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27/02/2010

A Lenda do Cálice Sagrado



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Segundo a lenda, José de Arimatéia teria recolhido no 'Cálice usado na Última Ceia (o Cálice Sagrado), o sangue que jorrou de Cristo quando ele recebeu o golpe de misericórdia, dado pelo soldado romano Longinus, usando uma lança, depois da crucificação.

Em outra versão da lenda, teria sido a própria Maria Madalena que teria ficado com a guarda do cálice e o teria levado para a França, onde passou o resto de sua vida.

A lenda tornou-se popular na Europa nos séculos XII e XIII por meio dos romances de Chrétien de Troyes, particularmente através do livro "Le Conte du Graal" publicado por volta de 1190, e que conta a busca de Perceval pelo cálice.

Mais tarde, o poeta francês Robert de Boron publicou Roman de L'Estoire du Graal, escrito entre 1200 e 1210, que tornou-se a versão mais popular da história e já tem todos os elementos da lenda como a conhecemos hoje.

Na literatura medieval, a procura do Graal representava a tentativa por parte do cavaleiro de alcançar a perfeição. Em torno dele criou-se um complexo conjunto de histórias relacionadas com o reinado de Artur na Inglaterra, e da busca que os Cavaleiros da Távola Redonda fizeram para obtê-lo e devolver a paz ao reino. Nas histórias misturam-se elementos cristãos e pagãos relacionados com a cultura celta.

A presença do Graal na Inglaterra é justificada por ter sido José de Arimatéia o fundador da Igreja Inglesa, para onde foi ao sair da Palestina.

Segundo algumas histórias, o Santo Graal teria ficado sob a tutela da Ordem do Templo, também conhecida como Ordem dos Pobres Cavaleiros de Cristo e do Templo de Salomão ou Ordem dos Templários, instituição militar-religiosa criada para defender as conquistas nas Cruzadas e os peregrinos na Terra Santa. Alguns associam aos templários a irmandade que Wolfram cita em "Parzifal".

Segundo uma das versões da lenda, os Templários teriam levado o cálice para a aldeia francesa de Rennes-Le-Château. Em outra versão, o cálice teria sido levado de Constantinopla para Troyes, na França, onde ele desapareceu durante a Revolução Francesa.

Em um país de maioria católica como o Brasil, a figura do Graal é tida, comumente, como a da taça que serviu Jesus durante a Última Ceia e na qual José de Arimatéia teria recolhido o sangue do Salvador crucificado proveniente da ferida no flanco provocada pela lança do centurião romano Longino ("Ao chegarem a Jesus, vendo-O já morto, não Lhe quebraram as pernas, mas um dos soldados perfurou-Lhe o lado com uma lança e logo saiu sangue e água" - João 19:33-34).

A Igreja Católica não dá ao cálice mais do que um valor simbólico e acredita que o Graal não passa de literatura medieval, apesar de reconhecer que alguns personagens possam realmente haver existido. Nas representações de José de Arimatéia em vitrais de igrejas, ele aparece segurando não um cálice, mas dois frascos ou galheteiros".

Alguns tomam o cálice de ágata que está na Igreja de Valência, na Espanha, como aquele que teria servido Cristo mas, aparentemente, a peça data do século XIV.

Independentemente da veneração popular, esta referência é fundamental para o entendimento do simbolismo do Santo Graal já que, como explica a própria Igreja em relação à ferida causada por Longino, "do peito de Cristo adormecido na cruz, sai a água viva do batismo e o sangue vivo da Eucaristia. Deste modo, Ele é o cordeiro Pascal imolado".

O alfaiate valente

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Um alfaiate prepara-se para comer alguns doces, mas quando moscas decidem pousar sobre eles, ele mata sete delas com um golpe. Ele faz um cinto que descrever a ação, "Sete com um golpe". Inspirado, ele sai pelo mundo para fazer fortuna. O alfaiate acaba conhecendo um gigante, que presume que "Sete com um golpe" se refere a sete homens. O gigante desafia o alfaiate. Quando o gigante espreme a água de um rochedo, o alfaiate espreme a água (ou soro) de um queijo. O gigante atira uma pedra no ar e esta demora para cair. Os alfaiate, para superar o feito do gigante, lança um pássaro que voa para longe, o gigante acredita que o pequeno pássaro é uma "pedra" que é jogada tão longe que nunca cai. O gigante pede que o alfaiate o ajude a carregar uma árvore. O alfaiate fala para o gigante carregar o tronco, enquanto que o alfaiate levaria os ramos. Em vez disso, o alfaiate sobe em cima da árvore, fazendo com o gigante o carregue também.

O gigante leva o alfaiate a sua casa, onde outros gigantes também vivem. Durante a noite, o gigante tenta matar o alfaiate. No entanto, o alfaiate, tendo achado sua cama muito grande, dorme no canto. Ao vê-lo ainda vivo, os outros gigantes fogem.

O alfaiate entra no serviço real, mas os outros soldados têm medo de que ele vai perder a paciência um dia, e com isso sete deles poderiam morrer a cada golpe. Eles se dirigem ao rei e pedem para o rei mandar o alfaiate embora, senão eles irão. Com medo de ser morto por mandá-lo embora, o rei envia o alfaiate para derrotar dois gigantes, oferecendo-lhe metade de seu reino e a mão de sua filha em casamento. Atirando pedras contra os dois gigantes enquanto eles dormem, o alfaiate provoca o par em combates entre si. O rei, então, envia-o atrás de um unicórnio, mas o astuto alfaiate cria uma armadilha para prender o unicórnio numa árvore, de modo que quando o unicórnio vier atacá-lo, ele sairá da frente fazendo com que o unicórnio acerte seu chifre no tronco. O rei posteriormente envia-o atrás de um javali selvagem, mas novamente o alfaiate cria uma armadilha, prendendo o animal em uma capela.

Com isso, o rei casa o alfaiate com sua filha. Já casados, uma noite, a mulher do alfaiate ouve-o falar durante o sono e percebe que ele é apenas um alfaiate. Ela conta tudo a seu pai, e o rei promete que irá mandá-lo embora. Um escudeiro adverte o alfaiate, que finge estar dormindo e diz que fez todos os atos e não tem medo dos homens atrás da porta. Apavorados, eles saem, e o rei não tenta novamente mandá-lo embora.

Irmãos Grimm

A Bela Adormecida




Era uma vez, há muito tempo, um rei e uma rainha jovens, poderosos e ricos, mas pouco felizes, porque não tinham concretizado maior sonho deles: terem filhos.
— Se pudéssemos ter um filho! — suspirava o rei.
— E se Deus quisesse, que nascesse uma menina! —animava-se a rainha.
— E por que não gémeos? — acrescentava o rei.
Mas os filhos não chegavam, e o casal real ficava cada vez mais triste. Não se alegravam nem com os bailes da corte, nem com as caçadas, nem com os gracejos dos bufões, e em todo o castelo reinava uma grande melancolia.
Mas, numa tarde de verão, a rainha foi banhar-se no riacho que passava no fundo do parque real. E, de repente, pulou para fora da água uma rãzinha.
— Majestade, não fique triste, o seu desejo se realizará logo: Antes que passe um ano a senhora dará à luz uma menina.
E a profecia da rã se concretizou, e meses depois a rainha deu a luz a uma linda menina.
O rei, que estava tão feliz, deu uma grande festa de baptizado para a pequena princesa que se chamava Aurora.
Convidou uma multidão de súbditos: parentes, amigos, nobres do reino e, como convidadas de honra, as treze fadas que viviam nos confins do reino. Mas, quando os mensageiros iam saindo com os convites, o camareiro-mor correu até o rei, preocupadíssimo.
— Majestade, as fadas são treze, e nós só temos doze pratos de ouro. O que faremos? A fada que tiver de comer no prato de prata, como os outros convidados, poderá se ofender. E uma fada ofendida…
O rei reflectiu longamente e decidiu:
— Não convidaremos a décima terceira fada — disse, resoluto. — Talvez nem saiba que nasceu a nossa filha e que daremos uma festa. Assim, não teremos complicações.
Partiram somente doze mensageiros, com convites para doze fadas, conforme o rei resolvera.
No dia da festa, cada uma das fadas chegou perto do berço em que dormia a princesa Aurora e ofereceu à recém-nascida um presente maravilhoso.
— Será a mais bela moça do reino — disse a primeira fada, debruçando-se sobre o berço.
— E a de carácter mais justo — acrescentou a segunda.
— Terá riquezas a perder de vista — proclamou a terceira.
— Ninguém terá o coração mais caridoso que o seu — afirmou a quarta.
— A sua inteligência brilhará como um sol — comentou a quinta.
Onze fadas já tinham passado em frente ao berço e dado a pequena princesa um dom; faltava somente uma (entretida em tirar uma mancha do vestido, no qual um garçon desajeitado tinha virado uma taça de sorvete) quando chegou a décima terceira, aquela que não tinha sido convidada por falta de pratos de ouro.
Estava com a expressão muito sombria e ameaçadora, terrivelmente ofendida por ter sido excluída. Lançou um olhar maldoso para a princesa Aurora, que dormia tranquila, e disse: — Aos quinze anos a princesa vai se ferir com o fuso de uma roca e morrerá.
E foi embora, deixando um silêncio desanimador e os pais desesperados.
Então aproximou-se a décima segunda fada, que devia ainda oferecer seu presente.
— Não posso cancelar a maldição que agora atingiu a princesa. Tenho poderes só para modificá-la um pouco. Por isso, Aurora não morrerá; dormirá por cem anos, até a chegada de um príncipe que a acordará com um beijo.
Passados os primeiros momentos de espanto e temor, o rei, decidiu tomar providências, mandou queimar todas as rocas do reino. E, daquele dia em diante, ninguém mais fiava, nem linho, nem algodão, nem lã. Ninguém além da torre do castelo.
Aurora crescia, e os presentes das fadas, apesar da maldição, estavam dando resultados. Era bonita, boa, gentil e caridosa, os súbditos a adoravam.
No dia em que completou quinze anos, o rei e a rainha estavam ausentes, ocupados numa partida de caça. Talvez, quem sabe, em todo esse tempo tivessem até esquecido a profecia da fada malvada.
A princesa Aurora, porém, estava se aborrecendo por estar sozinha e começou a andar pelas salas do castelo. Chegando perto de um portãozinho de ferro que dava acesso à parte de cima de uma velha torre, abriu-o, subiu a longa escada e chegou, enfim, ao quartinho.
Ao lado da janela estava uma velhinha de cabelos brancos, fiando com o fuso uma meada de linho. A garota olhou, maravilhada. Nunca tinha visto um fuso.
— Bom dia, vovozinha.
— Bom dia a você, linda garota.
— O que está fazendo? Que instrumento é esse?
Sem levantar os olhos do seu trabalho, a velhinha respondeu com ar bonachão:
— Não está vendo? Estou fiando!
A princesa, fascinada, olhava o fuso que girava rapidamente entre os dedos da velhinha.
— Parece mesmo divertido esse estranho pedaço de madeira que gira assim rápido. Posso experimentá-lo também? Sem esperar resposta, pegou o fuso. E, naquele instante, cumpriu-se o feitiço. Aurora furou o dedo e sentiu um grande sono. Deu tempo apenas para deitar-se na cama que havia no aposento, e seus olhos se fecharam.
Na mesma hora, aquele sono estranho se difundiu por todo o palácio.
Adormeceram no trono o rei e a rainha, recém-chegados da partida de caça.
Adormeceram os cavalos na estrebaria, as galinhas no galinheiro, os cães no pátio e os pássaros no telhado.
Adormeceu o cozinheiro que assava a carne e o servente que lavava as louças; adormeceram os cavaleiros com as espadas na mão e as damas que enrolavam seus cabelos.
Também o fogo que ardia nos braseiros e nas lareiras parou de queimar, parou também o vento que assobiava na floresta. Nada e ninguém se mexia no palácio, mergulhado em profundo silêncio.
Em volta do castelo surgiu rapidamente uma extensa mata. Tão extensa que, após alguns anos, o castelo ficou oculto.
Nem os muros apareciam, nem a ponte levadiça, nem as torres, nem a bandeira hasteada que pendia na torre mais alta.
Nas aldeias vizinhas, passava de pai para filho a história da princesa Aurora, a bela adormecida que descansava, protegida pelo bosque cerrado. A princesa Aurora, a mais bela, a mais doce das princesas, injustamente castigada por um destino cruel.
Alguns cavalheiros, mais audaciosos, tentaram sem êxito chegar ao castelo. A grande barreira de mato e espinheiros, cerrada e impenetrável, parecia animada por vontade própria: os galhos avançavam para cima dos coitados que tentavam passar: seguravam-nos, arranhavam-nos até fazê-los sangrar, e fechavam as mínimas frestas.
Aqueles que tinham sorte conseguiam escapar, voltando em condições lastimáveis, machucados e sangrando. Outros, mais teimosos, sacrificavam a própria vida.
Um dia, chegou nas redondezas um jovem príncipe, bonito e corajoso. Soube pelo bisavô a história da bela adormecida que, desde muitos anos, tantos jovens a procuravam em vão alcançar.
— Quero tentar também — disse o príncipe aos habitantes de uma aldeia pouco distante do castelo.
Aconselharam-no a não ir. — Ninguém nunca conseguiu!
— Outros jovens, fortes e corajosos como você, falharam…
— Alguns morreram entre os espinheiros…
— Desista!
Muitos foram, os que tentarem desanimá-lo.
No dia em que o príncipe decidiu satisfazer a sua vontade se completavam justamente os cem anos da festa do baptizado e das predições das fadas. Chegara, finalmente, o dia em que a bela adormecida poderia despertar.
Quando o príncipe se encaminhou para o castelo viu que, no lugar das árvores e galhos cheios de espinhos, se estendiam aos milhares, bem espessas, enormes carreiras de flores perfumadas. E mais, aquela mata de flores cheirosas se abriu diante dele, como para encorajá-lo a prosseguir; e voltou a se fechar logo, após sua passagem.
O príncipe chegou em frente ao castelo. A ponte elevadiça estava abaixada e dois guardas dormiam ao lado do portão, apoiados nas armas. No pátio havia um grande número de cães, alguns deitados no chão, outros encostados nos cantos; os cavalos que ocupavam as estrebarias dormiam em pé.
Nas grandes salas do castelo reinava um silêncio tão profundo que o príncipe ouvia sua própria respiração, um pouco ofegante, ressoando naquela quietude. A cada passo do príncipe se levantavam nuvens de poeira.
Salões, escadarias, corredores, cozinha… Por toda parte, o mesmo espectáculo: gente que dormia nas mais estranhas posições.
O príncipe preambulou por longo tempo no castelo. Enfim, achou o portãozinho de ferro que levava à torre, subiu a escada e chegou ao quartinho em que dormia A princesa Aurora.
A princesa estava tão bela, com os cabelos soltos, espalhados nos travesseiros, o rosto rosado e risonho. O príncipe ficou deslumbrado. Logo que se recobrou se inclinou e deu-lhe um beijo.
Imediatamente, Aurora despertou, olhou par ao príncipe e sorriu.
Todo o reino também despertara naquele instante.
Acordou também o cozinheiro que assava a carne; o servente, bocejando, continuou lavando as louças, enquanto as damas da corte voltavam a enrolar seus cabelos.
O fogo das lareiras e dos braseiros subiu alto pelas chaminés, e o vento fazia murmurar as folhas das árvores. A vida voltara ao normal. Logo, o rei e a rainha correram à procura da filha e, ao encontrá-la, chorando, agradeceram ao príncipe por tê-la despertado do longo sono de cem anos.
O príncipe, então, pediu a mão da linda princesa em casamento que, por sua vez, já estava apaixonada pelo seu valente salvador.
Eles, então, se casaram e viveram felizes para sempre!



26/02/2010

Uma verdadeira princesa

(Real Princess)


Num país muito longínquo, havia um príncipe que só queria casar com uma verdadeira princesa. Deu a volta ao mundo em busca de uma e, apesar de não faltarem princesas, nunca tinha confiança na antigüidade da sua nobreza; sempre havia nelas qualquer coisa que lhe parecia suspeito. Isto deu em resultado voltar para o seu país muito desgostoso por não ter encontrado o que desejava.

Certa noite, fazia um tempo horrível; os relâmpagos cruzavam-se no céu, o trovão ribombava, a chuva caía em torrentes. Bateu alguém à porta do palácio e o velho rei apressou-se em mandar abrir. Era uma princesa que vinha fugindo, perseguida por alguns rebeldes do seu país que acabavam de destronar a família real. Mas, Deus!, de que maneira a tinham posto a chuva e a tempestade! A água escorria-lhe pelo vestido. No entanto, apresentou-se como uma verdadeira princesa, sem faltar a uma só das regras de etiqueta palaciana. "Daqui a pouco saberemos se és ou não uma verdadeira princesa", pensou a velha rainha.

Em seguida, sem dizer nada a ninguém, entrou num quarto, desfez a cama e pôs uma ervilha sobre as tábuas. Depois estendeu vinte colchões sobre a ervilha e ainda mais vinte edredons que colocou em cima dos colchões. Era aquela a cama destinada à princesa. Na manhã seguinte, a rainha entrou no quarto em companhia do filho, e ambos lhe perguntaram com grande interesse como tinha passado a noite. - Muito mal. - ela respondeu. - A noite toda quase não fechei os olhos! Havia nesta cama qualquer coisa que me deixou machucada.

Por esta resposta, os reis e o príncipe se convenceram de que ela era uma verdadeira princesa. O príncipe casou com ela, e a ervilha foi mandada para um museu, onde ainda se deve conservar sob uma urna de cristal, se ninguém a furtou...


Hans Christian Andersen

Hermes



Quando Apolo ainda era pastor, seu irmãozinho Hermes lhe pregou uma peça e tanto. Aproveitando-se do descuido de Apolo, que sonhava em vez de vigiar o rebanho, roubou-lhe as ovelhas.
Apolo estava longe de desconfiar que aquele menino, o qual imaginava ainda ser de colo, fosse capaz de enganá-lo. Mas era ele mesmo que conduzia agora o rebanho pelas planícies e vales até o denso bosque de Pilo. Ali deixou as ovelhas descansando, escondidas numa gruta. Depois voltou para junto da sua mãe Maia, com um sorriso malicioso nos lábios.
Apolo acabou encontrando a pista do rebanho. O voo dos pássaros, que ele sabia interpretar, o ajudou a descobrir o esconderijo. Seus dons de adivinho lhe revelaram o autor do roubo:
"Menino feio", ralhou com o irmão, "você tem sorte de ainda usar fraldas. Senão, eu teria lhe dado uma boa sova!"
Mas a raiva de Apolo se aplacou quando ele ouviu os sons melodiosos que o menino tirava de um instrumento desconhecido. Todo contente, Hermes lhe deu o instrumento:
"É para você. É uma lira que acabei de inventar. Beliscando as cordas presas a cada extremidade desta carapaça de tartaruga, você vai obter os sons cristalinos que acompanharão seus cantos." Esquecendo os motivos do seu mau humor, Apolo até propôs a Hermes trocar o rebanho pelo instrumento. O negócio selou a reconciliação entre os dois irmãos.
Por sua malícia e engenhosidade, Hermes demonstrava uma precocidade excepcional. Sempre curioso, o jovem deus não se limitou a esse achado. Teve a ideia de prender um ao outro caniços de comprimentos diferentes para confeccionar um instrumento. Levou-o aos lábios e soprou delicadamente em cada orifício. Foi assim que inventou a flauta.
Apolo ficou encantado com essa nova invenção e quis logo adquiri-la. Em troca, ofereceu ao irmãozinho o cajado de ouro que usava para pastorear. Esse cajado virou o caduceu, símbolo de Hermes.
Feliz com a habilidade que ele manifestava em todas as ocasiões, seu pai, o poderoso Zeus, fez dele seu mensageiro. Hermes passava a maior parte do tempo correndo o mundo; para isso, usava sandálias aladas, que lhe permitiam mover-se mais rapidamente. Suas viagens às vezes o levavam muito longe, até o reino subterrâneo, aonde acompanhava os defuntos.

Contos e Lendas da Mitologia Grega


Cinderela

Há muito tempo, aconteceu que a esposa de um rico comerciante adoeceu gravemente e, sentindo seu fim se aproximar, chamou sua única filha e disse:
- Querida filha, continue piedosa e boa menina que Deus a protegerá sempre. Lá do céu olharei por você, e estarei sempre a seu lado.Mal acabou de dizer isso, fechou os olhos e morreu.
A jovem ia todos os dias visitar o túmulo da mãe, sempre chorando muito.
Veio o inverno, e a neve cobriu o túmulo com seu alvo manto.
Chegou a primavera, e o sol derreteu a neve. Foi então que o viúvo resolveu se casar outra vez.
A nova esposa trouxe suas duas filhas, ambas bonitas, mas só exteriormente. As duas tinham a alma feia e cruel.
A partir desse momento, dias difíceis começaram para a pobre enteada.
- Essa imbecil não vai ficar no quarto conosco! _Reclamaram as moças.
- O lugar dela é na cozinha! Se quiser comer pão, que trabalhe!
Tiraram-lhe o vestido bonito que ela usava, obrigaram-na a vestir outro, velho e desbotado, e a calçar tamancos.
- Vejam só como está toda enfeitada, a orgulhosa princesinha de antes! -disseram a rir, levando-a para a cozinha.
A partir de então, ela foi obrigada a trabalhar, da manhã à noite, nos serviços mais pesados.
Era obrigada a se levantar de madrugada, para ir buscar água e acender o fogo. Só ela cozinhava e lavava para todos.
Como se tudo isso não bastasse, as irmãs caçoavam dela e a humilhavam.
Espalhavam lentilhas e feijões nas cinzas do fogão e obrigavam-na a catar um a um.
À noite, exausta de tanto trabalhar, a jovem não tinha onde dormir e era obrigada a se deitar nas cinzas do fogão. E, como andasse sempre suja e cheia de cinza, só a chamavam de Cinderela.
Uma vez, o pai resolveu ir a uma feira. Antes de sair, perguntou às enteadas o que desejavam que ele trouxesse.
__Vestidos bonitos- disse uma.
__ Pérolas e pedras preciosas - disse a outra.
__E você, Cinderela, o que vai querer? - perguntou o pai.
__No caminho de volta, pai, quebre o primeiro ramo que bater no seu chapéu e traga-o para mim.
Ele partiu para a feira, comprou vestidos bonitos para uma das enteadas, pérolas e pedras preciosas para a outra e, de volta para casa, quando cavalgava por um bosque, um ramo de aveleira bateu no seu chapéu. Ele quebrou o ramo e levou-o.
Chegando em casa, deu às enteadas o que haviam pedido e à Cinderela, o ramo de aveleira.
Ela agradeceu, levou o ramo para o túmulo da mãe, plantou-o ali, e chorou tanto que suas lágrimas regaram o ramo. Ele cresceu e se tornou uma aveleira linda.
Três vezes, todos os dias, a menina ia chorar e rezar embaixo dela.
Sempre que a via chegar, um passarinho branco voava para a árvore e, se a ouvia pedir baixinho alguma coisa, jogava-lhe o que ela havia pedido.
Um dia, o rei mandou anunciar uma festa, que duraria três dias.
Todas as jovens bonitas do reino seriam convidadas, pois o filho dele queria escolher entre elas aquela que seria sua futura esposa.
Quando souberam que também deveriam comparecer, as duas filhas da madrasta ficaram contentíssimas.
__Cinderela! - Gritaram.__ Venha pentear nosso cabelo, escovar nossos sapatos e nos ajudar a vestir, pois vamos a uma festa no castelo do rei!
Cinderela obedeceu chorando, porque ela também queria ir ao baile. Perguntou à madrasta se poderia ir, e esta respondeu:
__Você, Cinderela! Suja e cheia de pó, está querendo ir à festa? Como vai dançar, se não tem roupa nem sapatos?
Mas Cinderela insistiu tanto, que afinal ela disse:
- Está bem. Eu despejei nas cinzas do fogão um tacho cheio de lentilhas. Se você conseguir catá-las todas em duas horas, poderá ir.
A jovem saiu pela porta dos fundos, correu para o quintal e chamou:
- Mansas pombinhas e rolinhas!
Passarinhos do céu inteiro!
Venham me ajudar a catar lentilhas!
As boas vão para o tacho!
As ruins para o seu papo!

Logo entraram pela janela da cozinha duas pombas brancas; a seguir, vieram as rolinhas e, por último, todos os passarinhos do céu chegaram numa revoada e pousaram nas cinzas.
As pombas abaixavam a cabecinha e pic, pic, pic, apanhavam os grãos bons e deixavam cair no tacho. As outras avezinhas faziam o mesmo. Não levou nem uma hora, o tacho ficou cheio e as aves todas voaram para fora.
Cheia de alegria, a menina pegou o tacho e levou para a madrasta, certa de que agora poderia ir à festa. Porém a madrasta disse:
- Não, Cinderela. Você não tem roupa e não sabe dançar. Só serviria de caçoada para os outros.
Como a menina começou a chorar, ela propôs:
- Se você conseguir catar dois tachos de lentilhas nas cinzas em uma hora, poderá ir conosco.
Enquanto isso, pensou consigo mesma: “Isso ela não vai conseguir…”
Assim que a madrasta acabou de espalhar os grãos nas cinzas, Cinderela correu para o quintal e chamou:
- Mansas pombinhas e rolinhas!
Passarinhos do céu inteiro!
Venham me ajudar a catar lentilhas!
As boas vão para o tacho!
As ruins para o seu papo!

E entraram pela janela da cozinha duas pombas brancas; a seguir vieram as rolinhas e, por último, todos os passarinhos do céu chegaram numa revoada e pousaram nas cinzas.
As pombas abaixavam a cabecinha e pic, pic, pic, apanhavam os grãos bons e deixavam cair no tacho. Os outros pássaros faziam o mesmo. Não passou nem meia hora, e os dois tachos ficaram cheios. As aves se foram voando pela janela.
Então, a menina levou os dois tachos para a madrasta, certa de que, desta vez, poderia ir à festa.
Porém, a madrasta disse:
- Não adianta, Cinderela! Você não vai ao baile! Não tem vestido, não sabe dançar e só nos faria passar vergonha!
E, dando-lhe as costas, partiu com suas orgulhosas filhas.
Quando ficou sozinha, Cinderela foi ao túmulo da mãe e embaixo da aveleira, disse:
-Balance e se agite,
árvore adorada,
cubra-me toda
de ouro e prata!

Então o pássaro branco jogou para ela um vestido de ouro e prata e sapatos de seda bordada de prata. Cinderela se vestiu, a toda pressa, e foi para a festa.
Estava tão linda, no seu vestido dourado, que nem as irmãs, nem a madrasta a reconheceram. Pensaram que fosse uma princesa estrangeira, para elas, Cinderela só poderia estar em casa, catando lentilhas nas cinzas.
Logo que a viu, o príncipe veio a seu encontro e, pegando-lhe a mão, levou-a para dançar. Só dançou com ela, sem largar de sua mão por um instante.
Quando alguém a convidava para dançar, ele dizia:
- Ela é minha dama.
Dançaram até altas horas da noite e, até que Cinderela quis voltar para casa.
- Eu a acompanho - disse o príncipe. Na verdade, ele queria saber a que família ela pertencia.
Mas Cinderela conseguiu escapar dele, correu para casa e se escondeu no pombal. O príncipe esperou o pai dela chegar e contou-lhe que a jovem desconhecida tinha saltado para dentro do pombal.
“Deve ser Cinderela…”, pensou o pai. E mandou vir um machado para arrombar a porta do pombal. Mas não havia ninguém lá dentro.
Quando chegaram em casa, encontraram Cinderela com suas roupas sujas, dormindo nas cinzas, à luz mortiça de uma lamparina.
A verdade é que, assim que entrou no pombal, a menina saiu pelo lado de trás e correu para a aveleira. Ali, rapidamente tirou seu belo vestido e deixou-o sobre o túmulo. Veio o passarinho, apanhou o vestido e levou-o. Ela vestiu novamente seu vestidinho velho e sujo, correu para casa e se deitou nas cinzas da cozinha.
No dia seguinte, o segundo dia da festa, quando os pais e as irmãs partiram para o castelo, Cinderela foi até a aveleira e disse:
- Balance e se agite,
árvore adorada,
cubra-me toda
de ouro e prata!

E o pássaro atirou para ela um vestido ainda mais bonito que o da véspera. Quando ela entrou no salão assim vestida, todos ficaram pasmados com sua beleza.
O príncipe, que a esperava, tomou-lhe a mão e só dançou com ela. Quando alguém convidava a jovem para dançar, ele dizia:
- Ela é minha dama.
Já era noite avançada quando Cinderela quis ir embora. O príncipe seguiu-a, para ver em que casa entraria.A jovem seguiu seu caminho e, inesperadamente, entrou no quintal atrás da casa.
Ágil como um esquilo, subiu pela galharia de uma frondosa pereira carregada de frutos que havia ali. O príncipe não conseguiu descobri-la e, quando viu o pai dela chegar, disse:
- A moça desconhecida escondeu-se nessa pereira.
“Deve ser Cinderela”, pensou o pai. Mandou buscar um machado e derrubou a pereira. Mas não encontraram ninguém na galharia.
Como na véspera, Cinderela já estava na cozinha dormindo nas cinzas, pois havia escorregado pelo outro lado da pereira, correra para a aveleira, e devolvera o lindo vestido ao pássaro. Depois, vestiu o feio vestidinho de sempre, e correu para casa.
No terceiro dia, assim que os pais e as irmãs saíram para a festa, Cinderela foi até o túmulo da mãe e pediu à aveleira:
- Balance e se agite,
árvore adorada,
cubra-me toda
de ouro e prata!

E o pássaro atirou-lhe o vestido mais suntuoso e brilhante jamais visto, acompanhado de um par de sapatinhos de puro ouro.
Ela estava tão linda, tão linda, que, quando chegou ao castelo, todos emudeceram de assombro. O príncipe só dançou com ela e, como das outras vezes, dizia a todos que vinham tirá-la para dançar:
- Ela é minha dama.
Já era noite alta, quando Cinderela quis voltar para casa. O príncipe tentou segui-la, mas ela escapuliu tão depressa, que ele não pode alcançá-la.
Dessa vez, porém, o príncipe usara um estratagema: untou com piche um degrau da escada e, quando a moça passou, o sapato do pé esquerdo ficou grudado. Ela deixou-o ali e continuou correndo.
O príncipe pegou o sapatinho: era pequenino, gracioso e todo de ouro.
No outro dia, de manhã, ele procurou o pai e disse:
- Só me casarei com a dona do pé que couber neste sapato.
As irmãs de Cinderela ficaram felizes e esperançosas quando souberam disso, pois tinham pés delicados e bonitos.
Quando o príncipe chegou à casa delas, a mais velha foi para o quarto acompanhada da mãe e experimentou o sapato. Mas, por mais que se esforçasse, não conseguia meter dentro dele o dedo grande do pé. Então, a mãe deu-lhe uma faca, dizendo:
__ Corte fora o dedo. Quando você for rainha, vai andar muito pouco a pé.
Assim fez a moça. O pé entrou no sapato e, disfarçando a dor, ela foi ao encontro do príncipe. Ele recebeu-a como sua noiva e levou-a na garupa do seu cavalo.
Quando passavam pelo túmulo da mãe de Cinderela, que ficava bem no caminho, duas pombas pousaram na aveleira e cantaram:
- Olhe para trás! Olhe para trás!
Há sangue no sapato,
que é pequeno demais!
Não é a noiva certa
que vai sentada atrás!
O príncipe virou-se, olhou o pé da moça e logo viu o sangue escorrendo do sapato. Fez o cavalo voltar e levou-a para a casa dela.
Chegando lá, ordenou à outra filha da madrasta que calçasse o sapato. Ela foi para o quarto e calçou-o. Os dedos do pé entraram facilmente, mas o calcanhar era grande demais e ficou de fora. Então, a mãe deu-lhe uma faca dizendo:
- Corte fora um pedaço do calcanhar. Quando você for rainha, vai andar muito pouco a pé.
Assim fez a moça. O pé entrou no sapato e, disfarçando a dor, ela foi ao encontro do príncipe. Ele aceitou-a como sua noiva e levou-a na garupa do seu cavalo.
Quando passavam pela aveleira, duas pombinhas pousaram num dos ramos e cantaram:
__ Olhe para trás! Olhe para trás!
Há sangue no sapato,
que é pequeno demais!
Não é a noiva certa
que vai sentada atrás!

O príncipe olhou o pé da moça, viu o sangue escorrendo e a meia branca, vermelha de sangue. Então virou seu cavalo, levou a falsa noiva de volta para casa e disse ao pai:
- Esta também não é a verdadeira noiva. Vocês não têm outra filha?
- Não!- respondeu o pai - A não ser a pequena Cinderela, filha de minha falecida esposa. Mas é impossível que seja ela a noiva que procura.
O príncipe ordenou que fossem buscá-la.
- Oh, não! Ela está sempre muito suja! Seria uma afronta trazê-la a vossa presença! - protestou a madrasta.
Porém o príncipe insistiu, exigindo que ela fosse chamada. Depois de lavar o rosto e as mãos ela veio, curvou-se diante do príncipe e pegou o sapato de ouro que ele lhe estendeu.
Sentou-se num banquinho, tirou do pé o pesado tamanco e calçou o sapato, que lhe serviu como uma luva.
Quando ela se levantou, o príncipe viu seu rosto e reconheceu logo a linda jovem com quem havia dançado.
- É esta a noiva verdadeira! — exclamou, feliz.
A madrasta e as filhas levaram um susto e ficaram brancas de raiva. O príncipe ergueu Cinderela, colocou-a na garupa do seu cavalo e partiram. Quando passaram pela aveleira, as duas pombinhas brancas cantaram:
- Olhe pare trás! Olhe pare trás!

Não há sangue no sapato,
que serviu bem demais!
Essa é a noiva certa.
Pode ir em paz!

E, quando acabaram de cantar, elas voaram e foram pousar, uma no ombro direito de Cinderela, outra no esquerdo; ali ficaram.
Quando o casamento de Cinderela com o príncipe se realizou, as falsas irmãs foram à festa. A mais velha ficou à direita do altar, e a mais nova, à esquerda.
Subitamente, sem que ninguém pudesse impedir, a pomba pousada no ombro direito da noiva voou para cima da irmã mais velha e furou-lhe os olhos. A pomba do ombro esquerdo fez o mesmo com a mais nova, e ambas ficaram cegas para o resto de suas vidas.


23/02/2010

Indigam Toruai – O grande peixe


Há muitos dias que não chovia. A água estava límpida, o rio baixo. Não podia haver melhor altura para a pesca.
Os rapazes de Kamberap preparavam as azagaias.
— É trabalho em vão — diziam os homens. — Não ides apanhar nada. Até as garças sabem que no rio Xilil já não há peixe.
— Mas nós queremos subir o rio até à foz do Troali — disseram os rapazes.
— Trabalho ainda mais inútil — disseram os homens. — Mas ide lá e tentai a sorte.
Os rapazes foram sentar-se à sombra dos hibiscos que rodeavam a praça da aldeia. Estavam em silêncio. Cada qual pensava para si se valeria ou não a pena levar a cabo a planeada pescaria.
Foi então que surgiu Bonifo com um grande peixe.
Yamandau foi o primeiro a vê-lo.
— Indigam! — gritou. — Indigam toruai! (Um peixe grande!)
Os rapazes levantaram-se de repente e correram para Bonifo, cercaram-no, admiraram e apalparam o peixe, queriam saber quando, onde e como é que Bonifo o tinha apanhado e assediavam-no com perguntas.
Bonifo não respondia. Só se ria e segurava o peixe no ar para o manter fora do alcance dos rapazes. Eles deram um passo para trás. O círculo à volta de Bonifo alargou-se e a confusão das vozes calou-se. Só Yaman-dau perguntava insistentemente:
— Diz-nos lá, Bonifo, onde é que o arranjaste?
— No sítio onde há muitos como este — respondeu Bonifo sorrindo de contente e pondo-se novamente a andar.
Agora já nada detinha os rapazes. Dispararam para casa, trouxeram as setas, correram para junto de Koere a pedir-lhe cestos para apanhar peixe, e em seguida abalaram todos para o rio.
O resto do dia foi passado no Yilil. Koere, que viera com eles, também ficou e ajudou os rapazes no que pôde. Preparou as setas, substituiu as pontas partidas por outras de tapioca, novas e duras, ensinou-os a atirar as setas e mergulhou nas partes mais fundas do rio para verificar pessoalmente se aí havia peixe ou não.
Havia peixes … aqui e ali, mas eram tão minúsculos que não valia a pena apontar-lhes uma seta nem perder tempo a pôr os cestos. O entrançado era demasiado imperfeito, de modo que os cestos não reteriam peixe algum. Para Koere isto era evidente.
Mas para os rapazes é que não. Estavam confiantes e não iriam desistir. Mesmo que todos os meios falhassem, restava sempre uma outra possibilidade: a magia!
Mesmo que os rapazes nunca tivessem visto, todos sabiam que os velhos da tribo conheciam uma forma de enfeitiçar os peixes através de fórmulas e canções mágicas. O líquido atordoante das lianas venenosas deixava os peixes cansados e sem forças, e tornava-se até possível apanhá-los à mão.
— Porque não tentamos? — perguntou Yamandau. — Já experimentámos tudo o resto, porque não a magia com as lianas?
Koere meneou a cabeça:
— Aqui não há as lianas certas para isso. Só nas montanhas, lá em cima.
— Não faz mal — disse Yamandau. — Usamos lianas daqui e fazemos nós a nossa magia.
Koere voltou a menear a cabeça.
— Não sabemos as palavras mágicas — disse.
— Não faz mal — insistiu Yamandau. — Inventamos nós as palavras mágicas.
Koere foi buscar lianas. Cortou-as em pedaços, atou-as e deu a cada rapaz um feixe de caules duros mas maleáveis. Os rapazes estenderam os feixes nas pedras da margem, procuraram seixos duros do tamanho de um punho e bateram com eles nos caules até as lianas se desfazerem e o sumo começar a escorrer.
Procediam exactamente como faziam os velhos com a magia autêntica das lianas, só que não eram nem as lianas certas nem as palavras mágicas certas.
Ainda assim, enquanto Yamandau batia no feixe de lianas, lembrou-se de uma canção que de certeza seria tão boa como qualquer outra fórmula mágica:

Indigan tangane O peixe está aqui
Kolop, kolop venham, venham
Kawaikare muitos!

Yamandau cantava com todas as suas forças, enquanto batia na água, tão cheio de raiva e de desapontamento pelo fracasso daquele dia passado no rio, que até fazia espuma e salpicava tudo à sua volta. A sua canção ecoava no barranco, misturando a voz de Yamandau com a de Koere e a dos outros rapazes, e com o eco que vinha de todos os lados. O bater das lianas na água marcava o compasso da música, como fazem os tambores nas festas da aldeia.
Antes do sol se pôr, os rapazes fizeram-se a casa. Estavam cansados e esfomeados. O máximo que tinham conseguido apanhar nesse dia foram sete caranguejos.
Assaram-nos num pequeno fogo à beira do rio e comeram-nos antes de subirem o monte a caminho da aldeia, já de noite.
Mas não foram logo para casa. Primeiro, passaram pela casa de Bonifo para ver se este já tinha comido o peixe. Ainda não! Ali estava ele, numa folha de bananeira, ao lado do fogão, assado, aloirado e tostado. Os rapazes ficaram de olhos perdidos no peixe.
Do fundo da varanda, Bonifácio exclamou:
— Até que enfim! Deixaram-me à tanto tempo à vossa espera! Subam.
Subiram à varanda. Bonifo foi ter com eles. Debruçou-se sobre o peixe, partiu-o e deu a cada um deles um pedaço de carne branca e bem cheirosa, e ainda uma porção de puré de tapioca.
— Que bem que isto sabe! — disse Yamandau. E passado algum tempo:
— Diz-nos lá, Bonifo, como é que apanhaste o peixe! Foi com magia?
— Não — respondeu Bonifo.
— Então? — exclamaram os rapazes.
— Com cocos — disse Bonifo, rindo-se divertido.
Os rapazes não perceberam. Bonifo soltou uma gargalhada e explicou-lhes. Tinha trocado o peixe por dois cocos… no mercado de Green River…


Brigitte Peter
uma história da Papua-Nova Guiné

Lene Mayer-Skumanz (org.)
Hoffentlich bald
Wien, Herder Verlag, 1986
tradução e adaptação

A história da carochinha


Era uma vez uma linda carochinha, que encontrou cinco réis enquanto varria a cozinha.
Com o dinheiro, foi comprar uns brincos, um colar e um anel, pôs-se à janela e perguntou?
- Quem quer casar comigo?
Passou um burro e respondeu:
- Quero eu!
- Como te chamas?
- Chamo-me im om, im om, im om.
- Eu não gosto de ti porque tens uma voz muito feia.
A carochinha voltou a perguntar:
- Quem quer casar comigo?
Passou um cão e respondeu:
- Quero eu!
- Como te chamas?
- Ão, ão, ão.
- Eu não gosto de ti porque tens uma voz muito grossa.
A carochinha voltou a perguntar:
- Quem quer casar comigo?
Passou um gato e respondeu:
- Quero eu!
- Como te chamas?
- Miau, miau, miau.
- Eu não gosto de ti porque tens uma voz muito fina.
A carochinha voltou a perguntar:
- Quem quer casar comigo?
Passou um rato e respondeu:
- Quero eu!
- Como te chamas?
- Chamo-me João Ratão.
- Tu sim, tens uma voz bonita, quero casar contigo.
A carochinha e o João Ratão casaram e foram muito felizes.
Porém, certo dia, a carochinha disse ao João Ratão que estava na hora de ir à missa.
O João Ratão, que era muito guloso, disse que não podia ir porque estava doente.
A carochinha, que fazia a refeição, disse-lhe então que não mexesse no caldeirão.
Depois da carochinha sair, logo o João Ratão foi espreitar o caldeirão.
Espreitou, espreitou e deu um grande trambolhão e caiu no caldeirão.
Quando a carochinha chegou, procurou, procurou o João Ratão mas não o encontrou.
Muito aflita, a carochinha entrou na cozinha, viu o João Ratão caído no caldeirão e disse:
- Ai o meu João Ratão, que caiu no caldeirão! Ai o meu João Ratão, que caiu no caldeirão!




A cerejeira do Natal


O senhor Tadeu tinha, lá na horta, uma cerejeira de que gostava muito. Quando chegava o tempo das cerejas, era uma fartura, uma doçura que não havia igual.
Pois é, mas os pardais também diziam o mesmo. Tinham uma predilecção por aquela cerejeira, como se as cerejas fossem de mel. Eram quase.
O senhor Tadeu enxotava-os, pendurava fitas nos ramos para assustá-los e chegou a armar um espantalho de vassoura na mão, que prendeu no alto da cerejeira. Fazia vista, mas não metia medo.
Mal chegava o tempo das cerejas amadurarem, a pardalada vinha em excursão festiva para o meio da cerejeira. Depenicavam com tal arte que chegavam a deixar só o caroço das cerejas, preso ao pezinho suspenso da árvore. Um desespero para o senhor Tadeu.
Há dias, encontrei-o, na loja de artigos de Natal, a carregar um enorme embrulho.
— Ena! — exclamei eu. — O seu pinheiro vai ficar bem enfeitado.
— Não é para o pinheiro — emendou o senhor Tadeu. — É para a cerejeira.
Então, explicou-me o seu plano. Quando, da Primavera para o Verão, os frutos da cerejeira começassem a engordar, ele ia enfeitar a árvore com sininhos e bolas de Natal.
— Para os pardais julgarem que é um pinheiro — concluí eu, pouco convencido da eficácia do projecto. — Eles são mais espertos do que isso.
Seriam, de facto, reconheceu o senhor Tadeu, mas também são uns passarinhos alarmados. Detestam ruídos imprevistos. Ouvindo os sininhos agitados pelo vento, fogem. E as bolas de Natal, brilhando ao sol, também hão-de meter-lhes respeito.
O senhor Tadeu lá se foi, muito contente com o seu plano. Resulte ou não resulte, a cerejeira há-de gostar.


António Torrado

O Cedro



Era uma vez um cedro que sabia o quanto era bonito.
Ficava no centro do jardim e era mais alto que todas as outras árvores. O arranjo absolutamente simétrico de seus galhos fazia-o parecer um grande candelabro.
- Como seria eu se produzisse frutos? - pensou ele - seria certamente a árvore mais bonita do mundo.
E então começou a observar as outras árvores e tentou imitá-las. Finalmente, bem no alto do cedro, surgiu um lindo fruto.
- Agora preciso alimentá-lo - pensou o cedro consigo mesmo - preciso ajudá-lo a crescer.
E o fruto começou a crescer e a inchar até tornar-se grande demais. O topo do cedro não conseguiu mais suportar-lhe o peso e começou a curvar-se. E quando o fruto amadureceu, o topo, que fora o orgulho e a alegria da árvore, ficou pendurado com um ramo partido.

22/02/2010

Os Elfos



Era uma vez um sapateiro que tinha ficado tão pobre, mesmo sem culpa nenhuma, que a única coisa que lhe restara era um pedaço de couro que dava para fazer um único par de sapatos. De noite, ele cortou o molde dos sapatos, planejando começar a trabalhar neles no dia seguinte. Depois, de consciência tranqüila, foi calmamente para a cama, entregou-se a Deus, e adormeceu.
De manhã, rezou suas orações e ia se sentar para começar a trabalhar quando viu que os sapatos estavam prontinhos em cima da banca. Ficou tão espantado, que nem sabia o que pensar. Pegou os sapatos e olhou de perto. Não havia um único ponto irregular e estava perfeito como se tivesse sido feito por um mestre-artesão.
Melhor ainda: logo chegou um cliente que gostou tanto dos sapatos que pagou por eles mais do que seria o preço normal. Com o dinheiro, o sapateiro ia comprar um pedaço de couro que dava para fazer dois pares de sapatos. Novamente, ele deixou os moldes cortados de noite, antes de ir deitar, pretendendo trabalhar neles com mais ânimo no dia seguinte. Mas nem precisou, porque quando se levantou os sapatos já estavam prontos. E também logo chegaram compradores, que lhe pagaram o suficiente para que ele comprasse couro para quatro pares novos.
Na manhã seguinte, ele encontrou os quatro pares prontos. E assim continuou: os sapatos que ele deixava cortados de noite estavam terminados de manhã. Em pouco tempo ele estava conseguindo se manter decentemente e, daí a mais um pouco, estava rico.
Numa noite, pouco antes do Natal, depois que o sapateiro tinha cortado o couro e eles estavam se preparando para ir dormir, ele disse para a mulher:
— E se a gente ficasse acordado hoje para ver quem é que está nos ajudando?
A mulher gostou da idéia e deixou a lâmpada acesa. Os dois se esconderam num canto, atrás de umas roupas, e ficaram esperando. À meia-noite, dois homenzinhos nus e com ar muito esperto entraram, se iclinaram diante da banca de trabalho, pegaram as peças que estavam cortadas e começaram a furar, costurar e martelar com tanta rapidez e agilidade em dedinhos pequenos que o sapateiro nem acreditava, de tão espantado. Trabalharam sem um momento de descanso, até que os sapatos estavam prontinhos, em cima da banca. Então saíram correndo e foram embora. Na manhã seguinte, a mulher disse:
— Esses homenzinhos nos fizeram ficar ricos. Devíamos mostrar a eles como estamos gratos. Eles devem ter frio, coitados, correndo de um lado para outro sem nada para vestir. Sabe de uma coisa? Vou fazer umas camisas e calças para eles, coletes, e casacos… E você podia fazer uns pares de sapatos.
— Ótima idéia disse o sapateiro.
Naquela noite, quando aprontaram tudo, deixaram os presentes em cima da banca de trabalho, em vez dos moldes de couro cortado. Depois se esconderam para ver o que os homenzinhos iam fazer. À meia-noite, lá chegaram eles correndo, prontos para trabalhar. De início, ficaram meio intrigados ao ver aquelas roupinhas, em vez do couro cortado. Mas deram pulos de alegria. Ligeiros como o relâmpago, vestiram as roupinhas lindas, se ajeitaram todos e cantaram:
— Estamos lindos, tão elegantes. sem mais trabalho, como era antes…
Pularam e dançaram, saltaram por cima das cadeiras e dos bancos, e finalmente saíram pela porta afora, sem parar de dançar. Depois disso, nunca mais voltaram, mas o sapateiro continuou prosperando até o fim de seus dias, porque tudo em que ele punha as mãos dava certo.


Irmãos Grimm

O camponês e a vinha

O fazendeiro gosta muito de mim - pensou a vinha enquanto o camponês sustentava-a com um grande número de estacas e apoiava todos os seus galhos com outros suportes - preciso recompensá-lo com minhas uvas.
Então a vinha pôs-se a trabalhar com diligência e produziu uma linda safra de uvas.
Após a colheita, porém, o fazendeiro subitamente retirou todos os apoios e estacas e empilhou-os num canto. Sem mais nada que a sustentasse, a pobre vinha caiu no chão.
O fazendeiro cortou as estacas com a machadinha, levou-as para casa e atirou-as na lareira.
Então a vinha percebeu que o fazendeiro não ligava absolutamente para ela. Só cuidara dela enquanto lhe interessava.



21/02/2010

Joana, Condessa da Flandres


Joana era uma rapariga nobre com uma vida muito atribulada, principalmente devido ao facto de ter ficado orfã de mãe muito cedo e do seu pai ter desaparecido em combate. Sendo a única filha deste casal, Joana herdou uma grande fortuna. Assim, aos dezasseis anos era uma das mulheres mais ricas da Europa, mas tinha que jurar fidelidade ao rei de França que se chamava Filipe Augusto. Visto que era muito nova, Joana não exercia os cargos a que tinha direito e vivia na corte de Paris onde era tratada com muito carinho.
Certo dia, chegou a Paris um príncipe português, tão belo que todas as damas da corte estavam apaixonadas por ele, incluindo Joana. Esse príncipe chamava-se Fernando e dizia-se filho do rei D. Sancho I de Portugal.
Assim, o rei D. Filipe Augusto adorava organizar festas e banquetes e para uma dessas festas convidou D. Fernando, que ao ver Joana, se apaixonou por esta.
Joana escolheu-o entre todos os que pretendiam desposá-la. O rei concordou e aboda fez-se em Paris, partindo depois os noivos para a Flandres. Toda a população os recebeu com festejos e desfiles. Joana e Fernando foram aclamados em muitas cidades flamengas, mas os nobres de Gand revoltaram-se, pois não aceitavam que a condessa tivesse desposado um estrangeiro. Ainda por cima, D. Fernando tinha entregue dois castelos ao rei Filipe Augusto em troca da licença para o casamento. Estalaram lutas e D. Fernando conseguiu impor-se, pois como era bom a população acabou por gostar dele. Joana viveu a seu lado longos anos muito felizes. Mais tarde, o rei Filipe Augusto envolveu-se em num conflito com Inglaterra e, quando foi pedir ajuda a Fernando para o combate este disse-lhe que só lutaria se o rei lhe desse os dois castelos oferecidos por ele na altura do casamento. Assim, Filipe Augusto, raivoso mandou prender D. Fernando e condenou-o à morte. Desesperada, Joana pediu perdão e misericórdia ao rei, mandou mensageiros, chegou a pedir a intervenção do papa até que pouparam a vida do pobre príncipe. Passaram-se doze anos e Joana sabendo que nunca mais iria recuperar o marido, pediu a anulação do casamento. De novo solteira Joana escolheu para seu marido o Duque da Bretanha. O rei Filipe Augusto receando que a aliança entre dois nobres tão poderosos, pudesse roubar-lhe o poder, mandou libertar Fernando. Como o casamento fora anulado, Joana e Fernando voltaram a casar-se em 1226, sendo muito felizes durante longos anos.


Lenda da Bélgica

18/02/2010

Molly Whuppie



Era uma vez um homem e uma mulher que tinham filhos demais e não conseguiam comida para eles. Pegaram então os três menores e os abandonaram na mata. As crianças andaram, andaram, sem nunca avistar uma casa. Logo começou a escurecer, e ficaram com fome. Finalmente viram uma luz e caminharam rumo a ela; era uma casa. Bateram à porta e apareceu uma mulher, que perguntou:

“O que desejam?”

E elas responderam:

“Por favor, deixe-nos entrar e nos dê alguma coisa para comer:’ A mulher disse:
“Não posso, porque meu marido é um gigante, e se chegasse em casa comeria vocês.” Elas imploraram: “Deixe-nos descansar só um pouquinho”, disseram, “e iremos embora antes que ele chegue.” Ela as deixou entrar, instalou-as diante do fogo e deu-lhes leite e pão; mas as crianças mal tinham começado a comer quando se ouviu uma batida muito forte à porta, e uma voz pavorosa disse:

“Fi-feu-fo-fum, farejo o sangue de um mortal. Quem está aí com você, mulher?”
“Hum”, disse a mulher, “são três pobres meninas com frio e com fome, e já vão embora. Não toque nelas, homem:’

Ele não disse nada, mas devorou um lauto jantar e ordenou que elas passassem a noite toda ali. Ora, ele também tinha três meninas, e elas iam dormir na mesma cama que as três forasteiras.A mais nova das três meninas estranhas chamava-se Molly Whuppie e era muito esperta. Ela notou que, antes de irem para a cama, o gigante passou cordas de palha em volta do seu pescoço e do das irmãs, e correntes de ouro em volta do pescoço das próprias filhas. Assim, Molly ficou atenta e não dormiu, esperando até se certificar de que todos estavam mergulhados num sono pesado. Depois se esgueirou da cama, soltou as cordas de palha do seu pescoço e do das irmãs e tirou as correntes de ouro do das filhas do gigante. Pôs então as cordas de palha nas meninas do gigante e as de ouro em si mesma e nas irmãs e se deitou.

No meio da noite o gigante se levantou, armado de um enorme porrete, e procurou os pescoços com a palha. Estava escuro. Ele tirou as filhas da cama e, no chão, surrou-as até matá-las, depois foi de novo se deitar, pensando que tinha se dado bem. Molly, achando que era hora de cair fora dali com as irmãs, acordou-as, disse-lhes que ficassem bem quietinhas, e todas fugiram sorrateiramente da casa.

Saíram sãs e salvas e correram, correram, sem nunca parar até de manhã, quando viram uma magnífica casa diante de si. Era a casa de um rei; Molly entrou e contou sua história ao rei. Ele disse: “Bem, Molly, você é uma menina esperta e realizou uma proeza; mas se quisesse realizar uma proeza maior ainda, e voltar para furtar a espada do gigante, que fica pendurada atrás da cama dele, eu daria meu filho mais velho em casamento à sua irmã mais velha.” Molly disse que tentaria. Assim ela voltou, conseguiu penetrar na casa do gigante e se meteu debaixo da cama. O gigante chegou em casa, comeu um lauto jantar e foi se deitar. Molly esperou que ele começasse a roncar e avançou furtivamente, esticou o braço por cima dele e pegou a espada; mas no instante em a passava sobre a cama, ela tilintou.

O gigante deu um pulo e Molly saiu porta afora, levando a espada. Correu, correu, até que chegou à Ponte de um Cabelo. Molly conseguiu passar, mas o gigante não, e disse:”Maldita seja, MollyWhuppie! Nunca mais volte aqui.” E ela respondeu: “Duas até agora, grandalhão, vou-me embora para a Espanha:’ Assim, Molly levou a espada para o rei e sua irmã se casou com o filho dele.

“Bem”, o rei disse, “você realizou uma proeza; mas se realizasse uma ainda maior e furtasse a bolsa que fica debaixo do travesseiro do gigante eu casaria sua segunda irmã com meu segundo filho.” E Molly disse que tentaria.

Assim, partiu para a casa do gigante, entrou nela de mansinho, escondeu-se de novo debaixo da cama, e esperou o gigante terminar seu jantar e roncar num sono profundo. Saiu do seu esconderijo, enfiou a mão debaixo do travesseiro e puxou a bolsa. Mas no instante em que estava saindo o gigante acordou e correu atrás dela. E ela correu, e ele correu, até que chegaram à Ponte de uni Cabelo, e ela passou, mas ele não conseguiu, e disse: “Maldita seja, Molly Whuppie! Nunca mais volte aqui.”
“Mais uma vez, grandalhão”, ela exclamou, “vou-me embora para a Espanha:’

Assim Molly levou a bolsa para o rei, e sua segunda irmã se casou com o segundo filho do rei. O rei disse então a Molly: “Molly, você é uma menina esperta, mas se fizesse melhor ainda e furtasse o anel que o gigante usa no dedo eu lhe daria meu filho mais moço em casamento.” Molly disse que tentaria.

Assim, lá foi ela de novo para a casa do gigante, e se escondeu debaixo da cama. O gigante não demorou muito a chegar e, depois de dar cabo de um lautíssimo jantar, foi para a cama e logo estava roncando alto. Molly se esgueirou, esticou o braço por cima da cama, segurou a mão do gigante e puxou, puxou até conseguir arrancar o anel. Mas no instante em que o pegou, o gigante acordou, agarrou-a pela mão e disse: “Desta vez peguei você, MollyWhuppie, e, se eu lhe fizesse tanto mal quanto me fez, o que faria comigo?”

Molly disse: “Enfiaria você num saco e meteria junto lá dentro o gato, e mais o cachorro, e uma agulha e linha e tesoura, e penduraria você na parede, e iria até a mata, e escolheria a vara mais grossa que pudesse encontrar, e voltaria para casa, despenduraria você e surraria até que morresse.” “Bem, Molly,” disse o gigante, “é isso mesmo que vou fazer com você:’ Apanhou um saco e enfiou Molly dentro, e junto com ela o gato e o cachorro, e uma agulha e linha e tesoura. Pendurou o saco na parede e foi para amata escolher uma vara. Quanto a Molly, ela cantou: “Ah, se visse o que estou vendo!”
“Oh!”, perguntou a mulher do gigante. “O que está vendo, Molly?”
Mas Molly não dizia uma palavra a não ser: “Ah, se visse o que estou vendo!”
A mulher do gigante implorou a Molly que a deixasse entrar no saco para ver o que ela estava vendo. Assim, Molly pegou a tesoura e cortou um buraco no saco e, levando consigo a agulha e a linha, pulou fora, ajudou a mulher do gigante a se enfiar lá dentro e costurou o buraco. A mulher do gigante não viu patavina, e começou a pedir para sair de novo. Mas Molly não fez o menor caso e tratou de se esconder atrás da porta.

Eis que chegou o gigante, uma árvore enorme na mão, e desceu o saco e começou a surrá-lo. Sua mulher gritava “Sou eu, homem”, mas o cachorro latia e o gato miava e ele não reconheceu a voz da esposa. Então Molly saiu de detrás da porta e o gigante a viu e saiu atrás dela; e ele correu, e ela correu, até que chegaram à Ponte de um Cabelo, e ela passou mas ele não pôde. E ele disse: “Maldita seja, MoilyWhuppie! Nunca mais volte aqui.

“Nunca mais, grandalhão”, ela exclamou. “Vou-me embora de novo para a Espanha:’
Assim Molly levou o anel para o rei e se casou com o seu filho caçula e nunca mais viu o gigante de novo.


Joseph Jacobs
(versão brasileira)



17/02/2010

Robin dos Bosques

Ficheiro:Robin shoots with sir Guy by Louis Rhead 1912.png

Robin Hood (conhecido em Portugal como Robim dos Bosques) é um herói mítico inglês, um fora-da-lei que roubava dos ricos para dar aos pobres, aos tempos do Rei Ricardo Coração de Leão. Era hábil no arco e flecha e vivia na floresta de Sherwood. Era ajudado por seus amigos "João Pequeno" e "Frei Tuck", entre outros moradores de Sherwood. Teria vivido no século XIII, gostava de vaguear pela floresta e prezava a liberdade. Ficou imortalizado como "Príncipe dos ladrões". Tenha ou não existido tal como o conhecemos, "Robin Hood" é, para muitos, um dos maiores heróis de Inglaterra.

No entanto o herói não é de fato um ladrão errante que vive em florestas. A história começa quando Robin of Locksley, filho do Barão Locksley é um cruzado e viaja com o Rei Ricardo para catequizar os hereges. Prisioneiro, ele foge e retorna a Inglaterra. No entanto, ao chegar em casa percebe que muitas coisas aconteceram. Aproveitando a ausência do Rei Ricardo, o príncipe John, o segundo herdeiro direto, assume seu trono, aumenta os impostos e mata o pai de Robin, destruindo também seu castelo. Não tendo onde morar, Robin Hood encontra um grupo de homens que moram na floresta e os lidera em uma batalha com o príncipe. Ele quer reaver sua posição nobre e também ajudar aos que se tornaram pobres graças a ganância de John.

Na História, Robin Hood, que ganha o apelido por usar um hood (tipo de chapéu com pena) vence o príncipe John e casa-se com Maid Marian, sobrinha de Ricardo. No fim da história, Ricardo Coração de Leão reaparece após sua derrota em terras estrangeiras e nomeia Robin Hood cavaleiro, tornando o nobre novamente.

Se existiu de facto, viveu durante o século XIII. Uma das primeiras referências a tal personagem é o poema épico Piers Plowman, escrito por William Langland em 1377. A compilação Gesta de Robin Hood, de 1400, sugere que as histórias que compõem a lenda circulavam bastante anos antes.

Para quem vive hoje em Nottingham, cidade no centro de Inglaterra que serve de cenário à maioria das baladas iniciais, Robin continua a existir. Além das estátuas, há as ruas batizadas com o seu nome ou o festival anual que lhe é dedicado. E há também o que resta da Floresta de Sherwood, onde é possível encontrar a árvore em redor da qual o bando de Robin se reunia em conselho. É claro que, caso tenha vivido em Yorkshire, a floresta não era a de Sherwood mas a de Barnsdale. No convento de Kirklees, hoje em ruínas, existe também aquela que se pensa ser a sua campa e onde se pode ler: "Aqui jaz Robard Hude".

"Robin Hood" é, desde sempre, por motivos que as versões às vezes alteram, um fora-da-lei. As referências históricas que sustêm as várias teorias da sua existência prendem-se, aliás, na maior parte dos casos, com registos de comparência em tribunais. Por Robin ter existido como "Robin Hood", por a lenda ser já contada ou por simples coincidência, parece ter havido antes de 1300, na mesma região, pelo menos cinco homens acusados de actividade criminal conhecidos pela alcunha de "Robinhood".

Existem muitos candidatos a ter em conta, e se quiser acreditar que Robin existiu. De acordo com a investigação de Joseph Hunter, em 1852, Robin era Robert Hood e tornou-se fugitivo por ter ajudado o Conde de Lancaster, que se rebelara contra a cobrança abusiva de impostos do Príncipe João, que por sua vez, usurpara o trono de seu irmão, o Rei Ricardo (apelidado de "Coração de Leão", desaparecido numa cruzada).

Em 1998, Tony Molyneux-Smith publicou um livro onde sustenta que a origem da lenda é Sir Robert Foliot, lorde de uma família que escolheu usar o nome de "Robin Hood" para esconder a sua verdadeira identidade como protecção numa sociedade violenta.

Em todos os casos, o herói escolheu a vida clandestina da floresta depois de ter sido injustiçado e a sua opção faz escola, acabando por formar um exército com o qual se opõe à maldade que o rodeava.

Os pobres vêem-no como livre e generoso, os ricos e poderosos temem-no. Na história de Pyle, tal como em muitas outras, Robin veste de verde, maneja o arco como ninguém, não teme nada e vive livre e feliz, rodeado de amigos que se ajudam a cada nova ameaça.

A lenda espalhou-se primeiro nas baladas medievais, passou aos poemas e chegou ao teatro. A história foi escrita, ilustrada, encenada e filmada vezes sem conta até se tornar eterna e versão mais conhecida, provavelmente seja a com texto e ilustrações de Howard Pyle. Mas como notou o escritor Roger Lancelyn Green, foi só no final do século XVIII, depois de as baladas, romances e peças antigas serem coligidas e reimpressas por Joseph Ritson, um amigo de Walter Scott, “que Robin dos Bosques entrou realmente na literatura” (R. L. Green, As Aventuras de Robin dos Bosques , publicações Dom Quixote, Lisboa, 1990, p. 10). Note-se que Ritson, um conhecido escritor e antiquário, fornecia ao próprio Walter Scott material para escrever os seus romances históricos, notavelmente Ivanhoe .