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29/05/2009

O Observador

Certo dia um rei chamou ao seu palácio o mestre zen Muhak - que viveu de 1317 a 1405 - e lhe disse que, para afastar o cansaço e a tensão do trabalho administrativo, queria ter uma conversa completamente informal com ele. Em seguida, o rei comentou que Muhak parecia um grande porco faminto procurando comida.
- E você, excelência parece o Buda Sakiamuni meditando, sobre um pico elevado dos Himalaias.
O rei ficou surpreso com a resposta de Muhak.
- Comparei você a um porco, e você me compara ao Buda?
- É que um porco só pode ver porco, excelência, e um Buda só pode ver Buda.


Contos do Oriente








28/05/2009

As doze princesas






Era uma vez um rei que tinha doze belas filhas. Dormiam em doze camas, todas no mesmo quarto, e quando iam para a cama, as portas eram trancadas. Contudo, todas as manhãs os seus sapatos apareciam usados, como se tivessem estado a dançar a noite inteira. Ninguém conseguia perceber o que tinha acontecido, ou onde tinham estado as princesas.
Então o rei fez saber em toda a terra que se alguém descobrisse o segredo e soubesse onde tinham estado a dançar as princesas durante a noite, poderia escolher aquela que gostasse mais para ser a sua mulher, e seria rei após a sua morte. Mas aqueles que tentassem e não o conseguissem, após três dias e três noites, seriam mortos.
O filho de um outro rei apareceu rapidamente. Foi bem entretido e ao anoitecer foi levado ao quarto junto a aquele onde as princesas se deitavam nas suas doze camas. Lá ele devia ficar sentado e ver onde é que elas iam dançar; e, para que nada acontecesse sem que ele ouvisse, a porta do seu quarto foi deixada aberta. Mas o filho do rei rapidamente adormeceu; e quando acordou na manhã seguinte viu que as princesas tinham estado todas a dançar, pois os sapatos estavam cheios de buracos.
O mesmo aconteceu na segunda e na terceira noite e por isso o rei mandou que lhe cortassem a cabeça.
Depois dele vieram muitos outros; mas todos eles tiveram a mesma sorte, e todos perderam a vida da mesma forma.
Então aconteceu que um velho soldado, que tinha sido ferido em batalha e já não podia lutar mais, passou pelo país onde este rei reinava e, enquanto viajava pela floresta, encontrou uma velhota, que lhe perguntou onde ia.
'Não sei onde vou, ou o que devia fazer', disse o soldado;'mas acho que gostava de saber onde é que as princesas dançam, e assim no seu tempo, podia chegar a ser rei'.
'Bem', disse a velhota, 'isso não é uma tarefa muito difícil: simplesmente tens de ter cuidado e não beber do vinho que uma das princesas te dará ao final da tarde; e mal ela te deixe, finge que adormeces'.

Então ela deu-lhe uma capa e disse 'Mal vistas isso, tornar-te-ás invisível, e poderás então seguir as princesas onde quer que vão'. Quando o soldado ouviu estes conselhos, ficou determinado a tentar a sua sorte, e por isso foi ter com o rei, e disse que estava disposto a desempenhar a tarefa.
Ele foi tão bem recebido como os outros tinham sido, e o rei ordenou que lhe dessem finos robes; e quando a noite chegou, ele foi levado ao seu quarto.
Justo quando se estava a deitar, a mais velha das princesas levou-lhe um copo de vinho, mas o soldado deitou-o fora segredamente, com cuidado de não beber nem uma gota. Então deitou-se na cama e passado um bocado, começou a ressonar alto, como se estivesse a dormir.
Quando as doze princesas ouviram isto, riram-se com força; e a mais velha disse, 'Este sujeito também podia ter feito algo melhor do que perder a sua vida desta forma!'. Então elas levantaram-se e abriram as gavetas e caixas, e tiraram as suas melhores roupas, e vestiram-se ao espelho, e começaram a saltitar como se estivessem ansiosas de começar a dançar.
Mas a mais nova disse, 'Não sei porque, mas enquanto vocês estão tão contentes, eu sinto-me inquieta; estou certa de que algo de errado nos vai acontecer.'
'Tens sempre medo', disse a mais velha,'já te esqueceste de quantos filhos de reis nos vigiaram em vão? Quanto a este soldado, mesmo que eu não lhe tivesse dado a sua droga para adormecer, teria adormecido na mesma'.
Quando estavam todas prontas, saíram e olharam para o soldado; mas ele continuava a ressonar e não mexeu nem mão nem pé: para que elas pensassem que estavam seguras.
Então a mais velha foi para a sua própria cama e bateu palmas, e a cama afundou-se no chão e uma porta oculta abriu-se. O soldado viu-as descer pela porta uma atrás da outra, com a mais velha a indicar o caminho; e pensando que não tinha tempo a perder, saltou da cama, vestiu a capa que a velhota tinha dado, e seguiu-as.
Contudo, a meio das escadas, ele pissou o vestido da princesa mais nova e ela gritou para as irmãs 'Nada está bem; alguém prendeu o meu vestido'.

'Criatura tonta!' disse a mais velha, 'não é nada a não ser um prego na parade'.
Continuaram a descer, e em baixo, encontraram-se na mais encantadora clareira de árvores; e as folhas eram todas de prata e brilhavam belíssimamente. O soldado desejou levar algumas de volta, por isso partiu um pequeno ramo, e então veio um forte ruido da árvore. Então a irmã mais nova disse de novo. 'Estou certa de que nada está bem - não ouviram esse barulho? Isso nunca aconteceu antes'.
E a mais velha respondeu, 'São só os nossos príncipes, que gritam de alegria porque estamos a chegar'.
Foram para outra clareira, onde todas as folhas eram de ouro; e depois para uma terceira, onde as folhas eram de diamantes brilhantes. E o soldado quebrou um ramo de cada uma; e todas as vezes fazia um grande barulho, que fazia a irmã mais nova tremer de medo. Mas a mais velha ainda dizia que eram apenas os príncipes, a chorar de alegria.
Continuaram a andar até que chegaram a um grande lago; e ao pé deste esperavam doze pequenos barcos com doze belos príncipes neles, que pareciam estar à espera das princesas.
Cada uma delas entrou no seu barco, e o soldado entrou no mesmo da mais nova.. Enquanto remavam sobre o lago, o príncipe que estava no barco com a princesa mais nova e o soldado disse, 'Não sei porquê, mas apesar de estar a remar com todas as minhas forças, não nos mexemos tão rápido como normalmente, e eu estou um pouco cansado: o barco parece muito pesado hoje'.
'Deve ser do calor que está', disse a princesa, 'Eu também estou muito quente'.
No outro lado do lago levantava-se um belo castelo iluminado, de onde vinha música alegre de cornos e trombetas. Todos chegaram a terra e foram para o castelo, e cada príncipe dançou com a sua princesa; e o soldado, que continuava invisível,
também dançou com elas. Quando qualquer delas deixava um copo de vinho
ao seu lado, ele bebia-o todo, para que quando voltassem a levar o copo aos lábios, estivesse vazio. Com isto, também, a irmã mais nova ficava terrivelmente assustada, mas a mais velha sempre a calava.

Dançaram até as três da manhã, deixando os sapatos tão gastos que eram obrigadas a ir-se embora. Os príncipes remavam de volta sobre o lago (mas desta vez o soldado colocou-se no barco da irmã mais velha), e na costa oposta, despediam-se, prometendo voltar de novo na noite seguinte.
Quando subiram as escadas, o soldado correu à frente delas e deitou-se na cama. E assim que as doze cansadas irmãs apareciam lentamente, ouviram-no ressonar na sua cama e disseram, 'Agora tudo está a salvo'. Então tiravam a roupa, guardavam os vestidos, tiravam os sapatos, e iam para a cama.
Na manhã o soldado não disse nada sobre o que tinha acontecido, mas decidiu ver mais desta estranha aventura e voltou de novo na segunda e terceira noite. Tudo aconteceu tal como antes: as princesas dançavam até não poder mais e depois voltavam a casa. Na terceira noite o soldado levou um dos copos de ouro como lembrança de onde tinha estado.
Assim que a hora chegou em que tinha de contar o segredo, foi levado perante o rei com os três ramos e o copo de ouro; e as doze princesas ficaram por trás da porta para ouvir o que ele dizia.
O rei perguntou-lhe, 'Onde é que dançam as minhas doze filhas à noite?'
O soldado respondeu, 'Com doze príncipes num castelo subterrâneo'. E então contou ao rei tudo o que tinha acontecido, e mostrou-lhe os três ramos e o copo de ouro que tinha trazido com ele.
O rei chamou as princesas e perguntou-lhes se o que o soldado dissera era verdade e quando elas viram que tinham sido descobertas e não valia a pena negar o que tinha acontecido, condessaram tudo.
Então o rei perguntou ao soldado qual das princesas escolhia para ser a sua mulher; e ele respondeu, 'Não sou muito novo, por isso fico com a mais velha' -- e casaram no mesmo dia, e o soldado foi eleito herdeiro do rei.

26/05/2009

Jacinto e o Amor dos Deuses

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O belo Jacinto trazia na sua sensualidade de mortal o poder da sedução que despertou a paixão do deus Apolo e de Zéfiro, deus e senhor dos ventos do oeste. Diante da corte dos dois deuses, Jacinto decidiu-se por Apolo, provocando a ira e o ciúme incontrolável de Zéfiro.
Jacinto tornara-se muito amado por Apolo, que passou a segui-lo onde quer que fosse. Corriam pelos campos sob os olhos invejosos de Zéfiro, desfilando sua paixão e corpos perfeitos. Numa tarde de brisa suave, os dois amantes se divertiam com o jogo de arremesso de disco. Apolo arremessou o disco no céu. Jacinto seguiu com os olhos extasiados o vôo daquele disco. Foi neste momento sublime que Zéfiro interviu, mudando a direção dos ventos, fazendo com que o disco arremessado por Apolo atingisse a fronte de Jacinto. Tão logo atingido, o belo Jacinto deu o seu último suspiro, caindo morto sobre os campos. Da sua fronte o sangue jorrou, manchando a terra.
Apolo correu em socorro do amante, tentou ainda ressuscitá-lo, mas nem os seus poderes imortais trouxeram o jovem à vida. Apolo abraçou-se ao corpo do amado. Sentia o tormento da culpa em seu ser imortal. Jurou ao amante que jamais seria esquecido por ele, que todas às vezes que tocasse a sua lira e murmurasse o seu canto, seria uma forma de homenageá-lo e de lembrá-lo. E do sangue de Jacinto que molhava o solo, o deus fez brotar uma flor que trazia o colorido mais belo que a púrpura tíria. Uma flor muito semelhante ao lírio, porém, roxa. Ela traduzia a saudade e o pesar de Apolo. A flor foi chamada de jacinto e renasce toda primavera para lembrar o destino e a beleza perdida de Jacinto.
A flor descrita em nada se parece com o jacinto moderno, talvez seja uma íris ou amor-perfeito. Mas o jacinto como flor ficou a ser o símbolo da dor e da culpa de Apolo. Ou da inveja e da paixão não correspondida de Zéfiro.

Contos e Lendas da Mitologia Grega


25/05/2009

Nona Noite

E QUANDO FOI NA NONA NOITE
Sherazade disse:

Contaram-me, ó Rei, que a feiticeira apanhou um pouco de água do lago e pronunciou sobre ela algumas palavras misteriosas. Então os peixes começaram a se agitar e levantaram a cabeça, tornando a ser filhos de Adão, naquela hora e naquele instante, e desapareceu a magia que se erguera contra os habitantes da cidade. E a cidade transformou-se num lugar florescente, com seus bem construídos e cada habitante recomeçou a exercer seu ofício. E as montanhas se transformaram em ilhas, como outrora. E eis tudo, com respeito a eles!
Quando a jovem voltou imediatamente para junto do rei, sempre acreditando que se tratava do negro, disse-lhe: “Meu querido, dá-me tua mão para que a beije!” E o rei respondeu: “Aproxima-te mais de mim!” E ela se aproximou. De repente, ele agarrou sua espada e lhe atravessou o peito, tão bem que ela saiu pelas costas. Depois tornou a ferir, cortando-a em duas metades.
Isso feito, saiu e encontrou o jovem enfeitiçado, que o esperava, de pé. Então, cumprimentou-o e congratulou-se com ele pela sua libertação. E o jovem beijou-lhe a mão e agradeceu-lhe com efusão. Em seguida o rei disse: “Queres ficar na tua cidade ou vir comigo?” E o jovem lhe falou: “Ó Rei, sabes que distância há daqui a tua cidade?” E o rei falou: “Dois dias e meio.” Mas o jovem falou: “Ó rei, estás adormecido, acorda! Daqui para a tua cidade levarás um ano inteiro, com a vontade de Alá. Vieste aqui em dois dias porque a cidade estava enfeitiçada. Alias, eu, ó Rei, não te deixarei sequer pelo tempo de um bater de pálpebras!” E o rei ficou feliz ao ouvir essas palavras e disse: “Louvores a Alá que houve por bem colocar-te em meu caminho. Porque de agora em diante tu és meu filho, pois que Alá até aqui nunca me concedeu um filho!”
Em seguida, puseram-se a caminhas até ao palácio do rei jovem que tinha sido encantado. E o rei jovem anunciou aos notáveis de seu reino que ia partir para uma santa peregrinação à Meca. Então foram feitos os preparativos e ele e o sultão partiram, porque o coração do sultão ardia por sua cidade, de onde estava ausente há um ano. Puseram-se a caminho levando cinqüenta mamelucos carregados de presentes. E não cessaram de viajar dia e noite durante um ano inteiro, até se aproximarem da cidade do sultão.
Então o vizir saiu com os soldados ao encontro do sultão, depois de ter desistido de tornar a vê-lo. Os soldados se aproximaram e beijaram a terra diante dele, desejando-lhe boas vindas. E ele entrou no palácio e sentou-se no trono. Depois chamou o vizir e contou-lhe o que tinha acontecido. Quando o vizir tomou conhecimento da história do jovem, fez-lhe cumprimentos pela sua libertação e salvação.
Nesse entretempo, o sultão gratificou muitas pessoas, depois disse ao vizir: “Traze aqui o pescador que me trouxe os peixes.” E o vizir mandou buscar o pescador que fora a causa da libertação dos habitantes da cidade. E o rei fez que ele se aproximasse e presenteou-o com trajes de honra e interrogou-o sobre sua vida, perguntando-lhe se tinha filhos. E o pescador disse ter um filho e duas filhas. Então o rei casou-se com uma das filhas e o jovem com a outra. Depois o rei conservou o pai junto dele, nomeando-o tesoureiro-chefe. Em seguida, enviou o vizir à cidade do jovem, situada nas Ilhas Negras, nomeando-o sultão, e mandou com ele os cinquenta mamelucos que antes o haviam acompanhado, carregados de muitas roupas de honra para os emires. Aí o vizir beijou-lhe as mãos e saiu para a viagem. E o sultão e o jovem continuaram a morar juntos, felizes com as esposas, numa vida de tranquilas delícias e frescor no coração. Quanto ao pescador, tornou-se o homem mais faustoso de seu tempo. e foi nesse estado que, depois de muitos anos fartos, veio visitá-los a Separadora dos amigos, a Inevitável, a Silenciosa, a Inexorável: a Morte!

Rajput Princess


24/05/2009

Esqueceram o corvo


Um dia, a família dos pombos resolveu dar um banquete. Convidaram para a festa todos os animais de asas e penas, mas esqueceram-se do corvo.
Imperdoável! Se estavam a águia, o falcão, a cegonha, o gaio, a coruja, o ganso, o cisne, a galinha mais o galo, o pardal, a pardoca e os respectivos pardalinhos, a codorniz, a andorinha, o melro e tantos mais, quem daria por falta do corvo?
Deu ele, que muito se susceptibilizou com o esquecimento. E, como era vingativo, agarrou numa grande pedra e sobrevoou, lá muito do alto, a mesa da festança.
Quando as aves estavam todas a comer, na maior das alegrias, o corvo, lá de cima, fez pontaria e largou o pedregulho. Não se queira saber! A pedra caiu no meio da mesa e espatifou tudo. Estava estragada a festa.
Empoleirado no galho de uma faia, o corvo assistiu à confusão que provocara e fartou-se de rir. Riso de malvado. Assim:
- Eh! Eh! Eh! Eh! Eh!
Houve uma garça que o viu rir e calculou o resto. Foi dizer aos pombos, que por sua vez foram dizer às outras aves.
- Ah, o culpado pelo estardalhaço que interrompeu a festa foi o corvo? Pois deixa estar que não perdes pela pancada - ameaçaram.
E as aves todas juntas acertaram numa conspiração.
Dias depois, a família dos pombos convidou o corvo para um jantar de gala. Era ele o único convidado.
Muito honrado com o convite, o corvo, vestido com o seu luzidio fato de cerimónia, todo preto, apresentou-se para o jantar de festa.
Sentaram-se à mesa os pombos todos brancos, a fazerem companhia ao corvo. Veio a terrina da sopa, que foi colocada diante do convidado.
- Faça favor de se servir primeiro - disseram os pombos, com muito bons modos.
- Do que é a sopa? - perguntou o corvo, cheio de apetite.
- Sopa de pedra - disseram os pombos, em coro.
E era mesmo. Lá estava, dentro de uma enorme terrina, o pedregulho que o corvo atirara.
- Não tenho vontade - disse o corvo, embaraçado.
- Pois nós também não temos mais nada para oferecer - disseram os pombos. - Este cozinhado caiu do céu e pela forma como nos chegou à mesa estamos convencidos que é muito especial. Por isso o reservámos para as visitas mais ilustres. Faça favor de provar.
O corvo, para não dar parte fraca, não teve outro remédio senão dar uma bicada na pedra.
- Está saborosa? Quer repetir? - perguntaram os pombos.
- Muito obrigada. Estou satisfeito - respondeu o corvo.
- Só mais um bocadinho, vá lá... - insistiram os pombos.
E o corvo passou o jantar às bicadas à pedra.

O Jovem Rico




Certa vez um homem chegou perto de Jesus e perguntou:
- Bom mestre, o que devo fazer para conseguir a vida eterna??
- Por que você Me chama de bom?- disse Jesus. – Só Deus é bom, e mais ninguém. Você conhece os mandamentos: “Não cometa adultério, não mate, não roube, não acuse os outros com falsidade, respeite o seu pai e a sua mãe.”
- Desde pequeno tenho obedecido a todos esses mandamentos – respondeu o homem.
Quando Jesus ouviu isso, disse:
Você ainda precisa de uma coisa. Venda tudo o que tem e dê o dinheiro aos pobres e assim você terá riquezas no céu. Depois venha e Me siga.
Quando o homem ouviu isso, ficou muito triste, pois era muito rico. Jesus viu que ele estava triste e disse:
-Como é difícil os ricos entrarem no Reino de Deus! É mais difícil um rico entrar no Reino de Deus do que um camelo passar pelo fundo de uma agulha.


Parábolas de Jesus
Lucas 18-18 a 25


A aranha e o mosquito




Um mosquito voava despreocupadamente nos ares, quando se sentiu preso na teia da Aranha.
Estava a fazer esforços para libertar-se quando a Aranha se aproximou dizendo-lhe com voz ameaçadora:
- Não se mexa tanto assim, cavalheiro, que acabará quebrando as malhas de seda da minha teia.
- Senhora, ajude-me a libertar-me, pediu o mosquito, delicadamente.
- Está aí uma coisa que não posso lhe fazer, declarou a Aranha. O cavalheiro, invade violentamente a minha propriedade e ainda me pede que eu lhe abra a porta para sair!
- Perdão, senhora, não invadi a sua propriedade Eu vinha voando e, quando dei por mim, estava preso a estas malhas. Foi sem querer.
- Não posso acreditar que, sendo o espaço tão vasto ainda mais para um mosquito, o amigo viesse, sem querer, esbarrar na minha casa.
- Palavra de honra de Mosquito. Não tive intenção de ofendê-la. Não me passou pela cabeça o mais vago propósito de invadir a sua propriedade.
E com a voz mais doce desse mundo:
- Agora, que já dei minhas satisafações necessárias, peço à querida amiga que me ajude a voltar à minha liberdade.
A Aranha replicou imediatamente:
- Vontade não me falta, senhor, mas isso é impossível.
- Por quê?
- Cada um de nós preza o seu nome. O mundo está cheio da boa fama das aranhas. Seria um erro eu destruir essa boa fama, depois de a conquistar com tanto sacrifício.
- Não compreendo.
- Eu o farei compreender. No começo do mundo quando construí a primeira casa, os voadores vinham esbarrar nas minhas malhas, quebrando-as, rompendo-as. Para acabar com tal abuso, resolvi que todo aquele que eu apanhasse nos fios de minha rede, na minha rede ficaria para me servir de alimento. A notícia dessa resolução espalhei-a largamente pelos ares. Não houve quem não tivesse conhecimento dela. Apesar disso, de quando em quando, aqui vêm ter mariposas, pirilampos, libélulas e toda a sorte de bichinhos miúdos. Procedo igualmente com todos. Devoro a todos, todos, sem EXCEPÇÃO.
E, arrepiando dignamente os pêlos veludosos.
- Ora, se eu puser o amigo em liberdade, que se dirá de mim? Dir-se-á que eu não sei fazer justiça. O cavalheiro, decerto, não quererá que eu fique desmoralizada.
Mal acabou de falar, uma abelha, que voava nas proximidades, ficou presa nas malhas da teia. Em seguida, um besouro. Muito depois, um grilo.
- Está vendo? - disse a Aranha ao mosquito. Todos os que estão ficando presos na rede, da rede não mais sairão. A boa justiça é aquela que é igual para todos.
Naquele momento, um gavião vinha voando rumo da teia.
- Se ele não se desviar, é mais uma vítima, murmurou o mosquito penalizado. E o gavião não se desviou. Rompeu os fios, fez um grande rombo nas malhas, passou e foi-se embora.
Quando o mosquito olhou a Aranha, ela estava num cantinho, encolhida, trémula e assustada.
- Que foi isso, senhora? bradou o prisioneiro. Não viu nada? Não viu o estrago que o gavião fez na sua casa? Que a reduziu a frangalho?
- Não tem importância. Eu a conserto facilmente.
- Mas ele invadiu a sua propriedade. Que justiça é a sua, senhora? Por que não o aprisionou para a sua mesa, como fez comigo, com a abelha, com o grilo, com o besouro? Fale! Fale!
- Quer saber por quê? Porque não gosto de carne de gavião, respondeu a Aranha com ar de pouco caso.


Moral da Estória:
Aos poderosos tudo se desculpa, aos fracos nada se perdoa.



A alma e o coração da baleia


Return to Paradise

Era uma vez... um corvo muito bobo e convencido que voou para bem longe e foi parar no mar.
Exausto de tanto bater as asas, procurou um lugar para descansar mas não avistou nenhum pedaço de terra no meio de toda aquela água.
"Vou morrer afogado" - suspirou, já sem forças para continuar voando.
Nesse exacto momento uma enorme baleia subiu à tona, e o corvo, sem pensar duas vezes, mergulhou naquela bocarra aberta.
Foi parar na barriga da baleia, onde, para seu espanto, deparou-se com uma casa muito limpa e confortável, bem iluminada e quentinha.
Uma jovem estava sentada na cama, segurando uma lanterna.
- Fique à vontade - disse ela amavelmente - mas, por favor, nunca toque em minha lanterna.
O corvo, feliz da vida, prometeu que jamais faria tal coisa. A moça parecia inquieta. A todo instante se levantava, ia até a porta e voltava a sentar na cama.
- Algum problema? - o corvo perguntou.
- Não... - ela respondeu - é só a vida... a vida e o ar que se respira.
O corvo estava morrendo de curiosidade. Assim, quando a jovem foi até a porta, resolveu tocar na lanterna para ver o que acontecia. E aconteceu que a moça caiu estatelada na sua frente e a luz se apagou.
O mal estava feito. A casa ficou fria e escura, o cheiro de gordura e sangue deixou o corvo enojado. Inutilmente ele procurou a porta para sair dali e, cada vez mais nervoso, começou a se coçar de tal modo que arrancou todas as penas.
- Agora é que vou morrer congelado - choramingou, tremendo até os ossos.
A moça era a alma da baleia, que a impelia para a porta toda vez que enchia os pulmões de ar.
Seu coração era a lanterna acesa.
Quando o corvo a tocou, a chama se extinguiu. Agora a baleia estava morta e guardava em seu interior o pássaro intrometido.
Depois de muito chorar e pensar, o corvo finalmente conseguiu sair das escuras entranhas e sentou no dorso daquele imenso defunto.
Ensebado, sujo, depenado, era uma tristíssima figura.
A baleia morta ficou flutuando no mar até que desabou uma tempestade e as ondas a empurraram para a praia.
Quando a chuva parou, alguns pescadores saíram para trabalhar e viram a baleia.
O corvo também os viu e se transformou num homenzinho frio e estropiado.
Então, em vez de confirmar que se intrometera onde não fora chamado e destruíra algo belo que não conseguira compreender, pôs-se a gritar:
- Eu matei a baleia! Matei a baleia!
E assim... se tornou um grande homem entre seus pares.

Neil Philip



A águia e o pardal



O Sol anunciava o final de mais um dia e lá, entre as árvores, estava Andala, um pardal que não se cansava de observar Yan, a grande águia. Seu voo preciso, perfeito, enchia seus olhos de admiração. Sentia vontade em voar como a águia, mas não sabia como o fazer. Sentia vontade em ser forte como a águia, mas não conseguia assim ser. Todavia, não cansava de segui-la por entre as árvores só para vislumbrar tamanha beleza.
Um dia estava a voar por entre a mata a observar o voo de Yan, e de repente a águia sumiu da sua visão. Voou mais rápido para reencontrá-la, mas a águia havia desaparecido. Foi quando levou um enorme susto, deparou de uma forma muito repentina com a grande águia a sua frente. Tentou conter o seu voo, mas foi impossível, acabou batendo de frente com o belo pássaro. Caiu desnorteado no chão e quando voltou a si, pôde ver aquele pássaro imenso bem ao seu lado observando-o.
Sentiu um calafrio no peito, suas asas ficaram arrepiadas e pôs-se em posição de luta. A águia em sua quietude apenas o olhava calma e mansamente, e com uma expressão séria, perguntou-lhe:
- Por que estás a me vigiar, Andala?
- Quero ser uma águia como tu, Yan. Mas, meu voo é baixo, pois minhas asas são curtas e vislumbro pouco por não conseguir ultrapassar meus limites.
- E como te sentes amigo, sem poder desfrutar, usufruir de tudo aquilo que está além do que podes alcançar com tuas pequenas asas?
- Sinto tristeza. Uma profunda tristeza. A vontade é muito grande de realizar este sonho.
- O pardal suspirou olhando para o chão e disse:
- Todos os dias acordo muito cedo para vê-la voar e caçar. És tão única, tão bela. Passo o dia a observar-te.
- E não voas? Ficas o tempo inteiro a me observar? - indagou Yan.
- Sim. A grande verdade é que gostaria de voar como tu voas. Mas as tuas alturas são demasiadas para mim e creio não ter forças para suportar os mesmos ventos que, com graça e experiência, tu cortas harmoniosamente.
- Andala, bem sabes que a natureza de cada um de nós é diferente, e isto não quer dizer que nunca poderás voar como uma águia. Sê firme em teu propósito e deixa que a águia que vive em ti possa dar rumos diferentes aos teus instintos. Se abrires apenas uma fresta para que esta águia que está em ti possa te guiar, esta dar-te-á a possibilidade de vires a voar tão alto como eu. Acredita! - e assim, a águia preparou-se para levantar voo, mas voltou-se novamente ao pequeno pássaro que a ouvia atentamente.
- Andala, apenas mais uma coisa: não poderás voar como uma águia, se não treinares incansavelmente por todos os dias. O treino é o que dá conhecimento, fortalecimento e compreensão para que possas dar realidade aos teus sonhos. Se não pões em prática a tua vontade, teu sonho sempre será apenas um sonho.
Esta realidade é apenas para aqueles que não temem quebrar limites, crenças, conhecendo o que deve ser realmente conhecido. É para aqueles que acreditam serem livres, e quando trazes a liberdade em teu coração poderás adquirir as formas que desejares, pois já não estarás apegado a nenhuma delas, serás livre!
Um pardal poderá, sempre, transformar-se numa águia, se esta for sua vontade. Confia em ti e voa, entrega tuas asas aos ventos e aprende o equilíbrio com eles. Tudo é possível para aqueles que compreenderam que são seres livres, basta apenas acreditar, basta apenas confiar na tua capacidade em aprender e ser feliz com tua escolha!


Fábulas do Mundo



A águia dourada




Um homem encontrou um ovo de águia e o colocou debaixo da galinha que chocava seus ovos no quintal.
Nasceu uma aguiazinha com os pintos e com eles crescia normalmente.
Durante todo o tempo a águia fazia o mesmo que faziam os pintinhos, convencida de que era igual a eles.
Ciscava, ia ao chão buscando insectos e pipilava como fazem os pintos, e como eles, também batia as asas conseguindo voar um metro ou dois porque, afinal de contas, é só isso que um frango pode voar, não é verdade?
Passaram-se anos e a águia ficou velha.
Certo dia, ela viu, riscando o espaço, num céu azul, uma ave majestosa, planando, no infinito, graciosa, levada, docemente, pelo vento sem nem sequer bater a asa dourada.
A águia do chão olhou-a com respeito e logo, perguntou ao seu amigo:
"Que tipo de ave é aquela que lá vai?"
"É uma águia! É rainha" - diz-lhe o amigo - mas é bom não olhar muito para ela, pois nós somos de raça diferente, simples frangos do chão e nada mais. "
Daí por diante, então, a pobre da águia nunca mais pensou nisso, até morrer convencida de ser uma simples galinha.


Fábulas do Mundo

A abelha e o cisne




Caíra na água a abelhinha prestes já a se afogar garboso ali perto vinha um belo cisne a nadar.
- Ajudai-me, cisne lindo - disse a abelhinha a chorar.
E o cisne ali tão bem-vindo apressou-se em a salvar.
Pensem bem nesta historinha do belo cisne e a abelhinha. Jamais devemos deixar de boa acção praticar.

Fábulas do Mundo



23/05/2009

O Frio

Seis homens ficaram bloqueados numa caverna por uma avalanche de neve. Teriam que esperar até ao amanhecer para poderem receber socorro. Cada um deles trazia um pouco de lenha e havia uma pequena fogueira ao redor da qual eles se aqueciam. Se o fogo apagasse - eles sabiam -, todos morreriam de frio antes que o dia clareasse. Chegou a hora de cada um colocar a sua lenha na fogueira. Era a única maneira de poderem sobreviver.
O primeiro homem era um racista. Ele olhou demoradamente para os outros cinco e descobriu que um deles tinha a pele escura. Então ele raciocinou consigo mesmo:
- "Aquele negro! Jamais darei a minha lenha para aquecer um negro". E guardou-a, protegendo-a dos olhares dos demais.
O segundo homem era um rico avarento. Ele estava ali porque esperava receber os juros de uma dívida. Olhou ao redor e viu no círculo em torno do fogo bruxuleante, um homem da montanha, que trazia a sua pobreza no aspecto do semblante e nas roupas velhas e remendadas. Ele fez as contas ao valor da sua lenha e enquanto mentalmente sonhava com o seu lucro, pensou:
- "Eu? Dar a minha lenha para aquecer um preguiçoso?" E reservou-a.
O terceiro homem era um negro. Os seus olhos faiscavam de ira e ressentimento. Não havia qualquer sinal de perdão ou mesmo aquela superioridade moral que o sofrimento ensina. Seu pensamento era muito prático:
- "É bem provável que eu precise desta lenha para me defender. Além disso, eu jamais daria a minha lenha para salvar aqueles que me oprimem". E guardou a sua lenha com cuidado.
O quarto homem era um pobre da montanha. Ele conhecia mais do que os outros os caminhos, os perigos e os segredos da neve. Ele pensou:
- "Esta nevasca pode durar vários dias. Vou guardar a minha lenha."
O quinto homem parecia alheio a tudo. Era um sonhador. Olhando fixamente para as brasas. Nem lhe passou pela cabeça oferecer da lenha que carregava. Ele estava preocupado demais com as suas próprias visões (ou alucinações?) para pensar em ser útil.
O último homem trazia, nos vincos da testa e nas palmas calosas das mãos, os sinais de uma vida de trabalho. Seu raciocínio era curto e rápido.
- "Esta lenha é minha. Custou o meu trabalho. Não darei a ninguém nem o menor dos meus gravetos".
Com estes pensamentos, os seis homens permaneceram imóveis. A última brasa da fogueira cobriu-se de cinzas e finalmente apagou-se. Ao alvorecer do dia, quando os homens do Socorro chegara à caverna, encontraram seis cadáveres congelados, cada qual segurando um feixe de lenha. Olhando para aquele triste quadro, o chefe da equipe de Socorro disse:
- "O frio que os matou não foi o de fora, mas o frio que veio de dentro".

21/05/2009

A Águia



Perguntou um homem à águia:
- Por que educas teus filhos lá em cima, em tão grandes alturas?
A águia respondeu:
- Depois de crescidos, teriam eles coragem de chegar tão perto do Sol, se eu os educasse cá em baixo, junto à terra?

Gotthold Ephraim Lessing


19/05/2009

O lírio


Nas verdes margens do rio Ticino um belo lírio mantinha-se reto e alvo em sua haste, mirando o reflexo de suas brancas pétalas na água. A água ansiava possuir o lírio.
A cada ondulação da superfície passava a imagem da linda flor branca. E o desejo da água voltava-se para as ondulações que ainda estavam por vir.
E assim todo o rio começou a estremecer e a correnteza tornou-se rápida e turbulenta. A água não conseguiu arrancar o lírio, que mantinha-se firme no alto de sua forte haste, e então atirou-se furiosamente contra a margem, que foi arrastada pela inundação.
E junto com a margem foi-se a linda e solitária flor.





16/05/2009

Oitava Noite

E QUANDO FOI NA OITAVA NOITE
Sherazade disse:

Contaram-me, ó Rei, que o rapaz encantado disse ao rei:
“Tendo ferido o negro, para cortar-lhe a cabeça, cortei-lhe, com efeito, a garganta, a pele e a carne e pensei tê-lo morto, porque ele principiou num estertor terrível e alto. E, a partir daquele momento, não sei mais o que se passou.
Mas, no dia seguinte, vi a filha do meu tio que tinha cortado os cabelos e vestido suas roupas de luto. Ela disse: “Não me censures pelo que vês, porque acabo de saber que minha mãe morreu, que meu pai foi morto na guerra e que um de meus irmãos morreu picado por um escorpião e que outro foi enterrado vivo na queda de um edifício.” A essas palavras eu não quis demonstrar coisa alguma e disse-lhe: “Faze o que acreditas necessário, porque não te proíbo.” E ela ficou fechada em seu luto, choros e acessos de sofrimento, que duraram um ano inteiro. Quando terminou o ano, ela me disse: “Quero construir para mim, em teu palácio, uma tumba em forma de zimbório, onde me isolarei na solidão e nas lágrimas, a qual chamarei de a Casa do Luto.” Respondi: “Faze o que julgas necessário.” E ela fez construir a casa, coberta por uma cúpula, contendo uma sepultura como uma escavação. Depois, transportou para ali o negro, que não morrera, mas ficara muito fraco e doente, e que não tinha mais nenhuma utilidade para a filha do meu tio. Mas aquilo não o impedia de beber todo o tempo vinho e buza. E desde o dia que fora ferido ele não podia mais falar, e continuava a viver, pois seu termo ainda não chegara. E ela, todos os dias, entrava no aposento dele, sob a cúpula, pela madrugada e à noite, e deixava-se tomar, a seu lado, de acessos de lágrimas e de loucura, dando-lhe bebidas e coisas fervidas. E não cessou de agir assim, de manhã e à noite, durante todo o segundo ano. Eu ia tendo paciência com ela durante todo esse tempo, mas um dia, entrando imprevistamente nos seus aposentos, encontrei-a chorando, ferindo o rosto, e lamentando-se:
“Se tornares a vir para perto da tua bem amada, então recolhe, por piedade, seus despojos mortais, em atenção à sua vida terrena, e dá-lhe o repouso do túmulo, onde tu queiras, mas perto de ti, se tornares a vir para tua bem-amada!
Tua voz! Que ela se lembre do meu nome de outrora, para me falar sobre o túmulo! Oh! Da minha sepultura não ouvirás senão o triste som do choque os meus ossos!”
Quando ela terminou seu lamento, eu lhe disse, a espada nua na mão: “Traidora, eis as palavras das pérfidas que renegam as ligações passadas e esmagam as amizades!” E levantando o braço, preparava-me para ferir, quando ela se levantou, subitamente e pronunciou palavras que não compreendi: “Que, pela virtude de minha feitiçaria, Alá te transforme metade pedra e metade homem!” Na mesma hora tomei a forma que vês. E não podia mais me mover, nem fazer gesto qualquer: dessa maneira, não sou nem morto nem vivo. Depois de me pôr neste estado, ela enfeitiçou as quatro ilhas do meu reino e transformou-as em montanhas com o lago no meio, e transformou meus súbditos em peixes. Mas isso não é tudo! Todos os dias ela me tortura, e me chicoteia com uma correia de couro e me dá cem chicotadas até fazer sangue! Depois me coloca, directamente sobre a pele, sob meus vestidos, uma veste de pele de camelo, cobrindo toda a minha parte superior!”
O jovem, depois dessas palavras, começou a chorar e recitou:
Na previsão da tua justiça e de teu julgamento, ó Senhor, espero com paciência, pois tal é tua vontade.
Sofro, porém, em minhas penas. E não tenho outro recurso além de ti, Alá, adorado pelo Profeta!
Então o rei voltou-se para o jovem e disse: “Tu juntaste uma pena a mais às minhas penas. Mas, dize-me onde está essa mulher?” Ele respondeu: “Na tumba com o negro, sob a cúpula. Vem aqui todos os dias e me aplica cem chicotadas, enquanto choro e grito e não posso fazer um movimento em minha defesa. Depois de ter me castigado, volta para junto do negro, levando-lhe de manhã e à noite vinhos e bebidas.”
Quando o rei ouviu aquelas palavras, disse: “Por Alá! Preciso que te preste um serviço memorável e um benefício que passará, depois de mim, ao domínio da história!” E nada mais disse a respeito, continuando a conversação até a aproximação da noite. Depois o rei se levantou e esperou que chegasse a hora dos feiticeiros. Então, despiu-se, cingiu a espada e se dirigiu para o lugar onde estava o negro. Viu, ali, as velas e os lampiões suspensos; viu, também, o incenso, os perfumes e todas as pomadas. E, subitamente, atirou-se sobre o negro, feriu-o e o trespassou, fazendo-o vomitar a alma. Depois, carregou-o nas costas e atirou-o ao fundo de um poço que havia no palácio. Voltou, vestiu-se com as roupas do negro e passeou um pouco sob a cúpula, brandindo na mão seu alfanje nu em todo seu comprimento. Depois do que, estendeu-se no mesmo lugar que o negro ocupava antes.
Ora, ao fim de uma hora veio a feiticeira, a depravada, para junto do jovem. Mal entrara, despiu o filho do seu tio, tomou de um chicote e bateu-lhe. Ele gritava: Ai! Ai! Chega! Tem piedade de mim!” Ela respondia: “E tu, tiveste piedade de mim? Poupaste meu amante? Não!” Então ela lhe vestiu a roupa de pele de camelo e colocou os outros trajes por cima. Isso feito, desceu para junto do negro, levando-lhe uma taça de vinho e a tigela das plantas cozidas. Entrou, choro e lamentou-se, dizendo: “Oh! Oh!” E disse: “Ó meu senhor, fala comigo! Ó meu senhor, conversa comigo!” Então, o novo negro, atravessando a língua na boca, pôs-se a imitar a maneira de falar dos negros e disse: “Ah! Ah! Não há força e poder senão pela vontade de Alá!” Quando ouviu aquelas palavras (depois de tanto tempo em que ele não mais falara), a mulher gritou de alegria e desmaiou; mas voltou a si e disse: “Meu senhor estará curado?” E o rei, disfarçando a voz, fazendo-a muito fraca, disse: “Libertina! Tu não mereces sequer que eu te dirija a palavra!” Ela disse: “Por que, então?” E ele respondeu: “Porque todos os dias não fazes senão castigar teu marido, e então ele grita e pede socorro e isso me tira o sono durante toda a noite e até de manhã. E teu marido não cessa de implorar e pedir graça, de tal forma que a voz dele me causa insónia. Sem tudo isso, há muito tempo teria recuperado as forças. E é justamente isso que me impede de te responder.” Ela falou: “Já que ordenas, o libertarei do estado em que ele se encontra!” E o rei disse: “Sim, liberta-o e devolve-me a tranquilidade!” Ela disse: “Ouço e obedeço!” Depois levantou-se e saiu da cúpula. Na entrada do palácio, apanhou uma tigela de cobre cheia de água e pronunciou sobre ela as palavras mágicas. A água começou a ferver, como ferve a água de uma marmita. E ela aspergiu o jovem dizendo: “Pela força das palavras pronunciadas, ordeno-te que saias dessa forma e que tomes tua forma primitiva.” E o jovem sacudiu-se e levantou-se, liberto. Então ela disse: “Vai-te e não voltes, senão te mato!” E atirou-lhe à face alguns insultos. Então ele se safou de suas mãos. E é tudo no que a ele se refere!
E ela voltou à cúpula e desceu ao interior e disse: “Meu senhor, levanta-te para que te veja!” E ele, muito fraco, disse: “Oh! Tu ainda nada fizeste! Não me devolveste senão uma parte da minha tranquilidade, mas não suprimiste a causa principal!” Ela disse: “Meu querido, mas qual é a causa principal?” Ele falou: “Os peixes do lago, que não são outra coisa senão os habitantes da antiga cidade e das quatro ilhas de outrora, não cessam toda a noite, à meia-noite, de levantar a cabeça para fora d’água e de fazer imprecações contra mim e ti. E isso me impede de recuperar minhas forças. Trata de libertá-los e então poderás buscar-me, pois certamente a saúde me terá voltado!”
Quando a desavergonhada ouviu aquelas palavras disse: “Meu senhor, coloco tua vontade sobre minha cabeça e nos meus olhos!” E tendo pronunciado o “em nome de Alá”, levantou-se, toda feliz, e se pôs a correr, chegando ao lago, apanhou um pouco d’água e...


Nesse momento, Sherazade, vendo surgir a manhã, parou discretamente sua narração.


Rajput Queen