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06/08/2010

Uma história de Shiva e Parvati



Sati nasceu como Parvati, a filha do rei da cadeia do Himalaia. Sendo uma menina, ela não tinha interesse em brincar com as outras crianças. Ela estava inclinada em adorar Shiva, e tinha o desejo de casar-se com Ele. Depois de ter a permissão dos seus pais, ela foi até o local sagrado do Gangavatara, o qual ficou mais tarde conhecido como Pico Gouri. A penitência que fez para casar-se com o Senhor Shiva foi severa. Ela ficou por sobre uma perna, com as mãos erguidas, tendo por sobre Sua cabeça a neve das montanhas, meses e meses, sem comer ou beber nada. O Senhor Siva ficou muito contente com as preces d´Ela, mas quis fazer um teste. Ele foi até Ela como um velho devoto do Senhor Siva. Parvati ofereceu Seus respeitos ao velho devoto, bem como ao Senhor Shiva. Então, o velho devoto tentou convencê-la que deveria passar a Sua junventude em meditação, mas que também deveria desfrutar a vida casando-se com Ele. Assim sugerindo, disse que era melhor casar com ele, em vez de alguém que fica dançando em cemitérios e vestindo crânios e ossos. Parvati, incapaz de reconhecer que o velho homem era o Senhor Shiva em pessoa, ficou muito irada em escutar os insultos, mas mostrou a ele os devidos respeitos, porque ele era semelhante a um devoto, mas Ela não queria mais escutar qualquer coisa contra o Senhor Shiva.
Ela pediu para que o velho devoto deixasse o local imediatamente. O Senhor, estando grato com a determinação de devoção de Parvati, então revelou-Se quem era, concedendo o desejo de Ela poder casar-se com Ele. Parvati e Shiva casaram-se e iniciaram uma vida feliz no monto Kaillash.

Eles tiveram dois filhos, Kartikeya e Ganesha. Ganesha nasceu quando Parvati desejou ser mãe de Krishna.

05/08/2010

Quando as águas foram mudadas



Certo dia, faz muito tempo, Khidr, o mestre de Moisés, dirigiu uma advertência ao género humano. Numa data determinada, declarou, todas as águas do mundo que não tenham sido especialmente guardadas desaparecerão. Serão então renovadas com uma água diferente e que fará os homens enlouquecerem.
Somente um homem prestou atenção à advertência. Recolheu bastante água e armazenou-a em lugar seguro, esperando que as águas mudassem de características.
No dia indicado as torrentes deixaram de correr, os poços secaram, e o homem que dera ouvidos à advertência, vendo o que ocorria, foi a seu refúgio e bebeu da água guardada no pequeno reservatório.
Quando notou, lá de seu abrigo, as fontes jorrarem novamente, desceu da colina e foi misturar-se aos outros homens. Comprovou que estavam pensando e falando de um modo inteiramente diverso do anterior; nem sequer tinham lembrança do que acontecera, tampouco de terem sido alertados por Khidr. Quando tentou dialogar com eles, percebeu que o julgavam louco, tratando-o com hostilidade ou compaixão, ao invés de compreendê-lo.
De início ele não bebeu da água renovada, retornando a seu refúgio e servindo-se diariamente da água que guardara. Mas, finalmente, resolveu beber da nova água por não poder suportar mais a tristeza de seu isolamento, comportando-se de maneira diferente dos demais. Bebeu a nova água e se tornou igual aos outros. Então se esqueceu inteiramente de tudo que se referia à água especial que armazenara. E seus semelhantes passaram a encará-lo como a um louco que fora devolvido à razão milagrosamente.

As chamas e o caldeirão

Entre as cinzas mornas uma brasa ainda brilhava. Com muito cuidado, muita economia, usava o restante de suas forças, alimentando-se apenas para manter-se viva.
Porém chegou a hora de preparar a sopa no fogo, e então puseram lenha na lareira. Um fósforo, com sua pequenina chama, reavivou a brasa que já parecia morta. E uma língua de fogo lambeu a madeira acima da qual havia sido colocado o caldeirão.
Animado pela madeira seca, o fogo começou a crescer, expulsando o ar adormecido entre as toras e brincando com os pedaços de madeira. E divertiu-se correndo por baixo e por cima da lenha, dando voltas em torno, espalhando-se cada vez mais.
Em seguida as labaredas começaram a projectar-se da madeira, abrindo muitas janelas das quais saiam chuveiros de brilhantes fagulhas. Sombras escuras dançavam na cozinha. Enquanto isso as chamas tornavam-se cada vez mais alegres, brincando com o ar em torno e começando uma cantiga que era um doce crepitar.
Em seguida, vendo que crescera além da madeira, o fogo começou a mudar. Geralmente humilde e quieto tornou-se orgulhoso e prepotente, achando que concedera o dom da chama àqueles pedaços de lenha.
Começou a soprar nuvens de fumaça e a encher a lareira de explosões e chuvas de fagulhas. Decidido a voar até o céu, atirou para o alto suas grandes chamas... E extinguiu-se no fundo negro do caldeirão.

Fábulas de Leonardo da Vinci


O pássaro indiano

Um mercador mantinha um pássaro numa gaiola. Estando de partida para a Índia, país do pássaro, perguntou-lhe se queria algo de lá. O pássaro lhe pediu sua liberdade, mas esta lhe foi negada. Então solicitou ao mercador que fosse a uma floresta na Índia e que anunciasse seu cativeiro aos pássaros livres que ali se encontrassem. O mercador assim fez e mal se referira ao seu cativo, um pássaro selvagem semelhante ao que ele mantinha na gaiola caiu ao chão da árvore onde pousara, sem sentidos.
Pensando que o pássaro fosse parente do seu canário engaiolado, o mercador ficou pesaroso por ter sido o causador daquela morte. Regressou a seu lar e então o pássaro cativo perguntou-lhe se trazia boas notícias da Índia.
- Receio que minhas notícias sejam más. Um de seus parentes teve um colapso e caiu morto a meus pés quando anunciei que você estava preso numa gaiola.
Mal essas palavras foram pronunciadas, o pássaro do mercador sofreu um colapso e caiu no fundo da gaiola.
- A notícia sobre a morte de seu parente também lhe trouxe a morte - murmurou o mercador.
Desolado, recolheu o pássaro e o colocou no rebordo da janela. Imediatamente o pássaro reviveu e voou para uma árvore próxima.
- Pode perceber agora - disse o pássaro - que o que você interpretou como uma tragédia era, na verdade, um boa notícia para mim. E de como a mensagem, ou seja, a indicação de como me comportar para obter minha liberdade, me foi transmitida por meio de você, meu captor.
Dito isso, se afastou num voo largo, livre por fim.

04/08/2010

Yeh Hsien



Certa vez, antes de Ch'in (222-206 a.C.) e Han havia um chefe das cavernas da montanha a quem os nativos chamavam chefe Wu. Ele se casou com duas mulheres uma das quais morreu deixando-lhe uma menina chamada Yeh Hsien. Essa menina era muito inteligente e habilidosa no bordado a ouro e o pai amava-a ternamente, mas, quando êle morreu, viu-se maltratada pela madrasta que seguidamente a forçava a cortar lenha e mandava-a a lugares perigosos para apanhar água em poços profundos.
Um dia, Yeh Hsien pescou um peixe com mais de duas polegadas de comprimento e que tinha as barbatanas vermelhas e os olhos dourados. Trouxe-o para casa e o pôs numa vasilha com água. Cada dia o peixe crescia mais e tanto cresceu que, finalmente, a vasilha não lhe serviu mais e a menina o soltou numa lagoa que havia por trás de sua casa. Yeh Hsien costumava alimentá-lo com as sobras de sua comida. Quando ela chegava à lagoa, o peixe vinha até a superfície e descansava a cabeça na margem, mas se alguém se aproximasse não aparecia.
Esse hábito curioso foi notado pela madrasta que esperou o peixe sem que este lhe aparecesse. Um dia, lançou mão de astúcia e disse à enteada: - "Não está cansada de trabalhar? Quero dar-lhe uma roupa nova." Em seguida fêz Yeh Hsien tirar a roupa que vestia e mandou-a a várias centenas de li para trazer água de um poço. A velha, então, pôs o vestido de Yeh Hsien e estendeu uma faca afiada na manga da blusa; dirigiu-se para a lagoa e chamou o peixe. Quando o peixinho pôs a cabeça fora d’água, ela o matou. Por essa ocasião, o animalzinho já media mais de dez pés de comprimento e, depois de cozido, mostrou ter sabor mil vezes melhor do que qualquer outro. E a madrasta enterrou seus ossos num monturo.
No dia seguinte, Yeh Hsien voltou e ao aproximar-se da lagoa verificou que o peixe desaparecera. Correu para chorar escondida no meio do mato e nisso um homem de cabelo desgrenhado e coberto de andrajos desceu dos céus e a consolou, dizendo: - “Não chore. Sua mãe matou o peixe e enterrou os ossos num monturo. Vá para casa, leve os ossos para seu quarto e os esconda. Tudo o que você quiser peça que lhe será concedido". Yeh Hsien seguiu o conselho e pouco tempo depois tinha uma porção de ouro, de jóias e roupas de tecido tão caro que seriam capazes de deleitar o coração de qualquer donzela.
Na noite de uma festa tradicional chinesa, Yeh Hsien recebeu ordens de ficar em casa para tomar conta do pomar. Quando a jovem solitária viu que a mãe já ia longe, meteu-se num vestido de seda verde e seguiu-a até o local a festa. A irmã, que a reconhecera virou-se para a mãe dizendo: - "Não acha aquela jovem estranhamente parecida com minha irmã mais velha ?" A mãe também teve a impressão de reconhecê-la. Quando Yeh Hsien percebeu que a fitavam, correu, mas com tal pressa que perdeu um dos sapatinhos, o qual foi cair nas mãos dos populares.
Quando a mãe voltou para casa encontrou a filha dormindo com os braços ao redor de uma árvore; assim pôs de lado qualquer pensamento que pudesse ter sido acerca da identidade da jovem ricamente vestida.
Ora, perto das cavernas, havia um reino insular chamado T'o Huan. Por intermédio de forte exército governava duas vezes doze ilhas e suas águas territoriais cobriam vários milhares de li. O povo vendeu, portanto, o sapatinho para o Reino T'o Huan, onde foi ter às mãos do rei. O rei fêz as suas mulheres experimentá-lo, mas o sapatinho era cerca de uma polegada menor dos das que tinham os menores pés. Depois fez com que o experimentassem todas as mulheres do reino sem que nenhuma conseguisse calçá-lo.
O rei, então, suspeitou que o homem que o tinha levado o tivesse obtido por meios mágicos e mandou aprisioná-lo e torturá-lo. Mas o pobre infeliz nada pôde dizer sobre a procedência do sapato. Finalmente, emissários e correios foram enviados pela estrada para irem de casa em casa a fim de prenderem quem quer que tivesse o outro sapatinho. O rei estava muito intrigado.
A casa foi encontrada, bem como Yeh Hsien. Fizeram-na calçar os sapatinhos e eles couberam perfeitamente. Depois ela apareceu com os sapatinhos e o vestido de seda verde tal como uma deusa. Mandaram contar o caso ao rei e o rei levou Yeh Hsien para seu palácio na ilha juntamente com os ossos do peixe.
Assim que Yeh Hsien foi levada, a mãe e a irmã foram mortas a pedradas. Os populares apiedaram-se delas, sepultando-as num buraco e erigindo um túmulo a que deu o nome de "Túmulo das Arrependidas". Passaram a reverenciá-las como espíritos casamenteiros e sempre que alguém pedia-lhes uma graça no sentido de arranjar ou ser feliz em negócios de casamento tinha certeza de que sua prece era atendida.
O rei voltou à sua ilha e fêz de Yeh Hsien sua primeira espôsa. Mas durante o primeiro ano de seu casamento, ele pediu aos ossos do peixe tantos jades e coisas preciosas que eles se recusaram a conceder-lhe mais desejos. Por isso o rei pegou os ossos e enterrou-os bem perto do mar, junto com uma centena de pérolas e uma porção de ouro. Quando seus soldados se rebelaram contra ele, foi ter ao lugar em que enterrara os ossos, mas a maré os levara e nunca mais foram encontrados até hoje. Essa história me foi contada por um velho servo de minha família, Li Shih-yüan. Ele descendia de um povo chamado Yungchow e sabia de muitas historias estranhas do sul.

Lenda da Dama do Pé de Cabra


D. Diogo Lopes, nobre senhor da Biscaia, caçava nos seus domínios, quando foi surpreendido por uma linda mulher que cantava. Ofereceu-lhe o seu coração, as suas terras e os seus vassalos se com ele se casasse. A dama impôs-lhe como única condição a de ele nunca mais se benzer. Mais tarde, no seu castelo, D. Diogo apercebeu-se que a dama tinha um pé forcado como o de uma cabra. Viveram muitos anos felizes e tiveram dois filhos: Inigo Guerra e Dona Sol.
Um dia, depois de uma boa caçada, D. Diogo premiou o seu grande alão com um grande osso, mas a podenga preta de sua mulher matou o cão para se apoderar do pedaço de javali. Surpreendido com tal violência, D. Diogo benzeu-se. A Dama de Pé de Cabra deu um grito e começou a elevar-se no ar, com a sua filha Dona Sol, saindo ambas por uma janela para nunca mais serem vistas. Com o desgosto, D. Diogo decidiu ir guerrear os mouros durante anos, tendo ficado cativo em Toledo. Sem saber como resgatar o pai, D. Inigo resolveu procurar a mãe que se tornara, segundo uns, numa fada, segundo outros, numa alma penada. A Dama de Pé de Cabra decidiu ajudar o filho, dando-lhe um onagro, uma espécie de cavalo selvagem, que o transportou a Toledo. Aí, o onagro abriu a porta da cela com um coice e pai e filho cavalgaram em fuga, mas, no caminho, encontraram um cruzeiro de pedra que fez o animal estacar. A voz da Dama de Pé de Cabra instruiu o onagro para evitar a cruz. Ao ouvir aquela voz, depois de tantos anos e sem saber da aliança do filho com a mãe, D. Diogo benzeu-se, o que fez com que o onagro os cuspisse da cela, a terra tremesse e abrisse, deixando ver o fogo do Inferno, que engoliu o animal. Com o susto, Pai e filho desmaiaram. D. Diogo, nos poucos anos que ainda viveu, ia todos os dias à missa e todas as semanas se confessava. D. Inigo nunca mais entrou numa igreja e crê-se que tinha um pacto com o Diabo, pois, a partir de então, não havia batalha que não vencesse.


03/08/2010

Jezabel



Jezabel foi uma princesa fenícia casada com o rei Acab de Israel.
Jezabel era filha do rei dos Sidónios Etbaal, tendo o seu casamento com Acab sido o resultado de uma aliança que tinha como objectivo fortalecer as relações entre Israel e a Fenícia. A sua história é conhecida através do Primeiro Livro de Reis do Antigo Testamento.
Jezabel continuou a adorar os deuses fenícios, mas não se limitou a isso, pois combateu o Deus de Israel. Recorreu ao dinheiro do tesouro público para sustentar os 450 profetas (ou sacerdotes) do deus Baal e os 400 profetas da deusa Achera (deusa fenícia da fertilidade). No palácio real seria mesmo construído um templo dedicado a Baal. Aparentemente o seu próprio marido sentiu-se atraído pelo culto destes deuses, relegando Javé para segundo plano. Os sacerdotes e profetas israelitas foram eliminados ou então tiveram que se exilar no deserto devido à perseguição promovida pela rainha.
A resistência local contra esta política religiosa foi encabeçada pelo profeta Elias. Numa espécie de concurso religioso levado a cabo no Monte Carmelo, Elias derrotou todos os profetas de Baal, que morreram, pretendendo desta forma o Livro de Reis mostrar como o Deus de Israel era a única divindade. Quando Jezabel soube disto ficou furiosa, pretendendo mandar matar Elias, que teve fugir para Judá.
Mulher determinada e independente, Jezabel não olhava a meios para conquistar os seus objectivos. Acab desejava a vinha de Nabot, contígua ao palácio de Jezrael, mas este recusou-se a vendê-la. Sabendo-se disto, Jezabel envolveu-se na questão, enviando cartas em nome de Acab aos chefes de Jezrael. O conteúdo das cartas ordenava a detenção de Nabot por blasfémia contra Deus e contra o rei e a execução deste por apedrejamento sob denúncia de duas falsas testemunhas. Segundo a lei da época, a propriedade de alguém que tivesse cometido estas acções passaria para o rei. Nabot foi executado e Jezabel presenteou o marido com a vinha. Quando Elias soube desta acção profetizou que cães devorariam Jezabel no campo de Jezrael.
Um comandante chamado Jeú liderou uma revolta contra a família real, na qual matou o filho de Jezabel, Jorão. Quando Jezabel soube da revolta pintou os olhos e adornou a cabeça, desafiando Jeú da janela do palácio. Este ordenou aos eunucos da rainha que a atirassem da janela (defenestração): Jezabel morreu, tendo o seu sangue atingido as paredes e os cavalos. Uns cães que por ali passavam devoraram o corpo da rainha.
Depois de ter feito uma refeição no palácio, Jeú ordenou que a Jezabel fosse sepultada, dado que se tratava da filha de um rei. De acordo com o Segundo Livro de Reis, os servos do palácio apenas encontraram o crânio, os pés e as mãos da rainha.

Por causa desta rainha o nome "Jezabel" encontra-se associado na cultura popular a uma mulher sedutora sem escrúpulos.

02/08/2010

Lenda do Mouro do Cabril

Beatriz era uma jovem e bela camponesa, disputada pelos jovens do lugar. Influenciada pelas histórias da sua avó, sobre pastoras e príncipes encantados, ainda não se tinha decidido por nenhum pretendente.
Todos os dias, Beatriz levava o seu rebanho a pastar junto da ribeira do Cabril. Um dia, foi surpreendida por um príncipe encantado que a vinha buscar para a levar para o seu palácio de onde nunca mais sairia. Beatriz seguiu o seu sonho e nunca mais voltou a casa. As mulheres diziam que decerto tinha sido o mouro do Cabril que a tinha levado. O mouro tinha fama de belo, poderoso e conquistador, e noutros tempos já tinha levado uma rapariga tão bela como Beatriz.
Passados anos, a mãe da jovem recebeu a visita do mouro que lhe pediu para ajudar Beatriz a ter o seu filho. A mãe seguiu o mouro até ao palácio encantado, prometendo sigilo contra a garantia de que o seu neto seria um homem livre. A mãe visitou Beatriz em segredo durante anos.
Um dia, o pai da Beatriz obrigou a esposa a acompanhá-lo a uma feira numa terra vizinha. Por entre a multidão, a mãe encontrou o mouro com o seu neto ao colo. Sem se conter, deu-lhe um recado para Beatriz na presença de todos. O mouro e a criança desapareceram em fumo. Segundo dizem, a mãe de Beatriz ficou louca para sempre por causa do desaparecimento da filha levada pelo mouro encantado do Cabril.


Lendas Portuguesas

Os filhosde Lir



O Rei Lir tinha quatro filhos – uma rapariga chamada Fionnuala e três rapazes, Aod, Fiachra e Conn – de quem a sua madrasta, Aoife, tinha imensos ciúmes.
Por causa dos ciúmes, Aoife levou as crianças até ao lago com o intuito de as matar, mas quando chegou o momento não foi capaz de o fazer. Em vez disso, ordenou às crianças que entrassem no lago. Quando o fizeram, Aoife transformou-os em grandes cisnes brancos. Condenou-os a passar 900 anos vagueando pelas águas da Irlanda – 300 anos no Loch Derravaragh, 300 anos no mar de Moyle e 300 anos na baía de Erris.
Assim que realizou este terrível acto, a madrasta encheu-se de remorsos e permitiu que as crianças mantivessem a fala humana e deu-lhes o dom de cantar da mais bela maneira.
Com preocupação, o Rei Lir começou a procurar os seus filhos. Enquanto se aproximava do lago o rei começou a ouvir vozes. Qual não foi o seu espanto quando viu que as vozes provinham de cisnes. Cheio de curiosidade perguntou-lhes quem eram. Eles contaram-lhe toda a história e, enquanto os via partir, o Rei Lir decretou que nenhum podia ser morto na Irlanda. Mal sabia ele que esta seria a última vez que veria os seus queridos filhos.
Aoife irada com esta decisão, foi falar com o sei pai, o Rei Dearg, que a transformou em espírito para sempre pela maldade que tinha feito.
Durante os longos anos em que durou o encantamento as crianças sofreram muito, mas enfeitiçavam toda a gente com o seu belo canto. Foram libertos do encantamento na altura em que chegou a Cristandade à Irlanda. Quando as penas começaram a cair, meu Deus, os seus corpos estavam fracos e em muito mau estado.
Morreram pouco depois de regressarem à forma humana mas a lenda dos Filhos de Lir sobreviveu até aos nossos dias.

Ainda hoje na Irlanda é proibido matar cisnes. Estas belas criaturas, uma das maiores que visitam a Irlanda, pode ser vista em lagos, rios, baías, etc.…um constante recordar dos Filhos de Lir.

Lenda do Almocreve de Estói


Habitualmente, o almocreve José Coimbra percorria de burro os caminhos do Algarve. Um dia, ao passar junto das ruínas de Milreu, perto de Estói, encontrou uma bela moura encantada. Vestida com um manto de princesa, a moura sorriu-lhe e ele, fascinado, seguiu-a. A moura chegou a um sítio, bateu com o pé no chão três vezes e um alçapão abriu-se. Desceram ambos por uma escadaria de mármore até uma sala enorme revestida a ouro. A moura deixou-o só por uns instantes. Voltou acompanhada por um leão e uma serpente, seus irmãos encantados. A moura prometeu a José o palácio e todo o seu ouro se ele quebrasse o encanto. Para isso, teria de ser três vezes engolido e vomitado pelo leão e três vezes abraçado pela serpente. O corpo do almocreve ficaria em chaga e, finalmente, a moura o beijaria na fronte para lhe retirar os santos óleos do baptismo. O almocreve pediu-lhe para pensar e a moura deixou-o partir com duas barras de ouro. José Coimbra voltou para casa e tentou esquecer o episódio. Passado pouco tempo, começou a empobrecer e decidiu vender as duas barras de ouro. Quando olhou para as barras, ficou cego. Como última esperança, resolveu consultar um especialista de olhos em Faro. Ao passar por Estói, apareceu-lhe a moura. Esta acusou-o de ter faltado à promessa de lhe dar uma resposta. Só lhe tinha poupado a vida porque ele nunca tinha revelado o segredo daquele encontro. O almocreve chorou arrependido. Comovida, a moura decidiu perdoar-lhe e devolver-lhe a visão. Conta-se que o almocreve nunca mais voltou a passar por Estói, onde ainda hoje uma moura e os seus irmãos esperam por quem os queira desencantar.

A fonte do saqué

Há muitos e muitos anos, no tempo em que a imperatriz Gensho reinava no Japão, morava em Mino, actual Gifu, um lavrador de poucos recursos. Apesar de ser um rapaz muito trabalhador, o que produzia em sua horta não era o suficiente para o sustento dele e de seu velho pai.
O pai também sempre foi pobre e, na idade avançada, pouco podia fazer para ajudar o filho na roça. O filho tratava o pai com carinho, sabia quanto ele tinha se sacrificado pela família. Sempre sonhava com uma maneira de dar algum conforto ao seu pai nos últimos anos de sua vida. O velho gostava muito de saquê (vinho de arroz), porém quase nunca sobrava dinheiro para o moço comprar-lhe uma garrafa.
Certa ocasião, após terminar seus trabalhos na horta de verduras, o rapaz subiu a montanha para cortar lenha. Como fazia de tempos em tempos, levaria a lenha para vender na cidade e conseguir algum dinheiro para comprar saquê para seu velho pai. Seu prazer era ver a cara de felicidade quando seu pai sorvia apetitosamente os goles de saquê.
O moço encheu o carregador de lenhas, colocou-o nas costas e começou a descer a montanha em direcção à cidade. Mas, como havia colocado muita lenha nas costas, veio cambaleando, devido ao grande peso, e acabou escorregando. Rolou morro abaixo até o fundo de um vale, onde ficou desmaiado durante horas.
Mais tarde, despertou todo dolorido e com muita sede. Nisso prestou atenção, pois ouvia o barulho de uma queda d’água. Saiu em direcção ao som e encontrou uma pequena fonte entre rochas e folhagens. Fazendo das mãos uma concha, bebeu a água da fonte e teve uma grande surpresa. Não era água e sim saquê!
Não acreditando no que estava acontecendo, tornou a beber. Realmente era saquê!
Imediatamente, o moço lembrou de seu pai e de quanta alegria ele teria saboreando aquele saquê. Então, encheu de saquê a cabaça, que sempre carregava na cintura para levar água ao seu trabalho.
Quando chegou em casa, seu velho pai estava preocupado com a demora.
– Aconteceu alguma coisa para você demorar tanto a voltar?
– É difícil de acreditar no que houve. Beba um pouco desse líquido enquanto eu conto o que aconteceu.
O pai experimentou o líquido da cabaça e comentou, feliz:
– Esse não é o saquê que você costuma comprar para mim. É muito mais gostoso!
Então, o filho revelou o acontecido no vale em seus mínimos detalhes. O pai, surpreso pela narrativa, comentou:
– Isso é uma graça divina. O deus do saquê agraciou você por ser um bom e dedicado filho. Vamos fazer a oferenda de uma taça de saquê no santuário e rezar a ele em agradecimento.
A partir desse dia, todas as tardes, quando o moço terminava seu trabalho na lavoura, ia buscar saquê na fonte. Voltava com a cabaça cheia para casa e fazia a alegria de seu pai, que o esperava ansiosamente. Assim, pai e filho viveram por muitos anos em perfeita harmonia.
A notícia daquele insólito acontecimento espalhou-se por todo o Japão e chegou aos ouvidos da imperatriz Gensho, que reinou de 715 a 724. Ela resolveu ir pessoalmente conhecer a fonte milagrosa de saquê. Ao experimentar a água da fonte, percebeu que se tratava simplesmente de água e nada mais. Conhecedora da história, ela entendeu que o milagre ocorria somente com aqueles pai e filho. Como o filho era dedicadíssimo ao pai, o deus do saquê fazia com que o pai sentisse o gosto de um delicioso saquê, sempre que bebia aquela água. Então, a imperatriz determinou que fosse construído um jardim em torno da fonte e a baptizou com o nome de Yorô, que significa “tratar bem de idosos”.
Assim, a imperatriz deu vários presentes ao moço, por tratar o pai com muito carinho. Desde então, nasceu o costume ainda vigente de a Casa Imperial Japonesa premiar as pessoas que tratam os idosos com respeito e carinho. E a Cachoeira Yorô é, ainda hoje, um ponto turístico muito visitado no Japão.


Lenda do Japão


01/08/2010

Bons amigos



O coelho e o macaco eram amigos, mas estavam sempre a atazanar-se um ao outro. Sei de outros casos parecidos...
O macaco via o coelho ao longe e começava logo, de pirraça:
- Coelho dentudo, peludo e orelhudo, focinho focinhudo, corpo barrigudo, pernas de canudo, rabo de veludo!
O coelho respondia-lhe, no mesmo tom:
- Olha o macaco macacão, olhos de sabão, miolos de algodão, cara de espantalho paspalhão.
Continuavam assim, que tempos, até chegarem ao pé um do outro. Depois, riam e davam grandes abraços.
A pregar partidas, o macaco era o mais atrevido.
De uma vez que o coelho estava a dormir, muito descansado, o macaco, pendurado de uma árvore, puxou-lhe as orelhas com toda a força.
O coelho acordou dorido e num grande sobressalto.
- Ai desculpa - disse o macaco, a fugir. - Andava a caçar borboletas e julguei que as tuas orelhas eram uma borboleta gigante.
De outra vez, estava o coelho a roer um cogumelo e o macaco gritou-lhe, fingindo um grande susto:
- Cuidado, não comas mais que estás a ficar com as orelhas azuis! Esse cogumelo há-de ser venenoso.
O coelho ficou apavorado. Foi a correr ao rio. Mirou-se e remirou-se. Quando percebeu que era tudo mentira, desatou a perseguir o macaco, mas onde é que já ia!
- Não esperas pela pancada! - ameaçou-o, de longe.
Não esperou mesmo. Numa ocasião em que o macaco estava a dormir num galho, com a comprida cauda dependurada, o coelho muniu-se de um cacete e zás! Deu-lhe uma pancada, com toda a força, na cauda desenrolada. A força do coelho não seria muita, mas o macaco, que gostava de exibir-se em grandes cenas teatrais, deu urros e saltos, como se lhe tivessem arrancado o rabo.
- Porque me fizeste isto, traidor? - gritava o macaco.
- Ai, desculpa - disse o coelho, muito inocente. - Julguei que era uma cobra.
Apesar destas peripécias e facécias, o macaco e o coelho continuam a ser bons amigos.

Os Três Peixes

Era uma vez três peixes que viviam num charco. Um deles era inteligente, o outro semi-inteligente e o terceiro um tolo. A vida que levavam era igual à de todos os demais peixes, até que um dia apareceu ali um homem.
O recém-chegado trazia uma rede de pescar, e o peixe inteligente o viu através do espelho das águas. Apelando para a experiência, as histórias que já escutara e para a sua habilidade, decidiu agir.
"Há tão poucos lugares para nos escondermos neste charco", pensou," que me fingirei de morto."
Convocou toda a sua força, armou o salto e foi cair na margem aos pés do pescador, que ficou muito surpreso. Mas como o peixe inteligente estava contendo a respiração, o pescador imaginou-o morto, lançando-o de volta à água. Então o peixe deslizou para urna pequena cavidade junto à margem.
Quanto ao segundo peixe, o que era pouco inteligente, não entendia bem o que estava acontecendo. Assim, nadou até onde estava o peixe esperto e lhe pediu explicações.
- Simples - disse o peixe inteligente - fingi estar morto e desse modo ele me devolveu à água novamente.
Tomando coragem, o peixe semi-inteligente saltou imediatamente fora da água, aos pés do pescador. Este pensou: "Estranho, estão saltando todos a meu redor." Mas, como o segundo peixe se esquecera de conter a respiração, o pescador percebeu que ainda vivia e o colocou em sua sacola.
O homem inclinou-se para observar atentamente o fundo do charco, e, como ficara meio confuso pelo fato de os peixes saltarem na margem junto dele, esqueceu-se de fechar a sacola. Ao se dar conta disso, o peixe semi-inteligente aproveitou a ocasião para libertar-se e, movendo-se com algumas sacudidelas, retornou à água. Procurou pelo peixe inteligente e ficou escondido a seu lado.
Enquanto isso, o terceiro peixe, o tolo, não compreendia nada da situação, nem mesmo quando seus dois companheiros lhe contaram suas respectivas experiências. Daí lhe explicarem tudo com detalhes, salientando a importância de não respirar, com o objectivo de fingir-se morto.
- Muitíssimo obrigado. Agora já entendi - disse o peixe tolo.
E, dizendo tais palavras, saltou fora da água, indo cair aos pés do pescador.
Então, como o pescador já tinha perdido dois peixes, apanhou aquele e o guardou em sua sacola sem se importar em verificar se estava respirando ou não. Lançou sua rede de novo no charco, mas o primeiro e o segundo peixes estavam bem encolhidos numa cavidade do banco de areia junto à margem. E dessa vez não houve chance para o peixe tolo, pois a sacola estava bem fechada.
Finalmente o pescador se deu por vencido. Abriu a sacola, constatou que o peixe tolo não respirava e o levou a casa para dá-lo a seu gato.

A toalha do monge


Era uma vez uma velha que morava com o filho e a nora. A sogra tinha inveja da beleza da moça e judiava dela, ordenando-lhe que fizesse todo o trabalho pesado da casa. A moça, meiga e bondosa, nunca se queixava, o que deixava a velha ainda mais enfurecida.
Um dia, mandou que a moça preparasse uns bolos de arroz e, quando prontos, os contou. Foi então à vila fazer compras. Um monge andarilho parou junto à casa e a moça, generosa, lhe deu um bolo de arroz. Depois que o monge partiu, a sogra chegou, contou os bolos e notou, na hora, que estava faltando um.
- O que você fez com o bolo que está faltando?- esbravejou.- Criatura voraz e inútil!
- Dei ao monge - a moça explicou, tentando acalmar a velha.
- Bem, vá buscá-lo! - a sogra gritou.
A jovem esposa, então, correu atrás do monge, apresentou mil desculpas, e pediu o bolo de volta.
O monge riu e devolveu o presente. Por sua vez, deu à moça uma pequena toalha.
- Leve-a para enxugar o rosto - disse. - Sei que sua vida, com sua sogra, não é fácil.
A partir de então, a velha mãe começou a notar que sua nora ficava cada dia mais e mais linda. Isso aumentou-lhe a inveja e uma manhã, quando espiava sua nora, viu a moça enxugar o rosto com a toalha e observou que, cada vez que o fazia, ficava mais bela e radiante.
- Ela usa uma toalha mágica! - a velha murmurou consigo.
No dia seguinte mandou a moça fazer compras e roubou-lhe a toalha. Lavou o rosto e olhou-se no espelho. Não notou, porém, mudança alguma.
- Sou mais velha - pensou -, portanto, preciso enxugar com mais força!
Enxugou o rosto várias vezes e mirou-se no espelho. Para seu horror seu rosto tornou-se longo e eqüino, depois peludo e redondo, como a cara de um macaco. Finalmente, ficou com a cara de um gnomo feio e grotesco!
- Nossa! - exclamou a velha e caiu ao chão desmaiada.
Nesse momento, voltou a nora. Viu o demônio dentro da casa e preparou-se para fugir. A velha gritou:
- Socorro!
A nora reconheceu a voz da sogra e ficou com pena dela.
- Você precisa dar um jeito! - a velha implorou.
Então a nora saiu correndo, em busca do monge.
Encontrou-o não muito distante dali e contou-lhe o que se sucedera. Ele riu.
- Quando uma pessoa malvada usa a toalha - o monge disse -, acaba parecendo um demônio!
- E não há cura? - a moça perguntou.
- Há - o monge riu novamente. - Diga à sua sogra que use o outro lado da toalha!
A jovem esposa correu para casa e disse à velha qual a solução. A sogra, no mesmo instante, virou a toalha e enxugou o rosto. Na primeira vez, seu rosto transfigurou-se de gnomo em macaco; na segunda vez, em um focinho de cavalo e, na terceira, transformou-se em seu próprio rosto enrugado, mas humano.
A velha abraçou a nora e chorou.
- Querida filha - a mãe falou, implorando perdão -, eu não via como eu era má com você!
E desse dia em diante, nunca mais pronunciou uma palavra áspera para ninguém. Tornou-se boa e generosa e trabalhou lado a lado com a nora. Tinha a esperança de que o velho monge da toalha mágica voltasse um dia, para que pudesse agradecer-lhe.
Ele, porém, nunca mais voltou - nem foi preciso.

Conto japonês

A melhor das armas

Havia um príncipe muito hábil no manejo de cinco armas. Um dia, ao retornar dos treinamentos, encontrou um monstro de pele invulnerável, que avançou sobre o príncipe.
Este atirou uma flecha contra o monstro, sem conseguir causar-lhe danos. Depois lhe atirou uma lança que não penetrou na grossa pele da fera. Em seguida, atirou-lhe uma barra e um dardo que não chegaram a ferir o monstro. Brandiu-lhe a espada, mas ela se quebrou.
O príncipe, então, atacou o monstro com punhos e pés, mas em vão, pois o monstro o agarrou com seus enormes braços e o manteve afastado. Persistente e corajoso, o príncipe tentou usar a cabeça como arma, mas foi em vão.
O monstro disse: - É inútil resistir; eu vou devorá-lo.
O príncipe respondeu: - Não pense que estou sem recursos; tenho uma arma escondida. Se me devorar, eu o destruirei de dentro de seu estômago.
A coragem do príncipe abalou o monstro, que lhe perguntou: - Como você fará isso?
O príncipe respondeu: - Com o poder da Verdade.
Então o monstro soltou o príncipe, pedindo a ele que lhe ensinasse a Verdade.

Parábola budista