28/07/2011

Tintim por tintim



O rapazinho entrou, à pressa, na biblioteca e pediu:
- Têm livros de cozinha?
O bibliotecário levou-o a uma prateleira, onde havia uma quantidade de livros de receitas ou para fazer doces ou para preparar grandes banquetes ou para cozinhar pratos que não engordem...
O rapazinho folheou uns, folheou outros, mas não se decidia. Pacientemente, o bibliotecário esperou e, de caminho, ia informando:
- Este é de comida regional... Este é só de saladas... Este é de comida japonesa...
Tantos livros de cozinha! Uma pessoa, a lê-los, até pode apanhar uma indigestão.
O rapazinho é que não havia meio de escolher.
- É para um trabalho para a tua escola? - perguntou o bibliotecário.
- Não é, não.
Silêncio entre os dois. E o rapazinho sempre a folhear este e aquele, numa grande indecisão.
Neste ponto, o bibliotecário resolveu ir mais longe:
- Para que queres, então, um livro de cozinha?
Aqui, o rapazinho esclareceu, um pouco embaraçado:
- Queria estrelar um ovo e não sei se hei-de deitar primeiro, na frigideira, o ovo ou a margarina...
O bibliotecário fez um ?Ah" de admiração e aprontou-se a responder:
- Primeiro deitas a margarina e esperas que ela derreta. E cuidado com o bico do gás. Lume brando. Só depois é que deitas o ovo.
- Ah! - foi, agora, a vez de fazer o rapazinho.
Largou os livros de cozinha e já se ia embora, quando o bibliotecário lhe perguntou:
- Não queres, então, levar outro livro? Um livro de histórias, por exemplo?
- Só se for com histórias pequenas - disse o rapazinho.
O bibliotecário emprestou-lhe um livro, onde esta e outras histórias que tais bem podiam estar e a nossa pequena história talvez acabasse aqui.
Não acaba, porque o rapazinho não conseguiu estrelar o ovo, apesar de ter seguido à risca as recomendações do bibliotecário: lume brando, margarina a derreter-se... ovo, no fim.
Mas como o rapazinho deitou o ovo inteiro, com casca e tudo, para dentro da frigideira, o cozinhado não ficou grande coisa.
Em certas ocasiões, tem de se explicar tudo, tintim por tintim.

António Torrado

24/07/2011

O bêbedo e sua mulher



Nem medo nem vergonha contrariam
A natural tendência.
O conto que se segue
Tem, neste caso, a marca da evidência.
Um devoto de Baco arruinava-se
Por causa da goela;
De força andava baldo, e de pecúnia...
Nem sombras na escarcela.
Um dia em que perdera a tramontana
Bebendo a bom beber,
Numa espécie de tumba
Fê-lo a esposa meter.
Quando ele, enfim, saiu da raposeira,
Viu todos os sinais que indicam morte,
A lâmpada, a mortalha... «Ó Deus, que é isto?...
Fiz viúva a consorte?»
Esta, em trajes de Parca disfarçada,
Do marido se abeira:
«Quem és?» – «Eu sou da lúgubre morada
A eterna despenseira.
Dou de comer à farta aos que repouso
No reino escuro têm.»
E o marido a bradar muito aguçoso:
«E que beber, não vem?»


Tradução de E. A. Vidal

O leão e outros animais



Uma ovelha, uma cabra e uma novilha
Trataram c'um leão
Fazer igual partilha
Da caça que apanhassem no sertão.
Um veado caiu
No laço que lhe armou a cabra esperta.
Mandou ela chamar os associados;
Veio o leão, rugiu,
Fez do preso animal quatro bocados,
E disse: «A conta é certa;
Pertence-me o primeiro
Por me chamar leão;
O segundo quinhão,
Por ser forte; o terceiro
Também, por ser valente.
E se alguém tocar no quarto,
Dá-me um banquete mais farto...
Prova-me as garras e o dente!»


Tradução Fernando Leal

21/07/2011

O Corvo e o Jarro


Um corvo que estava sucumbindo com muita sede encontrou um jarro, e, na esperança de achar água, voou até ele com muita alegria.
Quando o alcançou, descobriu para sua tristeza que o jarro continha tão pouca água em seu interior que era impossível tirá-la de dentro.
Ele tentou de tudo para alcançar a água que estava dentro do jarro, mas todo seu esforço foi em vão.
Por último ele pegou tantas pedras quanto podia carregar, e colocou-as uma-a-uma dentro do jarro, até que o nível da água ficasse ao seu alcance e assim salvou sua vida.


Moral: A necessidade é a mãe das invenções.


Fábulas de Esopo


20/07/2011

Lenda dos tripeiros



Naquele dia de mil quatrocentos e quinze, o Sol nascia sobre o rio Douro com uma estranha luminosidade. E nas margens do rio tudo se transformara num arsenal. Arsenal gigante, onde se construíam naus e barcas para uma grande aventura marítima. Aventura rodeada de mistério…

Por isso mesmo, por nada se saber ao certo, os boatos multiplicavam-se, chocavam entre si, tomando por vezes foros de revelações sensacionais. E assim, nessa manhã bonita e estranha, Mestre Vaz e um dos seus ajudantes, o moço Simão, trocavam ideias e palpites, perante a atenção curiosa dos que os rodeavam.
— Pois é como lhes digo, rapazes! Estou certo que tudo isto é para levar a Senhora Infanta Dona Isabel até Inglaterra, onde vai casar…
E Mestre Vaz olhava os circunstantes num ar de desafio, como se ninguém pudesse pôr em dúvida a sua afirmação. Mas enganou-se. Simão, o jovem Simão, não concordava.
— Ora, Mestre Vaz, não diga semelhante coisa… Cá por mim, já sei: esta armada que estamos a construir servirá para conduzir el-rei, o Senhor D. João I, a Jerusalém, a fim de cumprir a promessa de visitar o Santo Sepulcro.
Mestre Vaz sorriu Sorriso alegre, mas irónico.
— A quem o dizes! Eras tu garoto ainda ou nem sequer tinhas nascido quando o nosso rei fez essa promessa, se vencesse Castela…
E enchendo o peito de ar, e olhando profundamente para todos, Mestre Vaz concluiu, alteando a voz:
— E o nosso rei venceu! Vencemos… porque eu também tive a honra de estar lá, ao lado dele!
Um ar de pasmo nasceu e correu por entre os circunstantes. E o próprio Simão perguntou, em tom maravilhado:
— O quê? Mestre Vaz foi também nessa armada?
Sentindo-se confortado com a surpresa que suscitara, Mestre Vaz avançou um pouco para Simão e disse lentamente:
— Sim, jovem Simão... Aqui onde me vês, tenho lutado muito por este mundo de Cristo...
E rindo, voltando-se para os outros, acentuou:
— Todos têm ainda muito que aprender comigo...
Semicerrou os olhos, numa chamada à memória.
— Foi aí há uns… trinta… há uns trinta e tal anos... Comandava-nos o Senhor D. Rui Pereira e também trabalhámos assim desalmadamente… como agora... para conseguir ter a armada pronta a tempo de ajudar el-rei, o Senhor D. João, a vencer Castela... e conseguimos! E vencemos! Nunca mais o poderei esquecer...
Por instantes, pairou o silêncio sobre os homens. Cada um entre aos seus pensamentos. Cada um debruçado sobre si próprio. E foi ainda o jovem Simão quem cortou o silêncio.
— Ora, felizmente, Mestre Vaz, desta vez não vamos para a guerra.
Mestre Vaz olhou-o demoradamente. Intencionalmente. E disse apenas:
— Sabe-se lá, Simão, sabe-se lá...
E logo, vendo o sol a estender-se sobre o rio, deu o grito de alarme:
— Eh rapazes, são horas de começar o trabalho. Vamos a ele!
E todos se atiraram à sua faina, na ânsia de não perder tempo...
Foi só na hora do almoço desse dia que Mestre Vaz e o jovem Simão voltaram a encontrar-se.
— Olha, aí vem a tua mãe, Simão.
— Já a tinha visto, Mestre Vaz... Obrigado. E vem com cara de quem traz novidades.
O outro riu-se.
— Até parece que nem conheces a tua mãe... Nunca se viu a Senhora Joana sem novidades para contar...
E voltaram a rir. Mas a Senhora Joana escutara também as últimas palavras.
— Como? Que dizeis vós? Então não sabeis ainda o que se conta por aí?
— Ora, minha mãe... são rumores com certeza... Esta gente só sabe espalhar rumores.
A Senhora Joana revoltou-se.
— Não são rumores, não senhor...
E aproximou-se, em ar de segredo.
— Disse a Senhora Miquelina, que ouviu à tia do Senhor D. Luís de Almeida, que estava a conversar com aquela senhora que é prima da Senhora Abadessa...
Numa gargalhada espontânea, Mestre Vaz não resistiu a interrompê-la.
— Eh, Senhora Joana, por favor pare lá com essa lenga-lenga e diga o que sabe duma vez!...
Ela parou, para respirar melhor.
— Ah, ele é isso? Pois ficai sabendo que esta armada é para ir a Nápoles com os Senhores Infantes D. Pedro e D. Henrique, que ali vão casar…
E ficou-se à espera da reacção de pasmo dos dois homens. Mas, em vez de pasmo, surgiu a risota.
— O quê, Senhora Joana, logo os dois ao mesmo tempo?
A mulher fitou-os com misericórdia.
— Pois claro! O Senhor D. Pedro vai casar com a rainha viúva da Itáia. E o Senhor D. Henrique...
Foi a vez do jovem Simão gargalhar.
— O quê, minha mãe? Então pensa que o Senhor D. Henrique vai casar?... Oh, mãe, não diga tal coisa!...
Acabou por ser a mulher a mostrar-se surpreendida.
— E... que tem isso de especial?
Mestre Vaz adiantou-se.
— Oiça, Senhora Joana... Já que quer saber a verdade, não é nada do que pensa. Eu já disse ao seu filho...
Mas ela não o deixou terminar. Embalada por uma onda de brio ferido, volveu-lhe, irada:
— E o Mestre Vaz tem a mania que sabe tudo, não é verdade?... Olhe que também se pode enganar...
O outro abanou a cabeça toda branca.
— Com a idade que tenho, Senhora Joana, já não é muito fácil a gente enganar-se...
— Ora, se vamos falar em idades, estamos bem servidos, Mestre Vaz!
O jovem Simão viu-se obrigado a intervir.
— Bem, bem... Não se zanguem... Quando se encontram, ficam empre a caturrar... Vamos ao almoço, que são horas.
A mulher calou-se e começou a dispor as coisas para o almoço. Por seu turno, Mestre Vaz resmungou:
— E é aproveitar, porque temos de comer depressa... Isto ainda vai muito atrasado… e dizem que o Senhor Infante D. Henrique vem cá no domingo...

E, de facto, dessa vez não foi boato...
O infante D. Henrique apareceu inesperadamente no Porto, para ver o andamento dos trabalhos...
O seu olhar arguto passeou lentamente sobre a canseira em curso… Parecia um formigueiro de homens de tronco nu, trabalhando quase sem descanso... Os carpinteiros levantavam no espaço os esqueletos de madeira das naus e das barcas em construção... As serras silvavam… Os martelos batiam... Os machados cortavam... Uma autêntica sinfonia de trabalho, para compor a nova armada!

Deixemos agora o campo real da História, que tem servido de cenário à nossa evocação, e entremos na penumbra da Lenda...
Conta, na verdade, uma tradição já muito velhinha que o infante D. Henrique, apesar de tamanho esforço, entendeu que o esforço tinha de ser maior ainda. E decidiu falar com um dos seus homens de confiança. Precisamente o Mestre Vaz.
Mandou-o chamar. Mestre Vaz apresentou-se sem demora.
— Aqui estou, Senhor Infante... Recebi o vosso recado e vim imediatamente.
O Infante fez-lhe um gesto amigo.
— Muito me satisfazeis com o vosso zelo, Mestre Vaz. Aproximai-vos.
Mestre Vaz deu alguns passos. Lentamente. Hesitante.
— Senhor, é assim tão importante o que tendes para me dizer?
— Mais do que podeis julgar.
E baixando a voz, o Infante rubricou:
— O que tenho para vos dizer... é segredo!
Mestre Vaz ficou perplexo.
— Oh, Senhor Infante... Eu não mereço...
Um breve sorriso desenhou-se no rosto duro de D. Henrique.
— Não tenhais receio... Escolhi-vos, porque vos sei leal e fiel.
E fazendo novo gesto para que ele mais se aproximasse, continuou:
— Todos esses rumores que por aí correm sobre o destino da armada andam longe da verdade!
Mestre Vaz abriu a boca para falar, mas calou-se. O Infante fez-lhe sinal para que se pronunciasse. O velho marinheiro, então, um pouco maliciosamente, confessou:
— Eu tenho calculado isso mesmo, meu Senhor... Pareciam-me boatos só para desviar a atenção.
O rosto do Infante abriu-se em novo sorriso.
— Tal e qual, velho mestre, tal e qual!... Mas vós ides saber a verdade.
Calou-se, como que meditando. E inclinou-se depois para diante, dando uma inflexão mais dramática às palavras.
— Só vós, compreendeis bem?... É necessário que não saia desta sala uma única palavra do que vos vou dizer... Em contrapartida, preciso absolutamente que me ajudeis depois com toda a vossa experiência.
Como se fizesse um juramento solene, o velho marinheiro endireitou-se, e garantiu com voz firme e resoluta:
— Contai comigo inteiramente, Senhor Infante!
— Obrigado!
E devagar, medindo as palavras uma a uma, D. Henrique fez a grande revelação:
— Esta armada que estamos a construir, Mestre Vaz... destina-se à conquista de Ceuta!
Diante dos olhos espantados do velho marinheiro, prosseguiu, já num crescendo de entusiasmo:
— Sim, à conquista de Ceuta! El-rei meu pai consente que partamos!
Depois, ergueu-se ele também e, num ar de profeta, acentuou:
— O meu grande sonho vai finalmente tornar-se realidade, Mestre Vaz... Nós conquistaremos Ceuta!
O velho marinheiro persignou-se.
— Que Deus vos oiça, Senhor Infante D. Henrique, que Deus vos oiça!
Houve uma nova pausa entre ambos. Pausa feita de sonho e de esperança...
O Infante olhou bem de frente para o velho marinheiro de cabelos brancos.
— Agora, mais do que nunca, preciso de vós e de todos os homens experientes e dedicados como vós, Mestre Vaz! É necessário trabalhar ainda mais… fazer sacrifícios ainda maiores... Percebeis o que quero dizer?
Mestre Vaz deu um passo em frente.
— Percebo, sim, Senhor Infante! Quereis que trabalhemos noite e dia, sem cessar... para que a armada esteja pronta a partir numa data certa...
O Infante D. Henrique respirou fundo, antes de responder.
— Isso mesmo, Mestre Vaz!... Eu desejo que a armada esteja pronta a partir dos primeiros dias de Julho. E para tanto, será necessário certamente um esforço enorme, quase sobre-humano.
Mestre Vaz sorriu, mostrando os poucos dentes que lhe restavam.
— Pois faremos esse esforço, Senhor Infante!... Pelo reino, por el-rei e por vós...
A voz cresceu, num alarde de emoção.
— E também pela nossa querida cidade do Porto... Eu vos juro que faremos esse esforço!
O Infante pousou-lhe suavemente as mãos nos ombros.
— Como sabe bem ouvir tais palavras, Mestre Vaz!
Tocado pelo seu próprio entusiasmo interior, o velho marinheiro continuou, como se não o escutasse:
— Digo-vos mais, Senhor Infante, se mo permitis... Faremos agora o mesmo que fizemos há precisamente trinta e um anos, quando daqui abalou a frota comandada por D. Rui Pereira, para ir auxiliar el-rei, vosso Pai e nosso Senhor, contra os inimigos vindos de Castela... Então, nós, Senhor Infante, decidimos dar toda a carne para mantimento e comermos apenas as tripas que iam ficando... Por isso mesmo até passaram a chamar-nos «tripeiros».
E num desabafo:
— Somos «tripeiros», sim, e com muita honra!
De olhos iluminados por estranho fulgor, o Infante D. Henrique também não escondeu a emoção que o caldeava ao escutar tais palavras.
— O que me contais é na verdade extraordinário, Mestre Vaz! Tendes razão... Esse nome de tripeiros, por sacrifício tão nobre e tão alto, é sem dúvida uma verdadeira honra para os homens do Porto. Bem vos podeis orgulhar de serdes tripeiros!
— Pois, Senhor Infante, agora o seremos de novo, para que toda a carne que pudermos arranjar siga também na armada, a caminho da grande vitória de Ceuta!
E no mesmo tom, como eco que repercutisse na própria alma, o Infante D. Henrique afirmou, de olhos em êxtase:
— Dizeis bem, Mestre Vaz!... A caminho da grande vitória Ceuta!

Daí em diante, segundo nos conta a mesma tradição velhinha, Mestre Vaz, embora sem revelar a mínima palavra do segredo que lhe confiara o Infante, não mais se cansou de apregoar a mesma ideia, de grupo em grupo, de homem em homem.
— É o que lhes digo, companheiros! Temos de nos sacrificar de novo para honra do nosso reino e para honra da nossa cidade do Porto! Tal como nos chamaram tripeiros, há trinta anos, poderão agora chamar-nos tripeiros para sempre — porque nós guardaremos esse título com orgulho e com altivez!
E o certo é que as suas palavras foram escutadas e repetidas. Transformaram-se num lema. Numa bandeira de compreensão. Acorreram adesões de todos os lados. Até a Senhora Joana, mãe do moço Simão, apareceu imediatamente a corroborar os desejos do velho marinheiro.
— Comigo, podeis contar desde já, Mestre Vaz!... Daqui em diante, somente comerei tripas e darei toda a carne que arranjar para a armada!
— E tu, Simão?
— Eu? Bem o sabeis, Mestre Vaz… Seja qual for o nosso destino, se o Senhor Infante precisa de nós, nós estaremos sempre com ele!
De olhos marejados de lágrimas, Mestre Vaz limitou-se a gritar, num brado de gratidão para todos os que acorriam ao seu chamamento:
— Viva a gente do Porto! Viva o Povo Tripeiro!

E, tal como narra a própria História de Portugal, mercê do invulgar sacrifício dos heróicos Tripeiros, de facto, no dia 10 de Julho de 1415, fundeava em Lisboa a grande frota do infante D. Henrique, com as suas sete galés e as suas vinte naus, a caminho da conquista de Ceuta...


Gentil Marques
Porto