18/12/2011

Nem tanto assim



Era uma vez um pinheiro, um vulgaríssimo pinheiro de pinhas chochas e tronco escanifrado, igual a milhões de outros.
Pois este pinheiro quis passar a chamar-se João.
- Sou o João Pinheiro - avisou ele.
Os colegas do pinhal riram-se e, por troça, começaram a tratá-lo por doutor - Doutor João Pinheiro -, o que ele tomou muito a sério.
A história constou, foi comentada por mais árvores, e uma velha nogueira, de ramos a pender sobre um casebre em ruínas, acordou, um dia, com vontade de chamar-se Madalena.
- Dona Madalena Nogueira é como passam a chamar-me - exigiu ela.
Logo um carvalho, que nunca fora outra coisa, quis, daí em diante, ser tratado por Manuel de Sousa Carvalho. Professor Doutor Manuel de Sousa Carvalho, com todas as letras e respeito.
- Se ele é professor, então eu não sou nada? - revoltou-se um salgueiro, à beira rio.
E, dada a sua proximidade da água, fez constar que só responderia pelo nome de Almirante Filipe de Freitas Melo e Salgueiro, com muita honra, ora pois!
Um vendaval de maluquice agitou o arvoredo. Árvores e arbustos, dantes tão pacatos, tão alheios a vaidades, exibiam, agora, cartões-de-visita, como se fossem gente. E gente ilustre!
Até que se passaram por lá uns lenhadores com serras mecânicas e tractores, dos que arrancam tudo, arrasam tudo, revolvem tudo...
O primeiro a sofrer-lhes o embate foi o Doutor João Pinheiro, tonto pinheirinho que nem chegou ao Natal. E os mais, de seguida. Tudo a eito.
Escapou o carvalho, atendendo à idade e ao volume da copa. À sua volta, depois do assalto dos tractores, só desmanchados torrões a monte, na planície a perder a vista.
- Mudou tudo - reconsiderou, melancolicamente, o velho carvalho, esquecido já dos títulos universitários.
Nem tanto assim...
Calculem que o terreno, onde coube a nossa história, alberga, agora, um campo de golfe.
Pelo relvado luzidio passeiam uns senhores e umas senhoras, que dão uns piparotes muito ponderados numas bolas e as bolas saltam, fogem, correm, à procura de uns buracos numerados, um, dois, três, quatro e por aí fora. Parece que só assim é que estas bolas aprendem a contar.
As senhoras e os senhores, nos intervalos do jogo, descansam à sombra da árvore centenária e, nessas ocasiões, o carvalho ouve as conversas e fica a conhecer os nomes dos ilustres jogadores.
São o Doutor João Pinheiro, o Almirante Salgueiro e até um professor Doutor Sousa Carvalho por lá anda. Já para não falar do Capitão Loureiro, do Arquitecto Castanheiro, do engenheiro Madeira de Oliveira e de outros que tais.
Com tudo isto, o velho carvalho anda muito admirado.

António Torrado

A furna de cal no Facho




No Facho, em Santa Maria, havia, ainda há poucos anos, uma furna com cerca de trinta metros de comprido, onde costumavam tirar pedra de cal, que depois era trabalhada e exportada para as outras ilhas dos Açores.
Pelos princípios deste século, um certo dia, estavam uns homens na furna a trabalhar. Era de Verão e lá dentro fazia um calor muito grande, que aumentava à medida que se aproximava o meio-dia. Quando chegou a hora de jantar, um deles disse:
— A gente não janta aqui dentro que é muito calor. Vamos comer aí para fora.
Os outros concordaram e saíram. Sentaram-se na erva amarelada do pasto, tiraram a comida dos cestos e começaram a jantar. Enquanto comiam, falavam, riam, alguns contavam histórias e não davam por o tempo passar.
Estavam nisto quando apareceu uma criança, um rapazinho branco e lindo como um anjo. Os homens ficaram admirados de ver uma criança por ali e um deles perguntou:
— Eh rapaz, o que é que queres? Queres um bocadinho de pão? O rapazinho meneou a cabeça e disse:
— Não, não quero comer. Venho só avisar os senhores que não voltem lá pra dentro. Vai cair um bocado da furna e pôde matar alguém.
Os homens riram-se e um exclamou:
— Hã...hã...hã! Olha agora o pequeno!
Continuaram a comer e o rapazinho sumiu-se. A conversa continuou, mas agora à volta do que tinha acontecido. Um dizia:
— Ora o rapazinho... — e calava-se como se não soubesse mais o que dizer ou não quisesse falar no que estava a pensar.
Um outro, menos preocupado, insistia, como para se convencer a si próprio:
— Ficaste pegado com o rapaz!
Chegou por fim a hora de voltarem ao trabalho e um disse, convicto:
— Eu acredito no pequeno! Uma criança tão branca, tão linda, parecia um anjo... A gente não vai para dentro.
Os outros, entre o duvidoso e o amedrontado, concordaram. Só um deles achou tudo aquilo um disparate e afirmou:
— Ah, agora... ficar por um pequeno! Eu vou trabalhar!
E foi. Mas, na altura em que acabou de entrar, caiu um bocado da furna, desabando sobre o homem pedras enormes e grandes montes de terra. O homem ficou todo despedaçado e morreu. Os outros ficaram horrorizados, mas salvaram-se, apenas porque acreditaram num rapazinho, vindo não se sabe de onde.

Açores