14/04/2012

A lenda do coelho

Houve um tempo em que não chovia e os animais estavam a morrer de muita sede. Então, resolveram todos se reunir a fim de solucionar o problema. O coelho recusou-se a participar das tentativas de encontrar água. Os outros animais, cavaram, cortaram árvores, até que, uma tartaruga encontrou água, suficiente para formar uma pequena lagoa. Fizeram logo uma festa, tocaram batuque durante três semanas, pois não sentiriam mais sede.
O leão sugeriu que não deixassem o coelho beber a água deles e todos concordaram. Quando os animais saíram para a caça, deixaram a gazela tomar conta da lagoa. Sentindo sede, o coelho colocou mel dentro de uma cabaça, foi até à gazela e chamou-a. A gazela perguntou quem era e o que queria. O coelho respondeu que lhe trouxera mel de presente. Sem saber o que era o mel, o coelho convenceu que ela provasse. Ela gostou tanto que implorou mais ao coelho. Este, então, lhe disse que ela ainda não havia sentido todo o sabor do mel, pois isso só aconteceria se ela o comesse atada a uma árvore. Dessa forma, a gazela deixou-se amarrar. O coelho não deu mais mel à gazela e, ainda, foi à lagoa beber água e tomar banho, sujando toda a lagoa.
Quando chegaram os outros animais, repreenderam a gazela e puseram o macaco de guarda. No dia seguinte, o coelho, novamente, chamou o macaco e este respondeu que não perdesse o seu tempo, pois todos os seus artifícios já eram conhecidos. O coelho disse que era uma pena, pois trazia consigo uma coisa muito saborosa, e fingiu ir-se embora. O macaco pediu para ver ao menos do que se tratava. O coelho passou um pouco de mel em seus lábios e o macaco ficou maravilhado com o sabor. Quando o macaco implorou mais um pouco, o coelho disse-lhe que não poderia dar-lhe, pois tinha medo que depois ele o seguisse para descobrir onde ele obtinha o mel. O macaco jurou que não faria isso e o coelho pediu-lhe, como prova, que o deixasse atar-lhe a uma árvore.
Louco pelo mel, o macaco permitiu, repetindo-se com ele o mesmo que com uma gazela. Ao retornarem, os animais ficaram enfurecidos. O mesmo sucedeu com o búfalo, o hipopótamo, o elefante e com os demais bichos, deixando o leão desesperado. Até que a tartaruga ofereceu-se para ficar de guarda. Ela, então, resolveu ficar de vigia dentro da lagoa, escondendo-se debaixo da água. Chegando à lagoa, o coelho pensou que os outros tivessem desistido de enfrentá-lo. Entrou na lagoa e fez a festa. Quando ia sair da água, a tartaruga agarrou-lhe a perna. Ele implorava que a tartaruga lhe largasse a perna e ela nada. Quando os outros animais retornaram, ficaram muito contentes, julgando o coelho e condenando-o à morte.
O condenado exigiu o seu direito a uma última vontade: ser executado ao colo da mulher do chefe. No momento em que ia atirar uma seta, o coelho começou a fazer gracinhas, fazendo-a rir e errar o alvo, acertando na mulher do chefe, possibilitando a fuga do coelho. Por isso, todos os animais o procuram, a fim de executa-lo. Desde então, têm-se visto o coelho, sempre sozinho, correndo de um lado para o outro, aos saltos e aos ziguezagues.


Moçambique

08/04/2012

Job





Numa certa altura Job estava na porta da cidade, e (não sei se vocês sabem mas antigamente a porta da cidade era o sítios onde os anciões, os mais sábios se encontravam para discutir política, ou para discutir assuntos da cidade). E certa vez estava Job na porta da cidade e veio um peregrino lá de longe, e vira-se o peregrino e disse:
- Oh velho ancião como te chamas?
- Chamo-me Job.
- Job? Já ouvi falar muito de si. E eu queria saber se esta cidade era boa ou má?
Job perguntou então:
- Você gosta da sua cidade?
- Não, eu não gosto da minha cidade. Na minha cidade as pessoas gostam de brigar umas com as outras e elas são muito invejosas, são chatas, brigam por tudo e por nada.
- Esta cidade é a mesma coisa. Não vale a pena tu entrares aqui. [disse Job]
Então o peregrino foi-se embora e nem entrou na cidade porque, se a cidade era igual a dele não queria ter uma má recordação.
Então veio o segundo peregrino e perguntou:
- Então como se chama?
- Eu chamo-me Job.
- Job? Já ouvi falar de você, é um velho ancião que mora aqui nesta cidade.
- Sim.
- Olha, eu queria um lugar para passar a noite. E queria perguntar como seria esta cidade, se é boa ou se é má?
- Olha, posso fazer-te uma pergunta? Como é a sua cidade? Gostas da sua cidade?
- A minha cidade é maravilhosa, as pessoas são super simpáticas umas com as outras, são comunicativas, são amorosas […] Gosto muito da minha cidade.
- Esta cidade é a mesma coisa. Esta cidade as pessoas são simpáticas, amorosas, isso tudo que você disse.
Até que estava um rapaz ao lado de Job e ouviu o que disse aos 2 peregrinos [e disse]:
- Então Job, como é que foi dizer uma coisa para um peregrino, e outra coisa para o outro peregrino?
- Oh rapaz, vou dizer uma coisa, é a pessoa que faz a cidade. Aquilo que ela é, é aquilo que ela transmite. Se ela acha que a cidade as pessoas são conflituosas, são más, é na verdade aquilo que ela sabe que tem em si mesma mas se a cidade é boa, é alegre, é aquilo que a cidade transmite para as pessoas, então o optimismo vai fazer com que a cidade fique alegre.


São Brás de Alportel
(recolha oral)

20/03/2012

O homem maravilhoso

Todos os dias, às 4 horas da tarde, entrava na biblioteca um homem de roupa cinzenta. Já trazia na mão o pedido do livro que desejava ler: "história da Groelândia". Recebido o livro, aliás escrito em norueguês, ele se sentava em uma poltrona e se aprofundava em sua leitura até o sinal de que a biblioteca iria fechar, às dez horas.
Um dos empregados que trabalhava na biblioteca estranhou tal comportamento: quem seria este homem que gosta de ler, durante 6 horas, uma complicada história da Groelândia escrita em norueguês?
Durante 3 meses o estranho leitor pediu sempre o mesmo livro. Mas certo dia, porém, pediu um livro diferente: "a respiração dos escaravelhos"! E, durante 4 meses leu esse estranhíssimo livro, no qual ninguém lia.
Um dia, entretanto, o homem deixou de lado os insetos e fez um pedido que assombrou ainda mais o empregado: "gramática descritiva e completa da língua chinesa"
O maior desejo do empregado da biblioteca era encontrar com esse curioso homem na rua, para poder questioná-lo sobre interesses tão diferentes.
Certa vez, quando o empregado ia para o trabalho, encontrou, absorvido em pensamentos, o misterioso leitor. Aproximou-se dele e disse-lhe:
- Eu tenho acompanhado os importantes estudos que o senhor vem fazendo neste último ano em nossa biblioteca. Desejo saber se o senhor publica estas informações originais e substanciosas em algum artigo de revista ou jornal.
- Ah meu caro senhor! - respondeu o homem com um sorriso - Não leio, nem estudo nem publico coisa alguma! Vou todos os dias à biblioteca unicamente para dormir! É a pura verdade! Sou muito pobre e sem família; sou obrigado a trabalhar a noite inteira,e , durante o dia, à falta de outro cómodo, onde possa dormir com mais conforto, vou descansar na poltrona macia da biblioteca.
Mas ainda havia um ponto obscuro ao empregado:
- Mas só para dormir você pede livros complicados?
- Eu mesmo não sei o que peço! - esclareceu risonho - eu só posso ficar no salão de leitura se eu pedir um livro, então eu peço o livro indicado no primeiro cartão do catálogo. Quando mudam a ordem dos cartões, eu peço, sem o querer, um novo livro! Mas para mim qualquer livro serve. Tenho sempre tanto sono!

15/03/2012

Lenda da Peninha


Conta-se que no reinado de D. João III, na terra de Almoínhos-Velhos, havia uma pastora muda tinha o costume de levar as suas ovelhas a pastar ao cimo da serra.
Certo dia, uma das suas ovelhas fugiu, deixando a jovem pastorinha desesperada em busca da tal ovelha.
Após longas buscas observou ao longe uma senhora que trazia consigo a sua ovelha.
A pastorinha agradeceu muito da maneira que pode, visto que esta não conseguia falar.
A senhora, aproveitando a ocasião, pediu à pastorinha que lhe desse um pouco de pão. A pastora explicou-lhe, gestualmente, que esse ano tinha sido mau e havia muita fome. A senhora deu-lhe então um conselho:
- Quando chegares a casa chama pela tua mãe e procura pão.
A pastorinha tentou-lhe explicar que isso era impossível, pois para além de ter a certeza de não haver pão em sua casa, ela não podia chamar pela sua mãe, pois era muda. Mas a senhora tanto insistiu que a pastora decidiu fazer o que esta lhe dizia.
Ao chegar a casa chamou por sua mãe e a sua voz fez-se ouvir em toda a sua casa.
Contou a história a sua mãe e apressou-se em procurar o pão. E qual não foi o espanto das duas quando dentro de uma arca encontraram pão que chegou para a aldeia inteira.
No dia seguinte, como prova de agradecimento, toda a aldeia subiu à serra e precisamente no sítio onde a pastorinha tinha encontrado a senhora, estava agora uma gruta com a imagem de Nossa Senhora.
Esse local passou a ser sagrado e mais tarde foi aí construída uma capela, conhecida por capela de Nossa Senhora da Peninha.

Os Namorados


O Pião e a Bola achavam-se numa gaveta, junto com outros brinquedos, e o Pião disse a Bola:
- Não vamos ser namorados, já que estamos juntos na mesma gaveta?
A Bola, porém, feita de marroquim, e tão vaidosa como uma senhorita elegante, nem resposta quis dar a semelhante pergunta.
No dia seguinte, veio o menino, dono dos brinquedos. Pintou o Pião de vermelho e amarelo, e pregou-lhe bem no centro um prego de latão. Era muito bonito quando o Pião girava.
- Olhe para mim - disse o Pião à Bola - que diz você agora? Não vamos então ser namorados? Servimos muito bem um para o outro: você pula e eu danço. Ninguém poderá ser mais feliz que nós dois.
- É o que o senhor pensa - disse a Bola - certamente não sabe que meu pai e minha mãe foram chinelos de marroquim, e que tenho dentro de mim uma cortiça.
E eu sou feito de mogno - disse o Pião - o próprio prefeito me torneou em seu torno, o que lhe deu um grande prazer.
- Se eu pudesse acreditar nisso! - disse a Bola.
- Quero nunca mais ver uma fieira em todda a minha vida se for mentira o que eu disse - respondeu o Pião.
O senhor advoga bem a própria causa - disse a Bola - mas não posso namorar. Estou quase comprometida com um sr. Andorinha. Cada vez que subo ao espaço, ele põe a cabeça fora do ninho e pergunta:
"Quer? Quer?"
Ora, eu intimamente já disse que sim, o que equivale a um meio compromisso. Mas lhe prometo que nunca o esquecerei!
- E isso vai adiantar muito! - disse o Pião.
E nada mais disseram.
No dia seguinte vieram buscar a Bola. O Pião viu como ela subia a grande altura, como um pássaro, desaparecendo de vista. Voltava todas as vezes, mas dava um grande salto cada vez que tocava o chão. Devia ser por causa das saudades, ou por causa da cortiça que ela tinha dentro dela. A nona vez a Bola subiu ao alto, e não mais voltou. O menino procurou muito, e nada: a Bola sumira.

- Bem sei onde ela está - suspirou o Pião - está no ninho do sr. Andorinha e com ele se casou.
Quanto mais o Pião pensava naquilo, tanto mais se apaixonava pela Bola. Por não poder tê-la, seu amor por ela aumentava. O fato de ter ela ficado com outro, tornava o caso mais apaixonante. O Pião dançava ao redor e zunia, mas sempre pensava na Bola, que em seus pensamentos se foi tornando cada vez mais bonita. Passaram-se assim muitos anos e o amor do Pião transformou-se num velho sonho.
O Pião não era mais moço. Um dia, porém, foi inteiramente pintado de dourado. Nunca fora antes tão bonito. Era agora um Pião de Ouro, e pulava, deixando um zunido pairando no ar. Aquilo sim, era formidável! Mas de repente ele saltou alto demais - e sumiu.
Procuraram por toda a parte, até na adega, mas nada de aparecer o Pião.
- Onde estaria ele?
Pulara para dentro da barrica de lixo, onde jaziam amontoados talos de couve, cisco e entulho caído da calha.
"Estou bem arrumado" - pensou o Pião - "aqui a douração não tardará a sair de mim. E que gentalha é essa em cujo meio vim parar!" Olhou de esguelha para um longo talo de couve e para um estranho objeto redondo, que parecia uma maçã velha. Mas não era uma maçã. Era uma velha Bola que durante muitos anos estivera caída na calha, embebida de água.
- Graças a Deus, aí vem alguém com quem se pode falar - disse a Bola ao ver o Pião Dourado - eu, para falar a verdade, sou de marroquim, costurada pelas mãos de uma gentil senhorita, e tenho uma cortiça dentro de mim. Mas duvido que se veja isso agora. Eu estava prestes a casar-me com uma andorinha quando caí na calha, e ali estive por cinco anos, encharcada de água. É um longo tempo, pode crer, para uma jovem.
O Pião não respondeu. Pensava em sua antiga namorada, e quanto mais a ouvia, tanto mais certo estava de que era ela.
Nisto chegou a criada e quis virar a lata de lixo.
- Oh! Aqui está o Pião Dourado! - disse ela.
E o Pião retornou à sala, à antiga posição de respeito, mas da Bola nada mais se ouviu. O Pião nunca mais falou em seu antigo amor. O amor se extingue quando a amada passa cinco anos numa calha, embebendo-se de água. Nem a conhecem mais quando a encontram na lata de lixo.


Conto de Hans Christian Andersen