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21/03/2011

O pavão e o grou



O pavão zombava do grou por causa da cor de sua plumagem:
- Minha roupa é de ouro e púrpura, já a tua plumagem não tem nenhuma beleza.
- Só eu - respondeu o grou -, canto entre as estrelas, e meu voo me leva às alturas; tu, igual a um galo, caminhas pela terra como a galinhada.

Moral: Melhor a glória em andrajos que a desonra no fausto.


Fábulas de Esopo

19/03/2011

O carneiro e o porco


Um porco tinha-se misturado a um rebanho de carneiros e pastava com eles. Um dia o pastor o pegou. Como ele gritasse e resistisse, os carneiros o repreenderam:
- Nós ficamos berrando quando ele nos pega?
O porco replicou:
-Questão de detalhe. Quando ele corre atrás de vocês, é porque quer sua lã ou seu leite, mas de mim ele quer a carne.

Reclamamos com razão quando querem tirar não teus bens, mas tua vida.


Fábulas de Esopo

A raposa e o leopardo



Uma raposa e um leopardo estavam deitados descansando depois de um laudo jantar e se distraíam falando da própria beleza. O leopardo tinha muito orgulho de sua pele lustrosa e toda pintada, e dizia à raposa que ela era completamente sem graça. A raposa se orgulhava da bela cauda estufada com a pontinha branca, mas tinha o bom senso de reconhecer que não chegava aos pés do leopardo em matéria de aparência. Mesmo assim, continuou com suas brincadeiras, fazendo troça do outro só pelo prazer da discussão e para não perder a prática. O leopardo já estava quase perdendo a paciência quando a raposa levantou bocejando e disse:
- Você pode ter um pêlo muito requintado, mas estaria mais bem servido se tivesse um pouquinho mais de requinte dentro da cabeça e menos ao redor das costelas, como eu. Para mim, beleza de verdade é isso.

Moral: Nem sempre bela embalagem anuncia belo recheio.


Fábulas de Esopo

17/03/2011

O pastor e o leão



Um pastor que apascentava seus animais perdeu um bezerro. Como já andara todo o campo em vão, fez uma promessa a Zeus: sacrificar-lhe um cabrito se descobrisse quem era o ladrão. Nesse ínterim, ele viu, à beira de uma floresta, um leão devorando o bezerro. Tomado pelo medo, levantou os braços para o céu e exclamou: "Ó Zeus soberano, há pouco fiz uma promessa para te oferecer um cabrito se eu encontrasse o ladrão; agora imolarei um touro se eu escapar das garras dele".

Assim agem os que, na dificuldade, procuram uma saída que, depois de encontrada, só pensam em se safar.


Fábulas de Esopo

Uma ideia de pulga



Era uma senhora que tinha uma menina. Era uma menina que tinha um cão. Era um cão que tinha uma pulga. Era uma pulga que tinha uma ideia.
Que ideia seria?
Não sabemos. E, como não sabemos, o melhor é perguntar:
- Ó pulga, que ideia é a tua?
- Uma grande ideia, uma ideia que vai mudar tudo. Uma ideia ex-tra-or-di-ná-ri-a!
E, ao dizer isto, a pulga saltitava de entusiasmo. Saltos de pulga em pêlo de cão dão comichão. O cão, que não era de cócegas, parou e coçou-se. A menina do cão parou, à espera do cão. A senhora, que levava a menina pela mão, parou também. Como iam a atravessar uma rua de muito movimento, parou o trânsito. Nas outras ruas, que iam dar à rua de muito movimento, parou tudo - automóveis, camionetas, autocarros... Buzinavam os carros. Gritavam as pessoas:
- Então esta história anda ou não anda?
E nós, para a pulga:
- Deixa-te de saltinhos e salta lá com essa ideia extraordinária, que estamos todos à espera.
- É muito simples - disse ela. - Para que as histórias com cães, meninas e senhoras possam ir à sua vida, sem serem interrompidas pelos saltos de uma pulga, eu proponho, eu exijo, que, daqui em diante, as pulgas deixem de usar saltos altos.
- Ah! - admirámo-nos nós, que não sabíamos que as pulgas usavam saltos altos.
A pulga continuou:
- Nós, de saltos altos, não conseguimos passar despercebidas, quando pisamos, quando saltamos. Por isso eu proponho, eu exijo, que as pulgas, em vez de sapatos de saltos altos, passem a calçar pan-tu-fas ou sapatinhos leves, que não chamem a atenção ao pisar.
Mas parece que a ideia não pegou. Ainda ontem vimos um cão a coçar-se, furiosamente. Ter-se-ão esgotado as pantufas, no mercado das pulgas? Nada disso. Era um colégio de pulguinhas novas, na aula de ballet. Todas de sapatilhas leves, a dançar em pontas... Estas ainda vão esperar muito tempo até usar pantufas...


António Torrado

A Corça que salvou a vida do marido



Era uma vez um veado que comandava um rebanho de cervos e vivia em uma floresta com sua bela esposa. A corça era muito fiel a seu marido e o ajudava em qualquer assunto.
Certo dia, o veado foi pego em uma armadilha de um caçador, e a corça ficou tão assustada quanto o próprio veado. Todos os amigos do veado fugiram, deixando-o para trás, mas sua esposa ficou junto a ele, esperando pelo caçador. Ela era muito devotada a seu marido. Logo que o caçador chegou, ela caiu de joelhos e implorou: “Senhor, por favor, faça uma boa cama de folhas para mim e meu marido, e então me mate, e depois meu marido, e assim você terá um belo banquete.”
O caçador ficou tão maravilhado e surpreso pelo amor da corça que, antes mesmo de preparar a cama de folhas, libertou o veado da armadilha, de modo que o casal de animais fugiu no primeiro instante.

Moral: Um grande amor tudo pode.


Contos e Lendas da Mitologia Hindu

Os artifícios de Dalila, a trapaceira



Conta-se, ó afortunado rei, que vivia em Bagdá no reinado de Harun Ar-Rachid, um homem chamado Ahmed Danaf, que se destacara a tal ponto no roubo e na fraude que o califa, sempre atento a usar qualquer talento, nomeou-o chefe da polícia, com vencimentos de 5 mil dinares de ouro por mês, guarda de honra e tudo mais. Naquela mesma época, vivia na mesma cidade, uma temível megera chamada Dalila, conhecida sob a alcunha de Dalila, a Trapaceira. Vendo as recompensas que Ahmed recebia por ser um grande ladrão, jurou à filha, Zainab, a Embusteira, que inventaria embustes que fariam esquecer os de Ahmed. Começou por cobrir a face com um véu, vestir um manto de sufi com mangas tão largas que varriam o chão e pendurar rosários no pescoço. Assim disfarçada, saiu pelas ruas a repetir: "Alá! Alá!" em alta voz, rezando com a língua, enquanto o coração corria na companhia dos demónios e os olhos procuravam algo a explorar. Dentro em pouco, passou por um palácio sumptuoso e parou para pensar. Ora, esse palácio pertencia ao chefe de guarda do califa, um homem rico e influente, mas violento e mal educado. Chamavam-no Mustafá Terror-das-Ruas, porque, com ele, os socos vinham primeiro, e só depois as explicações. Esse homem era casado com uma linda mulher chamada Khatum a quem jurara, na noite da primeira penetração, nunca tomar uma segunda esposa. Naquela manhã, Mustafa tinha tido uma briga com ela. Pois, apesar de seus cabelos brancos, Mustafa estava sem filho algum, enquanto todos os homens com quem lidava tinham dois, três ou mais filhos. - Sai da minha frente, tinha gritado ele para a mulher. O dia em que te conheci foi um dia nefasto para mim. - O que está ocorrendo? perguntara a mulher. - Está ocorrendo que és uma tola estéril, um vale de pedras em que desperdicei minhas sementes. A mulher respondera no mesmo tom: "Digo-te que a culpa é tua. És um mulo estéril, com um nariz chato. Teus testí-culos só contêm água e sementes mortas." - Achas? Na volta tomarei outra mulher, e vere-mos, retrucara o homem e saíra. Khatum lamentou então sua falta de paciência e de enge-nhosidade e ficou à janela, preocupada. Naquele momento, Dalila a viu coberta de jóias e de vestidos luxuosos e bela como a lua. "Dalila," disse a bruxa a si mesma, "chegou a hora de abrir o saco de teus artifícios." Parou debaixo da janela a repetir: "Alá! Alá! Vós todos os amigos de Deus, abri caminho para mim." "Talvez," pensou a mulher de Mustafa, `Alá me conceda sua graça por intermédio desta santa mulher," e mandou Abu-Ali, o administrador da casa, convidá-la a subir.
A bela Khatum jogou-se aos pés da mulher e beijou-lhe as mãos. "Minha filha", disse a astu-ta Dalila, "vim porque Alá inspirou-me a ideia de que precisavas de meus conselhos." Kha-tum ofereceu à visitante toda espécie de iguarias conforme as tradições da hospitalidade árabe, mas Dalila negou-se a tocar em qualquer delas, explicando: "Não tenho apetite senão para as iguarias do Paraíso. Por isso, ando sempre de jejum, excepto cinco dias por ano." Khatum ficou ainda mais impressionada e contou à mulher seu drama com o marido. - Vê-se, minha filha, replicou a velha, que nunca ouviste falar das virtudes de meu amo, o Xeque Pai-dos-Impulsos, o Santo Multiplicador-das-Gravidezes. Uma única visita a este santo transforma qualquer mulher estéril num campo frutífero. Se quiseres, levar-te-ei até ele hoje mesmo e, quando voltares, deixa teu marido penetrar em ti; e ficarás grávida no acto. Ouvindo essas promessas, a ingénua Khatum ficou encantada, pôs seus vestidos mais ricos, cobriu-se de jóias e seguiu a mulher. Quando chegaram perto da loja de Sidi Muhsim, um formoso jovem mercador, ainda solteiro, Dalila pediu a Khatum que a esperasse e entrou na loja.
- Amigos teus te recomendaram a mim, disse a Sidi Muhsim. Aquela moça é minha filha. Seu pai morreu, legando-lhe uma fortuna imensa. Está saindo de casa pela primeira vez, pois acaba de atingir a idade do casamento. Apressei-me a sair com ela, conforme o aviso dos sábios: "Oferece tua filha cedo e teu filho tarde." Uma inspiração divina e os elogios de teus amigos trouxeram-me até aqui. Não queres casar-te com ela? Se és rico, serás mais rico. Se precisas de dinheiro, ela te dará o dinheiro deixado pelo pai, e terás duas lojas em vez de uma.
O mercador olhou para Khatum, e seu corpo e seu coração se derreteram.
- Aceito com gratidão tua proposta. Mas minha mãe, que era uma mulher experimentada, me fez jurar, antes de morrer, que examinaria pessoalmente qualquer virgem com quem quisesse me casar a fim de prevenir surpresas humilhantes.
-Neste caso, levanta-te e segue-me. Prometo mostrar-te tua noiva completamente nua.
O jovem mercador levantou-se, levou uma bolsa de mil dinares para enfrentar qualquer eventualidade e seguiu a velha charmuta, que pensava com alegria: "Agora, sábia Dalila, prepara-te para sacrificar este jovem touro." Ao passar pela loja do tintureiro Hajji Mahmud - um homem famoso no mercado pela dualidade de suas inclinações, tendo sua faca sempre pronta para cortar tanto machos como fêmeas - Dalila pediu aos dois jovens para esperar e dirigiu-se a ele.
- Com certeza és Hajji Mahmud?
- Sou, sim, senhora, que queres de mim?
- Amigos têm-me falado muito de ti nos termos mais lisonjeiros. Agora, olha para esse belís-simo casal formado por meu filho e minha filha, cuja educação quase me arruinou. A velha casa onde vivem comigo está ameaçada de ruir; já mandei reformá-la. Mas os trabalhos só ficarão prontos daqui a um mês. Até lá, preciso alugar uma casa para instalá-los. Fala-ram-me da casa que tens disponível. Por isso vim a ti. O tintureiro olhou para os dois jovens e regozijou-se. "Ó Hajji Mahmud, disse a si mesmo, eis biscoito com manteiga para teus velhos dentes!" E disse à mulher: `A verdade é que disponho do primeiro andar da casa onde moro; mas preciso de parte dele eventualmente para hospedar certos clientes que vêm de longe."
- Não te preocupes com isto, disse a mulher. Será nosso prazer partilhar esse andar contigo. O homem não se conteve mais, esperando muito dessa coabitação, e entregou as chaves dos dois andares a Dalila. Dalila levou os dois jovens à casa de Hajji Mahmud e, após pedir a Sidi Muhsim que esperasse, levou Khatum a um quarto do primeiro andar e disse-lhe: "Minha filha, no térreo desta casa mora o venerável Santo Multiplicador-das-Gravidezes. Iremos visitá-lo dentro de um momento. Só receio uma coisa. Ele tem por ajudante um filho idiota que não pode ver uma dama vestida como estás vestida sem pular sobre ela e rasgar-lhe a roupa e quebrar-lhe as jóias. Penso que seria melhor que tirasses a roupa e as jóias. Guardá-las-ei num lugar seguro até que voltemos da visita." A jovem mulher, feliz com a prometida gravidez, tirou imediatamente a roupa e as jóias e entregou-as a Dalila. Esta disse que iria avisar o santo e voltar para levá-la a ele. Trancou a porta, guardou o pacote num canto e foi procurar o jovem comerciante.
-A tua noiva virá logo toda nua para que a possas examinar conforme a promessa feita a tua mãe. Mas aconteceu uma coisa desagradável. Quando os vizinhos souberam que tenciono casar-te com minha filha, foram dizer-lhe: "Será que tua mãe não aguenta mais sustentar-te para que queira casar-te com um homem atingido de sarna e lepra? Que podia fazer senão prometer-lhe, como prometeste a tua mãe, mostrar-lhe seu noivo nu antes do casamento?
- Apelo para Alá contra a língua dos caluniadores, gritou o moço, e tirou espontaneamente toda a roupa.
- És tão são quanto bonito, disse a velha.
E vendo-o dobrar a roupa com o cinto, a bolsa com mil dinares e o punhal de prata e ouro, disse-lhe: "É muito perigoso deixar essas coisas tentadoras por aqui. Vou guardá-las num lugar seguro até depois da visita de tua noiva." Embrulhou-as e levou-as, prometendo voltar logo com a noiva nua. Apanhou o outro pacote, trancou a porta e foi embora. Voltou à loja do lascivo tintureiro, elogiou a beleza de sua casa e disse-lhe: "Vou agora transportar os móveis para lá. "Posso pedir-te um favor? Eis um dinar. Compra com ele pão e carne e leva-os a meus filhos que não comem desde ontem. E, por favor, almoça com eles."
- Quem tomará conta de minha loja?
- Teu aprendiz.
-Seja, disse o tintureiro que se alegrava já com a perspectiva de almoçar com os dois jovens. Dalila foi dispor dos dois embrulhos; e quando voltou à loja, disse ao aprendiz: "Teu amo manda-te ir encontrar-se com ele na mercearia onde está comprando pão e carne." - Ouço e obedeço. Assim que o aprendiz saiu, Dalila começou a juntar todos os objectos que podiam ser carregados. Enquanto isso, viu um burriqueiro passar na porta da loja, com seu asno. - Por Alá, disse-lhe, conheces meu filho, o tintureiro?
- Ninguém o conhece melhor do que eu.
- Saberás, bom amigo, que meu filho está falido. Pediu-me juntar os bens de seus clientes para devolver-lhes. Eis um dinar. Aluga me teu asno para levar esses objectos. Enquanto esperares por mim, quebra o que puderes dos móveis desta loja para que o cádi não encon-tre nada para confiscar.
- Com prazer, disse o burriqueiro. Pois teu filho tem sido sempre bom para comigo. E nada cobrarei pelo serviço.
O tintureiro comprou o pão e a carne e dirigiu-se para sua casa. Seu caminho passava pela loja. Viu, pois, o que o burriqueiro estava fazendo.
- Pára! Pára! gritou.
O burriqueiro parou e disse: "Meu coração está contigo. Graças a Alá, evitaste a cadeia."
- O que estás dizendo?
- Foste declarado falido e estou quebrando as coisas para que o cádi não encontre nada para confiscar.
- Quem te contou isto?
-Tua mãe que juntou os bens dos clientes, alugou meu burro e foi entregá-los.
- Ai de mim! Minha mãe morreu há anos, gemeu o tintureiro.
Compreendendo o logro de que era vítima, pôs-se a bater no peito e gritar alto: "Desgraça! Desgraça! Meus bens estão perdidos. Os meus e os dos meus cientes." O burriqueiro pôs-se a chorar, por sua vez, e a gritar: "Desgraça! Desgraça! Desgraça! Meu asno está perdido! Tintureiro de meu traseiro, devolve-me o asno que tua mãe levou." Hajji Mahmud lançou-se sobre o burriqueiro e surrou-o, gritando: "Onde está minha mãe a quem con6aste meus bens, ó burriqueiro mais burro que todos os burros." Um dos vizinhos raciocinou: "Já que a velha alugou a casa de Hajji Mahmud para instalar os filhos nela, por que não a procuram lá e põem as coisas em ordem?"
Foram lá. Bateram em vão à porta. Depois, quebraram-na e entraram. Encontraram um homem nu no térreo e uma mulher nua no primeiro andar.
- Onde está vossa mãe? perguntaram-lhes.
- Nós não somos irmãos, e ela não é a mãe de nenhum de nós. Roubou-nos até a roupa e deixou-nos neste estado.
E contaram toda a história. As quatro vítimas da trapaceira juntaram-se e foram ao califa. "Como iria descobrir uma velha mulher entre tantas velhas mulheres que vivem nesta cida-de?" perguntou o califa. Mas depois, lembrou-se de que designara Ahmed Danaf chefe da polícia justamente porque conhecia todos os ladrões de Bagdá. Chamou-o e ordenou-lhe localizar a velha megera e levá-la a sua presença.
- Ouço e obedeço, disse Ahmed e, em menos tempo do que se leva para contar o facto, localizou Dalila, a Trapaceira e levou-a à presença do califa.
A velha trapaceira jogou-se aos pés do califa e disse: "Califa de Alá, não roubei pelo prazer de roubar, mas somente para chamar a atenção de Vossa Majestade sobre mim. Sempre fui uma mulher virtuosa e pobre, e nunca roubei seja o que for, mas nunca recebi de Vossa Majestade a menor atenção, enquanto Ahmed Danaf, por ser o maior ladrão desta cidade, foi nomeado chefe da polícia com vencimentos de 5 mil dinares de ouro por mês."
O califa achou notável mais esta burla da famosa trapaceira e riu gostosamente. Depois, mandou indemnizar todas as vítimas de Dalila e nomeou-a chefe do khan, tendo sob suas ordens quarenta negros e quarenta cães de caça afegãos. "Tua cabeça responderá pela perda de qualquer um dos pombos, os quais são mais caros a meu coração que meus próprios filhos." Assim foi recompensada por sua vez a arte de enganar e roubar de Dalila, a Trapaceira. Louvado seja Aquele que ensinou aos califas a tolerância e a generosidade!


(tradução brasileira)

16/03/2011

O sócio do diabo

Diz que era uma vez um lavrador muito pobre que não conseguia medrar no seu trabalho. Tanto mais se esforçava menos rendia a tarefa ao pobre homem. Vai um dia, desesperado, gritou:
— Apareça quem me ajude mesmo que -seja o próprio Diabo!
— Aqui estou eu! respondeu o Demo.
Ajustaram logo o contrato. O lavrador ganhou um belo terreno e o Diabo lhe disse:
— Plante o que quiser que bem dará. Nascendo em baixo é meu e saindo em cima é seu…
O homem plantou milho, trigo e centeio que nasceram como um louvar a Deus. Quando a plantação estava no pé de ser ceifada, veio o Diabo cobrar a parte.
— Pode levar o que é seu…
Foi ver o Diabo o que era dele e só encontrou raízes sem valor. Ficou furioso e desmanchou o pacto, propondo outro: ‘
— Vamos às avessas. O que sair por cima é meu e sendo de-baixo é seu.
O homem aceitou. Vendeu o milho, o trigo e o centeio por bom dinheiro e plantou batatas, cenouras e nabos que era um nunca acabar. No tempo da colheita voltou o diabo pela sua parte.
— Leve o que está por cima que é o trato… O Diabo desta vez ficou desesperado com o logro. Desmanchou o negócio e propôs outro:
— Faço-o rico como um conde e, no fim de vinte anos, ganho su’alma. Está feito?
— Está feito, com uma condição; escrevemos tudo num papel que fica no meu poder e lhe darei ao fim dos vinte anos. Se passar um minuto depois da meia noite e você não tiver o contrato na mão, estarei livre.
— Só aceito se o papel ficar na minha mão no fim do prazo!
— Está feito o negócio….
Ficou o homem rico da noite para o dia, tratando-se do bom e do melhor, fazendo caridades. No fim dos vinte anos, dia por dia, foi falar com o vigário da paróquia e lhe pediu uma escudela cheia de água benta. Dentro da escudela meteu o papel e esperou o Diabo.
Quando este chegou, o homem foi dizendo:
— O papel está ali, dentro daquela escudela, bem à vista. É só tirar.
O Diabo meteu a mão para agarrar o papel e largou um uivo como se tivesse metido a pata nas brasas. Foi outra vez e gritou com a dor. Por mais que procurasse retirar o contrato a água benta não deixava. Depois de muito esforço, o relógio bateu doze pancadas. O homem, então, benzeu-se:
— Vai-te para as areias gordas, que eu de ti estou livre!
O Diabo estourou como um petardo e foi para o Inferno. O homem continuou rico e feliz, morrendo quando Deus o permitiu.


Conto tradicional português




15/03/2011

O tigre arrependido de Zhancheng

Uma mulher muito idosa de Zhaocheng, com mais de 70 anos, vivia com seu filho único. Um dia, o filho estava andando numa montanha e foi devorado por um tigre. A mulher, cheia de dor, chorou durante vários dias e várias noites, e sofreu tanto que achou que iria morrer. Ainda chorosa procurou o juiz.
— Como pôr um tigre na cadeia e processá-lo?, perguntou o juiz, achando graça das exigências da mulher.
A mulher ficou mais furiosa ainda. O juiz tentou convencê-la, mas ela não queria escutá-lo. E continuou dizendo que ele precisava tomar providências contra o tigre. Cansado, o juiz pensou, pensou, e prometeu mandar prender o animal.
A velha ajoelhou-se aos seus pés. Recusou-se a deixar o tribunal enquanto ele não escrevesse num papel o mandado de prisão contra o tigre. Li Neng, um policial que naquele dia tinha bebido muito, falou que ele mesmo se encarregaria da prisão do tigre. Ouvindo isso, a mulher foi satisfeita para casa.
Logo que Li Neng ficou sóbrio, arrependeu-se. Mas ele disse para ele mesmo que o mandado de prisão era só uma astúcia do juiz para se ver livre do choro da mulher. Ele foi devolver o mandado ao juiz. E o juiz ficou muito zangado.
— Você prometeu prender o tigre. Deu a palavra e não pode voltar atrás.
Posto contra a parede, Li Ning implorou ao juiz que pelo menos lhe concedesse reforços para capturar o tigre. Seu pedido foi prontamente atendido.
Noite e dia, Li Neng e sua patrulha percorreram a montanha na esperança de encontrar o tigre. Em vão. No fim de um mês, sem resultado nenhum, o juiz ordenou que ele fosse açoitado cem vezes. Não sabendo mais o que fazer, ele foi a um santuário taoísta que havia no leste da cidade. Caindo de joelhos, implorou ao deus do lugar até perder a voz.
Foi nesse momento que o tigre apareceu. Li Neng reteve o fôlego, certo de que iria ser devorado. Mas o tigre passou a cabeça pela porta do pequeno templo e, olhando Li Neng bem nos nos olhos, sentou-se como se sentam os tigres.
Então Li Neng disse:
— Pô tigre! Se foi você que matou o filho dessa velha, me dá licença de te prender porque senão estou perdido.
E o policial, pegando uma corda, passou ao redor do pescoço do animal. O tigre baixou as orelhas e aceitou a corda em silêncio, e o policial o levou ao escritório do juiz. O juiz perguntou ao tigre.
— Foi você que comeu o filho dessa mulher?
O tigre disse que sim com a cabeça.
— Aqui, quem tira a vida de uma pessoa, deve morrer, disse o magistrado. É a lei, uma lei tão velha como o mundo. Além do mais, essa pobre mulher só tinha esse filho. Como ela vai conseguir sobreviver a partir de agora? Mas se você conseguir pegar o lugar do filho dela, para que não fique sozinha, suspendo sua sentença de morte.
De novo o tigre disse que sim com a cabeça. A corda então foi retirada e o animal saiu, enquanto a velha se lamentava, bem triste, que o juiz tinha libertado o culpado.
No dia seguinte pela manhã, logo que ela abriu a porta, descobriu um cabritinho morto na soleira. Ela pegou esse cabritinho e foi trocá-lo na cidade por diversos produtos. E no dia seguinte foi igual, e isso durou semanas e meses. Muitas vezes, em vez de caça, o tigre trazia na boca um corte de seda para um vestido ou algumas peças, sempre depositando diante da porta.
Assim a mulher acabou não passando dificuldades. Aliás, certas dificuldades por que passava eram facilmente resolvidas pelo tigre, o que não aconteceria se seu filho ainda estivesse vivo. Depois de algum tempo, o tigre começou até mesmo a se refestelar num puxado que ela tinha e a passar o tempo ali meio adormecido. Nem os animais nem as pessoas tinham mais medo dele.
Muito tempo depois, a mulher acabou morrendo e o tigre gemeu de um jeito tão triste diante da porta da casa, que partia o coração de quem o escutava. A mulher, antes de morrer, tinha feito muitas economias, para ter um funeral bem bonito e seus parentes se encarregaram de enterrá-la.
Logo que começou a ser lançada a terra na cova, o tigre inesperadamente pulou dentro, sem que ninguém esperasse. As pessoas em volta abriram espaço, com medo. Mas o tigre foi apenas se colocar diante do caixão e deu um rugido tão triste que todo mundo começou a chorar. Pouco depois o tigre foi embora.
Para esse tigre tão leal, as pessoas de Zhaocheng colocaram uma estela nas redondezas, ou seja, uma grande pedra, onde essa história é contada para quem quiser ler.



O macaco e o camelo



Quando de uma assembleia de animais, um macaco levantou-se e pôs-se a dançar. A sua dança agradou a todos e não faltaram elogios. Invejoso, um camelo quis também fazer sucesso. Levantou-se e pôs-se a dançar. Mas suas contorções indignaram os animais, que o expulsaram a pauladas.


Fábulas de Esopo

14/03/2011

O galo e a pérola



Andava o Galo esgravatando no monturo, para achar migalhas, ou bichos, que comer, e acertou de descobrir uma pedra: disse então:
– O Pedra preciosa, ainda que lugar sujo, se agora te achara um discreto Lapidário, te recolhera; mas a mim não me prestas; mais caso faço de uma migalha, que busco para meu sustento, ou dous grãos de cevada.
Dito isto, a deixou, e foi por diante esgravatando para buscar conveniente mantimento.


Fábulas de Esopo
(Século VI a.c.)

13/03/2011

O avarento



Um avarento juntou tudo o que tinha e transformou numa barra de ouro que enterrou em seu jardim: com ele enterrou também sua alma e todos os seus pensamentos. E desde então, diariamente, ia inspecionar seu tesouro. Um de seus empregados, observando aquele vaivém, viu logo de que se tratava; desenterrou a barra de ouro e levou-a. Pouco depois, o avarento foi fazer sua inspeção. Quando viu o buraco vazio começou a se lamentar e a arrancar os cabelos. Vendo-o nesse estado, um transeunte perguntou o que tinha acontecido e, compreendendo o que afligia o avarento, disse-lhe: "Por que ficar assim tão desolado? Tinhas o ouro e ao mesmo tempo não o tinhas. Basta pôr uma pedra no lugar onde estava a barra de ouro e imaginar que ele está lá. Pelo que vejo, mesmo quando o ouro estava lá, não fazias uso dele".

Moral: Ter bens e não usufruí-los é o mesmo que não os ter.


Fábulas de Esopo

As Formigas e o Gafanhoto


Num brilhante dia de outono, uma família de formigas se apressava para aproveitar o calor do sol, colocando para secar, todos os grãos que haviam coletado durante o verão. Então um Gafanhoto faminto se aproximou delas, com um violino debaixo do braço, e humildemente veio pedir um pouco de comida.
As formigas perguntaram surpresas: "Como? Então você não estocou nada para passar o inverno? O que afinal de contas você esteve fazendo durante o último verão?"
E respondeu o Gafanhoto: "Não tive tempo para coletar e guardar nenhuma comida, eu estava tão ocupado fazendo e tocando minhas músicas, que sequer percebi que o verão chegava ao fim."
As Formigas encolheram seus ombros indiferentes, e disseram: "Fazendo música, todo tempo você esteve? Muito bem, agora é chegada a hora de você dançar!"
E dando às costas para o Gafanhoto continuaram a realizar o seu trabalho.

Moral da História:
Há sempre um tempo para o trabalho, e um tempo para a diversão.


Fábulas de Esopo

12/03/2011

A Andorinha e as Outras Aves



Semeavam os homens linho, e vendo-os a Andorinha disse aos outros pássaros:
- Por nosso mal fazem os homens esta seara, que desta semente nascerá linho, e farão dele redes e laços para nos prenderem. Melhor será destruirmos a linhaça, e a erva, que dela nascer, para que estejamos seguras.
Riram as Aves deste conselho e não quiseram tomá-lo. O que vendo a Andorinha, fez pazes com os homens e se foi viver em suas casas. Eles fizeram redes, e instrumentos de caça, com que tomaram e prenderam todos os pássaros, tirando só a Andorinha, que ficou privilegiada.


Fábulas de Esopo
(Século VI a.c.)

11/03/2011

O macaco e o golfinho



Os marinheiros têm o hábito de levar a bordo cãozinhos de Malta e macacos: esses animais os distraem enquanto navegam. Por isso um homem viajava em companhia de um macaco. Ora, na altura do cabo Súnio, no sul da Ática, estourou uma violenta tempestade. O navio naufragou e todos, o macaco inclusive, viram-se às voltas com as ondas. Um golfinho viu o animal e, achando que se tratava de um homem, colocou-o nas costas e levou-o à terra firme. Ao chegar a Pireu, o porto de Atenas, o golfinho perguntou ao macaco se ele era ateniense.
- Sim –respondeu o macaco-, e de boa origem.
- E conheces o Pireu? –perguntou o golfinho.
- É um dos meus melhores amigos –respondeu o macaco.
A impostura desagradou ao golfinho: mergulhou no mar profundo e o macaco morreu.
Isto é uma advertência àqueles que, ignorando a verdade, procuram enganar os outros.


Fábulas de Esopo