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07/12/2009

O chapim de El-Rei ou parras verdes




I

Verdes parras tem a vinha,
Ricas uvas nela achei,
Tem maduras, tão coradas...
Estão dizendo «comei!»

«Quero saber quem nas guarda;
Ide, mordomo, e sabei.»
Disse o rei ao seu mordomo.
Mas porque o dizia o rei?

Porque viu naquele monte
- E como ele o viu não sei –
Essa dona emparedada,
Não se sabe pó que lei,

Que por seu mal é condessa,
Condessa de Valderei:
Antes ser pobre e vilão,
Antes pela minha fei! 17

*

Verdes parras tem a vinha:
Uvas que lhe vira el-rei
Tão maduras, tão coradas,
Estão dizendo “comei!”

II

Veio o mordomo do monte:
- Boas novas, senhor rei!
A vinha anda bem guardada,
Mas eu sempre lá entrei.

«O dono foi-se a outras terras,
Quando voltará não sei;
A porta é velha, e a porteira
Com chave de ouro a tentei.

«Serve a chave à maravilha,
Tudo por fim ajustei:
Esta noite, à meia – noite,
Convosco à vindima irei.»

- «Valeis um reino, mordomo,
Grandes mercês vos farei :
Esta noite, à meia – noite,
Ricas uvas comerei.»

*

A vinha tem parras verdes,
Madura a uva lhe achei;
E tão madura, tão bela,
Que está dizendo «comei!»

III

Ao pino da meia – noite
Foi mordomo e foi o rei:
Doblas que deram à velha,
Um conto que nem eu sei.

- «Mordomo ficai à porta,
À porta que eu entrarei;
Não me saltem cães na vinha
Enquanto eu vindimarei.»

A porteira o que lhe importa
É o dá – me que te darei...
No camarim da condessa
Veis agora entrar o rei.

Levava um candil aceso;
Era de prata, sabei:
Não há senão prata e oiro
Na casa de Valderei .

*

Da vinha as parras são verdes,
As uvas maduras sei,
São tão coradas, tão belas ...
Delas – quando comerei!

IV

No camarim da condessa
Tudo andava à mesma lei,
Era o céu daquele anjo:
Que mais vos diga não sei.

Ricas sedas de Milão,
Toalhas de Courtenei...
Tremia o rei – se era susto,
Se era de gosto não sei.

Cortinas de seda verde
Vai ergo não erguerei...
Tal clarão lhe deu na vista,
Como não caiu não sei.

Era uma tal formosura...
Ora que mais vos direi ?
Outro primor como aquele
Não vistes nem eu verei.

*

Verdes parras tem a vinha,
Ricas uvas lhe avistei,
Tão formosas, tão maduras,
Estão dizendo «comei»!

V

Dormia tão descansada
Como eu no céu dormirei
Quando for tão inocente ...
Jesus ! se eu lá chegarei !

De joelhos toda a noite
Ali fica o bom do rei,
Pasmado a olhar para ela
Sem bulir nem mão nem pei. 18

E dizia : _ “Senhor Deus”!
Perdoai-me o que já pequei,
Mas este anjo de inocência
Não seu eu que ofenderei.”

*

Tem verdes parras a vinha;
Lindas uvas que eu lhe achei,
Tenho medo que me travem...
Delas, ai! não comerei.

VI

Já vinha arraiando o dia,
E ele, como vos contei,
Ouve apitar o mordomo ...
- «Jesus, Senhor, me valei!»

Era o sinal ajustado
- Vindo o conde, apitarei –
Deixou cair as cortinas
Dizendo: - «Não vindimei!»

*

Lindas parras tem a vinha,
Belas uvas nela achei;
Mas doeu- me a consciência,
Das uvas não comerei.

VII

Deita a correr com tal pressa
Que voava o bom do rei:
«Ai que perdi um chapim...»
- «Tomai, que um meu vos darei.

«Mas nem um instante mais,
Que o conde já avistei;
Descendo daquela altura;
Se nos colherá não sei...»

Era o medo do mordomo:
Outro era o medo do rei.
Qual deles tinha razão
Agora vo–lo direi.

*

Parras verdes viu na vinha,
Uvas maduras de lei;
Foi travo da consciência,
Diz: - «Delas não comerei.»

VIII

Chega o conde à sua torre
O conde de Valderei.
Topou num chapim bordado ...
Como ficou não direi.

Vai –se ao quarto da condessa:
«Morrerá, mata-la-ei.»
Viu – a dormir tão serena:
- «Jesus! Não sei que farei.»

Corre a casa ao derredor:
- «Deus me tenha em sua lei,
Que ou esta mulher é bruxa
Ou eu c’o chapim sonhei!

«O chapim aqui o tenho,
O chapim bem no topei...
Mas que durma assim tão manso
Quem tal fez, não no crerei.»

Entrou a cismar naquilo:
- «Valha –me Deus! Que farei?
Por menos fica doido;
E eu como o não ficarei?»

*

Minha vinha tão guardada!
Uvas que nela deixei
Não é fruta que se conte ...
Da que me falta não sei.

IX

Foi-se fechar no mais alto
Da torre de Valderei:
- «Não quero comer do pão,
Nem do vinho beberei;

«Minhas barbas e cabelos
Também mais os não farei,
Que esta verdade não saiba
Daqui me não tirarei.»

Verdes parras dessa vinha,
Uvas que eu não comerei,
Ficai-vos secas embora,
Que eu já’gora – morrerei.

X

Por três dias e três noites
Que se guarda aquela lei;
Clama a triste da condessa:
- «Ao seu mal que lhe farei?»

De quem foi ela valer –se ?
Agora vo –lo deirei.
Foi lastimar –se a inocente ...
Onde iria? _ ao próprio rei.

- «Ide, condessa, ide embora,
Que eu remédio lhe darei;
O segredo do seu mal
Sei –o eu... Se o saberei?

«Palavra de cavaleiro
Em lealdade vos darei,
Que ou ele há de ser o que era,
Ou eu, quem sou, não serei.»

*

As verdes parras da vinha,
As uvas que eu cobicei,
Elas a travar –me n’alma ...
E mais delas não provei!

XI

Fora dali a condessa,
Não tardou em ir o rei:
- «Quero ouvir o que eles dizem,
A esta porta escutarei.»

Ouvi uma voz celeste
Como tal nunca ouvirei,
Cantando em doce toada
Este triste virelei:

- Já fui vinha bem cuidada,
Bem querida, bem tratada:
Como eu medrei!
Ora não sou nem serei:

O porquê não se
Nem no saberei!”
Com as lágrimas nos olhos
Foi dali o bom do rei:

- «Oiçamos agora o outro,
E o que sabe, saberei!»
- «Minha vinha tão guardada!
Quando nela entrei

Rastos do ladrão achei;
Se me ele roubou não sei:
Como o saberei?»
Era o conde a lastimar–se.

Sorrindo dizia o rei
(Se era de si ou do conde
Que ele se ria não sei):
- «Eu fui que na vinha entrei,

Rastos de ladrão deixei,
Parras verdes levantei,
Uvas belas
Nelas – vi:

E assim Deus me salve a mi
Como delas
Não comi!»

XII

A porta tinha uma fresta:
Tirou o chapim do pei,
Atirou –lho para dentro,
Disse –lhe : «Vede e sabei.»

Do mais que ali sucedeu
Para que vos contarei?
O conde soube a verdade,
E o rei soube – ser rei.

*

Verdes parras tem a vinha,
Ricas uvas lá deixei:
Quem ma guardou foi o medo ...
De Deus e da sua lei.


Romanceiro, Almeida Garrett

03/12/2009

O cego





- «Abre a porta, Ana, abre de mansinho,
Que venho ferido, morto do caminho.»
- «Se vindes ferido, pobre coitado!
Ireis muito embora por outro caminho.»
- «Ai! abre-me a porta, abre de mansinho,
Que tão cego venho, não vejo o caminho.»
- «Porta nem postigo não abro ao ceguinho,
Vá-se na má hora pelo mau caminho.»
- «Ai do pobre cego que anda sozinho
Cantando e pedindo por esse caminho!»

Minha mãe acorde, oiça aqui baixinho
Como canta o cego que perdeu o caminho»
- «Se ele canta e pede, dá-lhe pão e vinho;
E o pobre cego que vá o seu caminho.»
- «O teu pão não quero, não quero o teu vinho,
Quero só que Aninhas128 me ensine o caminho.»
- «Toma a roca, Ana, carrega-a de linho,
Vai com o pobre cego, pô-lo a caminho.»
- «Espiou-se a roca, acabou-se o linho,
Fique embora o cego, que este é o seu caminho.»
- «Anda mais, Aninhas, mais um bocadinho,
Sou um pobre cego, não vejo o caminho.»
- «Ai! arreda, arreda para este altinho,
Que aí vêm cavaleiros por esse caminho.»
- «Se vêm cavaleiros, vêm devagarinho,
Que há muito me tardam por este caminho.»
A cavalaria passou de mansinho...
Cego, lo meu cego já via o caminho.
Montou-me a cavalo com muito carinho...
Um cego me leva... e vejo o caminho!

Romanceiro, Almeida Garrett

02/11/2009

A Peregrina

Peregrina, a peregrina
Andava a peregrinar
Em cata de um cavaleiro
Que lhe fugiu, mal pesar!
A um castelo torreado
Pela tarde foi parar:
Sinais certos, que trazia
Do castelo, foi achar.
- «Mora aqui o cavaleiro?
Aqui deve de morar.»
Respondera-lhe uma dona
Discreta no seu falar:
- «O cavaleiro está fora,
Mas não deve de tardar.
Se tem pressa a peregrina,
Já lho mandarei chamar.»
Palavras não eram ditas,
O cavaleiro a chegar:
- «Que fazeis porqui, senhora,
Quem vos trouxe a este lugar?»
- «O amor de um cavaleiro
Por aqui me faz andar.
Prometeu de voltar cedo,
Nunca mais o vi tornar.
Deixei meu pai, minha casa,
Corri por terra e por mar
Em busca do cavaleiro,
Sem nunca o poder achar.»
- «Negro fadairo, senhora,
Que tarde vos fez chegar!
Eu de vosso pai fugia
Que me queria matar;
Corri terras, passei mares,
A este castelo vim dar.

Antes que fosse ano e dia
(Vós me fizestes jurar)
Com outra dama ou donzela
Não me havia desposar.
Ano e dia eram passados
Sem de vós ouvir falar,
Co’a dona desse castelo
Eu ontem me fui casar...»
Palavras não eram ditas,
A peregrina a expirar.
- «Ai penas de minha vida,
Ai vida de meu penar!
Que farei desta lindeza
Que em meus braços vem finar?»

Do alto de sua torre
A dama estava a raivar:
- «Leva-la daí, cavaleiro,
E que a deitem ao mar.»
- «Tal não farei eu, senhora,
Que ela é de sangue real...
E amou com tanto extremo
A quem lhe foi desleal.
Oh! quem não se sabe ser firme,
Melhor fora não amar.»
Palavras não eram ditas
O cavaleiro a expirar.
Manda a dona do castelo
Que os vão logo enterrar
Em duas covas bem fundas
Ali junto à beira-mar.
Na campa do cavaleiro
Nasce um triste pinheiral;
E na campa da princesa
Um saudoso canavial.
Manda a dona do castelo
Todas as canas cortar;
Mas as canas das raízes
Tornavam a rebentar:
E à noite a castelhana
As ouvia suspirar.


Romanceiro, Almeida Garrett



31/10/2009

Avalor




Pela ribeira de um rio
Que leva as águas ao mar,
Vai o triste de Avalor,
Não sabe se há-de tornar.
As águas levam seu bem,
Ele leva o seu pesar;
E só vai, sem companhia,
Que os seus fora ele deixar;
117Cá quem não leva descanso
Descansa em só caminhar.
Descontra donde ia a barca,
Se ia o sol a baixar;
Indo-se abaixando o sol,
Escurecia-se o ar;
Tudo se fazia triste
Quanto havia de ficar.
Da barca levantam remos,
E ao som do remar
Começaram os remeiros
Da barca este cantar:
- «Que frias eram as águas!
Quem as haverá de passar?»
Dos outros barcos respondem:
- «Quem as haverá de passar?
Frias são as águas, frias,
Ninguém nas pode passar;
Senão quem pôs a vontade
Donde a não pode tirar.
118Tra’la barca lhe vão olhos
Quanto o dia dá lugar:
Não durou muito, que o bem
Não pode muito durar.
Vendo o sol posto contr’ele119,
Não teve mais que pensar;
Soltou rédeas ao cavalo
À beira do rio a andar.
A noite era calada
Pera mais o magoar,
Que ao compasso dos remos
Era o seu suspirar.
Querer contar suas mágoas
Seria areias contar;
Quanto mais ia alongando,
Se ia alongando o soar.
Dos seus ouvidos aos olhos
A tristeza foi igualar;
Assi como ia a cavalo
Foi pela água dentro entrar.
E dando um longo suspiro
Ouvia longe falar:
Onde mágoas levam olhos,
Vão também corpo levar.
Mas indo assi por acerto,
Foi c’um barco amarrado à terra,
E seu dono era a folgar.
Saltou assi como ia, dentro,
E foi a amarra cortar:
A corrente e a maré
Acertaram-no a ajudar.
Não sabem mais que foi dele,
Nem novas se podem achar:
Suspeitaram que foi morto,
Mas não é pera afirmar:
Que o embarcou ventura,
Pera só isso aguardar.
Mas mais são mágoas do mar
Do que se podem curar.


Romanceiro, Almeida Garrett

22/10/2009

A ama

Pansando-vos estou filha,
Vossa mãe me está lembrando;
Enchem-se-me os olhos de água,
Nela vos estou lavando.

Nasceste, filha, entre mágoa;
Para bem inda vos seja!
Pois em vosso nascimento
Fortuna vos houve inveja.

Morto era o contentamento
Nenhuma alegria ouvistes;
Vossa mãe era finada,
Nós outro éramos tristes.

Nada114 em dor, em dor criada,
Não sei onde isto há-de ir ter:
Vejo-vos, filha, fermosa,
Com olhos verdes crescer.

Não era esta graça vossa
Pera nascer em desterro:
Mal haja a desaventura
Que pôs mais nisto que o erro!

Tinha aqui sua sepultura
Vossa mãe, e a mágoa a nós!
Não éreis vós, filha, não,
Pera morrerem por vós.

Não ouvem fados razão,
Nem se consentem rogar;
De vosso pai hei mor dó,
Que de si se há-de queixar.

Eu vos ouvi a vós só
Primeiro que outrem ninguém;
Não fôreis vós se eu não fora:
Não sei se fiz mal se bem.

Mas não pode ser, senhora,
Pera mal nenhum nascerdes,
Com esse riso gracioso
Que tendes sob olhos verdes.

Conforto, mas duvidoso,
Me é este que tomo assi!
Deus vos dê melhor ventura
Do que tiveste te aqui.

A Dita e a Fermosura,
Dizem patranhas antigas,
Que pelejaram um dia,
Sendo dantes muito amigas.

Muitos hão115 que é fantesia:
Eu, que vi tempos e anos,
Nenhuma coisa duvido
Como ela é azo de danos116

Nem nenhum mal não é crido,
O bem só é esperado:
E na crença e na esperança,
Em ambas há hi cuidado,
Em ambas há hi mudança.


Romanceiro, Almeida Garrett




14/10/2009

Dom Duardos

Era pelo mês de Abril,
De Maio antes um dia,
Quando lírios e rosas
Mostram mais sua alegria;
Era a noite mais serena
Que fazer no céu podia
Quando a formosa infanta,
Flérida já se partia;
E na horta de seu padre
Entre as árvores dizia:
- «Com Deus vos ficade, flores,
Que éreis a minha alegria!
Vou-me a terras estrangeiras
Pois lá ventura me guia;
E se meu pai me buscare,
Pai que tanto me queria,
Digam-lhe, que amor me leva,
Que por vontade não ia;
Mas tanto ateimou comigo
Que me venceu co´a porfia.
Triste, não sei onde vou,
E ninguém não mo dizia!...»
Ali fala Dom Duardos:
- «Não choreis minha alegria,
que nos reinos da Inglaterra
mais claras águas havia,
e mais formosos jardins,
e flores de mais valia.
Tereis trezentas donzelas
Da alta genealogia;
De prata são os palácios
Para vossa senhoria;
De esmeraldas e jacintos
E oiro fino de Turquia,
Com letreiros esmaltados,
Que minha vida se lia,
Contando das vivas dores
Que me destes nesse dia
Quando Primalião
Fortemente combatia:

Matastes-me vós, senhora,
Que eu a ele não o temia...»
Sua lágrimas enxugava
Flérida que isto ouvia.
Já se foram as galeras
Que Dom Duardos havia.
Cinqüenta eram por conta,
Todas vão em companhia.
Ao som do doce remar
A princesa adormecia
Nos braços de Dom Duardos,
Que tão bem a merecia.

Saibam quantos são nascidos
Sentença que não varia:
Contra a morte e contra o amor
Que ninguém não tem valia.


Romanceiro, Almeida Garrett

medieval-costumes-1.jpg (image)

[medieval-costumes-1.jpg]

01/10/2009

Cuidado e desejo

Ao longo de uma ribeira
Que vai pelo pé da serra,
Aonde me a mi fez a guerra
Muito tempo o grande amor,
Me levou a minha dor:
Já era tarde do dia,
E a água dela corria
Por entre um alto arvoredo,
Onde às vezes ia quedo
O rio, e às vezes não.

Entrada era do verão,
Quando começam as aves
Com seus cantares suaves
Fazer tudo gracioso.
Ao ruído saudoso
Das águas cantavam elas:
Todalas minhas querelas
Se me puseram diante;
Ali morrer quisera ante
Que ver por onde passei.
Mas eu que digo – passei!
Andes inda hei-de passar,
Em quanto hi houver pesar,
Que sempre o hi há-de haver.

As águas, que de correr
Não cessavam um momento,
Me trouxera ao pensamento,
Que assim eram minhas mágoas,
Donde sempre correm águas
Por estes olhos mesquinhos,
Que têm abertos caminhos
Pelo meio do meu rosto.
E já não tenho outro gosto
Na grande desdita minha.
O que eu cuidava que tinha
Foi-se-me assim não sei como,
Donde eu certa crença tomo
Que, para me leixar, veio.

Mas, tendo-me assi alheio
De mi o que ali cuidava,
Da banda donde água estava
Vi um homem todo cam120,
Que lhe dava pelo cham
A barba e o cabelo.
Ficando eu pasmado dele,
Olhando ele para mi,
Falou-me e disse-me assi:
- «Também vai esta água ao Tejo»

Nisto olhei, vi meu Desejo
Estar de trás triste e só,
Todo coberto de dó,
Chorando sem dizer nada,
A cara em sangue lavada,
Na boca posta ũa mão,
Como que a grande paixão
Sua fala lhe tolhia.
E o velho que tudo via,
Vendo-me também chorar
Começou a assi falar:
- «Eu mesmo são121 teu Cuidado
Que noutra terra criado,
Nesta primeiro nasci.
E essoutro que está aqui
É o teu Desejo triste;
Que má hora o tu viste
Pois nunca te esquecerá!
A terra e mar passará
Trespassando a mágoa a ti.»

Quando lhe eu aquisto ouvi,
Soltei suspiros ao choro;
Ali claramente o foro
Meus olhos tristes pagaram
De um bem só que eles olharam,
Que outro nunca mais tiveram.
Nem o tive, nem mo deram,
Nem o esperei somente:
De só ver fui tão contente,
Que pera mais esperar
Nunca me deram lugar.
E n’aquisto, triste estando
Com os olhos tristes olhando

Daquelas bandas d’além,
Olhei e não vi ninguém.
Dei então a caminhar
Rio abaixo, até chegar
À cerca de Montemor.
Com meus males de redor,
Da banda do meio-dia,
Ali minha Fantasia,
D’antre uns medrosos penedos,
Onde aves que fazem medos
De noite os dias vão ter,
Me saiu a receber
Com ũa mulher pelo braço,
Que, ao parecer de cansaço
Não podia ter-se em si,
Dizendo: - «Vês, triste, aqui
A triste Lembrança tua.»
Minha vista então na sua
Pus, dela todo me enchi:
A prima coisa que vi
E a derradeira também,
Que no mundo vão e vêm!

Seus olhos verdes rasgados
De lágrimas carregados,
Logo em vendo-os, pareciam
Que de lágrima enchiam
Contino as suas faces,
Que eram, gran’ tempo, paces
Antre mim e meus cuidados.
Loiros cabelos ondados
Um negro manto cobria:
Na tristeza parecia
Que lhe convinha morrer.
Os seus olhos de me ver,
Como furtados, tirou,
Depois em cheio me olhou.
Seus alvos peitos rasgando
Em voz alta se aqueixando,
Disse assi mui só sentida:
- «Pois que mor dor há na vida
Para que houve aí morrer?»
Calou-se sem mais dizer.
Eu de mi gemidos dando,
Fui-me para ela chorando
Para a haver de consolar...

Nisto pôs-se o sol ao mar,
E fez-se noite escura,
E disse mal à ventura
E à vida, que não morri...
E muito longe dali,
Ouvi de um alto oiteiro
Chamar: - «Bernardim Ribeiro!»
E dizer: - «olha onde estás!»
Olhei de ante e de trás
E vi tudo escuridão,
Cerrei meus olhos então,
E nunca mais os abri,
Que depois que a perdi
Nunca vi tão grande bem.
Porém inda mal, porém!


Romanceiro, Almeida Garrett






01/09/2009

Rosalinda

Era por manhã de maio,
Quando nas aves a piar,
As árvores e as flores,
Tudo se anda a namorar;

Era por manhã de Maio,
À fresca riba do mar,
Quando a infata Rosalinda
Ali se estava a toucar

Trazem das flores vermelhas,
Das brancas para a enfeitar;
Tão lindas flores como ela
Não nas puderam achar.

Que é Rosalinda mais linda
Que a rosa, que o nenúfar,
Mais pura que a açucena
Que a manhã abre a chorar.

Passava o Conde almirante
Na sua galé do mar;
Tantos remos tem por banda
Que se não podem contar.

Cativos que vão remando
A Moirama os foi tomar;
Deles são grandes senhores,
Deles de sangue real.

Que não há moiro seguro
Entre Ceuta e Gilbreltar,
Mal sai o conde almirante
Na sua galé do mar.

Oh que tão linda galera,
Que tão certo é seu remar!
Mais lindo capitão leva
Mais certo no marear.

- «Dizei-me, ó conde almirante,
Da vossa galé do mar,
Se os cativos que tomais
Todos los fazeis remar?»

- «Dizei-me, bela infanta
Linda rosa sem igual,
Se os escravos que lá tendes
Todos vos sabem toucar?»

- «Cortês sois, Dom Almirante;
Sem responder, perguntar!»
- Responder, responderei,
Mas não vos hei-de enfadar.

«Cativos tenho de todos,
Mais basto que um anduar;
Uns que mareiam as velas as velas,
Outros são banco a remar.

As cativas que são lindas
Na popa vão a dançar,
Tecendo alfombras de flores
Para o senhor se deitar.

- «Respondeis, respondo eu,
Que é boa lei de pagar:
Tenho escravos pra tudo.
Que fazem o meu mandar;

Deles para me vestir,
Deles para me toucar...
Para um só tenho outro emprego,
Mas está por cativar...»

- «Cativo está, tão cativo
Que se não quer resgatar.
Rema, a terra a terra, moiros,
Voga certo, e a varar!»

Já se foi a Rosalinda
Com o almirante a folgar:
Fazem sombra as laranjeiras,
Goivos lhe dão cabeçal.

Mas fortuna, que não deixa
A nenhum bem sem desar,
Faz que um monteiro de el-rei
Por ali venha a passar.

- «Oh monteiro, do que visto,
Monteiro, não vás contar:
Dote tantas bolsas de oiro
Quantas tu possas levar.»

Tudo o que viu o monteiro
A el-rei o foi contar,
A casa da estudaria
Onde el-rei estava a estudar.

- «Se à puridade o disseras,
Tença te havia de dar:
Quem tais novas dá tão alto,
Alto há de ir... a enforcar,

«Arma, arma meus archeiros
Sem charamelas tocar!
Cavaleiros e peões,
Tudo à tapada a cercar.»

Inda não é meio-dia,
Começa a campa a dobrar;
Inda não é meia-noite,
Vão ambos a degolar.

Ao tope de ave-marias
Foram ambos a enterrar:
A infata no altar-mor,
Ele à porta principal.

Na cova Rosalinda
Nasce uma árvore real,
E na cova do almirante
Nasceu um lindo rosal..

El-rei, assim que tal soube,
Mandou-os logo cortar,
E que os fizesse em lenha.
Para no lume queimar.

Cortados e recortados
Tornavam a rebentar:
E o vento que os encostava,
E eles iam-se abraçar.

El-rei, quando tal ouviu,
Nunca mais pode falar;
A rainha, que tal soube,
Caía logo mortal.

- «Não me chamem mais rainha,
Rainha de Portugal...
Apertei dois inocentes
Que Deus queria juntar!»

Romanceiro, Almeida Garrett





31/08/2009

O anjo e a princesa



...Waft me hence to thy owu sphere,
Thy heaven or – ay, even that wit thee.

MOORE, LOVES OF THE ANGELS



Oh que choros vão no paço
Oh que lutos, que tristeza!
Morre, morre a cada instante
A nossa linda princesa.

Os físicos não se entendem,
Vão-se uns e outros vêm;
Mas o mal que ela padece
Não lho descobre ninguém.

Nos olhos que se lhe enturvam,
Já treme a luz derradeira.
Reza o ofício da agonia
Negro monge à cabeceira.

Se inda chegará a tempo
Dessas guerras dalém-mar
O bom do rei que inda possa
A sua filha abraçar!

A filha que ele ama tanto,
Única filha querida,
A menina dos seus olhos,
Bordão da cansada vida!

Pois chegou. Tanto cativo,
Tanto despojo que traz!...
Com vitórias o enganava
Fortuna, que acinte o faz.

Pelas porta do palácio
O real cortejo entrava,
Olha o rei a um lado e outro,
Nem uma voz o aclamava...

Pela filha, que não via,
Não se atreve a perguntar,
Mas ao quarto da princesa
Foi direto sem parar:

- Minha filha, minha filha !
Que tens tu, filha querida?
E ela abria os olhos turvos
Que já não têm quase vida...

«A metade do meu reino,
Da minha c’roa real,
A quem salvar a princesa,
Quem acertar c’o este mal.»

A estas palavras do pai
Meneia a pálida fronte,
Com quem diz: «Não o entendem,
Nem cura o meu mal consente.»

- «São pesares... não se sabe...»
Responde o físico-mor,
Outro mal lhe não descubro...
Só se for o mal d’amor.»

Um rubor desfalecido
Assomou na face lenta
Que já do suor da morte
Se cobria macilenta.

Os olhos que no pai tinha
Cravados desde que o viu,
Com mostras de pejo e medo
Para a terra os descaiu.

- «Não tenhas, filha, receio,
Levanta os olhos, querida;
Seja quem for, será teu:
Jurei-o por tua vida,

Seja ele ou rico ou pobre,
Seja fidalgo ou peão,
Desde já por genro o tomo,
E aqui lhe dou tua mão.»

Como quem o ultimo esforço
De doce mágoa fazia,
Com inefável brandura
Os olhos ao pai erguia;

Suave longo suspiro
Dentre os lábios lhe fugiu...
Era a vida que passava,
Que sem dor se despediu.

Foram para a amortalhar,
No peito um sinal lhe achavam
De letras que ninguém leu,
Que estranhas formas tomavam.

Sete sábios são chamados
Para haver de as decifrar:
Cada um sete línguas sabe,
Não nas podem soletrar.

Só o mais velhos dos sete,
Que andara na Palestina,
Disse: - «Outras letras como estas
Eu já vi numa ruína,

«Junto dos cedros do Líbano,
Já no meio entre a terra e o céus,
Do tempo que às filhas do homem
Falavam anjos de Deus.

«Mas lê-las não sei nem posso:
Nem que soubesse, o fizera:
Segredos são de outro mundo
Que, neste, Deus não tolera.»

No alto daquele monte
Um alto cedro nasceu;
Ou anjos o semearam,
Ou foram aves do céu.

Que ali cresceu de repente,
De uma noite para um dia;
E outro igual em todo o reino
Como aquele não havia;

Foi à noite que a princesa
Ali veio a sepultar;
Era um sítio seu querido
Donde soia de estar,

Aonde horas esquecidas,
Sòzinha, de quando em quando,
Com as estrelas do céu
Parecia estar falando;

E onde, uma noite sem lua
Que as estrelas mais bilhavam,
Houve quem visse nos ares
Umas roupas que alvejavam,

E descer a pouco e pouco,
E ao pé da infanta parar
Um vulto... visão... ou sombra...
Mas sombra de luz sem par:

E foi desde aquela noite
Que a não viu mais rir ninguém.
Anjo era o que lhe falava...
Mas se Deus... ou de quem?...


Romanceiro, Almeida Garrett

21/08/2009

Noie de S. Joãp


Té os moiros da Moirama
Festejam a São João;
São João, São João, São João
Daí-me pêras do vosso balcão.

Cantiga Popular


I

Meia noite já é dada,
São João, meu São João,
Nesta noite abençoada
Ouvi a minha oração!

Ouvi-me santo bendito,
Ouvi a minha oração,
Com ser eu moira nascida
E vós um santo cristão:

Que eu já deixei a Mafona
E a sua lei do Alcorão,
E só quero a vós, meu santo,
Santo do meu Dom João.

II

Como eu queimo esta alcachofra
Em vossa fogueira benta,
Amor queime a saudade
Que no peito me rebenta.

Como arde esta alcachofra
Na vossa fogueira benta,
Assim arda a negra barba
Do moiro que me atormenta.

Como esta fogueira abrasa
A minha alcachofra benta,
Ao meu cavaleiro abrase
A chama de amor violenta.

III

Sacudi do alto do céu
Vossa capela de flores,
Que neste ramo queimado
Renasçam por meus amores.

Orvalhadas milagrosas
Que saram de tantas dores,
Neste coração, meu santo,
Acalmem os meus ardores.

São João, meu São João,
Santo de tantos primores,
Nesta noite abençoada,
Oh! trazei-me os meus amores!

IV

Já se apagava a fogueira,
Já se acabava a oração,
Ainda está de joelhos
A moira no seu balcão.

Os olhos tinha alongados,
Batia-lhe o coração;
Muita fé tem aquela alma,
Grande é a sua devoção!

Ouviu-a o santo bendito:
Que por sua intercessão,
Daquele êxtase acordava
Nos braços de Dom João.


Romanceiro, Almeida Garrett





09/08/2009

Bernal Francês

I

Ao mar se foi D.Ramiro
Galé formosa levava;
Seu pendão terror de Mouros
N’alta popa tremulava.

Oh que adeus na despedida!
De saudades vai ralado;
Com tantos anos de amores;
Não tem um de desposado.

Nem há dama em toda a Espanha
Tão bela como é Violante;
Não a houvera igual no mundo
Se ela forma mais constante.

Bate o mar na babaca
Do castelo alevantado,
Só a vela 15 na alta torre
Não cede ao sono pesado.

Tudo o mais repousa e dorme,
Tudo é silencioso ao redor,
Dobra o recato nas portas
Com a ausência do senhor.

Mas a certa hora da noite
Se vê luz numa seteira,
E logo cruzar por perto
Leve barca aventureira.

Muitas noites que passaram,
Manso esteja ou bravo o mar,
A mesma luz, á mesma hora,
A mesma barca a passar.

E isto ignora o bom Rodrigo,
Que tão fiel prometeu
De guardar a seu senhor
Juramento que lhe deu?

Saberá, não saberá:
Mas a c’ravela ligeira,
Que ao pé da torre varada
Jazia ali ribeira,

Uma noite escura e feia
Na praia menos se achou...
Quem n’ela foi não se sabe,
Mas onde foi não tornou.

E o farol que no alto luz
A mesma hora a brilhar...
Só a barca aventureira
Não foi vista hoje passar.

E dum lado ao pé da rocha
Havia um falso postigo:
Só o sabem D.Ramiro,
Violante e o fiel Rodrigo.

Mas alta noite, horas mortas,
Gente que o postigo entrava,
E á porta de Violante
Manso bater se escutava

- «Quem bate á minha porta,
Quem bate, oh! Quem ‘esta aí?»
- «Sou Bernal Francês, senhora,
Vossa porta a amor abri.»

Ao descer do leito d’oiro
A fina Holanda rasgou,
Ao abrir mansinho a porta
A luz que se lhe apagou:

Pela mão tremente o toma,
Ao seu aposentí o guia:
-«Como treme, amor querido,
Esta mão, como está fria!»

E com ósculos ardentes
E no seio palpitante,
Que lhe aquece as frias mãos
A namorada Violante.

-«De longe vens? - De mui longe.»
-«Bravo estava o mar? - Tremendo.»
-«Armado vens!» - Não responde.
Vai-lhe as armas desprendendo.

Em pura essência de rosas
O amado corpo banhou,
E em seu leito regalado
A par de si o deitou.

-«Meia-noite já é dada
Sem para mim te voltares,
Que tens tu, querido amante,
Que me encobres teus pesares?

«Se temes de meus irmãos,
Eles não virão aqui;
Se de meu cunhado temes,
Não é homem para ti.

«Meus criados e vassalos
Por essa torre a dormir
Nem de nosso amor suspeitam,
Nem o podem descobrir.

«Se de meu marido temes,
A longes terras andou:
Por lá a detenham Mouros,
Saudades cá não deixou».

-«Eu não temo os teus criados,
Meus criados também são:
Irmãos nem cunhado temo,
São meus cunhados e irmãos.

De teu marido não temo
Nem tenho de que temer...
Aqui está ao pé de ti
Tu é que deves tremer.»

II

E o sol no oriente erguido
Da torre ameias dourava;
Violante mais bela que ele
Para a morte caminhava:

Alva tela, áspera e dura
Veste o corpo delicado,
Por cintura rijo esparto
Em grosseiro laço atado.

Choram pajens e donzelas,
Que a piedade o crime esquece;
O próprio ofendido esposo
Com tal vista se enternece.

Dá sinal a campa triste,
O algoz o cutelo afia...
«Meu senhor mereço a morte»
A malfada dizia.

«De joelhos, D.Ramiro,
Humilde perdão vos peço;
Perdoai-me por piedade...
A morte não, que a mereço:

«Da afronta que vos hei feito
Por minha triste cegueira,
Dai-me quitação co’a morte
Nesta hora derradeira:

«Mas só eu sou criminosa
Do agravo que vos fiz,
Não tireis, senhor, vingança
Desse misero infeliz...»

Talvez ai perdoar-lhe
O esposo compadecido...
Renovou-se-lhe o ódio todo,
Daqueles rogo ofendido:

O semblante roxo de ira
Para não vê-la torceu;
E co’a esquerda mão alçada
O fatal aceno deu.

Sobre o colo cristalino,
Desmaiado, e inda tão belo,
E golpe tremendo e súbito
Caí o terrível cutelo.

III

Oh! que procissão que sai
Da antiga porta da torre!
Que gente que acode a vê-la.
Que povo que triste corre!

Tochas de pálida cera
Nas trevas da noite escura
Vão dando luz baça e triste,
Luz que guia á sepultura:

Cobertos com seus capuzes
Rezam frades ao redor,
A dobrar desentoados
Os sinos causam terror...

Dias noites são passados,
Já não há luz na seteira,
Mas passado e repassando
Anda a barca aventureira.

Linda barca tão ligeira
Que nenhum mar soçobrou,
O farol que te guiava,
Já não luz, já se apagou.

A tua linda Violante,
O teu encanto tão belo,
Teve por ti feia morte,
Crua morte de cutelo.

Na igreja de San Gil
Ouves a campa a dobrar?
Vê essas tochas ao longe:
Ela que vai a enterrar.

Já se fez o enterramento,
Já cahiu a lousa fria,
Só na igreja solitária
Um cavalheiro se via;

Vestido de dó tão negro,
E mais negro o coração,
Sobre a fresca sepultura
De rojo se atira ao chão:

«Abre-te, ó campa sagrada,
Abre-te a um infeliz!...
Seremos na morte unidos,
Já que em vida o céu não aqui.

«Abre-te, ó campa sagrada,
Que escondes tal formosura,
Esconde também meu crime
Com a sua desventura.

«Vida que eu viver não quero,
Vida que eu só tinha nela,
Recebe-a, ó campa sagrada,
Que não posso já sofrê-la.»

E o pranto de correr,
E os soluços de estalar,
E a mão que leva á espada
Para ali se traspassar.

Mas a mão gelou no punho
Voz que da campa se erguia
Voz que ainda é suave e doce,
Mas tão medonha e tão fria,

Do sepulcro tão cortada,
Que as carnes lhe arripia
E vida deixou parada:
- «Vive, vive, cavaleiro,

Vive tu, que eu já vivi;
Morte que me deu meu crime,
Fui eu só que a mereci.
«Ai, neste gelo de campa,

Onde tudo é frio horror,
Só da existência conservo
Meu remorso e meu amor!
«Braços com que te abraçava

Já não tem vigor em si;
Cobre a terra húmida e dura
Os olhos com que te vi;
«Boca com que te beijava

Já não tem sabor em si;
Coração com que te amava...
Ai! Só nesse não morri!
«Vive, vive, cavaleiro,

Vive, vive e sê ditoso;
E aprende em meu triste fado
A ser pai e a ser esposo.
«Donzela com quem casares

Chama-lhe também Violante;
Não amarás mais do que eu...
Mas - que seja mais constante!
«Filhas que dela tiveres

Ensina-me melhor que a mim.
Que se não percam por homens
Como eu me perdi por ti.»



Romanceiro, Almeida Garrett





02/07/2009

Miragaia



CANTIGA PRIMEIRA

Noite escura tão formosa,
Linda noite sem luar,
As tuas estrelas de oiro
Quem nas poderá contar!

Quantas folhas há no bosque,
Areias quantas no mar?
Em tantas letras se escreve
O que Deus mandou guardar.

Mas guai do homem que se fia
Nessas letras decifrar!
Que a ler no livro de Deus
Nem anjo pode atinar.

Bem ledo está Dom Ramiro
Com sua dama a folgar;
Um perro bruxo judio
Foi causa de ele a roubar.

Disse-lhe que pelos astros
Bem lhe podia afirmar
Que Zara, a flor da beleza,
Lhe devia de tocar.

E o rei veio de cilada
De além do Doiro passar,
E furtou a linda moira,
A irmã de Alboazar.

A Milhor, que é terra sua
E está na beira do mar,
Se acolheu com sua dama...
Do mais não sabe cuidar.

Chora a triste da rainha,
Não se pode consolar;
Deixá-la por essa moira,
Deixá-la com tal desar!

E a noite é escura, cerrada,
Noite negra sem luar...
Ela, sozinha ao balcão,
Assim se estava a queixar:

- «Rei Ramiro, rei Ramiro,
Rei de muito mau pesar,
Em que te errei de alma ou corpo,
Que fiz para tal penar?

«Diz que é formosa essa moira,
Que te soube enfeitiçar...
Mas tu dizias-me dantes
Que eu era bela sem par.

«Que é maça, na flor da vida...
Eu, se ainda bem sei contar,
Há três que tinha vinte anos,
Fi-los depois de casar.

«Diz que tem os olhos pretos,
Destes que sabem mandar...
Os meus são azuis,coitados!
Não sabem senão chorar

«Zara, que é flor, lhe chamam,
A mim. Gaia... Que acertar!
Eu fiquei sem alegria,
Ela a flor não torna a achar.

«Oh! quem podera ser homem,
Vestir armas, cavalgar,
Que eu me fora já direita
A esse moiro Alboazar

Palavras não eram ditas,
Os olhos foi a abaixar,
Muitos V1dtos acercados
Ao palácio viu estar

- Peronela, Peronela,
Criada. do meu mandar,
Que vultos serão aqueles
Que por ali vejo andar?»

Peronela não responde;
Que havia de ela falar?
Ricas peitas de oiro e jóias
A tinham feito calar.

A rainha que se erguia
Por sua gente a bradar,
Sete moiros cavaleiros
A foram logo cercar;

Soltam pregas de um turbante,
A boca lhe vão tapar;
Três a tomaram nos braços...
Nem mais um ai pode dar.

Criados da sua casa
Nenhum veio a seu chamar;
Ou peitados ou cativos
Não na podem resgatar.

São sete os moiros que entraram
Sete os estão a aguardar;
Não falam nem uns nem outros
E prestes a cavalgar!

Só um, que de arção a toma,
Parece aos outros mandar...
Juntos, juntos, certos, certos,
Galopa a bom galopar!

Toda a noite, toda a noite
Vão correndo sem cessar,
Pelos montes trote largo,
Por vales a desfilar.

Nos ribeiros - peito na água,
Chape, chape, a vadear!
Nas defesas dos valados
Up! salto - e a galgar!

Vai o dia alvorecendo,
Estão à beira do mar,
Que rio é este tão fundo
Que nele vem desaguar?

A boca já tinha livre,
Mas não acerta a falar
A pasmada da rainha...
Cuida ainda de sonhar!

- «Rio Doiro, rio Doiro,
Rio de mau navegar,
Dize-me, essas tuas águas
Adonde as foste buscar;

«Dir-te-ei a pérola fina
Aonde eu a fui roubar.
Ribeiras correm ao rio,
O rio corre a la mar.

«Quem me roubou minha jóia,
Sua jóia lhe fui roubar...»
O moiro que assim cantava,
Gaia que o estava a mirar...

Quanto o mais mirares, Gaia,
Mais formoso o hás-de achar.
- «Que de barcos que ali vêm!»

- «Barcos que nos vêm buscar.»
- «Que lindo castelo aquele!»
- «É o do moiro Alboazar.


CANTIGA SEGUNDA

Rei Ramiro, rei Ramiro
Rei de muito mau pesar,
Ruins fadas te fadaram,
Má sina te foram dar.

Do que tens não fazer conta,
O que não tens cobiçar!...
Zara, a flor dos teus cuidados,
Já te não dá que pensar.

A rainha que era tua,
Que não soubeste guardar,
Agora morto de zelos
Do moiro a queres cobrar.

Oh! que barcos são aqueles
Doiro acima a navegar?
A noite escura cerrada,
E ele mansinho a remar!

Coseram-se com a terra,
Lá se foram encostar;
Entre os ramos dos salgueiros,
Mal se podem divisar.

Um homem saltou na praia:
Onde irá naquele andar?
Leva bordão e esclavina,
Nas contas vai a rezar.

Inda a névoa tolda o rio,
O sol já vem a rasgar,
Pela encosta do castelo
Vai um romeiro a cantar:

- «Santiago de Galiza,
Longe fica o vosso altar:
Peregrino que lá chegue
Não sabe se há-de voltar.»

Na encosta do castelo
Uma fonte está a manar;
Donzela que está na fonte
Pôs-se o romeiro a escutar.

A donzela está na fonte,
A jarra cheia a deitar:
- «Bendito sejais, romeiro
E o vosso doce cantar!

«Por estas terras de moiros
É maravilha de azar,
Ouvir cantigas tão santas,
Cantigas do meu criar.

«Sete padres as cantavam
À roda de um bento altar;
Outros sete respondiam
No coro do salmear.

«Entre véspera e completas,
E os sinos a repicar.
Ai triste da minha vida
Que os não oiço já tocar!

«E as rezas destes moiros
Ao demo as quisera eu dar.»
Ouvireis ora o romeiro
Resposta que lhe foi dar:

- «Deus vos mantenha, donzela,
E o vosso cortês falar:
Por estas terra de moiros
Quem tal soubera de achar!

«Por vossa tenção, donzela,
Uma reza hei-de rezar
Aqui ao pé desta fonte,
Que não posso mais andar.»

«Oh! que fresca está a fonte,
Oh! que sede de matar!
Que Deus vos salve, donzela,
Se aqui me deixais sentar.»

- «Sente-se o bom do romeiro,
Assente-se a descansar.
Fresca é a fonte, doce a água,
Tem virtude singular:

«Doutra não bebe a rainha
Que aqui ma manda buscar
Por manhãzinha bem cedo,
Antes de o sol aquentar.»

- «Doce água deve de ser,
De virtude singular:
Daí-me vós uma vez dela,
Que me quero consolar.»

«Beba o peregrino, beba
Por esta fonte real,
Cântara de prata virgem,
Tem mais valor que oiro tal.»

- «Dona Gaia que diria,
Que faria Alboazar
Se visse o pobre romeiro
Beber da fonte real?...

- «Inda era noite fechada
Meu senhor foi a caçar:
Maus javardos o detenham,
Que é bem ruim de aturar!

«Minha senhora, coitada,
Essa não tem que falar:
Quem já teve fontes de oiro
Prata não sabe zelar.»

- «Pois um recado, donzela,
Agora lhe heis-de levar;
Que o romeiro cristão
Lhe deseja de falar.»

«Da parte de um que é já morto,
Que morreu por seu pesar,
Que à hora de sua morte
Este anel lhe quis mandar.»

Tirou o anel do dedo
E na jarra o foi deitar:
- Quando ela beber da água
No anel há-de atentar.»

Foi se dali a donzela,
Ia morta por falar...
- «Anda cá, ó Peronela,
Criada de mau mandar.

«Tua ama morrendo à sede
E tu na fonte a folgar?»
- «Folgar não folguei, senhora,
Mas deixei-me adormentar.»

«Que a moira vida que eu levo
Já não na posso aturar.
Ai terra da minha terra,
Ai Milhor da beira-mar!

Aquela sim que era vida,
Aquilo que era folgar!
E em santo temor de Deus:
Não aqui neste pecar!»

- «Cal-te, cal-te, Peronela,
Não me queiras atentar;
Que eu a viver entre moiros
Me não vim por meu gostar.

Mas já tenho perdoado
A quem lá me foi roubar;
Que antes escrava contente,
Do que rainha a chorar.

«Forte cristandade aquela,
Bom era aquele reinar!
Viver só, desamparada,
Ver a moira em meu lugar!...»

Lembrava-lhe a sua ofensa,
Está-lhe o sangue a queimar:
Na água fria da fonte
A sede quis apagar.

A fonte de prata virgem
À boca foi a levar,
As ricas pedras do anel
No fundo viu a brilhar.

- «Jesus seja co’a minha alma!
Feitiços me querem dar...
O fogo a arder dentro n’água,
E ela fria de nevar!»

«Senhora, co’ esses feitiços
Me tomara eu embruxar!
Foi um bendito romeiro
Que à fonte fui encontrar,

«Que aí deitou esse anel
Para prova singular
De um recado que vos trouxe,
Com que muito heis-de folgar.»

- «Venha já esse romeiro
Que lhe quero já falar:
Embaixador deve ser
Quem traz presente real.»

CANTIGA TERCEIRA

«Por Deus vos digo, romeiro,
Que vos queirais levantar;
Minhas mãos não são relíquias,
Basta de tanto beijar!»

O romeiro não se erguia,
As mãos não lhe quer largar;
Os beijos uns sobre os outros,
Que era um nunca acabar.

Ia a enfadar-se a rainha,
Viu que entrava a soluçar,
E as lágrimas, quatro a quatro,
Nas mãos sentia rolar:

- «Que tem o bom do romeiro,
Que lhe dá tanto pesar?
Diga-me las suas penas
Se lhas posso aliviar.»

Minhas penas não são minhas,
Que aos mortos morre o penar;
Mas a vida que eu perdi
Em vós podia encontrar.

Minhas penas não são minhas,
Senão vossas, mal pesar!
Que uma rainha cristã
Feita moira vim achar...»

- «Romeiro, não tomeis cuita
Por quem se não quer cuidar:
Do que foi já me não lembro,
O que sou não me é desar.

«Deus terá dó da minha alma,
Que meu não foi o pecar;
E a esse traidor Ramiro
As contas lhe há-de tomar.»

- «Pois não espereis, senhora,
Por Deus, que pode tardar:
Dom Ramiro aqui o tendes,
Mandai-o já castigar.»

Em pé está Dom Ramiro,
Já não há que disfarçar:
Aquelas barbas tão brancas
Cairam de um empuxar.

O bordão e a esclavina
À terra foram parar;
Não há ver mais gentilezas
De menino e de trajar.

Quem viu olhos como aqueles
Com que o ela está a mirar!
Quem passou já transes d’alma
Como ela está a passar?

Um tremor que não é medo,
Um sorriso de enfiar,
Vergonha que não é pejo,
Faces que ardem sem corar...

Tudo isso tem no semblante,
Tudo lhe está a assomar
Como ondas que vão e vêm
Na travessia do mar.

A vingança é o prazer do homem,
Da mulher é o seu manjar:
Assim perdoa ele e vive,
Ela não - que era acabar.

Vingar-se foi o primeiro
E o derradeiro pensar
Que entre tantos pensamentos,
Em Gaia estão a pular:

Logo depois a vaidade,
O gosto de triunfar
Num coração que foi seu,
Que seu lhe torna a voltar.

E o rei moiro estava longe
C'os seus no monte a caçar,
Ela só naquela torre...
Prudência e dissimular!

Abre a boca a um sorriso
Doce e triste - de matar!
Tempera a chama dos olhos,
Abafa-a por mais queimar.

Pôs na voz aquele encanto
Que, ou minta ou não, é fatal;
E com o inferno no seio,
Fala o céu no seu falar.

Já os amargos queixumes
Se embrandecem no chorar,
E em sua própria justiça
Com arte finge afrouxar.

Protesta a boca a verdade:
- «Que não há-de perdoar...»
Mas a verdade dos lábios
Os olhos querem negar.

De joelhos Dom Ramiro
Ali se estava a humilhar,
Suplica, roga, promete...
Ela parece hesitar.

Senão quando, uma buzina,
Se ouviu ao longe tocar...
A rainha mal podia
O seu prazer disfarçar:

- «Escondei-vos, Dom Ramiro,
Que é chegado Alboazar,
Depressa neste aposento...
Ou já me vereis matar.»

Mal a chave deu três voltas,
Na manga a foi resguardar;
Mal tirou a mão da cota,
Que o rei moiro vinha a entrar:

- «Tristes novas, minha Gaia,
Novas de muito pesar!
Primeira vez em três anos
Que me sucede este azar!...

Toquei a minha buzina
Às portas, antes de entrar,
E não correste às ameias
Para me ver e saudar!

Muito mal fizeste, amiga,
Em tão mal me costumar;
Não sei agora o que fazes
Em me querer emendar...»

No coração da rainha
Batalhas se estão a dar
Os mais estranhos afectos
Que nunca se hão-de encontrar.

O que foi, o que é agora...
E a ambição de reinar...
O amor que tem ao moiro,
E o gosto de se vingar...

Venceu amor e vingança.
Deviam de triunfar,
Que era em peito de mulher
Que a batalha se foi dar.

- «Novas tenho e grandes novas,
Amigo para vos dar:
Tomai esta chave e abride,
Vereis se são de pesar.»

Com que ânsia ele abriu a porta
Vista que foi encontrar!...
Palavras que ali disseram,
Não nas saberei contar:

Que foi um bramir de ventos,
Um bater de águas no mar,
Um confundir céu e terra,
Querer-se o mundo acabar...

Vereis por fim o rei moiro
Que sentença veio a dar:
- «Perdeste a honra, cristão;
Vida, quero-ta deixar.

«De uma vez, que me roubaste,
Muito bem me fiz pagar:
Desta basta-me a vergonha
Para de ti me vingar.»

Sentia-se el-rei Ramiro
Do despeito devorar;
Com ar contrito e afligido
Assim lhe foi a falar:

- Grandes foram meus pecados,
Poderoso Alboazar;
E tais que a mercê da vida
De ti não posso aceitar.

«Eu não vim a teu castelo
Senão só por me entregar,
Para receber a morte
Que tu me quiseste dar.

Que assim me foi ordenado
Para minha alma salvar
Por um santo confessor
A quem me fui confessar.

«E mais me disse e mandou,
E assim t’o quero rogar,
Que, pois foi pública a ofensa,
Público seja o penar.

«Que ai nessa praça d’armas
Tua gente faças juntar;
Ai diante de todos
A vida quero acabar.

Tangendo nesta buzina,
Tangendo at÷ rebentar;
Que digam os que isto virem,
E lhes fique de alembrar.

Grande foi o seu pecado,
No mundo andou a soar;
Mas a sua penitência
Mais alto som veio a dar. »

Quizera-lhe o bom moiro
Por força ali perdoar;
Mas se a perra da rainha
Jurou de à morte o levar!...

Veis na praça do castelo,
Toda a moirama a ajuntar;
Em p÷, no meio da turba,
Reboava o buzinar.

Tange que lhe tangerás,
Toca rijo a bom tocar;
Por muitas léguas a roda
Reboar o buzinar.

Se o ouvirão nas galés
Que deixou à beira-mar?
Decerto ouviram, que um grito
Tremendo se ouve soar...

CANTIGA QUARTA

«Santiago!... Cerra, cerra!
Santiago, e a matar!»
Abertas estão as portas
Da torre de par em par.

Nem atabias nos muros,
Nem roldas para as velar...
Os moiros despercebidos
Sentem-se logo apertar.

De um tropel de leonezes
Já portas a dentro a entrar.
Deixa a buzina Ramiro,
Mão à espada foi lançar.

E de um só golpe fendente,
Sem mais por nem mais tirar,
Parte a cabeça at÷ aos peitos
Ao rei moiro Alboazar...

Já tudo ÷ morto ou cativo,
Já o castelo está a queimar;
Às gal÷s com seu despojo
Se foram logo a embarcar.

- «Voga, rema! d'além Doiro
À pressa, à pressa a passar,
Que já oiço ali na praia
Cavalos a relinchar.

«Bandeiras são de Leão
Que lá vejo tremular
Voga, voga, que além Doiro
É terra nossa!... A remar!

Daqui é moirama cerrada
Até Coimbra e Tomar.
Voga, rema, e d'além Doiro!
Daquém não há que fiar.»

À popa vai Dom Ramiro
De sua galé real
Leva a rainha à direita,
Como quem a quer honrar.

Ela, muda, os olhos baixos
Leva na água... sem olhar,
E como quem de outras vistas
Se quer só desafrontar.

Ou Dom Ramiro fingia
Ou não vem nisso a atentar;
Já vão a meia corrente,
Sem um para o outro falar.

Ainda arde, inda fumega
O alcáçar de Alboazar;
Gaia alevantou os olhos,
Triste se pôs a mirar;

As lágrimas, uma e uma
Lhe estavam a desfiar,
Ao longo, longo das faces
Correm... sem ela as chorar.

Olhou el-rei para Gaia,
Não se pode mais calar;
Cuidava o bom do marido
Que era remorso e pesar.

Do mau termo atraiçoado
Que com ele fora usar
Quando o entregou ao moiro
Tão-só para se vingar.

Com a voz enternecida
Assim lhe foi a falar:
- «Que tens Gaia... minha Gaia?
Ora pois! não mais chorar,

«Que o feito é feito...» - «E bem feito!»
Tornou-lhe ela a soluçar,
Rompendo agora nuns prantos
Que parecia estalar;

«É bem feito, rei Ramiro!
Valente acção de pasmar!
"À lei de bom cavaleiro,
Para de um rei se contar!

A falsa fé o mataste...
Quem a vida te quis dar!
A traição... que de outro modo,
Não és homem para tal.

Mataste o mais belo moiro
Mais gentil, mais para amar
Que entre moiros e cristãos
Nunca mais não terá par.

«Perguntas-me porque choro!...
Traidor rei, que hei-de eu chorar?
Que o não tenho nos meus braços,
Que a teu poder vim parar.

«Perguntas-me o que miro?
Traidor rei, que hei-de eu miara?
As torres daquele alcáçar,
Que ainda estão a fumegar.

«Se eu fui ali tão ditosa,
Se ali soube o que era amar,
Se ali me fica alma e vida...
Traidor rei, que hei-de eu mirar!»

- «Pois mira, Gaia!» E, dizendo,
Da espada foi arrancar:
Mira, Gaia, que esses olhos
Não terão mais que mirar.»

Foi-lhe a cabeça de um talho;
E com o pé, sem olhar,
Borda fora empuxa o corpo...
O Doiro que os leve ao mar.

Do estranho caso inda agora
Memória está a durar;
Gaia é o nome do castelo
Que ali Gaia fez queimar.

E dalém Doiro, essa praia
Onde o barco ia a aproar
Quando bradou - Mira, Gaia!»
O rei que a vai degolar,

Ainda hoje está dizendo
Na tradição popular,
Que o nome tem - Miragaia
Daquele fatal mirar.


Romanceiro, Almeida Garrett





04/05/2009

Dom João

Lá das bandas de Castela
Triste nova era chegada:
Dom João que vem doente,
Mal pezar de sua amada!
São chamados três doutores
Dos que têm mais nomeada:
Que, se algum lhe desse vida
Teria paga avultada.
Chegaram os dois mais novos,
Dizem que não era nada;
Por fim que chega o mais velho,
Diz com voz desenganada:
- «Tente três horas de vida,
E uma está meia passada;
Essa é para o testamento:
Deixar a alma encomendada!
A outra é para os sacramentos,
Que inda é mais bem empregada.
Na terceira as despedidas
Da vossa dama adorada.»
Estando nestas conversas,
Dona Isabel que é chegada.
Ergueu os olhos para ela
Com a vista já turvada:
- «Ainda bem que vieste,
Minha prenda desejada,
Que tanto queria ver-te
Nesta hora minguada!»
- «Tenho fé na Virgem santa,
Nela venho confiada,
Que me há-de ouvir e salvar-te,
Que o teu mal não será nada.»

- «Oh! que se eu chegar a erguer-me,
Minha rosa namorada,
No vaso deste meu peito
P’ra sempre serás plantada,
C’as bênçãos de um arcebispo
E de água benta regada
Co’a estola da santa igreja
Ao meu coração atada.»

Estando nestas conversas,
Sua mãe que era chegada:
- «Que tens tu, filho querido
Desta alma amargurada?»
- «Tenho, mãe, que estou morrendo,
Que esta vida está acabada;
Com só três horas por minhas,
E uma já meio passada.»
- «Filho de minhas entranhas,
Nesta hora minguada
Lembra-te se algo deves
A alguma dama honrada.»
- «Minha mãe, que devo, devo...
E Deus me não peça nada!
Dona Isabel que em má hora
Por mim fica difamada.
Mas deixo-lhe mil cruzados
Para que seja casada.»
- «A honra não se paga, filho;
Mil cruzados não é nada.»
- «Já lhe deixo mais duzentos
E a cruz de minha espada.»
- «A honra não se paga, filho;
Os cruzados não são nada.»
- «Deixo-a a estes três doutores
Muito bem encomendada;
E a vós, minha mãe, vos peço
Que a tenhais bem guardada.
O que com ela casar
Tem uma vila ganhada;
O que lhe disser que não
Tenha a cabeça cortada.»
- «A honra não se paga, filho,
Nem com terras é comprada:
Se a essa dama lhe queres,
Não a deixes desonrada!»
- «Pois fique esta mão já fria
Na sua mão adorada:
De D. João é viúva,
Condessa será chamada.»


Romanceiro, Almeida Garrett



01/05/2009

As Pegas de Sintra

POR BEM

Gavião, gavião branco
Vai ferido e vão voando;
Mas não diz quem no feriu,
Gavião, gavião branco!

O gavião é calado,
Vai ferido e vai voando
Assim fora a negra pega
Que há-de sempre andar palrando.

A pega é negra e palreira,
O que sabe vai contando...
Muito palra a pega
Que sempre há-de estar palrando.

Mas quer Deus que os chocalheiros
Guardem, ás vezes, falando,
O segredo dos sisudos,
Que eles não guardam calando.

Era uma pega no paço
Que el-rei tomara, caçando;
Trazem-na as damas mimosa
Com a estar sempre afagando.

Nos paços era de Sintra
Onde estava el-rei poisando:
A rainha e suas damas
No jardim andam folgando,

Entre açucena e rosas,
Entre os goivos trebelhando;
Umas regavam as flores
Outras as vão apanhando.

E a minha pega com eles
Sempre, sempre, palreando.
Vinha el-rei atrás de todos
Com Dona Mécia falando.

Era a mais formosa dama
Que andava naquele bando;
No ombro de Dona Mécia,
A pega vinha poisando.

E zelosa aprecia
Que os andava espreitando...
Colhera el-rei uma rosa,
A dona Mécia a ia dando,

Com um requebro nos olhos
Tão namorando e tão brando...
Inda bem, minha rainha,
Que adiante te vais andando!

Pegou na rosa a donzela,
Disfarçada a está cheirando...
Senão quando a negra pega
Que lha tira e vai voando.

Deu um grito Dona Mécia...
E a rainha, voltando,
Deu com olhos em ambos...
Ambos se estão delatando.

-«Foi por bem!» – lhe disse o rei,
Seu acordo recobrando:
-«Foi por bem!» – «Por bem!» Repete
A pega em torno voando.

- «Por bem, por bem!» grasna a tonta,
De má malícia cuidando
Co’a chocalheira da língua
Andar a caso enredando.

Mas quer Deus que os chocalheiros
Guardem às vezes falando
O segredo dos sisudos
Que eles não guardam calando.

Riu-se a rainha da pega
E ficou acreditando
Que a inocência do caso
Nela se estava provando.

Da pega mexeriqueira,
Do bem que fez, mal pensando,
Nos reais paços de Sintra
A memória está durando.

E eis aqui, senhora, a história
Da pega que aí vês palrando,
Da rosa que tem no bico,
Da letra que a está cercando.

A pega é negra palreira,
O que sabe vai contando:
Mas quer Deus que os chocalheiros
Guardem segredo falando.

O gavião, esse é outro;
Vai ferido e vai voando:
Mas não diz quem no feriu...
Gavião, gavião branco!

Romanceiro, Almeida Garrett






18/04/2009

O cordão de oiro

Lá se vai o capitão
C’os seus soldados à guerra:
Duzentos eram quintados,
Eram duzentos de leva.
Se todos eles vão tristes,
Um mais que todos eram:
Baixa traz a sua espada,
Seus olhos postos em terra.
Lá no meio do caminho
O capitão lhe dissera:
- «Porque vais triste, soldado
Essa paixão por quem era?»
- «Não é por pai nem por mãe,
nem por irmã que eu tivera,
É pela esposa que deixo
Lá tão só na minha terra.
Este cordão de oiro fino,
Que sete arráteis bem pesa,
Mais me pesa a mim levá-lo,
Que ao partir lho não dera!»
- «Soldado, tens sete dias
Para que voltes a vê-la.
Se a encontrares chorando,
Ficas sete anos com ela:
Senão, nem mais uma hora
Terás de aguardo ou de espera.»
Quem saltava de contente
O meu soldadito era.
Deixou estrada direita,
Por atalhos se metera;
Inda não é meia-noite,
À sua porta batera.
- «Quem bate à minha porta,
Quem bate com tanta pressa?
- «É um soldado, senhora,
Que voz traz novas da guerra.»
- «Mal haja a nova que traz,
E mais quem veio trazê-la!
Ergue-te tu, minha vida,
Assoma-te a essa janela;
Despede-me esse soldado
Que a tão má hora aqui chega.»
- «Amigo, vindes errado
Co’as vossas novas da guerra:
Deixai-nos dormir em paz,
Que bem precisamos dela.»

Foi-se dali o soldado
Mais pronto do que viera:
- «Bem haja o meu capitão
Pelo bem que me fizera!
Com sete dias de aguardo...
Nem sete horas carecera
Para me quitar saudades,
Livrar-me de toda a pena!
Tomai lá meu capitão
Os mimos da minha terra;
Este cordão de oiro fino,
Que agora inda mais me pesa.
Minha mulher não precisa,
Que os primos podem mantê-la.»
- «Pois tua mulher tem primos,
E tu vinhas com dó dela!...»

Romanceiro, Almeida Garrett





08/04/2009

Linda-a-Pastorinha

- «Linda pastorinha, que fazeis aqui?»
- «Procuro o meu gado que por aí perdi.»
- «Tão gentil senhora a guardar o gado!.
- «Senhor, já nascemos para esse fado.»
- «Por estas montanhas em tão grande p’rigo!»
Diga me, ó menina, se quer vir comigo.»
- «Um senhor tão guapo dar tão mau conselho
Querer que se perca o gado alheio!»
- «Não tenha esse medo que o gado se perca
Por aqui passarmos uma hora de sesta.»
- «Tal razão como essa eu não na ouvirei:
Já dirão meus amos que de mais tardei,»
- «Diga-lhe, menina, que se demorou
Co’esta nuvem de água que tudo molhou.»
- «Falarei verdade, que mentir não sei:
À volta do gado eu me descuidei.»
- «Pastorinha, escute, que oiço balar gado...»
- «Serão as ovelhas que me têm faltado.»
- «Eu lhas vou buscar já muito depressa,
Mas que me espedace por essa chaneca.»
- «Ai como vai grave de meias de seda!
Olhe não as rompa por essa resteva.»
- «Meias e sapatos, tudo romperei
Só por lhe dar gosto, minha alma, meu bem.»
- «Ei-lo aqui vem; é todo o meu gado.»
- «Meu destino foi ser vosso criado.»
- «Senhor, vá-se embora, não me dê mais pena,
- «Que há-de vir meu amo trazer-me a merenda.»
- «Se vier seu amo, venha muito embora;
Diremos, menina, que cheguei agora.»
- «Senhor, vá-se, vá-se, não me dê tormento:
Já não quero vê-lo nem por pensamento.»
- «Pois adeus, ingrata da Linda-a-Pastora!
Fica-te, eu me vou pela serra fora.»

- «Venha cá, Senhor, torne atrás correndo...
Que o amor é cego, já me está rendendo.»
Sentaram-se à sombra... tudo estava ardendo...
Quando elas não querem, então ‘stão querendo.

Romanceiro, Almeida Garrett

05/03/2009

A Romeira

Por aqueles montes verdes
Uma romeira descia;
Tão honesta e formosinha
Não vai outra à romaria.
Sua saia leva baixa
Que nas ervas lhe prendia;
Seu chapelinho caído
Que lindos olhos cobria!
Cavaleiro vai trás dela,
De má tenção que a seguia!
Não a alcança por mais que ande,
Alcançá-la não podia
Senão junto a essa oliveira
Que estão no adro da ermida.
À sombra da árvore benta
A romeira se acolhia:
- «Eu te rogo, cavaleiro,
Por Deus e a Virgem Maria,
Que me deixes ir honrada
Para a santa romaria.»
Cavaleiro, de malvado,
Nem Deus nem razão ouvia;
Cego, no desejo bruto,
De amores a acometia.
Pegaram de braço a braço:
Luta de grande porfia!
A romeira, por mais fraca,
Enfim, rendida, caía...
No cair, lhe viu à cinta
Um punhal que ele trazia;
Com toda a força lho arranca,
No coração lho metia.
O sangue negro saltava,
O negro sangue corria...
- «Por Deus te peço romeira
Por Deus e a Virgem Maria,
Que o não digas em tua terra,
Nem te vás gabar à minha
Da vingança que tomaste,
Da afronta que te eu fazia.»
- «Hei-de dizê-lo em tu’terra,
Hei-de me ir gabar à minha,
Que matei um vil covarde
Com as armas que ele trazia.»
Tocou a campa da ermida,
A campa que retinia:
- «Ermitão, por Deus vos peço
Bom ermitão desta ermida,
Tenhais dó dessa má alma
Que inda agora partia:
Daí terra benta ao seu corpo,
Que Deus lhe perdoaria.»


Romanceiro, Almeida Garrett




27/02/2009

O Segador



O imperador de Roma
Tem uma filha bastarda
A quem tanto quer e tanto
Que a traz mui mal criada.
Pedem-lha condes, senhores,
Homens de capa e de espada;
Ela, isenta e desdenhosa,
A todos lhes punha tacha:
Um é criança, outro é velho,
Este que não tinha barba,
Aquele que não tem pulso
Para puxar pela espada.
Dizia-lhe o pai sorrindo:
- «Inda hás-de ser castigada!
De algum vilão de porqueiro
Te espero ver namorada.»
Por manhã de São João,
Manhã de doce alvorada,
Ao seu balcão muito cedo
A infanta se assomava
Viu andar três segadores
Fazendo sua segada;
O mais pequeno dos três
Era o que mais trabalhava.
Fita que traz no chapéu
De oiro e seda era bordada;
Fina prata que luzia
A foice com que ceifava.
De seu garbo e gentileza
A infanta se namorava.
O ceifeiro vai ceifando...
Bem sabe ele o que ceifava!

Ali estava a aia discreta
Em quem toda se fiava:
- «Vês, aia, aquele ceifeiro
Que anda naquela segada?
Condes, duques, cavaleiros,
Nenhum que o ceifeiro valha.
Vai-mo chamar em segredo,
Que ninguém não saiba nada.»

- «Bom segador, vem comigo,
Que te quer falar minha ama.»
- «Tua ama, não na conheço
Nem tão-pouco a quem me chama.»
- «Cegador de boa estreia,
Traze’la vista mui baixa:
Alça os olhos e verás
A estrela da madrugada.»
- «Vejo o sol que vem nascendo,
Não vejo a estrela de Alva.»
- «Estrela ou sol, vens comigo?»
- «Irei, pois quem pode, manda.»

Entraram por um postigo,
Que a porta inda era cerrada;
No camarim da princesa
O bom do ceifeiro estava.
- «Senhora, que me quereis?
Pois venho à vossa chamada.»
- «Quero saber se te atreves
A fazer minha segada?»
- «Atrever, me atrevo a tudo;
Trabalho não me acovarda.
Dizei vós, senhora minha,
Onde é a vossa segada.»
- «Não é no monte ou no vale,
No baldio ou na coitada;
Segador, é nos meus braços,
Que de ti estou namorada.»
Passou todo aquele dia,

O mais da noite passava,
Ceifando vai o ceifeiro...
Bem sabe ele o que ceifava!
- «Basta, basta, segador,
Feita está tua segada:
Vai-te, que meu pai não venha,
Antes de ser madrugada.»
Palavras não eram ditas,
O pai à cama chegava:
- «Com quem falas, minha filha,
Tão cedo de madrugada?»
- «Falo com esta minha aia
Que me tem desesperada;
Uma cama tão mal feita
Que dormir me não deixava.»
- «É forte aia essa tua
Que a barba tem tão cerrada!
Vista-me já a donzela,
Que, antes de ser madrugada,
Pelo barbeiro do algoz
A quero ver barbeada.»
O segador, muito enxuto,
Sua sentença escutava,
Com uma mão se vestia,
Com a outra se calçava.
Saltou no meio da casa
Como se não fora nada:
- «Venha já esse barbeiro
Com a navalha afiada:
Ao duque de Lombardia
Veremos quem faz a barba.»

O imperador, mui contente,
Depressa ali os casava.
Não quis senhores, nem condes
Homens de capa ou de espada,
Senão só o segador
Que andava em sua segada.
Podia ser um porqueiro
Que a deixasse desonrada...
Saiu-lhe um duque reinante,
Senhor de alta nomeada.
Pois tudo é sorte no mundo,
A sorte foi bem deitada.

Romanceiro, Almeida Garrett

Helena

- «Ai! que saudades me apertam
Pela casa de meu pai!
Também me apertam as dores,
E minha mãe sem chegar!»
- «Se as saudades te apertam,
Bem nas podes ir matar;
As dores não serão muitas,
Toma o caminho - e andar!»
- «E à noite meu marido,
Quem lhe dará de cear?»
- «Da caça que ele trouver,
Eu lha farei amanhar.
Do meu pão e do meu vinho
O que ele quiser tomar.»

- «Onde está mi’ esposa Helena
Que me não dá cear?»
- «Tua esposa Helena, filho,
Foi-se para não tornar.
Que ia para sua casa,
Que nos não pode aturar.
Chamou-me a mim perra velha,
A ti filho de mãe tal.»
- «O meu cavalo andaluz
Já e já mo vão selar.
Essa mulher, por Deus juro
Que ela mas tem de pagar.»

- «As boas novas, meu genro,
Que tenho para vos dar!
Filho barão, e tão lindo,
Um anjo de pôr no altar!»
- «Novas me dão, boas novas;
Más as trago eu para dar:
Que a mãe que o pariu
Não é que o há-de criar.

Ergue-te daí Helena,
Que me tens de acompanhar.»
- «Paridinha de uma hora,
Onde a quereis levar?»
- «Para perto, e bom caminho;
Não tem muito que penar,
Que o meu cavalo andaluz
Anda mais do que o luar.»
- «Ande ele, que não ande,
Onde a quereis levar?»
- «Cal’-se daí minha mãe,
Já se havia de calar;
Que a mulher que é bem casada,
O marido há-de mandar.
Que me dêem a minha cinta,
Para eu me conchegar,
E esse meu gibão forrado
Para melhor me abafar.
E agora dêem-me o meu filho,
Que o quero abraçar.
Ai! destes beijos, meu filho,
Se te saberás lembrar?
Lembrai-lho vós, minha mãe,
Quando ele souber falar.»
- «Que dizes, filha, que dizes?»
- «Minha mãe, isto é folgar;
Que é tão perto e bom caminho
Para onde temos de andar;
E o cavalo andaluz,
Anda mais do que o luar.»

O cavalo era andaluz
Andava mais que o luar;
O caminho era de pedras,
Ele ia a tropeçar.
Vão andando, vão andando
Sem um nem outro falar,
Ela já tem as mãos frias,
O corpo está-lhe a inchar;
Chegando ao alto da serra
Deu um ai, quis desmaiar.
- «Que ais são esses, Helena?
Porque estás a suspirar?»
- «É que se me acaba a vida,
- É que me estou a finar:
Paridinha de uma hora,
Sinto-me em sangue alagar.»

Já se não tem a cavalo,
Ali a foi apear:
Era a agonia da morte
Que já lhe estava a apertar.
- «A quem deixas o teu oiro
Que t’o hajam de estimar?»
- «Deixo-o a minhas irmãs,
Se tu lh’o quiseres dar.»
- «A quem deixas essa cruz
E as pedras do teu colar?»
- «A cruz, deixo-a a minha mãe
Que por mim lhe há-de rezar.
As pedras não as quer ela,
E bem nas podes guardar:
Se a outra as deres, marido,
Melhor lh’as deixes lograr.»
- «Tua fazenda a quem deixas,
Que ta saibam granjear?»
- Deixo-ta a ti, marido;
Que ta deixe Deus gozar!»
- «A quem deixas o teu filho
Que to hajam de criar?»
- «A tua mãe - que Deus queira
Amor lhe venha a ganhar!»
- «Não o deixes a essa perra,
Que é capaz de to matar.
Ai! deixa-o antes à tua,
Que bem no há-de criar.
Com lágrimas de seus olhos
Bem no ela há-de lavar;
Toucas de sua cabeça28
Tirará para o pensar.»

De ouvir aquelas palavras
A pobre quis-se animar;
Mas a voz que vem do peito
A boca não pode achar.
Inda lhe disse c’os olhos
Que lhe estava a perdoar.
- «Não me perdoes, Helena,
Que Deus não te há-de escutar.
Ai! as penas do inferno,
Já as eu começo a penar,
Que vejo subir ao céu
O meu anjo tutelar.
Mal hajam línguas traidoras
E ouvidos que lhe eu fui dar!
Que por amor das más línguas
Meu anjo vim a matar!
Sete anos e mais um dia
Me irei a peregrinar,
À porta santa de Roma
Me quero ir ajoelhar;
E aqui um santo convento
Fundarei neste lugar,
Com sete missas por dia
Cada uma em seu altar;
Que digam todos que o virem:
«Aqui foi seu mal pecar,
E aqui fez penitência
Para Deus lhe perdoar.»

Romanceiro, Almeida Garrett





13/02/2009

Albaninha





- «Albaninha, Albaninha,
A filha do conde Alvar!
Oh! quem te vira Albaninha
Três horas a meu mandar!»
- «Pouco tempo são três horas,
Mas vem depois o contar.»
- «Usança de maus vilões
Nunca a eu soubera usar.
Com esta espada me cortem,
Com outra de mais cortar,
Donzela que em mim se fie
Se eu disso me for gabar.»
Inda bem manhã não era
Já na praça a passear;
Aos três irmãos de Albaninha
Se foi de braço travar:
- «Esta noite, cavaleiros,
Sabereis que fui caçar;
Em minha vida não tive
Noite de tanto folgar.
Era uma lebre tão fina
Que nunca vi tal saltar:
Com três horas de corrida
Não a cheguei a cansar!»
Disseram uns para os outros:
- «Bom modo de se gabar!
Será de nossas mulheres?
Das irmãs nos quer falar?»
Responde agora o mais moço
Discreto no seu pensar:
- «Não vedes que é de Albaninha,
Que o traidor quer difamar?»

Foram os três para um canto,
Puseram-se a aconselhar;
Diziam os dois mais velhos:
- «Vamo-lo nós a matar?»
E o mais moço respondia:
- Vamo-la nós a casar?»
- «Sim! e o dote que ela tem,
Nós o temos de pagar.»
Vão ao quarto de Albaninha,
De boda a foram achar;
Duas aias a vestiam,
Duas a estão a toucar.
- «Albaninha, Albaninha,
A filha do conde Alvar!
As barbas de teu pai conde
Que bem lhas soubeste honrar!»
- «As barbas de meu pai conde
Tratai vós de as honrar,
Pagando-me já meu dote,
Que agora me vou casar.»


Romanceiro, Almeida Garrett