( 391x375 , 253kb)


Mostrar mensagens com a etiqueta Contos do Mundo. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Contos do Mundo. Mostrar todas as mensagens

20/07/2012

A última vontade do rei Hibbam



Naquele tempo, em Mokala, reinava o poderoso Hibban, um dos mais vaidosos monarcas que têm vivido em todos os tempos. Sua preocupação única era imitar os imperadores célebres e os vultos notáveis da História.
Ouvira ele contar que os soberanos mais famosos do mundo pronunciaram sempre, antes de morrer, palavras que se tornaram célebres. E não poderia ele, também glorificar a sua morte pronunciando uma frase notável, digna de figurar nos anais da História, uma frase fulgurante que ficasse perpetuada, através dos séculos, pela Fama e pela Glória?
Mas qual seria? Que deveria ele dizer aos súditos mokalenses no derradeiro momento de sua vida? Um conselho? Uma imprecação? Um pensamento famoso?
Na dúvida - e como não lhe ocorresse uma idéia aproveitável - mandou o rei Hibban chamar o seu talentoso secretário Salin Sady, homem de sua inteira confiança, e contou-lhe, pedindo-lhe absoluto segredo, o grande desejo de sua vaidade doentia.
Depois de meditar algum tempo, o digno secretátio respondeu:
- Conheço um verso de Masuk, o celébre poeta kurdo, que é magistral! Se pronunciar esse verso em dialeto kurdo, fará uma coisa original, nunca vista. Ademais, o verso a que me refiro, exprime um desejo nobre, um pensamento genial, digno de um verdadeiro rei.
- É exatamente um verso emocionante que mais me agrada e que melhor poderá servir ao rei de Mokalla. Mas qual é, afinal, o verso do grande Mazuk? Quero decora-lo.
E o inteligente Salin Sady ensinou ao bom monarca o verso magistral de Mazuk, o maior dos poetas do Afeganistão:
'Naib aq vast y harde nosteby katib.'
Cuja tradução (declarou Sady) seria: 'Esquecei meus erros, pois só errei com a intenção de acertar'.
Guardou o rei Hibban de memória o verso. Um dia sentindo-se muito doente, mandou chamar seus conselheiros, vizires, cadis e todos os grandes dignitários do reino e pronunciou sua última vontade, bem alto, devagar e solene para que todos ouvissem. E tão violenta comoção daquele momento, que o vaidoso rei morreu.
A cena impressionou profundamente a todos os presentes.
- Mas o que tinha dito o Rei Hibban? - perguntavam uns aos outros, pois ninguém conhecia o complicado dialeto kurdo.
Dez escribas registraram palavra por palavra, traduzida depois pelos doutores mais ilustres de Mokala. A tradução caiu como uma bomba no meio da nobreza.
Puderam rodos verificar, com assombro, que o poderoso rei, senhor de Mokala, havia dito, apenas o seguinte: 'Deixo tudo o que tenho para o meu bom secretário!

20/03/2012

O homem maravilhoso

Todos os dias, às 4 horas da tarde, entrava na biblioteca um homem de roupa cinzenta. Já trazia na mão o pedido do livro que desejava ler: "história da Groelândia". Recebido o livro, aliás escrito em norueguês, ele se sentava em uma poltrona e se aprofundava em sua leitura até o sinal de que a biblioteca iria fechar, às dez horas.
Um dos empregados que trabalhava na biblioteca estranhou tal comportamento: quem seria este homem que gosta de ler, durante 6 horas, uma complicada história da Groelândia escrita em norueguês?
Durante 3 meses o estranho leitor pediu sempre o mesmo livro. Mas certo dia, porém, pediu um livro diferente: "a respiração dos escaravelhos"! E, durante 4 meses leu esse estranhíssimo livro, no qual ninguém lia.
Um dia, entretanto, o homem deixou de lado os insetos e fez um pedido que assombrou ainda mais o empregado: "gramática descritiva e completa da língua chinesa"
O maior desejo do empregado da biblioteca era encontrar com esse curioso homem na rua, para poder questioná-lo sobre interesses tão diferentes.
Certa vez, quando o empregado ia para o trabalho, encontrou, absorvido em pensamentos, o misterioso leitor. Aproximou-se dele e disse-lhe:
- Eu tenho acompanhado os importantes estudos que o senhor vem fazendo neste último ano em nossa biblioteca. Desejo saber se o senhor publica estas informações originais e substanciosas em algum artigo de revista ou jornal.
- Ah meu caro senhor! - respondeu o homem com um sorriso - Não leio, nem estudo nem publico coisa alguma! Vou todos os dias à biblioteca unicamente para dormir! É a pura verdade! Sou muito pobre e sem família; sou obrigado a trabalhar a noite inteira,e , durante o dia, à falta de outro cómodo, onde possa dormir com mais conforto, vou descansar na poltrona macia da biblioteca.
Mas ainda havia um ponto obscuro ao empregado:
- Mas só para dormir você pede livros complicados?
- Eu mesmo não sei o que peço! - esclareceu risonho - eu só posso ficar no salão de leitura se eu pedir um livro, então eu peço o livro indicado no primeiro cartão do catálogo. Quando mudam a ordem dos cartões, eu peço, sem o querer, um novo livro! Mas para mim qualquer livro serve. Tenho sempre tanto sono!

31/10/2011

Os dois jovens no monte das fadas

Dois jovens, estavam voltando para casa numa noite de Halloween, cada um com um barril de uísque. De repente, ouviram música e vendo uma casa aberta, toda iluminada e com dança e risos vindo de lá, foram na direção dela e entraram.
Um dos dois se juntou ao grupo que dançava, assim que ele colocou no chão o pacote que levava. O outro, suspeitando do lugar e das pessoas, espetou uma agulha na porta assim que ele entrou, e foi embora quando ele quis. Passaram-se vinte meses e ele voltou procurando por seu companheiro e o encontrou ainda dançando com o barril de uísque nas costas. Embora estivesse mais vivo do que morto, o dançarino enfeitiçado implorou que ele deixasse terminar a dança. Quando ele saiu ele era apenas pele e osso.



19/10/2011

A lebre encantada



HÁ muito tempo existia um rei que só se alimentava de animais de caça. Por isso, todos os dias, seu único filho ia caçar na floresta próxima, a fim de que não faltasse o alimento preferido do seu pai. Certa vez, numa de suas excursões pela mata, o príncipe encontrou uma bonita lebre, toda branquinha. Correu atrás dela para apanhá-la, mas não conseguiu. A bichinha era veloz como uma flecha.
Depois de muito correr pela floresta, o príncipe viu a lebre parar e bater com o focinho no chão. Imediatamente, a terra se abriu, e a lebre penetrou no interior do solo. O príncipe, de um salto, entrou também na abertura e, depois de andar, durante muitas horas, por um túnel escuro, deparou com um campo cheio de flores perfumosas, no meio do qual se erguia o mais belo palácio que havia visto em sua vida. Penetrando no palácio, viu uma linda princesa que o recebeu gentilmente.
Passou então a residir no palácio, em companhia da formosa princesa, pela qual se apaixonou loucamente. Aí levava uma vida tão alegre e divertida que se esqueceu, completamente, de seu pai e do seu reino. Passado muito tempo, ao lavar as mãos, o príncipe tirou do dedo um anel que seu pai lhe tinha oferecido. Lembrou-se, então, de sua família e do seu povo. Resolveu ir vê-los. A princesa tudo fez para que ele desistisse da ideia. Mas o príncipe disse-lhe que seria uma ingratidão de sua parte, se não fosse visitar os seus. Prometeu, porém, à formosa princesa que, em breve, estaria de volta. Diante disso, a moça conduziu-o até o lugar por onde ele havia entrado e, batendo com uma vara mágica na terra, fez com que a mesma se abrisse para o príncipe passar.
Chegando ao seu reino, encontrou o palácio vazio e coberto de luto. Soube, então, com grande tristeza, que seus pais haviam morrido de desgosto, em virtude do seu desaparecimento. O príncipe ficou tão amargurado e cheio de remorsos, que resolveu não voltar mais ao palácio da linda princesa. Vestiu, então, uma humilde roupa de sapateiro e saiu pela estrada, sem destino.
Depois de caminhar durante vários dias, encontrou uma cidade, na qual se realizava uma grande festa. Indagando o motivo dos festejos, teve a notícia de que reinava grande alegria na cidade pelo fato de nela se encontrar a princesa mais bonita do mundo. O príncipe pediu então que lhe mostrassem a princesa e, quando a viu, declarou que conhecia uma princesa muito mais formosa.
Alguém ouviu a declaração do rapaz e foi correndo dizer ao rei que havia na cidade um sapateiro que afirmara ter visto uma princesa muito mais bela do que a sua filha. O rei ficou indignado com tamanha ousadia. Mandou chamar o sapateiro e o intimou, sob pena de morte, a trazer à sua presença a moça que ele dizia ser mais bonita do que sua filha. O sapateiro pediu quinze dias de prazo e partiu à procura da sua princesa.
Depois de longa viagem, chegou ao lugar por onde a lebre tinha entrado no interior da terra. Começou então a cavar e, depois de trabalhar dia e noite, conseguiu abrir um túnel até o palácio da princesa. Mas aí chegando, encontrou tudo silencioso e triste. Bateu à porta do palácio, e apareceu uma criada que lhe disse:
— Meu senhor, a princesa está muito doente por sua causa. Depois da sua partida, ela não mais se alimentou. Ficou tão triste e abatida, que nem pôde mais defender-se dos seus inimigos. Por isso, hoje vai acontecer uma coisa horrível. Ã meia-noite, o mar vai crescer e inundar todo
o palácio. Virá, então, um peixe enorme, que é um feiticeiro disfarçado, que devorará a princesa.
O rapaz quis falar com a princesa. Mas a criada o aconselhou a não fazer isso, senão a sua senhora morreria mais depressa. Nesse momento, o mar começou a inundar o palácio. O príncipe, que não tinha medo, armou-se com uma grande espada e escondeu-se atrás da porta. Quando chegou a meia-noite, surgiu um peixe gigantesco. Antes que este pudesse defender-se, o príncipe enfiou-lhe a espada no corpo três vezes. O monstro soltou um berro tremendo e morreu. As águas do mar então se afastaram e a princesa ficou salva.
O moço apresentou-se à princesa, e esta o abraçou contente e feliz. Disse-lhe o rapaz: — Minha princesa, salvei-lhe a vida. Agora preciso que você salve a minha. Contou-lhe, então, a promessa que havia feito ao rei, sob pena de morte. A princesa, porém, o aconselhou a voltar para o lugar onde devia cumprir a promessa e esperá-la lá, descansado.
O príncipe chegou no lugar, exactamente no dia que havia marcado. Os soldados do rei lá estavam, armados, à sua espera. O povo se havia reunido para assistir à execução do rapaz. Este tomou o caminho do palácio e pediu ao rei que aguardasse alguns momentos, pois iria cumprir a promessa.
Daí a pouco, surgiu no céu uma nuvem prateada. Veio descendo, descendo e, quando chegou diante do palácio e no meio do povo, dela saiu uma criada vestida de prata, que gritou: — Afaste-se, minha gente, que aí vem a minha princesa! O povo ficou boquiaberto com a cena. Mas o príncipe pediu ao rei que esperasse ainda alguns instantes. Poucos minutos depois, apareceu outra nuvem dourada, de onde saiu uma criada vestida de ouro, gritando: Afaste-se, minha gente, que aí vem minha princesa! O espanto foi geral. O príncipe pediu ao rei que esperasse ainda alguns momentos. Finalmente, surgiu uma nuvem tão brilhante que ofuscava os olhos de todos. Veio descendo, descendo, até o meio do povo. Dela saiu, então, a mais linda princesa do mundo, toda vestida de diamantes. Era a noiva do sapateiro.
O povo ficou maravilhado. O rei e a princesa, quando viram aquela beleza incomparável, ficaram envergonhados e pediram muitas desculpas ao rapaz. Convidaram este e sua formosa noiva para se hospedarem no palácio. Mas os dois não aceitaram. Preferiram voltar para o seu reino, onde viveram alegres e felizes.

16/02/2011

O burro conselheiro




Contam que certo lavrador possuía um burro que o repouso engordara e um boi que o trabalho abatera. Um dia, o boi queixou-se ao burro e perguntou-lhe:
— Não terás, ó irmão, algum conselho que me salve desta dura labuta?
O burro respondeu:
— Finge-te de doente e não comas tua ração. Vendo-te assim, nosso amo não te levará para lavrar o campo e poderás descansar.
Dizem que o lavrador entendia a linguagem dos animais e compreendeu o que eles conversaram. Na manhã seguinte, viu que o boi não comera sua ração. Deixou-o e levou o burro em seu lugar. O burro foi obrigado a puxar o arado o dia todo, e quase morreu de cansaço. E lamentou o conselho que dera ao boi. Quando voltou à noite, perguntou-lhe o boi:
— Como vais, querido irmão?
Respondeu o burro:
— Vou muito bem. Gostei da luz do sol e da alegria dos campos. Mas ouvi algo que me fez estremecer por tua causa. Ouvi nosso amo dizer: "Se o boi continuar doente, deveremos matá-lo para não perdermos sua carne". Minha opinião é que comas tua ração e voltes para tua tarefa a fim de evitar tamanho infortúnio.
O boi concordou e devorou toda a sua ração. O lavrador estava ouvindo, e riu.
Quando o homem deu uma risada ao ouvir o segundo conselho dado pelo burro ao boi, sua mulher (que não conhecia a linguagem dos animais) ficou perplexa e curiosa e quis saber por que ele riu. O homem não podia revelar que conhecia a linguagem dos animais. Respondeu à mulher que esse riso envolvia um segredo que lhe era proibido divulgar sob pena de morte.
— Quero que me contes esse segredo, mesmo que tenhas que morrer insistiu a mulher.
Como o homem amava sua mulher e nada lhe recusava, consentiu em revelar-lhe o segredo e perder a vida. Mandou, pois, vir o cádi e as testemunhas para deixar consignadas oficialmente suas últimas vontades. E mandou vir seus parentes e os de sua mulher para despedir-se deles. Todos aconselharam à mulher desistir de seu propósito e não empurrar para o túmulo seu marido e pai de seus filhos. Ela, porém, teimou, repetindo:
— Quero conhecer o segredo, mesmo que ele tenha que morrer.
Toda essa movimentação despertou a atenção do cão e dos animais da capoeira. O cão censurou o galo por estar cantando quando o amo deles todos estava para morrer. O galo perguntou:
— E por que nosso amo está para morrer?
O cão contou-lhe a história. Comentou o galo:
— Por Alá, nosso amo é muito tolo. Eu tenho cinqüenta esposas. Agrado a uma; desagrado a outra; mas não permito nenhuma rebelião entre elas. E ele tem apenas uma esposa e não consegue controlá-la. O que ele deve fazer é apanhar umas varas verdes nas amoreiras e bater nela até que se arrependa e não mais lhe exija nada.
O homem ouviu o que o galo disse ao cão, pensou e decidiu seguir o conselho do galo. Cortou umas varas das amoreiras, escondeu-as no quarto do casal e chamou a mulher:
— Vem comigo até nossa alcova para que te conte o segredo e me despeça de ti para sempre.
Quando a mulher entrou no quarto, o homem trancou a porta, apanhou as varas e bateu nela até que ficou cega de dor e gritou:
— Arrependo-me. E beijou lhe as mãos e os pés.
Em seguida, saíram juntos em paz para iniciar uma nova vida. E os parentes e os vizinhos se regozijaram por eles.

15/02/2011

A mulher lobo




Havia um moinho encantado, de modo que ninguém poderia ficar lá perto, porque uma mulher lobo o assombrava. Um dia, um soldado foi para o moinho para dormir. Ele fez uma fogueira na entrada do moinho, subiu ao sótão, e viu um buraco no piso do chão, que dava para a entrada.
A pele está pendurada lá
A loba entrou e olhou em volta, para ver se podia encontrar algo para comer. Ela não encontrou nada, e depois foi em direção ao fogo, e disse: “Sai pele! Sai pele! Sai pele! Sai pele!”. Ela levantou-se em cima de suas patas traseiras, e sua pele caiu. Ela pegou a pele, e pendurou em um cabide, e fora da pele do lobo surgiu uma moça. A moça foi para perto do fogo, e adormeceu ali.
Ele desceu do sótão, pegou a pele, pregou ela rapidamente na roda do moinho, e em seguida, entrou, gritando por ela, e disse: “Bom dia moça! Como você está?”
Ela começou a gritar, “Venha pele! Venha pele! Venha pele!” Mas a pele não poderia vir, pois estava pregada.
O par se casou e tiveram dois filhos.
Assim que filho mais velho soube que sua mãe era um lobo, disse a ela: “Mamãe! Mamãe! Ouvi dizer que você é um lobo.”
Sua mãe respondeu: “Que absurdo você está falando! Como você pode dizer que sou um lobo?”
O pai das crianças foi um dia lavrar no campo, e seu filho disse: “Papai, deixe-me ir com você.”
Seu pai disse: “Venha”.
Quando eles foram para o campo, o filho perguntou ao pai: “Papai, é verdade que a nossa mãe é um lobo?”
O pai disse: “É.”
O filho perguntou: “E onde está a sua pele?”
Seu pai disse: “Aí está, pregada na roda do moinho.”
Mal o filho chegou em casa, que ele disse uma vez à sua mãe: “Mamãe! Mamãe! Você é um lobo! Eu sei onde é sua pele.”
Sua mãe lhe perguntou: “Onde está a minha pele?”
Ele disse: “Há, na roda do moinho”.
Sua mãe lhe disse: “Obrigado, meu filho, por me salvar.” Então ela foi embora, e nunca foi se ouviu dela”.


A. H. Wratislaw, Sixty Folk-Tales from Exclusively Slavonic Sources
(London: Elliot Stock, 1889)
(tradução brasileira)

14/02/2011

A princesa com cabeça de porco


Havia um rei em Tir na n-Og (Terra da Juventude), que ocupava o trono e a coroa por muitos anos contra todos os que a cobiçavam. E a lei do reino era que a cada sétimo ano, os campeões e melhores homens do país deveriam concorrer ao cargo de rei. Uma vez a cada sete anos, todos se reuniam na frente do palácio e corriam para o alto de uma colina duas milhas distante. No topo da colina tinha uma cadeira, e o homem que conseguisse sentar na cadeira primeira, seria o rei de Tir na n-Og pelos próximos sete anos.Depois que ele governou durante eras, o rei começou a ficar ansioso. Ele tinha medo que alguém pudesse se sentar na cadeira diante dele e tomar a coroa de sua cabeça. Então, um dia ele chamou seu druida e perguntou: “Por quanto tempo devo ficar nessa cadeira para governar esta terra, e se algum homem sentar-se nela antes de mim e tomar a coroa da minha cabeça?”
“Você vai manter a monarquia e a coroa para sempre”, disse o druida, “a menos que seu próprio genro as tire de você.”
O rei não tinha filhos, mas uma filha, mas, a mais bela mulher em Tir na n-Og; e o igual a ela não podia ser encontrar em Erin ou qualquer reino do mundo. Quando o rei ouviu as palavras do druida, ele disse, “Eu nunca vou ter um genro, porque eu vou deixar a minha filha de um jeito que nenhum homem irá se casar com ela.”
Então ele pegou uma vara druida mágica, e chamando a filha diante de si, ele a golpeou com a vara, e colocar uma cabeça de porco em seu no lugar da cabeça dela.
Então ele mandou a filha de volta para o seu canto no castelo, e voltando-se para o druida “Não há homem na Terra que vá querer se casar com ela agora.”
Quando o druida viu o rosto que estava na princesa, a cabeça de porco que o pai tinha lhe dado, ele ficou muito triste por ter dado essa informação ao rei, e algum tempo depois ele foi ver a princesa.
“Devo ficar assim para sempre?” perguntou ela para o druida?
“Você precisa”, disse ele, “até que você se casar com um dos filhos de Fin MacCumhail em Erin. Se você se casar um dos filhos de Fin, você estará livre da mancha que está em você agora, e voltar a ter sua própria cabeça e rosto. “
Quando ouviu isso, sua mente ficou impaciente, e nunca descansou até que ela deixou Tir na n-Og e foi para Erin. Quando ela perguntou das pessoas, ouviu que Fin e os fenianos de Erin estavam naquele tempo vivendo em Knock an Ar, ela se dirigiui para o local imediatamente e viveu lá por um tempo. E quando ela viu Oisin, ele agradou a ela, quando ela descobriu que ele era um filho de Fin MacCumhail, a quem ela estava sempre observando, ela correu em sua direção. E era usual para os fenianos naqueles dias sair para caçar nas colinas, montanhas e nas florestas de Erin, e quando um deles ia, sempre levava cinco ou seis homens com ele para trazer para casa o prêmio.
Um dia Oisin saiu com os seus homens e cães para a floresta, e ele foi tão longe e matou tanta caça que, quando tudo foi reunido, os homens estavam tão cansados, fracos e famintos que não podiam levá-lo, mas foram embora, deixando-o com os três cães, Bran, Sciolán e Buglén, para cuidar de tudo sozinho.
Agora a filha do rei de Tir na n-Og, que era a própria rainha da Juventude, seguia de perto a caçada por todo o dia, e quando os homens deixaram Oisin ela foi até ele. Ele estava lá, olhando para a grande pilha de caça e dizendo: “Lamento muito deixar para trás tudo o que eu tive o trabalho de matar”, ela olhou para ele e disse: “Amarre um pacote para mim, eu vou levá-lo para alivar a carga de você. “
Oisin deu-lhe um pacote de caça para carregar, e pegou o restante. A noite estava muito quente e o fardo pesado, e depois de terem caminhado a alguma distância, Oisin disse: “Vamos descansar um pouco.”
Ambos jogaram as suas cargas, e se encostaram contra uma grande pedra que estava à beira da estrada. A mulher estava suada e sem fôlego, e abriu seu vestido para refrescar-se. Então Oisin olhou e viu a sua forma bonita e seu seio branco.
“Ah, então”, disse ele, “é uma pena que você ter uma cabeça de porco em você, pois eu nunca vi tal aparência de uma mulher em toda a minha vida antes.”
“Bem”, disse ela, “meu pai é o rei de Tir na n-Og, e eu era a mais requintada mulher do seu reino e o mais bela de todos, até que ele me jogou uma magia druida e deu-me a cabeça de porco que está em mim agora no lugar da minha própria. E o duida de Tir na n-Og veio falar comigo depois e me disse que se um dos filhos de Fin MacCumhail se casasse comigo, a cabeça do porco iria desaparecer, e eu deveria voltar a ter meu rosto da mesma forma como era antes, antes de meu pai me surpreender com a varinha do druida. Quando eu botei isso na cabeça, não parei até que cheguei a Erin, onde encontrei o seu pai e te escolhi dentre os filhos de Fin MacCumhail, e te segui para ver se você vai se casar comigo e me libertar. “
“Se esse é o estado em que você está, e se o casamento comigo vai te libertar do feitiço, eu não vou deixar a cabeça de porco em você por muito tempo.”
Então eles se casaram sem demora, não esperando para levar a caça para ou para tirá-la do chão. Naquele momento a cabeça de porco desapareceu, e a filha do rei, tinha o mesmo rosto e a beleza que ela tinha antes de seu pai lhe deu um soco com a varinha druida.
“Agora”, disse a Rainha da Juventude para Oisin, “Eu não posso ficar aqui muito tempo, e a menos que você venha comigo para Tir Na n-Og nós devemos nos separa.”
“Oh”, disse Oisin, “onde quer que você vá eu vou, e sempre que você voltar, eu vou te seguir.”
Então ela virou-se e Oisin a acompanhou, não voltando para Knock an Ar para ver seu pai ou seu filho. Naquele mesmo dia, eles partiram para Tir na n-Og e não pararam, até que chegou ao castelo do pai dela. E quando eles chegaram, já hvia uma recepção, pois o rei pensou que sua filha estava perdida.
Nesse mesmo ano houve a escolha de um rei, e quando o dia marcado chegou no final do sétimo ano, todos os grandes homens e os campeões, e o próprio rei, se reuniram na frente do castelo para correr e ver quem deve ser o primeiro a sentar na cadeira na colina. Mas antes que qualquer um deles estivesse na metade do morro, Oisin já estava sentado na cadeira antes dele.
Após esse dia, ninguém se levantou para correr Oisin, e ele passou muitos anos felizes como rei em Tir no n-Og.


Jeremiah Curtin, Myths and Folk-Lore of Ireland
(tradução brasileira)

11/02/2011

O noivo da rã


Era uma vez havia um pai que tinha três filhos. Ele mandou dois procurar noivas para eles, entretanto, o terceiro, a que chamavam Hansl O Estúpido, resolveu ficar em casa e alimentar os animais. O pai não estava satisfeito com isso, assim finalmente disse: “Apenas vá! Você pode procurar uma noiva também!”
Então Hansl se foi, e ele chegou a uma grande floresta. Do outro lado da floresta havia um lago. Um sapo estava sentado nas margens da lagoa, e ele perguntou: “E agora, Hansl, aonde você está indo?”
“Oh, eu estou procurando uma noiva!”
“Case comigo!” disse o sapo, e para Hansl estava tudo bem, porque ele não sabia onde poderia encontrar uma noiva. O sapo pulou na lagoa, e Hansl voltou para casa.
Seus irmãos já estavam lá, e eles queriam saber se o tolo encontrou uma noiva. “Sim”, disse Hansl, “eu já tenho uma!”
No dia seguinte, o pai deu a cada um um monte de linho, dizendo: “Vou dar uma casa aquele cuja noiva seja capaz de tecer o mais bonitos dos fios emtrês dias.” Em seguida, cada um foi embora, incluindo Hansl.
O sapo estava novamente sentado no banco da lagoa. “Agora, meu noivo, onde você está indo?”
“Falar com você. Você pode tecer?”
“Sim”, disse o sapo. Basta amarrar o linho em minhas costas.”
Hansl fez isso, e o sapo pulou na lagoa. Um fio de linho estava aparecendo na superfície e outra ponta estava no fundo do lago. “É uma pena sobre o linho. Se estragou”, pensou Hans, e ele, infeliz, voltou para casa.
Mas, mesmo assim, no terceiro dia ele voltou para a lagoa. O sapo estava novamente sentado no banco, e ele perguntou: “Agora, noivo, onde você está indo?”
“Já teceu?”
“Sim”, disse o sapo pulando na lagoa, e voltou com a meada de um fio de linho que era o mais bonito do que qualquer outro que tenha sido fiado. Hans estava feliz, e ele correu de volta para casa alegre, e ele com certeza tinha o mais lindo dos fios.
Os irmãos se queixaram, e então o pai disse: “Vou dar a casa para aquele que trouxer para casa a noiva mais bonita.”
Os irmãos se foram mais uma vez, mas desta vez Hansl levou uma jarra de água com ele.
Os outros dois queriam saber: “Por que você está levando essa garrafa de água com você?”
“Para colocar a minha noiva dentro”
Os dois riram, “Ele deve ter mesmo uma noiva linda!”
A rã já estava sentada perto da lagoa. “Agora, meu noivo, onde você está indo?”
“Hoje eu estou voltando por você!”
Então a rã pulou na lagoa e voltou com três chaves. “Vá lá em cima”, disse. “Há um castelo lá. Uma das três chaves abre a sala de estar, uma abre o estábulo, e outra a carruagem. N a sala há três túnicas: uma vermelha, uma verde e uma branca. No estábulo, há dois cavalos brancos, dois pretos e dois marrons. No estábulo você encontrará três coches: um de ouro, um de prata e um de vidro. Em cada lugar que você pode pegar aquele que você quiser”.
Uma vez dentro do castelo Hansl primeiro tentou o manto vermelho, mas ele não gostou: “Isso me faz parecer um açougueiro.” Ele não gostou do verde também: “Faz-me parecerum caçador.” O branco bem caiu melhor. Então ele foi para o estábulo e levou os cavalos marrons. Na casa da carruagem, ele primeiro quis pegar a de ouro, mas era demasiado nobre para ele. A de prata era muito pesada, então ele pegou a de vidro. Ele engatou a parelha com os cavalo marrons e foi para o lago.
Uma bela e jovem mulher estava lá. Ela disse, “Você me redimiu. Se você pegasse a melhor coisa em cada lugar, então eu teria que continuar a ser um sapo. E essa floresta é um grande pomar e, a lagoa é um jardim de rosas. Tudo isso pertence a você. Deixe o seu irmãos ficar com a casa. Você poderá se casar com quem quiser. “
“Não, você deve vir comigo, assim meu pai e meus irmãos, poderão te ver.”
Então, ela partiu com ele. O pai e os irmãos ficaram espantados quando viram Hansl com a linda e jovem mulher no coche. Mas de súbito ela desapareceu e voou para os ceús na f orma de uma pomba branca. Hansl deu a casa a seus irmãos. Ele se casou com uma mulher local e foi muito feliz. E se ele não morreu, então ele ainda deve estar vivo.


Jungbauer Gustav, Märchen-Böhmerwald (Passau, 1923)
(tradução brasileira)



05/02/2011

A tartaruga com uma linda filha



Era uma vez um rei que era muito poderoso. Ele tinhae grande influência sobre as feras e os animais. Nessa época, a tartaruga era encarada como o mais sábio entre homens e animais. Este rei tinha um filho chamado Ekpenyon, a quem ele deu cinqüenta jovens como esposas, mas o príncipe não gostava de nenhuma delas. O rei ficou muito irritado com isso, e baixou uma lei que, se algum homem tivesse uma filha que fosse mais bela do que as esposas do príncipe, e que achasse graça aos olhos do seu filho, a moça e seu pai e sua mãe deveriam ser mortos.
Por coincidência, a tartaruga e sua esposa tinham uma filha que era lindíssima. A mãe achava que não era seguro manter uma criança tão bela, porque o príncipe poderia se apaixonar por ela, então ela disse ao marido que a filha deveria ser morta e o corpo jogado no mato. A tartaruga, porém, não estava disposto, e a escondeu até que ela tivesse três anos. Um dia, quando tanto a tartaruga e sua esposa estavam ausentes em sua fazenda, aconteceu do filho do rei estar caçando perto da casa deles, e viu um pássaro empoleirado no topo da cerca em volta da casa. O pássaro estava observando a menina, e estava tão encantado com sua beleza que ele não percebeu o príncipe chegar. O príncipe matou o pássaro com o seu arco e flecha, e o corpo caiu dentro da cerca, de modo que o príncipe mandou o seu servo para pegá-lo. Enquanto o servo estava olhando para o pássaro se deparou com a menina e ficou tão impressionado com suas formas, que ele imediatamente voltou ao seu mestre e lhe disse que ele tinha visto. O príncipe, então, pulou a cerca e encontrou a criança, e se apaixonou de imediato por ela. Ele ficou e conversou com ela por um longo tempo, até que finalmente ela concordou em se tornar sua esposa. Ele então foi para casa, mas escondeu de seu pai, o fato de que ele tinha se apaixonado pela bela filha da tartaruga.
Mas na manhã seguinte, ele foi até a tesouraria, e pegou sessenta peças de roupa e trezentos rods, [1] e os enviou para a tartaruga. Então, no início da tarde ele foi até a casa da tartaruga, e disse que ele desejava se casar com sua filha. A tartaruga viu imediatamente que o que ele temia veio a acontecer, e que sua vida estava em perigo, então ele disse ao príncipe que se o rei soubesse, ele ia matar não só ele (a tartaruga), mas também sua esposa e filha. O príncipe respondeu que ele preferiria morrer a permitir que a tartaruga , sua esposa e filha fossem mortos. Eventualmente, depois de muita discussão, a tartaruga consentiu, e concordou em entregar a mão de sua filha para o príncipe, para que ela casasse com ele quando ela chegasse na idade adequada. Então o príncipe voltou para casa e contou à mãe o que tinha feito. Ela se afligiu grandemente ao pensar que ela iria perder o filho, de quem era muito orgulhosa, pois ela sabia que, quando o rei ouvisse da desobediência do filho, ele o mataria. No entanto, a rainha, embora soubesse da raiva que marido teria, queria que seu filho se casasse com a moça por quem ele tinha se apaixonado, e assim ela foi para a casa da tartaruga e deu-lhe algum dinheiro, roupas, inhame, e óleo de palmeira como dote em nome de seu filho, para que a tartaruga não desse a sua filha para outro homem. Pelos próximos cinco anos, o príncipe visitava constantemente a filha da tartaruga, cujo nome era Adet, e quando ela estava prestes a ser posta na casa engorda, [2], o príncipe disse ao pai que ele iria tomar Adet como sua esposa . Ao ouvir isso o rei ficou muito zangado e ordenou a todo o seu reino que todas as pessoas devem vir em um dia determinado para o mercado local para ouvir o seu pronunciamento. Quando o dia marcado chegou o mercado estava lotado, e as pedras que pertencem ao rei e a rainha foram colocados no meio da praça do mercado.
Quando o rei e a rainha chegaram todo o povo levantou-se e o cumprimentou, e depois eles sentaram em suas pedras. O rei então disse a seus servos [3] para trazer o menina Adet diante dele. Quando ela chegou, o rei ficou bastante surpreso com sua beleza. Ele então disse ao povo que ele os havia chamado para lhes dizer que ele estava irritado com seu filho por sua desobediência e por ter tomado Adet como sua esposa, sem seu conhecimento, mas que agora que ele mesmo a tinha visto ele tinha de reconhecer que ela era extremamente bela, e que seu filho tinha feito uma boa escolha. Ele seria, portanto, perdoado.
Quando o povo viu a garota eles concordaram que ela era muito fina e muito digna de ser esposa do príncipe, e imploraram ao rei para cancelar a lei por completo, e o rei concordou, e como a lei tinha sido feita sob o título ” Egbo lei “, ele mandou um aviso para oito Egbos , e disse-lhes que o decreto estava cancelado em todo o seu reino, e que no futuro ninguém seria morto porque tinha uma filha mais bonita do que as esposas do príncipe, e deu aos Egbos vinho de palma e dinheiro para cancelar a lei, e , os dispensou. Então, ele declarou que a filha da tartaruga, Adet, deveria se casar com seu filho, e ele os fez casar no mesmo dia. Uma grande festa foi dada então, que durou cinqüenta dias, e o rei matou cinco vacas e deu a todas as pessoas muito foo foo [3] e óleo de palmeira, e colocou um grande número de potes de vinho de palma nas ruas que o povo bebesse à vontade. As mulheres fizeram uma grande dança no complexo do rei, e lá ficaram cantando e dançando dia e noite durante todo o tempo. O príncipe e seus companheiros também festejaram na praça do mercado. Quando a festa acabou, o rei deu a metade de seu reino para a tartaruga governar, e trezentos escravos para trabalhar em sua fazenda. O príncipe também deu a seu sogro duas centenas de mulheres e cem meninas para trabalhar para ele, e foi assim que a tartaruga se tornou um dos homens mais ricos do reino. O príncipe e sua esposa viveram juntos por muitos anos até que o rei morreu, e o príncipe se tornou rei em seu lugar. E tudo isso mostra porque a tartaruga é a mais sábia de todos os homens e animais.


Conto africano


Notas:
[1] antiga moeda corrente do país, ainda em uso em Cross River
[2] A casa engorda é uma cabana onde uma garota é mantida por algumas semanas antes do casamento. Ela é dada abundância de alimentos, para que ela fique o mais gorda possível, pois a gordura é vista como um grande atrativo pelo povo Efik.
[3] Foo foo = inhame amassado e cozido.

19/01/2011

A sapa casada



Um lavrador possuía três filhos. As pragas haviam destruído suas plantações e dizimado seus bois e cavalos. Quase não existia, em casa, o que comer. Diante disso, o filho mais velho disse ao pai:
— Meu pai, já estou homem feito. Não posso continuar aqui. Preciso ganhar a minha vida. Por isso, vou correr mundo à procura de trabalho. Hei de voltar rico.
O lavrador deu-lhe a bênção, e o rapaz partiu. Depois de viajar por diversos países e de sofrer muitas dificuldades, parou numa cidade onde se casou. Mas continuou pobre.
Passado algum tempo, o segundo filho do lavrador resolveu seguir o exemplo do mais velho. Pediu dinheiro ao pai e saiu a correr mundo. Depois de passar muitas privações, parou numa cidade onde se casou. Não conseguiu ficar rico.
Anos depois, o filho mais novo do lavrador, vendo que os irmãos não voltavam, resolveu sair à sua procura. Desejava também arranjar algum emprego rendoso. O lavrador ficou muito triste porque era viúvo, e o rapaz era a única companhia que êle tinha na velhice. Mas deu a bênção ao moço e, com lágrimas nos olhos, deixou-o partir.
Após visitar muitas cidades sem encontrar os irmãos nem conseguir emprego, o rapaz parou à beira de uma lagoa para descansar. Era ao cair da tarde. De repente, ouviu uma voz deliciosa entoando uma linda canção.
O moço ficou encantado com a beleza e a doçura da voz. Debalde procurou a moça que cantava. Tão entusiasmado ficou com aquela voz maravilhosa que exclamou:
— Eu me casaria com a dona dessa voz, mesmo que fosse uma sapa desta lagoa!
Mal tinha acabado de proferir estas palavras, o rapaz viu, com espanto, uma sapa enorme e feia saltar da lagoa e dizer para ele:
— Sou eu a dona da voz maravilhosa! Se o senhor é um homem honrado, tem de cumprir sua palavra e casar-se comigo!
Passado o espanto, o rapaz viu que realmente tinha o dever de se casar com a sapa. Disse-lhe, então, que estava pronto para o casamento. A sapa ordenou, pois, ao rapaz que entrasse na lagoa e mergulhasse sem receio, nas suas águas.
O moço assim fez e viu-se, subitamente, num palácio deslumbrante, construído debaixo da lagoa. Estava tudo preparado para o casamento. Mas todos os habitantes do palácio, inclusive o padre, o sacristão, as testemunhas, os criados, os guardas eram sapos que coaxavam sem cessar.
Depois da cerimônia, o casal ficou residindo no palácio, onde havia todo o conforto. Todos os dias, havia banquetes, festas, concertos, peças de teatro, mas tudo feito, cantado e representado pelos sapos. A princípio, o rapaz achou tudo aquilo muito desagradável. Mas, com o correr do tempo, acostumou-se ao reino dos sapos, embora tivesse sempre saudades dos irmãos e do seu velho pai.
Aproximava-se, porém, o aniversário do lavrador. Havia muito tempo que essa data era festajada pelos parentes que, todos os anos, se reuniam em sua casa, para cumprimentar seu pai. Mas como poderia — pensava o rapaz — chegar em casa, casado com uma sapa ? Certamente, seria ridicularizado pelos irmãos e pelos outros parentes. Que fazer?
Resolveu dizer à sapa que precisava comparecer ao aniversário do seu pai. A esposa achou que êle fazia muito bem e começou a bordar uns lenços de seda para o sogro.
Afinal, chegou o dia da visita ao pai. Acompanhado da sapa, o rapaz tomou o caminho de sua casa. Quando o lavrador soube que o filho tinha casado com uma sapa, ficou muito triste. Mas não pôde deixar de admirar os lenços lindíssimos que a nora lhe ofereceu.
Na hora do jantar, o rapaz ficou indignado com as risa-das e indiretas dos irmãos e das cunhadas. Mas ficou calado. Deu o braço à esposa e caminhou para a mesa, sem se importar com o riso dos parentes e vizinhos.
Quando os dois esposos sentaram à mesa, aconteceu um fato inesperado. A sapa, de repente, transformou-se numa jovem lindíssima, ricamente vestida. O espanto foi geral.
A sapa era uma princesa. Anos atrás, havia sido encantada por uma feiticeira que tinha inveja de sua beleza. Somente poderia voltar à forma humana se encontrasse uni rapaz que a desposasse. Assim, a feiticeira pensava que a moça jamais seria desencantada.
O rapaz ficou radiante de alegria. Seus irmãos e cunhadas arrependeram-se do que haviam feito. E o velho lavrador não cabia em si de tanta satisfação.
No lugar onde se achava a lagoa, surgiu um lindo palácio, servido por criados e soldados que haviam sido encantados pela feiticeira.
O rapaz perdoou aos irmãos e, juntamente com a esposa e seu velho pai, foi residir no belo palácio, onde viveu, muito feliz, o resto de sua existência.

22/12/2010

A Árvore de Natal



Desde o século XVI que se tornou costume, na Alemanha, decorar, pelo Natal, os pinheiros. Ao conservar, em pleno Inverno, a sua folhagem verde, o pinheiro é um símbolo muito antigo do poder divino da vida que até mesmo o frio invernal não consegue vencer. A Árvore de Natal tem pois a sua origem numa antiga tradição germânica que consistia em pendurar nas casas, durante as “noites selvagens”, alguns ramos de verdura que afastavam os maus espíritos. Estes eram assim conjurados de duas formas: a árvore, sempre verde, transmitia a sua vitalidade aos homens e aos animais, e a sua luz, iluminando as trevas da noite universal, expulsava os demónios. Na tradição cristã, esta árvore sempre verdejante e, ainda por cima, iluminada, convida a que Cristo entre nas casas e delas elimine todos os espíritos do medo, da hostilidade e da inveja. Em pleno coração do Inverno escuro e frio, a árvore traz luz e calor ao nosso mundo.

Os cristãos viram no pinheiro de Natal a árvore do paraíso na qual se podem colher os “frutos da vida”. Estes são representados pelas maçãs e pelas nozes que, desde sempre, se penduraram nos ramos da árvore, ou então por bolas de vidro, imagens do paraíso na sua totalidade intacta. De acordo com uma lenda antiga, Adão, doente e moribundo, terá mandado ao paraíso o seu filho Seth para que lhe trouxesse um pouco da seiva da Árvore da Vida, com o fim de diminuir os seus sofrimentos. O Arcanjo Miguel teria então dito a Adão que, somente 5.500 anos depois é que o Filho de Deus viria à terra, para o levar até à Árvore da Vida, Árvore da Clemência e da Graça. No entanto, Miguel teria dado a Seth, no seguimento desta promessa solene, um rebento da árvore que deveria ser plantada na terra. É por isso que a Árvore de Natal é um rebento da Árvore da Graça até à qual Deus nos conduz pelo nascimento do seu Filho, para que a sua seiva apazigue os nossos sofrimentos.

A árvore é, para todos os povos, fonte de vida e símbolo importante de fertilidade. Na Antiguidade, cada árvore era atributo de um deus: o carvalho, o de Júpiter, o loureiro, o de Apolo, a murta, o de Vénus. O Antigo Testamento fala das Árvores do Jardim do Éden: a “Árvore da Vida”, e a “Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal”. O cristianismo pressentiu na Cruz a actualização da Árvore da Vida: a cruz é a árvore que traz até nós a verdadeira vida, a árvore que nunca seca, já que nela o próprio Cristo foi imolado. A árvore estabelece assim uma ligação entre a terra e o céu. Enraíza-se nas profundezas da Terra-Mãe, da qual tira a sua força; e, ao mesmo tempo, dirige-se para o céu e nele expande a sua copa. A árvore é pois a imagem do homem tal como este deveria ser: enraizado no solo e, no entanto, de pé, como um rei ostentando a coroa. E porque nos dá a sua sombra, a árvore é também um símbolo maternal. Pelo contrário, o seu tronco é visto muitas vezes como um símbolo fálico. É deste modo que o vegetal reúne os traços de virilidade e da feminilidade; não une apenas o céu à terra, mas ainda o homem à mulher.

A árvore de Natal acentua pois alguns dos aspectos relativos ao simbolismo geral da árvore. Em primeiro lugar, há a ligação entre o céu e a terra: no Natal, Deus faz desaparecer a fronteira entre os dois; é a partir da terra que podemos aceder ao céu. Em seguida, a imagem da Árvore de Natal foi certamente influenciada pela imagem da árvore que se abate mas que nasce de novo. Daí a promessa de Isaías relativa ao Advento: “Sairá um rebento da árvore de Jessé, um rebento surgirá das suas raízes” (Isaías, 11,1). É precisamente no momento em que falhamos, no momento em que somos amputados: quando o caminho nos conduz a um beco sem saída que, através do nascimento de Cristo, desponta em nós a certeza de uma vida nova, mais autêntica e bela do que a que conhecemos até então. A árvore de Natal é assim imagem de uma vida que, graças ao nascimento de Jesus, em nós desponta triunfante, vida essa que nenhum frio pode destruir; é também um sinal de que a guerra dos sexos está ultrapassada. Quando Deus vem ao mundo, deixa de fazer sentido a oposição entre o homem e a mulher, tornam-se os dois (todos nos tornamos) um com a sua natureza divina.

Eis pois a promessa que nos chega com a árvore de Natal, árvore continuamente verdejante, decorada com bolas, com velas e fitas cintilantes. Os ramos do pinheiro exalam um perfume único. Sempre que o respiro, sinto reviver em mim os sentimentos que eram os meus na infância. Tenho então a sensação de que a nossa casa, o meu quarto, foram transformados graças ao nascimento de Cristo, sinto que Deus se aproximou de mim e veio habitar o meu quarto, a minha casa, e que a Sua presença tão próxima difunde como que um perfume de ternura, de amor, ao mesmo tempo que uma sensação de segurança, idêntica à que sentimos quando estamos em casa. O que emana deste perfume de Natal não é a nostalgia mas antes a intuição de que o mistério, de que o próprio Deus, se encontra entre nós.

E é porque o mistério está entre nós que nos podemos sentir em casa, na nossa própria casa. Em casa, com o pinheiro, entra também a realidade da floresta, a própria realidade da natureza e de toda a criação; é então que desaparece a ruptura entre a natureza e a civilização, é então que temos a sensação de que, até mesmo no interior das nossas casas, partilhamos a força que emana da Terra Mãe. Ao tornar-se homem, Deus santificou toda a criação, e é enquanto seres humanos que nós participamos nessa criação santificada.

Que efeito produz, em ti que me lês, este perfume do pinheiro de Natal? Em tua casa, contempla a árvore de Natal e vê que imagens despertam em ti. A árvore decorada traduz um aspecto importante da Encarnação de Deus em Cristo. É toda a natureza que se transforma quando o próprio Deus desce sobre ela. O que se transforma não é apenas a tua vida passada, liberta dos seus males, nem a vitalidade da tua natureza animal; é também toda a tua componente vegetativa. Cristo quer penetrar no interior do teu corpo, penetrar no teu sistema nervoso vegetativo, para tudo poder transformar, para tudo curar. E quer encher-te com o perfume da divindade, para que possas, literalmente, sentir-te tu mesmo e para que te sintas bem na tua pele.


Anselm Grün, Curta Meditação sobre as Festas de Natal

18/12/2010

A avó e o S. Nicolau

Vou contar uma história que se passou quando eu era criança. A história do S. Nicolau e da avó.
A minha avó era pequena e franzina e a mim parecia-me muito velhinha. Não por ter rugas ou cabelo branco, mas pela roupa que usava, sempre escura e de um corte antiquado. Também andava sempre com um avental preto, até mesmo ao Domingo. O avental dos domingos era de seda e fazia barulho ao andar.

Todos os anos, no princípio de Dezembro, a avó vinha para nossa casa. Passava o Inverno connosco na cidade. Assim que a avó chegava, começava para mim a época de Natal. Ao crepúsculo das tardes de Inverno, sentávamo-nos as duas diante do fogão de cerâmica. Era um fogão grande e verde e irradiava um calor muito confortável. Nos outros quartos, os fogões eram de ferro e raramente se acendiam.
O fogão tinha uma portinhola por detrás da qual havia uma placa de ferro onde se podia assar maçãs. Ao assar, o cheirinho espalhava-se pela sala, e a avó ia-me lendo histórias em voz alta. Também fazíamos prendas de Natal.
Mas a nossa melhor brincadeira era “Vamos a Belém”, que todos os anos repetíamos. Durava vários dias, talvez semanas até, e deixava a casa em pantanas.
Nada estava a salvo quando andávamos à procura do equipamento para a nossa viagem. Precisávamos de lençóis para a nossa tenda – em que outro sítio se poderia dormir durante a longa viagem para a Terra Santa? Precisávamos de caixas e caixotes para fazermos um barco – de que outra forma poderíamos nós atravessar o Mediterrâneo? Precisávamos de cadeiras e de cobertores para fazermos animais de carga que nos transportassem a nós e à nossa bagagem.
Nessa altura, o meu pai acabava sempre por sentir que lhe faltava qualquer coisa: o martelo, o alicate, os pregos ou o rolo da corda. Uma vez até disse que lhe tinha desaparecido a câmara-de-ar da bicicleta. E tinha razão. Tínhamos precisado dela à última hora para as nossas provisões de água. O caminho passava pelo deserto e já se sabe que os viajantes passam sede por lá, se não levarem água suficiente.
Era sempre uma longa viagem cheia de peripécias. Em terra, tínhamos de vencer lutas com bandidos e animais ferozes. No mar, passávamos por tempestades que quase afundavam o nosso barco. Uma vez, salvei a avó pela saia, mesmo no momento em que ia ser cuspida borda fora
Mas acabávamos sempre por chegar sãs e salvas a Belém. E, como por magia, sempre no dia 24 de Dezembro!
Quando a avó estava em nossa casa, também se passavam coisas misteriosas. Uma vez, ao meter-me na cama, encontrei um grão de ouro na minha almofada. Grãos de ouro! De onde é que vêm os grãos de ouro? Só podem vir das asas dos anjos! Algum anjo devia ter passado a voar sobre a minha cama!
Quando perguntei à avó, ela sorriu, mas não respondeu.
Certa manhã, apareceu uma estrela pendurada no tecto por um fio transparente. Ninguém sabia quem a tinha lá posto. Também ninguém soube explicar como é que o minúsculo presépio feito numa casca de noz fora parar no meio dos meus lápis de cor.
O facto mais maravilhoso era a minha avó conhecer o S. Nicolau. Ela conhecia-o mesmo! Eu sei! Eu estava lá quando ele falou com ela, lá no parque.
Já disse que a avó era antiquada. Mas não era só antiquada na roupa. No resto também. Falava muitas vezes do tempo em que tudo escasseava e ela achava que as pessoas deviam ser mais poupadas no dinheiro e nas coisas.
A avó era-o. Por isso queria trazer o ramo seco que estava caído no caminho.
– Ainda serve para o fogão – disse ela. – Apanha-o, por favor.
Mas eu não queria.
– Não! – disse eu. E, quando ela tentou apanhá-lo, eu afastei-o.
– Nós não apanhamos lenha. Vão levá-la a casa.
Na altura, não sabia porque tinha sido tão impertinente com a avó, mas agora penso que foi por causa das pessoas que passavam. Não queria que pensassem que precisávamos de andar a apanhar a lenha da rua.
A avó hesitou. Reparei que não sabia o que fazer.
De repente, à nossa frente, apareceu um homem idoso. Estava ali como por magia. Alto e respeitável, com uma barba branca e olhos a brilhar.
– Faça favor, minha cara e honrada senhora – disse ele com uma leve vénia. A voz era grave e sonora.
Estremeci como se tivesse sido atingida por um raio. Aquela voz! Aqueles olhos! Aquela barba branca comprida! Só podia… era, de certeza… Nem me atrevia a continuar a pensar. “Minha cara e honrada senhora”, tinha ele dito à avó. Tinha-lhe feito uma vénia e a avó sorrira e agradecera-lhe.
Depois desapareceu. Tão repentinamente como aparecera.
No caminho para casa, não abri a boca. Tropeçava nas pedras do passeio e nas tampas do saneamento, e dentro de mim ia uma grande confusão.
Agora ele viu – pensava eu. – Agora ele já sabe como é que eu às vezes me porto.
A avó caminhava ao meu lado, em silêncio. O ramo meio seco ia a arrastar pelo chão. À porta de casa, não aguentei mais. Enterrei a cara nas pregas da gabardina da avó e desatei num pranto.
A avó deixou-me chorar. Não fez nada para me consolar, e eu pensava: “Agora vai ficar zangada comigo para sempre e aquele… aquele desconhecido do parque, também.”
Mas então reparei que ela se tinha debruçado sobre mim. Sentia a sua respiração quente nos meus cabelos e ouvia-a falar-me muito baixinho. O que dizia, não percebi, porque ainda soluçava com muita força. Não conseguia parar.
A avó então afastou-me um pouco dela e perguntou:
– Queres levá-lo para cima? Já é um pouco pesado para mim.
Claro que percebi imediatamente que se referia ao ramo e por um momento, sustive a respiração. Depois remexi no bolso, tirei um lenço e assoei as lágrimas que tinha no nariz.
– Dá cá! – disse. Peguei no ramo seco e subi ruidosamente as escadas.
Metemo-lo logo no fogão de cerâmica e ouvia-o a crepitar e a estalar.
“Será que ele sabe que fui eu que o carreguei para cima?”, pensava eu. A avó acenou-me com a cabeça e riu-se. Vi então que estava tudo bem outra vez e fiquei muito feliz com isso.


Tilde Michels, Anne Braun (org.), Weihnachtsgeschichten, Würzburg, Arena Verlag, 1991. Tradução e adaptação.




03/12/2010

A boneca



— Não leves sempre essa boneca suja contigo para a cama — disse a mãe de Eva.
— A minha Anita não é nenhuma boneca suja. — respondeu Eva — A minha Anita é muito querida.
— Mas está muito feia — continuou a mãe. — Olha só para a cara e para os cabelos dela!
Quando se olha para a boneca Anita, assim, sem se gostar dela, tem de se admitir. Bonita, não é. As bochechas estão cinzentas e a esboroar-se de tantos beijos e tantas lavagens. Já não tem propriamente um nariz, apenas uma saliência suja, e dos cabelos castanhos já só ficou um pequeno tufo de cabelos ralos.
Isto não incomodava Eva, mas a mãe dizia-lhe constantemente:
— Não queres pedir uma boneca nova pelo Natal? — perguntava-lhe.
Eva apertava a Anita contra si e dizia:
— Não!
— Tenho outra ideia — disse a mãe. — Vamos levar a Anita a um hospital de bonecas e lá põem-lhe cabelo novo e outro nariz.
Eva defendia-se. Não queria entregar a Anita.
Mas, certo dia, Alex, o irmão mais velho, disse uma coisa feia, uma coisa muito má. Disse:
— A tua boneca é um careca tinhoso!
Eva desatou a chorar. Depois, observou a sua Anita pela primeira vez com olhos de ver. Era verdade! A cara da Anita estava cheia de nódoas e a descamar-se, e quase totalmente careca.
Eva correu para a mãe.
— Achas — disse a soluçar — que no hospital das bonecas vão ser bons para a minha Anita?
— Mas claro que sim! — sossegou-a a mãe.
— Então… Por mim, podes levá-la…
Logo na manhã seguinte, a mãe foi ao hospital das bonecas. Era o único na cidade, pois já não havia muita gente que mandasse consertar bonecas.
No hospital das bonecas, um homem examinou a Anita.
— Tem pouco que se aproveite. Precisa de uma cabeça nova, e os braços e as pernas também deviam ser substituídos.
Apresentou à mãe diversas cabeças de bonecas, mas não havia nenhuma que fosse igual à da Anita.
— Além disso — continuou o homem — a reparação custa mais do que uma boneca nova.
A mãe de Eva procurou em todas as lojas de brinquedos uma boneca que, pelo menos, fosse mais ou menos semelhante à antiga Anita. Acabou por comprar uma do mesmo tamanho e com os mesmos cabelos castanhos. No resto, a nova boneca era um pouco diferente, mas encantadora, e tinha uma cara que se podia lavar com água.
Quando chegou a casa com as duas Anitas, a nova e a velha, Eva ainda estava no infantário. Mas Alex já tinha vindo da escola e descobriu a caixa no cesto de compras da mãe.
— Aha! — disse. — Compras de Natal!
— Uma boneca nova para a Eva — respondeu a mãe. — Mas ela não pode saber. Tem de pensar que é a sua Anita.
— Aha! — disse Alex. — Mentiras de Natal!
— Não sejas atrevido — disse a mãe. — É o melhor para a Eva.
— Deixa-a lá ficar com o careca tinhoso — disse Alex.
A mãe arrumou a caixa com a nova boneca no armário da roupa.
— Fico contente por finalmente nos vermos livres daquela coisa tão estragada.
Atirou a Alex o saco de plástico com a antiga boneca.
— Toma — disse. — Mete-a no contentor do lixo, mas lá para o fundo.
Alex pegou na boneca e saiu do quarto a assobiar baixinho.
Desde que a Anita desaparecera, Eva perguntava por ela todos os dias.
— A minha Anita ainda está no hospital? O homem é simpático com ela? Ela não tem saudades? Vou mesmo voltar a tê-la pelo Natal?
E a mãe respondia sempre:
— Sim, Eva. Com certeza, Eva. Não te preocupes, Eva.
Para a noite de Natal, a mãe de Eva vestiu à nova boneca o vestido da Anita e pô-la debaixo da árvore. Com o vestido vermelho, achava a mãe, ficava mesmo parecida com a Anita.
Mas, quando estendeu a boneca a Eva e disse:
— Ora vê como ficou linda a tua Anita! — Eva não aceitou e cruzou as mãos atrás das costas.
— Não! — gritou. — Essa não é a minha Anita!
E olhava decepcionada para a nova boneca:
— Eu quero a minha Anita… a minha Anita! — e começou a chorar baixinho sem parar.
A mãe não contara com isto e tentou consolar Eva. Mostrava-lhe outras prendas, levava-a à árvore de Natal, mas Eva mantinha os olhos baixos. Não queria ouvir nada nem ver prenda nenhuma.
— Anita! —queixava-se a menina. — Onde é que puseram a minha Anita?
Disse então Alex:
— Se não lhe devolverem o careca tinhoso, vai estragar-nos a festa de Natal.
— Mas… — balbuciou a mãe — tu deitaste…
— Achas? — perguntou Alex.
Correu ao quarto e regressou com um saco de plástico que meteu nas mãos de Eva.
— Anita! — gritou Eva, tirando do saco a velha boneca careca.
Alex sorria.
— E o que vais fazer agora à boneca nova?
— Esta? — perguntou Eva. — Vou dá-la a uma menina que eu não conheça.
— A uma menina… — repetiu Alex. — Ah, claro. Ela não pode ficar a saber que tens uma boneca careca fantástica!


Tilde Michels, Anne Braun (org.), Weihnachtsgeschichten, Würzburg, Arena Verlag, 1991.
Texto traduzido e adaptado



25/11/2010

A mulher que veio do ovo

Um jovem saiu em busca de uma esposa, pois não gostava de nenhuma das donzelas de sua aldeia. A mãe disse que ele procurasse em outro lugar, mas certamente a fome o traria de volta, ou a sede.
Enquanto o rapaz atravessava a floresta, seu estômago logo deu sinal de fome e sua garganta ficou seca. Ele viu um ninho no alto de uma árvore e subiu até lá, em busca de ovos para comer. Encontrou três ovos e, quando estava de volta ao chão, quebrou-se um dos ovos. Para sua surpresa , uma linda donzela surgiu à sua frente.
-Dê-me água, disse ela, e eu serei sua, assim como você será meu!
O rapaz não tinha água, e a moça desapareceu. Ele quebrou o segundo ovo e surgiu outra donzela ainda mais bonita que também lhe pediu água.
- Dê-me água, disse ela, e serei sua, assim como você será meu!
Antes que ele conseguisse arranjar água, ela desapareceu. Ele, mais experiente, procurou onde arranjar água antes de abrir o terceiro ovo. Encontrou um poço, encheu uma taça com água e então, quebrou o ovo que faltava. Apareceu uma donzela deslumbrante, vestida com uma túnica dourada e, no mesmo instante ele se apaixonou por ela. Ela disse:
- Dê-me água, e eu serei sua, assim como você será meu!
Ele ofereceu a taça com a água que apanhara no poço, e ela bebeu dizendo: Agora eu sou sua e você é meu!
O rapaz desejava imensamente que a donzela voltasse com ele para casa, então lhe disse: - Se você esperar por mim aqui, junto deste poço, buscarei uma carruagem para levá-la até minha casa. Ela concordou e ficou esperando perto do poço. Logo em seguida, uma bruxa, aproximou-se dela acompanhada de sua horrível filha e lhe perguntou: - Por que você está aqui tão só?
A donzela respondeu: -Estou esperando por quem será meu marido, ele foi buscar uma carruagem para me levar até sua casa.
A bruxa pensou: “Isso é o que você pensa!” Agarrou a jovem, tirou-lhe as roupas e gritou: - Será a minha filha que será a mulher que o rapaz levará para casa, e não você!
A jovem saltou para dentro do poço, empurrada pela bruxa e, tornou-se um peixe, nadando até sumir.
Pouco depois, chegou o rapaz com a carruagem. Quando viu aquela mulher horrível, recuou e perguntou: - O que aconteceu com você? Você era tão linda quando te deixei aqui!
- Infelizmente, falou ela, você me deixou exposta ao sol e eu fiquei assim, preta. Mas, se você me levar para sua casa , tomarei banho e voltarei a ser linda novamente. Ele concordou e foram para a casa dele, mas quando a mãe dele viu a mulher, exclamou: - Sua noiva é uma impostora!
A filha da bruxa, banhou-se, mas não mudou em nada. O rapaz cumpriu o que prometera e casou-se com ela, mesmo ela sendo horrível.
No dia do casamento, ela deitou-se na cama e disse: - Só uma coisa pode devolver-me a beleza, comer um peixe mágico, que vive dentro do poço, onde eu te esperei. Se eu comê-lo, volto a ser o que era.
O rapaz, no dia seguinte, mandou esvaziar o poço, e capturou o único peixe que ali existia. Trouxe-o para casa, e sua esposa comeu-o todo com imenso prazer, jogando as espinhas no quintal, porém continuou feia como antes.
No dia seguinte, um pato surgiu vindo da casa da vizinha, que era uma velha que trabalhava na casa do rapaz, e comeu todas as espinhas. Em poucos dias, o pato começou a ter penas douradas. A velha ficou muito admirada e arrancou algumas colocando-as numa vasilha.
Dias depois, a velha foi à Igreja e quando voltou, se surpreendeu porque seu jantar sumira. Alguém comera, pensou ela. Isso aconteceu durante três dias seguidos. Mas no terceiro dia, a velha voltou do meio do caminho, e espiou pelo buraco da porta e viu uma linda jovem de cabelos dourados, sair de dentro da vasilha de penas douradas e comer sua comida. A velha correu para dentro de casa e tocou na moça, o que a libertou. Daí em diante, as duas viveram juntas. Toda a manhã, a velha ia trabalhar na casa do rapaz. Certo dia, a moça perguntou à velha: - Deixe-me ir no seu lugar hoje, para trabalhar para o vizinho? A velha disse que não, porque o rapaz se a visse desejaria ficar com ela.
Bem, disse a moça, usarei roupas bem velhas e sujas, ele nem me olhará duas vezes. Assim fez, feito maltrapilha, foi para casa do rapaz.
Quando entrou, ele olhou-a rapidamente, mas olhou uma segunda vez e a reconheceu. Pediu então, às mulheres que contassem uma história para passar o tempo. Sua mãe contou uma história, após ela a feia, mas quando chegou a vez da maltrapilha, ela disse: - Não tenho história para contar, só um sonho.
Serve, disse o rapaz.
Ela começou a contar o sonho. Certa vez, sonhei com um rapaz que não gostava de nenhuma moça de sua aldeia. Ele foi embora em busca de uma esposa. No caminho, encontrou um ninho com três ovos de ave. Quando quebrou o primeiro a donzela que surgiu de dentro dele pediu água... Nisso a feia começou a andar de um lado para o outro. Voltou-se para o marido e perguntou: - Por que você não vai desconsar um pouco?
Não, disse ele, quero escutar a história dela, insistiu o rapaz, e, assim, a moça descreveu tudo que acontecera com ela, mas não sabia como o sonho acabara , porque acordara quando o rapaz fora buscar a carruagem.
Tente lembrar-se, insistiu o rapaz, mas ela só lembrava da bruxa e de sua filha horrível. Quando o rapaz ouviu isso, agarrou a sua mulher e trancou-a no quarto. Foi depois até a casa da bruxa e perguntou:- O que você acha de uma pessoa que rouba a esposa de um homem, tenta matá-la e a substitui por uma medonha?
A bruxa respondeu: - Ora, essa pessoa devia ser trancada num barril cheio de pregos e jogada do alto da maior montanha que existir e também a falsa esposa.
Foi exactamente o que o rapaz fez. Jogou mãe e filha pela montanha abaixo e casou-se com a donzela que veio do ovo e viveram felizes!!!

Conto da Alemanha

23/11/2010

A baba do passarinho

Há tempos atrás, num país longe daqui, existia um rei muito sábio e bondoso. Seus súbditos o amavam e respeitavam, pois no reino todos viviam felizes.
Um dia, porém, correu pelo país uma no­tícia muito triste: o rei estava doente, vítima de um mal terrível que o deixara cego dos dois olhos. E os médicos da corte, por mais que se esforçassem, nada conseguiram fa­zer para curá-lo. Vieram também outros ­dicos, de todos os cantos do mundo, mas ne­nhum deles, nem mesmo o mais sábio de to­dos, conseguiu encontrar a cura para a es­tranha doença do rei.
O reino inteiro mergulhou, então, numa profunda tristeza. O pobre rei, achando que só um milagre poderia salvá-lo, passou a fi­car horas e horas rezando, pedindo a Deus que o fizesse voltar a enxergar.
Até que uma noite, enquanto rezava, o rei ouviu uma voz suave, que lhe disse:
"Longe, muito longe, no lugar onde o seu reino termina, há uma fada, presa num cas­telo de ferro e guardada por um feroz dragão. Na sala ao lado de onde ela fica trancada, também está prisioneiro um passarinho, nu­ma gaiola de diamantes. Esta ave é encan­tada e, quando canta, deixa escorrer pelo bico uma baba muito fina e perfumada.
Se alguém juntar essa baba e passá-la por três vezes nos olhos de um cego, ele voltará a enxergar imediatamente.
Para se apoderar do pássaro encantado, é preciso antes libertar a fada do encanta­mento. E o ousado jovem que realizar esse feito terá como recompensa a mão da fada em casamento, ela que é na verdade uma princesa muito rica e poderosa."
Depois de dizer isso, a voz se calou tão misteriosamente quanto havia surgido. E o rei não conseguiu dormir o resto da noite, tamanha era sua ansiedade.
No dia seguinte, mal o sol nasceu, man­dou anunciar a todo o povo a revelação que lhe havia sido feita. Os jovens corajosos do reino foram convocados para saírem em bus­ca do castelo de ferro e do prémio destinado a quem desencantasse a fada e o passarinho.

Não faltaram pretendentes para a em­preitada, e logo todos os jovens do país come­çaram a se preparar para a viagem.

Em frente ao palácio real morava um viúvo que tinha três filhos. O mais moço dos três, que se chamava Lúcio, era uma cria­tura muito bondosa. Os dois mais velhos eram maus e invejosos e viviam fazendo de tudo para humilhar e aborrecer o irmão. Logo que ficaram sabendo da convocação do rei, os dois iniciaram os preparativos para a viagem. E, quando Lúcio veio dizer-lhes que pretendia ir também, os dois ficaram furio­sos e disseram:
— Seu tolo! Você pensa que uma aventura como essa é coisa para crianças? Vamos enfrentar muitos perigos pelo caminho, e um boboca como você só iria nos dar tra­balho!
Lúcio, porém, era persistente. E insistiu tanto que o pai obrigou os irmãos a levarem-no. Os dois malvados, entretanto, assim que saíram de casa, já combinaram um jeito de se livrarem do irmão. E, na primeira noite que passaram na mata, esperaram que Lúcio dormisse profundamente para lhe roubarem todo o dinheiro. Depois partiram em silên­cio, deixando-lhe apenas o cavalo e um pouco de comida.
Na manhã seguinte, ao acordar e ver que tinha sido roubado e abandonado pelos ir­mãos, Lúcio ficou muito triste. Mas, como era um rapaz corajoso e decidido, resolveu não voltar para casa e tentar encontrar sozi­nho o castelo de ferro.
Seguiu cavalgando sem saber bem para onde, até chegar à margem de um rio, onde viu sentado um velho muito pobre, quase mor­to de fome e com o corpo cheio de feridas.
Lúcio, que tinha bom coração, teve pena do velho. Desceu do cavalo e, depois de divi­dir com o pobre homem a pouca comida que ainda possuía, lavou-o e tratou de suas feri­das. Além disso, tirou da sacola a única mu­da de roupa que trazia e entregou-a ao velho.
— Muito obrigado, meu bom rapaz! — disse o homem, olhando-o agradecido. — Seu coração é muito bom e você vai ser recompen­sado. Sei que deixou a cidade em busca do pássaro encantado, para curar o rei. Essa é uma tarefa muito difícil e perigosa, mas eu vou ajudá-lo. Seus irmãos passaram por mim antes de você, e não quiseram me socorrer. Eles são muito maus e, por isso, jamais con­seguirão encontrar o castelo de ferro!
— Mas quem é o senhor, meu bom velho? — perguntou Lúcio, admirado.
— Sou o protetor dos bons, meu filho. E agora vou guiá-lo, para que você seja feliz. Ouça com atenção: perto daqui há uma fa­zenda, onde você deve dormir esta noite. Como está sem dinheiro, logo que chegar venda o seu cavalo, pois ele de nada vai lhe servir. Com parte do dinheiro, compre o cavalo mais magro, velho e doente que en­contrar na fazenda. Escolha mesmo o pior de todos, aquele que já estiver cercado pelos urubus. Não se importe com comentários. Monte nele e saia. Assim que deixar a fa­zenda, ele se transformará num animal forte e bonito, que, em vez de correr, voa velozmen­te. Ele o levará ao castelo de ferro. Logo na entrada do castelo, você vai encontrar o dra­gão alado, que mantém prisioneiros a fada e o passarinho. A chave do castelo fica es­condida na garganta desse monstro e, para consegui-la, você precisa esperar que ele es­teja dormindo. Mas o dragão, para enga­nar quem se aproxima do castelo, dorme com os olhos abertos. Por isso, se, quando você chegar, ele estiver com os olhos fecha­dos, não se aproxime, pois ele estará acor­dado! Ao contrário, se seus olhos estiverem escancarados, tire a chave da garganta dele sem medo e abra a porta do castelo. Logo na primeira sala, vai encontrar a fada, que você desencantará, tirando a chave de ouro que ela carrega no pescoço. Esta chave abre a sala seguinte, onde está preso o passarinho. Mas tome muito cuidado: não deixe que a beleza da fada o seduza, porque senão você não conseguirá fazer nada e ainda cairá prisioneiro do monstro. E não se preocupe com a fada, porque ela, depois de desencan­tada, não correrá mais perigo. Preocupe-se apenas em fugir dali com o pássaro o mais rápido possível. Pois o dragão logo acorda­ para sair em sua perseguição. Fuja mon­tado no cavalo alado e, quando o monstro es­tiver quase para alcançá-lo, desmonte e, com esta espada que lhe entrego, abra a barriga do cavalo e se esconda com o passarinho lá dentro, gritando: "A mim, bom velho!". De­pois que o dragão for embora, saia da bar­riga do cavalo e costure-a com esta agulha e esta linha que estou lhe dando, e verá que ele voltará a viver e a voar tão bem quanto antes. O monstro voltará a persegui-lo e, quando ele estiver bem perto de você, grite de novo por mim e lance ao ar este punhado de alfinetes; mais adiante, este punhado de cinzas e, depois, este monte de sal, sempre chamando por mim. De volta à fazenda, venda o cavalo, porque não vai precisar mais dele. Com o dinheiro, compre de novo o seu e, sem perder tempo, volte depressa ao reino. E não pare por nada no mundo, enquanto não receber as bênçãos de seu pai, que está muito preocupado com você.
Lúcio beijou as mãos do velho e agrade­ceu-lhe. Guardou bem a espada, a agulha, a linha, os alfinetes, as cinzas, o sal e seguiu viagem.
Chegou à fazenda ao anoitecer, cansado e faminto. Vendeu o cavalo e usou parte do dinheiro para pagar a hospedagem. Com o que sobrou, comprou, no dia seguinte, o ca­valo mais velho e fraco que havia no lugar. Era um animal tão magro e acabado, que o próprio Lúcio chegou a duvidar das palavras do velho. Até o dono da fazenda não queria acreditar que alguém quisesse mesmo comprar um animal em tal estado.
Mas Lúcio não se arrependeu de seguir fielmente as recomendações do bom velho, pois, assim que saiu da fazenda montado no cavalo, ele começou a engordar e a correr. Dali a pouco, criou asas e, logo em seguida, Lúcio saía voando numa rapidez incrível.

No fim de algumas horas de viagem, che­gou ao castelo de ferro. Bem na entrada, en­xergou o dragão, que por sorte estava com os olhos arregalados e portanto dormia. A boca enorme do monstro estava escancara­da; por isso não foi difícil tirar a chave de dentro da garganta e com ela abrir a porta do castelo.

Logo na primeira sala, Lúcio encontrou a fada. Ela era mesmo lindíssima e a sua beleza seduziu tanto o jovem, que ele ficou ali parado, sem conseguir despregar os olhos daquele belo rosto. Mas o cavalo alado, per­cebendo o perigo, bateu três vezes com a pata no chão para avisar a Lúcio do perigo que corria. Lembrando-se imediatamente das pa­lavras do velho, ele tirou logo a chave de ouro do pescoço da fada, que se desencantou, voltando a ser uma princesa. Lúcio nem olhou para trás. Correu até a sala seguinte, tirou dali a gaiola de diamantes com o passa­rinho encantado e mal teve tempo de montar no cavalo e sair voando. O dragão acordou e imediatamente se deu conta do que tinha acontecido e, mais rápido do que o vento, saiu no encalço de Lúcio.
Seguindo as recomendações do velho, ele esperou que o dragão chegasse bem perto para desmontar. Depois, abriu a barriga do cavalo com a espada que o velho tinha dado e se escondeu lá dentro junto com a gaiola do passarinho, gritando:
— A mim, bom velho!
O monstro, desnorteado, parou. Farejou em volta do cavalo e, vendo-o morto, pensou que havia perdido a pista dos fugitivos. De­sesperado, saiu voando ao léu, à procura de nova pista.
Lúcio saiu então da barriga do cavalo, costurou-a com a agulha e a linha que trazia e imediatamente o animal se recuperou e se­guiram viagem voando a toda velocidade.
Mas não demorou para que o monstro reaparecesse, mais rápido e mais furioso ainda, voando perto deles. Já quase alcan­çava o cavalo, quando Lúcio jogou para o ar o punhado de alfinetes, gritando:
— A mim, bom velho!
E viu, maravilhado, os alfinetes se trans­formarem num espinheiro enorme e tão fe­chado que o dragão ficou preso, levando um bom tempo para conseguir se soltar.
Lúcio aproveitou esse tempo para tomar fôlego e tentar ganhar distância de seu perse­guidor. Mas o dragão era mesmo muito ve­loz, pois logo os alcançava de novo. Quando já estava quase por apanhá-los, Lúcio atirou o punhado de cinzas para o ar e gritou:
— A mim, bom velho!
E as cinzas se transformaram, como por milagre, numa neblina tão forte que o dragão não conseguia enxergar, ficando desnorteado. Só com muita dificuldade foi que conse­guiu passar e recomeçar a perseguição ao cavalo alado, que já ia longe.
Logo depois, entretanto, lá estava ele de novo tentando alcançá-los. Lúcio, então, pe­gou a última coisa que lhe restava, o punha­do de sal, e o atirou ao ar, rezando para que isso o livrasse de uma vez do terrível mons­tro. Enquanto o sal caía, gritou, como sem­pre:
— A mim, bom velho!
E, olhando para trás, viu surgir um ocea­no imenso, que engoliu o dragão com suas ondas gigantescas. O monstro ainda tentou escapar, mas, como suas asas estavam mo­lhadas, não conseguiu. Ficou se debatendo nas águas furiosamente, até desaparecer no fundo do mar.
Lúcio suspirou aliviado, e, seguindo as recomendações do velho, não parou um ins­tante. Seguiu voando, o mais rápido que po­dia, em direção à fazenda. Lá chegando, não perdeu tempo: vendeu o cavalo, que agora já não tinha asas, mas que continuava forte e muito bonito, e com o dinheiro comprou o seu de volta. E partiu, levando a gaiola com o passarinho.
Já ia bem longe, em direção à casa do pai, quando viu dois homens cavalgando. Reconheceu neles seus irmãos e, esquecendo-se das palavras do seu protetor, parou para encontrá-los.
Os dois malvados estavam cansados e famintos, pois haviam viajado horas seguidas, sem nada encontrar. Ao verem Lúcio, fin­giram ficar felizes com o encontro, mas a ver­dade era bem outra. Eles não se agüentavam de inveja e ciúme por Lúcio ter conseguido encontrar o pássaro encantado. Arrancaram-lhe, então, a gaiola das mãos e depois, para que ele não os denunciasse, bateram-lhe mui­to e lhe furaram os olhos, deixando-o quase morto na beira da estrada.
Ao chegarem em casa, mentiram ao pai, dizendo que Lúcio havia morrido no castelo de ferro. E, sem se preocuparem com a tris­teza do velho, tiraram o passarinho da gaiola de diamantes para levá-lo ao palácio do rei.
A corte inteira recebeu os dois mentirosos com todas as honras, e o rei, cheio de espe­rança, ordenou que levassem o passarinho para perto de seu trono.
Na sala real, todos aguardaram em si­lêncio absoluto que a ave encantada come­çasse a cantar. Mas, para decepção do rei e dos membros da corte, o passarinho não só ficou mudo, como se recolheu a um cantinho da nova gaiola que lhe deram, cada vez mais triste e recusando tudo que lhe ofereciam para comer.
O rei, desesperado, vendo que o passari­nho se recusava a cantar, achou que a voz que ouvira naquela noite não era mais que uma zombaria que lhe haviam feito. E, muito triste, deixou-se ficar sentado no trono, sem ânimo para nada.
Enquanto isso, ainda na beira da estrada, Lúcio chorava de dor e de mágoa pelo que os irmãos lhe haviam feito. Não conseguia en­tender o porquê de tanta maldade e, chorando amargamente, esperava que a morte o levasse, livrando-o de tanto sofrimento. De repente, lembrou-se mais uma vez do seu velho protetor e de como ele havia prometido sempre ajudá-lo. Assim, juntou as últi­mas forças que lhe restavam e gritou o mais alto que pôde:
— A mim, bom velho!
No mesmo instante, ouviu passos ao seu lado. E, com o coração cheio de alegria, ou­viu a voz do velho dizer:
— Meu filho, eu lhe disse que andava pelo mundo escolhendo os bons, para protegê-los. Você me socorreu quando eu precisava de ajuda; por isso, estou aqui para ajudá-lo também.
E, depois de dizer isso, levou Lúcio para um rio perto dali, curou-lhe as feridas e disse:
— Não fique triste por estar cego, por­ que você logo voltará a enxergar. O passa­rinho está ao lado do rei, mas não cantará enquanto seu verdadeiro salvador não che­gar ao palácio. Eu levarei você até lá.
E, tomando a mão de Lúcio, o velho o conduziu até o palácio. Na sala real, o rei continuava sentado no trono, sem nenhuma esperança de se ver curado da sua doença. Entretanto, assim que o rapaz entrou na sala, o passarinho encantado recuperou-se e saiu voando em sua direcção. E no palácio inteiro reinou o mais profundo silêncio, enquanto ele cantava maravilhosamente, pousado na mão do seu salvador.
O velho recolheu, então, a baba encanta­da que escorria do bico da ave e passou-a por três vezes nos olhos do rei e de Lúcio, que voltaram imediatamente a enxergar. Pelo reino inteiro espalhou-se uma enorme alegria e o rei, completamente curado, encarregou seus ministros de prepararem a maior festa que o reino já havia tido até então.
Na madrugada seguinte, quando o povo todo se preparava para iniciar os festejos, surgiu na cidade, sem que ninguém soubesse explicar como, um magnífico palácio. De sua entrada partiam três luxuosas estradas: uma forrada de ouro, outra de prata e outra de veludo.
O povo inteiro, tendo o rei à frente, olhava pasmado para o palácio, quando de repente viram sair dele uma carruagem belíssima, toda feita de ouro e cravejada de brilhantes, puxada por seis cavalos brancos. Dentro dela vinha a princesa, ricamente vestida e mais linda do que nunca.
Todos a saudaram com muita alegria e o rei foi recebê-la pessoalmente, dando-lhe as boas-vindas.
— Estou aqui — disse ela — para me casar com o jovem corajoso que libertou a mim e ao passarinho encantado daquele dragão terrível!
O rei lhe respondeu que teria muito pra­zer em realizar aquele casamento, mas como saber a quem cabia o prêmio, se três jovens tinham aparecido para reclamá-lo?
— Só um foi o meu salvador — disse a princesa. — E, para saber qual deles diz a verdade, mande buscá-los, um de cada vez, em minha carruagem, e diga-lhes para escolherem uma das três estradas para chegar ao meu palácio. O mais humilde deles esco­lherá a estrada mais pobre, e esse será sau­dado pelo passarinho, que o reconhecerá.
Assim fez o rei. Mandou buscar o irmão mais velho de Lúcio, ordenando-lhe que indi­casse a estrada que levava ao palácio encan­tado. Quando chegou no lugar onde começa­vam as três estradas, o rapaz gritou para o cocheiro:
— Pela estrada de ouro!
E lá se foi a carruagem. Diante da fada, o irmão mais velho ajoelhou-se e beijou-lhe as mãos. Mas o passarinho ficou mudo, sem dar sinais de reconhecê-lo, e o rapaz teve de voltar para casa.
O rei mandou buscar, então, o segundo irmão, e também o orientou para que esco­lhesse a estrada pela qual queria seguir.
— Pela estrada de prata! — respondeu ele ao cocheiro.
Ao chegar ao palácio e beijar as mãos da princesa, entretanto, novamente o passarinho se manteve mudo. E, furioso, o segundo ir­mão também teve de voltar para casa.
Chegou a vez de Lúcio, e a carruagem parou no início das estradas, para que ele escolhesse por qual delas queria ir.
Lúcio, sem pensar duas vezes, imediata­mente escolheu a estrada de veludo.
Mal a carruagem partiu em direção ao palácio, o pássaro encantado começou a can­tar e saiu voando ao encontro de seu salvador.
Sempre acompanhado pelo passarinho, Lúcio chegou ao palácio. Aproximou-se da princesa, que o esperava sorrindo, e ajoe­lhou-se a seus pés. E, enquanto lhe beijava as mãos, o pássaro encantado voou por sobre a cabeça da jovem, transformando-se na coroa mais bonita e rica que já se viu no mundo.
No dia seguinte, Lúcio e a princesa se casaram em meio a muita alegria e a grandes festas.
Quanto aos dois irmãos malvados, o rei os condenou à morte, como castigo por todo o mal que haviam cometido.


Autoria desconhecida.

19/11/2010

O espelho, a bota e o cravo



HÁ muitos anos, houve um rei que tinha uma filha muito bonita e graciosa. Quando chegou a ocasião de a moça se casar, apareceram três príncipes, cada qual mais belo e rico. A princesa ficou hesitante entre os três candidatos. Assim, o rei, para resolver a questão, declarou que sua filha só se casaria com aquele que trouxesse um presente que mais lhe causasse admiração.
Os três príncipes aceitaram a sugestão do rei e partiram. Quando chegaram a um lugar em que a estrada se dividia em três caminhos, despediram-se e marcaram o dia em que deveriam reunir-se novamente naquele ponto. Depois, cai la um seguiu por um caminho.
O príncipe mais velho viajou durante vários dias, até que chegou a uma grande cidade. Quando atravessava uma praça, ouviu um menino gritar:
— Quem quer comprar um espelho mágico?
O príncipe aproximou-se e perguntou qual a virtude daquele espelho. O menino respondeu:
— Este espelho tem o poder de refletir tudo o que se passa em qualquer lugar.
O príncipe disse consigo:
— Com este espelho me casarei, na certa, com a princesa.
E adquiriu o espelho mágico.
O segundo príncipe fez também uma longa viagem e foi parar em outra grande cidade. Passeava por uma rua, quando ouviu um homem gritando:
— Quem quer comprar uma bota mágica?
O príncipe aproximou-se e perguntou qual a virtude daquela bota. O homem então respondeu:
— Esta bota tem o poder de levar a pessoa ao lugar que desejar.
O moço disse consigo:
— Com esta bota me casarei, na certa, com a princesa. E a comprou.
O príncipe mais moço viajou durante muitos dias e, por fim, chegou a uma cidade muito grande. Passava por um jardim e ouviu um menino gritando:
— Quem quer comprar um cravo mágico?
O rapaz perguntou qual a virtude daquela flor. E o menino respondeu:
— Este cravo tem o poder de dar a vida a quem estiver morto.
O príncipe disse logo consigo:
— Com este cravo me casarei, na cei ta, com a princesa. E adquiriu a flor mágica.
Quando chegou o dia marcado, os rapazes reuniram i na mesma estrada. O príncipe mais velho abriu o seu espelhi para o mostrar aos outros rapazes. Viram então que a bela princesa estava deitada no leito, morta. Ficaram desesperados. O príncipe mais moço exclamou:
- Se eu pudesse chegar agora ao palácio salvaria a princesa!
O segundo príncipe então disse: — Entrem nesta bota e estaremos lá agora mesmo!
Num instante, chegaram ao palácio. Correram para o quarto da princesa. O príncipe mais moço aproximou sen cravo mágico do nariz da morta. Imediatamente, a princesa ressuscitou.
Surgiu então um problema difícil de ser resolvido. Quen deveria casar-se com a linda princesa?
— Sou eu, dizia o príncipe mais velho. Se não fosse o meu espelho, vocês não saberiam que ela estava morta!
— Sou eu, gritava o segundo príncipe. Sem a minha bota, vocês não chegariam a tempo de salvar a princesa!
— Sou eu, exclamava o príncipe mais moço. Se não fosse o meu cravo, ela não estaria viva!
A discussão prolongou-se por muito tempo. O rei não sabia o que fazer, pois achava que todos os três rapazes tinham razão. Afinal, a princesa que não queria ficar solteirona, decidiu a questão. Casou com o príncipe mais moço porque já estava apaixonada por ele. Os outros príncípes casaram-se com as primas da princesa, também princesas. E assim acabou a história em paz.

06/11/2010

A história do perdão


O pai de Hanoch contou-lhe que, todos os anos, quando era novo, na véspera do Yom Kippur * , ia visitar os seus amigos e conhecidos e fazia-lhes a seguinte pergunta:
— Digam-me, por favor, se vos fiz algum mal, se vos ofendi de alguma forma, ou fui causa de infelicidade. Se o fui, lamento profundamente e peço-vos perdão.
Esta história deu que pensar a Hanoch. O rapaz disse para consigo “E porque não faço eu a mesma coisa?”
Correu para a cozinha, onde a mãe preparava o jantar, atarefada. Reinava ali um grande reboliço, com panelas e frigideiras a fumegar, e um cheirinho agradável no ar.
Ficou junto da porta e esperou pelo momento certo para falar com a mãe. Quando esta o viu, deixou as sertãs e perguntou-lhe:
— O que se passa, filho? Já tens fome?
Hanoch não respondeu. Sentia-se desconfortável.
— Porque estás tão calado, querido? — insistiu a mãe. — Não te sentes bem? Diz-me o que se passa.
— Não estou doente, mamã.
— Nesse caso, o que traz à cozinha no meio da minha azáfama? É melhor ires brincar.
Hanoch foi até junto da mãe e segredou-lhe:
— Hoje é véspera do Yom Kippur e venho pedir-te que me perdoes.
— Perdoar-te, filho? Porquê? Que pecado cometeste?
— Talvez te tenhas esquecido, mamã. Foi quando tiveste aquela dor de cabeça, e estavas deitada. Pediste-me que guardasse as galinhas na capoeira. Prometi-te que o faria, mas fui brincar com as outras crianças. Fui andar com elas de bicicleta e esqueci-me das galinhas. E cinco galinhas foram encontradas mortas na manhã seguinte. Não te disse nada naquela altura porque me sentia muito infeliz.
Enquanto falava, Hanoch tinha lágrimas nos olhos.
— Mas hoje tive de te contar e pedir-te que me perdoes.
A mãe olhou para ele com amor e beijou-o.
— Claro que te perdoo!
O menino abraçou-a e, com o coração já bem mais leve, foi brincar.


Conto de Israel


*O Yom Kipur ou Kippur é um dos dias mais importantes do judaísmo. No calendário hebreu começa no crepúsculo que inicia o décimo dia do mês hebreu de Tishrei (que coincide com Setembro ou Outubro), continuando até ao pôr-do-sol seguinte. Os judeus observam tradicionalmente esse feriado com um período de jejum e orações.



Levin Kipnis
Let us play in Israel
Tel-Aviv, N. Tversky Publishing House, 1966
tradução e adaptação