16/06/2012

O leão e o coelho

O leão mandou avisar aos demais animaizinhos que decidira não mais deixar que ninguém comesse manga em seu território. Essa fruta seria reservada para si próprio.
Descontente com a situação, o coelho resolveu dar uma lição no rei. Aproximou-se da cerca que rodeava a casa do leão e começou a gritar por socorro. Quando os guardas vieram perguntar-lhe o que acontecia, ele respondeu que tinha um comunicado a fazer ao rei-leão. Os guardas acharam muito engraçado, mandando que o coelho ir-se embora, pois o leão jamais o receberia. Então, o coelho pediu que os guardas o amarrassem em uma árvore, pois viria uma tempestade tamanha que não deixaria nada no lugar.
Os guardas foram depressa anunciar ao rei o que fora dito pelo coelho e o leão resolveu ir até o coelho para saber da veracidade da história. O coelho disse-lhe que poderia lhe cortar os olhos e extrair-lhe a língua caso não fosse verdade. Convencido, o leão ordenou que o amarrassem primeiro. Os guardas também pediam uns aos outros para se amarrarem. O coelho, fingido, dizia estar aflito, pois não sobraria ninguém para amarrá-lo. O último guarda ordenou ao coelho que o amarrasse, o que ele fez imediatamente.
Estando o rei e seus guardas amarrados, o coelho comeu todas as mangas que quis.
O rei, ao perceber a esperteza do bichinho, jurou vingança. Com sentimentos de revanche, promoveu uma festa e convidou todos os bichos da floresta, a fim de capturar o coelho. Este, que não era bobo, pediu ao peru que lhe emprestasse suas penas e ao faisão que lhe emprestasse a carapuça. Ao chegar à festa do leão, entrou sem que os guardas desconfiassem. Quando o leão lhe perguntou quem era, o coelho respondeu ser o filho do Céu e da Terra.
O rei sentiu-se muito honrado com presença tão ilustre, e recomendou que lhe dessem o melhore tratamento. Ao final, como estivesse embriagado, o coelho adormeceu e a carapuça caiu. Ao ver aquilo, a mulher do leão avisou o marido, que cercou a casa com seus guardas e cães. Sabendo que não tinha muitas chances de escapar, o coelho encheu um saco com ossos e escapou por uma janela. Ao ser perseguido pelos cães, ele ia jogando os ossos pelo caminho para distraí-los. Entretanto, um dos cães não deu importância para os ossos e continuou a persegui-lo. O bichinho, que não tinha mais forças para fugir, escondeu-se em um buraco. Todavia, o cão enfiou uma das mãos segurando a pata do coelho. Este, fingindo achar graça, disse que o parvo havia pegado uma raiz pensando ser a sua perna. O cão soltou, pensando ser verdade, e o coelho fugiu.

Conto de Moçambique



15/06/2012

O porco que se transformou numa moça


"O meu sogro era um homem que madrugava muito. Teve 24 filhos, era carpinteiro e tratava de muitas terras para poder governar a casa. Ia então ele de madrugada, a passar ao pé da barragem do Peneireiro, onde tratava de uma terra, e, chegando junto ao ribeiro, viu uma manada de recos num lameiro, pequenos e grandes. E, claro, preparou-se logo pra deitar as mãos a um. Como tinha muitos filhos, bem jeito lhe dava agarrá-lo. Só que, ao tempo que o ia agarrar, apareceu-lhe uma gaija em lugar do reco e a dizer:
— Crí’ós![cria-os]
Queria ela dizer, nat’ralmente, que, se quisesse porcos pra comer, que os criasse. E neste entretanto, os outros transformaram-se também numas poucas de moças e desapareceram a dançar. E o pobre homem ficou lá sozinho. E desconsolado. Contou isto a vida toda."


PARAFITA, Alexandre, Património Imaterial do Douro (Narrações Orais)