28/10/2011

O lavrador Tomé e o saco das libras



O senhor Tomé era um lavrador abastado.
De uma vez que foi à feira da vila fazer uns negócios, levou consigo uma bolsa com libras, com libras bem contadas e recontadas. Como tivesse medo que lhas roubassem, nos encontrões da feira, deu-as a guardar ao estalajadeiro.
- Vá descansado que ficam em boas mãos - disse-lhe este.
Quando, mais tarde, precisou das libras, voltou à estalagem para as levar. Sabem o que o estalajadeiro lhe respondeu? Respondeu-lhe, fingindo de parvo, que não se lembrava de ter recebido nenhuma bolsa com libras. Vejam lá o descaramento!
O senhor Tomé esteve quase para ir chamar um médico que consertasse a pouca memória do estalajadeiro. Depois, pensando melhor, achou que o caso era mais da conta de um bom advogado do que da medicina. Consultado o doutor jurista, disse-lhe este assim:
- Tenha paciência, meu amigo, mas só vejo uma solução. Manhosos destes tratam-se com a pele das suas manhas. Portanto, vá ter com o estalajadeiro, fale-lhe com bons modos e peça-lhe desculpa. Diga-lhe que se esquecera de que as tais cem libras tinham ficado ao cuidado de outra pessoa de confiança...
- Mas não ficaram - atalhou o senhor Tomé. - Se ainda agora disse ao senhor doutor que foi esse malandro que se governou com elas.
- Deixe-me acabar e não perca a cabeça - aconselhou-lhe o advogado. - Vai ver que, guiando-se pelos meus planos, o dinheiro há-de voltar-lhe às mãos. Depois de lhe pedir desculpa pelo engano, volte lá com um amigo, como testemunha, e entregue outras cem libras ao estalajadeiro.
- Que é lá isso?! Assim se paga aos ladrões nesta terra? Está o mundo avariado.
O advogado não se ofendeu e mais miudamente explicou a armadilha que queria armar ao estalajadeiro desonesto. Ainda que com má vontade, o senhor Tomé resolveu-se a seguir o conselho.
Procurou na feira um amigo endinheirado, que lhe emprestasse cem libras e que se dispusesse a acompanhá-lo à estalagem. Encontrada a testemunha, levou-a consigo, pedindo-lhe segredo do que se estava a tramar.
- Desculpe, mas há bocado pensei mal de si - disse o senhor Tomé ao estalajadeiro. - Foi tudo um engano meu, porque o dinheiro que eu procurava tinha-o eu deixado noutra parte. Guarde-me agora estas cem libras, que, depois, lhas peço.
E os dois, o senhor Tomé e o amigo, despediram-se do estalajadeiro, que ficou de boca aberta.
- E agora? - perguntou o senhor Tomé, passado tempo, ao advogado.
- Agora volte à estalagem e peça só as cem libras.
- Levo o meu amigo?
- Não, vá sozinho. Estas não pode ele recusar-lhas, pois havia testemunha para provar a verdade.
O lavrador assim fez e o estalajadeiro prontamente lhe entregou as cem libras.
Foi o lavrador, pulando de contente, a casa do advogado:
- Estas já cá estão! Só faltam as outras cem.
- Também virão, descanse - tranquilizou-o o advogado. - Passe por lá agora com o seu amigo, que as viu depositar.
Não é preciso dizer que o estalajadeiro se viu apanhado e não teve outro remédio senão dar as outras cem libras ao lavrador.

António Torrado

24/10/2011

Os animais enfermos da peste



Mal que espalha o terror, e que a ira celeste
Inventou para castigar
Os pecados do mundo; a peste, em suma a peste;
Capaz de abastecer o Aqueronte num dia,
Veio entre os animais lavrar;
E se nem tudo sucumbia,
Certo é que tudo adoecia.
Já nenhum, por dar vida ao moribundo alento,
Catava mais nenhum sustento.
Não havia manjar que o apetite abrisse,
Raposa ou lobo que saísse
Contra a presa inocente e mansa,
Rola que à rola não fugisse,
E onde amor falta, adeus, folgança.
O leão convocou uma assembleia e disse:
«Sócios meus, certamente este infortúnio veio
A castigar-nos de pecados.
Que o mais culpado entre os culpados
Morra, por aplacar a cólera divina.
Para a comum saúde esse é, talvez, o meio.
Em casos tais é de uso haver sacrificados,
Assim a história no-lo ensina.
Sem nenhuma ilusão, sem nenhuma indulgência,
Pesquisemos a consciência.
Quanto a mim, por dar mate ao ímpeto glutão,
Devorei muita carneirada.
Em que é que me ofendera? Em nada.
E tive mesmo ocasião
De comer igualmente o guarda da manada.
Portanto, se é mister sacrificar-me, pronto.
Mas assim como me acusei,
Bom é que cada qual se acuse; de tal sorte
Que (devemos querê-lo, e é de todo ponto
Justo) caiba ao maior dos culpados a morte.
– Meu senhor – acudiu a raposa – é ser rei
Bom de mais; é provar melindre exagerado.
Pois então devorar carneiros,
Raça lorpa e vilã, pode lá ser pecado?
Não. Vós fizestes-lhes, senhor,
Em os comer muito favor.
E no que toca aos pegureiros,
Toda a calamidade era bem merecida;
Pois são daquelas gentes tais
Que imaginaram ter posição mais subida
Que a de nós outros animais.»
Disse a raposa; e a corte aplaudiu-lhe o discurso.
Ninguém do tigre nem do urso,
Ninguém de outras iguais senhorias do mato,
Inda entre os actos mais daninhos
Ousava esmerilhar um acto;
E até os últimos rafeiros,
Todos os bichos rezingueiros
Não eram, no entender geral, mais que uns santinhos.
Eis chega o burro: – «Tenho ideia que no prado
De um convento, indo eu a passar, e picado
Da ocasião, da fome e do capim viçoso,
E pode ser que do tinhoso,
Um bocadinho lambisquei
Da plantação. Foi um abuso, isso é verdade.»
Mal o ouviu a assembleia exclama: aqui d’el-rei!
Um lobo, algo letrado, arenga e persuade
Que era bom imolar esse bicho nefando,
Empestiado autor de tal calamidade.
E o pecadilho foi julgado
Um atentado.
Pois comer erva alheia! oh, crime abominado!
Era visto que só a morte
Poderia purgar um pecado tão duro.
E o burro foi ao reino escuro.
Segundo sejas tu miserável ou forte,
Áulicos te farão detestável ou puro.


tradução de Machado de Assis

23/10/2011

O galo briguento e a águia



Dois galos estavam, disputando em feroz luta pelo direito de comandar a chácara. Por fim um pôs o outro para correr.
O Galo derrotado afastou-se e foi se recolher num lugar sossegado.
O vencedor, voando até o alto de um muro, bateu as asas e exultante cantou com toda sua força.
Uma Águia que pairava ali perto lançou-se sobre ele, e com um bote certeiro levou-o preso em suas poderosas garras.
O Galo derrotado saiu do seu canto, e daí em diante reinou absoluto livre de disputa.

Moral: O Orgulho leva antes à Destruição.


Fábulas de Esopo

O Lobo ferido e a Ovelha


Um Lobo, gravemente mordido pelos cães, jazia deitado no chão. Como tinha fome e sede, pediu a uma Ovelha que lhe trouxesse água de um rio que corria ali perto. E acrescentou:
- Se me trouxeres de beber, eu próprio me encarregarei de encontrar de comer.
- Sim - respondeu-lhe a Ovelha. - Se eu te trouxer de beber, sem dúvida que eu própria serei o teu almoço.

Moral da história:
Não confies nos malvados, mesmo que pareçam ser bem-intencionados.


Fábula de Esopo

19/10/2011

A lebre encantada



HÁ muito tempo existia um rei que só se alimentava de animais de caça. Por isso, todos os dias, seu único filho ia caçar na floresta próxima, a fim de que não faltasse o alimento preferido do seu pai. Certa vez, numa de suas excursões pela mata, o príncipe encontrou uma bonita lebre, toda branquinha. Correu atrás dela para apanhá-la, mas não conseguiu. A bichinha era veloz como uma flecha.
Depois de muito correr pela floresta, o príncipe viu a lebre parar e bater com o focinho no chão. Imediatamente, a terra se abriu, e a lebre penetrou no interior do solo. O príncipe, de um salto, entrou também na abertura e, depois de andar, durante muitas horas, por um túnel escuro, deparou com um campo cheio de flores perfumosas, no meio do qual se erguia o mais belo palácio que havia visto em sua vida. Penetrando no palácio, viu uma linda princesa que o recebeu gentilmente.
Passou então a residir no palácio, em companhia da formosa princesa, pela qual se apaixonou loucamente. Aí levava uma vida tão alegre e divertida que se esqueceu, completamente, de seu pai e do seu reino. Passado muito tempo, ao lavar as mãos, o príncipe tirou do dedo um anel que seu pai lhe tinha oferecido. Lembrou-se, então, de sua família e do seu povo. Resolveu ir vê-los. A princesa tudo fez para que ele desistisse da ideia. Mas o príncipe disse-lhe que seria uma ingratidão de sua parte, se não fosse visitar os seus. Prometeu, porém, à formosa princesa que, em breve, estaria de volta. Diante disso, a moça conduziu-o até o lugar por onde ele havia entrado e, batendo com uma vara mágica na terra, fez com que a mesma se abrisse para o príncipe passar.
Chegando ao seu reino, encontrou o palácio vazio e coberto de luto. Soube, então, com grande tristeza, que seus pais haviam morrido de desgosto, em virtude do seu desaparecimento. O príncipe ficou tão amargurado e cheio de remorsos, que resolveu não voltar mais ao palácio da linda princesa. Vestiu, então, uma humilde roupa de sapateiro e saiu pela estrada, sem destino.
Depois de caminhar durante vários dias, encontrou uma cidade, na qual se realizava uma grande festa. Indagando o motivo dos festejos, teve a notícia de que reinava grande alegria na cidade pelo fato de nela se encontrar a princesa mais bonita do mundo. O príncipe pediu então que lhe mostrassem a princesa e, quando a viu, declarou que conhecia uma princesa muito mais formosa.
Alguém ouviu a declaração do rapaz e foi correndo dizer ao rei que havia na cidade um sapateiro que afirmara ter visto uma princesa muito mais bela do que a sua filha. O rei ficou indignado com tamanha ousadia. Mandou chamar o sapateiro e o intimou, sob pena de morte, a trazer à sua presença a moça que ele dizia ser mais bonita do que sua filha. O sapateiro pediu quinze dias de prazo e partiu à procura da sua princesa.
Depois de longa viagem, chegou ao lugar por onde a lebre tinha entrado no interior da terra. Começou então a cavar e, depois de trabalhar dia e noite, conseguiu abrir um túnel até o palácio da princesa. Mas aí chegando, encontrou tudo silencioso e triste. Bateu à porta do palácio, e apareceu uma criada que lhe disse:
— Meu senhor, a princesa está muito doente por sua causa. Depois da sua partida, ela não mais se alimentou. Ficou tão triste e abatida, que nem pôde mais defender-se dos seus inimigos. Por isso, hoje vai acontecer uma coisa horrível. Ã meia-noite, o mar vai crescer e inundar todo
o palácio. Virá, então, um peixe enorme, que é um feiticeiro disfarçado, que devorará a princesa.
O rapaz quis falar com a princesa. Mas a criada o aconselhou a não fazer isso, senão a sua senhora morreria mais depressa. Nesse momento, o mar começou a inundar o palácio. O príncipe, que não tinha medo, armou-se com uma grande espada e escondeu-se atrás da porta. Quando chegou a meia-noite, surgiu um peixe gigantesco. Antes que este pudesse defender-se, o príncipe enfiou-lhe a espada no corpo três vezes. O monstro soltou um berro tremendo e morreu. As águas do mar então se afastaram e a princesa ficou salva.
O moço apresentou-se à princesa, e esta o abraçou contente e feliz. Disse-lhe o rapaz: — Minha princesa, salvei-lhe a vida. Agora preciso que você salve a minha. Contou-lhe, então, a promessa que havia feito ao rei, sob pena de morte. A princesa, porém, o aconselhou a voltar para o lugar onde devia cumprir a promessa e esperá-la lá, descansado.
O príncipe chegou no lugar, exactamente no dia que havia marcado. Os soldados do rei lá estavam, armados, à sua espera. O povo se havia reunido para assistir à execução do rapaz. Este tomou o caminho do palácio e pediu ao rei que aguardasse alguns momentos, pois iria cumprir a promessa.
Daí a pouco, surgiu no céu uma nuvem prateada. Veio descendo, descendo e, quando chegou diante do palácio e no meio do povo, dela saiu uma criada vestida de prata, que gritou: — Afaste-se, minha gente, que aí vem a minha princesa! O povo ficou boquiaberto com a cena. Mas o príncipe pediu ao rei que esperasse ainda alguns instantes. Poucos minutos depois, apareceu outra nuvem dourada, de onde saiu uma criada vestida de ouro, gritando: Afaste-se, minha gente, que aí vem minha princesa! O espanto foi geral. O príncipe pediu ao rei que esperasse ainda alguns momentos. Finalmente, surgiu uma nuvem tão brilhante que ofuscava os olhos de todos. Veio descendo, descendo, até o meio do povo. Dela saiu, então, a mais linda princesa do mundo, toda vestida de diamantes. Era a noiva do sapateiro.
O povo ficou maravilhado. O rei e a princesa, quando viram aquela beleza incomparável, ficaram envergonhados e pediram muitas desculpas ao rapaz. Convidaram este e sua formosa noiva para se hospedarem no palácio. Mas os dois não aceitaram. Preferiram voltar para o seu reino, onde viveram alegres e felizes.

18/10/2011

O corvo



Era uma vez um corvo.
Preto e luzidio como todos o são, este corvo sentia-se fadado para grandes voos.
Mas que voos?
Assim vestido, como se usasse casaca, podia ser músico. Aí estava uma profissão bonita. Atrairia os olhares das plateias e os aplausos do público, seria conhecido e gabado. Ele, o corvo violinista ou pianista ou violoncelista, com o nome destacado em todos os cartazes de concertos, pelo mundo fora, não era sensacional?
Mas, para que isso acontecesse, tinha primeiro de aprender música. Pois era. Aí é que estava o enfado. Aprender, estudar, ensaiar, em intermináveis sessões de trabalho, debruçado sobre pautas, repetindo, insistindo... Que enjoo!
Afinal, pensando bem, já não queria ser músico.
Mas podia ser ilusionista. Com todos os holofotes concentrados sobre ele, num círculo mágico de luz, o corvo brilharia. Tirava um lenço do bolso e transformava-o numa borboleta. Abria um baralho em leque e adivinhava, de olhos fechados, o valor de cada carta. Soprava um balão e desfazia-o em poalha de espuma. E palmas, muitas palmas sempre, ao fim de cada número.
Mas, para que isso acontecesse, tinha primeiro de exercitar minuciosamente cada truque, preparar-se muito bem, experimentar, adestrar-se. Que canseira!
Afinal, pensando bem, já não queria ser ilusionista.
Mas podia ser juiz. A presidir ao tribunal, com toda a autoridade de quem decide, sendo respeitado e temido, concentraria sobre ele a admiração de todos.
Mas, para que isso acontecesse, tinha primeiro de ler os códigos, tinha de passar longas noites a consultar calhamaços, a avaliar os processos, a tirar apontamentos, a escrever pareceres, a decorar leis. Que aborrecimento!
Afinal, pensando bem, já não queria ser juiz.
O corvo via-se ao espelho e imaginava para a sua bela plumagem, para o requinte dos seus gestos, para a elegância da sua pose, os mais distintos atributos profissionais.
Apetecia-lhe ser pregador, professor catedrático, diplomata, presidente da república, eu sei lá que mais, embora houvesse sempre uns preparos a cumprir, uns estudos a fazer, que antecipadamente o agoniavam.
Em qualquer dos casos, sobre o preto brilhante das penas, a fieira de condecorações em destaque provaria que ele era um corvo distinto, diferente, especial, um corvo lançado em altos voos.
Pois sim, mas... Há sempre um "mas" arreliador, ao cabo destas histórias.
Alguém lhe lançou uma rede, enquanto ele se aturdia, no meio dos seus sonhos. Alguém o meteu num saco. Alguém o levou a uma feira. Alguém o expôs de pernas para o ar, presas com um atilho. Alguém o vendeu por pouco dinheiro.
- Quer que lhe corte as asas? - perguntou esse alguém ao comprador.
- É mais prudente. Assim já não pode fugir.
Umas tantas tesouradas riparam-lhe as penas mais compridas das asas. Para sempre.
O corvo trabalha agora num armazém de carvão. Faz de guarda. Usa uma corrente comprida presa à pata e grasna, a dar sinal, à presença de qualquer estranho.
Os corvos são muito bons nisso.


António Torrado

Lenda do Senhor Justo da Piedade



Como sempre acontece, o espírito do povo joeira e adorna a tradição a seu bel-prazer. Das várias versões que conheço referentes à fundação da igreja do Senhor Jesus da Piedade, em Elvas, prefiro a que vou contar.

Ali, na estrada praticamente deserta, havia apenas um tosco cruzeiro, a assinalar o caminho. E no cruzeiro, um Cristo batido pelas chuvas e pelos ventos era o único farol de Fé a iluminar os viandantes desnorteados.
Ora, certa tardinha, vinham por aquela mesma estrada pai e filho, que regressavam de uma romaria. Vinham a discutir.
— Já te disse, José, que não deves proceder assim. Um rapaz da tua idade tem de portar-se como deve ser. De outro modo irás por mau caminho.
O rapaz mostrou-se azedo.
— Sabe que mais? Estou farto dos seus sermões. Fartíssimo! Julga que sou algum gaiato? Já tenho barba na cara, não o esqueça?
O homem retorquiu, zangado:
— E isso leva-te a deixares de ser meu filho?
O rapaz encolheu os ombros.
— Claro que não. Mas não estou disposto a andar agarrado pelos cueiros, como se fosse um mocinho!
— E que és tu, afinal, senão uma criança? Pelo menos a maneira como te portaste hoje de manhã assim o prova.
O rapaz teve outro gesto de enfado.
— Lá vem o pai outra vez com a mesma história! Que raio! Não sabe falar noutra coisa!
O sangue subiu às faces do velho.
— José, tem respeito pelo teu pai! Já tenho alguns anos em cima de mim, mas possuo ainda a mão bastante leve para...
O rapaz interrompeu-o.
— Deixe-se de lérias! Isso deve ser do vinho que bebeu a mais...
A cólera quase superou o homem.
— Que dizes, tratante? Insinuas que estou bêbedo? Tu é que bebeste demais! Parecias um odre sem fundo. E talvez fosse por isso que me quiseste roubar!
O rapaz deu um salto de desespero.
— Que está para aí a dizer? Olhe que a paciência tem limites! Já lhe afirmei que só quero aquilo que é meu! Ou pensa que todo o dinheiro da venda lhe pertence?
O homem gritou:
— Pois pertence! Enquanto for vivo, quem governa o dinheiro sou eu!
— Histórias da carochinha! Já não vou nisso, deixei de andar de olhos tapados! Já sabe: daqui em diante quero o meu dinheiro, para o governar como entender, ouviu bem?
— Endoideceste?
— Não, não endoideci quero o meu dinheiro! E que isto fique dito de uma vez para sempre!
Nesse momento preciso, pai e filho iam passando junto do velho cruzeiro. E aos ouvidos do rapaz soou uma voz semivelada:
— Teu pai tem razão. És o seu filho. Deves-lhe obediência. Terás de seguir sempre os seus conselhos…
O rapaz voltou-se, surpreendido.
— De quem é esta voz? Foi vossemecê quem falou?
O homem tambem se mostrou admirado:
— Falar, eu? Agora não disse nada… Não me deste tempo para isso!
Mas já o pai escutava, por seu turno, um murmúrio ao seu ouvido:
— Não sejas severo em demasia com o teu filho. Lembra-te de que já não é criança. Trata-o como um homem igual a ti, e ele compreender-te-á.
O homem olhou o filho.
— Quem está aqui a falar?
— Eu não! Também ouviu uma voz?
— Ouvi. Mas... aqui não está mais ninguém. A não ser...
— A não ser o quê?
Pai e filho olharam a imagem do Cristo de pedra. Mas logo o rapaz retorquiu, enfadado:
— Não me diga que julga que a fala vem dali.
E apontava com um arremesso de cabeça a imagem do Cristo.
— Sabe-se lá!
— Agora vejo que está realmente bêbedo!
O pai voltou a gritar:
— Cala-te, imbecil!
— Imbecil será vossemecê!
A cólera tingiu de vermelho as faces do velho.
— Ainda hoje não te livras de uma sova!
Num ar rufião, o rapaz provocou-o:
— Ora experimente!
Os insultos seguiram-se. Mas continuaram caminhando, deixando para trás o Cristo de pedra. E porque ambos iam toldados pelo vinho, o inevitável aconteceu. O dinheiro voltou a ser o fulcro da discussão. Como o pai negasse, o rapaz fez menção de lho tirar. O primeiro empurrão surgiu. O agredido respondeu. E num instante os dois homens lutavam como se não fossem do mesmo sangue. Como se o próprio vento tivesse ficado surpreendido, uivou na encruzilhada, batendo forte, também, no rosto dos contendores. O velho caiu por terra. O rapaz vencera. Sacou das algibeiras do pai todo o dinheiro e abalou correndo, deixando o pai a gemer dolorosamente.
Abandonado pelo filho no caminho deserto, o homem levantou-se depois de algum esforço. Chorando copiosamente, voltou para trás até junto do cruzeiro. Aí caiu de joelhos. Soluçava alto, como desvairado. Depois, um pouco mais sereno, sentindo viva a união do seu espírito ao Espírito Divino de Cristo, implorou:
— Oh meu Jesus! Tu, que também foste homem, abaixa o Teu olhar sobre mim e derrama sobre o velho que hoje sou a Tua Misericórdia! O meu filho, aquele que eu criei, roubou-me e faltou-me ao respeito. É um ladrão e talvez um assassino, pois pouco se lhe dá que eu morra para aqui, abandonado. Não sei voltar à terra onde vivi. Mas não queria morrer sabendo que ele é um ladrão. Salva-me, pois, e salva-o a ele! Salva o meu filho, e eu Te juro que todo o meu dinheiro será para construir aqui, neste local, uma capelinha digna de Ti, ó meu Senhor Jesus! Salva-nos! Desce o Teu olhar sobre nós, ó Jesus de tanta Piedade!
O vento zuniu mais forte sobre o silêncio que as palavras do homem deixaram ao extinguir-se. Mas logo outras palavras se ouviram:
— Tem fé, e ser-te-á dada a salvação!
O homem gritou:
— Senhor! E ele? E o meu filho?
A voz tornou, complacente:
— Escuta o seu apelo... Ele vem implorar-te perdão. Sê razoável... Perdoa as ofensas, como desejas que o Pai Celeste perdoe as tuas!
O homem curvou a cabeça. Chorava. De súbito ouviu-se uma voz que vinha de longe e se aproximava cada vez mais:
— Pai, meu pai, onde está?... Responda-me, meu pai!
O coração do homem bateu com violência. E gritou, rouquejando:
— Filho! Estou aqui... junto ao cruzeiro!
O rapaz acorreu. Agarrou as mãos do pai e implorou:
— Por amor de Deus, perdoe-me e esqueça o que fiz! Eu devia estar louco! Se soubesse como sofro!
O homem encostou a cabeça grisalha ao ombro do filho, chorando. Mal se ouviram as suas palavras de perdão. Por fim, desencostou-se. Já não chorava. Perguntou, movido por uma estranha curiosidade:
— Filho! Porque voltaste?
O rapaz respondeu como se estivesse a recordar um sonho:
— Se soubesse o que me aconteceu! Quando ia a fugir, caí num barranco. Tão alto que nem sei como não me feri. Mas não conseguia sair de lá. De repente, senti medo. Um medo estranho. Tinha a sensação de ter caído vivo no Inferno. Foi nessa altura que me lembrei da voz que ouvi quando passámos por este cruzeiro. Então pedi ao Senhor Jesus que me salvasse, em troca do meu sincero arrependimento!
Calou-se o rapaz por alguns instantes. Depois, continuou:
— Mal havia feito este propósito... sem bem saber como... senti forças para erguer-me do barranco e vir até aqui!
O vento levou até à imagem de pedra do Senhor Jesus esta elevação da alma de um pai agradecido:
— Obrigado, meu Deus! Obrigado pela Vossa Piedade, meu Senhor Jesus Cristo!
Pouco tempo depois, a promessa feita em circunstâncias tão dramáticas, num local ermo e batido pelo vento, foi cumprida pelos dois alentejanos. Ali mandaram construir uma capelinha. Mais tarde, essa capela humilde nascida de um voto transformou-se na igreja sumptuosa que hoje existe em Elvas, em memória do Senhor Jesus da Piedade.


Gentil Marques
Portalegre