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16/11/2010

Chuva de algures



Estava a cair uma chuvinha cor-de-rosa, mas persistente.
Isto passa-se num planeta algures - parece que se chama mesmo Algures - lá para os fundos do universo.
Aqui (ou ali?) só vivem sapos e rãs, únicos seres vivos do planeta, onde chove continuamente e sempre às cores. Tanto pode a chuva ser verde-alface como violeta-desmaiado ou azul-marinho ou amarelo dourado. É um planeta muito colorido e festivo e, já se vê, sempre alagado.
Os sapos e as rãs não querem outra coisa, embora lhes seja indiferente a cor da chuva, desde que molhe. Os sapos e as rãs são bichos de gostos pouco requintados.
Pois, como ia dizendo, estava a cair uma chuvinha cor-de-rosa quando, sem quê nem porquê, parou de chover. Escorregou a última gota rosada de chuva sobre a pele esverdeada acastanhada do sapo, que elegemos como herói da nossa história, e o chuveiro emperrou.
O sapo Tubi interrogou com inquietação o céu, que se manteve cinzento e impassível. Nunca tal tinha acontecido.
Podia a época ser de aguaceiros, mas contínuos, sem descanso. Agora, um intervalo na chuva, por mínimo que fosse, era inconcebível.
Saltando e chapinhando de poça em poça, as rãs e os sapos reuniram-se para analisar em conjunto o estranho fenómeno.
- Sinto a pele cada vez mais seca - queixava-se uma rã mais alarmista.
- Por este andar vamos nadar em seco - queixava-se outra rã não menos alarmista.
Tudo um exagero. O planeta Algures, somados os rios, lagos e charcos, tinha água de reserva para muitas e muitas gerações. Mas a inesperada ausência de chuva não deixava de causar inquietação.
No meio da coaxante assembleia, o sapo Tubi acusou-se:
- Fui eu o culpado.
Houve um grande espanto e um grande silêncio, que o sapo Tubi aproveitou para prosseguir a sua confissão pública:
- Se eu não tivesse dito: ?Estou farto desta maldita chuva às cores" nada disto tinha acontecido.
Protestaram sapos e rãs:
- A chuva não anda ao nosso mando. Chove azul, amarelo, verde e encarnado, há que séculos, porque sim. Ninguém manda nas nuvens. Elas é que, azuladas, amareladas, esverdeadas ou encarniçadas, acumulam e carregam a água que desaba sobre a nossa terra. Um insignificante pensamento de um sapo não as faz mudar de prática. Isso não entra na cabeça de ninguém.
Mas o sapo Tubi não saía da sua:
- Eu disse em voz alta, muito alta. As nuvens melindraram-se, ressentiram-se.
Fosse do que fosse, não havia meio de a chuva voltar ao planeta Algures. O caso estava complicado. Podia até imaginar-se que, ao fim de muitas gerações, a persistência da seca acabasse com a vida no planeta. As perspectivas de futuro, a longo prazo, eram calamitosas.
As rãs já não saltavam com o mesmo vigor nem os sapos coaxavam o seu grunhido de uma única sílaba ?Cró! Cró!", noite fora. Andavam todos muito desalentados.
Até que o Tubi, fixando tristemente o céu cinzento, se saiu com esta:
- Quem dera que chovesse, nem que fosse sem cores.
De imediato, uma gota de água transparente caiu no focinho do sapo. Ele lançou a serpentina da língua cá para fora e provou-a. Não sabia a nada, mas era gostosa. Água pura.
Depois da primeira gota, muitas outras se lhe seguiram. Voltava a chover no planeta Algures e logo da primeira vez, depois da seca, a abada era de respeito. As cores variadas da chuva de outrora é que não voltaram mais.
Quando os sapos e as rãs contam esta história ou lenda aos filhos eles riem-se. O riso estica-lhes a pele húmida e luzidia, que ao sol ganha a reverberação das cores do arco-íris. Recordações, talvez, do tempo em que a chuva era às cores.

António Torrado