Contudo urgia atravessá-lo. Num ímpeto do seu amor, arrojou-se de bruços a ver se poderia beber-lhe toda a água. Impossível! Lembra-se que Deus, compadecido, faria talvez um milagre...
– Não! Não és capaz de me esgotar, disse-lhe o lago. Sossega, e entendamo-nos.
Gosto de ver pérolas no fundo das minhas águas, e os teus olhos são de um brilho mais suave que as pérolas mais ricas que tenho possuído. Querendo, arranca-os das órbitas à força de chorar, e levar-te-ei à estufa grandiosa, que está do outro lado: aí habita a Morte; e, as flores e as arvores que estão lá dentro, é ela quem as trata; em cada flor e em cada árvore habita a vida de um coração humano.
– Oh! o que não darei eu, para reaver o meu filho! soluçou a mãe.
E apesar de ter já chorado tantas lágrimas, chorou com mais amargura do que nunca, e os seus olhos destacaram-se das órbitas e caíram no fundo do lago, transformando-se em duas pérolas, como ainda as não teve no mundo uma rainha.
O lago então, arrebatando-a numa onda, depositou-a na outra margem, onde se erguia um maravilhoso edifício, com mais de uma légua de comprido. De longe ninguém discriminava se era um monumento de arte ou uma grande montanha cheia de cavernas, grutas e florestas. Mas a pobre mãe nada podia ver, porque tinha dado os seus olhos.
– Ah! como hei-de eu reconhecer a Morte que me roubou o meu filho! bradou ela desesperada.
– A Morte ainda não chegou, respondeu-lhe uma boa velha, que andava de um lado para o outro, inspeccionando a estufa e cuidando das plantas. Como vieste, tu aqui parar? quem te ensinou o caminho?
– Deus auxiliou-me, respondeu ela. Deus é misericordioso. Anda, compadece-te de mim, e diz-me onde está o meu filho.
– Eu não o conheço, e tu és cega, tornou a velha. Há aqui muitas plantas e muitas árvores, que murcharam esta noite: a Morte não tarda aí para as levar da estufa. Deves saber, que toda a criatura humana tem neste sitio uma árvore ou uma flor, que representam a sua vida e que morrem com ela. Parecem plantas como quaisquer outras, mas tocando-lhes, sente-se bater um coração. Guia-te por isto, e descobrirás talvez o coração de teu filho. E que davas tu por eu te ensinar o que tens ainda de fazer?
– Já nada me resta, disse a pobre mãe suspirando. Mas iria até ao fim do mundo buscar o que tu quisesses.
– Fora daqui, não preciso de coisa alguma, respondeu a velha. Dá-me os teus longos cabelos negros. Agradam-me. Trocá-los-ei pelos meus cabelos brancos, que têm mais de mil anos.
– Só isso? volveu a mãe. Ei-los, dou-tos de boa vontade.
E arrancou os esplêndidos cabelos, o seu orgulho na juventude, outrora, recebendo em volta os cabelos curtos e inteiramente brancos da corcovada feiticeira.
Esta levou-a pela mão à grande estufa, onde crescia exuberantemente uma vegetação maravilhosa.
Viam-se debaixo de campânulas de cristal, jacintos mimosíssimos ao lado de peónias inchadas e ordinárias. Havia também plantas aquáticas, umas a estoirar de seiva, outras meio murchas, e em cujas raízes se enovelavam cobras asquerosas. Mais longe erguiam-se palmeiras soberbas, carvalhos e plátanos frondentes; depois, num outro sítio isolado havia canteiros de salsa, tomilho, hortelã e outras plantas humildes.
Havia ainda grandes arbustos em vasos demasiadamente estreitos, quase a rebentar; mias viam-se também florinhas insignificantes, em vasos de porcelana, na melhor terra, circundadas de musgo, cuidadas com esmero delicadíssimo. Tudo isto representava a vida dos homens, que a essa hora existiam no mundo, desde a China até à Gronelândia.
A velha queria-lhe mostrar tantas e tantas coisas misteriosas, porém a mãe impacientada rogou-lhe que a levasse aonde estavam as plantas pequeninas; tacteava-as, apalpava-as, para lhes sentir o arfar, e, depois de haver tocado em milhares delas, reconheceu as pulsações do coração de seu filho.
– É ele! exclamou, lançando a mão a um açafroeiro, que, pendido sobre a terra, parecia completamente estiolado.
– Não lhe toques, disse a velha. Fica neste sítio; e quando a Morte vier, que não tarda, proíbe-lhe que arranque esta planta; ameaça-a de arrancar todas as flores que estão aqui. A Morte ganhará medo porque tem de dar conta delas a Deus. Nenhuma pode ser arrancada sem Ele o permitir.
Nisto zuniu um vento glacial, e a mãe adivinhou que era a Morte que se aproximava.
– Como é que deste com o caminho? perguntou-lhe a Morte. Chegar ainda primeiro do que eu! Como o conseguiste?
– «Sou mãe», balbuciou ela.
E a Morte estendeu a mão ganchosa para o pequenino açafroeiro.
A mãe, porém, defendia-o violentamente com ambas as mãos, tendo o cuidado de não magoar uma só das pequeninas pétalas. Então a Morte soprou-lhe nas mãos, fazendo-lhas cair inanimadas. O hálito da Morte era mais frio do que os ventos enregelados de Dezembro.
– Não podes nada comigo! disse a Morte.
– Mas Deus tem mais força do que tu, respondeu a mãe.
– É verdade. mas eu não faço senão o que Ele manda. Sou o seu jardineiro. Todas estas plantas, árvores e arbustos, quando começam a murchar, transplanto-as, para outros jardins, um dos quais é o grande jardim do Paraíso. São regiões desconhecidas; ninguém sabe o que se lá passa.
– Misericórdia! misericórdia! soluçou a mãe. Não me roubem o meu filho, agora que eu o encontro!
Suplicava e gemia. Tudo inútil: a Morte, impassível. Agarrou então em duas flores lindíssimas e gritou a Morte:
– Tu desprezas-me, mas olha, vou arrancar, despedaçar não só estas, mas todas as flores que estão aqui!
– Não as arranques, não as mates, bradou a Morte. Dizes que és desgraçada, e querias ir partir o coração das outras mães!
– Outras mães! balbuciou a infeliz mulher, largando logo as flores.
– Aqui tens os teus olhos, volveu a Morte. Brilhavam com tal esplendor que os extrai do lago. Não sabia que eram teus, Mete-os nas Orbitas, e olha para o fundo deste poço; vê o que destruías, arrancando as flores. Contemplarás na miragem da água a sorte destinada a essas duas flores, e a que teria o teu filho, se porventura vivesse.
Inclinando-se então sobre a cisterna, viu passar imagens de felicidade e alegria, quadros risonhos e trágicos, e logo depois cenas inefáveis de miséria, de angústias e desolação.
– Nisto que vejo, tornou a mãe aflitíssima, não distingo qual a sorte que Deus destinava ao meu filho.
– É-me defeso revelar-ta, acrescentou a Morte. Porém no que viste podias ler o destino do teu filho.
A mãe, alucinada, caiu de joelhos, exclamando:
– Suplico-te, diz: era a sorte infeliz a que lhe estava reservada? Não é verdade?
Fala! Não me respondes? Oh! na dúvida, leva-o, leva-o, não vá ele sofrer desgraças tão horrendas. O meu querido filho! Quero-lhe mais que à vida. As angústias que sejam todas minhas. Leva-o para o reino dos Céus. Esquece estas lágrimas, estas súplicas, esquece tudo o que fiz e tudo o que te disse.
– Não compreendo, respondeu a Morte: Queres o teu filho ou desejas que o leve para a região desconhecida de que não posso falar-te?
Então a mãe, alucinada, convulsa, torcendo os braços, deitou-se de joelhos, e, dirigindo-se a Deus, exclamou:
– Não me atendas, Senhor, se reclamo no fundo do coração contra a tua vontade que é sempre boa e sempre justa! não me ouças, meu Deus!
E deixou cair a fronte sobre o peito, mergulhada numa alegria dilacerante.
E a Morte, arrancando o pequenino açafroeiro, lá o foi plantar nos jardins da luz do Paraíso.



Buda e a Flor de Lotus

Buda reuniu seus discípulos, e mostrou uma flor de lótus - símbolo da pureza, porque cresce imaculada em águas pantanosas.
- Quero que me digam algo sobre isto que tenho nas mãos - perguntou Buda.
O primeiro fez um verdadeiro tratado sobre a importância das flores.
O segundo compôs uma linda poesia sobre suas pétalas.
O terceiro inventou uma parábola usando a flor como exemplo.
Chegou a vez de Mahakashyao. Este aproximou-se de Buda, cheirou a flor, e acariciou seu rosto com uma das pétalas.
- É uma flor de lótus - disse Mahakashyao. Simples e bela.
- Você foi o único que viu o que eu tinha nas mãos - disse Buda.







01/02/2009

O avarento que perdeu o tesouro



Se a posse consiste somente no gozo,
Ó vós que nos cofres dinheiro guardais,
Dizei que vantagens gozais sobre a Terra,
Que sejam vedadas aos outros mortais?

Diógenes no outro mundo
É mais rico de que vós,
Que neste, como o Sinópio,
Lidais em miséria atroz.

O rico de Esopo, que esconde o tesouro,
Exemplo no assunto nos pode prestar;
O triste supunha segunda existência
E nela esperava seus bens desfrutar.

Não possuía seu ouro;
O ouro é que o possuía.
Tinha ao solo confiado
Considerável maquia.

Só tinha por fito, prazer e recreio
Pensar, dia e noite, na soma enterrada.
E assim ruminando, só viu na riqueza
Relíquia, a si próprio defesa e vedada.

Indo, voltando, correndo,
Trazia sempre o sentido
No lugar, em que deixara
O seu tesouro escondido.

Mas dando mil voltas em torno do sítio,
Um dia foi visto por certo coveiro,
Que assim surpreendendo do fona o segredo,
No chão cavoucando, roubou-lhe o dinheiro.

Nosso avaro em certo dia
Vazia a cova encontrou;
Gemeu, suspirou, carpiu-se
E em pranto se debulhou.

Um, que passa, pergunta o motivo
Dessa grita. O avarento responde:
"— Ai! Roubaram meu rico tesouro!"
"— Um tesouro roubado! Mas donde?"


AVARENTO
"Era junto desta pedra."


TRANSEUNTE
"Por que escondê-lo na terra?
Por que trazê-lo tão longe,
Não sendo tempo de guerra?

Não era mais fácil guardá-lo no armário,
Num canto seguro de vosso aposento?
Assim poderíeis à mão conservá-lo,
Tirando-o em parcelas a cada momento."


AVARENTO
"A cada momento! Oh deuses!
Que temerária asserção!
Vem, como vai, o dinheiro?
Eu nunca lhe ponho a mão."

"Se assim sucedia (replica o sujeito)
Dizei-me, eu vos peço. por que vos carpis?
Se nunca tocáveis naquele dinheiro,
Não sei em que a perda vos torne infeliz.

Ponde uma pedra na cova
Que vos guardava o tesouro;
Será para vós o mesmo
Que um montão de prata ou ouro."


Barão de Paranapiacaba (Trad.)

A formiga e o grão de trigo


Um grão de trigo, deixado sozinho no campo após a colheita, esperava pela chuva a fim de esconder-se novamente sob a terra.
Uma formiga viu o grão, colocou-o nas costas e partiu penosamente em direcção ao distante formigueiro.
À medida que andava, o grão de trigo parecia pesar cada vez mais sobres suas costas cansadas.
- Por que você não me deixa aqui? - perguntou-lhe o grão de trigo.
A formiga respondeu:
- Se eu deixar você para trás, podemos não ter provisões para o inverno. Em nosso formigueiro há muitas formigas e cada um de nós deve levar para o celeiro todo o alimento que encontrar.
- Mas eu não fui feito só para ser comido - objectou o grão de trigo - sou uma semente, cheia de vida, e meu destino é dar origem a uma planta. Ouça, cara formiga, vamos fazer um pacto.
A formiga, contente por poder descansar um pouco, colocou o grão de trigo no chão e perguntou:
- Que pacto?
- Se você me deixar aqui no campo - respondeu o grão de trigo - em vez de me levar para o formigueiro, eu darei a você, daqui a um ano, cem grãos de trigo exactamente iguais a mim.
A formiga olhou para o grão de trigo com ar incrédulo.
- Sim, cara formiga. Creia no que estou lhe dizendo. Se você desistir de mim agora eu lhe darei cem de mim, cem grãos de trigo para o seu celeiro.
A formiga pensou:
- Cem grãos em troca de um só... Mas isso é um milagre!
- E como é que você vai fazer isso? - perguntou ela.
- Isso é um mistério - respondeu o grão de trigo - é
o mistério da vida. Cave um buraquinho, enterre-me dentro dele e volte dentro de um ano.
No ano seguinte a formiga voltou. O grão de trigo transformara-se numa nova planta carregada de sementes, cumprindo, portanto, sua promessa.





A raposa e o cacho de uvas


Forçada pela fome, uma raposa tentava apanhar um cacho de uva numa alta videira, saltando com todas as forças.
Como não conseguisse alcançá-lo, disse, afastando-se:
"Ainda não estão maduras; não quero apanhá-las verdes".

Aqueles que desdenham com palavras o que não conseguem realizar deverão aplicar para si este exemplo.