06/03/2012

A Andorinha, a mensagem e o convento

Antigamente morava na rua da Praça uma familia composta de mãe, tres filhas e tres irmãos, pertencente á familia dos Athaides. O chefe da casa era militar e achava-se em Lisboa, onde era muito estimado dos nossos reis.
Em uma noite de verão — era um sabbado — estavam as quatro senhoras resando no seu oratorio, que deitava uma janeila para a Praça, quando succedeu entrar pela janella aberta uma andorinha.
Ora a andorinha é uma ave muito estimada pelo algarvio que a denomina ave de Nossa Senhora.
Pôz-se a andorinha a voejar pelo oratorio, ate que uma senhora conseguiu apanhal-a. Chamaram os irmãos, que jogavam n’uma sala proxima ao dominó com alguns amigos, e depois de todos terem examinado a andorinha, uma das senhoras pediu para que deitassem novamente a andorinha a voar; e a mais nova segurou delicadamente com um tio de retrós um bilhete sob a axila da ave com as seguintes palavras: — De onde vens e para onde vais! — Lançaram a andorinha ao ar, e esta despediu n’um vôo rapido aqueile guinchozinho de alegria proprio d’aqueilas aves.
No anno seguinte, e á mesma hora, do mesmo dia, entrou novámente a mesma andorinha no quarto do oratorio onde as senhoras estavam reunidas; logo a senhora mais nova ergueu-se e conseguiu apanhar a andorinha. Examinou-a sob a aza, e viu um novo bilhete; chamou os irmãos, reuniu-se por assim dizer toda a fainilia, e todos verificaram que sob a aza existia um novo bilhete, que dizia o seguinte:
— Sou do convento de S. Francisco de Gôa —.
Esta resposta produziu na senhora mais nova grande impressão: pareceu-lhe que aqueilas palavras significavam um convite de Nossa Senhora a que entrasse num convento; e por mais que as irmans e os irmãos tentaram dissuadil-a daquella resolução de entrar em um convento, dia mais insistia na sua resolução. Participaram ao pae, e este vem immediatamente a Alvôr, e vendo que a filha estava resolvida a entrar num convento, auctorizou-a a que entrasse.
Até aqui combina a lenda que eu ouvira em criança a minha mãe com a lição da mesma lenda, que ainda hoje corre em Alvôr, e me foi enviada pelo reverendo paroco encomendado.
Continua a lenda, conforme a lição ultimamente recebida:
«Effectivamente esteve tudo preparado para a senhora entrar no convento, mas na vespera desse dia, a senhora morreu!
O final da lenda, segundo minha mãe contava é outro, muito diverso.
Diz:
— Vendo o pai que a filha estava de todo resolvida a entrar no convento, deu-lhe a auctorização necessaria, e a familia toda acompanhou a menina a Lisboa. Na vespera de professar, soube a rainha do facto e deu mostras de querer conhecer a nova professa. Foi-lhe apresentada pelo pai. A rainha então disse, ao despedir-se:
— Vá, minha menina, assim eu podésse fazer o mesmo.
Na occasião em que que se realizou a profissão, ficou toda a gente surprehendida de ver senhora tão nova completamente satisfeita, e isto no momento em que lhe cortavam as suas famosas tranças e em que os membros de sua familia, não podendo conter as lagrimas, as deixaram correr em profusão. A nova professa, curvando-se respeitosamente perante o pai, e irmãos, retirou para o convento, onde foi freira de muitas virtudes, chegando a ser prioreza do mesmo convento.
E’ assim que termina a historia que me foi contada.

25/02/2012

O Castelo da Serra da Nó



Na região do Minho, a caminho de Ponte de Lima, fica a serra da Nó. Diz o povo que sob a terra há um belíssimo castelo cheio de fabulosas riquezas e habitado por Abakir e Zaida. Se alguém tiver coragem para escavar bem fundo a terra, encontrará ainda hoje tudo quanto um dia foi submergido por forças ocultas e estranhas, despertadas pelo poderoso alcaide.

Conta a lenda que há muitos séculos atrás, no tempo da reconquista cristã, havia no alto da serra um castelo maravilhoso onde reinava Abakir, o mouro ao qual os cristãos chamavam o Feroz. Abakir era um homem sedento de todos os poderes e prazeres terrenos. Possuía um harém com algumas das mais lindas mulheres do mundo. Em tempo de tréguas com os cristãos, dividia os dias entre a montaria e as suas mulheres.
Um dia, Abakir, deu-se conta de que havia uma mulher no seu harém diferente das outras. Apesar de o tratar com ternura e afagos, como as outras, fazia-o com uma indiferença tal que ele acabou por o sentir. Ficou espantado. Como não estava habituado a ser tratado daquele modo, tratou de a cativar. Abakir deu por si a amá-la e, pouco a pouco, Zaida abandonou a indiferença dos gestos vazios .
Foi um amor tresloucado, tão louco e esquecido de tudo que Abakir mandou embora as mulheres do seu harém e jamais tornou a lembrar-se de governar o seu povo, de guardar a sua gente. O seu descuido era tal que, certo dia, foi surpreendido pela notícia de que os cristãos sitiavam o seu castelo. Achou-se então abandonado pelos seus guerreiros, que haviam partido para outros castelos onde os alcaides estivessem atentos às suas necessidades de soldados.
Ao ver que nada e ninguém o poderia salvar e que não havia fuga possível, Abakir pegou em Zaida pela mão e levou-a até uma pequena sala repleta de coxins de seda e damasco. Agarrou-lhe as duas mãos e concentrou-se silenciosa e profundamente. Pronunciou palavras misteriosas e, num segundo, os cristãos viram-se a sitiar coisa nenhuma: o castelo, os seus habitantes e as suas fabulosas riquezas desapareceram nas profundezas da terra.
Abakir e Zaida ainda podem ser vistos em noites de luar, vigiando a serra para não serem perturbados no seu amor e aparecendo àqueles que ousam tentar descobrir o mistério do castelo encantado!

Fernanda Frazão, Lendas Portuguesas