09/03/2009

Lenda de Pedro Sem



Pedro Sem era um mercador rico mas não tinha títulos de nobreza, o que muito o afectava. Possuía muitas naus na Índia e era também usurário. Vivia rodeado de luxo à custa da desgraça alheia, pois emprestava dinheiro a juros elevados.
Um dia, estavam as suas naus para chegar, carregadas de especiarias e outros bens preciosos, quando a sua máxima ambição foi realizada. Casou-se com uma jovem da nobreza, em troca do perdão das dívidas do seu pai. Decorria a festa de casamento, que durou quinze dias consecutivos, quando as naus de Pedro Sem se aproximaram da barra do Douro. O arrogante mercador, acompanhado pelos seus convidados, subiu à torre do seu palácio e, confiante do seu poder, desafiou Deus, dizendo que nem o Criador o poderia fazer pobre. Nesse momento, o céu azul deu lugar a uma grande tempestade! Pedro Sem assistiu impotente ao naufrágio das suas naus. De seguida, a torre foi atingida por um raio que fez deflagrar um incêndio que destruiu todos os seus bens. Arruinado, Pedro Sem passou a pedir esmola nas ruas, lamentando-se a quem passava: "Dê uma esmolinha a Pedro Sem, que teve tudo e agora não tem...".
A torre medieval onde morava Pedro Sem está situada na rua da Boa Nova, diante do antigo Palácio de Cristal (actual Pavilhão Rosa Mota), no Porto. É ainda hoje conhecida por Torre de Pedro Sem.
A história diz que essa torre pertencia a Pêro do Sem, doutor de leis, jurisconsulto e chanceler-mor de D. Afonso VI no século XIV. Mas a lenda remete para uma data posterior - século XVI - a existência de um personagem chamado Pedro Sem.

Lenda do Porto




A moça que dança depois de morta




Esta lenda é muito popular em Porto Alegre.
Conta-se que um rapaz foi a um baile, no bairro Glória, numa noite de sábado.
Lá conheceu uma moça muito bonita, mas triste...e sozinha, o que era coisa incomum, para a época. Intrigado, convidou a moça para dançar. Perguntou-lhe então a razão de tanta tristeza, mas a moça de poucas palavras, não deu nenhuma explicação plausível. Para não a incomodar mais, desistiu do interrogatório.
Dançou com ela o que deu, até que "a meia-noite" ela disse que precisaria voltar para casa. O moço, nesse momento, até pensou estar vivenciando um flerte com uma real Cinderela, pois essa também precisava sumir nesse preciso momento.
Ofuscado com sua beleza e admirado com seu comportamento, o moço decidiu acompanhá-la, até por que era muito perigoso uma moça sozinha tão tarde andar pelas ruas.
Ao saírem, o ar da noite à fez estremecer e abraçou o jovem arrepiada. Então o rapaz, muito educado, ofereceu-lhe a capa, na qual ela se enrolou agradecida.


Os dois atravessaram o morro da Glória, onde fica o cemitério e desceram um pouco a lomba, como quem vai para o centro. Diante de uma casa a moça parou e disse:

- "Eu moro aqui." Quis devolver, então a capa, mas o rapaz não aceitou, pensando em uma desculpa para ver a moça ao meio-dia de domingo...
Ela sorriu, mas nada falou, entrando na casa.
No domingo, como havia combinado, perto do meio-dia, o moço voltou "a casa, teoricamente para reaver a capa, mas na realidade esperando um convite para almoçar e, quem sabe, iniciar um romance. Foi então recebido por um homem maduro e muito triste. Só neste momento então, o rapaz percebeu que não havia perguntado o nome da moça, na noite anterior. Daí só lhe restava perguntar:
- "O senhor é o pai da moça que mora aqui?"
- "Aqui não mora moça nenhuma". Disse o homem triste.
- "Mora sim. Eu vim com ela ontem de um baile e entrou aqui dizendo ser sua casa. Emprestei minha capa para ela, porque estava frio e fiquei de vir buscar hoje...."
- "É engano seu, deve ter sido em outra casa.." Contestou o velho.
E, ao abrir um pouco mais a porta, o rapaz pode olhar para dentro e viu o retrato da moça na parede. Alegrou-se, apontando:
- "Olhe, lá está ela, é aquela do retrato!"
-"Aquela é minha filha, que morreu faz um ano!"
O rapaz ficou surpreso e sem saber em que acreditar. Era tão sincera sua surpresa, que o velho se ofereceu para levá-lo ao túmulo da filha, no cemitério mais acima.
Foram...e lá estava mesmo o túmulo da moça, com seu retrato e em cima do túmulo, a capa do rapaz...

Lenda do Brasil


A Lenda do Rio Júlio


Nas terras bem lá do Centro, onde o tempo é sempre quente e o ar se bebe como a água mais pura, um homem de rosto negro como a noite mais escura e de dentes tão brancos como a neve que jamais sonhou existir, sorria sempre com hora marcada e sentava-se sempre do mesmo lado da vida, olhando o rio, acreditando que o tempo era só dele… 
Contava aos netos da aldeia, que partilhavam todos os avós sem cobiça nem avareza, histórias muito, muito antigas, tão antigas que não era possível rememorar o fiozinho por onde se puxava o seu princípio… 
- Ela era uma morena bonita, bonita… Os olhos dela sorriam… Mas apesar da sua cor de chocolate, que era herança de um branco que se perdeu na sanzala, não encontrava o amor! Pai Katanganha, que fez a menina, queria dá-la a qualquer um, para receber o alambamento! Onde já se viu perder cabras e ovelhas, mesmo que pastassem somente nos sonhos de um Soba?!... Aka! Mas ninguém se prendia no coração da mulata e ela, tão triste, tão triste, ia cozinhando as ideias, a ver se do matete que lá colocava escorria melhor pensadura. E se alembrou então de consultar as estrelas, para ver se lhe diziam a verdade da sua vida. Olhou, olhou e nada! Puxa! Não podia ser no escuro que ia ver o amor; tinha de ter luz para o perceber… Alembrou-se, por isso, de ver na fogueira, na roda dos tchinganges e dos quissanges, onde estaria a sua verdade… Mas a luz era muita e as caras feias, feias… Não tinham amor para dar! Procurou o feiticeiro, que sabe falar com os espíritos, para perguntar o destino. Sentado no chão, de olhos bem fechados e no meio do fumo do tabaco que enrolava, andava perdido noutro mundo. E quem anda perdido não pode encontrar nada, porque não sabe quem é, nem para onde vai, né?!... Triste, triste, a mulata viu o sol nascer na beira do rio. Encheu a moringa, para dar de beber à sede e sentiu a força da água, correndo para lá do mundo… Pensava, pensava e nem dava conta… Ao lado, mesmo ali, um homem de rosto negro como a noite mais escura e de dentes tão brancos, tão brancos, sorria… «Me dá um pouco de água, menina?!...» Ai, mulata bonita, perdeu-se de amores! Seus olhos sorriram e os dele também. Beberam da água do rio, juntinhos, juntinhos e sorrindo se foram para lá, na sanzala! 
- Como é, Acuco, que essa história tem fim? – perguntava um dos netos. 
- Fim?!... Não tem, não, kacuenje ! O rio não morre, é dono do tempo e o amor vive aqui, na beira do rio, à espera de quem o venha beber na moringa… Ele espera, espera… 

Lenda de Angola


O Caracol e a Impala




Uma Impala, muito vaidosa da sua agilidade e da rapidez com que corria, encontrou um Caracol e começou a fazer pouco dele:
- Ó Caracol, tu não és capaz de correr. Que vergonha, só és capaz de te arrastar pelo chão.
O Caracol, que era esperto, resolveu enganar a Impala. Por isso desafio-a:
- Vem cá no próximo domingo e vamos fazer uma corrida por esta estrada, desde aqui até ao rio.
- Uma corrida comigo? - perguntou, espantada, a Impala. — Está bem, cá estarei.
E afastou-se a rir, pensando que o Caracol era maluco por querer correr com ela.
O Caracol, entretanto, como tinha ido à escola e sabia ler e escrever, escreveu uma carta a todos os caracóis amigos dele que moravam ao longo da estrada até ao rio. Nessa carta ele dizia aos amigos para, no domingo, estarem junto à estrada e, quando passasse a Impala, se ela chamasse pelo Caracol, eles responderem: "Cá estou eu, o Caracol."
No domingo, a Impala encontrou-se com o Caracol e, a rir muito, disse-lhe:

- Vamos lá então correr os dois e ver quem chega primeiro ao rio.
O Caracol deixou-a partir a correr e escondeu-se num arbusto. A Impala corria e, de vez em quando, gritava:
- Caracol, ó Caracol, onde é que tu estás?
E havia sempre um dos amigos do Caracol que estava ali perto e respondia:
- Cá estou eu, o Caracol.
A Impala, que julgava ser sempre o mesmo Caracol que ia a correr com ela, corria cada vez mais, mas havia em todos os momentos um Caracol para responder quando ela chamava.
De tanto correr, a Impala acabou por se deitar muito cansada e morrer com falta de ar.
O Caracol ganhou a aposta porque foi mais esperto que a Impala e tinha ido à escola junto com os outros caracóis e todos sabiam ler e escrever. Só assim se puderam organizar para vencer a Impala.

Fábula de Moçambique


08/03/2009

A raposa e o gato

Um dia, o gato encontrou a raposa no bosque e disse para si mesmo: vou cumprimentá-la. Ela é tão inteligente, tão experiente, tão respeitada por todo mundo...
E fez uma saudação amigável:
— Bom dia, querida Dona Raposa! Como tem passado? Como tem levado a vida, agora que as coisas andam tão caras?
A raposa ficou inchada de orgulho. Olhou o gato de alto a baixo e levou algum tempo para resolver se respondia ou não.
Finalmente disse:
— Dobre a língua, seu patife lambedor de bigodes, seu palhaço de meia-tigela, seu pilantra caçador de ratos, você não se enxerga? Quem você pensa que é? Como ousa me perguntar como eu tenho passado? Quem é você? Que é que você sabe? O que aprendeu? Que artes domina?
— Só uma — respondeu o gato, modestamente.
— E qual é, se mal pergunto?
— Quando os cachorros correm atrás de mim, consigo escapar, subindo numa árvore.
— Só isso? — disse a raposa. — Pois eu sou senhora de mil artes e além disso tenho um monte de truques que dariam para encher um baú... Fico de coração apertado só de pensar como você é indefeso. Venha comigo, vou lhe ensinar a escapar dos cachorros.
Justamente nesse momento, apareceu um caçador com quatro cachorros. O gato deu um pulo rápido para o tronco de uma árvore e foi lá para cima, para o meio da copa, onde as folhas e os galhos o esconderam por completo.
— Abra o baú, Dona Raposa, abra o baú! — gritava o gato.
Mas não adiantou nada. Os cachorros já tinham agarrado a raposa, que estava bem presa e imóvel nas patas deles.
— Que pena, Dona Raposa! — disse o gato. — Veja a encrenca em que a senhora está, com todas as suas mil artes. Se pelo menos soubesse subir em árvores, como eu, salvava sua vida...



Segunda noite

E QUANDO FOI NA SEGUNDA NOITE



Doniazad disse à sua irmã Sherezade: “ó, minha irmã, termina, para nós, eu te peço, o conto q é a história do mercador e do génio”. E Sherezade respondeu: De todo o coração e como homenagem devida – se contudo, o rei permitir.” E então o rei disse: “Podes falar”.
Ela disse:
Contaram-me, ó Rei, que quando o mercador viu chorar o bezerro, seu coração foi tomado de piedade e ele disse ao pastor: “Deixa esse bezerro entre o gado.”
Quanta coisa! E o génio admirava-se com a história espantosa. Depois, o chaik, dono da gazela, continuou:
“Ó rei dos génios, tudo isso aconteceu. E a filha do meu tio, essa gazela que aqui está, também estava olhando e dizendo: “É preciso sacrificar aquele bezerro, porque está no ponto!” Mas eu não podia, por piedade, resolver-me a sacrificá-lo. E ordenei ao pastor q o levasse. Ele o levou, saindo daí com ele.
NO segundo dia, eu estava sentado quando o pastor veio a mim e disse: “Ó, meu senhor, vou dizer uma coisa que te alegrará e essa novidade me valerá uma gratificação.” Respondi: “Certamente.” Ele disse: “Minha filha é feiticeira, porque aprendeu feitiçaria com uma velha q ue morava em nossa casa. Ora, ontem, quando tu me deste o bezerro, eu entrei com ele onde estava minha filha. Apenas o viu, ela cobriu o rosto com o véu, e pôs-se a chorar, depois a rir. Em seguida me disse: “Ó, pai, meu valor desceu assim tão baixo a teus olhos q deixas q homens estranhos penetrem meus aposentos?” Eu lhe disse: “Mas onde estão esses homens estranhos? E por que choraste e em seguida riste?” Ela me disse: “Esse bezerro, q está contigo, é o filho de nosso senhor, o mercador, mas ele está encantado. E foi sua madrasta quem assim o encantou, e à mãe dele também. E foi da sua cara de bezerro q não pude deixar de rir. E se chorei, foi por causa da mãe do bezerro sacrificada pelo pai.” A essas palavras de minha filha fiquei surpreso, e esperei a volta da manhã para vir te por a par.”
Assim que ouvi as palavras daquele pastor, saí à pressa com ele, e me sentia embriagado sem vinho, pela quantidade de alegria e felicidade que me vinham, por rever meu filho. Quando chegamos à casa do pastor, a jovem desejou-me boas vindas e beijou-me a mão. Depois o bezerro veio para mim e rolou a meus pés. Então eu disse à filha do pastor:
- É verdade o que me contas sobre esse bezerro?
- Sim, certamente, meu senhor! Esse bezerro é teu filho, a chama do teu coração.
- Ó gentil e piedosa adolescente, se libertares meu filho, dando-lhe novamente a forma de filho de Adão, te darei tudo quanto tenho em gado e em propriedades que estão sob a guarda do teu pai.
Ela sorriu ao ouvir essas palavras e disse:
- Meu senhor, não quero riquezas, senão sob duas condicoes: a primeira é casar com teu filho. A segunda é que me deixarás enfeitiçar e aprisionar quem eu quiser! Sem o que não respondo pela eficácia de minha intervenção contra as perfídias de tua esposa.”
Assim que ouvi as palavras da filha do pastor, disse-lhe:
- Assim seja! E, além disso, terás as riquezas que estão sob a guarda do teu pai. No que se refere à filha de meu tio, podes dispor do seu sangue.
Assim que ela ouviu minhas palavras, apanhou uma pequena bacia de cobre, encheu-a de água, e pronunciou sobre a água uns encantamentos: depois aspergiu o bezerro, dizendo-lhe: “Se Alá te criou bezerro, continua bezerro, sem mudar de forma! Mas se estás encantado, volta à tua primitiva forma.”
A estas palavras, imediatamente o bezerro começou a agitar-se, sacudindo-se até se tornar um ser humano. Então, atirei-me sobre ele, beijando-o e abraçando-o. Depois, disse-lhe: Ó, meu filho! Alá, senhor dos destinos, reservou alguém para te salvar!”
Depois do que, ó bom génio, casei meu filho com a filha do pastor. E ela, por sua ciência de feitiçaria, encantou a filha de meu tio e transformou-a nesta gazela que aqui está e que tu vês! E eu, ao passar por este lugar, vi estas pessoas reunidas e perguntei-lhes o que faziam, e soube por elas o que acontecera a este mercador que aqui está. E sentei-me para ver o que podia acontecer. E esta é a minha história.”
Então o ifrit disse: “História muito espantosa! Por isso dou-te o terço de sangue que pediste. Quanto aos outros dois terços do sangue deste maldito, vou tomá-los, contra a vontade dele, nesta hora!”
Nesse instante, avançou o segundo chaik, senhor dos cães negros, e disse:

CONTO DO SEGUNDO CHAIK

“Sabe, ó rei dos génios, que estes dois cães que aqui vês são meus irmãos e que sou o terceiro. Ora, logo que morreu, nosso pai nos deixou de herança três mil dinares. Com minha parte, abri uma loja onde comecei a vender e a comprar. Um dos meus irmãos se pôs a viajar para se fazer comerciante e se ausentou por um ano, com as caravanas. Quando voltou, nada mais tinha. Então eu lhe disse: “Irmão, eu não te aconselhei a não viajar?” Ele se pôs a chorar, dizendo: “Ó, irmão, Alá é poderoso e permitiu que tal coisa me acontecesse. Assim, tuas palavras, agora, não me podem mais ser de proveito, pois que nada possuo.” Então o levei comigo à loja e depois aos banhos, dei-lhe uma bela roupa. Em seguida sentamos juntos para comer e eu lhe disse: “Irmão, vou fazer a conta do lucro de minha loja, de um ano a outro e, sem tocar no capital, dividirei este lucro contigo.” E assim fiz, e achei que naquele ano tinha ganho mil dinares. Então agradeci a Alá, que é grande, e fiquei muito feliz. Depois dividi o ganho em duas partes, entre meu irmão e eu. E ficamos juntos durante dias.
Mas, de novo, meus irmãos resolveram partir, e quiseram que eu partisse com eles. Porem não aceitei, e lhes disse: “Que ganhaste vós, viajando, para que eu me sinta tentado a imitar-vos?” Então eles começaram a insistir, mas sem sucesso, porque não obedeci aos seus desejos. Ao contrário, continuamos a tocar nossas respectivas lojas, vendendo e comprando durante um ano inteiro. Após, eles recomeçaram a me propor viagem, e eu continuei a não aceitar, e isso durou seis anos. Afinal, acabei concordando com eles e antes da partida, lhes disse: “Meus irmãos, contemos o que possuímos em dinheiro.” Contamos e achamos ao todo seis mil dinares. Então, lhes disse: “Vamos enterras a metade debaixo da terra para poder utilizá-la se uma infelicidade nos acontecer. E tomemos cada um mil dinares para comerciar em ponto pequeno.” Eles responderam: “Que Alá favoreça essa ideia!” Então tomei o dinheiro, dividi-o em duas partes iguais, enterrei três mil dinares e quanto aos outros três mil, distribui-os entre nós três. Depois, fizemos nossas compras de mercadorias diversas, alugamos um navio para nele transportar nossas aquisicões, e partimos.
A viagem durou um mês inteiro, ao fim do qual entramos numa cidade onde vendemos nossas mercadorias, e tivemos um lucro de dez para cada dinar. Depois deixamos aquela cidade.
Ao chegarmos à beira-mar, encontramos uma mulher, vestida de trajos velhos e usados, que se aproximou de mim, beijou-me a mão e disse: “Meu senhor, podes me socorrer e prestar um serviço? Em troca, saberei recompensar teu benefício.” Disse-lhe: “Sim, com certeza! Posso socorrer e ajudar, mas não te sintas obrigada a mostrar reconhecimento.” Ela me respondeu: “Meu senhor, então casa-te comigo e me leve para teu país, e eu te devotarei minha alma! Faze-me pois esse favor, pois sou daquelas que sabem o preço de uma obrigação e de um benefício. E não te envergonhes de minha pobre condição!” Quando ouvi aquelas palavras, tive por ela uma piedade cordial, porque não há nada que não se faça, com a vontade de Alá. Levei-a, vesti-a com roupas belíssimas, depois estendi para ela, no navio, magníficos tapetes e lhe fiz acolhimento hospitaleiro e amplo, cheio de urbanidade. Em seguida, partimos.
E meu coração amou-a com grande amor. Eu não a deixava, dia ou noite. E só eu, entre meus irmãos, podia possuí-la. Assim, meus irmãos encheram-se de ciumes e me invejaram também pela minha riqueza e pela qualidade de minhas mercadorias. E atiravam avidamente olhares sobre tudo o que eu possuía, e tramaram minha morte e o roubo de meu dinheiro; porque um demónio fazia que vissem aquela acção sob as mais belas cores.
Um dia em que eu dormia ao lado de minha esposa, aproximaram-se, agarraram-nos e nos atiraram ao mar. E minha esposa acordou na água. Então, subitamente, ela se transformou em ifrita. Tomou-me em seus ombros e me colocou numa ilha. Depois desapareceu todo o resto da noite, voltando pela manhã, quando me disse: “Não me reconheces? Sou tua esposa! Salvei-te da morte, com a permissão de Alá!. Porque, sabes, sou uma ifrita. E, desde o momento que te vi, meu coração te amou, simplesmente porque Alá assim o quis. Quando me viste na pobre condição em que eu estava, tu assim mesmo me quiseste e casaste comigo. Agora, em troca, salvei-te da morte. Quanto a teus irmãos, estou enfurecida contra eles, com certeza é preciso que eu os mate!”
A essas palavras fiquei estupefacto, e agradeci por seu ato, e lhe disse: “Quanto a meus irmãos, realmente, peço-te que não faças isso.” Depois lhe contei o que tinha acontecido entre mim e eles, desde o começo até o fim. Quando ouviu minhas palavras, ela disse: “Esta noite voarei até eles e farei naufragar seu navio e eles perecerão!” Eu lhe disse: “Por Alá, não faças isso, porque o Senhor dos provérbios disse: Ó benfeitor do homem indigno! Sabe que o criminoso está suficientemente punido pelo seu próprio crime! Ora, sejam eles o que forem, ainda assim são meus irmãos!” Ela disse: É absolutamente preciso que eu os mate.” Implorei inutilmente a sua indulgência. Depois do que ela me tomou sobre seus ombros e me pôs sobre o terraço de minha casa.
Então, abri as portas de minha casa. A seguir, retirei os três mil dinares do esconderijo. E abri minha loja, depois de ter feito as visitas necessárias e os cumprimentos de uso. E fiz novas compras.
Quando a noite chegou, fechei minha loja e, entrando em minha casa, encontrei estes dois cães amarrados a um canto. Quando me viram, levantaram-se e começaram a chorar, mas imediatamente apareceu minha esposa e disse: “Esses são teus irmãos.” Eu lhe disse: “Quem os pôs assim?” Ela respondeu: “Eu. Pedi a minha irmã, que é bem mais versada do que eu em encantamentos, e ela os pôs nesse estado, do qual só poderão sair ao fim de dez anos.”
E é por isso, ó poderoso génio, que vim ter a este lugar, à procura de minha cunhada, para lhe pedir que liberte meus irmãos, pois já se passaram dez anos. Quando aqui cheguei, encontrei este bom homem, soube da sua aventura, e não quis sair até saber o seu término. Esta é minha história!”
O génio disse: “Realmente, um conto espantoso! Por isso te concedo o terço de sangue, em resgate ao crime. Mas vou retirar desse maldito que atirou os caroços, o terço de sangue que me é devido.
Então avançou o terceiro chaik, senhor da mula, e disse ao génio: “Eu contarei uma história mais maravilhosa do que as dos outros dois. E tu me darás, como graça, o resto do sangue, em resgate do crime.” O génio respondeu: “Que assim seja!”
E o terceiro chaik disse:


CONTO DO TERCEIRO CHAIK
“Ó sultão dos génios! Esta mula que aqui está era minha esposa. Uma vez fiz viagem e estive ausente dela por um ano inteiro. Quando voltei, durante a noite, encontrei-a deitada com um escravo, sobre nosso leito. Os dois ali estavam, e conversavam, requebravam-se e riam, se beijavam e se excitavam, galhofando. Assim que ela me viu, levantou-se muito depressa e se atirou sobre mim, tendo na mão uma tigela de água. Murmurou algumas palavras sobre a tigela e disse: “Sai de tua própria forma e toma a imagem de um
cão!” E imediatamente me transformei num cão e ela me expulsou de casa. E eu saí, e desde então, não cessei de errar, e acabei por chegar à loja de um açougueiro. Aproximei-me e comecei a comer ossos. Quando o dono da loja me viu, segurou-me e foi comigo para sua casa.
Quando a filha do açougueiro me viu, depressa velou o rosto, por minha causa, e disse a seu pai: “É assim que se procede? Vens com um homem e entras com ele em nossos aposentos!” Seu pai lhe perguntou: “Mas onde está este homem?” Ela respondeu: “Esse cão é um homem. E foi uma mulher que o encantou. Sou capaz de libertá-lo.” A essas palavras, o pai disse: “Por Alá, conjuro-te a libertá-lo!” Ela tomou uma tigela e depois de ter murmurado sobre aquela água algumas palavras, aspergiu-me com algumas gotas e disse: “Sai dessa forma e volta à tua primitiva forma!” Entoa voltei a ser o que era e beijei a mão da jovem, e lhe disse: “Desejo agora que encantes minha esposa como fui por ela encantado.” Ela me deu um pouco d’água e me disse: “Se encontrares tua esposa adormecida, atira-lhe esta água e ela se transformará naquilo que desejares!” Encontrei-a adormecida, joguei-lhe a água e disse: “Sai dessa forma e transforma-te em mula!” No mesmo instante ela se transformou em mula.
E é ela mesma que vês com teus próprios olhos, ó sultão e chefe dos reis dos génios!
Então o génio voltou-se para a mula e disse-lhe: “Isso é verdade?” E ela pôs a sacudir a cabeça e disse, por sinais: “Oh! Sim! Sim! É verdade!
Toda aquela história fez que o génio tivesse prazer e emoção. E fez dom ao velho do último terço do sangue. Então...


Nessa altura, Sherazade viu aparecer a manhã e, discreta, calou-se. Então sua irmã Doniazad disse: Ó, minha irmã! Como tuas palavras são doces e gentis e deliciosas em sua frescura!” Sherazade respondeu: “E isso não é nada se comparado com o que te contarei na próxima noite, se estiver ainda viva, e se o rei houver por bem me conservar.” E o rei disse consigo mesmo: “Por Alá! Não a matarei até ouvir a continuação de sua narrativa, que é espantosa!”
Depois o rei e Sherazade passaram o resto da noite enlaçados, até pela manhã. Depois do que o rei saiu e foi para a sala de sua justiça. E o vizir e os oficiais entraram. O rei julgou, nomeou, demitiu, deu ordens até o fim do dia, quando voltou ao seu palácio.





05/03/2009

A Romeira

Por aqueles montes verdes
Uma romeira descia;
Tão honesta e formosinha
Não vai outra à romaria.
Sua saia leva baixa
Que nas ervas lhe prendia;
Seu chapelinho caído
Que lindos olhos cobria!
Cavaleiro vai trás dela,
De má tenção que a seguia!
Não a alcança por mais que ande,
Alcançá-la não podia
Senão junto a essa oliveira
Que estão no adro da ermida.
À sombra da árvore benta
A romeira se acolhia:
- «Eu te rogo, cavaleiro,
Por Deus e a Virgem Maria,
Que me deixes ir honrada
Para a santa romaria.»
Cavaleiro, de malvado,
Nem Deus nem razão ouvia;
Cego, no desejo bruto,
De amores a acometia.
Pegaram de braço a braço:
Luta de grande porfia!
A romeira, por mais fraca,
Enfim, rendida, caía...
No cair, lhe viu à cinta
Um punhal que ele trazia;
Com toda a força lho arranca,
No coração lho metia.
O sangue negro saltava,
O negro sangue corria...
- «Por Deus te peço romeira
Por Deus e a Virgem Maria,
Que o não digas em tua terra,
Nem te vás gabar à minha
Da vingança que tomaste,
Da afronta que te eu fazia.»
- «Hei-de dizê-lo em tu’terra,
Hei-de me ir gabar à minha,
Que matei um vil covarde
Com as armas que ele trazia.»
Tocou a campa da ermida,
A campa que retinia:
- «Ermitão, por Deus vos peço
Bom ermitão desta ermida,
Tenhais dó dessa má alma
Que inda agora partia:
Daí terra benta ao seu corpo,
Que Deus lhe perdoaria.»


Romanceiro, Almeida Garrett




O Homem chamado Namarasotha


Havia um homem que se chamava Namarasotha. Era pobre e andava sempre vestido com farrapos. Um dia foi à caça. Ao chegar ao mato, encontrou uma impala morta. Quando se preparava para assar a carne do animal apareceu um passarinho que lhe disse:
- Namarasotha, não se deve comer essa carne. Continua até mais adiante que o que é bom estará lá.
O homem deixou a carne e continuou a caminhar. Um pouco mais adiante encontrou uma gazela morta. Tentava, novamente, assar a carne quando surgiu um outro passarinho que lhe disse:
- Namarasotha, não se deve comer essa carne. Vai sempre andando que encontrarás coisa melhor do que isso.
Ele obedeceu e continuou a andar até que viu uma casa junto ao caminho. Parou e uma mulher que estava junto da casa chamou-o, mas ele teve medo de se aproximar pois estava muito esfarrapado.
- Chega aqui!, insistiu a mulher.
Namarasotha aproximou-se então.
- Entra, disse ela.
Ele não queria entrar porque era pobre. Mas a mulher insistiu e Namarasotha entrou, finalmente.
- Vai te lavar e veste estas roupas, disse a mulher.
E ele lavou-se e vestiu as calças novas. Em seguida, a mulher declarou:
- A partir deste momento esta casa é tua. Tu és o meu marido e passas a ser tu a mandar.
E Namarasotha ficou, deixando de ser pobre.
Um certo dia havia uma festa a que tinham de ir. Antes de partirem para a festa, a mulher disse a Namarasotha:
- Na festa a que vamos quando dançares não deverás virar-te para trás.
Namarasotha concordou e lá foram os dois. Na festa bebeu muita cerveja de farinha de mandioca e embriagou-se. Começou a dançar ao ritmo do batuque. A certa altura a música tornou-se tão animada que ele acabou por se virar.
E no momento em que se virou, ficou como estava antes de chegar à casa da mulher: pobre e esfarrapado.

Conto moçambicano




NOTA:
Todo o homem adulto deve casar-se com uma mulher de outra linhagem. Só assim é respeitado como homem e tido como «bem vestido». O adulto sem mulher é «esfarrapado e pobre». A verdadeira riqueza para um homem é a esposa, os filhos e o lar. Os animais que Namarasotha encontrou mortos simbolizam mulheres casadas e se comesse dessa carne estaria a cometer adultério. Os passarinhos representam os mais velhos, que o aconselham a casar com uma mulher livre. Nas sociedades matrilineares do Norte de Moçambique (donde provém este conto), são os homens que se integram nos espaços familiares das esposas. Nestas sociedades, o chefe de cada um destes espaços é o tio materno da esposa. O homem casado tem de sujeitar-se às normas e regras que este traça. Se se revolta e impõe as suas, perde o seu estatuto de marido e é expulso, ficando cada cônjuge com o que levou para o lar. Cumprindo sempre o que os passarinhos lhe iam dizendo durante a sua viagem em busca de «riqueza», Namarasotha acabou por encontrá-la: casou com uma mulher livre e obteve um lar. Mas por não ter seguido o conselho da mulher, perdeu o estatuto dignificante de homem adulto e casado.



Jacaré Bangão



Reza a lenda que na cidade de Caxito, capital da província do Bengo, certo Jacaré decidiu pagar o imposto ao chefe do posto, responsável por assegurar esta obrigação fiscal.
Segundo consta, o tal chefe era um indíviduo implacável para com os habitantes daquela região e o Jacaré vendo a sua atitude decidiu ele próprio pagar o imposto a fim de travar a impetuosidade daquele chefe.
Ao ver o grande Jacaré sair das águas do rio Dande a fim de cumprir a sua missão, o cobrador de impostos ficou aterrorizado e abandonou os maus modos com que tratava a população.

Lenda angolana

O Leão é forte como a amizade





Dois amigos costumavam encontrar-se todos os dias, numa das conversas um deles comentou; - Os leões estão a aparecer nas redondezas. tem cuidado com a tua casa, para evitares um desgosto.
- O Leão não poderá entrar. Tenho espingarda e lança.
- Enganas-te, porque não pode lutar com o Leão.
- Tenho a certeza que posso.
Ambos riram e continuaram a conversar até que por fim se separaram.
Passou-se um mês desde quando o rapaz tinha avisado o amigo, arranjou um meio de se transformar em Leão e resolveu atacar o camarada rugindo ferozmente.
Arranhou-lhe a porta de casa e encontrou o amigo a dormir. Levantou-o, bateu-lhe e desfez tudo aquilo que encontrou. Deixando o amigo em má situação, retirou-se e voltou à forma de homem.
No outro dia, foi visitar o amigo que atacara e este disse-lhe;
- Pobre de mim! O Leão veio aqui e destruiu tudo!
- Porque não fizes-te fogo ou lhe metes-te a lança?
- Meu amigo o Leão é forte como a amizade!


Conto angolano


Lenda da Galinha d'Angola





Numa certa manhã, vinha de cabeça baixa e muito triste uma Kerere, lamentando-se «estou fraca, estou fraca, estou fraca!».
Resolveu saciar a sede num riacho. Lá deparou-se com uma linda mulher que se banhava e coquete como só ela sabia começou a pintar-se.
Kerere quando viu aquilo admirou-se: era Dandalunda, aquela que dá brilho às jóias e se banha e pinta antes mesmo de cuidar dos filhos...
Dandalunda quando percebeu a tristeza daquela ave perguntou-lhe:- Porque é essa tristeza Kerere?
Kerere respondeu-lhe:- Entre os meus pares eu sou a mais feia!
Naquela época Kerere era toda preta...
Dandalunda então pediu para Kerer se aproximar. Ela pegou em osum e pintou o seu bico; depois com osum vermelho os brincos. Depois com waji tornou as penas azul escuro e com efum fez as pinturas brancas. E continuou a pintar Kerere. Esta ao ver a sua imagem no abebé de Dandalunda saiu correndo de tanta felicidade cantando "Kuéim, kuéim, kuéim".
Dandalunda que ainda não tinha terminado de pintar Kerere pediu a Kakulu, divindade dos gémeos para que corresse a trás de Kerere e a trouxesse de volta pois não tinha pintado o seu peito.
Kerere lá voltou e pediu para que Dandalunda ao invés de pintar o peito lhe desse um colar.
Dandalunda fez-lhe a vontade e ofereceu-lhe um colar em forma de coroa que Kerere carrega até hoje... e entre os seus pares é a mais linda de todas...
Tempos depois Kerere voltou e tornou-se o primeiro ser que "tomou" obrigações por aquela que é capaz de modificar todos com a sua doce magia encantada.
Kerere, o primeiro ser raspado, adornado e pintado por Dandalunda... e é por este motivo que quando um Kerer é sacrificado temos que tirar este colar em forma de coroa e coloca-lo em evidência!

.... Kerere é também conhecida por Konquem, "Tô" fraco, E tu ou Galinha de Angola.


Lenda angolana

04/03/2009

A tigela de madeira




Uma senhora de idade avançada foi morar com o filho, a nora e a netinha de 4 anos. As mãos da velhinha estavam trémulas, sua visão embaçada e os passos, vacilantes.
A família comia reunida à mesa. Mas as mãos trémulas e a visão falha da avó a atrapalhavam na hora de comer. A soja rolava de sua colher e caía no chão. Quando pegava a tigela, o missoshiru (sopa à base de pasta de soja) era derramado na toalha.
O filho e a nora irritaram-se com a bagunça: - Precisamos tomar uma providência com respeito à mamãe”, disse o filho.
- Já tivemos suficiente sopa derramada, barulho de gente comendo com a boca aberta e comida pelo chão.
Então, eles decidiram colocar uma pequena mesa num cantinho da cozinha.
Ali, a avó comia sozinha, enquanto o resto da família fazia as refeições na sala, com satisfação.
Desde que a velhinha quebrara uma ou duas tigelas de louça, sua comida era servida numa tigela de madeira. Quando a família olhava para a avó sentada ali sozinha, às vezes notava que ela tinha lágrimas nos olhos.
Mesmo assim, as únicas palavras que lhe diziam eram admoestações ásperas quando ela deixava um palito ou comida cair ao chão. A menina de 4 anos assistia a tudo em silêncio.
Uma noite, antes do jantar, a mãe percebeu que a filha pequena estava no chão, manuseando pedaços de madeira. Ela perguntou delicadamente à criança: “O que está fazendo?”
A menina respondeu docemente:
- Oh, estou fazendo uma tigela para você comer, quando eu crescer.
E a garota sorriu e voltou ao trabalho.


Lenda do Japão

A raposa




Conta uma antiga lenda que, nos arredores de uma pequena cidade, vivia uma família de raposas. Elas eram famosas pelo modo original de iludir as pessoas. Muito criativas, ninguém conseguia escapar de suas artimanhas.
Uma dessas raposas transformava-se em um homem barbeiro e deixava careca todos os clientes que o procuravam para fazer penteados ou aparar os cabelos. Assim, todos os homens da cidade ficaram de cabeças raspadas. Por isso, o animal encantado acabou ganhando o apelido de kitsune tokoya, ou seja, “raposa barbeira”.
Certo dia, houve na casa do conselheiro da cidade uma reunião para por fim àquela situação. Afinal, numa época em que os penteados estavam na moda para homens em todo o Japão, não era admissível que só aqueles da pequena cidade não pudessem andar de cabeça erguida. Apesar de haver unanimidade na decisão de fazer a raposa parar com a brincadeira, ninguém tinha sugestão de como fazer isso. Então, descobriram que, entre todos os homens da cidade, havia um que ainda mantinha seu belo penteado. Era um samurai jovem e esperto chamado Saizoemon. Diziam que seu único defeito era ser convencido.
Assim, o conselho de cidadãos resolveu chamá-lo para saber como havia conseguido safar-se da ardilosa brincadeira da raposa barbeira.
Chegando ao local da reunião, o samurai foi logo dizendo:
– Sabem por que se deixaram enganar por uma raposa? Simples, porque vocês são tolos. Sendo assim, não adianta ficar discutindo o dia todo, porque não vão chegar a conclusão alguma. No entanto, eu sei como dar um jeito. Então, o que estão esperando? Admitam a incompetência e me implorem para castigá-la.
Apesar de a arrogância irritar os presentes, ninguém viu outra alternativa senão pedir humildemente para que Saizoemon desse um jeito na atrevida raposa.
O samurai pegou uma lança e foi para o bosque, onde todos diziam que havia esconderijos de raposas. Quando caminhava por uma trilha entre árvores de pinho, cruzou com uma bela garota de olhar malicioso, que o cumprimentou:
– Boa tarde, Saizoemon, está passeando pelo bosque? O samurai logo desconfiou que era um truque ilusionista da raposa e atacou com sua afiada lança. A moça, assustada, esquivou-se do golpe deixando aparecer uma cauda branca.
– Eu tinha razão, sua raposa safada. Agora, você não vai escapar de meu golpe – assim dizendo, atacou a raposa, que voltou ao seu formato e fugiu apavorada.
Vitorioso na primeira investida, ele ficou mais convencido de sua esperteza e foi caminhando mata adentro.
Numa clareira do bosque, viu outra mulher que parecia estar descansando. Logo desconfiou de que se tratava de outra raposa.
Assim que a mulher saiu andando, ele a seguiu, escondendo-se atrás das árvores enquanto a observava.
Num momento, a mulher agachou e juntou um punhado de capim seco. Dobrou os capins e, com eles, fez um boneco.
Saizoemon segurou a respiração e observou atentamente.
A mulher esticou os braços levantando o boneco e assoprou com força. Como num passe de magia, o boneco ganhou vida, transformando-se num bebê humano. Embora espantado, o samurai não tinha mais dúvida de que se tratava de uma raposa.
Com o bebê no colo, a mulher entrou na casa de um lenhador e foi recebida por uma velhinha com grande alegria.
– Nossa – pensou Saizoemon – a raposa está tentando enganar a pobre velhinha. Preciso agir imediatamente. Assim dizendo, adentrou a casa derrubando a porta com o pé. Encostando a lança no pescoço da mulher, ele disse:
– Cuidado, minha senhora, esta raposa está tentando lhe enganar. Este bebê é um punhado de capim seco, vi com meus próprios olhos quando ela fez a magia – dizendo isso, o samurai apanhou uma corda e amarrou a mulher. A velhinha, que não estava entendendo nada, protestou:
– Senhor samurai, o que está fazendo com a minha nora, o senhor é um maluco?
– Santa ignorância a sua, minha senhora! Será que não percebe que esta é uma raposa astuta?! Fique olhando calada que vou provar o que estou dizendo.
– Pare, senhor, está completamente enganado. Meu neto não é um punhado de palha. Veja, é uma criança de carne e osso.
– Minha senhora, quando uma raposa se faz passar por gente, para quebrar o encanto, é necessário fazer fumaça com folha de cedro. Assim que a fumaça encobrir a raposa encantada, logo aparece um rabo branco e, depois, ela volta ao seu formato original.
Assim dizendo, Saizoemon arrastou a mulher amarrada para fora da casa, fez um monte de folhas de cedro e botou fogo para fazer fumaça.
A velhinha gritava desesperada para que Saizoemon parasse com aquele ato bárbaro.
– Por favor, pare com isso, o senhor vai matar a minha nora, a mãe de meu querido netinho.
Sem se importar com as súplicas da velha senhora, o samurai deixou a mulher coberta de fumaças, o que provocou muitas tosses.
– Não se preocupe, senhora, assim que quebrar o encanto, seu netinho vai voltar a ser um simples punhado de capim.
Por mais que a fumaça envolvesse a mulher, não aparecia nenhum rabo de raposa e ela continuava tossindo desesperadamente.
– Pare com isso, ela está morrendo, não está vendo o mal que está fazendo?
Saizoemon não parava. Estava convicto que aquela era uma raposa encantada. De repente, a mulher caiu e ficou esticada no chão.
– Minha nora morreu! Você matou a minha nora! Meu netinho vai ficar órfão! Quanta crueldade!
Saizoemon levou um susto. Balançou e desamarrou a mulher desesperadamente. Todas as tentativas para reanimá-la pareciam inúteis. O samurai foi tomado de um grande arrependimento e, prostrado no chão, reconheceu seu engano.
– Matei essa pobre mulher por engano. Que erro terrível cometi! Não sou digno de continuar sendo um samurai.
Nesse exacto instante, apareceu um monge no local.
– O que aconteceu por aqui? Parece uma tragédia.
O samurai contou todo o seu infortúnio dizendo quanto estava pesaroso pelo imperdoável engano.
– Sua alma jamais terá paz enquanto não purificar seu espírito.
A alma da pobre mulher, morta por engano, inconformada por tamanha injustiça, não terá paz. Vai se tornar, com certeza, uma alma penada. É necessário que reze muito, mas muito mesmo, por ela. Raspe sua cabeça e torne-se um monge, assim poderá dedicar muitas orações à sua pobre alma.
Saizoemon concordou que essa era melhor solução, já que era indigno de continuar sendo um samurai. Pediu, então, ao sacerdote que lhe raspasse a cabeça e o ordenasse monge.
Atendendo a vontade do samurai arrependido, o monge raspou a cabeça de Saizoemon. Quando terminou de raspar, o monge desapareceu num passe de mágica. Não só ele como a casa, o bebê, a velhinha e a mulher que parecia morta.
Nisso, o povo da cidade encontrou Saizoemon sentado sobre uma pedra com a cabeça raspada.
– Vejam, a raposa barbeira conseguiu enganar Saizoemon também!
A raposa conseguiu iludir Saizoemon seguindo todos os seus passos. Assim, o samurai tornou-se alvo de gozação de todos na cidade, até que se tornou um cidadão humilde.

Lenda do Japão


03/03/2009

O Perfeito Macaco-Rei

Havia numa planície do Oriente, uma rocha que desde que o mundo foi criado, vinha recebendo raios da lua e do sol. Um dia essa rocha inchou e acabou se entreabrindo, para dar ao mundo um ovo de pedra. Esse ovo foi assolado por um furacão e arrebentou-se. Dele saiu um macaco de pedra. Possuía cinco sentidos: a visão, a audição, o olfato, o paladar e o tato, porém seus movimentos eram lentos. Depois de muitos alongamentos ele conseguiu dirigir-se aos quatro pontos cardeais, alimentando-se dos frutos das árvores e da água das torrentes. Mais tarde, pôs-se a morar nas montanhas, dormindo à noite nas baixas vertentes e durante o dia voltando aos cimos. Fez amizades com outros macacos, os gibões.
Um dia de muito calor, o macaco foi para um bosque de pinheiros em cujo centro havia uma torrente encachoeirada, profunda e fresca; os gibões o acompanhavam. Ao ver a água tão pura, tão cintilante, decidiu mergulhar nela a fim de procurar-lhe a nascente e medir-lhe a profundidade. Primeiro mergulhou o macaco de pedra, visto que seus camaradas haviam decidido eleger Rei aquele que descesse ao fundo da torrente... Ao chegar ao fundo, o macaco abriu os olhos. Não havia água, nem torrente; havia apenas um palácio onde estava escrito: “Monte das flores e dos frutos, terra da felicidade, caverna celeste”.
O macaco apressou-se a emergir, em busca dos demais macacos, a fim de lhes explicar o que havia descoberto no fundo da torrente encachoeirada. Os gibões, muito felizes, dançaram de alegria. O macaco de pedra porém, lhes disse: Vamos morar no palácio; lá estaremos ao abrigo do sol e da chuva. Todos os demais mergulharam e tomaram posse do palácio da felicidade. O macaco de pedra instalou-se num trono e fez com que o aclamassem Rei, conforme fora combinado. Foi nomeado “O Perfeito Macaco-Rei”.
Mas, apesar da glória de soberano, apesar de ter acumulado riquezas e poder, o Macaco-Rei vivia melancólico. Temia a velhice e a morte.
Decidiu, um dia partir em busca da imortalidade - iria ao mais fundo das cavernas, ao azul do céu, cavalgaria ao vento. No decorrer dessa busca, seu corpo e seu espírito pouco a pouco foram se modificando e afinal ele acabou por se tornar homem.

Lenda do Japão





O cágado e o bambi



Certo dia, o cágado e o bambi discutiam sobre qual dos dois seria o melhor corredor. Então, o cágado propôs um desafio ao antigo amigo bambi: fariam uma corrida, marcando o seu itinerário desde o ponto de partida até ao ponto de chegada. Começariam juntos e veriam quem era capaz de chegar primeiro. O bambi, após aceitar o desafio foi dormir. O cágado, ao contrário, foi ter com seus iguais, os demais cágados. Combinou com eles que cada um se colocaria em um ponto do trajeto a espera do bambi. No outro dia, o bambi atrasou-se, mas o cágado já estava a sua espera. Na largada, o bambi saiu em vantagem, correndo em desabalada carreira. Em determinado ponto da estrada, parou e olhou para trás a fim de ver se enxergava o companheiro. Porém, um dos cágados que o aguardavam na estrada passou a sua frente, dizendo que, enquanto ele olhava para trás, ele, o cágado já havia passado havia muito tempo. Isso se repetiu várias vezes durante o trajeto, até que, extenuado, o bambi reconheceu que o cágado corria mais que ele, ao que este respondeu:
— Amigo, já sou velho, tenho a escola toda!

Conto angolano