20/02/2009

A festa de casamento


Certo homem convidou muita gente para uma festa de casamento que ia dar para seu filho. Quando chegou a hora, mandou os empregados dizerem aos convidados: “Venham, já está tudo pronto!”
Mas eles não se importaram com o convite. Começaram, um por um, a dar desculpas. O primeiro disse: “Comprei um sitio e tenho de dar uma olhada nele.”Outro disse: “Acabo de me casar e por isso não posso ir.”Todos foram tratar de seus próprios negócios.
O rei ficou com muita raiva. Chamou os seus empregados e disse: “A minha festa está pronta, mas os convidados não a mereciam. Agora vão depressa à rua e aos becos da cidade e tragam os pobres, os aleijados, os cegos e os coxos.”
Os empregados saíram pelas ruas e reuniram os que puderam encontrar. Um empregado disse: “Já fiz o que o senhor mandou, mas ainda há lugar.”
Aí o patrão respondeu: “Então vá às estradas e aos caminhos e force os que encontrar ali a virem, para que a minha casa fique cheia. Pois eu afirmo que nenhum dos que foram convidados primeiro provará o meu jantar!”
E o salão de festas ficou cheio de gente. Pois muitos são convidados, mas poucos são escolhidos.


Parábolas de Jesus
Mateus 22-2 a 14
Lucas 14-15 a 24





Parábola da figueira

Jesus disse então a seguinte parábola:

«Certo homem tinha uma figueira plantada na sua vinha. Foi procurar os frutos que nela houvesse, mas não os encontrou. Disse então ao vinhateiro: ‘Há três anos que venho procurar frutos nesta figueira e não os encontro. Deves cortá-la. Porque há-de estar ela a ocupar inutilmente a terra? ’Mas o vinhateiro respondeu-lhe: ‘Senhor, deixa-a ficar ainda este ano, que eu, entretanto, vou cavar-lhe em volta e deitar-lhe adubo. Talvez venha a dar frutos. Se não der, mandá-la-ás cortar no próximo ano».




Os cães esfomeados



Andavam uns cães esfaimados pelo campo quando, ao passarem por um rio, viram umas peles de animais à tona da água.
Como as não podiam alcançar, combinaram beber toda a água do rio. Pensavam que, assim, poderiam chegar-lhes. Beberam, beberam... e acabaram por rebentar!

Moral da história:
Não tentes fazer o que é impossível.

O lobo e o cordeiro


Barão de Paranapiacaba ( trad.)
(1827-1915)


Na límpida corrente de um ribeiro
Mata a sede um cordeiro.
Chega um lobo em jejum que a fome atiça,
A farejar carniça.
Ousas turvar-me as águas, malcriado?
(Uiva o lobo irritado.)

CORDEIRO
Rogo, senhor, a Vossa Majestade,
E com toda a humildade,
Que não se zangue com seu pobre servo;
Pois, respeitoso, observo
Que embaixo e no declive estou bebendo,
E a água vem descendo.

Turvas (retruca o bárbaro animal);
Demais, falaste mal,
Há seis meses, de mim.

CORDEIRO
Não é verdade;
Conto só três de idade;
Não tinha inda nascido.

LOBO
Pois então
Falou um teu irmão.

CORDEIRO
Não o tenho

LOBO
Foi um dos teus parentes,
Que me têm entre dentes;
E eu vingo-me de vós - cães e pastores
Que sois tão faladores.
Disse, e sobre o cordeiro se despenha
E o conduz para a brenha,
Onde o come do mato no recesso,
Sem forma de processo.


Moral: a razão do mais forte predomina



19/02/2009

A rã e o boi


Estavam duas Rãs à beira de um charco quando a mais nova comentou:
- Comadre, hoje vi um monstro terrível: era maior do que uma montanha, tinha chifres e uma longa cauda.
- O que viste foi apenas o Boi do lavrador - esclareceu a Rã mais velha. - E, além disso, não é assim tão grande... Eu posso ficar do tamanho dele. Ora observa.
Dito isto, começou a inchar e a esticar-se muito, muito...
- O Boi era tão grande como eu? - perguntou ela quando já estava tão grande como um Burro.
- Ó, muito maior! - respondeu a jovem Rã.
Então a Rã mais velha respirou fundo e inchou, inchou... até que rebentou.

Moral da história:
Mantém-te sempre no lugar que te corresponde.


18/02/2009

O Leopardo




Um dia, o leopardo Nebr teve fome e logo tratou de arranjar maneira de encontrar comida, da forma mais fácil. Pediu ao seu filho Shabeel, que espalhasse pelas redondezas que, ele, a Sua Alteza, o Rei da Floresta, se encontrava muito doente.
Assim foi feito! Um pouco por todo o lado começou-se a ouvir o seguinte anúncio:
- O leopardo Nebr, nosso chefe, está a morrer.Todos os animais devem vir visitá-lo.
Pouco a pouco, alguns animais começaram a chegar a casa de Nebr, que ao pressenti-los, deitou-se, fechou os olhos e fingiu-se de morto. Não demorou muito, para que novos cânticos começassem a circular:
- O nosso Rei morreu, morreu. Que tristeza a nossa!
Depois de Shabeel ter trancado as portas, Nebr levantou-se de repente e matou todos quantos se encontravam na sua casa; comendo uns e guardando outros, para mais tarde se refastelar. Passado mais algum tempo, chegaram outros animais, para prestar as suas condolências. Entre eles, vinha a gazela, acompanhada do porco-espinho. Desconfiada, reuniu todos os presentes e contou-lhes das suspeitas que tinha sobre estarem a cair numa armadilha do leopardo.
Como forma de precaução, decidiram procurar um lugar para se esconderem, caso fosse necessário. Todavia, só o porco-espinho é que não conseguiu encontrar um esconderijo. É então, que a gazela, espreitando para dentro da casa de Nebr, teve a seguinte ideia:
- Porco-espinho, tu vais devagarinho esconder-te naquele buraco que está perto do leopardo. Depois, cravas-lhe no corpo um dos teus espinhos mais fortes e quando vires que as coisas estão mal paradas, escondes-te, que nós fazemos o mesmo.
Assim foi! O porco-espinho dirigiu-se para junto de Nebr, o qual continuava a fingir estar morto. Primeiro, espetou os espinhos devagarinho e nada aconteceu. O leopardo estava mesmo morto! Depois, decidiu cravar com mais força. Foi então que Nebr, não conseguindo aguentar as dores por mais tempo, se levantou e começou a correr atrás do seu agressor.
Todos se esconderam, enquanto o leopardo ficava cada vez mais furioso. Face a esta situação, a gazela cantarolou:
- O leopardo é o Rei da Floresta pela sua força, mas não pela esperteza!.
E os outros animais repetiram em coro:
- Devemos a vida à pequena e esperta gazela. A ela devemos a vida!


Conto tradicional angolano



Cavalo Branco

Um velho rei da Índia condenou um homem à forca. Assim que terminou o julgamento, o condenado pediu:
- Vossa majestade é um homem sábio, e curioso com tudo os que os súditos conseguem fazer. Respeita os gurus, os sábios, os encantadores de serpente, os faquires. Pois bem: quando eu era criança, meu avô me transmitiu a técnica de fazer um cavalo branco voar. Não existe mais ninguém neste reino que saiba isto, de modo que minha vida deve ser poupada.
O rei imediatamente mandou trazer um cavalo branco.
- Preciso ficar dois anos com este animal - disse o condenado.
- Você terá mais dois anos - respondeu o rei, a essa altura meio desconfiado. Mas, se este cavalo não aprender a voar, será enforcado.
O homem saiu dali com o cavalo, feliz da vida. Ao chegar em casa, encontrou toda a sua família em prantos.
- Você está louco? - gritavam todos. Desde quando alguém desta casa sabe como fazer um cavalo voar?
- Não se preocupem, porque a preocupação nunca ajudou ninguém a resolver seus problemas - respondeu ele. E eu não tenho nada a perder, será que vocês não entendem? Primeiro, nunca alguém tentou ensinar um cavalo a voar, e pode ser que ele aprenda. Segundo, o rei está muito velho, e pode morrer nestes dois anos. Terceiro, o animal também pode morrer, e eu conseguirei mais dois anos para treinar um novo cavalo. Isso sem contar com a possibilidade de revoluções, golpes de estado, amnistias gerais.
Finalmente, se tudo continuar como está, eu ganhei dois anos de vida, quando poderei fazer tudo o que tenho vontade. Vocês acham pouco?

17/02/2009

O pavão e a deusa Juno



Certo dia, o Pavão foi queixar-se à deusa Juno:
- Tenho uma plumagem maravilhosa, mas a minha voz não se compara com a do Rouxinol. Por que não me concedes uma voz igual à dele?
A deusa recusou, mas o Pavão insistiu:
- Sou a tua ave favorita. Por que não me dás o que te peço?
Já um pouco aborrecida com a conversa, a deusa respondeu-lhe:
- Deves agradecer o muito que já tens. Não podes ser o melhor em tudo!


Moral da história:
Aproveita bem as tuas qualidades e não invejes as dos outros.

15/02/2009

Polinarda e Miraguarda



Conta-se que algures no séc. XVI, duas damas de nobre linhagem, uma, Miraguarda, e a outra, Polinarda, tendo um dia ido visitar o castelo, ao tempo habitado pelo gigante Almourol, foram por este feitas suas prisioneiras. Bem tratadas, mas impedidas de saírem da custódia do gigante.
O noivo de Polinarda era Palmeirim, um heróico combatente que andava pelo mundo em busca de glórias que dedicava à amada. Ao saber do sequestro da noiva, Palmeirim de pronto decidiu regressar para resgatar Polinarda daquele cativeiro. Deparou-se, porém, com um árduo opositor, pois o Cavaleiro Triste, apaixonado por Miraguarda, defendia o castelo e guardava as damas cativas.
Palmeirim, desafiado para um duelo entre cavaleiros, não recuou. Bateram-se ao longo de horas e horas, sempre com as apaixonadas no pensamento. Exaustos, sem que se apurasse um vencedor, os cavaleiros decidiram suspender o combate para sarar feridas e recompor as forças e as armas.
Foi então que em seu socorro de Palmeirim veio um outro gigante, de nome Dramusiando, que o nobre havia convertido à sua fé durante as suas expedições pelo mundo. Com esta ajuda de Dramusiando, o recuperado Palmeirim alcançou enfim a vitória sobre o gigante Almourol e sobre o Cavaleiro Triste, que se puseram em fuga, abrindo mão das suas cativas.
Palmeirim pôde, finalmente, voltar aos braços da sua amada Polinarda e gozar o descanso do guerreiro mergulhado no prazer do amor, enquanto Dramusiando se tornou senhor do castelo e assumindo a guarda fiel às duas damas, Polinarda e Miraguarda.


Lenda de Almourol


13/02/2009

Albaninha





- «Albaninha, Albaninha,
A filha do conde Alvar!
Oh! quem te vira Albaninha
Três horas a meu mandar!»
- «Pouco tempo são três horas,
Mas vem depois o contar.»
- «Usança de maus vilões
Nunca a eu soubera usar.
Com esta espada me cortem,
Com outra de mais cortar,
Donzela que em mim se fie
Se eu disso me for gabar.»
Inda bem manhã não era
Já na praça a passear;
Aos três irmãos de Albaninha
Se foi de braço travar:
- «Esta noite, cavaleiros,
Sabereis que fui caçar;
Em minha vida não tive
Noite de tanto folgar.
Era uma lebre tão fina
Que nunca vi tal saltar:
Com três horas de corrida
Não a cheguei a cansar!»
Disseram uns para os outros:
- «Bom modo de se gabar!
Será de nossas mulheres?
Das irmãs nos quer falar?»
Responde agora o mais moço
Discreto no seu pensar:
- «Não vedes que é de Albaninha,
Que o traidor quer difamar?»

Foram os três para um canto,
Puseram-se a aconselhar;
Diziam os dois mais velhos:
- «Vamo-lo nós a matar?»
E o mais moço respondia:
- Vamo-la nós a casar?»
- «Sim! e o dote que ela tem,
Nós o temos de pagar.»
Vão ao quarto de Albaninha,
De boda a foram achar;
Duas aias a vestiam,
Duas a estão a toucar.
- «Albaninha, Albaninha,
A filha do conde Alvar!
As barbas de teu pai conde
Que bem lhas soubeste honrar!»
- «As barbas de meu pai conde
Tratai vós de as honrar,
Pagando-me já meu dote,
Que agora me vou casar.»


Romanceiro, Almeida Garrett

11/02/2009

O cativo





Eu vinha do mar de Hamburgo
Numa linda caravela;
Cativaram-nos os moiros
Entre la paz e la guerra.
Para vender me levaram
A Salé, que é sua terra.
Não houve moiro nem moira
Que por mim nem branca dera;
Só houve um perro judio
Que ali comprar-me quisera;
Dava-me uma negra vida,
Dava-me uma vida perra;
De dia pisar esparto,
De noite moer canela,
E uma mordaça na boca
Para lhe eu não comer dela.
Mas foi minha fortuna
Dar c’uma patroa bela,
Que me dava do pão alvo,
Do pão que comia ela.
Dava-me do que eu queria,
E mais do que eu não quisera,
Que nos braços da judia
Chorava – que não por ela.

Dizia-me então: - «Não chores,
Cristão, vai-te à tua terra.»
- «Como me hei-de eu ir, senhora,
Se me falta la moeda?»
- «Se fora por um cavalo,
Eu uma égua te dera;
Se fosse por um navio,
Dera-te uma caravela.»

- «Não fora por um cavalo,
Não fora, senhora bela,
Que está longe Mazagão,
Ceuta tem voz de Castela.
Nem por navio não fora,
Que eu fugir não quisera,
Que era roubar a teu pai
Dinheiro que por mim dera.»
- «Toma esta bolsa, cristão,
Feita de seda amarela66;
Minha mãe, quando morreu,
Me deixou senhora dela.
Vai-te, paga o teu resgate;
E às damas de tua terra
Dirás o amor da judia
Quanto mais vale que o delas.»

Palavras não eram ditas,
O patrão que era chegado.
- «Venhais embora, patrão,
E vinde com Deus louvado,
Que agora tenho recado
Que o meu resgate é chegado.»
- «Cristão, cristão, que disseste!
Olha que é muito cruzado.
Quem te deu tanto dinheiro
Para seres resgatado?»
- «Duas irmãs mo ganharam,
Outra mo tinha guardado
E um anjo do céu mo trouxe.
Um anjo por Deus mandado.»
- «Dize-me, ó cristão, dize
Se queres ser renegado,
Que te hei-de fazer meu genro,
Senhor de todo o meu estado.»
- «Eu não quero ser judio
E nem turco arrenegado,
E não quero ser senhor,
De todo esse teu estado,
Porque trago no meu peito
A Jesus crucificado.»

- «Que tens tu, filha Raquel?
Dize-me cá, filha amada,
Se é pelo cristão maldito
Que ficaste desgraçada.»
- «Meu pai deixe o cristão, deixe,
Que ele não me deve nada:
Deve-me a flor de meu corpo,
Mas de vontade foi dada.»

Mandou fazer-lhe uma torre
De pedraria lavrada;
Que não dissessem os moiros:
- «A judia é desonrada.»
Viola, minha viola,
Fica-te aqui pendurada
Que lá vão os meus amores
Por essa água salgada.

Romanceiro, Almeida Garrett

Guimar

Era a menina mais linda
Que naquela terra havia;
Tão formosa e tão discreta
De outra igual se não sabia.
Muito lhe quer Dom João,
Muito de mais lhe queria:
Seus amores, seus requebros
Não cessam de noite e dia.
Por fidalgo e gentil moço
Ninguém tanto a merecia;
Senão que o pai da donzela
Outro conselho seguia:
Casá-la quer muito rica
Com um mercador que aí havia,
Sem fazer caso de amores,
Sem lhe importar fidalguia.
Dom João, quando isto soube,
Por pouco se não morria:
Foi-se dali muito longe
Sem dizer para onde ia.
Três meses por lá andou,
Três meses nessa agonia;
A vida que lhe pesava
Sofrê-la já não podia.
Mandou selar seu cavalo
Sem cuidar no que fazia;
Deitou por esses caminhos
Sem saber adonde ia.
O cavalo é quem mandava,
Cavaleiro obedecia.
Passou por terras e terras,
Nenhuma não conhecia.
À sua tinha chegado,
Onde estava não sabia.
Era por manhã de Maio,
Todo o campo florecia,
Os passarinhos cantavam,
O prado verde sorria;
Lá de dentro da cidade
Um triste clamor se ouvia:
Eram sinos a dobrar,
E era toda a clerezia,
Eram nobre, era povo
Que da igreja saía...
Entrou de portas a dentro,
De rua em rua seguia,
Chegou à de sua dama,
Essa sim que a conhecia.
As casas onde morava,
Janelas aonde a via,
Tudo é coberto de preto,
Mais preto que ser podia.
Mandou chamar uma dona
Que ela consigo trazia:
- «Dizei-me por Deus, senhora,
Dizei-me por cortesia,
Esse luto tão pesado
Por quem trazeis, que seria?»
- «Trago-o por minha senhora,
Dona Guimar de Mexia,
Que é com Deus a sua alma,
Seu corpo na terra fria.
E por vós foi, Dom João,
Por vosso amor que morria.»
Dom João quando isto ouviu
Por morto em terra caía,
Mas a dor era tamanha
Que a força dela vivia.
Os seus olhos não choravam,
Sua boca não se abria.
Mirava gente em redor
Para ver o que faria.
Vestiu-se todo de preto,
Mas preto que ser podia,
Foi-se direto à igreja
Onde sua dama jazia:
- «Eu te rogo, sacristão,
Por Deus e Santa Maria,
Eu te rogo que me ajudes
A erguer esta campa fria.»
Ali a viu tão formosa
Tal como dantes, a via;
Ali, morta, sepultada,
Inda outra igual não havia,
Pôs os joelhos em terra,
Os braços ao céu erguia,
Jurou a Deus e a sua alma
Que mais a não deixaria.
Puxou de seu punhal de oiro
Que na cintura trazia,
Para a acompanhar na morte
Já que em vida não podia.
Mas não quis a Virgem Santa,
A Virgem Santa Maria
Que assim se perdesse uma alma
Que só de amor de perdia.
Por juízo alto de Deus
Um milagre se fazia:
A defunta a mão direita
Ao seu amante estendia
Seus lindos olhos se abriram,
A sua boca sorria;
Volta a vida que se fora,
Com todo o amor que não se ia.
Seu pai, o foram buscar,
Que já estava na agonia;
Vêm amigos, vêm parentes,
Todos em grande alegria.
Dão graças à Santa Virgem,
Cujo milagre seria;
E a Dom João dão a esposa,
Que tão bem a merecia.


Romanceiro, Almeida Garrett






09/02/2009

Lenda das Amendoeiras



Há muito tempo, antes da independência de Portugal, quando o Algarve pertencia aos árabes, havia ali um rei mouro que desposara uma rapariga do norte da Europa, à qual davam o nome de Gilda.
Era encantadora essa criatura, a quem todos chamavam a Bela do Norte, e por isso não admira que o rei, de tez cobreada, tão bravo e audaz na guerra, a quisesse para rainha.
Apesar das festas que houve nessa ocasião, uma enorme tristeza se apoderou de Gilda. Nem os mais ricos presentes do esposo faziam nascer um sorriso naqueles lábios agora descorados: a "Bela do Norte" tinha saudades da sua terra.
O rei conseguiu, enfim, um dia, que Gilda, em pranto e soluços, lhe confessasse que toda a sua tristeza era devida a não ver os campos cobertos de neve, como na sua terra.
O grande temor de perder a esposa amada sugeriu, então, ao rei uma boa ideia. Deu ordem para que em todo o Algarve se fizessem plantações de amendoeiras, e no princípio da Primavera, já elas estavam todas cobertas de flores.
O bom rei, antevendo a alegria que Gilda havia de sentir, disse-lhe:
- Gilda, vinde comigo à varanda da torre mais alta do castelo e contemplareis um espectáculo encantador!
Logo que chegou ao alto da torre, a rainha bateu palmas e soltou gritos de alegria ao ver todas as terras cobertas por um manto branco, que julgou ser neve.
- Vede - disse-lhe o rei sorrindo - como Alá é amável convosco. Os vossos desejos estão cumpridos!
A rainha ficou tão contente que dentro em pouco estava completamente curada.

O Lidador e a Porta da Traição



Foi numa noite sem luar, cercava o exército de D. Afonso Henriques a fortaleza de Óbidos onde os mouros, encurralados,resistiam, há cerca de dois meses, que tudo começou
D. Afonso Henriques e Gonçalo Mendes da Maia, o Lidador, tinham decidido antes de se retirarem para as suas tendas que o ataque seria realizado na madrugada do dia seguinte.
Dormia já o Lidador quando foi acordado por uma voz de mulher que lhe pedia para ser conduzida à tenda do rei de Portugal, pois tinha algo de importante a comunicar-lhe. A jovem vivia no castelo dos mouros mas não sabia se era moura porque nunca tinha conhecido os seus pais. Temendo uma cilada dos mouros, foi com alguma hesitação que o Lidador a conduziu à presença do rei, perante o qual a jovem revelou o sonho que se repetia há três noites.
Neste sonho, aparecia-lhe um homem novo de barbas castanhas e bondoso olhar que a encarregou de transmitir uma mensagem para o rei de Portugal : o rei deveria reunir os soldados e liderá-los num ataque surpresa à parte fronteiriça do castelo, enquanto o Lidador se deveria dirigir com dez homens às traseiras onde a jovem donzela abriria uma porta para os deixar passar. O homem barbudo prometia Óbidos aos cristãos e a salvação à jovem donzela. Apesar da hesitação do Lidador, D. Afonso Henriques já não se atrevia a duvidar dos desígnios divinos após o Milagre de Ourique. Na manhã seguinte, Óbidos foi conquistada conforme o sonho da misteriosa jovem que nunca mais foi vista.
A porta que franqueou a entrada dos cristãos ficou para sempre conhecida como a Porta da Traição.



07/02/2009

Piloto

Piloto era o mais inteligente e o mais afectuoso dos cães, e o infatigável companheiro dos brinquedos das crianças da quinta.
Fazia gosto vê-lo atirar-se ao tanque a agarrar o pau, que o João lhe lançava o mais longe que podia; pegava nele, metia-o na boca e trazia-o à margem, com grande alegria do pequerrucho e de sua irmã Joaninha.
Esta brincadeira recomeçava vinte vezes sem cansar nunca a paciência do Piloto. Depois eram corridas, festas, gargalhadas, saltos, até que o assobio do criado da quinta chamava o fiel animal ás suas obrigações; partia então como um raio, para escoltar as vacas que levavam aos pastos, e impedi-las de entrar no lameiro do vizinho.
Quando o hortelão ia vender os legumes ao mercado, era o Piloto o guarda da carroça; e muito atrevido seria quem saltasse à noite a parede da quinta.
Uma vez deu prova de urna extraordinária sagacidade: um jornaleiro, que se empregava muitas vezes em levar sacos de trigo da quinta para casa, tentou de noite roubar um saco.
O Piloto, que o conhecia, não fez a menor demonstração de hostilidade enquanto o homem seguiu o caminho da quinta, mas, desde que se afastou tomando por outro, o guarda vigilante, agarrou-o pela blusa, sem o largar.
Era como se dissesse: «Aonde vais tu com o trigo do meu dono?»
O ladrão quis pôr outra vez o saco donde o tinha roubado; mas o Piloto não deixou, e teve-o em guarda, sem o morder nem ferir, até de manhã; o quinteiro foi dar com ele nesta difícil posição, repreendeu-o vivamente, e despediu-o sem divulgar o caso, para o não desonrar.
O homem, porém, ficou com ódio ao cão, e muito tempo depois, aproveitando a ausência do quinteiro e dos filhos, chamou o Piloto, que correu para ele sem desconfiança; atou-lhe uma corda ao pescoço e arrastou-o à margem do ribeiro.
Atou à outra ponta da corda um grande calhau, e, levantando o animal, arrojou-o à água; mas arrastado ele próprio com o peso e com o esforço, caiu também.
Como não sabia nadar, teria sido despedaçado pela roda do moinho, se o corajoso Piloto, obedecendo ao seu instinto de salvador, e desembaraçando-se da pedra mal atada, não mergulhasse duas vezes, trazendo para terra o seu mortal inimigo.
Este, que já estava quase desmaiado, compreendeu, quando voltou a si, que o cão, que ele tinha querido afogar, lhe salvara a vida.
Envergonhou-se do acto miserável: e desde esse dia, violentando-se, combateu as suas mas inclinações.
O exemplo do cão corrigiu o homem.