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15/10/2009

Zhou Ji aconselha o rei Qi a aceitar crítica

A obra Táticas dos Reinos Combatentes é um livro com mais de dois mil anos, que regista muitos factos históricos cheios de sabedoria.


O primeiro-ministro do reino Qi, Zou Ji, era um homem corpulento e elegante. Certa manhã, olhava-se no espelho depois de vestir-se bem e perguntou à esposa: “ Entre eu e o senhor Xu, que mora na zona norte da cidade, quem é o mais bonito?”
A senhora respondeu-lhe imediatamente como se tivesse a resposta na ponta da língua: “Claro que você é muito mais bonito!”
Zou Ji sabia que o sr Xu era famoso pela sua elegância. Desconfiado da resposta da esposa, perguntou à concubina: “Quem é mais bonito, eu ou o sr Xu?”
A resposta foi a mesma: “Ele não se compara com você”.
Pouco depois, chegou uma visita e Zou Ji formulou a mesma pergunta e logo teve a resposta: “O senhor é muito mais bonito do que o sr Xu”.
No dia seguinte, o sr Xu veio fazer-lhe uma visita. Zou Ji observou-o atentamente e quando o visitante se despediu, voltou a olhar-se no espelho e chegou à conclusão de que Xu era muito mais bonito do que ele.
À noite, já deitado, meditava: “Porque será que a minha esposa, a minha concubina e o meu visitante insistem em que sou mais bonito que o sr. Xu?” Pensava e repensava, compreendeu. Logo de manhãzinha, foi pedir uma audiência ao rei e disse-lhe: “Sei que não sou tão bonito como o sr. Xu, mas a minha esposa adora-me, a minha concubina teme-me e o meu visitante queria pedir-me um favor. Todos eles, queriam agradar-me e por isso encobriram a verdade e mentiram-me”.
E prosseguiu: “Nosso reino é grande. No palácio real, quem é que não adora o rei? Qual é o ministro ou o general que não o teme? Dos súbditos de todo o país, quem é que não pretende a sua protecção? Por isso, são inúmeros aqueles que o bajulam, e o rei deve ser muito enganado…”
O rei, aproveitando a lição, promulgou um decreto para valer em todo o país, segundo o qual seria premiado “quem quer que desse um conselho ou fizesse uma crítica ao rei”.
Nos primeiros meses após a promulgação do decreto, muitas pessoas foram fazer críticas ou oferecer conselhos ao rei, fazendo com que o pátio do palácio real estivesse tão cheio de gente como uma feira. Um ano depois, as pessoas não tinham o que criticar mesmo que quisessem. Inteirados do comportamento do rei Qi, os reinos Zhao, Han e Wei enviaram seus emissários ao reino Qi para apresentar seu respeito.

Entende-se nesta lenda que uma pessoa deve saber conhecer ela própria e não acredita cegamente nas palavras da sua gente íntima ou daqueles que peçam o favor dela.



Lenda da Moura da Ponte de Chaves



Depois da retoma de Chaves pelos Mouros ficou alcaide do castelo um guerreiro. Este organizou o noivado entre o seu filho Abed e a sua sobrinha. A bela jovem não recusara Abed, pois nenhum dos poucos mouros que ali ficaram lhe despertara paixão.
Uns anos depois, os cristãos iniciaram a conquista da região de Chaves, tendo mesmo atacado a cidade. O alcaide e seu filho encabeçaram a resistência moura e a defesa do castelo.
Numa ocasião, enquanto apreciava os combates, a sobrinha do alcaide fixou os olhos num belo guerreiro cristão que ganhava com os seus homens cada vez mais posições no castelo. No mesmo instante, surpreendido, o guerreiro parou a ofensiva. Interpelou-a acerca da presença de uma tão bela mulher num triste espectáculo daqueles e perguntou-lhe também se estava só. Quando a moura respondeu que vivia com o tio, alcaide do castelo, o guerreiro mandou levá-la imediatamente para o seu acampamento. A luta prosseguiu entretanto.
O castelo acabou por ser tomado. Contudo, a jovem moura manteve-se refém dos cristãos e passou a viver feliz com o cavaleiro que a raptara.
Abed nunca lhe perdoou. Depois de restabelecido de um ferimento de guerra, voltou a Chaves disfarçado de mendigo. Um dia, esperou que a sua prometida passasse na ponte e pediu-lhe esmola. A jovem estendeu a mão ao pedinte e, nesse momento, Abel olhando-a nos olhos, disse-lhe que ficaria para sempre encantada sob o terceiro arco da ponte. Só o amor dum cavaleiro cristão - não aquele que a levou - poderia salvá-la. Contudo, disse-lhe também que esse cavaleiro nunca viria. Depois destas palavras, a jovem moura, que tinha reconhecido Abed, desapareceu para sempre. Abed fugiu de seguida.
Desesperado, o guerreiro cristão que com ela vivia tudo fez para a encontrar. Procurou incessantemente na ponte e até pagou para que lhe trouxessem Abed vivo para quebrar o encanto. Mas a moura encantada da ponte de Chaves nunca mais apareceu e o cristão morreu numa profunda dor e saudade ao fim de alguns anos.

Lendas Portuguesas

A Morte do Lidador




Diz a lenda que Gonçalo Mendes da Maia, nomeado Lidador pelas muitas batalhas ganhas contra os Mouros, decidiu celebrar os seus 95 anos com um ataque ao famoso mouro Almoleimar. Sabia de antemão que o exército de Almoleimar era muito superior ao seu mas, mesmo assim, saiu da cidade de Beja com trinta cavaleiros e trezentos homens de armas.
A batalha começou e ambos os exércitos se debateram com coragem. Gonçalo Mendes e Almoleimar lutaram entre si. Um golpe fatal matou o mouro e outro deixou Gonçalo Mendes Maia ferido de morte. O Lidador, moribundo, perseguiu com os seus homens os mouros que se puseram em fuga. O esforço de um último golpe sobre um cavaleiro árabe agravou os ferimentos do Lidador, que caiu morto. Os cerca de sessenta cristãos sobreviventes celebraram com lágrimas esta última vitória do Lidador.

Todos dependem da boca...

Certo dia, a boca, com ar vaidoso, perguntou:
-Embora o corpo seja um só, qual é o órgão mais importante?
Os olhos responderam:
- O órgão mais importante somos nós: observamos o que se passa e vemos as coisas.
- Somos nós, porque ouvimos - disseram os ouvidos.
- Estão enganados. Nós é que somos mais importantes porque agarramos as coisas, disseram as mãos.
Mas o coração também tomou a palavra:
- Então e eu? Eu é que sou importante: faço funcionar todo o corpo!
- E eu trago em mim os alimentos! - interveio a barriga.
- Olha! Importante é aguentar todo o corpo como nós, as pernas, fazemos.
Estavam nisto quando a mulher trouxe a massa, chamando-os para comer. Então os olhos viram a massa, o coração emocionou-se, a barriga esperou ficar farta, os ouvidos escutavam, as mãos podiam tirar bocados, as pernas andaram... mas a boca recusou comer. E continuou a recusar.
Por isso, todos os outros órgãos começaram a ficar sem forças...
Então a boca voltou a perguntar:
- Afinal qual é o órgão mais importante no corpo?
- És tu boca, responderam todos em coro. Tu é o nosso rei!


Nota: todos nós somos importantes e, para viver,temos de aprender a colaborar uns com os outros...


"Eu conto, tu contas, ele conta... Estórias africanas",
org. de Aldónio Gomes, 1999

Os Segredos da Nossa Casa



Certo dia, uma mulher estava na cozinha e, ao atiçar a fogueira, deixou cair cinza em cima do seu cão.
O cão queixou-se:
- A senhora, por favor, não me queime!
Ela ficou muito espantada: um cão a falar! Até parecia mentira...
Assustada, resolveu bater-lhe com o pau com que mexia a comida. Mas o pau também falou:
- O cão não me fez mal. Não quero bater-lhe!
A senhora já não sabia o que fazer e resolveu contar às vizinhas o que se tinha passado com o cão e o pau.
Mas, quando ia sair de casa a porta, com um ar zangado, avisou-a:
- Não saias daqui e pensa no que aconteceu. Os segredos da nossa casa não devem ser espalhados pelos vizinhos.
A senhora percebeu o conselho da porta. Pensou que tudo começara porque tratara mal o seu cão. Então, pediu-lhe desculpa e repartiu o almoço com ele.


Comentário : é fundamental sabermos conviver uns com os outros,assegurar o respeito mútuo, embora às vezes seja difícil...

Conto moçambicano

14/10/2009

Dom Duardos

Era pelo mês de Abril,
De Maio antes um dia,
Quando lírios e rosas
Mostram mais sua alegria;
Era a noite mais serena
Que fazer no céu podia
Quando a formosa infanta,
Flérida já se partia;
E na horta de seu padre
Entre as árvores dizia:
- «Com Deus vos ficade, flores,
Que éreis a minha alegria!
Vou-me a terras estrangeiras
Pois lá ventura me guia;
E se meu pai me buscare,
Pai que tanto me queria,
Digam-lhe, que amor me leva,
Que por vontade não ia;
Mas tanto ateimou comigo
Que me venceu co´a porfia.
Triste, não sei onde vou,
E ninguém não mo dizia!...»
Ali fala Dom Duardos:
- «Não choreis minha alegria,
que nos reinos da Inglaterra
mais claras águas havia,
e mais formosos jardins,
e flores de mais valia.
Tereis trezentas donzelas
Da alta genealogia;
De prata são os palácios
Para vossa senhoria;
De esmeraldas e jacintos
E oiro fino de Turquia,
Com letreiros esmaltados,
Que minha vida se lia,
Contando das vivas dores
Que me destes nesse dia
Quando Primalião
Fortemente combatia:

Matastes-me vós, senhora,
Que eu a ele não o temia...»
Sua lágrimas enxugava
Flérida que isto ouvia.
Já se foram as galeras
Que Dom Duardos havia.
Cinqüenta eram por conta,
Todas vão em companhia.
Ao som do doce remar
A princesa adormecia
Nos braços de Dom Duardos,
Que tão bem a merecia.

Saibam quantos são nascidos
Sentença que não varia:
Contra a morte e contra o amor
Que ninguém não tem valia.


Romanceiro, Almeida Garrett

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13/10/2009

A Mula da Rainha Santa


D. Mafalda, filha preferida de D. Sancho I e irmã favorita de D. Afonso II, era uma jovem e bela princesa. Foi escolhida para mulher de D. Henrique, herdeiro do trono de Castela, que tinha apenas doze anos quando se tornou rei. Contrariada com o casamento do filho, D. Berengária, a mãe de D. Henrique, invocou ao Papa a consanguinidade dos jovens e o divórcio teve lugar antes da súbita morte do rei, aos 14 anos. D. Mafalda regressou a Portugal virgem, e assim se manteve até ao fim da sua vida, passando desde então a ser tratada por "rainha". Viveu os últimos anos da sua vida no Mosteiro de Arouca, onde recebeu o hábito de monja. Morreu aos 90 anos durante uma cobrança de foros e rendas em Rio Tinto. Os habitantes de Rio Tinto queriam que ela lá fosse sepultada, mas os de Arouca discordavam porque D. Mafalda tinha passado a sua vida no Mosteiro de Arouca. Foi então que alguém se lembrou que D. Mafalda costumava viajar de mula e sugeriu pôr-se o caixão em cima da mula. Para onde ela se dirigisse seria o local da sepultura da "rainha". Assim foi, a mula dirigiu-se para o Mosteiro de Arouca e morreu.
O sepulcro de D. Mafalda foi duas vezes aberto no século XVII e tanto o seu corpo como as suas vestes estavam incorruptos. Em 1793, o Papa Pio VI confirmou-lhe o culto com o título de beata.






12/10/2009

A Ilha dos Amores


O mito da Ilha dos Amores é contado por Luís de Camões, nos Cantos IX e X d'Os Lusíadas. Nestes cantos, é relatada a vontade da deusa Vénus em premiar os heróis lusitanos, com um merecido descanso e com prazeres divinos, numa ilha paradisíaca, no meio do oceano, a Ilha dos Amores. Nessa ilha maravilhosa, os marinheiros portugueses podiam encontrar todas as delícias da Natureza e as sedutoras Nereidas, divindades das águas, irmãs de Tétis, com quem se podiam alegrar em jogos amorosos. Durante um banquete oferecido aos Portugueses, a ninfa Sirena canta as profecias sobre a gente lusa que incluem as suas glórias futuras no Oriente. Em seguida, Tétis, a principal das ninfas, conduz Vasco da Gama ao topo de um monte "alto e divino" e mostra-lhe, de acordo com a cosmografia geocêntrica de Ptolomeu, a "máquina do mundo", uma fábrica de cristal e ouro puro, à qual apenas os deuses tinham acesso, e que se tornou também num privilégio para os Portugueses. Tétis faz a descrição da máquina do mundo e prediz feitos valorosos, prémios e fama ao povo português. Depois do descanso merecido, os Portugueses partem da ilha e regressam a Lisboa.
O mito da Ilha dos Amores, narrado por Camões, é fruto da sua imaginação, quer povoada dos lugares maravilhosos onde as suas viagens o levaram, quer influenciada pelas míticas ilhas da literatura grega ou de outras lendas árabes e indianas. A moral pagã opõe-se aqui à moral cristã, da mesma forma que os novos ventos da mudança do renascimento de inspiração grega se opõem às limitações e ao pensamento medíocre da Inquisição.
Neste episódio simbólico da Ilha do Amores, Camões tenta imortalizar os heróis lusitanos que tão grandes façanhas fizeram em nome de Portugal.




11/10/2009

O Devoto e a Prostituta

Um homem muito praticante foi morar numa casa onde tinha por vizinha uma prostituta. Pouco tempo depois começou a aperceber-se do constante ir e vir dos homens que recorriam aos serviços da mulher. Escandalizado, começou a recriminar cruelmente a sua vizinha.
- "Malvada! Arrepende-te da tua conduta. Para que a cada dia que passa tenhas consciência dos teus actos horríveis, colocarei à tua porta uma pequena pedra por cada pecado que cometas".
Dia após dia, aquele homem devoto foi colocando pequenas pedras à porta da sua vizinha. Vigiava dia e noite aquela mulher e contabilizava exactamente cada homem que ia visitá-la. Dessa maneira, em pouco tempo juntou-se um razoável monte de pedras à frente da sua porta.
A mulher chorava ao ver que o monte de pedras aumentava e o seu coração sofria. A vida tinha-a empurrado para aquela situação e ela era a primeira a lamentar-se.
Uma noite, um terramoto destruiu a aldeia e morreram o devoto e a prostituta.
As almas dos sois foram levadas imediatamente diante dos juízes celestiais. Depois de passarem a vida de ambos e conhecendo os mais profundos segredos dos seus corações, sentenciaram:
"Que a alma da mulher seja levada ao paraíso, e a do homem seja conduzida ao inferno!"
"Um momento!" - interveio o homem devoto. "Deve haver algum engano. Foi ela quem pecou incessantemente até à hora da morte. Ao contrário eu respeitei as regras da moral estabelecida."
Os juízes olharam um para o outro sem darem qualquer crédito ao que estavam a ouvir e disseram:
"Não há nenhum erro. A alma da mulher está pura e o seu coração também. O seu corpo pecou, mas a vida levou-a para um destino que não pôde contrariar. Dia e noite rezava para poder sair dessa situação que muito a fazia sofrer. Tu, ao contrário, tens o coração cheio de ressentimento, culpa e juízo contra ela. Em vez de sentires generosidade e compaixão por ela, contribuiste para aumentar a sua humilhação e vergonha. Assim, que se cumpra a sentença!".

07/10/2009

Beatriz e o Mouro




Em tempos que já lá vão, no Castelo de Almourol, vivia D. Ramiro, um nobre godo, com a sua mulher e uma filha única chamada Beatriz. D. Ramiro era um chefe guerreiro com fama de impiedoso e cruel. Um dia, no caminho de regresso a casa, já próximo do seu castelo, avistou duas belas mouras, mãe e filha, transportando água numa bilha. D. Ramiro pediu-lhes de beber, mas as mouras assustaram-se e deixaram cair a bilha de água que se partiu. Furioso, D. Ramiro matou-as com a sua lança. Antes de morrer, a moura mais jovem amaldiçoou o cavaleiro cristão e toda a sua descendência. O irmão da rapariga moura assistiu horrorizado às mortes. D. Ramiro levou o jovem mouro como escravo para o castelo e pô-lo ao serviço de sua filha Beatriz. O mouro jurou vingar-se da morte das mulheres da sua família. Passados alguns anos, cumpriu-se a primeira parte da vingança: a mulher de D. Ramiro morreu envenenada. D. Ramiro, cheio de desgosto, resolveu ir combater os infiéis deixando Beatriz à guarda do mouro. Beatriz e o mouro apaixonaram-se perdidamente.
Um dia, D. Ramiro voltou ao seu castelo acompanhado pelo pretendente à mão da sua filha. Perante a situação, o mouro resolveu contar a Beatriz a história da sua desgraça e as juras de vingança.
A lenda conta que Beatriz e o mouro desapareceram e que D. Ramiro morreu pouco depois cheio de remorsos. Diz-se também que, na torre do castelo, no dia de S. João, ainda aparecem as almas do mouro e de Beatriz, com D. Ramiro de joelhos a pedir eterno perdão pelos seus crimes.


06/10/2009

As Arcas de Montemor



Era alcaide em Montemor-o-Velho um viúvo austero que tinha uma única filha. O alcaide protegia a filha dos olhares de todos como se fosse o maior tesouro do mundo.
Um dia, condenou à morte um dos seus fiéis cavaleiros só porque se apaixonou por ela. Quando a jovem soube da tragédia em que involuntariamente estava envolvida, ainda tentou interceder mas o pai permaneceu insensível às suas súplicas. Sem consentimento, a jovem resolveu visitar o cavaleiro nas masmorras. Assim que o viu, apaixonou-se também por ele e ambos fugiram do castelo.
O pai mandou capturá-los e ficou furioso quando soube que tinham casado. Então, por vingança, resolveu dar-lhes uma prenda maldita: duas arcas, uma com ouro e a outra com peste. O amor dos dois era tão grande que fugiram do louco alcaide, deixando para trás as duas arcas.
Nunca ninguém ousou abrir essas arcas, que ainda hoje estão enterradas nas muralhas do castelo de Montemor-o-Velho.


Lendas Portuguesas

A carangueja



Uma carangueja vaidosa via defeito em toda a bicharada. Ria-se do jeitão do sapo e da careta do macaco.
Um dia ela ficou mãe. E ao ver sua filhinha andar disse:
- Deus do céu! Minha filha, que coisa feia! Isso é jeito de andar?
E a caranguejinha respondeu:
- Mãe, você também é assim! Como poderia eu ser diferente?

Pe. Luiz Cechinato


02/10/2009

O crocodilo e o mangusto


Um crocodilo matou um homem que dormia sob uma palmeira e em seguida pôs-se a chorar amargamente.
- Veja disse um mangusto a seu filho - o crocodilo é um cínico, porque está chorando e daqui a pouco vai devorar sua vítima.
E de fato, dentro em breve o crocodilo começou tranquilamente a comer o homem.
Após a refeição adormeceu, à margem do rio, de boca aberta, a fim de que um passarinho amigo seu pudesse entrar dentro de sua boca e pegar com o bico os restos de comida que ficavam entre os dentes.
Com a digestão auxiliada pelo prestimoso passarinho, o crocodilo adormecido abriu mais ainda suas poderosa mandíbulas.
Então o mangusto disse ao filho:
- Agora observe com atenção e aprenda. O crocodilo possui uma forte armadura e seus flancos são protegidos contra mim. Mas vou mostrar como se mata um traidor.
E, dando uma corrida, atirou-se para dentro da boca do crocodilo e mordeu-lhe a garganta.
O crocodilo acordou sobressaltado e pôs-se a rolar pelo chão, urrando de dor. Finalmente, liquidado pelo mangusto, permaneceu inerte, morto, de barriga para cima.








01/10/2009

Cuidado e desejo

Ao longo de uma ribeira
Que vai pelo pé da serra,
Aonde me a mi fez a guerra
Muito tempo o grande amor,
Me levou a minha dor:
Já era tarde do dia,
E a água dela corria
Por entre um alto arvoredo,
Onde às vezes ia quedo
O rio, e às vezes não.

Entrada era do verão,
Quando começam as aves
Com seus cantares suaves
Fazer tudo gracioso.
Ao ruído saudoso
Das águas cantavam elas:
Todalas minhas querelas
Se me puseram diante;
Ali morrer quisera ante
Que ver por onde passei.
Mas eu que digo – passei!
Andes inda hei-de passar,
Em quanto hi houver pesar,
Que sempre o hi há-de haver.

As águas, que de correr
Não cessavam um momento,
Me trouxera ao pensamento,
Que assim eram minhas mágoas,
Donde sempre correm águas
Por estes olhos mesquinhos,
Que têm abertos caminhos
Pelo meio do meu rosto.
E já não tenho outro gosto
Na grande desdita minha.
O que eu cuidava que tinha
Foi-se-me assim não sei como,
Donde eu certa crença tomo
Que, para me leixar, veio.

Mas, tendo-me assi alheio
De mi o que ali cuidava,
Da banda donde água estava
Vi um homem todo cam120,
Que lhe dava pelo cham
A barba e o cabelo.
Ficando eu pasmado dele,
Olhando ele para mi,
Falou-me e disse-me assi:
- «Também vai esta água ao Tejo»

Nisto olhei, vi meu Desejo
Estar de trás triste e só,
Todo coberto de dó,
Chorando sem dizer nada,
A cara em sangue lavada,
Na boca posta ũa mão,
Como que a grande paixão
Sua fala lhe tolhia.
E o velho que tudo via,
Vendo-me também chorar
Começou a assi falar:
- «Eu mesmo são121 teu Cuidado
Que noutra terra criado,
Nesta primeiro nasci.
E essoutro que está aqui
É o teu Desejo triste;
Que má hora o tu viste
Pois nunca te esquecerá!
A terra e mar passará
Trespassando a mágoa a ti.»

Quando lhe eu aquisto ouvi,
Soltei suspiros ao choro;
Ali claramente o foro
Meus olhos tristes pagaram
De um bem só que eles olharam,
Que outro nunca mais tiveram.
Nem o tive, nem mo deram,
Nem o esperei somente:
De só ver fui tão contente,
Que pera mais esperar
Nunca me deram lugar.
E n’aquisto, triste estando
Com os olhos tristes olhando

Daquelas bandas d’além,
Olhei e não vi ninguém.
Dei então a caminhar
Rio abaixo, até chegar
À cerca de Montemor.
Com meus males de redor,
Da banda do meio-dia,
Ali minha Fantasia,
D’antre uns medrosos penedos,
Onde aves que fazem medos
De noite os dias vão ter,
Me saiu a receber
Com ũa mulher pelo braço,
Que, ao parecer de cansaço
Não podia ter-se em si,
Dizendo: - «Vês, triste, aqui
A triste Lembrança tua.»
Minha vista então na sua
Pus, dela todo me enchi:
A prima coisa que vi
E a derradeira também,
Que no mundo vão e vêm!

Seus olhos verdes rasgados
De lágrimas carregados,
Logo em vendo-os, pareciam
Que de lágrima enchiam
Contino as suas faces,
Que eram, gran’ tempo, paces
Antre mim e meus cuidados.
Loiros cabelos ondados
Um negro manto cobria:
Na tristeza parecia
Que lhe convinha morrer.
Os seus olhos de me ver,
Como furtados, tirou,
Depois em cheio me olhou.
Seus alvos peitos rasgando
Em voz alta se aqueixando,
Disse assi mui só sentida:
- «Pois que mor dor há na vida
Para que houve aí morrer?»
Calou-se sem mais dizer.
Eu de mi gemidos dando,
Fui-me para ela chorando
Para a haver de consolar...

Nisto pôs-se o sol ao mar,
E fez-se noite escura,
E disse mal à ventura
E à vida, que não morri...
E muito longe dali,
Ouvi de um alto oiteiro
Chamar: - «Bernardim Ribeiro!»
E dizer: - «olha onde estás!»
Olhei de ante e de trás
E vi tudo escuridão,
Cerrei meus olhos então,
E nunca mais os abri,
Que depois que a perdi
Nunca vi tão grande bem.
Porém inda mal, porém!


Romanceiro, Almeida Garrett






A casa de Mazalu



Era uma vez um sapo que se chamava Mazalu. O sapo Mazalu vivia muito quieto debaixo de uma pedra, junto ao rio. Certa manhã, o sapo Mazalu saiu a passeio e encontrou o seu amigo tatu. O tatu chamava-se Pavio.
- Como vai, amigo Mazalu? Como tem passado?
O sapo respondeu:
- Vou bem, obrigado, amigo Pavio.
Disse, então, o tatu:
- Qualquer dia apareço lá por sua casa. Vou fazer-lhe uma visita.
O sapo tremeu. E sabe por quê? Ele não tinha CASA. Morava embaixo de uma pedra, num lugar frio e cheio de lama. Como receber a visita de um amigo elegante como o Pavio?
Nesse mesmo dia, o sapo tratou de arranjar uma casa onde pudesse receber a visita do tatu.
- MACACO, você pode fazer uma casa para mim?
- Ora, se posso! - respondeu o macaco.
E sabe o que fez o macaco? Arranjou um caixote sem tampa e desse caixote fez uma casa para o sapo.
- Agora, sim - disse o sapo - posso receber a visita do meu amigo tatu.
Mas o tatu, no dia da visita, ficou muito triste. Não podia entrar na casa do sapo. O caixote era pequeno; ele não cabia lá dentro.
- Amigo sapo - disse o tatu - a sua casa é, para mim, pequena e desagradável. Pensei que você morasse debaixo de uma pedra, junto ao rio. Era lá que eu queria jantar com você.


Moral da Estória:
Aquele que é feliz numa casa modesta, não precisa aparentar riqueza para impressionar AMIGO.

Malba Tahan