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25/07/2010

A Profecia

O valoroso príncipe Oliêg se preparava para mais uma campanha, desta vez em represália contra a tribo hostil dos czares, que haviam assaltado suas terras. À testa de intrépida hoste de guerreiros, ele partiu, montado no seu garboso corcel de guerra, companheiro fiel de muitas refregas, do qual nunca se separava.
A caminho do campo de batalha, veio-lhe ao encontro, surgindo da floresta escura, um venerando mago vidente. O sábio eremita passara toda a vida em prece e meditação, e podia ver o passado e prever o futuro. Oliêg aproximou-se do ancião e, do alto da sua nobre montaria, dirigiu-lhe a palavra.
- Dize-me , ó mago, favorito dos deuses, o que me reserva a vida? Qual será o destino que espera por mim, que me aguarda na paz e na guerra? Revela-me toda a verdade, ancião. Não tenhas medo de mim. E em recompensa eu te darei qualquer um dos meus belos corcéis.
O velho mago então retrucou em voz serena e severa:
- Os magos não temem guerreiros nem reis, e dispensam os dons principescos. Sua língua é sábia, livre é o seu falar, que obedece à vontade dos deuses. O futuro se oculta nas sombras , porém o teu fado eu leio em tua fronte.
-Fala, pois, mago! – Oliêg retrucou. E o mago continuou:
- Marca, ó príncipe, o que aqui te direi: nas guerras, serás vitorioso. Tua fama e glória o mundo atroarão. Nem flecha, nem lança ou espada, nem punhal traiçoeiro jamais vararão a tua brilhante armadura. Um guardião invisível te protegerá, por teus longos anos de vida.
O corcel de Oliêg sacudiu impaciente a bela cabeça altiva. E o mago então voltou a falar:
- Lembra, príncipe, as minhas palavras: teu cavalo não teme perigo nem dor, sentindo a vontade do dono , ora para imóvel sob flechas hostis ora galopa veloz, destemido. Teu cavalo, Oliêg, te é fiel e leal. Mas tua morte advirá do teu belo corcel.
Uma sombra passou pelo rosto de Oliêg. Pensativo e taciturno, da sela ele desceu e acariciou a crina esvoaçante do seu brioso alazão.
- Adeus , meu amigo, meu servo fiel, devemos nos separar. Descansa agora, pois meu pé não mais pisará no teu estribo dourado. Adeus, não entristeças, não te esqueças de mim!
E Oliêg ordenou a dois jovens guereiros que levassem embora o vavalo.
- Levai meu corcel, meus jovens amigos. Agasalhai-o com a manta felpuda e soltai-o no meu campo relvado. Banhai-o, alimentai-o com os mais finos grãos, dai-lhe a beber água pura da fonte, para que ele tenha uma vida feliz, em liberdade e fartura.
E os querreiros levaram o alazão, e trouxeram a Oliêg outra montaria.
Passaram os anos. O grande Oliêg banqueteava-se com sua guerreiros, já grisalhos como ele. As canecas espumantes se erguiam em roda, e os velhos companheiros cantavam e bebiam, recordando os dias passados e as batalhas que juntos tinham travado.
De repente, o príncipe se lembrou do fogoso corcel do qual tivera de se separar havia tanto tempo, e falou:
- Dizei-me, amigos, o que foi feito do meu garboso ginete? O meu velho companheiro ainda galopa livre pelo campo? Ainda é ligeiro e fogoso como antes?
E o herói ouviu em resposta que o seu bravo e leal cavalo de batalha havia muito dormia o sono eterno ao pé da colina, junto ao rio. E o poderoso Oliêg deixou pender a cabeça, e lamentou:
- De que valeu a profecia do mago? Mago, és um velho mentiroso e louco! Eu devia ter desprezado o teu vão vaticínio, e o meu alazão me carregaria até o dia de hoje...
E Oliêg quis ver os restos do seu antigo companheiro, e, juntamente com seus guerreiros, foi até o lugar indicado. E lá ele viu, branquejando em meio ao capim balouçante, os nobres ossos do seu corcel.
Taciturno, o príncipe apoiou um pé sobre o alvo crânio do cavalo, e falou tristemente:
- Dorme em paz, meu solitário amigo! O teu velho dono te sobreviveu. Não serás tu que , nas minhas exéquias já não tão distantes, acompanharás para a sepultura este velho guerreiro, e regarás com teu sangue os meus restos mortais no sacrifício final!
– E acrescentou, amargurado:- Então era aqui que se ocultava o meu fim? Ameaçava-me pálida ossada?
Mas enquanto ele falava , pensativo e absorto, da fria caveira esgueirava-se , sinuosa, uma serpente tumular. Qual fita negra, ela se enroscou no pé de Oliêg... e um grito súbito escapou do príncipe ferido de morte...
As canecas espumantes se erguiam em roda no banquete fúnebre em memória do
príncipe Oliêg. Os guerreiros grisalhos bebiam e cantavam, recordando os dias passados e as batalhas que juntos tinham travado.
E assim se cumpriu a profecia do mago!

Conto Russo

O filho de um contador de histórias

Era uma vez um contador de histórias que pertencia a uma antiga linhagem de bardos, cuja tradição era preservar e relatar histórias de tempos remotos, na corte de um certo Rei.
Ele tinha orgulho de sua antiga linhagem, da extensão de seu repertório e do grau de sabedoria que havia em seus contos, usados como indicadores do presente, como registos do passado e como alusões tanto das coisas do mundo dos sentidos, quanto das do mundo que existe além das aparências.
Mas, na corte existiam também outros especialistas de todos os tipos, como é útil e natural. Havia chefes militares, cortesãos, conselheiros e embaixadores; haviam engenheiros especializados em construção e demolição, homens religiosos e de outros tipos de sabedoria: em resumo, havia pessoas de todos os tipos e condições e cada uma delas se julgava melhor do que todas as outras.
Um dia, quando houve uma longa disputa a respeito da precedência entre esses dignos personagens, a única conclusão a que puderam chegar foi que de todos eles, o contador de histórias era o menos importante, o menos útil e o menos habilitado em qualquer arte mensurável. Portanto, a assembleia decidiu que para começar o processo de redução do número de pessoas sem valor à sua volta, deveriam eliminar o contador de histórias. E cada um pensou também consigo mesmo:
"Assim que nos livrarmos dele, poderemos eliminar os outros um a um, provando que todos são supérfluos e então restará apenas eu. E serei o único conselheiro do Rei".
Foi com essa ideia em mente que uma selecta delegação de cortesãos foi ao contador de histórias e lhe disse:
— Fomos designados pelos outros nobres do reino, que estão à serviço de S. Majestade, para informa-lo que decidimos que de todos os membros da corte, você é o mais supérfluo. Você não vai à guerra, para assegurar a glória do reino ou para estender os domínios de nosso vitorioso monarca. Você não julga casos, para preservar a tranquilidade do Estado. Você não contribui para a serenidade da alma do povo, como fazem os chefes religiosos. Você não é bem apessoado como os elegantes da corte. Enfim, você é absolutamente nada.
— Veneráveis e respeitáveis pavões da sabedoria e pilares da fé! — bradou o contador de histórias. Longe de mim discordar do que tenham resolvido. Mas, desde que é meu encargo dizer a verdade em negócios da corte, por lealdade a Sua Majestade, tenho a seguinte objecção a fazer: há um conto antigo e profundamente sábio que prova inteiramente que, longe de ser desnecessário, o narrador de contos é absolutamente essencial ao bem estar e poder do império. Se me permitirem contá-lo, eu o farei com prazer.
A delegação de cortesãos não estava propensa a deixar o homem fazer o que dizia, mas naquele momento, o Rei chamou todos de volta à sala do trono e quis saber o que estava acontecendo. Quando ele ouviu o que nós acabamos de ouvir, ordenou ao contador de histórias que narrasse o seu conto, sem omitir nenhum detalhe. O contador de histórias começou:
— Pavão da Terra! Fonte da Sabedoria! Grande Majestade e Sombra de Alá sobre a Terra! Saiba que uma vez, em tempos os mais remotos, havia um rei, um soberano justo e poderoso como Vossa Majestade, estimado em muitas terras, amado pelo seu povo e temido por seus inimigos.
Esse rei tinha três lindas filhas, belas como a lua. Um dia, as três saíram para um passeio nos bosques perto do palácio e desapareceram completamente.
Extensas buscas foram empreendidas, mas não se achou nenhum vestígio das três. Muitos dias se passaram e então o rei mandou seus arautos anunciarem:
— Em nome do Rei! Que ninguém alegue não ter ouvido! Qualquer um que puder encontrar as filhas de Sua Majestade e trazê-las de volta sãs e salvas à casa de nosso benigno e sagaz monarca, receberá como recompensa a mão em casamento daquela que dentre as três escolher.
No entanto, por semanas e meses nada se soube a respeito das três moças. Era como se a terra se houvesse aberto e as tivesse engolido.
Então, quando parecia haver terminado todas as esperanças, o rei convocou os seus cortesãos para uma reunião, inclusive os chefes espirituais, militares e civis, os juízes de todos os juízes, todos os nobres e cavaleiros do Estado. E assim dirigiu-se a todos:
— Reverendos doutores da lei e da fé! Leões e tigres dos exércitos conquistadores! Incansáveis punidores de infiéis e reis das artes do comércio e da indústria! Ouçam e tomem ciência de minha ordem! Vocês devem escolher representantes, nem número de dois ou três, cuja missão será partir em busca das princesas perdidas e sem elas não retornar. Aqueles que forem escolhidos se obtiverem sucesso, herdarão o reino. E, se falharem, não poderão por os pés em nossos domínios novamente, sob pena de morte.
Imediatamente a corte se dividiu em grupos para eleger representantes, que por sua vez nomearam e votaram seus próprios delegados, até que chegaram à escolha de dois homens: o Emir Al-Jaish, o sanguinário comandante dos exércitos sempre vitoriosos e o Primeiro Ministro, conhecido como o Wazir Al-Wuzura, o homem mais sábio do país.
O rei lhes deu as instruções finais e eles então tocaram a cabeça, o coração e os olhos em reverência, murmurando:
— "Ouvir é obedecer".
Assim, enquanto as trombetas soavam, anunciando sua partida, eles montaram seus cavalos e saíram pelo portão do palácio.
Eles viajaram a pé e a cavalo e enfrentaram muitas dificuldades: em resumo, fizeram tudo quanto sua valentia e sagacidade combinadas poderiam arquitectar. Mas, antes que pudessem encontrar qualquer traço das princesas desaparecidas, foram capturados por bandidos e vendidos como escravos ao dono de uma hospedaria, que os fez trabalhar como bestas de carga, cuidando dos criados e animais dos viajantes que por ali passavam.
Após longo período de tempo, sem que nenhuma notícia da missão chegasse ao palácio, e estando o rei e sua corte mergulhados na mais profunda tristeza, um jovem contador de histórias, filho e neto de contadores de histórias, por gerações e gerações, certo dia chegou ao castelo. Ele pediu ao rei que lhe permitisse partir em busca das donzelas.
A princípio o rei recusou-se a deixa-lo ir, pensando o que um mero contador de histórias poderia fazer, quando dois dos melhores homens do reino haviam evidentemente fracassado. Mas, finalmente, compreendendo que as coisas não poderiam ficar piores, ele lhe deu permissão para partir.
O contador de histórias pulou sobre um cavalo e partiu rápido como uma flecha em direção ao sol nascente. Após muitas aventuras, ele chegou a uma hospedaria, onde encontrou nada menos que as tristes figuras do Emir e do Wazir, trabalhando miseravelmente como criados vestidos em farrapos e com os pés acorrentados. Quando os dois o reconheceram, suplicaram-lhe que se condoesse de sua sorte e o rapaz teve condições de pagar ao estalajadeiro o valor do resgate e assegurar-lhes a liberdade, comprando-lhes também roupas decentes.
A princípio os dois ficaram desconcertados ao saber que aquele homem, para eles de classe humilde, tinha obtido permissão do rei para se empenhar na busca. E se sentiram mortificados ao saber que tal personagem os havia libertado do cativeiro, pois sua arrogância rapidamente estava voltando. Finalmente, no entanto, tiveram que concordar que ele continuasse a busca em sua companhia.
Assim, os três seguiram seu caminho, sem saber seu destino, até que ao cair da noite, chegaram a uma pequena cabana onde uma velha estava sentada à porta, consertando uma cesta de junco. O contador de histórias parou e todos se sentaram para conversar. Após compartilharem do pobre jantar da mulher, o contador narrou um conto de épocas antigas para entretê-los e a velha lhes perguntou o que faziam por ali.
— Nós somos membros da Corte de nosso Rei e estamos em busca das três filhas de S. M. que desapareceram há vários meses, disseram à velha. Mas, até agora não as vimos, nem ouvimos uma palavra a respeito delas, apesar de termos passado por muitas dificuldades.
— Ah! — disse a mulher. Pode ser que eu possa a ajuda-los nessa busca, pois pelo conto que me narraram, vocês demonstraram ser sábios e creio que possam ter uma chance, embora com pequena possibilidade de sucesso.
— As três princesas foram capturadas por três génios maléficos e carregadas para o fundo de um lago perto daqui. Eles têm um palácio mágico no fundo da água, onde é praticamente impossível aos seres humanos penetrar.
Após passarem uma noite de sono agitado ao lado da cabana, os três se dirigiram ao lago, que era cercado de árvores cobertas de cipós retorcidos e uma sensação de maldade pairava sobre o lugar como uma névoa.
— Eu descerei primeiro, disse o chefe dos guerreiros, pois sou o mais forte e posso enfrentar qualquer tipo de inimigo. Que podem um ministro e um poeta fazer numa situação como esta?
Ele torceu os bigodes, num gesto de vaidade e tirou a maior parte de suas roupas. Os outros fizeram cordas com os cipós e o soldado, segurando a espada desembainhada com a mão direita, começou a descer dentro d’água.
— Se eu sacudir a corda, puxem-me para cima, disse ele.
Quando começou a descer dentro d’água, notou que esta ficava cada vez mais fria e, de repente, ouviu um som como se fossem mil estrondos de trovões vindo das profundezas escuras. O medo apoderou-se de seu coração e o guerreiro, antes destemido, puxou a corda apressadamente para ser retirado d’água.
A seguir, o ministro insistiu em descer, pois como muitos administradores, cobiçava o poder que seria seu, caso se casasse com uma das três filhas do rei.
Mas, a mesma coisa aconteceu e ele teve que ser puxado para terra firme novamente.
Então, o contador de histórias desceu. A água estava fria, mas ele se fortificou contra isto. O barulho era tão alto como o de mil tempestades, mas ele conseguiu fechar os ouvidos a ele. Finalmente, quando pensava que teria de desistir, compreendeu que tinha superado os encantamentos que protegiam os gênios e se encontrou numa imensa caverna sob a água.
Ele abriu uma porta, entrou em uma sala e a primeira coisa que viu foi uma das princesas, sentada no chão. Perto dela, adormecido num canto, estava um génio de aparência terrível, em forma de uma serpente com dezoito cabeças.
O contador de histórias agarrou uma espada cintilante que se achava dependurada na parede e de um golpe só cortou fora as cabeças do génio do mal. A princesa beijou-lhe a mão e colocou em volta de seu pescoço uma corrente com emblema real.
O jovem lhe perguntou: — Onde estão suas irmãs?
Ela abriu outra porta e dentro do outro aposento, jazia a segunda princesa, vigiada por um génio adormecido que tinha a forma de um crânio gigantesco com pernas curtas. De uma prateleira na parede, o contador de histórias puxou uma adaga cravejada de jóias e, de um só golpe, separou a cabeça horrorosa das pernas e o génio expirou com um gemido.
Os três, então, foram até o aposento seguinte, onde acharam a irmã mais nova guardada por um génio com cabeça de abutre e o corpo de lagarto. Imediatamente, notando que o génio maléfico estava adormecido, o rapaz pegou um garrote que estava pendurado na parede e estrangulou o génio até a morte. As duas princesas lhe colocaram uma coroa na cabeça e uma espada real nas mãos.
Então, eles voltaram correndo ao lugar onde a corda de cipó pendia dentro da caverna e o contador de histórias fez a primeira princesa segurar a corda, enquanto ele a puxava, dando o sinal para que fosse suspensa. A primeira princesa chegou em terra sã e salva.
Logo, a segunda princesa foi içada e a corda desceu novamente para a terceira princesa. O contador de histórias lhe disse:
— Suba. — Mas a princesa respondeu:
— Você deve ir primeiro, pois temo uma traição. Você pode ser deixado aqui, se nós três chegarmos lá em cima a salvo. Assim, seus companheiros poderiam reivindicar a recompensa, abandonando-o aqui.
Mas o jovem se recusou a subir primeiro e a princesa fez o mesmo. Depois de algum tempo, os dois homens decidiram conduzir as duas princesas à corte e reclamar para si o prémio que, por direito, pertencia ao companheiro deixado para trás. Os vilões ameaçaram as jovens de morte, caso elas não confirmassem a história de que eram eles os verdadeiros heróis.
E foi assim que os quatro voltaram ao palácio e foram recebidos como conquistadores. Eles disseram ao rei que a princesa mais nova tinha sido morta na caverna e o rei ordenou que se guardasse luto por quarenta dias, após o que, o Emir e o Ministro se casariam com as duas moças que tinham supostamente salvado.
Nesse meio tempo, no fundo da caverna dos génios, o rapaz e a princesa mais nova compreenderam que tinham sido abandonados, quando a corda não desceu da última vez. Eles deram uma busca em todos os aposentos e em um deles encontraram uma caixa cravejada de jóias. Quando a princesa levantou a tampa, uma voz disse:
— Qual é a sua ordem? Sou o espírito desta caixa. Peça e seu desejo será atendido.
O contador de histórias imediatamente pediu para que fossem transportados à superfície do lago junto com a caixa e dali para a terra, o que foi feito num piscar de olhos. Então, ele pediu um grande navio carregado de tesouros e que a espada, a coroa e o emblema real fossem estampados nas velas. Quando ele e a princesa se achavam a bordo, ordenou que o navio fosse instantaneamente levado pelos ares, até o porto que havia ao lado do palácio do pai da princesa.
Quando viu o navio, o rei pensou: — "Esta é a embarcação de um poderoso monarca e eu mesmo irei até lá lhe prestar homenagem, pois ele tem três símbolos de realeza em suas velas e, consequentemente, deve ser três vezes mais importante do que eu".
O rei foi até o navio e se dirigiu ao contador de histórias, com grande humildade, sem reconhece-lo por causa das jóias e roupas que ele vestia, e que tinham sido obtidas graças à caixa mágica.
Porém, a princesa, incapaz de conter sua alegria, revelou-se de repente e contou ao pai toda a história. Então, os dois malvados, o ministro e o soldado, foram banidos do reino. O contador de histórias se casou com princesa e, quando o tempo chegou, ele e a princesa receberam o reino como herança.
— Isso demonstra, senhores, quão importante pode ser um contador de histórias. Concluiu o contador de histórias.




24/07/2010

As sementes de feijão


Era uma vez uma pobre viúva que tinha um filho chamado Onofre, que, além de não gostar de trabalho, parecia ser medroso e pouco inteligente. A única coisa valiosa que a viúva possuía era uma vaca muito magra, cujo leite mandava vender no mercado.
Um dia, a vaca não deu leite e a pobre mulher não teve o que comer. Por isso, aconselhada pelo filho, resolveu vender a vaca. Onofre foi encarregado da venda do animal. No caminho, encontrou um velho que lhe perguntou o que estava fazendo. Respondeu Onofre que ia ao mercado vender a vaca. O velho, que era muito esperto, levava nas mãos umas sementes de feijão de cores variadas. O rapaz ficou encantado com a beleza das sementes.
O velho percebeu a admiração de Onofre e propôs a troca das sementes pela vaca. O bobo do rapaz aceitou a proposta, certo de que fazia um óptimo negócio. Entregou a vaca ao velho e voltou para casa com as sementes de feijão.
Quando disse à mãe o que fizera com a vaca e lhe mostrou as sementes, a pobre mulher começou a chorar e, perdendo a paciência, exclamou:
— Olha, imbecil, para que servem tuas sementes! E atirou-as, pela janela, no quintal. Depois, continuou a chorar desanimada da vida.
Onofre fez tudo para consolá-la, mas foi em vão. Naquela noite foram dormir sem cear. Pela manhã, ao acordar, o rapaz notou que alguma coisa impedia a entrada da luz do sol pela janela. Correu ao quintal e verificou, com espanto, que algumas sementes de feijão tinham germinado, deitando raízes enormes e lançando ramos tão altos que se perdiam nas nuvens.
O rapaz, que tinha espírito de aventura, resolveu subir pela planta até alcançar os últimos ramos. Iniciou a escalada. Subiu, subiu e, após muitas horas de esforços penosos, conseguiu atingir o alto da planta. Olhou de um lado para outro e verificou que estava num país desconhecido, onde não se via nenhum ser vivo.
Resolveu caminhar através daquela terra estranha para ver se encontrava uma casa que lhe desse água e comida, pois estava exausto e faminto. Andou o dia todo e quando começava a anoitecer, avistou uma casa de forma esquisita. À porta, encontrava-se uma mulher de fisionomia bondosa.
O rapaz aproximou-se dela e implorou um pedaço de pão e abrigo por uma noite. A mulher disse que estava admirada de vê-lo ali, pois ninguém se atrevia a chegai à sua porta. Todo mundo sabia que morava naquela casa um gigante que se alimentava de carne humana, e, para obtê-la, caminhava cinquenta léguas por dia, razão pela qual se encontrava ausente.
Onofre ficou horrorizado com as informações da boi mulher. Mas como estava muito cansado e confiante de que não seria descoberto pelo gigante, tornou a rogar à mulher que o deixasse dormir apenas uma noite na casa, escondendo-o, para isso, em qualquer lugar.
A princípio, a mulher recusou terminantemente, mas acabou por ficar com pena do rapaz, atendendo ao seu pedido. Mandou entrar Onofre e ofereceu-lhe uma ceia farta e apetitosa. O rapaz comeu e bebeu à vontade e já se tinha esquecido da existência do gigante, quando ouviu pancadas na porta tão violentas que fizeram estremecer toda a casa.
— Meu Deus! chegou o gigante! exclamou a mulher tremendo como varas verdes. Ele nos vai devorar. Que vamos fazer?
— Esconda-me no fogão! gritou Onofre.
E metendo-se no forno que, por acaso, estava apagado, pôde ouvir dali os berros terríveis e os passos pesados do gigante, que entrava em casa.
— Mulher! gritou como um trovão. Mulher! que cheiro é este? E cheiro de carne humana!
— Não digas tolices! respondeu a mulher, enchendo-se de coragem. Por aqui não passou ninguém. Deve ser o sangue dos dois bezerros que trouxeste.
Finalmente, o gigante sentou-se à mesa e, por uma fresta do fogão, Onofre pôde ver, cheio de espanto, a quantidade enorme de carne que o gigante devorava. Quando terminou a refeição, o monstro inclinou-se para trás e berrou para a mulher:
— Vá buscar a galinha!
A mulher obedeceu e pôs em cima da mesa uma galinha viva, muito gorda e bonita.
— Ponha! ordenou o gigante.
E a galinha pôs imediatamente um ovo de ouro maciço.
— Ponha outro!
E cada vez que o gigante pronunciava estas palavras, a galinha punha um ovo maior do que o anterior.
Depois de se divertir com a galinha, mandou a mulher para a cama e não tardou a dormir, roncando como uma dúzia de canhões.
Quando percebeu que o gigante estava mergulhado em sono profundo, Onofre saiu do seu esconderijo, agarrou a galinha e fugiu com ela. Saiu da casa sem dificuldade e, logo que se apanhou na estrada, correu com todas as suas forças e só parou quando alcançou os ramos mais altos do pé de feijão. Desceu rapidamente e regressou à sua casa. Foi recebido com grande alegria por sua mãe que o julgava vítima de alguma desgraça.
— Qual nada, minha mãe! Veja só a maravilha que trouxe para nós!
E mostrando a galinha, ordenou:
— Ponha!
E a galinha pôs uma porção de ovos, cada qual mais belo e valioso.
Com o produto da venda desses ovos, Onofre e sua mãe viveram com todo o conforto. Construíram uma linda casa, junto do pé de feijão. Durante alguns meses o rapaz sentiu-se muito feliz, mas, depois, não pôde resistir ao desejo de voltar à casa do gigante para se apoderar de suas riquezas.
Um dia, declarou à sua mãe que ia realizar outra viagem através do pé de feijão. Sua mãe rogou, chorou, dizendo que certamente a mulher do gigante o reconheceria e ele seria cruelmente assassinado. O rapaz fingiu que atendia aos rogos de sua mãe e começou a se preparar para a nova aventura.
Arranjou uma roupa de mendigo, pôs uma barba postiça e pintou o rosto com uma cor escura. Assim disfarçado, saiu sorrateiramente de casa e subiu pelo pé de feijão. Ao chegar ao alto da planta estava muito fatigado, mas, assim mesmo, continuou a viagem na direcção da casa do gigante. A mulher estava à porta e, como da primeira vez, Onofre pediu-lhe comida e pousada por uma noite.
A mulher então lhe disse — coisa que ele já sabia — que seu marido era um gigante poderoso e cruel e que, desde que fora roubado por um rapazinho que ela acolhera, se tornara ainda pior e mais sanguinário. O rapaz fez tudo para convencê-la e, afinal, depois de muito custo, conseguiu que ela o abrigasse.
Onofre foi levado para a cozinha onde comeu e bebeu a fartar. Depois, escondeu-se num quarto de objectos velhos. Daí a pouco, ouviram-se, à porta, pancadas violentas como trovões. Era o gigante que chegava. Entrou como um furacão, sentou-se junto do fogo e gritou:
— O mulher, que diabo é isso ? Sinto cheiro de carne humana!
A mulher explicou que, com certeza, eram os corvos, que tinham deixado cair pedaços de carniça sobre o telhado. O gigante acalmou-se e pediu, aos berros, que trouxesse logo a ceia porque estava com muita fome. Depois que acabou de comer, gritou para a esposa:
— Traga-me o saco de dinheiro.
A mulher apareceu logo, vergada sob o peso do saco. Estava cheio de moedas de ouro. O gigante esvaziou o saco sobre a mesa e começou a contar as moedas com grande satisfação. Era uma quantidade enorme de dinheiro.
Contou e recontou as moedas. Depois, mandou a mulher para a cama e debruçou-se sobre a mesa. Daí a pouco estava roncando. Só teve tempo de pôr o dinheiro no saco.
Do seu esconderijo Onofre viu tudo. E não pôde resistir ao desejo de possuir as moedas do gigante. Pouparia, assim, o trabalho de vender todos os dias os ovos de ouro da galinha. Quando percebeu que o gigante estava dormindo profundamente, saiu do seu esconderijo e aproximou-se da mesa. Mas, assim que agarrou, com as duas mãos, o saco de dinheiro, o cachorrinho do gigante, que estava a seus pés, acordou e pôs-se a latir. Onofre ficou paralisado de terror. Mas, felizmente, o gigante continuou roncando. O rapaz atirou então ao cão um pedaço de carne e este parou de latir.
Onofre correu sem parar até o pé de feijão. Desceu, então, rapidamente e encontrou, lá em baixo, sua mãe. Estava aflita com a sua ausência e chorou de alegria quando o avistou são e salvo.
Durante três anos, Onofre não voltou a subir pelo pé de feijão. Não queria desgostar sua mãe, embora não pudesse vencer o seu ardente desejo de renovar a aventura. Um dia, não pôde mais resistir e começou a fazer os preparativos para voltar à casa do gigante. Arranjou novas roupas e novos disfarces e, numa bela manhã de sol, tornou a subir pelo pé de feijão.
Chegou à mansão do gigante ao anoitecer e, como de costume, encontrou a mulher à porta. Pediu pousada e ouviu novamente a informação de que ali residia um gigante sanguinário e cruel. Mas o rapaz, que estava muito bem disfarçado, tanto pediu e rogou que a pobre mulher acabou permitindo que ele entrasse. Deu-lhe de comer e beber e escondeu-o dentro da caldeira.
Quando voltou à casa, o gigante gritou, como das outras vezes: — Sinto cheiro de carne humana! E sem se importar com as explicações da mulher começou a correr a casa, para ver se descobria alguma coisa. Quando o gigante se aproximou da caldeira, Onofre sentiu-se perdido. Mas, felizmente, o ogro afastou-se sem se lembrar de abrir a caldeira. Depois, pôs-se a devorar a sua enorme ceia. Quando acabou, berrou para a mulher que trouxesse a sua harpa. Quando a recebeu colocou-a sobre a mesa e ordenou:
— Toca! e a harpa tocou sozinha a mais linda música que se possa imaginar. Embalado pelos sons harmoniosos, o gigante não tardou em debruçar-se sobre a mesa, imerso em sono profundo.
Quando percebeu que o gigante estava roncando, Onofre saiu da caldeira, apoderou-se da harpa e tratou de fugir. Mas a harpa era encantada e assim que se sentiu tocada por mãos estranhas, começou a gritar, como se fosse viva:
— Socorro! Socorro!
O gigante despertou e, levantando-se da cadeira, viu Onofre fugindo com toda a rapidez que as pernas lhe permitiam.
— Ah, patife! Roubaste-me a galinha e o saco de dinheiro e queres me roubar também a harpa! Agora mesmo vou trincar-te em meus dentes!
Mas o gigante estava ainda meio bêbado de modo que, por mais que corresse, não pôde agarrar o rapaz antes que ele alcançasse o pé de feijão. Onofre desceu pela planta com a velocidade de um raio, sempre perseguido pelo gigante. Quando chegou ao solo, gritou logo para sua mãe:
— Um machado, depressa!
Logo que sua mãe lhe trouxe o machado, o rapaz começou a cortar, com a maior rapidez possível, o tronco do feijoeiro. Reunindo todas as suas forças conseguiu cortar a planta que tombou com grande estrondo. Caindo de grande altura, o gigante espatifou-se na terra, abrindo com seu corpo um buraco imenso.
Assim, Onofre viu-se livre do gigante e do pé de feijão que secou. Com a galinha, o dinheiro e a harpa, tornou-se rico e poderoso. Construiu um lindo castelo e casou-se com a filha do rei, vivendo feliz o resto dos seus dias em companhia de sua boa mãe.


23/07/2010

História sobre o Lago Oeste

O Lago Oeste localiza-se em Hangzhou, no Leste da China. Trata-se de uma área famosa por suas belas paisagens.

Na qualidade de pérola da capital da província de Zhejiang, o lago Oeste tem as montanhas em três direções. Nas águas ondulantes, estendem-se dois diques batizados com os nomes de dois grandes poetas da antiguidade chinesa: Su Dongpo e Bai Juyi. Muitos poetas descreveram a beleza do Lago em seus versos.
O lago Oeste também é envolto em numerosas lendas ou histórias. A lenda da Serpente Branca é uma das mais famosas.
Consta que os espíritos de duas serpentes resolveram transformar-se em jovens donzelas Bai Suzhen e Xiao Qing e viajarem ao lago Oeste de Huangzhou. Na ponte quebrada, Bai Suzhen descobriu um jovem intelectual - Xu Xian – e tornou-se sua namorada. Para ajudar Bai, Xiao Qing fez um conjuro às escondidas e provocou uma chuva torrencial.
Xu Xian ia tomar barco e encontrou Bai Suzhen e Xiao Qing todo molhadas pela chuva e emprestou-lhe a guarda-chuva. Suzhen e Xu Xian sentiram uma forte atração um pelo outro e sob a ajuda de Xiao Qing, se casaram logo depois.
O prior do Templo Jinshan, Fa Hai, considerou Suzhen um espírito vicioso e ensinou Xu Xian um método para descobrir a verdade. Este ficou meio convencido e meio reticente. No dia da Festa do Barco-Dragão, Xu Xian fez Suzhen tomar uma taça de vinho e esta se transformou novamente numa serpente. Chocado, Xu Xian morreu de susto. Para salvar o marido, Suzhen foi à montanha Kunlun e roubou um elixir mágico, depois de enfrentar o guarda do elixir. Xu Xian voltou à consciência.
Fa Hai continuou induzindo Xu Xian a abandonar Suzhen e obrigou-o a tornar-se um monge no Templo Jinshan. Ao perceber o desaparecimento do marido, Suzhen e Xiao Qing foram ao Templo e pediram a Fa Hai que libertasse Xu Xian. O prior recusou o pedido. Enfurecidas, Suzhen e Xiao Qing trouxeram magicamente os soldados das profundezas e fizeram com que as chuvas torrenciais inundassem a região, bloqueando o Templo Jinshan. Fa Hai e Suzhen lançaram-se numa luta feroz. Mas, Suzhen, grávida, foi derrotada e retirou-se para a Ponte Quebrada, onde deu a luz um bebê. Xu Xian se arrependeu em ter abandonado Suzhen e saiu do Templo em busca da esposa. Ao encontrar Suzhen na Ponte Quebrada, Xu Xian pediu-lhe perdão. Su Zhen ficou tão comovida que dissuadiu Xiao Qing de matar Xu Xian.
Fa Hai chegou perseguindo Xu Xian e reprimiu Suzhen debaixo da Torre Leifeng e ordenou que Suzhen voltasse ao mundo humano apenas quando o lago Oeste secasse e a Torre Leifeng caísse.
Muitos anos depois, Xiao Qing virou uma imortal através da cultivação mental, voltou ao lago Oeste, derrotou Fa Hai, absorveu todas as águas do lago, derrubou a Torre Leifeng e salvou finalmente Suzhen.


O cavalo mágico



Mariana era uma moça bonita e inteligente. Morava num lindo palacete com seu pai, que era um rico negociante. No dia do seu aniversário, houve uma bela festa, em sua casa, à qual compareceram numerosos convidados.
Nessa festa, apareceu um rapaz simpático e muito bem vestido, que se apaixonou por Mariana. Pediu a moça em casamento e foi aceito, pois nada havia contra ele. O casamento realizou-se, pouco depois, com grande pompa.
Depois da cerimonia, quando Mariana se preparava para acompanhar o marido, apareceu-lhe Nossa Senhora, sua madrinha, que lhe disse o seguinte:
— Minha filha, fique sabendo que você se casou com o Diabo, metido na figura desse moço bonito. Depois da festa, quando ele quiser levá-la para casa, deverá você dizer a seu pai que prefere o cavalo mais magro e mais feio que houver na estrebaria; e, quando chegar ao lugar em que a estrada se encontra com outra, formando uma cruz, deixe seu marido seguir pela esquerda; você tomará a direita e mostrará ao Diabo o rosário, para que ele estoure e volte para o inferno.
Pouco antes da meia-noite, o marido resolveu partir com a moça, mandando selar os cavalos. Veio para Mariana um lindo cavalo branco, muito gordo. Mas a moça recusou-o, dizendo que preferia o cavalo mais feio e magro que estivesse na estrebaria. Seu pai estranhou o pedido, mas atendeu ao desejo da filha.
Os noivos partiram. Quando chegaram ao lugar em que a estrada formava uma cruz com outra, o Diabo quis que a moça tomasse a esquerda e passasse adiante. Então, Mariana disse:
— Não, vá na frente você, que sabe o caminho de sua casa. Eu nunca fui lá e jamais irei. Dizendo isso, Mariana tomou logo a direita e mostrou o rosário ao marido.
Ouviu-se, então, um grande estouro. A terra abriu-se, deixando sair um forte cheiro de enxofre. E o Diabo sumiu nas profundezas do inferno.
Mariana disparou o cavalo e, quando estava bem longe, entrou na floresta e vestiu uma roupa de homem, de cor verde. Continuou a viagem e, chegando à capital do reino, foi servir no exército. Pouco depois, foi promovida ao posto de sargento e, devido à cor de sua roupa, ficou sendo conhecida por Sargento Verde.
O rei simpatizou com o garboso sargento e mandou-o servir na guarda do palácio. Quase todas as tardes, quando ia passear no jardim, o rei levava consigo o Sargento Verde e acabou tomando-lhe grande amizade.
A rainha, quando viu o Sargento Verde, ficou logo apaixonada por ele. Tentou, por diversas vezes, seduzi-lo, dizendo que mataria o rei, se ele prometesse casar-se com ela. Mas o Sargento Verde respondia sempre:
— Deixe-me em paz. Nunca trairei o meu soberano.
Desapontada com a recusa do Sargento, a rainha resolveu vingar-se. Procurou o marido e disse-lhe:
— Saiba Vossa Majestade que o Sargento Verde declarou que é capaz de subir e descer as escadas do palácio, montado no seu cavalo em disparada, dançando e atirando ao ar três ovos, que tornarão a cair dentro de um copo, sem se quebrarem.
O rei, admirado, mandou chamar o Sargento Verde e perguntou-lhe se era verdade.
— Eu não disse tal coisa, real senhor, respondeu o Sargento. Mas como foi a rainha, minha senhora, que o afirmou, vou tentar fazê-lo.
O Sargento Verde saiu dali muito triste. Sentou-se à porta de sua casa. Com grande espanto, viu seu cavalo aproximar-se e dizer-lhe:
— Não tenha receio, meu senhor. No dia marcado, faça o que prometeu, e tudo sairá bem.
Assim foi. O Sargento Verde fez tudo o que a rainha tinha inventado. O povo, deu-lhe muitos vivas e o rei apertou-lhe a mão, admirado de sua habilidade.
A rainha não desistiu de se vingar. Alguns dias depois, procurou o rei e disse-lhe:
— Saiba Vossa Majestade que o Sargento Verde declarou que é capaz de plantar, na hora do almoço, uma laranjeira do tamanho de um palmo, e que, à hora do jantar, já estará carregada de laranjas.
O rei chamou o Sargento e ordenou-lhe cumprir sua palavra. Com o auxílio do seu cavalo mágico, ele conseguiu fazer tudo, como da primeira vez, sendo muito aplaudido pelo povo.
A rainha ficou furiosa, mas não desanimou. No fim de três dias, procurou o rei e pregou nova mentira:
— O Sargento Verde declarou que é capaz de ir buscar a irmã de Vossa Majestade, que está encantada no fundo do mar.
O rei ficou muito satisfeito e deu ordem ao Sargento para que cumprisse a promessa. Mariana ficou aflita. Achava que, desta vez, nada poderia fazer e seria enforcada. Mas o cavalo mágico tranquilizou-a:
— Não tenha receio. Arranje um garrafão de azeite, um punhado de cinza e uma carta de alfinetes. Monte em mim e, quando chegar à praia, corte as ondas em cruz com a sua espada. As águas abrir-se-ão. Entre pelo mar adentro até chegar à caverna onde se acha a princesa encantada. Rapte-a, ponha-a na garupa e corra, para trás, a todo o galope. O dragão que guarda a princesa sairá em nossa perseguição. Assim que ele estiver perto, derrame, primeiro, o azeite, depois a cinza e, por último, a carta de alfinetes.
Mariana fez tudo como o cavalo havia ensinado. Raptou a princesa e voltou na disparada. O dragão perseguiu-a. Quando estava bem perto, ela derramou o garrafão de azeite. Formou-se uma grande lagoa, onde o dragão quase se afogou. O monstro conseguiu sair da lagoa e continuou a perseguir os fugitivos.
Quando estava quase a alcançá-los, Mariana atirou um punhado de cinzas. Formou-se um espesso nevoeiro. O dragão custou a atravessá-lo, mas não desanimou de perseguir os fugitivos. Continuou a correr em seu encalço. Quando estava quase agarrando-os, Mariana jogou para trás a carta de alfinetes. Formou-se, então, um bosque de espinhos no qual o dragão se debateu e acabou morrendo.
Quando chegaram ao palácio, foram recebidos com grande alegria. Mas o rei não ficou de todo satisfeito, porque ;i princesa, salva do monstro, nada dizia. Estava muda. Mariana consultou o cavalo e este lhe disse:
— Apanhe as minhas rédeas e bata com as mesmas três vezes nas costas da princesa, e ela falará.
O Sargento seguiu o conselho do cavalo. Então, a princesa desencantou-se e voltou a falar. Suas primeiras palavras foram estas:
— Se o Sargento Verde fosse homem, o rei, meu irmão, teria sido enganado pela rainha.
Diante disso, Mariana despiu a farda e voltou a usai trajes de moça. O cavalo desencantou-se e virou um príncipe muito bonito que se casou com a princesa. E o rei, indignado com o procedimento da esposa, divorciou-se dela e condenou-a à prisão perpétua. Mais tarde, casou-se com Mariana que, assim, se tornou rainha.


A navalha



Era uma vez uma navalha de excelente qualidade, que morava numa barbearia. Um dia em que a loja estava vazia ela resolveu dar uma voltinha. Soltou-se do cabo e saiu para apreciar o lindo dia de primavera.
Quando a navalha viu o reflexo do Sol em si mesma, ficou surpresa e encantada. A lâmina de aço lançava uma luz tão brilhante que, subitamente, com excessivo orgulho, a navalha disse a si mesma:
- E eu vou voltar para aquela loja de onde acabei de fugir? É claro que não! Os deuses não podem querer que uma beleza tal como a minha seja desonrada desta maneira. Seria loucura ficar aqui cortando as barbas ensaboadas daqueles camponeses, repetindo sem cessar a mesma tarefa mecânica! Será que minha beleza foi realmente feita para um trabalho desses? Certamente não! Vou esconder-me num local secreto e passar o resto da vida em paz.
E em seguida foi procura um esconderijo onde ninguém a visse.
Passaram-se meses. Um dia a navalha teve vontade de respirar ar fresco. Saiu cautelosamente de seu refúgio e olhou para si mesma.
Ai, que acontecera? A lâmina estava horrorosa, parecendo uma serra enferrujada, e não refletia mais a luz do Sol.
A navalha ficou muito arrependida pelo que havia feito, e lamentou amargamente a irreparável perda, dizendo:
- Oh, como teria sido melhor se eu tivesse conservado em forma a minha linda lâmina, cortando barbas ensaboadas! Minha superfície teria permanecido brilhante e minha borda afiada! Agora aqui estou eu, toda corroída e coberta de uma horrível ferrugem! E não há nada a fazer!

Moral da Estória:
O triste fim da navalha é o mesmo que sucede às pessoas inteligentes que preferem ser preguiçosas a usar seus talentos. Essas pessoas, assim como a navalha, perdem o brilho e a parta afiada de seu intelecto, sendo logo corroídas pela ferrugem da ignorância.



22/07/2010

Lenda do Cavaleiro de Negro



D. Sebastião, rei de Portugal, desejoso por combater em África, procurou apoio junto do seu tio D. Filipe II de Espanha. Nesse sentido, escolheu D. Pedro de Alcáçova como seu embaixador para essa missão. Sentindo-se honrado com a preferência, D. Pedro aproveitou a ocasião para falar ao rei sobre um facto insólito: havia já alguns dias, que um jovem cavaleiro, vestido de negro e com uma expressão sofredora, rondava o palácio, pedindo uma audiência com o rei. Sem quaisquer credenciais, o jovem cavaleiro de negro tinha como único traço identificador uma miniatura do escudo do próprio rei. Curioso, D. Sebastião ordenou que o trouxessem à sua presença, perguntou-lhe a idade e a razão da sua vinda. O cavaleiro de negro dizia ter 18 anos, ser órfão e ter sido criado por uma serva que o levou para Fez, de onde tinha saído, há cinco anos, para ir viver nas Beiras. Mas a razão que o levava à presença do rei era que, tendo aprendido com a sua serva, em terra árabe, a ler o futuro, tinha previsto maus presságios para D. Sebastião, se este teimasse em prosseguir os seus desejos de combater no Norte de África: desapareceria como fumo e o seu povo chorá-lo-ia por muitos anos. O cavaleiro, que tinha como único desejo salvar o rei, resolveu revelar-lhe a sua verdadeira identidade: o seu traje masculino escondia um corpo de mulher. Irritado, D. Sebastião mandou-a embora dizendo-lhe que nunca mais a queria ver. A jovem respondeu-lhe que o rei ainda a iria ver muitas vezes e que aquelas visões não eram mensagens de amor, mas presságios de morte. Adiantou-lhe ainda que, em breve, cairiam sobre a cidade de Lisboa três agouros de morte. Algum tempo depois, um violento incêndio deflagrou na Rua do Príncipe, fazendo inúmeras vítimas, seguiram-se fortes chuvas que inundaram o centro da cidade, e, por fim, a peste abateu-se sobre os lisboetas. Mas nem mesmo esses acontecimentos demoveram D. Sebastião que avançou para Alcácer Quibir. Estava o rei no acampamento militar, juntamente com os seus fidalgos, quando avistou um cavaleiro negro montado num cavalo branco cujas patas se tinham embaraçado nas cordas que sustentavam a tenda do rei, mas logo que se libertou, desapareceu no horizonte. D. Sebastião nem quis ouvir os fidalgos, que o avisavam de que se tratava de mais um presságio, nem quis modificar os planos de batalha e avançou para o seu destino fatal. Em plena batalha, estavam os Portugueses a sofrer muitas baixas, prevendo-se uma pesada derrota, quando apareceu o cavaleiro de negro no meio dos soldados. Conta a lenda que D. Sebastião, alucinado, seguiu o cavaleiro, desaparecendo para sempre.
Conhecido pelo cognome, o Desejado , D. Sebastião, simbolicamente, é ainda hoje esperado pelo povo português que crê que este voltará numa manhã de nevoeiro.

Lenda dos Amores de D. Lopo

Diz a lenda que, na cidade de Elvas, vivia um jovem fidalgo, de poucas posses, chamado Lopo de Mendonça. Por alturas da feira de Zafra, cidade espanhola, D. Lopo conheceu D. Mência. Logo se apaixonaram um pelo outro. Pediu-a em casamento, mas o pai recusou o pedido, pois ela estava prometida a D. Afonso Ramirez, descendente de uma nobre e riquíssima família. D. Mência foi encerrada num convento enquanto preparavam a boda com o fidalgo espanhol.
D. Álvaro, amigo do fidalgo português, aconselhou D. Lopo a ir a Zafra para falar com D. Mência. Se ela o amasse verdadeiramente talvez concordasse em fugir com ele. Assim fez D. Lopo. Chegado ao convento, pediu a uma noviça, amiga de D. Mência, para marcar um encontro entre os dois.
D. Mência concordou em fugir com D. Lopo, pois não podia viver sem ele. Combinaram, então, encontrar-se no dia seguinte à mesma hora. D. Lopo estaria à sua espera com um cavalo e um pajem. Chegado o momento da fuga, viu-se rodeado por D. Árias, o pai de D. Mência, e quatro criados. O pajem contratado era um dos criados de D. Árias e tinha-o traído. Furioso com aquela emboscada, D. Lopo desembainhou a sua espada e enterrou-a no peito de D. Árias. Aproveitando a confusão provocada pela situação, conseguiu fugir de Zafra e atingir Sevilha, onde se alistou numa companhia que partia nesse dia para Nápoles. Não conseguia esquecer que assassinara o pai da sua amada.
Um ano passou, D. Lopo regressou a Zafra e procurou D. Mência. A jovem professara naquele mesmo convento de Sta. Clara. D. Lopo voltou para os campos de batalha e só descansou em paz quando morreu.

21/07/2010

Lenda de Andrómeda



Andrómeda era a filha dos reis da Etiópia, Cefeu e Cassiopeia. O reino tinha caído em desgraça porque Cassiopeia tinha-se vangloriado de que era mais bela do que as Nereidas, as cinco filhas de Nereu e Dóris. As virgens, de cabelo dourado, que viviam com o pai, no submundo aquático, e que eram vistas, quando o mar estava calmo, a brincarem com os Tritões na crista das ondas, pediram a Posídon que as vingasse pela injúria feita. Este enviou um monstro marinho para atacar a Etiópia e devorar os homens e os animais. Preocupado com o flagelo que atingia o país, o rei Cefeu consultou o oráculo de Ámon que lhe revelou que a solução para o problema seria a entrega de sua filha Andrómeda, como vítima, ao monstro. Foi, nesta época de catástrofe e de desgosto, que Perseu chegou à Etiópia e encontrou Andrómeda acorrentada a um rochedo aguardando a morte. Perseu apaixonou-se por ela, logo que a viu, e matou o monstro, salvando-a. Os dois enamorados partiram para Argos e depois para Tirinte, onde se casaram e tiveram vários filhos, entre os quais Perses, que viria a ser o primeiro dos reis da Pérsia.

Mitologia Grega

Tao, bandido

Um aprendiz de ladrão entrou para a quadrilha do velho Zhang, um bandido muito famoso que roubava dos ricos há mais de dez anos para alimentar e vestir milhares de pessoas. Uma noite, durante um banquete, o aprendiz pediu ao velho Zhang qual era o segredo de seu sucesso. Ele esvaziou seu copo, limpou a barba na manga da camisa e respondeu:
— Toda arte verdadeira é um caminho que leva ao Tao. E o domínio de nossa profissão repousa sobre cinco virtudes: a inspiração, a coragem, a bondade, a prudência e a justiça.
— Mas chefe — disse o aprendiz — não é bem isso que se pode esperar de um bandido!
— Fecha essa boca, ignorante, e presta atenção nas virtudes que devem ser observadas por um mestre-ladrão que deseja chegar a uma idade respeitável. Adivinhar onde está escondido o que deve ser roubado vem da inspiração. Ser o primeiro a chegar a esse lugar é fruto da coragem. Ser o último a sair, para dar cobertura aos seus homens, explica-se pela bondade. Avaliar se o golpe é muito arriscado tem origem na prudência. E repartir o produto do roubo é a virtude da justiça.



A Lenda de Ch'ienniang

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Ch'ienniang era filha de Chan Yi, um oficial em Hunan. Tinha um primo chamado Wang Chou, rapaz inteligente e bonito. Tinham sido criados juntos desde a mais tenra idade e como seu pai gostasse muito do menino tinha dito que faria de Wang Chou seu genro. Ambos ouviram essa promessa e, como a menina fosse a única filha e estivessem sempre juntos, cada dia mais se afeiçoavam um ao outro. Já agora eram dois jovens e continuavam, entretanto, a se tratar como parentes íntimos. Infelizmente o pai da jovem era o único que nada percebia. Um dia, um jovem oficial veio pedir-lhe a mão da filha e ignorando, ou esquecendo, sua promessa primitiva, ele consentiu fazendo com que Ch'ienniang, desesperada entre o amor e a piedade filial, quase morresse de dor, causando tal desgosto ao rapaz que êle resolveu sair para outras terras de preferência a ficar ali e ver sua amada tornar-se a esposa de um outro. Assim, inventou um pretexto e informou o tio de que precisava ir para a capital. Como o tio não conseguisse persuadi-lo a ficar, deu-lhe dinheiro e presentes e preparou um banquete de despedida para ele. Wang Chou, triste por ter de separar-se da amada, pensou na partida durante toda a festa dizendo a si mesmo que era melhor partir do que viver ali vendo seus, sonhos despedaçados.
Assim Wang Chou saiu num barco da tarde e antes de estar a algumas milhas de distância já a noite caíra. Disse ao barqueiro que amarrasse o barco na praia e descansasse a noite. Não conseguiu dormir e, por volta da meia-noite, ouviu passos ligeiros que se aproximavam. N’alguns minutos o som pareceu bem perto do barco. Ergueu-se e perguntou - "Quem pode ser a esta hora da noite ?" - "Sou eu, Ch'ienniang," foi a resposta. Surpreso e encantado, levou-a para o barco e ali ela lhe contou que esperara ser sua esposa. que o pai não tinha procedido bem para com ele e que ela não suportava a separação. Receava, outrossim, que ele, só e viajando por terras estranhas.. pudesse ser tentado a suicidar-se. Eis porque recaíra na censura da sociedade e na cólera dos pais e viera seguí-lo para onde quer que fosse. Assim ambos ficaram satisfeitos e continuaram a viagem juntos: para Szechuen.
Passaram-se cinco anos de felicidade e ela o presenteou com dois: filhos. Porém não tinham notícias da família e diariamente ela pensava nos pais. Era essa a única coisa que lhes empanava a felicidade.. Ele: não sabia se os pais ainda viviam e quais as condições e, certa noite, começou a contar a Wang Chou como se sentia infeliz e, por ser a filha única, como se considerava culpada de grande impiedade- filial por ter deixado os velhos pais dessa maneira. - "Tem um coração cheio de amor filial e estou de acordo com você," disse-lhe- o marido. "Já se passaram cinco anos; certamente não nos guardam rancor. Voltemos para casa." Ch'ienniang exultou ao ouvir isso e assim fizeram todos os preparativos para voltar para casa com os dois: filhos.
Quando o bote chegou à cidade natal, Wang Chou disse a Ch'ienniang - "Não sei qual o estado de ânimo de seus pais. Será melhor que eu vá para verificar." Seu coração palpitava ao aproximar-se da casa do sogro. Ao vê-lo, Wang OIou ajoelhou-se pedindo perdão; Ao ouvir isso, Chang Yi surpreendeu-se e disse - "De quem esta falando? Ch'ienniang jaz inconsciente em sua cama nesses últimos cinco anos, desde que você nos deixou. Ela jamais abandonou o leito. - "Não estou mentindo," disse Wang Chou. "Ela está passando bem e esperando por mim no barco".
Chan Yi não sabia o que pensar, por isso, mandou duas servas ver Ch'ienniang. Elas a viram sentada, bem vestida e feliz e até disse às servas para que falassem com seus pais o quanto os amava. Amedrontadas, as duas servas correram para casa para dar essas novas e Chang Yi ainda ficou mais intrigado. Nesse ínterim, aquela que estava na cama ouviu as novidades e parece que sua enfermidade desapareceu e os olhos brilharam. Levantou-se da cama e vestiu-se, ajeitando-se diante do espelho. Sorrindo e sem proferir uma palavra, encaminhou-se diretamente para o barco. A que estava no barco, preparava-se para tomar o caminho de casa e assim encontraram-se nas margens do rio. Quando as duas chegaram perto uma da outra seus corpos confundiram-se num só, com roupas em duplicatas, e surgiu a antiga Ch'ienniang tão jovem e encantadora como nunca.
Os pais ficaram satisfeitíssimos, porém pediram aos servos que guardassem segredo e nada dissessem aos vizinhos a respeito do que acontecera, a fim de que não houvesse comentários. Eis porque ninguém, exceto os parentes mais chegados da família Chang, jamais soube desse estranho acontecimento.

Wang Chou e Ch'ienniang viveram como marido e mulher durante mais de quarenta anos antes de morrerem. (Supõe-se que esta história tenha ocorrido em torno de 690 d.C.)


(Um conto da dinastia Tang)

20/07/2010

O'Donoghue

Lough Lean na Irlanda, agora chamado de lago de Killarney, é o lar de O'Donoghue, outrora governante das redondezas. Um dia, ele andou sobre a superfície do lago, observado por todos os membros de sua corte, e lentamente afundou nas profundezas para afirmar a propriedade de seu novo reino.

Todas as manhãs do dia 1º de Maio, ele deixa o magnífico palácio, que dizem ser localizado no fundo do lago, e visita seu velho domínio. Já faz alguns anos que O'Donoghue fez sua última aparição. Naquele dia, T. Crofton Croker nos conta em seu livro "Lendas e Tradições Encantadas do Sul da Irlanda", os primeiros raios do pôr-do-sol estavam dando um brilho dourado ao pico majestoso de Glenaa, quando as águas da parte oriental do lago de repente começaram a se agitar violentamente, embora o restante de sua superfície permanecesse suave e sereno como um túmulo de mármore polido. A seguir, uma onda espumante se projectou e, como um orgulhoso cavalo de batalha, com crina alta, jubiloso em sua força, atravessou o lago em direcção à montanha Toomies. Atrás dessa onda, surgiu um cavaleiro imponente, completamente armado, montado num corcel branco; uma plumagem alva acenava graciosamente de um capacete de aço polido, e, nas costas, uma capa azul claro tremulava. O cavalo, aparentemente jubiloso em sua obrigação nobre, saltava atrás da onda, ao longo do lago, que o sustentava como em terra firme, enquanto gotas, coloridas pelo sol matutino, eram borrifadas em todas as direções.

O guerreiro era O'Donoghue, que era seguido por um grupo de jovens que planava sobre a água; unidos com guirlandas de flores da primavera, ao compasso de uma doce música celestial. Tendo quase alcançado o outro lado do lago, O'Donoghue virou seu corcel em direção à margem de Glenaa, coberta de ramagens, acompanhado de sua comitiva. Lentamente, eles desapareceram nas brumas do lago, os acordes mágicos de sua música gradualmente esvaíram-se e " os ouvintes despertaram como de um sonho de bem-aventurança".


Lendas Celtas

Lenda do Manto de Santo António


Diz a lenda que, em Monchique, uma jovem pediu a Santo António para lhe arranjar casamento. Ela casou e, agradecida, cobriu a imagem do santo com um manto azul bordado a ouro.
A jovem não foi tão feliz como esperava. O marido tratava-a mal, apesar da sua gravidez. Assim, nasceu uma filha, que cresceu entre discussões azedas. Aos oito anos, a criança decidiu pedir a Santo António para pôr termo a tantas discussões. Em troca, prometeu-lhe que nunca lhe faltariam flores. Após algumas horas a rezar junto à imagem do santo, a menina sentiu alguém tocar-lhe no ombro. Um homem estranho pediu-lhe algo para comer e um sítio para descansar. A menina levou-o para sua casa, mas o pai resmungou pelo atrevimento da filha. Então, o visitante resolveu conversar com ele. Encantado com as palavras do visitante, o pai da criança sentiu que iniciava nesse instante uma vida nova e resolveu ajudar a mulher a preparar a refeição. Quando voltou à sala, o estranho homem tinha desaparecido e no seu lugar estava uma pequena imagem de Santo António, semelhante à que se encontrava no nicho da vila. A partir daquele dia, nunca mais faltaram flores a Santo António.



O isqueiro mágico


Um soldado vinha marchando pela estrada: um, dois! Um, dois! Trazia a mochila às costas e a espada no cinto, pois estivera na guerra e voltava para casa. Encontrou no caminho uma velha bruxa, horrivelmen­te feia, com o lábio inferior pendendo-lhe até o peito.
- Boa tarde, soldado! - disse ela. - Que bela espada e que grande mochila tens aí! És um verdadeiro soldado. Terás, já, quanto- dinheiro quiseres.
- Muito obrigado, velha - respondeu o soldado.
- Vês esta grande árvore? - perguntou a bruxa, apontando a árvore ao lado dele. - É inteiramente oca. Podes subir até a copa. Verás, então, um buraco pelo qual descerás até chegar bem em baixo. Eu te amar­ro uma corda na cintura, para poder içar-te de novo, quando me chamares.
- E que farei lá em baixo, na árvore? - quis saber o soldado.
Vais buscar dinheiro! - disse a bruxa. - Quando chegares ao fundo, encontrarás um vasto salão muito
bem iluminado, pois nele ardem centenas de lâmpadas. Verás então três portas, que podes abrir. As chaves estão nas fechaduras. Entrando no primeiro quarto, verás, no soalho, uma grande arca, em cuja tampa está sentado um cão. Os olhos dele são do tamanho de chávenas de chá. Mas não te incomodes com isso. Dou-te meu avental azul enxadrezado; estende-o no chão, e em seguida vai bem depressa, pega o cão e coloca-o no meu avental. Podes então abrir a arca e tirar quantos vinténs quiseres; são todos de cobre. Mas, se preferires prata, é só entrares no quarto seguinte; ali está senta­do um cão com olhos do tamanho de rodas de moinho. Não te incomodes, porém. Coloca-o no meu avental, e serve-te do dinheiro! Entretanto, se quiseres ouro, tam­bém o terás - tanto quanto puderes carregar! Basta entrares no terceiro quarto. Ali, o cão da arca tem olhos do tamanho da cúpula de um edifício. Esse, sim, é um cão extraordinário, verás! Mas não te incomodes. Coloca-o no meu avental e ele nada te fará. Podes então tirar da arca quanto ouro quiseres.
- Não me parece nada mau - disse o soldado - Mas que te darei eu em troca, minha velha? Sim, imagino que hás de querer alguma paga por tudo isso.
- Não - respondeu a bruxa. - Não quero um único vintém. Só tens de me trazer um velho isqueiro que minha avó esqueceu quando, pela última vez, este­ve lá em baixo.
- Combinado! - concordou o soldado. - Podes já me amarrar a corda à cintura.
- Pronto! - disse a bruxa, quando terminou de amarrar a corda. - E aqui está o meu avental azul e branco.
O soldado subiu a árvore, deixou-se escorregar pelo oco da árvore abaixo, e pouco depois estava num gran­de salão iluminado, exactamente como dissera a bruxa. Ardiam nele centenas de lâmpadas!
Abriu a primeira porta. E lá estava, a encará-lo, o cão com olhos do tamanho de xícaras de chá.
- És um lindo animal! - disse o soldado.
E colocou-o no avental da bruxa, recolhendo tan­tas moedas de cobre quantas lhe cabiam no bolso. Tor­nou a fechar a arca, nela colocou de novo o cão, e en­trou no segundo quarto. Ali estava o cão com olhos do tamanho de rodas de moinho!
- Não devias fitar-me tanto, pois acabarás com os olhos doendo!
Depois de dizer isso, pôs o cão no avental da bru­xa. Ao ver, porém, tanto dinheiro de prata na arca, dei­tou fora todo o dinheiro de cobre que trazia e encheu os bolsos e a mochila com as novas moedas. Entrou de­pois no terceiro quarto. Inacreditável! Lá estava o cão de olhos tão grandes como a cúpula de um edifício, a girar-lhe feito rodas!
- Boa noite, meu prodigioso animal! - disse o soldado, levando respeitosamente a mão ao quepe, pois nunca antes vira um cão extraordinário assim.
Após contemplá-lo por algum tempo, comentou con­sigo próprio: “Agora, chega!” Pôs o cão no soalho e abriu a arca. Quanto ouro, santo Deus! Daria para comprar a Copenhague, os porquinhos de açúcar das doceiras, todos os soldadinhos de chumbo, chicotes e cavalinhos de pau que existiam no mundo! Ali, sim, ha­via dinheiro! O soldado botou fora todas as moedas de prata com que enchera os bolsos e a mochila, substi­tuindo-as pelas de ouro. Abarrotou com elas os bolsos, a mochila, o quepe e as botas, a ponto de quase não po­der mais andar. Agora, sim, tinha dinheiro! Colocou o cão na arca, fechou a porta e gritou para cima, atra­vés do oco da árvore:
- Já podes içar-me, minha velha!
- Trazes o isqueiro? - perguntou ela.
- Que coisa! - exclamou o soldado. - Não é que tinha me esquecido dele!
Pegou então o isqueiro, e a bruxa puxou-o para cima. Pouco depois estava o soldado de novo na es­trada, com os bolsos, as botas, a mochila e o quepe cheios de moedas de ouro!
- Que vais fazer com o isqueiro? - perguntou ele.
- Não é da tua conta - disse a bruxa. — Levas bom dinheiro. Dá-me o isqueiro, e pronto!
- Nada disso! - retrucou o soldado. - Dize-me primeiro o que vais fazer com o isqueiro, ou eu puxo minha espada e te corto a cabeça!
- Não direi nunca! - protestou a bruxa. - Não tenho que te dizer nada!
O soldado cortou-lhe então a cabeça, e deixou a ve­lha estendida na estrada. Depois atou todo o dinheiro no avental dela, fez uma trouxa, que pôs às costas, meteu o isqueiro no bolso e tomou o rumo da cidade.
Ali chegando, entrou numa grande hospedaria, on­de pediu o que havia de melhor - em aposentos e igua­rias. Pediu tudo aquilo de que mais gostava, pois tinha muito dinheiro e podia pagar.
O criado, porém, ao limpar-lhe as botas, estranhou que um cavalheiro tão rico usasse botas tão velhas. O soldado explicou que ainda não tivera tempo de com­prar outras. No dia seguinte, porém, ostentava ele lin­das botas novas e as roupas mais bonitas. Tornara-se um nobre, e todos lhe falavam do esplendor da cidade, do rei e da sua encantadora filha.
- Onde poderei ver a princesa? - perguntou o soldado.
- Ela não pode ser vista! - informaram. - Mora num grande palácio de cobre, todo cercado de muros e torres. Ninguém, a não ser o rei, pode vê-la, porque vaticinaram que ela haverá de casar-se com um soldado raso.
“Como eu gostaria de vê-la!”, pensou o soldado. Mas naturalmente compreendeu que era impossível con­seguir isso.
E foi vivendo a sua vida folgazão, indo ao teatro, passeando de carruagem nos jardins. Dava, porém, muito dinheiro aos pobres, pois sabia quanto era duro não ter vintém. Trajava roupas vistosas, e começou a ter muitos amigos, que lhe gabavam as qualidades de autên­tico cavalheiro, o que muito agradava ao soldado. Gas­tando, porém, dinheiro todos os dias e não ganhando nenhum, não tardou a ver-se, um belo dia, com apenas dois vinténs no bolso. Teve de mudar-se dos seus ricos aposentos para uma água-furtada, e de escovar ele pró­prio suas botas e, mais tarde, remendá-las com uma ve­lha agulha de sapateiro. Seus amigos deixaram de vi­sitá-lo, alegando que não podiam subir tantas escadas.
Certa noite, era grande a escuridão e ele nem uma vela podia comprar! Lembrou-se então que havia um coto no isqueiro da bruxa. Foi buscá-lo, tateando, mas no momento em que acionou o isqueiro, saltaram faís­cas por toda a parte. Abriu-se a porta e apareceu-lhe o cão de olhos tão grandes como xícaras de chá, que lhe perguntou:
- Que ordena, meu senhor?
O soldado ficou estupefacto.
Que estranho isqueiro era aquele? Podia pedir en­tão o que quisesse?
- Arranja-me algum dinheiro - disse ao cão.
E zás! O cão sumiu, e logo reapareceu com um saco de moedas de cobre na boca.
O soldado ficou conhecendo os poderes mágicos do isqueiro. Se batia uma vez, aparecia o cão da arca de moedas de cobre. Se batia duas vezes, aparecia o da arca de moedas de prata. Se batia três vezes, aparecia o da arca de moedas de ouro. O soldado tornou a mu­dar-se para os aposentos de luxo, voltou a usar as rou­pas bonitas dos primeiros dias, e imediatamente todos os seus amigos passaram a procurá-lo de novo e de novo passaram a gostar dele e admirá-lo.
Certa vez ele pensou: “É bem estranho, afinal de contas, que ninguém possa ver a princesa. Todos dizem que ela é maravilhosa! Mas de que adianta isso, se a coitadinha tem de ficar o tempo todo oculta no palácio de cobre, cercada de muros e torres? Será que realmen­te não a poderei ver? E o meu isqueiro?
Bateu uma vez na mola, e imediatamente apare­ceu o cão com os olhos do tamanho de xícaras de chá.
- É verdade que estamos na escuridão da noite - ponderou o soldado. - Mas eu gostaria tanto de ver a princesa, nem que fosse por um instantinho só!
O cão desapareceu, e antes que o soldado pudesse refletir, eis que tornou a vê-lo, trazendo a princesa! Ela dormia, e era tão encantadora que qualquer um podia ver que se tratava de uma verdadeira princesa. O soldado não pôde resistir. E beijou-a. Mas logo o cão desapareceu com ela. E quando, na manhã seguin­te, o rei e a rainha tomavam chá, a princesa contou-lhes que tivera um sonho muito estranho naquela noite. Sonhara com um cão e um soldado. Ela montara no cão e o soldado a beijara.
- Com efeito, é uma história bem estranha! - disse a rainha.
Foi deliberado que uma das camareiras velaria jun­to à cama da princesa na noite seguinte, para ver se era mesmo um sonho - ou o que podia ser.
O soldado de novo desejou ver a princesa. O cão foi ao palácio, tomou-a sobre o dorso e correu o quanto podia, mas a camareira saiu-lhe no encalço, correndo tão depressa quanto ele. Vendo-o desaparecer na hos­pedaria, murmurou: “Agora sei onde é.”
Com um pedaço de giz, traçou uma grande cruz na porta do prédio. Isso feito, voltou ao palácio, e o cão não tardou a surgir com a princesa. Vendo, porém, uma cruz de giz na porta da hospedaria onde morava o soldado, tomou por sua vez de um pedaço de giz, e desenhou cruzes em todas as portas da cidade. Foi uma sábia medida, pois com tantas cruzes a camareira não podia mais identificar a porta da hospedaria.
Pela manhã, bem cedo, o rei, a rainha, a camareira e todos os oficiais saíram para ver onde a princesa ti­nha estado à noite.
- Foi ali! - disse o rei, ao ver a primeira porta marcada com a cruz.
- Talvez tenha sido ali! - exclamou a rainha, ao ver outra porta assinalada.
- Ali há uma, e acolá outra! - disseram todos.
E para onde olhavam, viam cruzes nas portas. Com­preenderam que não valeria a pena continuar a busca.
A rainha, porém, mulher muito sagaz, que não sa­bia apenas passear de carruagem, tomou da sua grande tesoura de ouro, recortou uma peça de seda, e costurou uma bolsinha. Encheu-a com grãozinhos de sorgo, amarrou-a às costas da princesa, e, em seguida, abriu com a tesoura um buraquinho, através do qual, por onde a princesa passasse, os grãozinhos pudessem ir caindo.
À noite, o cão tornou a ir ao palácio, pôs a princesa nas costas e levou-a para perto do soldado, que gostava cada vez mais dela, a ponto de desejar ser um príncipe para fazê-la sua esposa.
O cão nem reparou que os grãos iam caindo, desde o palácio até a janela do soldado, por onde ele entrou com a princesa. Pela manhã, o rei e a rainha descobri­ram onde a filha tinha estado. E mandaram meter o soldado no cárcere.
Ficou ele preso na escura masmorra.
- Amanhã serás enforcado! - disseram-lhe.
Não era agradável ouvir aquilo. O pior, porém, é que ele esquecera o isqueiro na hospedaria. Pela ma­nhã, através das grades de ferro, viu o povo saindo às pressas da cidade, para o local do enforcamento. Ou­viu rufar os tambores, enquanto guardas marchavam. O povo continuava a passar. Um aprendiz de sapatei­ro, com um avental de couro, passou correndo tão rá­pido que uma das suas chinelas saiu voando em dire­cção ao muro onde o soldado espiava através das grades de ferro.
- ó rapaz, não tenhas tanta pressa! - disse o soldado. - A função não começa antes de eu chegar lá. Queres dar um pulo até onde eu morei, e apanhar o meu isqueiro? Ganharás quatro moedas, por isso. Mas vai correndo!
O aprendiz de sapateiro, que bem queria ganhar quatro vinténs, saiu em disparada, apanhou o isqueiro e deu-o ao soldado.
E o resto veremos já!
Fora da cidade erguia-se uma grande forca. Ro­deavam-na os guardas e centenas de milhares de pes­soas. O rei e a rainha ocupavam o trono armado em
frente ao local onde se reuniam os juizes e o conselho. O soldado já estava no alto do estrado, mas, quando o verdugo ia colocar-lhe a corda ao pescoço, ele ponde­rou que era da tradição permitirem ao réu formular o último desejo. O dele era muito simples: queria dar a derradeira cachimbada de sua vida.
O rei não se opôs. O soldado pegou o isqueiro, acionou a mola uma, duas, três vezes, e surgiram en­tão os três cães: o dos olhos do tamanho de xícaras de chá, o dos olhos iguais a rodas de moinho, e o que ti­nha olhos tão grandes como a cúpula de um edifício.
- Ajudai-me, para que eu não seja enforcado! - clamou o soldado.
Os cães atiraram-se rápidos nos juizes e aos mem­bros do conselho, pegaram uns pelas pernas e outros pelo nariz, e jogaram todos eles a muitos metros de altura, de maneira que caíam e se faziam em pedaços.
- Poupai-me! - pedia o rei.
Mas o maior dos cães, agarrando-o com a rainha atirou os dois para o ar, como aos outros. Os guardas fugiam assustados e todo o povo gritava:
- Soldadinho, de ora em diante serás nosso rei e terás como esposa a encantadora princesa!
Levaram o soldado na carruagem do rei e os três cães saíram dançando na frente. Os meninos assobia­vam, com os dedos na boca, e a tropa reuniu-se para apresentar armas. A princesa saiu do palácio e tornou-se rainha, que era o seu sonho. As bodas duraram oito dias. E os três cães, de olhos arregalados, tiveram as­sento à grande mesa festiva.


Hans Christian Andersen



Lenda sobre a montanha Wutai



A China possui quatro famosas montanhas sagrads do budismo: Wutai, Putuo, Jiuhua e Emei. Segundo as lendas, são os sítios onde os quatro grandes budas Manjusri, Samantabhadra, Avalokitesvara e Ksitigarbha professavam o budismo.
A montanha Wutai situa-se na província do Shanxi, Centro da China. É composta por cinco montes, cujos cumes são planos e se assemelham a uma plataforma. Por esta razão, a montanha é chamada de Wu Tai, Cinco Plataformas.
Dizem que a montanha Wutai tinha outro nome: a montanha Wufeng, Cinco Picos, onde o clima era muito adverso com seu rigoroso inverno; a primavera de tempestades de areia e o sufocante calor do verão. Os camponeses não podiam cultivar suas terras. Um ano, o buda Manjusri ali chegou para divulgar o budismo e teve piedade dos flagelos causados à população local. Então, decidiu mudar o clima da região.
Inteirado de que o rei do Mar Meridional tinha uma pedra mágica que podia transformar o clima seco em úmido, Manjusri se transformou num monge, a fim de pedir emprestada a pedra.
Chegou ao Mar Meridional e viu uma pedra fora do palácio imperial. Ao aproximar-se dela, sentiu logo o ar fresco. Comunicou ao rei o seu desejo, mas este disse: “Pode pedir emprestada qualquer coisa com exceção da pedra mágica, pois ela foi retirada do fundo do mar após centenas de anos. Diariamente, quando voltam de seus trabalhos, meus filhos, banhados de suor, descansam sobre ela. Se emprestá-la à você, eles não terão um lugar para descanso”. O buda Manjusri disse que era o monge da montanha Wutai e veio pedir ajuda em benefício dos seres humanos.

O rei-dragão não queria conceder a pedra mágica, mas via sentido em recusar o pedido do buda. Pensava que um monge idoso não iria levar a pedra sozinho e disse: “a pedra é muito pesada. Ninguém pode ajudar-lhe. Se você tem energia para levá-la, vá à pedra”.
O buda Manjusri agradeceu o rei-dragão e dirigiu-se diretamente à pedra. Leu as suas palavras mágicas e a grande pedra diminuiu rapidamente, transformando-se numa pequena pípula. O buda meteu-a na manga e voou. O rei do Mar Meridional ficou boquiaberto começou a se arrenpeder.
O buda Manjusri voltou à montanha Wutai, quando ali imperava muito calor e seca. Manjusri colocou a pedra num vale da montanha e o milagre se fez realidade: os cinco montes se transformaram em pastagens verdes. Desde então, o vale foi batizado de Vale do Frescor. A população construiu aí um templo dando-lhe o nome Templo do Frescor e a montanha, Qingliang, ou Montanha do Frescor. Por esta razão, a montanha Wutai é chamada também de Montanha do Frescor.