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14/10/2011

Sansão e Dalila

Sansão, cujo nome significava "homem do sol", era um nazareno dotado de extraordinária força. Era um dos juízes bíblicos cuja história está descrita no Livro dos Juízes (13-16) e no Novo Testamento (Hebreus 11,32).
Conta-se que Deus terá chamado Sansão para libertar o povo de Israel que vivia dominado pelo Filisteus. Estes, que tinham um medo enorme da força do nazareno, tentavam sem sucesso prender Sansão. Os governantes filisteus, sabendo da paixão de Sansão pela finisteia Dalila, aliciaram a jovem, com 1100 moedas de prata, a descobrir a origem da força invencível de Sansão. Dalila amava Sansão, mas este amor era inferior ao que sentia pelo seu povo. Com o seu grande poder de sedução, Dalila tentou não só desvendar de Sansão o segredo da sua força, como também arranjar uma forma para que ele fosse dominado pelos finisteus.
Primeiramente, Sansão disse-lhe que ficaria vulnerável como qualquer outro homem, se o amarrassem com sete fibras novas de arco que não tivessem sido secas. Dalila atou Sansão com as sete fibras, durante o sono mas, quando os Filisteus chegaram para o levar, ele arrancou as fibras sem dificuldade. À segunda tentativa de Dalila, Sansão disse-lhe que seria, facilmente, dominado se fosse amarrado por cordas novas, mas também destas se libertou, sem custo, quando chegaram os Filisteus. A terceira versão de Sansão foi tão falsa como as duas anteriores, pois quando Dalila teceu as sete madeixas do cabelo de Sansão com uma rede e as apertou com um gancho, durante o sono de Sansão, este voltou a libertar-se facilmente. Foi então que Dalila (não se sabe através de que artes) conseguiu saber o segredo da força de Sansão. Este disse-lhe que, se os seus cabelos fossem cortados, a sua força abandoná-lo-ia e ficaria fraco como uma criança. Sansão adormeceu no colo de Dalila e esta, suavemente, cortou-lhe os caracóis dos cabelos. Acordado pela chegada dos Filisteus, Sansão acreditava ainda ter força, mas foi rapidamente dominado pelos soldados, que lhe perfuraram os olhos e o prenderam com algemas de bronze.
Sansão foi exposto e humilhado, publicamente, no caminho do templo de Dagôn, onde foi amarrado aos dois pilares que sustentavam o enorme edifício. A população juntou-se aos milhares para ver a derrota de Sansão e este, num último esforço, pediu a Deus que lhe devolvesse a força, por instantes. Foi, então, que Sansão, heroicamente, fez ruir os pilares, causando a destruição do templo e, consequentemente, a morte dos Filisteus, de Dalila e do próprio Sansão.



13/10/2011

O Morcego e a Doninha


Um dia, um Morcego caiu num buraco de uma Doninha e foi apanhado por ela. Pediu-lhe que lhe poupasse a vida, mas a Doninha recusou respondendo-lhe que não o podia fazer porque era inimiga dos pássaros.
- Mas eu não sou um pássaro, sou um rato! - argumentou o Morcego.
Ouvindo isto, a Doninha poupou-lhe a vida e deixou-o partir.
Pouco tempo depois, o Morcego voltou a cair e foi apanhado por outra Doninha. Desta vez, quando o Morcego lhe pediu que lhe poupasse a vida, a Doninha respondeu que não podia, porque detestava ratos.
- Mas eu não sou um rato, sou um pássaro! - respondeu-lhe o Morcego.
A Doninha deixou-o partir, poupando-lhe a vida.

Moral da história:
É bom sabermos adaptar-nos às circunstâncias.


Fábula de Esopo


07/10/2011

Remédio para cavalo

Em Urumqi, um taoísta vendia remédios no mercado e algumas pessoas diziam:
— Esse aí é feiticeiro. E dos grandes!
Ele tinha sido visto em um albergue e, pouco antes de dormir, abriu uma bolsa que trazia na cintura. De dentro da bolsa tirou uma menor. E nessa menor, pegou dois comprimidos de cor escura. Imediatamente duas mulheres belíssimas apareceram no quarto para dormir com ele. Elas só deixaram o quarto de madrugada.
No dia seguinte, alguém perguntou como tudo tinha acontecido. Ele fez cara de desentendido. Negou de pé junto que soubesse alguma coisa.
Eu me lembro de ter lido nos “Trabalhos Ininterruptos”, de Zhou Yuexi, uma explicação de que pessoas como esse monge taoísta são “caçadores de almas”. Como essa magia perde a eficácia se a pessoa comer carne de cavalo, e como um cavalo acabava de morrer na guarnição, enviei um ajudante com instruções secretas ao dono do albergue. Ele devia dizer ao taoísta que havia boa carne de cavalo e que ele estava convidado para comer um pouco.
O taoísta moveu a cabeça de um lado para o outro.
— Carne de cavalo? Claro que não — disse.
Isso reforçou minhas suspeitas e decidi tomar providências.
Meu colega, general Chen Tiqiao, foi contra:
— Que moças estejam com o taoísta é impossível saber, porque você não viu com seus próprios olhos. E não viu igualmente se ele come ou não carne de cavalo. Fiar-se a boatos não verificados para abrir um processo às pressas me parece perigoso. Nessa região, não se tem o direito de prender um indivíduo com base apenas na suspeita: melhor pedir a repartição competente para expulsá-lo do território e o assunto fica resolvido.
Estava pensando nos passos a dar quando o general Wen soube da história e disse:
— Querer ir a fundo nessa questão é ir longe demais. Suponhamos que por medo de castigo esse homem confesse qualquer coisa. O assunto ficaria então muito grave e seria preciso tomar outras providências.
Como não existe nenhuma prova ainda, como fazer para pôr um fim nisso? Expulsá-lo do território não resolve, por que ele vai para outro lugar, dá um golpe e declara que viveu durante muito tempo em Urumqi. Quem ficaria com a responsabilidade?
Todas as guarnições devem interrogar, investigar, examinar todos os indivíduos de comportamento suspeito. Se existem provas reais, ele será entregue à autoridade competente. Caso contrário, melhor enviá-lo ao lugar de onde ele veio, para que ele não engane o povo. Não é uma boa solução?
Nós ficamos admirados com a sabedoria dos senhores generais.



06/10/2011

Porque é que a cobra não tem patas



Então quando Adão e Eva apareceram, havia uma árvore que o fruto dela era a maçã, e a maçã nessa altura era o fruto proibido. E havia uma cobra e, nessa altura, ela tinha patas. Mas um dia, a Eva foi lá a passar por perto da árvore e a cobra estava lá e insistiu muito com a Eva para ela comer a maçã, e a Eva comeu a maçã. E depois não lhe fez mal nenhum. E depois foi lá o Adão a dizer porque é que ela tinha comido a maçã, mas ela disse que não tinha acontecido nada e para ele comer também. Depois ele comeu também e depois Deus como castigo divino tirou as patas à cobra.


Albufeira
(recolha oral)

28/09/2011

Lenda dos Estremoços




O sol, um sol quente, abrasador, caía implacável sobre o carro onde viajava um homem, uma mulher e uma criança. Este grupo vinha de longe, dos contrafortes da serra. Ódios políticos tinham atirado esta família para a estrada sem fim. O calor apertava. A sede torturava-os. O pó punha-lhes a boca gretada e a língua áspera. Precisavam descansar, fugir ao sol dessa planície imensa que ficava para além do rio Tejo.
De súbito apareceu uma sombra larga, acolhedora, como um oásis no deserto. O homem refreou o andamento dos cavalos que puxavam a carruagem. Gritou contente para a mulher:
— Olha que árvore! Que bela! Que majestosa!
A mulher concordou:
— É das mais belas que tenho visto!
Curiosa, a pequenita filha do casal perguntou logo:
— Mãezinha, como se chama esta árvore?
Foi o pai quem respondeu:
— Creio que é um tremoceiro! Não tem, aparentemente, grande importância… Mas a verdade é que oferece uma sombra bem acolhedora!
A criança olhou os pais. E arriscou:
— E se ficássemos aqui? Já estou tão cansada… e com tanto calor…
O homem sorriu:
— Tens razão, minha filha! Vamos ficar por aqui… Pelo menos estaremos ànossa vontade, livres de inimigos e de más vizinhanças… Vamos! É necessário levantarmos a nossa tenda de campanha, antes que anoiteça.
A pequenita pulou imediatamente para o solo. Na sua imaginação aquela sombra era o Paraíso…
— Eu também quero ajudar! Vai ser tão bom… Não teremos que voltar a andar de carro por estes caminhos com tanto sol e tanta poeira!...
O homem desceu também, acariciou a cabeça da filha e olhou em redor. Lentamente. Atentamente.
— Isto é grande! Mas não vejo ninguém... Tanto melhor!
E, na manhã seguinte, quando o Sol veio dar os bons dias ao tremoceiro, encontrou erguida uma barraca de campanha, como que a proclamar a independência dos foragidos naquela terra de liberdade...
Porém, uma visita inesperada surgiu também, aos primeiros clarões do Sol. Era um velho forte e autoritário, arrimado a um grosso bordão. Havia cólera na sua voz ao interpelar os recém-chegados:
— Com que direito entrastes nos meus domínios?
O outro homem sentiu-se ofendido com aquele tom e indagou com altivez:
— E quem sois vós para me fazerdes semelhante pergunta?
O velho bateu com o bordão na terra:
— Sou o dono de tudo isto... de todo este plaino... Do tremoceiro, que plantei por minhas mãos... das árvores que há em redor...
— E nós somos viandantes... ou para melhor dizer: perseguidos injustamente por delitos que não cometemos...
O velho resmungou, num ar de suspeita:
— Talvez assassinos… ou ladrões...
Desta vez, com grande espanto do próprio velho, foi a criança quem o interrompeu, numa vozita indignada:
— Senhor! Estais a insultar meus pais e eu não poderei admitir-vos...
O senhor daquela terra sorriu, irónico, mas a sua voz perdeu o tom colérico:
— O quê? A formiga já tem catarro? Era o que faltava… uma fedelha a atravessar-se no meu caminho!
O viandante curvou-se:
— É uma criança que fala pela voz da verdade! Não tendes o direito de insultar-nos!
Então, a cólera voltou a apossar-se do velho. A sua expressão tornou-se dura:
— Fora daqui! Ouvis bem? Fora daqui! Não vos quero ver mais nos meus domínios!... Saireis a bem... ou à força!
Altivo, o homem que viera de longe retorquiu:
— Pois já que nos ameaçais... dir-vos-ei que só à força sairemos... se tiverdes poder para isso!
O grosso bordão do velho bateu com mais vigor ainda na terra.
— Já que assim o quereis... assim o tereis! Os meus homens não tardarão a expulsar-vos!
E, ditas estas palavras, ele voltou costas, meteu-se na velha carroça que o esperava — e abalou...

Mas, pouco tempo depois, voltou com muitos homens armados. A família que viera de longe e acampara ali para encontrar paz e descanso recolheu apressadamente à sua carruagem. A vida estava em perigo e era necessário, mais uma vez, defendê-la.
Com voz cansada e triste, a pobre mãe murmurou numa queixa:
— Meu Deus! Porque somos tão perseguidos? Não fizemos mal algum e todos nos odeiam! Porquê, meu Deus?... Porquê?
Mas já o marido lhe recomendava, enérgico:
— Defende tu aí essa entrada... Eu ficarei aqui a aguentá-los! Não se dirá que um fidalgo como eu se rendeu pela força...
Um grito abafado veio cortar-lhe o pensamento. Ele olhou a mulher que mostrava uma expressão apavorada.
— A nossa filha?.. A nossa filha onde está, que não a vejo?
Ele inquietou-se:
— Mas... vi-a há pouco, junto de ti!
— Sim… enquanto estávamos descansando... Mas agora... Agora não sei dela!...
O homem rangeu os dentes:
— Ah, miseráveis! Se derramam uma gota de sangue que seja da minha filha, hão-de pagar-mo bem caro!

Entretanto, indiferente ao perigo, a criança tinha atravessado por entre os homens armados e avançara, devagar, como um pequeno gato, ao encontro do velho chefe. Quando este a viu perguntou, espantado:
— Tu? Aqui? Como ousaste?
A pequenina sorriu com candura:
— Com a ajuda de Deus, meu senhor... Preciso falar-vos!
— Falar comigo?
Havia desconfiança na voz do velho.
— Ah! Não será uma armadilha?
A rapariguinha abriu os olhos num espanto. Num espanto e num sorriso.
— Armadilha? Oh... Não! Não poderia fazer-vos mal... Sou tão pequena ainda...
O velho pareceu cair em si. Franziu as espessas sobrancelhas esbranquiçadas e a sua voz soou melhor aos ouvidos da menina:
— Perdoa-me! Tens razão! Portei-me agora com insensatez. Diz lá o que pretendes...
Ela mostrou-se alegre.
— Sabei, senhor… que estive a pensar numa coisa!...
— Tu... a pensar? E que foi?
— Ora... Pensei que em volta duma árvore tão bonita como aquele tremoceiro podia construir-se uma povoação também bonita e grande... capaz de causar inveja às outras povoações...
Foi a vez do velho sorrir à criança.
— Não é mal pensado! Mas como havemos de a construir?
— Com boa amizade e paz.
O velho repetiu as mesmas palavras. Pensativo. Como num eco do seu próprio pensamento.
— Com boa amizade e paz…
Então a pequenita prosseguiu com entusiasmo, vendo que a luta se mantinha suspensa, esperando ordem de ataque.
— Sabei que o meu pai é um grande construtor. A minha mãe ajuda-o em tudo… Se o senhor quisesse… eles poderiam construir aqui uma cidade, dirigindo e aproveitando o trabalho dos seus homens…
O velho olhava-a espantado. Meneava a cabeça como que duvidoso do que ouvia.
— Ora esta! Uma catraia como tu... com uma ideia tão grande! Donde te veio semelhante pensamento?
Ela sorriu, ingénua.
— Foi Deus Nosso Senhor quem mo deu!
Houve um momento de silêncio, em que o olhar do velho ficou a perder-se no vasto horizonte. Depois, tomado de súbita energia, gritou para os seus homens:
— Basta! Pensei melhor e não atacaremos… Podem retirar-se. Daqui em diante, todos seremos bons amigos e companheiros!
E nesse mesmo dia, com grande jubilo do casal foragido — que voltara a ter junto de si a filhinha adorada mas ignorava ainda tudo quanto se havia passado — o velho chefe procurou o marido e a mulher. Porém desta vez chegou sorrindo:
— Venho em missão de paz e amizade!
A mulher respondeu-lhe, já com voz serena:
— Sede bem-vindo, senhor!
Afável também, o homem que viera de longe quis demonstrar o seu desejo de confraternização.
— Tomai um pouco de sombra do tremoceiro!
O velho acrescentou intencionalmente
— Do «nosso» tremoceiro — quereis dizer!
— Como?
— De hoje em diante, o tremoceiro pertencerá a todos nós... Sei que sois um grande construtor e vós, senhora, extraordinária ajudante...
O homem interrompeu-o, perplexo:
— O quê?... Decerto estais enganado, senhor! Fui, sou e serei unicamente um fidalgo... E esta é a minha esposa, à face de Deus e dos homens!
— Mas... a vossa filha disse-me...
Houve um leve sorriso nas expressões do casal.
— Compreendo agora, senhor! A nossa filha tem uma imaginação prodigiosa e vós… acreditastes...
O velho olhou a criança. Ela encolheu-se um pouco, entre envergonhada e receosa...
— Uma fedelha destas a enganar um velho como eu! Mal posso acreditar...
Mas a sua voz tinha um tom bonacheirão. Cheirava a simpatia. E a pequena ladina pareceu ficar logo mais à vontade. Segurou carinhosamente nas mãos do velho e falou devagar, espiando as reacções dele:
— Oh, meu Senhor... eu não vos enganei... Reparai no que vos disse: Com o auxilio de todos, poderemos construir uma grande povoação à volta do tremoceiro... Pois não é verdade?
O velho voltou a sorrir.
— Tens razão... O que é preciso é haver boa amizade e paz!
E sublinhou, puxando-a para si com ternura:
— Hoje mesmo começaremos todos a construir a nossa terra!

Dentro em breve, o sonho da rapariguita começou a transformar-se em realidade. Com a ajuda de todos, trabalhando esforçadamente de sol a sol, a povoação ia criando as suas primeiras casas e a sua primeira rua.
Agora, sim, graças à esperteza e à iniciativa da filhinha, o casal foragido sentiu que conquistara de novo a felicidade.
E a estimular ainda mais os infatigáveis obreiros da nova povoação, o velho chefe voltou alvoroçado duma das suas viagens habituais.
— Escutai, amigos! Escutai! Boa nova para todos nós! El-rei D. Afonso III acedeu a dar foral à nossa terra!
Foi uma alegria. Houve abraços e beijos. Vivas e palmas. Dançou-se e cantou-se, como se todos fossem irmãos.
Depois, o velho chefe reuniu-os de novo e falou solenemente:
— Temos de dar um nome à nossa terra... Um nome bonito, sonante, que fique para a posteridade... Qual deve ser esse nome?
As opiniões começaram logo a dividir-se. Cada um dava a sua ideia. E a ideia de cada um era sempre melhor do que as ideias dos outros... Depressa se estabeleceu a barafunda, até que o velho chefe, com a sua autoridade incontestada, resolveu intervir:
— Calai-vos! Assim nada conseguiremos. A mim, parece-me que só há aqui uma pessoa capaz de nos indicar um nome bonito... Sabeis a quem me refiro, com certeza. A ela devemos a ideia feliz da fundação da nossa terra. Pois que nos dê também um nome para ela.
Todos se voltaram para a rapariguita. De acordo. Esperando. Um pouco intimidada por tão grave responsabilidade, mas sempre sorrindo, como fazia nas ocasiões de perigo, a menina avançou por entre os homens e as mulheres que a olhavam ansiosamente e falou. Falou sem tremer a voz. Falou como se estivesse a repetir uma lição já decorada:
— Bem... Se desejam que seja eu a dar o nome à nossa terra... parece-me que o melhor é pôr-lhe um nome que lembre aquela árvore a que devemos tão boa sombra... Foi a única que sempre aqui nos acompanhou, tal como o Sol e como a Lua... Eu acho portanto que a nossa terra se deve chamar Estremoços!
Houve um momento de pasmo. E de silêncio. A rapariguita falara tão bem, tão bem, que estavam todos maravilhados.
E foi afinal o velho chefe quem tomou a palavra em nome de todos:
— Muito bem!... A garota falou como uma pequena sábia... Na verdade, devemos dar à nossa terra o nome do fruto abençoado que tanto nos ajudou. Os estremoços foram o pão nosso de cada dia... Pois também nós seremos sempre leais aos bons estremoços!
E a terra ficou a chamar-se Estremoços — ou, melhor ainda, a Terra dos Estremoços, como então se designavam em linguagem popular os tremoços de hoje... E o seu brasão inicial compôs-se precisamente de um tremoceiro, tendo por cima o escudete das quinas e em redor o Sol e a Lua... a perpetuar assim pelos séculos fora as palavras daquela garota de imaginação prodigiosa que falara, de facto, como uma menina sábia...
Depois, com o correr dos tempos, tudo se foi alterando... O nome dos estremoços passou a ser apenas tremoços... E a Terra dos Estremoços (ou de Estremoços, como a designaram mais tarde), acabou por se transformar na cidade de Estremoz, que se ergue hoje, altaneira, em pleno distrito de Évora, como uma sentinela do Alentejo.


Gentil Marques
Estremoz

24/09/2011

O lobo e o grou



Vendo-se o lobo engasgado
C’um osso, e muito oprimido,
Para o tirar, aos mais brutos
Foi cometendo partido.
Persuadido o grou co’as juras,
O dilatado pescoço
Pela goela do lobo
Meteu, e tirou-lhe o osso.
Pedindo-lhe o prémio: «Ingrato –
Disse – que te hei-de pagar?
Não te basta de meus dentes
Salvo o pescoço tirar?»


Tradução de Malhão

18/09/2011

O nó da garganta

Existe na garganta uma cartilagem muito desenvolvida e que constitui o chamado nó da garganta. Este nó, segundo a lenda, apareceu no homem, exactamente no momento em que Adão comeu o fruto proibido por Deus no Paraíso terreal. Quis arrepender-se do acto de desobediência ao preceito divino, mas já tarde. Então formou-se na garganta o nó, mas já o fruto descia ao estômago.
Esta crença popular é confirmada pelo facto daquela cartilagem só aparecer na garganta do sexo forte.

Silves

17/09/2011

Por bem



Uma galinha, um pato, um cão e um burro iam a fugir por uma estrada fora. Corta-lhes a correria um polícia:
- Alto lá, seus fugitivos. Para irem com essa pressa, alguma maroteira fizeram.
Eles protestaram que não, mas o polícia, desconfiado, quis saber pormenores. Então, a galinha explicou:
- Eu ia a fugir, porque ontem ouvi que iam fazer canja, lá em casa.
Ao que o pato acrescentou:
- E depois da canja, pato com arroz...
O cão explicou:
- O meu dono ia mandar-me para o canil.
- E o meu dizia que eu estava velho e ia mandar-me abater - disse o burro.
- Mas comigo ainda podes - disse o polícia, saltando-lhe para os costados.
Presa a cada mão, trazia o pato e a galinha. Salvara-se o cão, que o polícia não teve maneira de prender.
- Toca a andar para a esquadra - comandou o polícia. - Vai tudo preso.
O burro, habituado a obedecer, obedeceu. Mas o cão, que se safara, é que não se conformou. Deu uma valente mordidela numa das patas do burro, que escoiceou. O polícia caiu ao chão e largou a galinha mais o pato.
Correram os bichos. Mal refeito da queda, o polícia não teve forças para persegui-los.
- Desculpa a dentada - disse o cão ao burro, quando se viram a salvo. - Mas foi por bem.
- Não tem importância - respondeu o burro, a mostrar os grandes dentes, num riso de felicidade. - Há coisas que ardem, mas curam.


António Torrado

O Leão, a Raposa e o Rato


Era um dia de Verão, o Sol ia alto no horizonte e o Leão dormia calmamente a sua sesta. Nisto, um Rato trepou para cima dele e desatou a correr. O Leão acordou sobressaltado e pôs-se às voltas sobre si mesmo, à procura do Rato. A Raposa, que o observava, criticou-o dizendo:
- Que grande Leão, cheio de medo de um Rato...
- Não é do Rato que tenho medo - respondeu-lhe o Leão. - Estou admirado com o seu à vontade e com a sua coragem.

Moral da história:
Nunca subestimes o valor dos outros.


Fábula de Esopo

15/09/2011

A Raposa que perdeu a cauda



Uma Raposa foi apanhada numa armadilha. Conseguiu escapar, mas ficou sem a cauda porque a armadilha a cortou.
Sentindo-se envergonhada e ridícula, pensou convencer as outras raposas a cortarem também as suas.
Reuniu um bom número de amigas e explicou-lhes que, sem cauda, não só ficariam muito mais bonitas, mas também se livrariam de um peso inútil.
Ouvindo isto, uma das raposas interrompeu-a e perguntou-lhe:
- Se não tivesses perdido a tua cauda, também nos aconselharias a cortar as nossas?

Moral da história:
Tem cuidado com quem te dá conselhos tendo em vista os seus próprios interesses.


Fábula de Esopo

13/09/2011

O Urso e os dois viajantes



Certo dia, dois homens viajavam juntos quando um Urso se atravessou no seu caminho. Um deles subiu a uma árvore e escondeu-se nos seus ramos. O outro, percebendo que ia ser atacado a qualquer momento, deitou-se no chão.
Quando o Urso o começou a cheirar, o homem susteve a respiração fingindo-se morto. Ao fim de algum tempo, o Urso foi-se embora.
Certificando-se que o Urso não voltava, o outro viajante desceu da árvore e, com ar brincalhão, perguntou ao amigo:
- Afinal o que é que o Urso te segredou ao ouvido?
- Deu-me este conselho: «Nunca viajes com um companheiro que te abandone perante o perigo» - respondeu-lhe o amigo.

Moral da história:
Os amigos conhecem-se nos momentos difíceis.


Fábula de Esopo


12/09/2011

A Leoa e a Raposa




A leoa, reprovada pela raposa por ter um só filhote ao invés de muitos, respondeu:
- Sim, mas um leão.

Moral da Estória:
A fábula mostra que a excelência não está na quantidade, mas na qualidade.


Fábulas de Esopo
(Século VI a.c.)

A Formiga


Diz uma lenda que a formiga atual era em outros tempos um homem que, consagrado aos trabalhos de agricultura, não se contentava com o produto de seu próprio esforço, senão que olhava com inveja o produto alheio e roubava os frutos de seus vizinhos.
Indignado Zeus pela avareza deste homem, transformou-o em formiga.
Porém ainda que tenha mudado de forma, não mudou seu caráter, pois até hoje percorre os campos e recolhe o trigo e a cevada alheios e os guarda para seu uso.

Moral da Estória:
Ainda que aos malvados se lhes castigue severamente, dificilmente mudarão sua natureza.


Fábulas de Esopo
(Século VI a.c.)