10/09/2011

O castelo de areia



Era uma praia muito carregada de gente. Toldos e barracas de lona tapavam a vista do mar. Chapéus-de-sol, em cacho, uns sobre os outros, tapavam a vista do céu.
Para que um banhista, mesmo magrinho, conseguisse estender a toalha de banho sobre a areia, tinha de pedir ?Com licença, com licença" aos vizinhos, para que se chegassem um pouco mais para o lado. Então, toda a praia se movia, à esquerda e à direita, como uma onda e as pessoas, sucessivamente, diziam ?Com licença, com licença", a pedirem espaço ao vizinho do lado, até nos dois extremos da praia os últimos banhistas gritarem: ?Não apertem mais!" E estes últimos banhistas acabavam por ter de ficar em pé, de encontro à muralha.
- Quero fazer um castelo de areia - disse o menino, que tinha trazido para a praia um balde novo e uma pá e um ancinho.
- Só quando o teu pai for tomar banho - disse a mãe.
- Para que lado é que é a água? - perguntou o pai.
- Acho que é para ali - apontou a mãe. - Foi donde veio ainda agora aquele senhor, que está a limpar-se.
O pai, para ter a certeza, foi perguntar ao tal senhor:
- O mar estava bom?
- Não sei - respondeu o senhor, que esfregava furiosamente a cabeça com uma toalha. - Não encontrei mar nenhum. Para me refrescar, tive de ir tomar duche a um balneário.
- Se fosse a ti não saía de ao pé de nós - disse a mãe do menino. - Vais e, depois nunca mais nos encontras, no meio de tanta gente.
- Então quando é que eu faço o castelo de areia? - perguntou o menino, já amuado.
- Descansa que eu vou já tomar banho - disse o pai. - Para voltar, oriento-me pela cor do nosso chapéu-de-sol.
- Há milhares de chapéus-de-sol iguais - disse a mãe, mas o marido dela e pai do menino já ia longe.
Ia, todo satisfeito, a caminho do mar, embora só muito mais tarde viesse a descobrir, quando chegou à estrada, que se tinha enganado.
O menino pôs-se a construir o castelo de areia, cheio de entusiasmo. Depois de ter erguido o torreão e a primeira cintura de ameias, lembrou-se de pedir à mãe:
- Quero um gelado.
A mãe escusou-se, explicando-lhe que se ela fosse procurar a barraca dos gelados, ia ser muito difícil depois dar de novo com o sítio onde estavam.
Mas o menino insistiu tanto, que ela acedeu.
No bocado de areia deixado livre pela mãe, o menino acrescentou ao castelo uma segunda cintura de muralhas e um fosso todo à volta. Estava um trabalho perfeito e já com uma certa dimensão.
Passou que tempos.
- Estou cheio de fome - gritou o menino, sem tirar os olhos da sua construção, que já tinha preenchido todo o espaço disponível.
Um par de namorados, que estava estendido ao lado, condoeu-se daquele menino, que se perdera dos pais, e foi procurar o cabo-do-mar, para dar-lhe conta da ocorrência. Os namorados partiram de mão dada, tendo a mãe da rapariga recomendado que não se demorassem.
Pois sim. A verdade é que se demoraram, tanto que a mãe da rapariga, muito enervada, resolveu ir à cata deles, pela praia fora.
A obra crescia a olhos vistos. Era um imponente amuralhado com várias cercas e fossas, torres anexas e trincheiras defensivas, esculpidas com primor pelos dedos hábeis do menino, esquecido de tudo o mais à sua volta.
Preenchia uma importante extensão de terreno, que até parecia impossível que, no aperto de tanta gente, ainda houvesse um quadrado de areia disponível para um menino brincar tão à vontade.
Declinava o sol, quando o pai regressou, tiritando. Logo a seguir apareceu a mãe, com um gelado todo derretido. Abraçaram-se, como se já tivessem perdido a esperança de voltarem a encontrar-se.
- Este dia correu muito mal - concordaram os pais.
Só o menino não era da mesma opinião.

Lenda do Trágico Juramento



Esta lenda leva-nos a Viana do Castelo, e mais precisamente a uma casa apalaçada da Rua da Bandeira. Foi isto em tempos que já lá vão, quando nessa casa vivia uma formosíssima donzela chamada Brites Quesado. Não existia entre Douro e Minho quem a igualasse em beleza e fidalguia. As propostas de casamento vinham de todos os cantos do Reino e mesmo de além fronteiras. Todavia, entre tantos pretendentes, D. Brites distinguiu Lopo da Rocha, moço esbelto de elevada estirpe e belos sentimentos, mas que não gozava da simpatia dos pais da donzela. Estes empenhavam-se, por seu turno, em desposá-la com seu primo João de Alvim.
Tanto D. Lopo como D. João amavam sinceramente a jovem D. Brites, e sofriam com receio do futuro.
Certa tarde, estava ela a bordar no varandim cuja escada dava para o pátio. O seu pensamento andava distante do bordado. De súbito, uma voz máscula soou mesmo a seu lado. Ela teve um gritinho e exclamou:
— Assustastes-me, senhor meu primo!
— Lamento profundamente. Daria metade dos meus troféus para vos dar apenas alegrias.
A jovem sorriu. Um sorriso enigmático. Tão enigmático como a sua frase:
— Senhor D. João... está na vossa mão, creio, cumprir esse desejo...
D. João de Alvim tomou-se circunspecto.
— Senhora minha prima! Se basta a minha presença para vos assustar... como ousarei esperar de vós a felicidade?
Voltou a jovem a sorrir. Murmurou como se fosse para si mesma:
— Felicidade! Ninguém ainda a viu… mas existe, pois que alguns a sentem!
— Por exemplo, vós, não é verdade?
Abriu-se mais o sorriso de D. Brites. Adoçou-se a sua expressão.
— Na verdade, não devo queixar-me da minha sorte.
Tornou-se subitamente dura a expressão de D. João de Alvim. A sua voz tomou reflexos de ironia.
— Não deveis queixar-vos, principalmente desde ontem ao pôr do Sol!
D. Brites mostrou-se surpreendida.
— Que quereis dizer, senhor?
Ele tornou:
— Ontem... ao pôr do Sol... vi e ouvi, senhora minha prima!
Ela tentou gracejar.
— Creio que continuais a ver e ouvir...
D. João enervou-se.
— Mas vi o que não queria e ouvi o suficiente para ficar com a alma em noite escura.
— Sim? E o que ouvistes?
— Lopo da Rocha, que vos surpreendeu neste mesmo lugar sem que vos assustasses.
D. Brites ficou subitamente séria. Olhou o primo de frente, interrogando-o com dignidade ofendida:
— Desde quando o senhor meu primo aprendeu a escutar às portas?
Sem se mostrar ofendido, D. João de Alvim replicou:
— Desde que os meus olhos tiveram a desgraça de pousar nos vossos!
A jovem não mostrou surpresa por essa afirmação. Perguntou, altiva:
— E que pretendeis de mim?
D. João tornou, também numa atitude de dignidade:
— Senhora, sou vosso primo! E vossos pais dão-me a honra de me confiarem o seu maior tesouro...
D. Brites interrompeu-o:
— Porém... o tesouro de que falais já não lhes pertence inteiramente. Dei o meu coração!
O fidalgo enervou-se. Alteou a voz.
— Persistis nessa loucura?
Serenamente, a jovem declarou:
— Se loucura é amar um moço fidalgo que por sua grandeza de alma sonha conquistar o meu coração, declaro-vos que amo essa loucura!
D. João empalideceu. Inclinou-se numa vénia para esconder todo o desespero que o dominava e declarou convicto:
— Pois bem, senhora! Retiro-me por agora... mas não desistirei! D. Brites estendeu-lhe a mão que ele mal tocou.
— D. João! Quero recordar-vos que sou das que têm um só parecer. E um único amor! Retirai-vos, pois, na certeza de que amarei apenas a D. Lopo!
Levantou-se e, com uma vénia, entrou no salão onde o crepúsculo marcara audiência.
D. João de Alvim, pálido, trémulo de desespero, ficou ainda algum tempo no varandim. Depois, afastou-se a passos largos.

Alguns meses passaram. A fidalguinha via muitas vezes o eleito do seu coração. Porém, apenas podia trocar com ele, além de apaixonados olhares, uma ou outra missiva, porque seu primo João de Alviin, com o acordo dos pais de D. Brites, parecia sentinela vigilante.
Chegou o dia dos anos da jovem. No palacete foi oferecida uma linda festa. Vieram fidalgos de todo o reino. Havia música, flores e alegria por toda a parte. E entre os fidalgos convidados, com grande surpresa da jovem fidalga, surgiu também Lopo da Rocha. Era bem visto e estimado entre os maiores e seria notada a sua falta.
D. Lopo estava na festa. Mas D. João e os pais de D. Brites conseguiam tê-la sempre isolada do jovem fidalgo a quem ela tanto queria. Somente já no fim do sarau e nos alvores do dia seguinte D. Lopo da Rocha conseguiu encontrar-se com D. Brites num recanto do salão, junto ao varandim que dava para o pátio. Tomou-lhe uma das mãos, que beijou com ternura. A sua voz soou repassada de emoção:
— Meu amor! Julguei sonhar toda esta noite! Fitai uma vez mais os vossos olhos nos meus! Tal como o nadador que antes de mergulhar enche os pulmões de ar puro, assim eu pretendo armazenar no coração o olhar da mulher a quem tanto amo!
Enleada, D. Brites corou de felicidade.
— Meu bem-amado! Falais com tanto ardor, tanto carinho!... Que mais posso eu dizer-vos do que isto: levais convosco a minha alma inteira! Viva ou morta pertencer-vos-ei para sempre!
— Jurais?
Ela olhou-o perplexa. Como se tivesse pressa da resposta, ele insistiu:
— Jurais que cumprireis o que me dissestes?
Ainda surpreendida pelo tom de voz e pela palidez repentina do rosto do seu bem-amado, ela afirmou:
— Juro, meu amor! Viva ou morta, serei sempre vossa. Seguirei sempre a vossa sorte no mundo e na Eternidade. Porém, dizei-me: porque empalidecestes?
Ele suspirou:
— Senhora! Não sei que estranho pressentimento me assalta! Mas agora estou mais sossegado.
Olhava-a com tanta intensidade que ela baixou o olhar. Mas o jovem insistiu:
— Não… não escondais os vossos olhos bonitos sob as pálpebras! Quero ver o brilho do vosso olhar a projectar-se no meu. Assim… assim mesmo... Levo-vos na alma!... Adeus, meu anjo!... Hei-de amar-vos mesmo para além da minha morte!
Beijou-lhe uma das mãos, mais uma vez, com ternura. Depois saiu do salão, desceu a escadaria que levava ao pátio, e preparava-se para se afastar quando esbarrou com um embuçado. O desconhecido gritou-lhe:
— Cautela, vilão!
Pela voz, D. Lopo reconheceu o embuçado. E sem dar mostras de surpresa ripostou-lhe:
— Enganais-vos, senhor D. João de Alvim! Vilão sois vós, que injuriais quem vos não ofendeu!
D. João descobriu-se. Replicou colérico:
— São vilões os que fazem vilanias requestando fidalgas ricas às escondidas de seus pais!
Cerrando os dentes, D. Lopo perguntou:
— É uma provocação, o que procurais?
— Não! É uma vingança!
E sem dar tempo a que D. Lopo se pusesse em guarda, D. João desferiu uma estocada ao peito do seu rival.
Nesse mesmo instante, D. Brites, que assistira à cena, gritou no auge do desespero:
— Lopo! Defendei-vos, senão morrereis!
Com uma das mãos na espada, outra no peito donde o sangue corria, D. Lopo tentou falar.
— Brites... afastai-vos, meu anjo!
D. João gracejou:
— Na verdade chegais tarde, minha prima, pois já matei o vosso bem-amado!
Num assomo de energia, D. Lopo ergueu a espada. E vibrando um golpe certeiro no rival rouquejou:
— Mais uma vez vos enganastes, senhor D. João! Como vedes, ainda não morri!
Com o supremo esforço que fizera, D. Lopo não resistiu. Caiu prostrado, junto do corpo do seu rival.
D. Brites soltou um grito estridente. Depois, chorando, suplicava, ajoelhada junto de D. Lopo:
— Meu amor! Vivei! Vivei só para mim!
Porém, D. Lopo já não a ouvia neste mundo. Do salão começou a correr gente. Ante o quadro macabro que se lhes oferecia, as senhoras desmaiavam, e os homens rodeavam os cadáveres dos dois jovens fidalgos, tentando levá-los dali. Debruçada sobre um deles, a jovem Brites não consentia que a separassem do seu bem-amado. Gritava, dizia incoerências... Chorava como uma criança, ou ficava-se como fera pronta a saltar sobre o caçador que lhe põe em perigo a cria. Compreenderam então que a jovem fidalga havia enlouquecido. Só com muito esforço conseguiram arrancá-la do pátio. A sua loucura era das que não mais encontram alívio. Desfazia-se em choros, em lamentos, e repetia a jura mil vezes jurada:
— Viva ou morta serei sempre vossa! E seguirei sempre a vossa sorte no mundo e na Eternidade!

Pouco tempo durou a que fora a formosa D. Brites. Morreu cansada de sofrer, de se lamentar... E conta a lenda velhinha que a alma de D. Brites continua a errar por ali, altas horas da noite, naquela casa apalaçada da rua da Bandeira, em Viana do Castelo.


Gentil Marques
Viana do Castelo

08/09/2011

A horta do Esteves



Dois coelhos do mato miravam, a uma respeitável distância, a horta do senhor Esteves.
- Que lindeza de couves! E as alfaces tão apetitosas... - dizia o coelho mais novo.
- Mas não te chegues - aconselhava-o o coelho mais velho. - O Esteves, se te apanha a roer-lhe alguma couve, não te perdoa.
- Uma folha só, que mal faz? - dizia o mais novo.
E ia-se chegando para a horta.
- Eu aviso-te. O Esteves não é para brincadeiras - gritava-lhe, já de longe, o coelho mais velho. - Quando era da tua idade, também me tentei e ainda guardo, de recordação, um chumbo na perna.
Mas o coelho mais novo já não o ouviu.
O mais velho, a internar-se no mato e a ouvir um estampido.
- A espingarda do Esteves - exclamou e fugiu a sete pés, embora não fosse nada com ele.
Não correu muito, porque o chumbinho antigo ainda se fazia sentir. Alapado num brejo, esperou.
O amigo ter-se-ia escapulido? Ou já estaria a ser esfolado, para, daí a pouco, entrar na panela, onde a cebola e o azeite faziam fe, fe, fe, na cantoria do refogado? Vida espinhosa a dos coelhos do mato, sobretudo a dos que não seguem os conselhos dos mais sabedores.
Nisto pensava o coelho velho, quando ouviu um gemido por perto. Era o aventureiro, que até ali se arrastara, a esvair-se em sangue.
- Quando fores da minha idade, também vais ter para contar aos mais novos - dizia-lhe o velho companheiro, enquanto com ervas frescas lhe estancava as feridas.
O coelhinho dava-se ao tratamento e só respondia com um ai, de quando em vez.
- Ao menos diz-me: as alfaces eram tão tenras como parecem? - perguntou o mais velho, a fingir indiferença.
- Mal provei - suspirou o coelhinho
- O que a nós nos vale é que o Esteves continua sem pontaria, senão nem sobrava um coelho que avisasse os mais novos - concluiu o velho coelho e concluiu muito bem.


06/09/2011

Tang, o caçador



Meu primo Zhong Han era juiz no condado de Jin. Nessa época, um tigre tinha matado vários caçadores na região e ninguém conseguia pegá-lo. As pessoas foram então procurar meu tio para que ele contratasse Tang, o caçador, para prender esse tigre, achando que ninguém mais seria capaz de fazer esse serviço.
De acordo com Daí Dongyuan, de Xiuning, a história desses Tang vinha desde a Dinastia Ming, quando existiu um caçador chamado Tang, que foi morto por um tigre logo depois de se casar. Sua mulher, grávida, deu à luz um menino e fez uma promessa:
“Se não conseguir matar tigre, nunca vai ser meu filho e todos os seus filhos e filhos de seus filhos que não conseguirem, também não serão meus descendentes”.
Devido a isso, todos os Tang, do sexo masculino, são especialistas em matar tigres.
Zhong Han sabia disso e enviou então alguém para chamar um Tang, separando uma boa quantia de dinheiro para pagá-lo depois do serviço feito.
Na sua volta, esses homens disseram que eles tinham contratado os melhores dos Tang e que eles chegariam a qualquer momento. Chegaram, mas era um era um velho com a barba e o cabelo brancos, que tossia e fungava a cada instante e um ajudante de 16 anos.
O juiz ficou muito desapontado com o que viu. Mas ordenou que a primeira coisa a ser feita era alimentar esses homens. Percebendo que o juiz parecia desapontado, o velho ajoelhou com um só joelho e disse:
“Estou ouvindo esse tigre por perto, no máximo a 5 li* do povoado. Melhor a gente ir logo. A gente pega o tigre e depois come alguma coisa”.
O juiz mandou então que um de seus homens servisse de guia e eles partiram.
Chegancdo na boca de uma ravina, os homens não seguiram adiante.Maso velho sorriu:
“Comigo aqui, como podem estar com medo?”
Quando eles já tinham quase descido o barranco, o velho olhou para o rapaz e disse:
“Parece que esse tigre está dormindo. Vai lá e dá um jeito dele acordar”.
O rapaz então urrou como um tigre e num instante o tigre veio de entre as árvores na direcção deles e pulou sobre o velho. O velho permaneceu firme, levantando um pequeno machado, de oito cun** de cumprimento e quatro de largura. Quando o tigre estava para esmagá-lo, ele afastou-se de lado, e tigre pulou, caindo no chão todo ensanguentado. As pessoas reuniram-se em volta e descobriram que o tigre tinha sido cortado do queixo até a ponta do rabo, ao tocar no machado.
O juiz então recompensou com generosidade os caçadores Tang, agradecendo-os por sua ajuda.
O velho contou então que que tinha treinado seus braços e olhos por mais de dez anos. Ele conseguia encarar um tigre sem piscar, mesmo quando seus olhos estavam com um cisco. E os seus braços eram tão fortes que mesmo o homem mais forte não conseguia movê-los um centímetro.
Zhuangzi, o antigo filósofo chinês, disse uma vez:
“O que é feito com prática é sempre convincente. Uma pessoa que nasce hábil nunca pode ultrapassar quem pratica constantemente”
Isso deve ser verdade. Um homem chamado Shi Sibiao podia escrever no escuro de uma forma tão perfeita como se estivesse usando uma luz de vela. Eu ouvi falar também de Sua Excelência, Li Wnke (1628-1703), de Jing Hai, que separava 100 pedaços de papel e escrevia um carácter em cada um. Punha todos em pilha contra a luz e os 100 caracteres ficavam exactamente um em cima do outro, formando um único carácter, e isso não é mágica.

*1 li = ½ quilómetro
**1 cun = 3,3 centímetros

28/08/2011

Um peixe na sala



- Não gosto nada que olhem para mim - dizia o peixinho vermelho com riscas azuis, que morava no aquário.
Era um grande globo de vidro, enfeitado com algas, umas verdadeiras, outras a fingir, e estava, em lugar de destaque, na sala da tia Elisa.
Quem ia fazer uma visita à tia Elisa dava sempre uma mirada ao peixinho, que revolteava na água, muito enervado.
- Detesto que me observem - dizia o peixe. - Se as pessoas vivessem em aquários também não gostavam que andassem a espreitar para dentro das casas delas.
E o peixinho tentava esconder-se por trás de umas algas, mas sem nenhum êxito. Ou sobrava cauda ou sobrava cabeça.
A tia Elisa, que era uma simpática velhinha, cuidava dele com todo o desvelo. O peixe conhecia-a bem e agradava-se das suas atenções. Era, aliás, a única pessoa que ele tolerava.
Mas a tia Elisa adoeceu. Doença grave. Vieram os médicos, parentes e amigos, que passaram a falar em voz baixa na sala de visitas, com ar muito preocupado. A única coisa que lhes atenuava a preocupação era o peixinho vermelho com riscas azuis, revolteando, alegre e indiferente, no meio do seu globo de vidro. Alegre e indiferente, julgavam eles, porque o peixinho não parava de queixar-se:
- Embirro que olhem para mim. Esta gente toda não tem mais nada que fazer senão postar-se, de olhos arregalados, diante do meu aquário?
Uma dessas pessoas, que distraidamente observava o peixe, teve o seguinte desabafo:
- Não sei quem vai cuidar do peixe, quando a tia Elisa desaparecer.
Para o peixe, a tia Elisa há muito que tinha desaparecido. Desde que adoecera. Quem lhe polvilhava a superfície da água com a ração diária de comida era uma empregada, mas sem as gentilezas da tia Elisa. O peixe sentia a diferença.
Até que, um dia, a tia Elisa morreu. Ficou a sala que tempos sem visitas, de cortinas descidas, portadas cerradas. Mas o peixe sentiu-se mais aliviado.
Entretanto, vieram os sobrinhos para desfazer a casa.
- Quem quer ficar com o peixe do aquário? - perguntou um deles.
Nenhum queria.
- Deita-se o peixe para o tanque do quintal - decidiu um e os outros concordaram.
O peixinho vermelho com riscas azuis foi parar a um tanque de águas profundas. Podia nadar à vontade, pelo meio das sombras e dos lodos, que já ninguém o via.
Foi então e só então que o peixe vermelho começou a sentir saudades do tempo em que todos olhavam para ele.

António Torrado

24/08/2011

O leão que vai à guerra



Tendo o leão na ideia certa empresa,
Fez conselho de guerra;
E a todos animais mandou aviso
Por seus régios alcaides.
Cada um, por seu teor, entrou no alvitre:
Às costas o elefante
Levar quantos petrechos importasse,
E pelejar, como usa;
Para os assaltos, o urso, aparelhar-se;
Engenhar-se o raposo
A ter inteligências no inimigo,
E diverti-lo o mono
Com suas mogigangas. Alguém disse
Que despedidos fossem,
Por boto o burro, e por medrosa a lebre.
«Oh, não! – disse o monarca –
Quero empregá-los: nem completo fora
Sem eles nosso exército.
De trombeta, que espante, sirva o burro;
E a lebre de correio.»
Do mais ténue vassalo o rei prudente
Tirar proveito sabe:
Todo o talento emprega; nada é inútil,
Onde o bom senso lavra.


tradução de Filinto Elísio

19/08/2011

O cão, o galo e a raposa



Um Cachorro e um Galo que viajavam juntos, resolveram se abrigar da noite, em uma árvore. O Galo se acomodou num galho no alto, enquanto o cão deitou-se num oco, na base do tronco da mesma. Quando amanheceu, o Galo, como de costume, cantou ao despertar.
Uma Raposa, que procurava comida ali perto, ao escutar o canto, se aproximou da árvore, e foi logo dizendo o quanto lhe agradaria conhecer de perto, o dono de tão extraordinária voz.
"Se você me permitir", ela disse, "Ficarei muito grato de passar o dia em sua companhia, apreciando sua voz."
O Galo então disse: "Senhor, por favor, dê a volta na árvore, e peça para meu porteiro lhe abrir a porta, pois eu o receberei de bom grado."
xxxx
Quando a Raposa se aproximou da árvore, o Cachorro a atacou afugentando-a para longe.
Autor: Esopo

Moral da História:
Quem age de má fé, cedo ou tarde acaba por cair na própria armadilha.


Fábulas de Esopo

Lenda do testemunho de Amor

Bensafrim é povoação muito antiga. Tão antiga que se perde na ronda do tempo. As suas tradições andam de boca em boca entre os mais velhos do lugar. E como a lenda é o fio doirado que tece a teia do maravilhoso, Bensafrim não podia fugir à regra. Vamos contar uma das lendas oriundas de Bensafrim.

Há muitos anos existia um rei jovem e belo. Tinha vindo de um povo que descera do norte e conquistara aquelas terras. Como ainda não casara, pensou em escolher mulher entre as jovens mais belas do país que viera governar. Porém, era muito exigente, pois receava que uma mulher vinda de um povo conquistado pudesse um dia atraiçoá-lo. Assim, imaginou para aquela que ele escolhesse o maior testemunho de amor que uma mulher pudesse dar. Enviou emissários por todo o reino para lhe trazer a mais bela das jovens encontradas. E no dia fixado uma fila imensa de jovens desfilou perante o seu senhor, sem que este parecesse entusiasmado. De súbito, o rei estendeu um braço e disse para um dos seus validos:
— Repara! Aquela jovem, além, junto à pedra da fonte!
O interpelado olhou. Franziu as sobrancelhas.
— Senhor, indicas-me aquela de cabelo tão loiro como as espigas?
— Essa mesma. É muito bela e recorda-me as mulheres do meu país.
O outro mostrou-se embaraçado.
— Senhor, ela é belíssima, decerto. Mas essa não a escolhemos, porque o pai foi dos que mais nos combateram, morrendo durante a luta. Não merece confiança!
O rei teve um suspiro de contrariedade.
— Pois é pena! Por essa é que o meu coração vibrou.
— Esquece-a, Senhor! Nem para simples prazer te pode servir, pois, como te disse, é perigosa!
O rei encolheu os ombros.
— Ora! Saberei dominá-la. Escolhe quatro ou cinco destas mulheres. Manda as outras embora. As escolhidas, dá-lhes prendas e ordena-lhes que se conservem no acampamento até amanhã. Quanto à loira, cor de espiga... diz-lhe que venha falar-me.
Embora atónito com a decisão do rei, o valido não teve outro remédio senão cumprir as ordens recebidas.

Devagar, a jovem entrou na tenda ricamente adornada.
— Senhor, mandaste-me chamar?
O jovem rei olhou-a sorrindo.
— Mandei. Aproxima-te.
A jovem obedeceu. Ele tornou:
— Tens família?
— Não, meu senhor.
— Desde quando vives só?
— Desde que pensaste conquistar a nossa terra.
— Teus pais morreram?
— Sim.
— Odeias-me, decerto!
— Sinto-me envergonhada por não ser assim!
— Tens vergonha, porquê?
— Porque devia odiar-te. Meu pai combateu-te até ao seu último alento. E eu devia fazer o mesmo.
— Porque não fazes?
— Porque perdi a coragem.
— Quando?
— Quando te vi.
— Porquê?
Ela olhou-o sem responder. Ele animou-a:
— Vamos, sê sincera comigo!
— Nunca menti!
— Nunca?
— Nunca, Senhor!
— Então, diz-me porque não me odeias?
— Porque... quando entraste nesta terra à frente dos teus homens... vi-te tão jovem… tão belo… tão forte e decidido que...
Ela calou-se. Ele sorriu abertamente.
— Vamos, continua!
Ela baixou os olhos.
— Senhor... Eu nunca vira um homem como tu!
— E daí?
— Tive pena de que não fosses dos nossos!
— Sou o teu rei. Portanto, tu és agora uma das minhas súbditas!
— Bem o sei. E se me chamaste porque tenho andado fugida, acredita que é do meu povo que fujo!
— Do teu povo?
— Sim. Sinto-me, como te disse, envergonhada de mim mesma. Serei incapaz de odiar-te, mesmo que me tirasses a vida!
O rei exultou.
— Eis uma esplêndida confissão! Diz-me: como te chamas?
— Griselda.
— Um nome estranho, como estranha é a tua beleza.
Pegou-lhe numa das mãos, que estavam frias e húmidas. Perguntou, adoçando a voz:
— Serás capaz de amar-me?
Com a maior sinceridade, a jovem respondeu:
— Já te amo, Senhor!
Ele riu.
— Óptimo! E gostarias de ser minha mulher?
Ela abriu os seus lindos olhos.
— Casar contigo, eu? Mas... sou pobre e sem família!
— Isso não me incomoda. Responde apenas: gostarias ou não de ser minha mulher?
— Sim! Seria a realização de um maravilhoso sonho!
— Pois casarás comigo, se te sujeitares a uma condição.
— Qual?
— Terás de obedecer-me cegamente em tudo quanto te pedir. Será esse o teu testemunho de amor.
Griselda sorriu, comentando:
— Senhor, é fácil obedecer a quem amamos.
— Conforme!
Ela meneou a cabeça.
— Não creio que isso me custe. A tua vontade será sempre a minha, pois já te amo desde que te vi entrar como triunfador.
— Que fazias junto à fonte?
— Queria ver-te. Sempre que posso, observo-te.
Ele riu. Depois chamou o seu valido e declarou-lhe, solene:
— Já encontrei a esposa que procurava. Podes tu escolher entre as cinco que foram eleitas. Mas chama toda a corte. Quero que oiçam a jura que Griselda vai prestar antes das nossas bodas.
O outro perguntou, curioso:
— Que jura, senhor?
— A de obedecer-me cegamente de hoje em diante. Será o maior testemunho de amor!
— E como saberás que será esse o maior testemunho de amor?
— O tempo falará por mim!
E resoluto:
— Vai... Espalha aos quatro ventos que o teu rei já arranjou esposa!
As bodas celebraram-se com a maior pompa. Ricamente vestida, Griselda era, sem dúvida, a mais bela jovem de léguas em redor. O régio par sentia-se feliz e a sua alegria transbordava para os que de perto com eles conviviam.

Um ano passou. Griselda adorava de tal modo o esposo que lhe perdoava qualquer modo mais brusco ou acedia sem protesto a assistir ao julgamento de algum conterrâneo mais rebelde.
Griselda andava radiante e o rei também. Esperavam um herdeiro. Os homens da corte diziam em voz baixa:
— Oxalá traga o sangue do nosso rei!
Nasceu um rapaz. Loiro como as espigas de trigo, olhos verdes, cor do mar. Griselda apertava-o ao peito, louca de alegria. Também lhe pareceu ver emocionado o rosto do seu amado esposo ao contemplar o seu menino. E sentiu mais quente o beijo que ele lhe deu. Passados oito dias, porém, Griselda viu entrar nos seus aposentos o rei seu esposo acompanhado de três dos seus conselheiros. Sem saber porquê, o seu coração bateu forte. Afrouxou o sorriso nos seus lábios. Estreitou o filho nos braços e ficou muda, olhando o seu senhor. E eis que ele a chamou com a voz solene dos grandes momentos:
— Griselda! Estás recordada do teu juramento?
Tremendo, ela declarou:
— Sim, meu senhor!
— Pois bem: sinto dizer-te que terei de matar o menino nascido de ti, porque um rei só pode ter descendência de sangue puro!
Griselda arregalou os olhos de pavor.
— Que dizeis? Vais matar o teu filho?
— Que é teu, também!
— Mas... porque casaste comigo?
— Porque juraste obedecer-me cegamente.
— Assim foi!
— Então, dá-me o menino!
Griselda abraçou o filho. Depois olhou o esposo. Baixou o olhar. Lágrimas silenciosas inundaram o seu rosto. O rei ordenou aos seus:
— Levem-no!
Griselda deixou que o filho lhe fosse arrebatado. Não teve um queixume. Fechou os olhos. Dir-se-ia à parte do mundo!
Sem dizer mais palavra, o rei deixou os aposentos da mulher. E durante meses não mais lhe apareceu.

Outro ano decorreu. Griselda parecia um fantasma vagueando pelo palácio. Um dia, inesperadamente, o rei veio visitá-la. E perguntou-lhe:
— Griselda, ainda me amas?
Com voz dolorida, ela confessou:
— Sim, meu senhor… embora devesse odiar-te!
— Pois bem. Se me amas, vais compreender a minha situação.
— Que situação, Senhor?
— O povo quer um herdeiro, mas de sangue puro.
— Já o calculava!
E eu peço-te que te retires do palácio e vás habitar novamente a tua casa de solteira, pois breve chegará do meu país a noiva que me destinaram. Ficarás com o suficiente para viveres.
Com o coração despedaçado, ela apenas disse:
— Jurei obedecer-te cegamente... e obedeço-te! Mas… porque não preferes tirar-me a vida?
— Porque deves viver para continuares a amar-me!
Griselda levou uma das mãos ao peito.
— Senhor, creio que não será por muito tempo. Mas enquanto o meu coração bater, só por ti baterá!
E sem querer ouvir mais foi arranjar as roupas que havia trazido de solteira, e saiu do palácio sem que alguém se opusesse à sua partida.

Mais outro ano passou. Griselda era visitada com frequência por um conselheiro do rei, a saber da sua saúde. Triste, mas sem um lamento, a esposa do rei sorria, afável, e tinha sempre a mesma resposta:
— Dizei ao meu senhor que estarei bem enquanto puder fazer a sua vontade.
O conselheiro abanou a cabeça, condoído.
— Senhora! Não sei se vos é possível ir mais além...
Ela pareceu assustada.
— Mais? Que pode o rei desejar de mim?
— Que consentis em ir assistir às suas novas bodas, pois acaba de chegar a esposa que ele esperava.
Griselda fez-se horrivelmente pálida. Para não cair, encostou-se à mesa da sua pobre casa. E respondeu, baixando o olhar:
— Enquanto tiver vida hei-de obedecer sempre, sem queixumes, aos desejos do meu rei!
— Viremos buscar-te.
— Quando?
— Dentro de alguns dias.
— Espero que ainda me encontrareis com a vida!
Saiu o conselheiro do rei. Só então Griselda se deixou cair sobre um banco, cabeça entre as mãos, sem lágrimas já para chorar!

Amparada pelas damas, Griselda deixou-se vestir com as maiores galas. Uma das damas perguntou:
— Senhora! Não sentis curiosidade em saber porque vos vestimos assim?
Ela sorriu. A sua voz era fraca.
— O vosso rei e senhor não deseja que a sua nova esposa me encontre mal trajada!
Sorriram as damas, entreolhando-se. Uma delas arriscou:
— Admiro-vos! Como podeis suportar tanto?
Cada vez mais fraca, Griselda respondeu:
— Se suporto... é porque posso aguentar. De outra forma já teria feito companhia ao meu adorado filho!
— Mas vós consentistes...
— Perdoa... se não falo mais em tal assunto... Mas não devo… nem posso...
Tremia Griselda, ainda admiravelmente bela, embora magra e pálida como defunta.
Soaram trombetas. As damas sorriram.
— Vamos! Preparai-vos para tudo!
A outra dama recomendou:
— Cuidado! Não faleis demais!
Griselda aceitou os braços que lhe ofereciam, mas caminhou com firmeza. Algo de estranho fazia-lhe bater mais forte o coração. Uma das damas censurou:
— Senhora, caminhais com tanta energia que vais cansar-te!
Ela ainda encontrou forças para sorrir e dizer:
— Vou ao encontro do nosso rei!
O salão esplendidamente decorado estava cheio. No trono, o rei. Vaga, a cadeira da rainha. Quando Griselda entrou, toda a corte se manifestou com respeito e alegria. O rei veio buscá-la. Olhou-a nos olhos profundamente. Beijou-lhe uma das mãos e disse alto:
— Senhoras e senhores! Eis a vossa rainha, a quem fiz passar pelas mais duras provas! Em público quero pedir-lhe perdão pelo que a fiz sofrer e regozijar-me pelo grande testemunho de amor que me deu a mulher que eu amo e que escolhi para minha esposa!
Não disse mais o rei. Griselda desmaiara de comoção!
Foi um burburinho. Vieram físicos para a reanimarem. Lentamente, a rainha voltou a si. Abriu os olhos. Viu o seu senhor, as damas da corte, os conselheiros do rei, mas os seus olhos procuravam mais. Algo mais que ali não via. E aos seus lábios subiam perguntas ansiosas, mas que não queria formular, não fossem elas desgostar o rei. Por fim, foi o próprio monarca quem falou.
— Griselda, sei o que procuras! Sei o que busca o teu olhar ansioso. Já mandei buscar o nosso filho! Ele vive! Vive, e é lindo e bom como tu!
Griselda fechou os olhos. Lágrimas límpidas correram pelo seu rosto emagrecido. Apertou a mão do esposo e murmurou:
— Senhor, mostra-me o meu filho!... Depois... poderei morrer!
O rei ciciou:
— Não morrerás! Os físicos vão curar-te! Quero-te a meu lado por muitos anos! E quero dar-te em alegrias o que te dei em sofrimento!
Uma aia entrou no aposento onde estava a rainha. Trazia ao colo um lindo menino. Griselda abriu os olhos, estendeu os braços e murmurou:
— Meu adorado filho!
Os braços descaíram de novo. A cabeça descaiu também. Desmaiara uma vez mais. Aflitos, os físicos acorreram. O rei perguntou:
— É grave o que tem a rainha?
Um dos físicos olhou o rei.
— Senhor, não sei se poderá resistir. Foste grande, tanto no tirar como no dar!
O rei abriu os olhos num espanto.
— Não quero que ela morra! Eu amo-a, podem crer!
Fez-se silêncio a seu lado. Mas, lá fora, o vento veio bater ao de leve na janela da câmara de Griselda, como um convite a segui-lo na liberdade do espaço...


Gentil Marques
Faro

17/08/2011

O dragão das nove e trinta



Leva uma rica vida o dragão da minha história. É verde, como dizem que são os dragões, tem escamas que o cobrem de cima a baixo e uma espinha eriçada em dentes de serra, do pescoço ao rabo. Como se vê, é um dragão vulgar.
Agora imaginem-no, como eu imagino, carregado de meninos. Imaginar não custa nada.
Nestes dias de Verão, por volta das nove e trinta, passa pela minha rua, deitando muito fumo pelas ventas, o dragão de que vos falo.
Pára nas paragens dos autocarros e para ele sobem os meninos em férias. Quando estão todos instalados, o dragão buzina alegremente e põe-se a andar. Não sabiam que os dragões buzinavam? Pois buzinam, mas só quando estão bem-dispostos.
Com o seu carregamento de meninos, o dragão toma o caminho da praia. Corre ao lado do comboio, que também leva o mesmo sentido, e quase sempre chega primeiro.
Na praia, assim que o último menino salta para a areia, o dragão mete-se dentro de água, faz-se pequenino e transforma-se num hipocampo, isto é, num cavalo-marinho, para poder nadar sem chamar a atenção. Perder a banhoca é que nunca!
Ao fim da tarde, volta a crescer e a apresentar-se como um dragão aprumado e responsável, que nunca se esquece de que tem de trazer os meninos de volta para casa.
À noite, trabalha na Feira Popular. Como tem uma bocarra lança-chamas, ocupa-se a assar frangos ou sardinhas. E, sempre que pode, vai dar uma voltinha no carrossel. Rica vida!


António Torrado


13/08/2011

O cão e o seu reflexo



Um cão estava se sentindo muito orgulhoso de si mesmo. Achara um enorme pedaço de carne e a levava na boca, pretendendo devorá-lo em paz em algum lugar.
Ele chegou a um curso d´áqua e começou a cruzar a estreita ponte que o levava para o outro lado. De repente, parou e olhou para baixo. Na superfície da água, viu seu próprio reflexo brilhando.
O cão não se deu conta que estava olhando para si mesmo. Julgou estar vendo outro cão com um pedaço de carne na boca.
Opa! Aquele pedaço de carne é maior que o meu, pensou ele. Vou pegá-lo e correr.
Dito e feito. Largou seu pedaço de carne para pegar o que estava na boca do outro cão. Naturalmente, seu pedaço caiu n`água e foi parar bem no fundo, deixando-o sem nada.

Moral: Quem tudo quer tudo perde.


Fábulas de Esopo

12/08/2011

O sapo e o rato


Um rato do campo criou fortes laços de amizade com uma rã. Esta teve a infeliz ideia de atar a pata do rato à sua. E foram juntos pelos campos para arranjar alimento. Quando chegaram à beira de um açude, a rã arrastou o rato para o fundo, lançando-se na água com espalhafato. O pobre do rato, de tanto beber água, morreu. Como seu cadáver flutuasse, amarrado que estava à pata da rã, um milhafre veio e o levou em suas garras. A rã foi forçada a ir com ele e terminou também na pança do milhafre.

Moral: A tua vítima, mesmo morta, pode ainda punir-e; a justiça divina tudo vigia e, com o olho na balança, dá a cada um o que merece.


Fábulas de Esopo

11/08/2011

O dedo do ladrão





Conta-se que na madrugada do dia 11 de Agosto de 1908, na Capela do Parque da Nossa Senhora de La Salete, em Oliveira de Azeméis, o guarda da capela estava dentro a dormir. Em determinada altura, um ladrão entrou e, não se apercebendo da presença do guarda, dirige-se ao altar onde estava a imagem da Nossa Senhora de La Salete, em busca do anel sagrado. O ladrão, como não conseguia tirar o anel, partiu o dedo à santa.
De repente, o guarda da capela acordou e, ao ver o ladrão no interior da capela, não hesitou e disparou um tiro de caçadeira, tendo acertado no mesmo dedo do homem que havia sido partido à santa.
O ladrão fugiu e o dedo ficou caído no chão, tendo sido depois guardado num frasco. Ainda hoje lá está para quem o quiser ver.

Oliveira de Azemeis


10/08/2011

A Faia e a Cananoura



A Faia alta e direita não queria dobrar-se ao vento, antes vendo a Cananoura que se meneava facilmente, a aconselhava que estivesse tesa, sem dobrar-se. Respondeu a Cananoura:
- Tu podes resistir e eu não, que não tenho raízes compridas, nem sou forte como tu és.
Dizendo isto, veio um pé de vento com braveza, que arrancou a Faia com raízes e tudo; mas a Cananoura, que se dobrou, ficou em pé.


Fábulas de Esopo
(Século VI a.c.)

08/08/2011

Onde vamos passar as férias


O macaco, o beija-flor e o grilo eram amigos, muito amigos, mas nem sempre se entendiam. Acontece...
Uma vez, decidiram passar férias juntos.
- Vamos escolher o sítio mais lindo do mundo - concordaram os três. Mas onde?
- Tenho uma ideia - disse o macaco. - Vamos para um armazém de bananas. Os outros não eram da mesma opinião.
- A minha ideia é melhor - disse o beija-flor. - Vamos para um jardim cheio de flores, carregadinhas de néctar, para nós sorvermos.
Os outros não eram da mesma opinião. O macaco e o grilo não se imaginavam a voar, de flor em flor, nem nunca tinham aprendido tal habilidade.
- A minha ideia é a melhor de todas - disse o grilo. - Venham atrás de mim. Seguiram-no. Não foram longe.
- Têm de concordar que este sítio, onde vos trouxe, é o mais lindo do mundo. Apreciem! - e o grilo apontava para uma toca de madeira podre, no meio de um monturo.
E ainda não foi daquela vez que o macaco, o beija-flor e o grilo passaram as férias juntos. Mas continuaram amigos.

05/08/2011

Até a metade do céu

Quando o rei de Wei decidiu construir uma torre que iria chegar até a metade do céu, ele deu uma ordem:
- Quem tentar me dissuadir, será condenado à morte.
Xu Wan, um ministro de Wei, procurou-o com um cesto nas costas e uma lança na mão.
- Senhor, ouvi que está querendo construir uma torre que vai chegar até a metade do céu - disse Xu,- e seu humilde servo veio lhe oferecer ajuda.
- O que de forte tem para me oferecer?- quis saber o rei.
- Eu não sou forte - respondeu Xu- mas eu posso trabalhar no projeto da construção.
- Sim - disse o rei.
- Senhor, ouvi dizer que a distância entre o céu e a terra é de 15 mil li. Como quer construir uma torre que chega até a metade da distância entre a terra e o céu, a torre deve ter 7.500 li de altura. Para agüentar essa estrutura, os alicerces devem ter a circunferência de oito mil li. Toda a suas terras juntas, senhor, não são suficientes para os alicerces. Há muito tempo atrás, os reis Yao e Shun estabeleceram ducados com a circunferência de cinco mil li. Se estiver determinado a construir essa torre, deve primeiro atacar os duques e pegar todas as terras deles. Mas ainda não vai ser o bastante. Deve também expulsar várias tribos que vivem em longínquas regiões ao norte, ao sul, a leste e a oeste. Quando conseguir uma áreas com limites de oito mil li, aí, sim, será o suficiente para os alicerces. Quanto a questão do material de construção, trabalhadores e depósitos de comida, tudo isso deve ser calculado em algumas centenas de milhões. For a da área cercada de 8 mil li, uma grande extensão de campos deve ser escolhida para a produção de comida para os trabalhadores se alimentarem enquanto estiverem construindo a torre. Quando todas essas condições para a construção das torres forem preenchidas, o trabalho pode começar.
O rei ficou calado, sem encontrar uma resposta. Ele abandonou a idéia da construção da torre.